30/06/09

Metamorfoses XLIX

Tristan Murail – Le Lac pour ensemble

o medo avança entre cartas trocadas
e um desejo de consolo a abrir o coração
não vale a pena deitar a mão ao gargalo
há muito que o álcool se evaporou
deixando um odor a madeira velha
no abismo grudado ao fundo da garrafa

um itinerário livre nas águas
o remo preso na ânsia da mão
assim vai o remador na senda da tarde
e tacteia os céus com olhos fechados
para não ver a melancolia do azul
ou o vazio onde floresce o pavor

não há astúcia que pare o bater do coração
nem nuvem que sombreie o sol
apenas se ouve o latejar dos remos
e o desconcerto da ave que grita
como se o peito fosse seca argila
e o ar pedra que no céu a vai matar

A coisa começa a manifestar-se

Se o leitor for paciente e demorar algum tempo a olhar as imagens que a televisão transmite sobre o PSD, descobrirá que o mal já se move por lá. Não atente a Manuela Ferreira Leite, passe antes os olhos pela envolvência. Toda a pesporrência socrática, toda a arrogância que tomou conta da governação socialista, aflora agora nas hostes laranja, porventura ainda mais enfatuada. Ainda não é óbvia. É mais a forma como se olha, alguns gestos não controlados, o tom de voz que começa tornar-se imperativo, as certezas que parecem aflorar naqueles cérebros, tudo indicadores do que vem aí, se o PSD formar governo. Ainda não conhecemos o programa eleitoral, mas o estilo está completamente definido. Se a hora chegar, serão exactamente iguais aos socialistas. Não sei como é nos outros países democráticos, mas em Portugal as elites políticas não se sentem nem se pensam como servidoras do povo. O poder é o lugar de uma estranha exibição do ego, o exercício de vaidades incomensuráveis, o palco para a manifestação universal das suas pequenas pessoas. Saberá essa gente que ministro vem do latim ministru, que significa servidor? Saberá essa gente que primeiro-ministro é apenas o primeiro-servidor? Em Portugal, o poder é o lugar onde gente absolutamente indiferenciada pensa que pode tornar-se diferenciada. Em Portugal, com honrosa excepções, o poder é o lugar do parvenu. E o que é um parvenu com poder?

Le Sacre Du Printemps by Pina Bausch Wuppertal Dance Theater

Pina Bausch morreu hoje, tinha 68 anos.

O caso Elisa

A candidatura de Elisa Ferreira à câmara do Porto é um símbolo daquilo que é hoje o Partido Socialista. O Porto é a segunda cidade do país, e uma candidatura à sua câmara implica que o candidato assuma de alma e coração, sem reservas mentais, a entrega a essa candidatura. No momento em que Elisa Ferreira aceita ser também candidata ao parlamento europeu o seu destino no Porto ficou praticamente traçado. Os portuenses parecem não estar interessados em quem procura um lugar de destaque político a qualquer preço. Nem a subtil sugestão de aproximação ao FCP os comove. O Partido Socialista é cada vez mais visto como uma agência de empregos políticos, um partido sem alma, sem princípios, um partido preso à voragem do poder a todo o custo. No Porto, as sondagens são letais para o PS. O que irá acontecer em Lisboa? Será que o Partido Socialista vai ter a capacidade de transformar o dr. Santana Lopes num génio da política e num mago da gestão autárquica?

O princípio do ressentimento

Graças ao Zé Ricardo cheguei a esta notícia. Quando era novo, devo ter defendido coisas deste género ou piores. Hoje, porém, estes ajustes de contas com o passado e os mortos cheiram-me mal, por muito putrefactos que já fossem os mortos ainda em vida. Depois de Ferrol, terra de nascimento de Francisco Franco, agora é Madrid que retira os títulos honoríficos outorgados ao ditador. Neste acto há poucas coisas ou nenhumas que mereçam louvor. O ditador está morto e não se pode defender. A virtude da coragem está fora desta acção. Mas será uma acção justa? Aparentemente seria, mas nunca será capaz de apagar a mancha de ser uma acção ditada pelo vencedor do momento. Deste ponto de vista, a proposta da Esquerda Unida é idêntica àquela que, nos tempos do franquismo, atribuiu os títulos a Franco. O pior de tudo, porém, é que estas acções são o fruto do ressentimento contra o passado. A Espanha teve uma história e ela foi o que foi. Apagá-la simbolicamente, como nós o fizemos com o dr. Salazar, ainda é uma forma de derrota e de submissão ao espírito do vencedores de então. Se um povo é autenticamente livre não precisa de apagar o passado, nem de "des"-crever aquilo que a história, para o bem e para o mal, escreveu. De certa forma, este acto é uma pequena vitória do velho ditador, que se tornou agora "vítima" dos re-escritores da história. O ressentimento nunca é um bom conselheiro.

Leo Strauss - Cultura e civilização

Aliás, a palavra cultura deixa na indeterminação qual a coisa que se deve cultivar (o sangue e a terra ou o espírito), enquanto o termo civilização designa imediatamente o processo que visa a fazer do homem um cidadão e não um escravo, um homem das cidades e não um rústico, um amante da paz e não da guerra, um ser civilizado e não um vadio. Uma comunidade tribal pode muito bem ter uma cultura, isto é, produzir hinos, cânticos, ornamentos para o seu vestuário e para as suas armas, olaria, danças, e fruir de tudo isso. Não poderá, todavia, ser civilizada. Interrogo-me se o facto do homem ocidental ter perdido muito do seu orgulho anterior, o orgulho tranquilo e apropriado de ser civilizado, não é um fundamento da actual ausência de resistência ao niilismo (Leo Strauss, Sur le nihilisme allemand).
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A conferência Sur le nihilisme allemand foi pronunciada em 1941. Strauss encontrava-se já nos EUA e assistia de longe ao domínio do nazismo sobre a sua pátria. A conferência é uma análise do niilismo alemão que de certa forma está na origem do fenómeno nazi. O que me interessa, porém, sublinhar é a velha distinção entre cultura e civilização e perguntar se, nas actuais sociedades, não estamos a assistir a uma regressão da civilização em detrimento da cultura. O multiculturalismo tem sido usado como arma de arremesso para fazer recuar os processos civilizacionais, entendidos estes à luz das palavras de Leo Strauss: tornar o homem num cidadão e não num escravo. Perceber isso, por seu turno, exige interrogar a conexão entre as sociedades liberais e o niilismo, o que implica ainda uma outra interrogação: o que torna o conceito de cidadão, nas sociedades actuais, tão frágil e permeável ao não civilizado, ao não cívico? Será o seu carácter, nas sociedades modernas, puramente formal? Será a sua conexão com uma organização política, o Estado-Nação, que se encontra sob fogo de estruturas políticas infra-estaduais (as regiões e os municípios) e supra-estaduais (a União Europeia, por exemplo)? Será a própria natureza ontológica do cidadão, o que implica a investigação daquilo que faz com que um cidadão seja um cidadão, isto é, a sua essência? Seja qual for a questão que se coloque como determinante daquilo que dá que pensar, o texto de Strauss abre para uma reflexão sobre a conexão entre cidadania e niilismo, desviando este último conceito da área ética e da filosofia da cultura, para o introduzir na reflexão sobre o político.

