31/07/08

Comunicação presidencial

Afinal, sempre era um problema pessoal do Presidente. Cavaco sente uma beliscadura nos poderes presidenciais e decide convocar a artilharia pesada. Mas haverá um perigo de secessão? Pela comunicação, parece que Cavaco pretende prevenir uma deriva secessionista através da via legislativa ordinária. Mas fará isso sentido? Haverá um qualquer perigo para a independência nacional ou, mesmo, para os poderes presidenciais?

Para compreendermos esta inopinada intervenção de Cavaco teremos de recordar as palavras de Manuela Ferreira Leite, no sábado passado, que acusavam o PS de estar a abrir, com o novo estatuto dos Açores, um conflito com o Presidente da República. O que Cavaco veio fazer à televisão foi dar mais um passo, agora significativo, para pôr em cheque Sócrates e abrir caminho para Manuela Ferreira Leite. Não é que Sócrates não o mereça, mas Cavaco deveria ter vergonha dos queixumes que fez de Soares. Afinal, não tem pejo em levantar o papão de uma nebulosa secessão e de uma hipotética diminuição dos poderes presidenciais para fazer política pessoal. Explico-me: fazer uma política que lhe permita determinar o rumo da governação a partir de Belém. A coisa começa a ficar interessante. Quem será melhor, os spin doctors de Sócrates ou os de Cavaco?

Caminhos que levam a nenhures - V

Mata do Bussaco

Discriminações e outras capitulações

Todos nós estamos de acordo que ninguém deve ser discriminado com base na raça, na religião ou na orientação sexual. Como achamos essas discriminações imorais aceitamos que sejam criminalizadas. É isto que se passa nos países europeus. O que não imaginamos nunca é a capacidade criativa da justiça ao fazer a hermenêutica da lei. Um pobre cartoonista amador holandês estará sob investigação durante os próximos três anos por suspeita de ter violado a lei holandesa que proíbe tais discriminações (The Wall Street Journal). O que fez de mal este holandês? Uns cartoons que atingiam o Islão. É interessante como se torce a intencionalidade da lei. Uma coisa é perseguir judicialmente alguém que descrimina pessoas por serem muçulmanas, outra coisa é fazê-lo porque alguém que critica uma religião. No primeiro caso, o que a lei faz é defender a liberdade; no segundo, é atacá-la. Mas o mais importante neste caso é o caminho que a Europa está a seguir vergada ao medo da ira dos muçulmanos. A própria liberdade de expressão, que parecia ser o valor fundamental e inviolável do mundo ocidental, é agora drasticamente limitada. Isto não se passa apenas na Holanda. Os muçulmanos estão, a partir de uma estratégia de terror, a impor, nos países onde têm alguma expressão, uma nova forma de vida aos ocidentais. Não por acaso, é a liberdade o primeiro alvo da estratégia dos islamitas. Que aceitemos isto sem pestanejar mostra bem o grau de degradação que atingiu os nossos princípios.

A comunicação do Presidente

O Presidente da República anunciou que fará hoje, pelas 20h, uma comunicação ao país. Esta decisão só pode radicar numa situação absolutamente anómala. As várias hipóteses levantadas na imprensa e na blogosfera parecem irrelevantes. Falar das inconstitucionalidades do estatuto regional do Açores, mesmo com eleições em Outubro, ou de possíveis vetos presidenciais, ou do estado da economia, não me parece que justifique tão misteriosa comunicação. São situações que fazem parte do quotidiano da vida política numa democracia. Não se estando, também, na iminência de uma crise internacional aguda, nem à beira da guerra civil, o que poderá justificar a comunicação presidencial? Se Cavaco não se converteu à irrelevância, apenas um motivo muito forte que radique na figura do Presidente pode estar na base desta comunicação. Veremos.

30/07/08

Hélène Grimaud en Concierto

O fácil caminho do computador

O governo há muito que se desinteressou da qualidade da educação. Melhor, este governo nunca teve qualquer interesse pela qualidade da educação. O cerne deste desinteresse não reside na maldade dos membros do governo, a começar no primeiro-ministro. O cerne reside na ignorância e na incapacidade de reflectir. A ignorância e a irreflexão deixam-se surpreender imediatamente quando o governo confunde saber e técnica. Ao distribuir tecnologia pelas escolas, os governantes pensam que o país irá dar um salto em frente. Será um país de info-incluídos. É isto que anima o espírito de gente como Sócrates ou Lurdes Rodrigues. O problema, porém, é que o défice português não reside na incapacidade do indígena em manejar máquinas, mais ou menos complexas. O défice português deriva do uso sistemático das faculdades teóricas e da organização do pensamento. A isto a distribuição universal de computadores e de banda larga não responde. Pelo contrário.

O governo apostou em transformar os alunos portugueses em operadores de computadores. Mas isso é apenas reservar-lhes um lugar no novo proletariado. Não passa de mera substituição, se o for, do ainda recente «ir trabalhar para as obras». Só uma profunda ignorância estrutural dos governantes os pode fazer crer que este caminho leva a algum lado interessante e que o país ganhará com esta aposta. Apesar do incremento no investimento em tecnologia na área da educação, o país está a desinvestir no saber e na formação científica de alunos e professores. O caminho que estamos a trilhar pode ser muito alegre, animado e cheio de efeitos especiais, mas é muito perigoso. A ignorância e a irreflexão podem explicar as opções de Sócrates e de Lurdes Rodrigues, mas os portugueses não podem continuar a desculpar a impreparação, a busca de caminhos fáceis e o fogo-de-artifício no lugar do trabalho sério e rigoroso.

Um ódio popular aos professores

Num comentário (às 18h12 de hoje) a uma notícia do Público, um leitor insurgia-se contra o facto de os professores terem acesso a um computador por 150 € e uma ligação móvel à internet com um desconto de 5 € mensais. É muito curiosa a relação que os portugueses têm com os professores. Qualquer quadro de uma empresa tem um computador topo de gama e um conjunto de regalias de acordo com o seu estatuto na organização. Mas um professor, para a generalidade dos portugueses, é um caso especial, pois tem o dever de pagar os instrumentos de trabalho. Isto não é apenas ignorância, mas um ódio visceral a uma profissão, ódio esse que denota o desprezo que os portugueses têm pelo saber e por quem o distribui.

A China e a liberdade

A China tem o condão de agradar a gregos e a troianos. Os comunistas sentem-se confortados por um partido irmão ter o controlo do Estado de uma grande potência. Os liberais sentem-se reconfortados com um paraíso para exploração de mão-de-obra barata. Correntes tão antagónicas parecem mancomunadas no silêncio sobre o carácter totalitário do regime político chinês. Segundo noticia o Público, um professor chinês foi enviado para campo de trabalho por divulgar fotos de escolas que desabaram com o sismo de 12 de Maio, no qual morreram 70 mil pessoas. Os interesses, ideológicos ou económicos, valem mais do que essa coisa abstracta que é a liberdade.

Manuel António Pina - Quem vier atrás...

Porque a clareza se tornou, em tempos em que as palavras caíram nas mãos dos usurários, a mais rara das matérias-primas, vale a pena ler a entrevista que o presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática deu ao "Jornal de Negócios" sobre a situação de desastre do ensino em Portugal.

