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14/09/11

A bondade moral da mentira a si mesmo


Um estudo publicado na revista Nature chega a uma interessante conclusão. Possuir uma visão adequada da realidade é uma desvantagem competitiva. Os indivíduos que possuem excesso de confiança, quando em situações de competição por recursos cujos benefícios sejam suficientemente grandes em relação aos custos, têm vantagem competitiva sobre os que têm uma visão adequada da realidade. Por outro lado, quando se está perante conflitos com um custo elevado, a selecção favorece aqueles que têm uma visão subavaliada das suas capacidades. Em caso algum, aqueles que possuem uma auto-avaliação realista e adequada são seleccionados.

Deste ponto de vista e contrariamente à moral tradicional, a auto-ilusão e a mentira sobre si mesmo são um bem, enquanto a perspectiva moral que ordena o auto-conhecimento induz uma desvantagem. O célebre oráculo de Delfos, que ordenou a Sócrates conhece-te a ti mesmo!, nada sabia dos processos de selecção. Não bastava a já velha diatribe de Nietzsche contra a verdade. Agora ficamos a saber que é melhor possuir uma imagem ficcional e desadequada da realidade para podermos sobreviver. Assim sendo, o Nietzsche de a Origem da Tragédia tem completa razão. A preocupação do homem teórico, a preocupação com a verdade enquanto adequação do conhecimento à realidade, é uma patologia.

04/01/10

Ponto G, afinal não há, ou haverá?


A ciência continua a iluminar a minha existência, palavra de honra. Agora, porém, investigadores do King's College, e logo do King's College, asseveram, segurem-se bem, que o ponto G não existe. Reproduzo: «O estudo, publicado no The Journal of Sexual Medicine envolveu 1800 mulheres, com idades entre os 23 e os 83 anos, todas gémeas. Os investigadores preferiam analisar gémeas, pensando que a resposta seria parecida. No entanto, as respostas eram diferentes: enquanto algumas mulheres afirmam ter ponto G, as suas irmãs garantem que não têm. Para os cientistas, isto sugere que o ponto G é apenas um mito.» Um mito, afinal o ponto G era um mito, um objecto digno de fé, mas tão imaterial como a nossa alma. Quem sabe se o ponto G não será a alma ou parte da alma.

Para as pessoas não ficarem espiritualmente desanimadas e continuarem e empreender a busca do ponto G, eu deixo uma pista. O estudo só pode provar uma coisa. As gémeas - monozigóticas, depreende-se - não possuem ponto G. Mas as outras, as falsas gémeas e as mulheres não gémeas? Se o meu argumento não for suficiente, então recomendo a leitura, para consolo espiritual, sublinho, deste post, de Março de 2008, de Os Marlenes, um blogue brasileiro. Anuncia a descoberta científica do ponto G.

Se este tipo de investigação é muito inconclusivo sobre o objecto de estudo, digamos assim, é iluminador do nosso tipo de existência e das finalidades que orientam a nossa vidinha.

01/01/10

O alelo 334


Como estive fora, só hoje dei por esta agradável notícia. Ficamos assim a saber que, segundo a psicóloga francesa Maryse Vaillant, a infidelidade masculina pode ajudar a salvar o casamento. Mas as coisas não ficam por aqui. Nós, os que pertencemos ao sexo masculino, não só podemos ser infiéis - para salvar o casamento, entenda-se -, como se o não formos é caso para desconfiar: «os homens que não têm casos extraconjugais podem ter “uma fraqueza de carácter”.» E qual é o homem que quer ter uma fraqueza de carácter? A sábia psicóloga esclarece: «Por norma, estes homens tiveram "um pai que era fisicamente ou moralmente ausente", e desta forma, "têm uma visão completamente idealizada da figura do pai e da função paternal. Eles não têm flexibilidade e são prisioneiros de uma imagem idealizada das funções do homem”. »

Dirá o leitor, ou a leitora, que tudo isso são especulações de uma ciência espúria, a Psicologia. São preconceitos actuais contra preconceitos antigos. Eu concordo, mas o problema é outro. Estava eu à procura de uma imagem para ilustrar este post e descubro isto: «A culpa da infidelidade masculina pode ser… dos genes. À primeira vista parece uma desculpa de um marido adúltero, mas cientistas suecos confirmam esta teoria. Segundo os investigadores do Instituto Karolinska de Estocolmo os homens que possuem um determinado gene, o alelo 334, têm mais tendência a cometer a fatídica “facada” no matrimónio. Um dos cientistas responsáveis pelo estudo afirma que “os homens que possuem uma ou duas cópias desta variação especifica no gene, têm o dobro das hipóteses de experimentar problemas com relações monogâmicas”.»