29/06/09

Metamorfoses XLVIII

Igor Stravinsky – The Rite of Spring

estes estranhos animais cujo nome se apagou
correm desfigurados pela luz da floresta
trazem mãos de água e deslizam pela sombra
ao tocar no musgo que de verde cobre o chão

tocam tambores na casa dos guardas
anunciam o frémito por dentro do sangue
traçam ondas de cal no interior das grutas
onde dormem homens perdidos no tempo

insectos acordam de um longo sono
e chupam o sangue de vítimas servis
são uma labareda de cinza no horizonte
e cantam ao zumbir das pequenas asas

ergue-se inteira uma paisagem de papel
e nela componho a floresta de seda
homens e animais bebidos pelo esquecimento
a premeditação de um longo homicídio

e tudo se perde na férvida escuridão
um paraíso de tílias a perfeição dos plátanos
talvez as tuas palavras trémulas
se me olhas com a primavera na mão

O exemplo Madoff

O senhor Bernard Madoff montou um esquema fraudulento que defraudou, durante anos e anos, muita gente em muitos milhões de dólares. Descoberta a trapaça há meses, este poderoso financeiro foi preso, julgado e hoje conheceu a sentença. O juiz aplicou-lhe uma pena de 150 anos. O que impressiona, porém, é menos a dureza da pena do que a rapidez da justiça. De notar também o facto da condição social do réu não ter contado para a decisão do juiz.

Tudo isto é, para o português comum, algo que não pertence ao seu mundo. Seja como for, o exemplo Madoff abre um outro horizonte aos portugueses. Como irá funcionar a justiça portuguesa nos casos de escândalos financeiros domésticos? Por quanto tempo se irão arrastar os processos? Que papel terá a condição social dos eventuais réus? O caso Madoff constitui-se agora como um padrão segundo o qual o poder judicial português, e por contaminação o próprio poder político, vai ser julgado. É possível que gente importante em Portugal não tenha o destino (a condenação) de Madoff, mas a justiça portuguesa será severamente julgada pela opinião pública.

Slavoj Zizek - Irão em decomposição

Quando um regime autoritário se aproxima de sua crise final, sua dissolução, via de regra, se dá em dois passos. Antes de seu desabamento de fato, ocorre uma ruptura misteriosa: de repente, as pessoas sabem que o jogo já chegou ao fim e simplesmente deixam de sentir medo. Não é apenas que o regime perde sua legitimidade, mas seu próprio exercício do poder é visto como reacção importante de pânico.

Em "Shah of Shahs" [Xá dos Xás], um relato clássico da revolução de Khomeini, Ryszard Kapuscinski localizou o momento preciso dessa ruptura: numa encruzilhada em Teerã, um manifestante isolado se negou a sair do lugar quando um policial lhe ordenou aos gritos que saísse. O policial, constrangido, simplesmente se afastou. Em poucas horas, Teerã inteira já sabia do incidente, e, embora os enfrentamentos nas ruas tenham continuado por semanas, todo mundo já sabia que a partida chegara ao fim. Estará algo semelhante acontecendo agora?

Fatos e versões

Há muitas versões sobre os acontecimentos em Teerã. Alguns enxergam nos protestos a culminação do "movimento reformista" pró-ocidental, na linha das revoluções "cor de laranja" na Ucrânia, na Geórgia etc. -ou seja, uma reacção secular à revolução de Khomeini. Eles apoiam os protestos, que vêem como o primeiro passo em direcção a um novo Irã liberal-democrático, liberto do fundamentalismo muçulmano.

Contra eles se erguem os cépticos que pensam que Ahmadinejad venceu de fato: ele seria a voz da maioria, enquanto o apoio ao candidato reformista derrotado Mir Hossein Mousavi viria sobretudo da classe média e de sua juventude dourada. E há os que vêem em Mousavi nada mais do que um membro do establishment dos clérigos, cujas diferenças com Ahmadinejad são apenas superficiais: Mousavi também quer levar adiante o programa de energia atómica, é contra o reconhecimento de Israel e teve o pleno apoio de Khomeini quando foi primeiro-ministro nos anos da guerra contra o Iraque.

Finalmente, os mais lamentáveis de todos são os defensores esquerdistas de Ahmadinejad: para eles, o que realmente está em jogo é a independência iraniana. Ahmadinejad teria vencido porque defendeu a independência do país, expôs a corrupção das elites e usou a riqueza petrolífera para incrementar a renda da maioria pobre.

Essa visão ignora os fatos, a saber: o alto índice de participação na eleição, que dos 55% de praxe subiu para 85%, só pode ser explicado como um voto de protesto. E também manifesta uma cegueira em relação a uma demonstração genuína de vontade popular, ao pressupor, de maneira paternalista, que Ahmadinejad é o presidente que convém aos atrasados iranianos, que ainda não teriam maturidade suficiente para serem governados por uma esquerda secular.

Por mais que se oponham, todas essas versões interpretam os protestos iranianos segundo o eixo de linha-dura islâmica versus reformistas liberais pró-ocidentais. E é por isso que elas têm tanta dificuldade em situar Mousavi: ele seria um reformista que tem o apoio do Ocidente e procura mais liberdade pessoal e economia de mercado ou é um membro do establishment clerical cuja eventual vitória não afectaria seriamente a natureza do regime?

Tais oscilações extremas revelam que todas essas versões deixam de captar a verdadeira natureza dos protestos. A cor verde adoptada pelos partidários de Mousavi, os gritos de "Allahu Akbar!" que ressoam dos telhados de Teerã no escuro da noite indicam claramente que os manifestantes enxergam sua actividade como repetição da revolução de 1979 de Khomeini, como um retorno às raízes dela, desfazendo sua corrupção posterior.

Esse retorno às raízes não é apenas programático; ele diz respeito, mais ainda, ao modo de actividade das multidões: a enfática união das pessoas, sua solidariedade abrangente, a auto-organização criativa, a improvisação de maneiras de articular o protesto, o misto singular de espontaneidade e disciplina, como a marcha lúgubre de milhares de pessoas em silêncio total. Estamos diante de um levante popular genuíno dos partidários iludidos da revolução de Khomeini.

Não herói, mas corrupto

Há duas consequências cruciais. Para começar, Ahmadinejad não é o herói dos pobres islâmicos, mas, sim, um legítimo populista islamo-fascista corrompido. Sua demagógica distribuição de migalhas aos pobres não nos deve enganar: por trás dele estão não apenas órgãos de repressão policial e um aparato de relações públicas muito ocidentalizado, mas também uma nova e forte classe rica, fruto da corrupção do regime.

Em segundo lugar, devemos traçar uma diferença nítida entre os dois principais candidatos opostos a Ahmadinejad, Mehdi Karoubi e Mousavi. Karoubi é de facto um reformista, alguém que propõe basicamente a versão iraniana de política de identidade, prometendo favores a todos os grupos distintos. Mousavi é inteiramente diferente: seu nome representa o genuíno renascimento do sonho popular que fundamentou a revolução de Khomeini. Mesmo que esse sonho tenha sido uma utopia, devemos reconhecer nele a genuína utopia da própria revolução.

O que isso quer dizer é que a revolução de Khomeini de 1979 não pode ser reduzida a uma tomada do poder pela linha-dura islâmica -ela foi muito mais que isso. Agora é o momento de recordarmos a incrível efervescência do primeiro ano após a revolução, com a explosão estarrecedora de criatividade política e social, experimentos organizacionais e debates entre estudantes e cidadãos comuns.

E em último lugar, mas não menos importante, o que isso significa é que existe no islã um potencial libertador genuíno.

Emancipação

O futuro é incerto. Mas, seja qual for o resultado, é muito importante guardarmos em mente que estamos assistindo a um grande acontecimento de emancipação que não se enquadra no contexto da luta entre progressistas pró-ocidentais e fundamentalistas antiocidentais.