Maria de Lurdes Rodrigues realizou, de facto, o milagre grouchiano de partir do nada e conseguir chegar à mais extrema miséria. Diz Nuno Crato, a propósito da política dos exames fáceis de Matemática, que "daqui a dez anos somos capazes de olhar para o que se passou nos exames este ano e pensar que foi das coisas mais negativas que aconteceram na educação nas últimas décadas". Daqui a dez anos, os jovens formados na pedagogia da não exigência terão descoberto que, ao contrário do ME, "la vie ne fait pas de cadeaux" e deveriam poder pedir responsabilidades a alguém. Mas daqui a dez anos a ministra terá regressado às profundezas do ISCTE e os seus secretários de Estado ao anonimato, e não é provável que saiam da obscuridade para assumir qualquer responsabilidade. Como sempre, quem vier atrás que feche a porta. [Jornal de Notícias]

29/07/08

Ocidente & Oriente

O ESPÍRITO DO OCIDENTE - I

O pensamento que calcula faz cálculos. Faz cálculos com possibilidades continuamente novas, sempre com maiores perspectivas e simultaneamente mais económicas. O pensamento que calcula corre de oportunidade em oportunidade. O pensamento que calcula nunca pára, nunca chega a meditar. O pensamento que calcula não é um pensamento que medita, não é um pensamento que reflecte sobre o sentido que reina sobre tudo o que existe. (M. Heidegger)

O ESPÍRITO DO ORIENTE - I

O ser humano é uma criatura pensante, mas as suas grandes obras realizam-se quando ele não pensa nem calcula. Após longos anos de treino na arte do esquecimento-de-si, o objectivo é o de recuperar o «estádio de infância». Uma vez atingido, a pessoa pensa, embora não pensando. Pensa como a chuva que cai do céu; pensa como as vagas que se levantam no mar; pensa como as estrelas que iluminam o céu nocturno; como a folhagem verde que rebenta sob a doçura da aragem primaveril. Na verdade, ele próprio é a chuva, as estrelas, o verde. (D. T. Suzuki)

O ESPÍRITO DO OCIDENTE – II

Por outro lado, qualquer pessoa pode seguir caminhos de reflexão à sua maneira e dentro dos seus limites. Porquê? Porque o Homem é o ser que pensa, ou seja, que medita. Não precisamos portanto, de modo algum, de nos elevarmos às «regiões superiores» quando reflectimos. Basta demorarmo-nos junto do que está perto e meditarmos sobre o que está próximo: aquilo que diz respeito a cada um de nós, aqui e agora; neste pedaço de terra natal; agora, na presente hora universal. (M. Heidegger)

O ESPÍRITO DO ORIENTE – II

Um dos aspectos mais significativos na prática do tiro com arco – e em qualquer outra arte praticada no Japão e provavelmente noutros países do Extremo Oriente – é o facto de não ter quaisquer propósitos utilitários, nem se destinar à pura fruição estética. Na verdade, representa um exercício da consciência, com o objectivo de a pôr em contacto com a realidade última. Assim, não se pratica o tiro com arco no mero intuito de acertar no alvo, nem se maneja a espada com o fim de vencer o adversário; o bailarino não dança apenas para executar um movimento rítmico: acima de tudo pretende-se harmonizar o consciente com o inconsciente. (D. T. Suzuki)

As cidades morrem como as gatas


Tive uma gata siamesa durante dezasseis anos. Um dia deitou-se, mais uma vez, no cesto da roupa suja e acomodou-se de maneira a que a cabeça ficasse mais baixa que o resto do corpo. Começou a morrer. Não sei se foi a morte que veio ou a vida que a abandonou. Sei apenas que não morreu toda e inteira imediatamente. Havia partes do corpo que tinham morrido, enquanto outras ainda estavam vivas. Foi uma agonia que durou horas, até que a morte ficou completa e a cabeça deixou de ter sinais de vida.

Já há muito que não andava pela parte antiga da cidade (Torres Novas). Hoje, porém, fui comprar uns livros à Gil Pais e uns cd’s ao Balta, e deixei-me andar por aquilo que foi o centro vivo da vila onde cresci. Ao olhar para os negócios em trespasse, para as casas – umas caídas, outras abandonadas, outras cheias de solidão –, ao ver o ar cansado das pessoas, ao pressentir o desânimo que tomou conta de ruas e paredes, lembrei-me da morte da minha gata. Como ela, também o centro de uma cidade morre aos poucos. Não sei se é a morte que vem ou a vida que parte, mas sente-se um véu fúnebre que vai caindo aqui e ali, até que já nada do antigo esplendor – por pobre e provinciano que fosse – reste. As cidades são seres vivos e morrem como eles. A minha cidade está a morrer como morreu a minha gata: pedaço a pedaço, lentamente, numa agonia silenciosa. Olho-a como olhei a gata moribunda: impotente.

28/07/08

O programa e-escola – uma armadilha

Uma das bandeiras educativas do actual governo é a da disseminação da banda larga pelo mundo escolar. Alunos, professores e formandos das novas oportunidades têm acesso a um computador portátil por 150 euros, ficando a pagar cerca de dezassete euros mensais, durante três anos, por um serviço de banda larga também portátil. É aqui que reside a armadilha. O tráfego disponível é, por esse preço, de apenas 1 Gb. Um aluno que consulte uns blogues e aceda diariamente a umas quantas páginas da internet, em poucos dias atingirá o limite. Na prática, o aluno tem disponíveis cerca de 34 Mb diários para navegação. Se frequentar o YouTube ou fizer downloads de músicas ou filmes, então os pais bem podem abrir a carteira. Eis que aquilo que parece ser uma boa coisa para os alunos se pode transformar numa fonte de conflitos familiares e não passar de uma pura ilusão. Quem vai efectivamente ganhar com a e-escola, para além da propaganda governamental, serão as operadoras. Um bom negócio durante três anos.

O dia em que a Europa se suicidou

Infantaria alemã a caminho da frente (1914)

Faz hoje 94 anos que o império austro-húngaro declarou guerra à Sérvia. Foi o início da I Guerra Mundial e o começo do irrevogável declínio da Europa. Oito milhões de vidas foram consumidas num conflito onde o desenvolvimento estratégico estava completamente desfasado da potencialidade técnica do armamento disponível. A guerra de 1914-18 levou consigo uma geração promissora e gerou no seu ventre os vários totalitarismos que assaltaram a Europa nos decénios seguintes. De facto, aquilo que começou a 28 de Julho de 1914 só terminou 75 anos depois com a queda do muro de Berlim a 9 de Novembro de 1989. Pelo meio veio a depressão de 29, a ascensão do fascismo e do nazismo, a consolidação da deriva totalitária inscrita na genética do marxismo-leninismo, a II Guerra Mundial, a Guerra Fria, os processos de descolonização, mas também a segunda e terceiras vagas de democratização e a União Europeia. É impossível pensar o que seria o mundo e a Europa se a I Grande Guerra tivesse sido evitada, mas uma coisa parece certa: a dia 28 de Julho de 1914 pode ser considerado como a data em que a Europa se suicidou.