As especulações psicológicas parecem então fundar-se na pesquisa genética. O que me aborrece no meio disto tudo, porém, é que as minhas hipotéticas infidelidade ou fidelidade, mais ou menos canina, não se deverão nem a um estado passional nem ao meu livre-arbítrio, mas ao facto de possuir ou não uma ou várias cópias do alelo 334. Que depressão! Um infiel que se preze até perde a vontade de o ser ao pensar que aquilo não é ele, mas o alelo 334 em acção. Com tudo isto é a liberdade que se vai. Como compensação, naqueles países onde existe a civilizada prática de lapidação de adúlteros, passam apenas a apedrejar as mulheres (que definitivamente não têm alelo 334 e logo nada justifica a infidelidade) e os alelos 334.

31/12/09

Do saudável e do patológico



Não é a questão de saber se a homossexualidade é uma doença que me interessa (ver aqui e aqui). O que é interessante neste tipo de debate público é o papel da saúde e da doença, esses obscuros conceitos que atormentam os nossos sonhos mais agradáveis. Há, certamente, definições técnicas para o que é um estado patológico. A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem uma classifcação internacional de doenças, que definirá a doença segundos critérios técnico-científicos. A questão, porém, é outra. Do ponto de vista da natureza em geral, não existem estados patológicos. Os processos naturais sucedem-se uns aos outros e, de um ponto de vista global, é indiferente que eu vença um determinado vírus ou que esse vírus me mate.

A doença, ou os estados patológicos, é assim uma questão antropológica, um problema do homem. Por isso, a doença e a saúde são sobre-investidos com os nossos preconceitos e aspirações sociais e definidos segundo critérios políticos (os critérios técnicos da OMS são claramente critérios políticos, se consideraramos que, hoje em dia nas sociedades modernas, só são politicamente aceitáveis os critérios definidos de forma técnico-científica), os quais representam esses mesmos preconceitos e aspirações. Se o critério do saudável e do patológico teve um papel fundamental na instituição dos asilos psiquiátricos, por exemplo, ele não desapareceu de então para cá. Continuamos a assistir a uma intensificação da intervenção social fundada nessa separação. Num tempo em que a dominação técnica sobre a natureza humana, nomeadamente através da descodificação do ADN, se tornou avassaladora, a definição do saudável e do patológico vai ser um dos campo essenciais da nossa vida em comunidade, isto é, da nossa vida política.

Retomando a questão do início, a definição da homossexualidade como uma não patologia é tão política como a definição contrária, aquela que a propunha como uma doença, apenas os preconceitos que estribam uma ou outra decisão são diferentes. É evidente que os médicos psiquiatras referidos nos links mais acima jamais reconhecerão que a sua posição é fruto de um preconceito. Jamais um preconceito se reconhece enquanto tal, é esta uma das suas facetas. O que a humildade nos aconselharia seria então reconhecer que há diferentes tipos de preconceitos, e uns são mais úteis em determinado momento social, ou que estão mais de acordo com o espírito da época, do que outros. Contrariamente ao que se possa pensar, este tipo de pronunciamento técnico-científico não é apenas uma forma de luta contra um preconceito em desacordo com o Zeitgeist, é também uma manifestação, de natrueza não consciente, de um sintoma de mal-estar com o novo preconceito. Onde se encontra esse sintoma? Na necessidade de lhe dar, ao novo preconceito, uma fundamentação técnico-científica, tornando-o aos olhos da opinião pública, pouco versada na revisibilidade da ciência, uma aura de verdade definitiva e absoluta.