Se nosso pragmatismo cínico nos fizer perder a capacidade de reconhecer essa dimensão emancipacionista, então nós, no Ocidente, estaremos de fato ingressando numa era pós-democrática e nos preparando para os nossos próprios Ahmadinejads. [Folha de São Paulo (sem link), 28 de Junho de 2009, Tradução de Clara Allain.]

O que se passa no Irão?

Para perceber o que se está a passar no Irão e o papel deste homem, o ayatollah Rafsanjani, ler o trabalho de Margarida Santos Lopes, no Público. Mais logo, reproduzirei aqui um interessante artigo do filósofo Slavoj Zizek sobre o Irão em decomposição.

Um problema com a transparência

O Partido Socialista tem um problema com a transparência. Por exemplo, eu sei que o concurso que existia ao nível da colocação de professores não era grande coisa, mas tinha a virtude de ser transparente. As regras eram claras e não estavam submetidas ao arbítrio de ninguém. Esse concurso foi destruído e abriu-se as portas para, mais dia menos dia, as colocações de professores serem feitas por ajuste directo pelos directores das escolas (agora, personagens de poder quase incontrolado) ou pelas autarquias. O leitor sabe o que isso significa. Sabe perfeitamente como se fabricam critérios para que alguém com menos habilitações ou qualificações possa ultrapassar quem estiver melhor colocado, mas que não conhece ninguém ou que é indesejado pessoal ou politicamente. Este é um exemplo de uma deliberada atitude do Partido Socialista para acabar com a transparência onde ela ainda subsistia.

O exemplo mais interessante, porém, é este. O portal (uma das coisa que o socratismo tanto gosta) para a transparência nas obras públicas foi adjudicado sem concurso público, por ajuste directo. Há uma coisa que me espanta neste governo, governo tão bem acolitado por gente vinda do ISCTE. Ainda não explicaram ao engenheiro Sócrates que a modernidade não é propriamente ter muitas engenhocas, mas uma atitude que implica a universalidade e a real transparência dos negócios públicos e privados? O que descobrimos é que o Partido Socialista não passa de uma organização pré-moderna fascinada com gadgets. Uma tristeza.

Ciência e Política (Léo Strauss)

Para detalhar um pouco mais, é verdade que o ensinamento de Platão a propósito da tirania é indispensável à compreensão do “totalitarismo” de hoje, mas desconhecer-se-ia este fenómeno contemporâneo se se o identificasse pura e simplesmente à tirania do passado. Basta notar que o “totalitarismo” de hoje é essencialmente fundado sobre as “ideologias”, e em última análise sobre uma ciência vulgarizada ou desviada, enquanto que o fenómeno antigo não repousava sobre tal fundamento (Léo Strauss, Sur une nouvelle interprétation de la philosophie politique de Platon).

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Strauss escreve este texto em 1946, um tempo onde o fenómeno totalitário está especialmente vivo. Nas décadas seguintes desenvolveu-se todo um pensamento de oposição entre democracia e totalitarismo. O apogeu prático-político dessa reflexão teórica é a derrota do campo comunista, simbolizada na queda do Muro de Berlim. Mas, a partir daí, a democracia política parece definhar por falta de substância. Com isto quero dizer: deixou de haver alternativas verdadeiras, e com possibilidade de ascender ao poder, em confronto. Mais, os fenómenos que estavam ligados ao totalitarismo aparecem também ligados às chamadas práticas democráticas. Apesar da proclamação da morte das ideologias, da morte das grandes narrativas, a verdade é que as governações não dispensam as narrativas ideológicas, apresentem-se estas na forma mínima ou na forma de grande narrativa. Por outro lado, o papel da ciência vulgarizada e desviada tem, como aconteceu nos regimes totalitários, um papel estruturante da acção política. Não são apenas as ciências empírico-analíticas, as ciências da natureza, que são mobilizadas enquanto tecnociência para prover a dominação sobre a natureza, mas também as chamadas ciências histórico-hermenêuticas, as ciências sociais e humanas, que são cada vez mais utilizadas para um exercício refinado de dominação sobre a comunidade e os cidadãos. Desde a ciência política à sociologia, passando pela psicologia, a antropologia, a economia, o poder tem tido a capacidade de produzir narrativas ideológicas, por vezes narrativas mínimas, outras grandes narrativas, a partir dos conhecimentos que estas ciências vão produzindo.

Se podemos pensar que nos encontramos numa fase de perversão do ideal democrático, que a democracia apresenta cada vez mais sintomas inerentes aos regimes totalitários, podemos dizer que será importante conhecer o que os clássicos, Platão e Aristóteles, pensaram dos regimes políticos, nomeadamente da democracia e da tirania. Mas isso não bastará. Será necessário confrontar o ideal regulador moderno da democracia representativa com o actual exercício do poder nas democracias ocidentais. Será preciso observar o papel que nelas continua a ter a ciência vulgarizada e transformada em ideologia. Uma atenção muito importante merece o papel desempenhado pela ideologização das ciências sociais e humanas. O que implicará também, para além da reflexão política propriamente dita, uma investigação dos fundamentos destas ciências, para compreender como elas permitem com tanta facilidade a transformação do seu discurso no discurso de uma seita em luta pela manutenção ou conquista do poder.

Manuela Ferreira Leite - dois equívocos

O entusiasmo é mau conselheiro e Manuela Ferreira Leite anda entusiasmada, assim como as hostes laranja que já sonham com o retorno ao poder. O entusiasmo cega e tapa a realidade. Para que país está a falar Manuela Ferreira Leite quando propõe o Estado mínimo? É verdade que existem para aí umas duas dúzias de liberais, provavelmente dependentes do Estado, que acharão graça à ideia. Mas num país com um tecido social tão frágil, falar de Estado mínimo não me parece lá muito boa ideia. Em segundo lugar, gostaria de saber quem são os spin doctors que a aconselham. Num país como o nosso, vir falar em rasgar as políticas anteriores, por mais que isso seja verdade - e não é - é um acto suicida. Os portugueses gostam de políticos cordatos, embora com autoridade, e de brandos costumes. Quem promete a revolução acaba na oposição.

28/06/09

Metamorfoses XLVII

Arnold Schoenberg – Verklaerte Nacht

esqueci nesta noite as palavras de amor
sobram-me vocábulos dispersos
metáforas ditas ao acaso
um céu de mogno sem estrelas

por vezes vejo cruzes desenhadas nas folhas
as árvores ressequidas pelo sol de verão
agora batidas pela estridente nortada
e do mar vêm salpicos de espuma
as ondas quebradas contra a areia
o grito das gaivotas a troar pelas ruas

a inóspita mão acaricia o ar
lança a garra contra o cortina da noite
e desenha palavras enquanto folheia um a um
os livros secos que se desprendem
das árvores sufocadas pelo mar

não encontro na pálida secura das folhas
a palavra aquela que tinha para dizer
se as trevas do dia não tivessem levado
para a pátria do esquecimento
as promessas de amor – todas as que fizera

Pobretes mas alegretes


A notícia do Público começa assim: Pobres, desmobilizados mas, apesar disso, felizes. E um pouco depois lê-se: "O índice resultante do inquérito diz que 35 por cento dos portugueses têm uma privação alta ou média. Mais de metade (57 por cento) tem um orçamento familiar abaixo dos 900 euros."