27/07/08

Caminhos que levam a nenhures- IV

Mata do Bussaco

Sharia

É provável que ainda esteja na memória das pessoas, pelo menos das mais interessadas, a extraordinária ideia do arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, de incorporar na lei inglesa a Sharia muçulmana. Talvez Rowan ache interessante os 30 enforcamentos levados hoje a efeito no Irão, em cumprimento da Sharia (Sol). Mas o que lhe falta explicar é como vai conciliar uma Igreja que pretende ordenar homossexuais e a Sharia que os condena à morte e os executa.

O comércio governativo

O estimável ministro da economia terá dito que o Governo é uma “direcção comercial de luxo”. Para além da fanfarronice expressa no termo “luxo”, esta afirmação é o sintoma claro da falta de princípios e da inanidade política de Sócrates e da sua gente. Desde muito cedo que a tradição política ocidental soube separar a esfera pública e a esfera privada. O mundo do comércio, com as suas direcções comerciais e as suas transacções fazem parte dessa esfera privada. A esfera da política tem uma dimensão universal e o governante, se o é efectivamente, cria condições políticas abstractas para que os privados possam perseguir os seus interesses sob o império da lei, mas não confunde a acção política com o mercadejar próprio dos particulares. Na verdade, quando não se sabe qual é a função real da esfera política, qualquer coisa serve para arremedo, mesmo que esse qualquer coisa esteja, de facto, fora dessa esfera e, se toma preponderância, seja um poderoso dissolvente do carácter universal e abstracto da política.

26/07/08

E assim continuamos

E assim continuamos
como se as rosas não murchassem
nem a pele dos dedos
se tornasse serapilheira
a que o pó cobrisse.
Apenas na janela uma aranha
tece o lugar onde
a vida deposita o incêndio
com que te olho pela manhã.

Se uma mão te deixo entre os cabelos
e a minha voz se alteia ao ver-te
é porque o mundo ainda se abre
sobre as planícies de musgo
ou um Verão de fetos desaba
no horizonte do olhar.

Continuamos a caminhar de mãos dadas
e cabelos soltos ao vento
como se essa fosse uma recordação
da longínqua juventude
que o destino nos roubou entre pétalas feridas
e frutos cariados a tombar da nespereira.

Se os anos sobre ti passam
eu não os conto
nem canto as horas que se esquecem
ou o silêncio que anuncia
a chegada de outra Primavera.
Pego em teus dedos
e guardo-os no cofre obscuro do coração:
às vezes, são sombra,
outras, água vinda do mar,
mas são sempre os teus dedos
que um dia contei
ao ritmo de uma canção.

Jorge Carreira Maia. Breve História do Coração.

Madredeus-Coisas Pequenas

Caminhos que levam a nenhures - III

Mata do Bussaco

Da social-democracia em Portugal

A política portuguesa vive um equívoco profundo desde a sua instauração em 1974. Esse equívoco está ligado ao ideário da social-democracia. Ainda hoje, na sua crónica no Público, Vasco Pulido Valente dizia que Manuela Ferreira Leite representa a facção social-democrata do PSD. Para sermos precisos, convinha sublinhar que, na verdade, nunca existiu social-democracia em Portugal. O Partido Socialista é aquele que maior legitimidade possui na reivindicação de ligação ao ideário social-democrata, pelas suas ligações aos partidos social-democratas europeus e à Internacional Socialista. Mas mesmo ele não se inscreve, pela sua origem fundacional, nessa corrente ideológica.

Os partidos social-democratas são de origem operária e estão ligados à II Internacional. Num primeiro período da sua existência eram partidos de carácter revolucionário que se transformaram, mais tarde, em partidos reformistas, mas mantiveram durante muitos e muitos decénios uma estreita ligação ao mundo operário e aos sindicatos. Veja-se, por exemplo, o Partido Social-Democrata alemão, o Partido Trabalhista inglês ou o Partido Socialista Operário Espanhol. O Partido Socialista português deriva não de uma tradição operária, mas de uma tradição republicana e burguesa de carácter intelectual e liberal que cresceu na oposição ao salazarismo. A verdadeira matriz ideológica do PS é o republicanismo e o antifascismo.

Falar de social-democracia no PSD é então um equívoco inominável. Se a tradição operária é inexistente no PS, então no PSD só por caricatura se poderá falar de tal coisa. Na desorientação que tomou conta da direita portuguesa em 1974, não houve coragem para encontrar matrizes claramente identificadoras das posições ideológicas dos eleitores de direita. Ferreira Leite ou Cavaco Silva estão muito mais próximos das tradições social-cristãs ou democrata-cristãs do que da genuína social-democracia.

No fundo, é este persistente equívoco na matriz ideológica dos dois maiores partidos portugueses que leva a situações como a actual, onde, de facto, não existe uma diferença essencial nas políticas a levar a efeito, nem sequer uma diferença fundamental na origem social dos quadros desses partidos. O problema da identidade de políticas entre PS e PSD não reside apenas nas imposições de Bruxelas e da União Europeia. Ela tem a ver com a sua identidade originária, apesar de ao PSD faltar a costela antifascista presente no PS.

Como não tem qualquer tradição em Portugal, a social-democracia é um saco onde cabe tudo e nada. Dizer que alguém, no mundo da nossa política, é social-democrata é dizer que ele pode defender tudo e o seu contrário. Só isso.

25/07/08

Karajan - Live In Tokyo '81 - Brahms Symphony 1, Ⅳ - Part 1

Jornal Torrejano, 25 de Julho de 2008

Isto de estar de férias abre caminho para o esquecimento do habitual. E foi assim que quase me esqueci da edição do Jornal Torrejano on-line. Então, vejamos o que nos traz a primeira página: PSD acusa executivo socialista de má gestão dos dinheiros públicos. Referência também para a Festa da Bênção do Gado termina com cortejo e Procissão do Senhor Jesus dos Lavradores.

Na opinião, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Depois, Carlos Henriques escreve A montanha pariu um rato!, este blogger, O melhor é ir de férias, Miguel Sentieiro, Ditadura do flash, Santana-Maia Leonardo, A caminho do Farwest.

Então até para a semana e vá passando pelo JT para ver as últimas. Bom fim-de-semana e boas férias para quem as tiver.

Caminhos que levam a nenhures - II

Mata do Bussaco

O parecer de Freitas do Amaral

Diogo Freitas do Amaral já emitiu o seu parecer e “considera válidas a suspensão de dois anos a Pinto da Costa e a despromoção do Boavista” (Sol). O ex-presidente do CDS vai descobrir as múltiplas artimanhas que vão surgir para desfazer a sua credibilidade de jurista. Há poderes fácticos que são, neste país, intocáveis. Freitas deveria sabê-lo. Por isso, há qualquer coisa de arrojado na aceitação da encomenda do presidente da FPF. Veremos qual o seguimento de mais uma novela jurídica, agora no futebol.

24/07/08

Abrem-se sulcos pela tarde

Abrem-se sulcos pela tarde
e dentro deles árvores
como dedos voltados para os céus.

As vozes que oiço
são pela aurora trazidas.
Têm nome, um rosto frágil
e uma lâmpada de azeite as ilumina.
Na cidade, tudo se torna assim tão precário:
os carros que passam, o vento
sussurrado a tolher de flores
a música de um piano,
cansado anoitece.

Nos sulcos da tarde
ardem ciprestes, velas de cera,
gestos surpresos, cavados,
ruas desertas entre as muralhas.