20/12/09

O problema das compras



Não fora o facto de na pré-história as mulheres passarem o dia a recolher comida de qualidade para alimentar a família e os homens a planear e a matar as suas presas, hoje homens e mulheres fariam compras de formas diferentes do que fazem, com os conflitos conhecidos. Informa-nos o i online, ao dar conta de um estudo da Universidade de Michigan. Veja-se a informação que os prestimosos cientistas decidiram partilhar connosco, a qual enlevados agradecemos: «as mulheres podem passar horas e horas dentro das lojas à procura do vestido perfeito porque a sua preocupação pré-histórica sempre foi com a qualidade da comida, enquanto os homens decidem avançar sobre o que querem comprar, tal como avançavam sobre o animal que queriam matar e, depois de cumprida a tarefa, regressavam a casa.» Vale a pena comentar?

25/10/09

Gatos e vírus



Talvez o gato de Schrödinger, aquele que estaria ao mesmo tempo vivo e morto, possa ser substituído por um vírus. Não parece ser grande a promoção, coisa de cientistas espanhóis do Instituto Max Planck. Trata-se de uma experiência em mecânica quântica que pretende testar a sobreposição de estados, não com um pobre bichano, mas com um diabólico vírus. Mesmo para um ignorante da Mecânica Quântica, como este blogger, o artigo do Público é um prazer para a imaginação. Veja-se o debate entre os adeptos da escola de Copenhaga (Bohr e Heisenberg) e Schrödinger, isto para não falar da many-worlds interpretation, de Everett . Penso muitas vezes que se fosse hoje não teria feito Filosofia mas Física. Com a morte da religião e o envelhecimento da Filosofia, resta apenas a Física como a casa grande onde a imaginação pode encontrar um terreno fértil para os seus devaneios. Não se pense que estou a ironizar. A imaginação é o alicerce da razão. Talvez o acesso aos fundamentos da realidade necessite tanto, ou mais, da faculdade da imaginação como da do entendimento ou razão. E depois há qualquer coisa de literário em tudo isto, o que talvez nos obrigue a pensar nos limites das definições dos géneros literários. Não será a ciência ainda uma forma de literatura? A gesta do gato de Schrödinger, não deixaria de ser um belo título.

08/08/09

Bartolomeu de Gusmão - A passarola


Passam hoje 300 anos da experiência com aeróstatos de Bartolomeu de Gusmão. Segundo Rómulo de Carvalho, poder-se-ia atribuir a Bartolomeu de Gusmão a invenção desses objectos. Talvez os chineses não concordem com a perspectiva. Seja como for, mesmo que este desenho produzido pelo próprio Gusmão pouco tenha a ver com o aeróstato real de há 300 anos, estamos perante uma belíssima estampa da época. O texto de Rómulo de Carvalho, no De Rerum Natura, explica o desenho, a forma como apareceu e a razão da sua publicação na Áustria. Explica também outras coisas.

25/06/09

Como se produz o niilismo em educação?


O niilismo pode ser entendido, de uma forma muito geral, como a desvalorização de todos os grandes valores tradicionais. Mais, o niilismo é a morte do próprio sentido das coisas. De certa forma, as sociedades modernas e contemporâneas são produtoras de niilismo. A sua essência é a contínua desvalorização dos valores, a destruição dos núcleos de sentido que constituem as tradições humanas. Como se produz o niilismo?

Olhemos para a notícia que origina o post anterior. Um dito especialista canadiano em tecnologia assiste em Portugal a uma aula e conta "como os alunos recorreram à Internet para resolver uma questão colocada pelo professor: para saber o que era um equinócio, grupos de alunos pesquisaram a informação e quem a descobriu primeiro explicou-a aos colegas".

Quem é professor percebe, de imediato, que o acontecimento é absolutamente banal. O que aconteceu com a Internet poderia acontecer com enciclopédias em papel, com livros da especialidade, com um texto dado pelo professor ou com o próprio manual da disciplina. Mas este acontecimento banal, acontecimento que apenas prolonga uma forma de trabalhar antiga é visto como um acontecimento excepcional, inovador e símbolo de uma revolução a fazer.