Como se vê, o salazarismo está entranhado em nós. Melhor, o salazarismo era o resultado daquilo que já estava entranhado no corpo social. Toda a retórica da ditadura girava em torno da máxima "pobres, mas honrados". Hoje talvez já não sejamos tão honrados, ou antes, a honra deixou de ser um valor central na tábua de valoração dos povos ocidentais, foi substituída pela felicidade. Nós adaptámo-nos a essa revolução de valores. Éramos pobres, mas honrados. Agora somos pobres, mas felizes.

Em tudo isto há uma imensa sabedoria dos portugueses. Intrínseca e secretamente sabemos que vivemos numa sociedade pequena, provinciana, pacóvia, uma sociedade de poucas oportunidades. Sabemos também que sempre existiu uma casta que dominou e distribuiu o poder conforme as suas conveniências. Sabemos mais coisas ainda. Sabemos que é muito perigoso, em Portugal, ser inteligente, pensar, ter espírito crítico. Fazer coisas novas e interessantes é praticamente impossível. Esses devaneios pagam-se muito caro. Sabemos que não há lugar onde os medíocres não dominem. Sabemos também que eles não perdoam a quem não é medíocre. Portanto, não vale a pena estarmos mobilizados seja para o que for. Não fazer ondas ou ter um low profile, para parecer moderno, são as nossas máximas de acção. A honra ou a felicidade são apenas o corolário de um teorema existencial, cujas premissas são as relações sociais, e a conclusão é a pobreza.

Democracias

Manuel Zelaya, Presidente das Honduras

Segundo consta, este senhor não gosta da democracia representativa e estava a preparar-se, contra a lei e o parecer das instituições, para a substituir por uma democracia participativa, seja lá isso o que for. Para tal tinha marcado uma consulta popular para hoje. Segundo a AFP, os "poderes Legislativo e Judiciário do país consideram ilegal a realização da consulta popular e haviam pedido aos militares do país para que desobedecessem às ordens do Executivo". Os militares não se fizeram rogados e detiveram o Presidente. Para completar a história, Hugo Chávez ameaça intervir para pôr fim ao que ele chama de golpe de Estado.

Chávez é uma espécie de doença que mina a América Latina, fundamentalmente a de expressão castelhana. Depois de décadas de terríveis ditadores de direita, estamos a assistir aos desmandos dos populismos de esquerda. Percebe-se que esses populismos têm uma ampla base social, mas também se percebe que, caso não haja muito petróleo para vender, o destino desses povos vai ser o mesmo de sempre, a pobreza. Se a obra dos portugueses, o Brasil, é o que é, o que dizer da obra colonial de nuestros hermanos?

Mau tempo



Acordei já tarde. À espera tinha, porém, uma manhã tempestuosa. Relâmpagos, trovões e chuva, chuva que parece não acabar mais. Ao contrário de Noé, não fui avisado por ninguém. Querem prova maior de que não somos todos iguais? Talvez também não seja precisa a arca.

27/06/09

Metamorfoses XLVI

Giacinto Scelsi – Hymnos

tinha as vazias mãos suspensas
e cantava voz dorida e rouca um salmo
a fé perdera-se às primeiras metáforas
e durante muito tempo baixara a cabeça

a vergonha uma flor imperiosa
desenhara na fronte uma cruz de saliva
e sob o seu peso a cabeça pendia
cobrindo o leve estertor do peito

que destino poderia dar às frases
que da garganta irrompiam
traçavam nos lábios um relâmpago
e estrondeavam pelas ruas desertas

encolhia os ombros sem desejo de saber
e à memória chegavam tormentos passados
o granizo contra a janela
a noite desfeita pelo uivo da madrugada

então cantava no desconsolo do rio
ou no incêndio que consome a vida
desfaz em cinza a candeia da carne
e purifica cada palavra que da boca cai

Prémio Lemniscata



Pronto! Foi-me atribuído um prémio, ou uma nomeação, ou sei lá o quê. O Prémio Lemniscata, seja lá isso o que for. Estava uma pessoa muito descansada e zás. Vai ao Ponteiro Parados, como é hábito, e encontra lá isto, por excesso de amabilidade da Ivone. Nestas coisas há sempre o outro lado. No caso do averomundo, o outro lado é a tentação quase diária, de há uns meses para cá, para pôr cobro à experiência. Mas lá vou andando, post aqui, post ali. Mas o outro lado tem sempre um direito e um avesso. O avesso deste outro lado é ter de atribuir, para que a corrente continue, umas nomeações. Julgo que são seis, o que para mim são demais, a fazer fé no que tenho visto por outros lados.

Por mim, fazia apenas duas nomeações. São aquilo que eu chamo os blogues PP.

Ponteiros Parados - isto não se trata da economia do dom, logo não é retribuição de dádiva anterior. Gosto das reflexões do Zé - menos as que se referem à questão religiosa, mas isso deve-se ao "defeito genético" de que ele sofre e que lhe enviesa o raciocínio sobre o fenómeno - e das suas excelentes fotografias. Gosto e muito do tom pesporrente de muitos dos postais da Ivone. Tenho inveja de não ser eu a escrever aquelas coisas.

Portugal dos Pequeninos - João Gonçalves tem a melhor escrita sobre política na blogosfera e apenas comparável à de Vasco Pulido Valente, na imprensa. Tem uma retórica excelente e, apesar de não partilhar com ele a sua admiração pelo dr. Salazar nem o desvelo pelo PSD, sinto que tem uma noção de comunidade e de bem público que me é próxima.

Blasfémias - raramente concordo com o que se escreve lá, mas gosto do espírito da coisa, e, por vezes, não muitas, até faço lá uns comentários ou "pego-me" com João Miranda.

Combustões - outro blogue muito bem escrito, politicamente conservador, mas que evidencia também um espírito de comunidade que é próximo do meu. E aprendo muito por lá, fundamentalmente sobre o Oriente.

Bicho Carpinteiro - os pequenos e sibilinos comentários de Medeiros Ferreira são pérolas do comentário político que não perco. Sem o espalhafato do Prof. Marcelo, Medeiros Ferreira é um maquiavélico praticante. De alto coturno. Já acho dispensável os postais de Joana Amaral Dias, uma pesporrência que não admiro. Nem todas as pesporrências são iguais.

De Rerum Natura - indispensável blogue sobre ciência. Genericamente gosto do que lá se escreve, incluindo os postais da pedagoga de serviço, Helena Damião. O destaque, porém, vai para Carlos Fiolhais. Dispensável era o filósofo de serviço. Com tantas coisas interessantes que a filosofia tem para dizer, mesmo sobre a ciência, e logo haveria de calhar um analítico.

Eis a minha selecção. Deve haver coisas melhores, mas não tenho tempo. Há outras para as quais tenho tempo, mas seis são seis e não mais de seis.

Um outro cristianismo

O GRANDE SILÊNCIO (Die Große Stille) de Philip Grönning (2005)

Há, contudo, no marxismo um falso misticismo e uma falsa religiosidade suficientes para seduzir aqueles que sentem fome de algum substituto da religião espiritual. Não há dúvida que a exigência de “fé” e de auto-sacrifício feita pelo marxismo é uma realidade humana muito mais sólida do que a irresponsável pseudo-cristandade que ainda floresce em certas sociedades devotadas inteiramente aos valores seculares. Mas há algum perigo espiritual no marxismo e na pseudo-contemplação que a sua visão do mundo implica. Este perigo resido no apelo cripto-religioso que ele oferece àqueles que não têm estômago para as formas vazias da religião popular, na qual o conceito “deus” morreu de exaustão. [Thomas Merton, The Inner Experience]

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Este texto de Merton é interessante não apenas por mostrar a estrutura cripto-religiosa do marxismo militante, mas pela crítica que faz às formas vazias de um cristianismo ora perdido nos valores seculares, ora preso na religiosidade popular. Mas abre também a porta para se pensar como uma outra forma de entendimento do religioso pode ter sentido nas sociedades modernas. A religião deverá ser menos código moral e mais experiência espiritual. Se o cristianismo ainda puder falar aos sectores mais diferenciados do Ocidente, será pela vertente da experiência espiritual e não da codificação dos comportamentos. Será um cristianismo mais próximo do originário e menos um cristianismo medieval ou da Contra-Reforma. Mas este será sempre um cristianismo dirigido a uma elite espiritual. Como poderá o Cristianismo falar para a massa que perdeu, em primeiro lugar, para o marxismo e, depois, para o consumo e a ideologia niilista que impregna os mass media?