A chuva virá.

Jorge Carreira Maia. Poemas dispersos.

Diego Ortiz - Ad Vesperas (Napoli, 1565)

O caminho do nuclear - II

Agora são as confederações patronais que pretendem avaliar a produção de energia nuclear (JN). Em nome da competitividade económica. Com pequenos passos, a campanha pelo nuclear vai crescendo. Um dia destes, haverá consenso nacional. O pior vai ser quando determinarem o lugar das centrais.

Caminhos que levam a nenhures - I

Mata do Bussaco

Liberalismo à portuguesa

Segundo um estudo da DECO (Público), os medicamentos não sujeitos a receita médica já aumentaram 5,2% desde 2005, altura em que passaram também a ser vendidos fora das farmácias. Houve mesmo um medicamento que subiu 45%. Contrariamente ao que prometeu o governo, a liberalização da venda destes medicamentos não trouxe uma baixa de preços. Pelo contrário. Há uma coisa que parece clara: Portugal é um excelente lugar para perceber que as teorias liberais estão longe de ter valor universal. Não é por acaso que o povo português desconfia sempre que se fala de liberalização. Ele sabe que essa liberalização vai ser paga por ele. A hipotética eficiência do mercado raramente favorece o consumidor.

23/07/08

Lamentations III for Holy Saturday by Tomás Luis de Victoria

Quase um génio

Isto de olhar para a televisão, mesmo fora de casa, pode causar traumatismos diversos. Num dos canais generalistas há um concurso onde adultos tentam ganhar uns dinheiros mostrando que sabem pelo menos tanto como crianças de 10 anos, julgo. Traumatizante é ver um jovem estudante de Direito não saber qual a origem da numeração que mais utilizamos no dia-a-dia. Apesar desta ignorância cultural, este jovem, tendo em consideração a nova bitola das avaliações de matemática introduzida pelos exames deste ano, deve ser considerado quase um génio, pois “achou” que a origem não seria romana.

Esmeralda e a justiça enquanto novela

A metamorfose dos casos judiciais em novela não é apenas um truque de órgãos de comunicação social necessitados de assunto para preencher espaço editorial, nem uma simples emanação da necessidade de satisfazer os instintos voyeuristas de massas indigentes e alienadas. É um sintoma da profunda dificuldade da justiça encontrar um caminho claro para cumprir o seu papel de garante da paz pública. O caso Esmeralda, como outros casos, é um exemplo refinado de uma intriga romanesca, com as suas peripécias inesperadas e volte-faces dramáticos. Tudo se passa como se os detentores do poder judicial fossem incapazes de dizer o direito. Esta incapacidade de proferir o direito radica em duas coisas distintas. Por um lado na incapacidade de determinar o que se passou, como no caso Maddie. Por outro, na extraordinária, embora silenciosa, confissão de não se saber o que é o justo, como parece ser o que acontece no caso Esmeralda. Talvez toda a crise da justiça portuguesa tenha a sua raiz nesta ignorância do que é o justo, mesmo se para muitos juízes o justo não seja mais do que a lei positiva. Seja como for, a incerteza do que aconteceu ou a inquietação sobre o sentido da justiça são os pilares que permitem que qualquer caso se transforme numa narrativa romanesca. Onde há crise, há intriga e uma necessidade de partilhar essa intriga em forma de novela.

Bruxelas e a corrupção

Bruxelas suspendeu ajuda à Bulgária e faz aviso à Roménia. Motivo: falta de resultados no combate à corrupção e, no caso da Roménia, pouco empenho dos partidos políticos na erradicação do fenómeno ao mais alto nível (Público). Há quem veja nesta acção fiscalizadora da UE a prova da inexistência do fenómeno em Portugal. Seria, todavia, ilusório pensar que pelo facto de Bruxelas não ter penalizado Portugal, tudo tem corrido por cá pelo melhor. Todos desconfiamos que não. Mas para além do problema da corrupção, o resultado da aplicação dos fundos provenientes da União Europeia faz suspeitar que muitos deles deveriam ter seguido outro caminho e ter sido utilizados de outra forma. Podemos gostar muito das rotundas e outras obras de iniciativa múltipla. A verdade, porém, é que não tardará muito que só a Bulgária e a Roménia estarão atrás de nós. Vá lá saber-se a razão.

22/07/08

Voo lento de abelha

Voo lento de abelha
na terra tudo incendeia.

Ave, onda e centelha.

Jorge Carreira Maia, Poemas Dispersos.

Nigel Kennedy - Bach - BWV 1060

I - Allegro

II - Largo

III - Allegro

Perante o espelho

R. Magritte - The Art of Living


Estou sentado, num quarto de hotel, diante de um espelho. Escrevo enquanto me olho. Os cabelos que ainda restam estão já bastante brancos, a barba também. Não é um exercício de narcisismo. Como seria possível? Nem, tão pouco, de nostalgia, embora ainda há tão pouco fosse incapaz de pensar-me assim. O efeito do espelho perturba-me. Nunca escrevi diante de espelhos e aquilo que vejo são os despojos da vida. Iludimo-nos, quando somos novos, pensando que o corpo é um princípio de afirmação, mas agora o espelho revela a verdade, o corpo é o que fica daquilo que foi consumido. Da vida apenas se tem direito a ver o que resta. Oiço o concerto em C minor, BWV 1060, de Bach, num estranho arranjo, e é isso que me permite escrever perante a imagem que o maldito objecto insiste em devolver-me. Fecho os olhos e a música continua, arrasta-me. Sigo-a e esqueço-me, perdido na exactidão matemática que se desprende do que oiço. De facto, é verdade que Deus muito deve a Bach.

A virtude da discrição

Alípio Ribeiro, antigo director da Polícia Judiciária, em escrito de opinião considerou que o caso Maddie não deveria ter sido arquivado já. Não é que o senhor esteja inibido nos seus direitos cívicos, mas para pessoas que ocuparam certos cargos, como é o seu caso, deveria existir um dever de silêncio. A sua opinião em nada contribui para melhorar a justiça, como, aliás, parece pouco ter contribuído a sua acção para a resolução do caso. A discrição é uma virtude pouco apreciada, hoje em dia, em qualquer esfera dos assuntos públicos.

21/07/08

Monteverdi - L'Orfeo - Savall

Caso Maddie, uma tristeza

Para além da dor que todos partilhamos pelo destino – um destino invisível – de uma criança, o caso Maddie acrescenta uma outra dor a todos os portugueses. Se preciso fosse uma prova, este caso mostrou à saciedade a nossa natureza provinciana e que, entre o Ultimato britânico de 1890 e este caso, nada mudou no contexto das relações internacionais. Os ingleses, talvez com razão, tratam-nos como se fôssemos menores e não merecêssemos a consideração devida a gente autónoma. O caso foi arquivado, o que não se pode arquivar é a triste forma como tudo foi conduzido desde a primeira hora e a sensação de medo e de subserviência que todos pressentimos ter existido por cá. Uma tristeza.