O que significa aqui "revolução"? Destruição da tradição de ensino, destruição dos valores que permitiram construir o conhecimento, incluindo o conhecimento que deu origem aos computadores e à Internet. A partir deste exemplo absolutamente marginal, erige-se toda uma concepção de ensino que é apresentada como inovadora, mas da qual é erradicado de facto todo o acto de ensinar. Fazer a vontade a este senhor Tapscott significa reduzir toda a tradição de ensino a zero e com isso reduzir o ensino à pura nulidade. O professor já não ensina. Mas compreende-se, se não se for ideologicamente cego, que concomitantemente também o aluno não aprende. E é isto que está a emergir em muitos sítios do Ocidente.

Não pense o leitor que sou retrógrado tecnológico. Sou dos professores mais antigos a usar computador em tarefas educativas. Incremento o uso da Internet na pesquisa e das ferramentas que ela disponibiliza como apoio à aprendizagem. Isso, porém, não implica qualquer dissolução da minha responsabilidade última em ensinar os meus alunos, de viva voz, falando com eles, expondo e discutindo, reflectindo em conjunto. É para isto que servem os professores, não para gerir aprendizagem ou a utilização de gadgets.

Estes inovadores tecnológicos, estes inspectores Gadgets, que pululam em torno da educação, são um dos principais perigos para o futuro do Ocidente. São portadores de uma barbárie que visa reduzir a nada tudo o que construímos. Não sei se o Ocidente terá forças para resistir a esta barbárie nascida no seio da própria ciência, nascida de uma perversão ideológica que existe na transformação do conhecimento científico em tecnologia. O próprio poder político ocidental se transformou numa fonte de barbárie e de produção de niilismo. Se não for possível parar esta gente, então pagaremos muito caro a nossa impotência.

13/05/09

As teorias conspiratórias da gripe suína



O mundo sempre foi propício a teorias da conspiração. Estas são o sal da história. Sem uma conspiração por detrás dos acontecimentos, a história dos homens não passaria de uma narrativa insossa. Nisto revela-se a propensão metafísica da humanidade. Os factos históricos são puros acidentes, os quais têm a sua origem na essência verdadeira, a conspiração. Com a epidemia da gripe suína veio para a esfera pública a discussão de uma nova conspiração. Segundo os adeptos da teoria, o vírus teria sido fabricado em laboratório. Dividem-se, porém, os teorizadores em dois grupos. Num dos lados, estão os adeptos do acidente; no outro, encontram-se aqueles que defendem o fabrico propositado do vírus para infectar intencionalmente as populações e assim se venderem vacinas.

A pregnância destas teorias reside na verosimilhança dos seus supostos. Em primeiro lugar, é verosímil que pessoas ajam maldosamente com vista ao lucro. Faz parte da natureza humana. Em segundo lugar, o conhecimento científico e técnico está suficientemente desenvolvido para produzir este tipo de vírus. Em terceiro lugar, está instalada uma forte desconfiança entre as populações e os vários tipos de elites. Nestas incluem-se as elites económicas e científicas. Este terreno é fértil para todo o tipo de delírios da razão. Mas o problema central é este: e se o delírio não é delírio? Do ponto de vista jurídico, cabe aos teóricos da conspiração provar que ela existe ou existiu. Mas do ponto de vista da percepção social o problema é diferente: cabe àqueles que não conspiraram provar que de facto não o fizeram. Esta contradição parece insanável.

Se de facto a epidemia alastrar com com elevado número de mortes, a teoria da conspiração ganhará terreno e poderá mesmo ser alavanca de grande agitação social. Por isso, há, do ponto de vista político, todo o interesse em mostrar que o vírus que atormenta a humanidade apareceu naturalmente e sem intervenção demiúrgica humana. Com a intervenção da OMS, o problema deixou de ser apenas científico e tornou-se eminentemente político. Era bom que não se esquecesse isso.