A estratégia de Cavaco


Cavaco Silva continua um político refinado e sabe muito bem as linhas com que se cose. Não dá passos em falso nem tiros para o ar. Podemos não simpatizar com o estilo, e eu não simpatizo, mas há que reconhecer que sabe bem para onde quer ir e como quer ir. Foi eficaz no que disse sobre o negócio da PT e da TVI. Não se perdeu com a data da marcação das eleições. Era público e notório que toda a sua inclinação o levava a marcar as eleições para o mesmo dia das autárquicas. Mas contrariando as pretensões do PSD, o único partido com posição idêntica à sua, marcou-as para 27 de Setembro. O PS não poderia mover-lhe grande guerra caso seguisse as pretensões do PSD, mas nem um pequeno conflito inútil o Presidente quis armar com a data das eleições. O tecido que ele está, desde muito antes de ser eleito, a tecer vai-se compondo. Cavaco sempre ambicionou mandar no país sem ter que aturar os desvarios da máquina do PSD e da vida partidária. Agora começa a brilhar, para ele, uma luz ao fundo do túnel. Se Manuela Ferreira Leite ganhar, e conseguir uma maioria absoluta com o CDS, então Cavaco chegará onde sempre quis chegar, desde que abandonou a governação do país e entregou o PSD a Fernando Nogueira. A aposta é muito alta e pode arrastar consigo, caso a direita não consiga maioria de governo, a não reeleição de Cavaco para a Presidência. Mas Cavaco é um jogador calculista. Veja-se como ele tem, de forma quase amigável, encostado o engenheiro Sócrates às cordas. Quando e se puder, esmaga-o.

O caminho do PSD



Já aqui escrevi, várias vezes, que simpatizo com Manuela Ferreira Leite. Enquanto acho insuportáveis pessoas como José Sócrates, Lurdes Rodrigues ou Valter Lemos, acho a actual líder do PSD uma figura humana muito mais interessante e da qual me sinto muito mais próximo. Simpatizar com uma pessoa, porém, não é simpatizar com as suas políticas.

O Expresso, de hoje, traz já as linhas gerais do que vai ser o programa do PSD. Fala em 'Estado imprescindível'. O que significa isto? Apenas a demissão do Estado na área dos direitos sociais. Diz o Expresso: "Na Saúde e na Educação, os sociais-democratas preconizam que se alargue progressivamente o regime de liberdade de escolha entre operadores públicos e privados." Quem acompanha estas coisas, percebe aquilo que vai acontecer, caso o PSD governe. Os serviços públicos vão diminuir ainda mais de qualidade e prepara-se a entrega de hospitais e escolas públicas à voracidade dos interesses privados. Como se tem descoberto, esses interesses têm pouco interesse no bem público e mais nos seus negócios. Como todos sabemos, privatizar nestas áreas significa piorar o que se oferece aos cidadãos.

Do ponto de vista de Educação, aquele que melhor conheço, o que se está a preparar, então, é um novo terramoto no ensino público. Em tempos, a direita poderia ser um factor interessante de consolidação e de qualificação do ensino público. Mas isso era no tempo em que a direita era conservadora e defendia o Estado-nação. Hoje, rendeu-se ao folclore do liberalismo e à retórica do Estado mínimo. Mesmo os ensinamentos da crise mundial não parecem comovê-la.

Por que defendo a intervenção do Estado na área da Educação? Por dois motivos essenciais:


1. A educação é um elemento central da soberania dos Estados. A educação, e isso foi percebido muito cedo pelos filósofos gregos, é estruturante na vida política e cívica. A saúde ainda se pode dizer que é um problema privado. Na educação, isso é impossível. Veja-se a ideia da escolaridade obrigatória. Nas sociedades modernas, o consenso social que permite que elas funcionem é fabricado nas escolas, através de complexos processos de transmissão curricular. Na educação, como na Justiça, na Segurança ou na Defesa, há um interesse específico do Estado e da Nação: é ela que permite instituir continuamente o desejo de soberania.

2. A educação pode ser um caminho para uma certa equidade social. Para tal, é preciso que exista uma educação de qualidade. Ora, essa custa dinheiro e, tirando os colégios dirigidos às elites sociais, não é rentável. Se se persistir na ideia de privatizar a educação, sabemos que haverá escolas privadas a receber subsídios do Estado e a fornecer serviços muito piores do que aqueles que as escolas públicas fornecem. O fosso social tornar-se-á bem maior do que já é.

As intenções do PSD são perigosas. Um programa de direita, na área da educação, não deveria obviamente proibir o ensino privado. Mas deveria cuidar do ensino público de forma a torná-lo melhor, mais exigente, mais rigoroso e mais disciplinado. As escolas públicas têm forças suficientes para dar uma volta ao que se passa na educação. Precisam, porém, de políticas centrais claras e objectivas. Não precisam de mais confusão. Precisam de diferenciação dos percursos escolares, precisam de selecção de professores e também dos percursos dos alunos, precisam de avaliação rigorosa dos alunos. Não precisam de revoluções, sejam socialistas ou liberais. Confesso, porém, que espero o pior do PSD, nesta área. A educação é um lugar maldito, onde os políticos acham que devem exercitar as suas utopias privadas, ao arrepio daquilo que é o saber acumulado por quem trabalha na área. Ganhe o PS ou o PSD, os governantes irão continuar a destabilizar as escolas e a torná-las em sítios irracionais. Foi o que sempre fizeram, desde que sou professor.

A queda

Se há duas personagens que marcam o estilo e a natureza do actual governo, elas são o primeiro-ministro, José Sócrates, e a ministra da Educação, Lurdes Rodrigues. Têm muitas coisas em comum, desde um certo provincianismo, embora tratado de formas diferentes, até à arrogância, passando pele inflexibilidade, fundamentalmente quando pensam que estão perante os mais fracos.

Os sinais da queda de ambos têm vindo a crescer, embora ainda não seja claro que isso aconteça. Sócrates vê, pela primeira vez, o PSD de Ferreira Leite ultrapassar o PS nas intenções de voto. As sondagens valem o que valem, mas é sempre mais agradável aparecer em primeiro lugar do que em segundo. E uma coisa é já evidente: o PSD pode ganhar as eleições legislativas. Outro sintoma da queda de Sócrates é a história do veto governamental à compra de parte da TVI pela PT. Para Sócrates, colocar a PT na TVI seria um passo interessante para fazer calar certos telejornais particularmente desagradáveis. Mas o governo, devido à intervenção do Presidente da República, foi obrigado a recuar. Também a animação do caso Freeport, apesar do primeiro-ministro não ter sido visado, está longe de ser benéfica para o PS.