Um país de empresários

Antes de aparecer o génio da política Pedro Passos Coelho, o PSD tinha na cartola um outro génio. Dava pelo nome singelo de António Borges. Figura fantasmagórica que pairava no ar como uma ameaça. Parece que a sua natureza genial se tem vindo a desfazer, mas ele está mais presente do que nunca. Agora é vice-presidente da congregação laranja. Hoje teve direito a artigo de opinião no Público. Do alto da sua antiga genialidade diz-nos coisas extraordinárias como esta: «Portugal é um país de empresários.» Com medo de que os indígenas não compreendessem acrescentou: «Não precisamos de ir ao período das Descobertas para nos apercebermos do espírito de iniciativa e do gosto pelo risco que muitos portugueses evidenciam, desde que as condições sejam favoráveis ao empreendedorismo.»

Mas que exemplos o ex-génio encontra para sustentar tão extraordinária tese? «Na década de 60, Portugal foi um dos países de crescimento económico mais rápido do mundo.» E acrescenta o segundo caso: «Entre 85 e 95, a economia não só cresceu muito depressa, mas também se transformou profundamente, com o aparecimento de muitas novas empresas e o fim de muitas outras.» Olhemos para a realidade da nossa propalada vocação empresarial. Década de 60, Borges fala na EFTA, mas esquece a lei do condicionamento industrial (vigorou até 69), a ausência de direitos sindicais e o controlo dos conflitos sociais através da polícia política e da censura. No segundo caso, todos percebem o gosto empresarial: foi nos tempos áureos dos fundos da CEE.

Sem querer, António Borges mostra bem o contrário daquilo que pretenderia afirmar. Será que as “condições favoráveis ao empreendedorismo” que ele defende passam pelo condicionamento industrial, a polícia política, o fim dos direitos sindicais, o retorno da censura e o dinheiro fácil, tudo isto sob a mão mais ou menos pesada do Estado? Quando um ex-génio da política e economista liberal de renome internacional – segundo diziam – diz coisas destas, o melhor é ir pregar para outra freguesia. Um país de empresários? Só se for de jogadores da bola e de raparigas do alterne.

Notícias da China

Da China sabe-se muito pouco. O regime de partido único e o controlo da informação não deixa perceber as clivagens que atravessam a sociedade chinesa. Mas as duas explosões que aconteceram hoje em autocarros deixam entrever uma realidade não muito celestial (Público). Difícil será ver, nestas explosões e na morte de gente inocente, a mão dos amantes da liberdade e da democracia. A China é, muito provavelmente, uma panela de pressão cujo conteúdo estará em ebulição. Se a tampa for subitamente retirada não se sabe muito bem qual será a dimensão dos estragos que inevitavelmente acontecerão.

20/07/08

Um retrato do país em 3 primeiras páginas

Na primeira página do Público noticiava-se “trabalho infantil para empresa que produz roupa para a Zara”. Por seu turno, o Diário de Notícias chamava para manchete “classe média já pede comida por e-mail para as misericórdias”. A miséria une ambas as manchetes. Na sexta-feira passada, Vasco Pulido Valente escrevia: «Numa sociedade miserável, o que se redistribui é sempre a miséria». Esta é a essência da sociedade que conseguimos construir com os dinheiros vindos da Europa. Uma sociedade miserável, que reproduz miséria e que distribui miséria. Talvez na primeira página do Jornal de Notícias se encontre uma pista ou um sinal do problema: «Inspecção arrasa gestão hospitalar».

19/07/08

Nostalgias

As FARC colombianas fizeram mais dez reféns. Há forças políticas, em Potugal, que não condenam as FARC para não reforçar o presidente Uribe. O problema, porém, é que ter por companhia gente que vive do narco-tráfico e do sequestro de pessoas não é lá muito aconselhável, principalmente se se quer viver numa democracia e com as regras desta. Há nostalgias muito desagradáveis.

O futuro presidente de Marco de Canaveses

Está armada a confusão em Marco de Canaveses. Avelino Ferreira Torres, malograda a sua exportação para Amarante, decidiu recandidatar-se ao Marco. Iria como independente se o CDS-PP não o apoiasse. A comissão política local (seja lá isso o que for) do agrupamento decidiu logo apoiá-lo. Mas agora o gabinete autárquico do partido veio dizer que não, não senhor, que Avelino não será candidato por tão nobre agremiação. Independentemente das guerras que venham a acontecer dentro do partido de Paulo Portas, eu aposto que o engenheiro Avelino vai ser o próximo presidente de Marco de Canaveses.

Valentim, Vieira e o silêncio

Nas declarações prestadas por Valentim Loureiro após a leitura da sentença no tribunal de Gondomar, há uma coisa em que ele tem absoluta razão. Confrontado com a exigência, feita por Luís Filipe Vieira, da sua demissão da Assembleia Geral da Liga, Valentim disse o essencial: “Aconselho-o a estar calado. Se estou na AG é porque ele propôs e me apoiou.” É verdade. E também é verdade que Vieira deveria fazer um voto de silêncio. Por muitas razões que possa ter, os tiros que dispara parecem todos de pólvora seca. Há coisas em que mais vale estar calado do que dar oportunidade aos adversários para ridicularizarem o nome do Benfica.

As opiniões de Passos Coelho

O novo génio da política nacional, Pedro Passos Coelho, acha, segundo o Público, que o PSD “precisa de apresentar um projecto alternativo e um discurso de esperança e não pode querer ganhar com o descontentamento face ao PS.” Se o problema for o de criar um projecto alternativo, a coisa não é assim tão difícil. Uma equipa de sábios organiza a papelada num fim-de-semana. Também ter um discurso de esperança não será complicado. O que a novel estrela da política nacional parece esquecer é que qualquer receita que exista será sempre idêntica à actual ou ainda, para a maioria dos portugueses, mais tenebrosa. Alternativas, esperanças, tudo palavras bonitas e pensamentos geniais. O problema é a realidade. Talvez essa conte para pouco.

18/07/08

Cedência ao espírito do tempo

Há blogues de personalidade firme. Faça frio ou calor, chova ou vente, eles lá se mantêm fiéis ao seu dono e ao seu projecto. O A Ver o Mundo é um blogue mais volúvel, não muito fiel, nem ao próprio dono. E, sendo assim, faz concessões ao espírito do tempo. Vende-se, dirão alguns. Como um camaleão, ele adapta-se não ao meio envolvente, mas à temperatura que amolece os neurónios de quem o produz. Decisões drásticas: suspensão do ciclo “Exodus”. Está demasiado calor para tanto êxodo. São muitas linhas para ler no monitor. Assim o que resta do ciclo fica lá para Setembro, se o tempo refrescar. Também esta ideia de um poema por dia – próprio ou pedido de empréstimo – fica suspensa. Não quer dizer que a poesia não apareça em época estival. Aparecerá, mas sem grande densidade textual, mais leve, talvez menos energética, quem sabe?

Espera-se que o blogue continue durante a época de banhos. Este ano o blogger não se ausentará da pátria. Está à espera de ser avô por afinidade e a ânsia da avó (por inerência genética) contamina os projectos viageiros. Como está tudo em pulgas, não se admirem que este blogue derive para coisas menos sensatas, para não dizer coisas mais ligadas à puerícia. Seja como for, o desenlace só se espera lá para Setembro, mas nunca se sabe, com o calor que está. Imaginem só quando chegar a altura do blogger ser avô (por inerência genética). Penso que qualquer deriva para a infantilização da forma como se olha o mundo estará perdoada.