13/03/09

Leituras


Todos sabemos que apenas se visa ajudar a melhorar a vida das pessoas, a curar doenças graves, etc, etc. Cientistas britânicos "mostraram pela primeira vez que talvez seja possível "ler" a mente de uma pessoa, observando apenas a sua actividade cerebral." Não era aí, na mente com a sua actividade cerebral, que residia a última reserva de intimidade? Não se pensou sempre que a liberdade de pensar, enquanto puro acto de pensar, era inexpugnável? Claro, os cientistas falam de tratamento da doença de Alzheimer, o que nos comove a todos, mas estes projectos, pois eles são vários, queiram ou não, estão a abrir as portas para a transferência do Big Brother de fora para dentro seres humanos. Existindo a técnica, não faltarão os "bons" motivos para a usar. Uma técnica que começa por ser qualquer coisa laboratorial, em breve se tornará de uso comum. As aplicações políticas serão as mais interessantes. Admirável mundo novo.

03/03/09

Desígnio Inteligente


O Zé Ricardo escreve aqui sobre o encontro a decorrer no Vaticano entre teólogos e cientistas a propósito dos 200 anos do nascimento Darwin e da teoria do "desígnio inteligente", uma teoria pseudo-científica que pretende ver na evolução das espécies um sinal do plano criador divino. Ele suspeita que a discussão está inquinada: «Digam o que disserem os eminentes cientistas, os teólogos irão sempre encontrar sinais de Deus na evolução das espécies pelo simples facto de desejarem aí ver sinais de Deus, visto que, para eles, o mundo não faz sentido sem sinais de Deus.» Mas se ele ler aqui descobrirá que os teólogos católicos mais depressa se acordarão com os cientistas do que com os defensores da teoria do "desígnio inteligente", de origem protestante e americana. Não quero dizer que não haja um ou outro católico que não gostasse de fundir ciência e crença religiosa, mas vejo com muita dificuldade o Vaticano cair nessa armadilha. É preciso não esquecer que a Igreja Católica possui muitas e fortíssimas universidades, produz muitos cientistas e que a tradição filosófica e o discurso racional são estruturantes do catolicismo. Como é que um intelectual notável como Ratzinger iria permitir que a fé e a crença em Deus dependessem de uma teoria que tem pretensões de ser científica? No Vaticano lê-se e estuda-se muito. A Igreja Católica dificilmente abandonará a diferenciação dos dois planos: o que é matéria de fé não é objecto de investigação empírica; a ciência não investiga o sobrenatural. Eu diria que este encontro talvez seja mais um sinal de conflito teológico entre duas versões do cristianismo do que uma tentativa da Igreja Católica cavalgar o triunfo de Darwin. Ela sabe que as vitórias humanas são sempre muito temporárias.

21/02/09

Ciência e ideologia


O Zé Ricardo, num interessante post onde refere o interesse de Álvaro Cunhal pela teoria de Darwin, escreve «A Ciência, por princípio e definição, não é ideológica. Mas é uma arma demasiado séria e poderosa para ser desprezada pelas ideologias.» Nestas proposições, que assentam num certo consenso iluminista, há um problema que me parece merecer pensamento. A questão poderá ser formulada da seguinte maneira: o que, na ciência, a torna digna de interesse por parte da ideologia? O que nela permite a sua exploração ideológica por parte das ideologias políticas?

O termo ideologia foi criado no início do século XIX, pelo filósofo francês Destutt de Tracy, e tinha o significado de uma ciência das ideias, tomadas estas como o conjunto de estados da consciência. A fortuna do conceito de ideologia nasce, porém, com a utilização feita do termo por Marx. Para este, a ideologia representava uma visão invertida, distorcida do real. De certa forma, é desta maneira que o Zé Ricardo a utiliza no seu post.

Mas se nós quisermos perceber o fenómeno ideológico, não podemos pôr de lado nem a primeira definição de ideologia dada por de Tracy, nem sequer uma longa arqueologia que terá um momento importante nas Ideias platónicas, e deverá também incluir obrigatoriamente o conceito de “idola”, de Francis Bacon. Também, para essa arqueologia, não é pouco importante a problemática judaica do combate à idolatria, a perversão na crença nos ídolos.