Relativamente à ministra da Educação, os tempos também não têm sido favoráveis. A senhora pode falar sobre os bons resultados do sistema educativo, mas ninguém, tirando os acólitos de serviço, acredita na veracidade da coisa. Todos desconfiam, e certamente com alguma razão, da qualidade dos exames e das Provas de Aferição. Mas não bastava isso, um estudo da Deloitte vem mostrar que uma das grandes medidas de combate aos professores (sim, o ME teve por missão combater os seus professores), as quotas na avaliação, é uma especificidade portuguesa, inventada pela actual equipa, na sua política de suave e disfarçado terror dentro das escolas.

O Partido Socialista ainda pode reverter a situação, mas que ele merece um grande castigo, isso merece-o. Não é que a alternativa seja interessante. Nós já sabemos o que é um país governado por Cavaco (sim, será Cavaco a governar a partir de Belém), Ferreira Leite e Portas. Mas o Partido Socialista precisa de uma purga, precisa de limpar toda uma cultura absolutamente inaceitável que se instalou no partido e, através dele, no Estado central e nas autarquias. Não sei se o PS tem capacidade de regeneração, ou se a doença que o afecta se tornou crónica. Mas um tratamento na oposição não lhe fará, por certo, nada mal. Bem precisa e o país também. Mas ainda não é líquido que isso aconteça.

Isabel Hormigo - Exames ou trivialidades?

Olhando para muitos dos exames actuais, há quem diga que as perguntas são hoje mais fáceis do que o eram há dez ou 20 anos. Praticamente todos estão de acordo neste ponto, excepto algumas pessoas que têm responsabilidades no sistema educativo e que têm estado envolvidas nas sucessivas reformas do ensino. Existe uma contradição curiosa: umas vezes diz-se que o "quadro cognitivo" se tornou diferente com o acesso de todos à educação e que, por isso, não se pode ser hoje tão exigente como antigamente se era. Outras vezes diz-se que o ensino actual é mais avançado e exigente, pois se pede aos estudantes uma atitude interpretativa e crítica, e não a memorização de factos ou a capacidade de cálculo.A realidade é que, sem conhecer factos e sem capacidade de cálculo, não se sabe como se pode ter uma atitude interpretativa e crítica. E a realidade também é que basta abrir algumas provas de há 20 anos e algumas actuais para ficarmos preocupados. Seria bom conhecer melhor em que medida o nível de exigência dos exames se degradou, se é que, como julgamos, se degradou de facto continuamente. Mas para isso seria necessário um estudo comparativo sério, que não se conhece. Não negando uma evolução dos exames, que acompanhou alguma evolução dos programas e dos tempos e nos trouxe tópicos mais actuais e contextos mais modernos, há traços muito preocupantes nas provas actuais. O primeiro é o seu diminuto grau de exigência. O segundo é a insistência infantilizante na contextualização, que é inimiga da capacidade de abstracção. O terceiro é a trivialidade extrema dos cálculos e procedimentos testados. Os últimos exames de Matemática do 9.º ano aproximam-se perigosamente de ser apenas testes que basta ter bom senso para resolver e em que a matemática se reduz a banalidades.Vivemos num mundo moderno que não se compadece com a ignorância técnica e com a incompetência. Quem compete com os jovens que estamos a educar são os da Europa, da Ásia e de todo o mundo. A educação é fundamental para o nosso desenvolvimento e a matemática uma alavanca decisiva desse progresso. Não podemos continuar prisioneiros de ideias pedagógicas retrógradas que atrasam o nosso ensino. Há a tentação de pensar que temos à nossa frente todo o tempo do mundo. Não o temos. Todos os anos, meses e dias que se percam na educação são décadas de atraso do país. Não vale a pena fingir. [Público, de hoje]

26/06/09

Metamorfoses XLV

Bruno Maderna – Biogramma

florescem agora os jacarandás
vieram depois dos castanheiros
e pintam no céu uma ilusão de vida
a promessa de um arco-íris que não virá

com essas mentiras construímos a vida
erguemo-las como hóstias consagradas
carne de um deus cansado
por cansaço se entregou

de que te vale falar de esperança
e colher as pétalas que a tímida flor
pelo chão deixa cair

avança põe um pé no caminho
não perguntes a que destino leva
nem queiras na terra deixar vestígio

O espectáculo da Justiça

Se há uma coisa que me impressiona no caso Freeport, e há bem mais que uma, é o espectáculo da Justiça. Este caso já devia ter sido investigado e resolvido há muito. Não o foi. Agora assistimos a um processo de constituição de arguidos como se assistíssemos a uma telenovela. No episódio de hoje, descobrimos o sexto arguido, José Inocêncio, antigo presidente socialista da Câmara de Alcochete. É evidente que este tipo de administração do suspense, este enrolar da intriga, tem consequências políticas e vai desgastando o Partido Socialista. Não é que o PS, pela forma como tem embrulhado a Justiça, não o mereça. Merece. Mas a decência das instituições passava bem sem o triste espectáculo do Freeport. E aqui não me estou a referir apenas ao processo do licenciamento. Estou a falar do andamento do processo judicial. O que nos reservará o próximo episódio?

O novo Provedor de Justiça


Quando o PS e o PSD decidiram tratar seriamente do caso, a figura do futuro Provedor de Justiça emergiu sem dificuldade. Alfredo José de Sousa reúne, segundo o Público, o consenso dos dois maiores partidos e, por certo, não será mal recebido pelos restantes. Mas como explicar a humilhação infligida a Nascimento Rodrigues e, de certa maneira, a Jorge Miranda? A facilidade com que chegaram a este nome de consenso prova que, anteriormente, os dois maiores partidos estavam longe de agir com boa-fé política. E nesse devaneio pouco se importaram com o estado de saúde do ex-Provedor ou com a necessidade de dar credibilidade ao cargo. É com isto que lentamente se vai corroendo a legitimidade das instituições.

Adenda - Post corrigido graças a José Trincão Marques. De facto, havia uma lamentável troca entre Alfredo de Sousa e Alfredo José de Sousa (cf. explicação nos comentários).

Jornal Torrejano, 26 de Junho de 2009


Em linha está a edição semanal do Jornal Torrejano.

25/06/09

Metamorfoses XLIV

Emmanuel Nunes – Tissures

a fragrância tecida nas folhas dos limoeiros
abre-se na tarde sobre ruas sonâmbulas
de onde partiram os últimos moradores

as casas são agora vísceras ao sol
entranhas que a vida recusou
vidros partidos cal carcomida
trave que cede ou telhados em ruína

a tudo isto juntas pelo cuidado da mão
e num bordado de linha clara
ergues paisagens de glória ausente
o fogo apagado as cinzas tão frias
e os animais a passear no desterro
de onde ninguém os recolherá

voltas para recompor as imagens
teces com barro a canção do destino
mas tudo cede à gravidade
e entrega-se ao precário silêncio da areia

ainda oiço o gorgolejar da vida ao naufragar
no pântano viscoso e espesso do tempo

avanço uma mão mas logo a retiro
o medo tomou-me conta das faces
e pulsa em cada célula do coração

O mais antigo instrumento musical conhecido


Segundo o Público, este é o instrumento musical mais antigo, que se conhece. Esta flauta terá cerca de 35 000 anos, é feita de osso de grifo e foi encontrada numa gruta na Alemanha. O que é curioso neste achado é a percepção de uma clara linha de continuidade entre esta flauta arcaica e as modernas flautas. Para além disso, a nossa imaginação é impelida para trás na ânsia de imaginar aquilo que teria antecedido este instrumento, pois o que vemos é apenas um momento já sofisticado de algo que começou muito antes. Como soaria, que tipo de música esses nossos antepassados fariam e em que ocasiões?

Como se produz o niilismo em educação?