Matt Pepper Trio - Une Femme


  



Conheci o site Jamendo graças ao Os dias comuns. É um lugar onde se pode ouvir música e fazer downloads legais e gratuitos. É evidente que não encontra lá artistas consagrados, mas muita gente que vai fazendo a sua música e procura, assim, furar o cerco das editoras comerciais. Nem tudo o que por lá há é bom e inovador, mas encontram-se coisas interessantes e divertidas, como este álbum Une Femme do Matt Pepper Trio. Para ouvir com o calor que está, sobretudo para amantes da língua francesa. Um site a explorar.

Ora adivinhem lá

Não há nada como as redes de solidariedade para ajudar alguém em dificuldades. A Visão – revista herdeira do defunto O Jornal – tem uma rubrica denominada Radar: flashback, que pretende ser uma leitura pessoal (de um convidado) dos acontecimentos mais importantes da semana. O convidado escolhe as boas notícias e as más. Esta semana a convidada foi Lígia Amâncio e entre as boas notícias escolheu os Progressos na Educação. E o que diz a ilustre convidada? Diz o seguinte: «A Comissão Europeia identificou progressos nalguns indicadores da educação. Entre o muito ainda a fazer, destaca-se a socialização de uma ética de trabalho que já se poderá ter agora repercutido nos resultados dos exames de Matemática. Há que assegurar a sustentabilidade das melhorias, apesar dos interesses particulares que desprezam as estatísticas da educação e o sucesso dos alunos.» Assim, preto no branco, para que ninguém se engane na leitura.

A esta douta senhora o facto de se suspeitar – e suspeitar de forma generalizada – de que a melhoria dos resultados assenta na ética da facilidade das provas não incomoda minimamente. Foi uma nova ética do trabalho – não se sabe muito bem onde existiu essa revolução ética, mas deve ter ocorrido. Interessante, também, é a conexão que a senhora estabelece entre “interesses particulares” e desprezo pelas “estatísticas da educação e o sucesso dos alunos”. Aprendi, então, que aqueles que acham o actual sucesso dos alunos uma mera manobra estatística sem qualquer repercussão efectiva nas aprendizagens reais defendem interesses particulares. Mas neste caso, eu estou de acordo com a senhora, pois esses defendem os interesses particulares de milhares e milhares de alunos vítimas da actual política educativa. Mas posições como a de Lígia Monteiro são muito úteis para aqueles grupos sociais cujos filhos estudam em instituições onde as políticas do sucesso e a nova ética do trabalho têm mais dificuldade em penetrar e onde se valorizam as aprendizagens efectivas e não a ética do mero arremedo.

Falta apenas explicar quem é esta senhora. É uma ilustre catedrática. De onde? De onde haveria de ser? Do ISCTE. E em que área? Caro leitor, então não se vê mesmo: Psicologia Social e das Organizações. Ainda é vice-presidente da FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia). A solidariedade é uma coisa muito bonita. Azar mesmo é o destino daqueles alunos com grandes notas a Matemática e que vão penar duramente, nos próximos anos, nos cursos que a exigirem com seriedade. Mas isso já deve fazer partes da reacção na educação.

Pobre Menezes

Para quem disse que se ia manter em silêncio, não está mal. Luís Filipe Menezes arrasa hoje, no DN, a gestão de Manuela Ferreira Leite à frente do PSD, um mês e meio depois de eleita. Independentemente do maior ou menor acerto de algumas das afirmações, o que emerge é, porém, um rosário de auto-complacência mesmo que disfarçado com uma espécie de análise histórica do PSD. A dado momento Menezes diz: «O PSD só "tolerou" dois líderes em três décadas: Sá Carneiro e Cavaco Silva. É decisivo que os seus militantes e apoiantes entendam o porquê de tal bizarria.» Bizarria? Por exemplo, será muito diferente do PS? Quem é que o PS suportou como líder nestes 34 anos? Soares, Guterres e, agora, Sócrates. Homens com o prestígio de Sampaio ou de Constância foram postos a andar. A única coisa que torna tolerante um líder num partido de poder é a solidez que ele demonstra para o alcançar e manter. Tudo o resto é conversa de sopeiras a perorar sobre a maleficência da política. Pobre Menezes, julgava-se um ás da política e afinal não passa de presidente de câmara. É a vida.

Jornal Torrejano, 18 de Julho de 2008

Hoje, sexta-feira, é dia de Jornal Torrejano e ele, o jornal, já está disponível on-line. Para começar uma história de interrogatórios no Centro Hospital do Médio Tejo: Administração interroga profissionais para saber quem lançou abaixo-assinado. Referência ainda para: Motocross regressou à pista de Alqueidão. Não esquecer também a “Tradição com futuro” na festa da Bênção do Gado em Riachos, que começou ontem.

Na opinião, abra-se com o cartoon de Hélder Dias e depois passe-se para as crónicas da semana: Carlos Henriques escreve Golpe de Estado no futebol! , Carlos Nuno, Somos assim…, este blogger, Questões de Memória: Reagan e Thatcher, José Ricardo Costa, Ivan Iliich on the Beach, e da outra margem Santana-Maia Leonardo escreve A mulher e as tatuagens.

E antes de acabar, referência para uma notícia de última hora do JT. O Operário Meiaviense já tem direcção. O blogue é meu e eu escrevo o que me apetece e o Operário é o clube da aldeia onde nasci, o meu pai foi um dos fundadores e foi presidente. Houve não sei quantos presidentes da família e na direcção ainda lá vejo nomes que sei serem meus primos mais ou menos afastados, bem como de gente que andou comigo na escola. Aqui fica a referência e força Operário. Mesmo que fique no último lugar da última divisão regional, o importante é que na Meia-Via se continue a jogar à bola. É uma tradição. Depois desta tomada de posição patriótica, um desejo de bom fim-de-semana para todos. E não se esqueça de ir vendo as últimas no Jornal Torrejano on-line, bem como de participar na votação sobre a remodelação na Praça 5 de Outubro.

17/07/08

Exodus - XXIV

Por vezes corria um sopro, o ar ao de leve tocava
as folhas da macieira e enxertava vida nas pedras,
brancas de tanto uso, e dissolvia-se no horizonte.
Se o perscrutavam, apenas ouviam
o zunido nos telhados, a música rangia. As pessoas
passavam e olhavam como se ao olhar ouvissem,
mas tudo voltava à apressada calma
com que os dias enchiam
as horas vagarosas da infância,
olhos perdidos nas aventuras, chegavam
naqueles livros de papel reles, trocados
na azáfama com que os leitores preenchiam as tardes,
as de verão, digo, naquela terra da infância cheia
de sapateiros e latoeiros e tanoeiros e barbeiros
e um exército de carpinteiros. Ouvi quando disseste:
também farão uma arca de madeira. Mas eles partiram,
foram colher flores nos campos, depois afastaram-se
cobertos de nuvens, traçando ruas de azevinho,
casas remendadas de giestas, afastaram-se uivando,
esquecidos da arca de madeira, esquecidos de ti,
não sabendo o nome, pois lho roubaram
ao pôr os pés no chão, ao inscreverem no musgo
rasgos de solidão, soletrando crepúsculos, agitando mãos,
se carros passavam deixando-os na poeira, gritando
pelas tarde de paixão, quando a cruz se elevava
e corria um sopro, o ar ao de leve tocava as folhas da macieira
e enxertava vida nas pedras brancas, então as guardavam
nos bolsos das calças, uma ainda resta,
presa no fundo negro onde habita o coração.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Jacques Loussier plays Bach, gavotte D major

Hoje um vídeo pela contaminação e contra a pureza de estilos. Bach em tons jazzísticos.