Onde deveremos inscrever a ciência dentro desta problemática? Não será ela uma arma contra toda a idolatria e contra toda a distorção que a ideologia introduz na relação do homem com a realidade? Sim, mas... A ciência não deixa de ser um produto ideológico, se aceitarmos a definição muito genérica dada por de Tracy. A ciência, ao lado de outros fenómenos como a filosofia, o senso comum, o mito, etc., faz parte dos sistemas ideológicos, tomados no sentido geral, com que a humanidade apreende e compreende o mundo. Entre a ideologia política, tomada como forma distorcida de compreensão do real, e a ciência há uma comunidade: são ambas formas de compreensão e de acção sobre o real. Este é um primeiro motivo que permite o aproveitamento pela ideologia política (totalitária ou democrática) da ciência. Esta pela sua natureza ideológica originária presta-se a estes aproveitamentos perversos.

Mas há ainda uma outra razão pela qual deve relativizar-se a primeira proposição do Zé Ricardo: «A Ciência, por princípio e definição, não é ideológica». A ciência não é apenas um produto ideológico, entre outros, produzido pela espécie humana, mas um produto que possui na sua raiz uma decisão ideológica muito específica. A instituição da ciência moderna com Galileu, depois continuada por Newton, etc., constrói um objecto de investigação por decisão ideológica. O que Galileu faz é definir aquilo que deve ser ou não ser considerado natureza para objecto de investigação. Esta decisão não está inscrita na natureza das coisas. Deve-se a uma opção fundada na consciência humana, a uma opção ideológica. Como certas leituras fenomenológicas mostraram, há uma pré-compreensão do que é a natureza, pré-compreensão que determina a definição de objecto de investigação, bem como a construção do corpo teórico, dos processos e métodos de investigação, etc. As ciências, tanto as da natureza como as sociais e humanas, assentam, dessa forma, numa tomada de posição (uma perspectiva unilateral) sobre os respectivos objectos. Desse ponto de vista, a ciência é ideologia e ideologia que se funda num determinado perspectivismo sobre o real. É por isso, pela sua natureza ideológico-perspectivística, que a ciência exerce uma enorme atracção sobre a ideologia política, seja ela de que quadrante for, também ela perspectivística.

Há ainda uma outra questão que mereceria atenção. As ideologias políticas modernas são, em geral, produtos posteriores ao nascimento da ciência moderna. Seria interessante seguir o rasto dessas ideologias e observar o momento e a forma como elas se encontraram com a ciência moderna. Talvez pudéssemos constatar um facto muito curioso: o berço das ideologias políticas modernas, daquelas que pervertem e distorcem a visão da realidade, situa-se no caminho aberto por esse acontecimento seminal que o foi a decisão metodológica de Galileu. Talvez, eu sei que estou a usar uma formulação eufemística, a ideologia política, enquanto visão pervertida da realidade, tenha nascido da sobredeterminação ideológica presente no acto originário que institui a própria ciência. Mais: as ideologias políticas seriam uma espécie de ganga proveniente do impacto social causado pela ciência moderna, uma espécie de espuma causada pela própria sobredeterminação ideológica da ciência. Que essa sobredeterminação ideológica da ciência moderna seja recalcada é aquilo que dá que pensar.

14/02/09

Heranças


Aqui se explica por que motivo há homens que são umas autênticas cavalgaduras. Afinal, é tudo uma questão genética. Há muitos milhões de anos, homens e cavalos tiveram um antepassado comum. Parece que era quadrúpede. Apesar da nossa evolução nos ter levado ao bipedismo, a tendência para o coice, a besteira e para agir que nem uma cavalgadura ficou anichada no cérebro. Heranças.

13/02/09

A santidade científica

Ontem foi dia de S. Darwin. Sempre me espanta o espírito religioso não apenas dos ateus mais acérrimos (a crença na inexistência de Deus é tão religiosa como o seu contrário), mas das gentes da ciência. Na galeria dos santos da ciência há alguns que são inevitáveis. S. Galileu, S. Darwin. Einstein está a caminho da beatificação. Estes santos têm os seus dias de culto e há cerimónias litúrgicas para os incensar. Não vejo, do ponto de vista da propensão geral da humanidade para a superstição, problema nenhum no assunto. No entanto, há duas pequenas coisas que sempre me acodem ao espírito quando vejo este tipo de rituais.