O niilismo pode ser entendido, de uma forma muito geral, como a desvalorização de todos os grandes valores tradicionais. Mais, o niilismo é a morte do próprio sentido das coisas. De certa forma, as sociedades modernas e contemporâneas são produtoras de niilismo. A sua essência é a contínua desvalorização dos valores, a destruição dos núcleos de sentido que constituem as tradições humanas. Como se produz o niilismo?

Olhemos para a notícia que origina o post anterior. Um dito especialista canadiano em tecnologia assiste em Portugal a uma aula e conta "como os alunos recorreram à Internet para resolver uma questão colocada pelo professor: para saber o que era um equinócio, grupos de alunos pesquisaram a informação e quem a descobriu primeiro explicou-a aos colegas".

Quem é professor percebe, de imediato, que o acontecimento é absolutamente banal. O que aconteceu com a Internet poderia acontecer com enciclopédias em papel, com livros da especialidade, com um texto dado pelo professor ou com o próprio manual da disciplina. Mas este acontecimento banal, acontecimento que apenas prolonga uma forma de trabalhar antiga é visto como um acontecimento excepcional, inovador e símbolo de uma revolução a fazer.

O que significa aqui "revolução"? Destruição da tradição de ensino, destruição dos valores que permitiram construir o conhecimento, incluindo o conhecimento que deu origem aos computadores e à Internet. A partir deste exemplo absolutamente marginal, erige-se toda uma concepção de ensino que é apresentada como inovadora, mas da qual é erradicado de facto todo o acto de ensinar. Fazer a vontade a este senhor Tapscott significa reduzir toda a tradição de ensino a zero e com isso reduzir o ensino à pura nulidade. O professor já não ensina. Mas compreende-se, se não se for ideologicamente cego, que concomitantemente também o aluno não aprende. E é isto que está a emergir em muitos sítios do Ocidente.

Não pense o leitor que sou retrógrado tecnológico. Sou dos professores mais antigos a usar computador em tarefas educativas. Incremento o uso da Internet na pesquisa e das ferramentas que ela disponibiliza como apoio à aprendizagem. Isso, porém, não implica qualquer dissolução da minha responsabilidade última em ensinar os meus alunos, de viva voz, falando com eles, expondo e discutindo, reflectindo em conjunto. É para isto que servem os professores, não para gerir aprendizagem ou a utilização de gadgets.

Estes inovadores tecnológicos, estes inspectores Gadgets, que pululam em torno da educação, são um dos principais perigos para o futuro do Ocidente. São portadores de uma barbárie que visa reduzir a nada tudo o que construímos. Não sei se o Ocidente terá forças para resistir a esta barbárie nascida no seio da própria ciência, nascida de uma perversão ideológica que existe na transformação do conhecimento científico em tecnologia. O próprio poder político ocidental se transformou numa fonte de barbárie e de produção de niilismo. Se não for possível parar esta gente, então pagaremos muito caro a nossa impotência.

Educação: Portugal na vanguarda


Consta que o senhor Don Tapscott é especialista em tecnologia. Compreende-se que fique fascinado com o desempenho das máquinas e com as extraordinárias aulas onde o professor deixa de ensinar e se transforma num técnico de gestão de engenhos informáticos. Compreende-se mesmo que o senhor queira vender ao Presidente americano a extraordinária ideia que descobriu em Portugal. Ideia aliás que os americanos já conhecem e já ensaiaram há muito. Também se sabe que muitas escolas americanas, depois de terem feito a experiência, decidiram proibir os computadores em sala de aula. Aliás, como o senhor reconhece no artigo, os estudos sobre a presença de computadores em sala de aula foram inconclusivos. E isso é o mínimo que se pode dizer.

Este tipo de comentários servem, porém, para sustentar um equívoco tremendo que se instalou no ensino em Portugal. Nós não estamos na vanguarda de coisa nenhuma, ou se estamos na vanguarda de alguma coisa é a do niilismo educativo. Tudo se está a tornar mais irrelevante e menos exigente. Os especialistas podem especular sobre o que lhes apetecer, mas a percepção que existe nas escolas é bem diferente. Os próprios alunos sentem isso. Já aprenderam, por exemplo, que o calendário eleitoral e a própria luta política têm efeitos específicos sobre o grau de dificuldade dos exames. Há coisa que os alunos aprendem depressa.

É evidente que precisamos de professores que dominem bem as ferramentas tecnológicas. Mas isso é uma exigência idêntica àquela que existia antes. Os professores tinham obrigação de dominar bem o uso de enciclopédias, dicionários, modelos de investigação, etc. Mas isso não os fazia bons professores, embora pudesse ajudar. Ser professor não é uma questão tecnológica e a qualidade do ensino não tem relação directa com o uso da tecnologia disponível. O ensino funda-se numa relação entre professor e aluno, e essa relação é uma forma de mediação do saber. Aquele que sabe transmite o saber ao que não sabe. É nesta relação que se constitui as relações culturais, uma das quais é a do saber.

Mas o que mais me espanta é o actual entusiasmo, fundado na existência da internet, com o autodidactismo. Este há muito que tinha má fortuna. Agora recrudesce fundado num devaneio tecnológico, como se o saber não fosse uma tradição humana e como se as tradições humanas pudessem ser transmitidas de outra forma que não a do contacto directo entre seres humanos. Mas o problema de tudo isto reside na classe política, muitas vezes inculta ou embasbacada com gadgtes. Na ânsia de mostrar serviço, não hesitam em fazer das escolas o laboratório das suas utopias pessoais. O senhor Don Tapscott acha que as escolas americanas devem entrar no século XXI, imitando as escolas portuguesas (ele não sabe o que são as escolas portuguesas, nem sequer aquela que viu). Isto deve encantar o engenheiro Sócrates e talvez comova o senhor Obama. Mas, na verdade, o que o ensino ocidental precisa é de meditar na experiência clássica dos gregos. Não para a decalcar, mas para perceber a filiação e os fundamentos do ensino ocidental, e para saber conjugar as transformações sociais e técnicas com o núcleo central da nossa tradição de ensino. Sobre isto, é provável que o senhor Tapscott pouco tenha a dizer, e desconfio que aos nossos políticos uma coisa dessas deva parecer absolutamente arcaica e sem sentido. Há muito que eles deixaram de entender o que significa a palavra princípios.

Jorge Miranda retira candidatura


Jorge Miranda retirou a sua candidatura a Provedor da Justiça. Fê-lo por uma causa nobre. Não concordou que houvesse disciplina de voto na próxima tentativa de eleição. Jorge Miranda é uma das figuras mais respeitadas e mais respeitáveis da democracia portuguesa. Seria, por certo, um excelente Provedor e dignificaria o cargo, como, aliás, o tem feito Nascimento Rodrigues. Posso admitir com boa vontade que nós, portugueses, talvez o merecêssemos enquanto Provedor. Mas a verdade que ele não mereceria ser confundido com as pobres personagens que tomaram conta do regime democrático e que, com afinco e persistência, o estão a conduzir para o abismo. Há alturas que a grandeza não se deve misturar com a pequenez.