Sócrates e o notável governo angolano

Aquilo que faz a necessidade de correr. Certamente para cair nas boas graças dos dirigentes angolanos, José Sócrates não se poupou nos elogios à meritória obra da governação do MPLA. Considerou que o trabalho do governo angolano é a “todos os títulos notável”. Assim, sempre que lhe apetecer dar umas corridinhas no centro de Luanda, por certo não será o governo que o impedirá. Se há coisas que mostram que o poder, dentro do PS, do clã Soares está pelas ruas da amargura, são estas. Notável, mesmo.

O caminho do nuclear

Apesar de o governo estar apenas voltado para as energias renováveis e a eficiência energética, apesar de Manuela Ferreira Leite pensar que a intervenção de Constâncio sobre o problema “apenas serviu para desviar as atenções”, a verdade é que a opção pelo nuclear lá vai fazendo o seu caminho. Hoje foi Jerónimo de Sousa que não acha, apesar de o PCP não defender essa alternativa, que seja “um sacrilégio discutir essa matéria”, defendendo, caso haja inclinação pelo nuclear, a necessidade de um grande debate. Marcelo Rebelo de Sousa vai mesmo mais longe e diz que o governo deve nomear comissão de especialistas para fornecer informação credível que oriente o debate sobre o problema. Como se vê, a coisa vai já relativamente rápida.

O desvelo de Van Zeller

O presidente da CIP, Francisco Van Zeller, terá dito: «É injusto que este Governo esteja a pagar de uma maneira tão severa a crise internacional.» Se era preciso mais alguma coisa para demonstrar a orientação, no plano dos interesses sociais em conflito, do governo Sócrates, o desvelo de Van Zeller resolveu o problema. Não fora a crise internacional e a pátria iria em caminho glorioso, depreende-se. Mas nestas coisas há sempre aquela pergunta desagradável: glorioso para quem?

16/07/08

Exodus - XXIII

Quando a face lhe floriu estava rubra.
Um fogo consome, no cume do monte,
a caruma pela vida ali amontoada.
Inocente ainda era e desenhava fábulas
no papel pardo, noutros dias alguém o usava
para ensopar óleo e logo o deitar fora.

Quando na rua gritavam, se gritos
se ouviam, eram quimeras o que desenhava,
a cabeça de leão a urrar e do corpo
uma cabra descia, se da cauda um fogo
se desatava. Eram dias de fervor
e no jardim as rosas murchavam, enquanto
os caminhantes que caminham no caminho
semeavam luzes e terrores, folhas murchas
entre ervas secas pelo vento,
da serra caía, frio e invernoso mesmo se
quente era o verão. Não havia procissões,
nem touradas, nem gente a uivar pela estrada.

Apenas uma pele delicadíssima escondia os dedos,
e luzia, cobria de vozes a solidão.
Inocente ainda era e compunha palavras,
as sílabas delicadas e em cada letra punha
uma pedra de cinza e uma mágoa fatigada.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Tomas Luis de Victoria - O Magnum Mysterium

As palavras de Constâncio

Vítor Constâncio veio dizer o óbvio perante a actual situação energética do país. Por muito que a QUERCUS grite ou o governo afiance que só pensa nas energias renováveis e na eficiência energética, toda a gente percebe que o actual modelo de produção e consumo de energia não se pode manter. Quase todos nós simpatizamos com o não ao nuclear. De certa forma fomos educados pela contestação à central nuclear de Ferrel e pelos grandes desastres das centrais nucleares estrangeiras. Mas será que queremos retroceder no uso da energia? Queremos mesmo abdicar do conforto que sobre ela se construiu? Já se percebeu que não serão moinhos de vento que responderão ao problema. O pior, porém, é que o problema terá mesmo de ser respondido.

A teia do ISCTE

Pedro Abrantes é um sociólogo que pertence ao Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE. Hoje o Público dá à estampa uma carta sua onde se insurge contra a ineficácia, injustiça e anacronismo das reprovações escolares. Apoiado em estudos que tem desenvolvido, argumenta que o que está na base do desempenho negativo dos alunos não é a falta de estudo mas a sua origem sócio-cultural. Argumenta também que a reprovação apenas conduz a que o aluno estude cada vez menos. Adiciona a tudo isto os habituais dados da OCDE e os milhões de euros do erário público gastos no exercício.

Até aqui tudo bem. Esperemos que os estudos possuam fiabilidade científica, pelo menos aquela que se poderá esperar de uma área como a sociologia. Só há dois pormenores que tornam a coisa um pouco desagradável. Em primeiro lugar, há uma crítica aos críticos da escola “facilitista”, onde o sociólogo faz gala do seu purismo lexical e sublinha a incongruência de não só se usar um vocábulo inexistente, “facilitista”, como os dados apontarem que a escola portuguesa é a mais difícil da OCDE (onde há mais retenções). Veio tomar partido. Em segundo lugar, advoga aquilo que parece ser prática de outros países (não indica quais, nem que práticas) e que se percebe ser a intencionalidade do actual Ministério da Educação: «Diversos países europeus já chegaram a essa conclusão e têm substituído as reprovações por sistemas diversificados de acompanhamento e apoio aos alunos com menor aproveitamento, o que não conduziu a mais indisciplina nem a menos estudo. Pelo contrário.» Mais uma vez veio tomar partido.

De tudo isto, cabe dizer o seguinte: o problema não está no acompanhamento desses alunos, mas na eficácia desse acompanhamento e do empenho que alunos e famílias dão a esse esforço suplementar da instituição escola; também está em causa a ideia de um currículo idêntico para todos os alunos, pelo menos com a amplitude que existe neste momento; em terceiro lugar, há qualquer coisa de tenebroso neste tipo de discurso. Uma coisa é dizer que os estudos indicam a falência dos modelos usados relativamente à reprovação de alunos, bem como a das explicações das causas do insucesso. Outra coisa, porém, é a partir daí indicar o caminho político que se deve seguir. Como todos sabemos, com os mesmos estudos poderemos indicar várias políticas diferentes e todas elas fundadas nessa «objectividade científica». Poder-se-ia, por exemplo, argumentar que o trabalho com os alunos retidos não é o mais adequado, ou que o sistema não fornece alternativas reais ao equilíbrio da decisão dos professores em fazer transitar ou reter um aluno, etc. Depois, como o leitor mais atento não deixará de perceber, surge implícita a conexão ISCTE-ME a fazer-nos pensar numa teia de afinidades electivas, digamos assim. Bem, yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay…

15/07/08

Exodus - XXII

Se os dias aqueciam, fechavam-se as portadas
depois de correr as cortinas, e o vidro reflectia o sol,
inundando de raios o pequeno quintal onde
as varejeiras zuniam sem descanso. Por vezes,
sombras havia na cal que infestava
de branco as tensas paredes, agitavam-se
como pássaros ao luar e recolhiam-se
casa adentro. Outras, ficavam por ali
a anoitecer, girando lentamente, enquanto
o vento soprava da serra e tingia o calor
com nódoas de frescura, vindas sabe-se lá de onde.