Em primeiro lugar, não esqueço que entre a ciência, produto da aliança entre a razão e a experiência, mediada pela imaginação, e a religião há um efectivo elo de ligação. Comte bem o pressentiu. A religião é um produto da imaginação, fundada numa certa experiência empírica do mundo e articulado pela razão. É do fundo religioso que vai emergir a filosofia, a qual estabelece o nexo, agora oculto, entre religião e ciência. Tende-se a esquecer que ambas são produtos das faculdades humanas e a obnubilar o efectivo traço que existe entre elas. Traço esse, aliás, que se manifesta na santificação e culto dos cientistas.

Em segundo lugar, a minha razão ri-se sempre um pouco (maldita razão céptica) com a pretensão da ciência como explicação do mundo. Não é apenas a revisibilidade a que os conhecimentos científicos estão sujeitos, devido ao progresso da investigação. É mais do que isso. Um dia chegará, poderemos imaginá-lo, em que as explicações científicas, isto é, o empreendimento da ciência, parecerá às mentes mais racionais desse tempo uma coisa tão irrazoável como hoje parece ser, para as mentes racionais, os discursos religiosos de Abraão, de Moisés, de Cristo, de Maomé, de Lao Tsé, etc. E estes discursos, podemos constatá-lo, representaram formas muito interessantes de razoabilização da vida humana.

Esta minha posição não representa uma atitude anticientífica. Mas entedia-me a tentação de absolutização, ainda que subreptícia, de uma coisa que só pode ser relativa e ter um significado relativo, pois é produto do espírito humano. Mas, note-se, o problema não está em retornar às velhas explicações criacionistas para contrapor a Darwin, ou ao cosmos ptolemaico-aristotélico em contraposição a Kepler e a Galileu. O problema é que talvez tenha chegado a hora de se começar a pensar na pós-ciência. Por vezes, interrogo-me que caminhos poderiam ser abertos por uma análise transcendental (atenção, à maneira kantiana) das faculdades humanas, agora porém iluminada pelos contributos da própria ciência, da neurobiologia, por exemplo.

Dir-me-ão: mas não será contraditório fundar-se na ciência a sua ultrapassagem? Eu respondo com duas perguntas: não foi na religião que se encontrou o fundamento da filosofia? Não foi na filosofia que se encontrou o alicerce que fez nascer a ciência?

27/11/08

Fé na ciência

A ciência é, à partida, uma construção racional. O curioso, porém, é que ela não consegue desligar-se do proselitismo religioso e da necessidade de cultuar os seus santos mártires, e, entre estes, o mais elevado, Galileu Galilei. Aqui, em pleno acto litúrgico, 35 investigadores lêem "Poema para Galileo".

17/09/08

Economia da testosterona

Uma equipa de investigação da Universidade de Aberdeen, no Reino Unido, chegou à conclusão que o tipo de pessoa que achamos sexualmente atraente varia em conformidade com os níveis de testosterona (aqui), de cada momento. Depois de muito meditar, achei que o estudo tinha elevado potencial económico. Talvez possa mesmo vir a ser um ponto de viragem na malfadada crise económica. Poder-se-á prever o surgimento, a breve prazo, de um kit com um aferidor salivar de testosterona e as respectivas pílulas hormonais, para casos de baixa produtividade. Vale mais uma pessoa acautelar-se, não vá sentir-se atraída por alguém que, noutro pico de produção glandular, se arrependa. Não faltarão clientes.

12/05/08

Da impotência dos homens

Há momentos em que a natureza nos recorda de forma dolorosa a nossa precariedade. Um sismo na China, ocorrido hoje, já tem 8500 mortos contados. As contagens, porém, continuam. O recente ciclone na Birmânia fez também um número indefinido de vítimas. Para os diplomatas ocidentais, mais de 100 mil.

As tradições religiosas viam, ingenuamente, nestes acontecimentos a acção da fúria divina perante a iniquidade humana. Nós, homens modernos, aprendemos que não são os deuses que assim se manifestam, mas as potências naturais e fazem-no indiferentes à nossa bondade ou iniquidade. Aprendemos também, em cada manifestação dessas potências, a impotência dos homens e a falsidade de ter alguma esperança perante os ditames da necessidade natural.