24/06/09

Metamorfoses XLIII

Philip Glass – Metamorphosis

no limiar da sombra há um animal
touro feroz sobre a planície cresce
quando se cavalga pela terra manchega
e o sol oferece a calma da exaustão

um milhafre cruza os céus de fogo
e um frémito varre toda a terra nua
não há cavalo nem cavaleiro que a dobre
apenas a sombra do touro a apazigua

as poucas árvores por deus ali abandonadas
são símbolos de água a voz do paraíso
dia após dia o transportamos aos ombros
como se fosse não prémio mas castigo

e na indiferença desta tarde infernal
onde tudo suspendeu o movimento
descubro no lugar do bem o sopro do mal
e na mudança o princípio do esquecimento

A Antígona de Teerão

Neda Agha-Soltan

É este o rosto da jovem mulher iraniana que se vê morrer durante uma manifestação em Teerão (ver o vídeo do Telegraph). Olhamo-la e vemos nele uma nova personificação de Antígona. Sempre que encontramos uma Antígona, sabemos que estamos perante a tirania. O destino de todas as antígonas é dar o seu sangue pela liberdade e é essa dádiva que torna a sua beleza misteriosa e inconfundível. São mães que nunca tiveram filhos, mas trazem nas entranhas essa coisa extrordinária que é o desejo de ser livre.

A data das eleições


Quando não há problemas, nós temos a capacidade de os inventar só para nos entretermos neste tempo estival. Sobre a questão da coincidência ou não das eleições legislativas e autárquicas, os dois argumentos opostos parecem-me risíveis. Defender a mesma data para ambas as eleições com uma justificação económica não é um argumento civicamente nobre. Pode dizer-se sempre que a democracia é mais importante do que esse gasto adicional. Mas defender que a data deve ser diferente pois estamos perante eleições diferentes e campanhas eleitorais diferentes é um argumento que pressupões várias coisas. Em primeiro lugar, pressupõe que as magníficas ideias que pululam nas campanhas eleitorais nos interessam e que a generalidade do povo português presta alguma atenção aos devaneios que os partidos políticos apresentam na ânsia de chegar ao poder. Em segundo lugar, mesmo que todos nós estivéssemos interessados nas extraordinárias ideias que habitam aquelas cabeças, isso não teria de significar que não conseguíssemos destrinçar claramente entre uma eleição onde os portugueses vão escolher um governo e aquela onde vão escolher autarcas. Nós sabemos muito bem quem são uns e outros. Sabemos os poderes que ambos têm e não nos falta capacidade para, caso estejamos interessados, sintonizar o nosso cérebro ora na campanha para as legislativas, ora nos debates locais. Apesar de tudo, não somos assim tão estúpidos.

23/06/09

Metamorfoses XLII

Gavin Bryars – Farewell to Philosophy

no farol cor de malva crescem flores silvestres
à minuciosa luz do entardecer
os barcos tecem redes pequenas armadilhas
onde aprisionam as águas até que o porto
os devore na sombra que desagua na noite

um sino repica ao longe e escutam-se passos
na pressa que levam partilham o medo da solidão
e se sulcam as ruas onde se ouve o marulhar das águas
é para as infestar de geada e restos de sal

a película de seda escura que cobre o horizonte
rasga-se se o farol rodopia e por um instante a ilumina
traçando um cone de luz promessa de um dia nítido
sem a gangrena que a tudo escurece

não falemos em extinção nem na ânsia
que toma os membros os inclina e joga pelo chão
deixemos apenas as flores crescer no farol de malva
para gritarem quando chegar o calor do estio
deixemos apenas a luz sucumbir no terror da mão

Do equívoco do privilégio


A política tem destas coisas. Os espanhóis na tentativa de atrair cérebros estrangeiros para o seu país inventaram um regime especial de impostos. Estão agora a descobrir que os grandes beneficiários da imaginação política são os jogadores de futebol estrangeiros a actuar em Espanha. Enquanto os jogadores espanhóis pagam um imposto na ordem dos 43% sobre o que ganham, os estrangeiros limitam-se a pagar 24%. A perturbação introduzida pelas contratações de Kaká e de Cristiano Ronaldo pelo Real Madrid veio agudizar a consciência do logro e pôr a nu a infracção a um dos princípios fundamentais, eu diria que é um princípio de valor universal, das sociedades burguesas, o princípio da iniquidade dos privilégios.

Nada disto, porém, se deve confundir com a discussão sem sentido sobre se deve haver um tecto para as contratações de jogadores. Apenas o mercado deve regular esse tecto. O que não pode haver é distorções no mercado e num mesmo país jogadores de futebol serem taxados de modo diferente apenas porque uns nasceram em Espanha e outros no estrangeiro. Devido ao peso económico das competições europeias seria curial, para não distorcer o mercado e a concorrência entre equipas, que os países europeus caminhassem, através de acordos, para uma tributação dos salários com pouca margem de diferença.

A saga continua...

Hoje foi dia de exame de Matemática B (ensino secundário). A saga continua. Ler aqui a opinião da SPM.

Os balanços da senhora ministra


A senhora ministra da Educação faz balanço positivo da época de exames e congratula-se com o profissionalismo das partes envolvidas. É comovente tanta atenção e tanta motivação positiva dispensada às partes. Parece que vamos ter resultados bons, o que será já uma consolidação do trabalho vindo do ano passado.

O que eu não percebo é a estratégia tão arrevesada seguida para atingir tão nobres fins. No fundo, fazer novo estatuto da carreira docente, ter que suportar greves e manifestações a roçar a unanimidade albanesa do professorado foi um suplício desnecessário. Bastava a senhora ministra ter orientado politicamente a política de exames como orientou e ter ameaçado os professores com a sua responsabilização pelo facto dos alunos não quererem estudar. Os resultados seriam os que vamos ter, brilhantes, e não haveria tanto cansaço e tanto desgaste político.

Os pais que interessam, aqueles que têm dinheiro e vivem em Lisboa e Porto, há muito que têm os filhos nos colégios privados e não são afectados pelas políticas da senhora ministra. Os outros têm direito ao sucesso nas notas. Contentem-se com isso. Que os filhos tenham um bom ensino não está inscrito na carta dos seus direitos. As boas universidades, as que exigem conhecimento, não são para os filhos deles.

Como professor há uma coisa, porém, que não me deixa de intrigar. Se compararmos os actuais exames com os anteriores, verificamos que os maus resultados que havia não se deviam aos professores, mas às equipas de exames que faziam provas demasiado difíceis para os alunos. Não compreendo como é que essas equipas não foram duramente castigadas e por que motivo se perseguiu e vilipendiou na praça pública toda a classe docente. Afinal, a culpa não era dos professores. Há sempre qualquer coisa na lógica deste Ministério da Educação que me escapa.

22/06/09

Metamorfoses XLI

Olivier Messiaen - Quator pour la fin du temps

a cidade desfalece ao crepúsculo
casas caídas ruínas vindas da terra jubilosa
a visão solar do casario ao longe
as árvores ressequidas pelo calor de junho
e o insuportável cristal a tudo deixa ver

um cheiro a urina seca vem das esquinas
aqui e ali miam gatos vadios pardos cansados
à luz dos candeeiros chega a liturgia da noite
ilumina as velhas paredes do castelo
onde cessaram de repente todos os combates

sigo com atenção o lento trabalho do bolor
um exército de cavaleiros azuis invade a laranja
delimita o território conquistado
traça universos de morte na madeira das casas
anuncia na língua dos profetas o porvir

entro num café ainda aberto as mesas vazias
no balcão estão copos sujos cascas de tremoços
– um súbito clarão atravessa a rua e logo um carro o segue –
a televisão grita no silêncio furioso da sala
e numa cadeira de fórmica o dono dormita babando-se

é tarde as cores esbatem-se num cinza matizado
das paredes das casas vêm ondas de calor
aqui e ali ouvem-se vozes e uma bicicleta passa
corta o ar quente e perde-se na curva ao entrar
nos meus olhos abertos para a cegueira que os contamina