Aprendemos tudo isso, mas na verdade será que ganhámos alguma coisa ao eliminar os deuses da nossa explicação dos acontecimentos?

06/05/08

O estranho caso da foca que queria comer o pinguim

O mundo está mesmo fora dos eixos. Não é que agora uma foca macho tentou sem êxito copular com um pinguim-rei. Num mundo em que nada já espanta ninguém, espantaram-se os cientistas sul-africanos que, certamente animados pelo espírito dos reality-shows, acabaram por filmar o evento. Segundo relata o Diário de Notícias, este «foi o primeiro exemplo conhecido de ataque sexual entre animais de duas classes inteiramente diferentes, na circunstância mamíferos e aves.» Os pobres cientistas julgavam que a foca ia tomar o pequeno-almoço e comer, como lhes é habitual, o pobre pinguim. Afinal, a foca estava pensar mesmo em comer o pinguim metaforicamente, como quem diz «comia aquela gaja/o toda/o». Parece que o agressor, é assim que se fala da foca, não conseguiu comer, nem denotativa nem conotativamente, o pinguim, do qual não se conseguiu averiguar o género. Esta impotência científica deixa a humanidade perplexa e em suspenso devido a não saber se as putativas relações sexuais entre “classes inteiramente diferentes” são de natureza homo ou hetero, o que para as futuras aulas de educação sexual seria de uma importância crucial.

27/04/08

O retorno da fome

No último Jornal Torrejano, Jorge Salgado Simões escrevia na sua rubrica sobre o retorno da fome (ver aqui). Hoje, o Público dá um largo espaço ao problema, publicando o dossiê que vale a pena ler e guardar. A questão não está apenas no retorno em força de um problema que, para nós ocidentais, era coisa do quarto mundo. O problema é também de carácter moral: os êxitos conseguidos no desenvolvimento da ciência técnica e o desinteresse em resolver os problemas, como a fome, que afectam parte significativa da humanidade. Aqui também se pode perceber o que é a mercantilização da ciência e o abandono do Estado da área da investigação, ou a sua submissão às lógicas do mercado. Este visa o interesse daqueles que detém o capital das empresas. Mas há um outro interesse muito mais fundo, que é o interesse geral da humanidade em si mesma. Este interesse só pode ser defendido pelos Estados, se não abandonarem, como o estão a fazer, os homens à sua sorte.

04/04/08

Robots humanóides e futebol

O Instituto Superior Técnico vai organizar, segundo o De Rerum Natura, o ciclo de conferências “Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais”. No texto pode ler-se o seguinte: “Em 1997, Garry Kasparov, considerado por muitos dos seus pares como o maior xadrezista de todos os tempos, foi vencido por uma máquina programada: o Deep Blue.” Esfusiantes de entusiasmo, os cientistas ligados à robótica propõem-se o seguinte: “Para alguns dos cientistas que inspiraram originalmente esta iniciativa internacional de investigação e educação em Inteligência Artificial e Robótica [Lisboa o RoboCup 2004 – a edição anual do Campeonato Mundial de Futebol Robótico], o objectivo é que até cerca de 2050 uma equipa de robots humanóides vença num jogo de futebol a equipa humana campeã do mundo da modalidade.” Tudo bem.

Mas em toda esta história há uma moral muito interessante e de não menor poder de edificação: a ciência legitimou-se socialmente porque tornava o homem mais poderoso e dominador. A natureza ficava agora derrotada pelo ardil e engenho humano. A vontade de domínio guiou, durante séculos, a vontade de saber. Mas que pulsão habita agora a ciência que se propõe derrotar o próprio homem? Que direcção existencial indica a seta que preside a este tipo de investigação? O que leva uma espécie a procurar aquilo que a há-de derrotar? Se o êxito for tão grande como o que se passou no domínio e submissão da natureza, então o que espera a espécie humana parece ser um daqueles destinos distópicos de que fala a ficção científica. Será que teremos de voltar às lições, sobre Eros e Tanatos, do doutor Freud?