Na estrada passavam gigantes empoleirados
em cavalos, agora bicicletas de grossos aros,
imitavam heróis de corridas, e assim se levantavam
do selim, pés presos aos pedais,
músculos retesados sob calças apanhadas
por mola de madeira, e atacavam o leve declive,
antes de desaparecerem, a curva os escondia,
como se uma multidão os esperasse
e uma meta lhes desse o fim da cavalgada.
O cavaleiro, em suor desfeito, podia então,
em fonte de pedra, lavar a cara,
matar a sede e olhar o vazio, a tudo rodeava.
Não haveria banquete, nem coroa de louros,
tão pouco um Píndaro o cantaria, como
aquele o fez a Hierão ou a Crómios, ambos
de Siracusa, quando ganharam, em imortais
sprints, as corridas, nos jogos os
deuses aos homens as impunham.

Quando as janelas se abriam, se as abriam,
via-se, ao olhar para fora, a erva rala
em terreno aberto, restos de trigo, vento
e sol o batiam, maçãs e laranjas ao abandono
no chão, o cansaço as tomara por dentro
e a férrea vontade, às árvores as ligavam,
decaiu, um sentimento de ausência as acometeu
e afrouxou do pedúnculo a firmeza
e com surdo bater, um baque dir-se-ia,
o chão as recebeu, entre ervas,
pedaços de lama, gravetos caídos
e já secos pela inclemência da luz.
Neste abandono, havia mãos
que cuidavam de apanhar os frutos
ainda não tocados e uma voz dizia
e do sobejo comam os animais do campo,
e uma pequena procissão por ali vinha
com andores, anjos saltitando, um gato
amarelo, daqueles que havia nas padarias,
fugia de um inimigo imaginado
e entrava, por um buraco, para uma casa
de tijolo vacilante, branqueado pela cal,
onde se guardavam utensílios de lavoura,
restos de coisas que a vida trazia, chapéus
de chuva, as varetas partidas, sacos de plástico,
um monte de jornais velhos, a carcaça de
algum brinquedo, as mãos criminosas
de uma criança o desmontara.

Se os dias aqueciam, fechavam-se as portadas
depois de correr as cortinas e o vidro reflectia o sol.
As sombras partiram e o meio-dia
é sempre tão escuro que os cavaleiros
deixaram as bicicletas em casa, passam
velozes em carros de combate. Aos caídos
frutos ninguém apanha, nem procissões de animais
vêm, no fulgor da tarde, roer os sobejos
que a terra ainda dá. O gato amarelo, daqueles
que havia nas padarias, morreu,
a última vendedeira de pão fechou a porta,
onde já ninguém passava a pé ou a cavalo duma bicicleta.

Ao longe, apenas as varejeiras zunem.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Alfred Schnittke - Concerto Grosso №1 (fragment)

Sobre a impetuosidade e a mobilização

As editoras Círculo de Leitores e Temas & Debates organizaram uma colecção denominada Clássicos da Política. A última obra editada – a terceira da colecção – é O Príncipe de Maquiavel, numa nova tradução de Diogo Pires Aurélio, que assina também uma introdução extensa, documentada e orientadora informada da leitura do texto.

Foi com esta nova edição que retornei ao extraordinário texto de Maquiavel. Quem quiser meditar a natureza dos homens pode começar por aqui e talvez em poucos outros lugares encontrará lição mais adequada. Mas deixemos de lado essa meditação sobre o vício e a virtude da vontade humana.

O texto do florentino é o ponto de partida daquilo que hoje se chama ciência política, uma reflexão sobre o que é a política e não sobre aquilo que deveria ser. Deste ponto de vista, O Príncipe é um dos textos que inauguram a modernidade, sob cuja sombra ainda hoje, cerca de cinco séculos depois, vivemos.

Maquiavel olha para os homens, neste caso os príncipes, como dotados de uma certa natureza petrificada. Os espíritos impetuosos ou cautelosos triunfam se os tempos estiverem adequados à sua índole. Mudando-se, todavia, os tempos, a vontade individual permanece presa à sua inclinação e ao seu modo de ser o que os arrastará para a ruína: «Concluo, pois, que, modificando a fortuna os tempos e estando os homens obstinados nos seus modos, são bem-sucedidos enquanto estes e aqueles concordam e mal-sucedidos quando eles discordam (Maquiavel, O Príncipe: pp. 234).» Hoje, porém, a ideia moderna de homem diz-nos que este é completamente plástico e como tal moldável às múltiplas situações da vida. É isto que, por exemplo, se pensa em conceitos como os da flexibilidade no trabalho ou da multifuncionalidade. A pergunta que poderia colocar-se seria, então, a seguinte: o que é que na modernidade permite fazer esta transição entre uma concepção ontológica do homem visto como carácter permanente e a actual concepção de uma flexibilidade manejável até ao infinito?

Quem quiser encontrar a resposta não precisa de sair do próprio Maquiavel: «Eu julgo realmente isto, que seja melhor ser impetuoso que cauteloso, porque a fortuna é mulher e é necessário, querendo-a ter debaixo, vergá-la e acometê-la (idem).» É no conceito de impetuosidade que se deixa perceber uma das categorias centrais da modernidade, aquela que faz a transição entre duas visões de homem: a da mobilização (Peter Sloterdijk). Perante os caprichos da fortuna só a mobilização contínua, o exercício infindável do arrebatamento, é a resposta possível. Já no século catorze, Jean Buridan, no campo da física, lançava uma teoria do ímpeto que dava uma explicação para o movimento de projécteis e objectos em queda livre e preparava o caminho para Galileu e Newton (para haver movimento deve haver uma força; o movimento persiste porque essa força se incorpora ao corpo, e vai se consumindo até acabar).

No cruzamento do conceito psicológico de impetuosidade, entendido como carácter arrebatado, com o conceito físico de ímpeto nasce então o ideal da mobilização infinita que já não se aplica apenas ao político (príncipe), mas que se vai democratizando e anulando as diferenças que separam os homens. Hoje todos temos o dever de estar mobilizados, isto é, devemos pelo arrebatamento e pelo ímpeto fazer frente aos caprichos da fortuna para evitar não a ruína do principado, mas a própria ruína pessoal. Mas esse conceito de mobilização é aquele que exige de nós não um carácter rígido, mas impetuosamente moldável às situações da vida. É por isso que Sócrates corre, as empresas fazem formação do pessoal, as escolas nomeiam professores coordenadores. Tudo na esperança de que o arrebatamento e o ímpeto não desfaleçam e nos mantenhamos mobilizados na prossecução eterna, e em cada momento diferenciada e sempre nova, do movimento. Como se a morte não existisse e um requiem eterno não fosse o destino único da impetuosa mobilização.

A pirotecnia no 14 de Julho, em França

Parece que nem todos em França se revêem no 14 de Julho e na tomada da Bastilha. Não me estou a referir aos simpatizantes da monarquia ou a alguns afeiçoados tardios do absolutismo. Não. Estou a pensar nos amigos da pirotecnia que entenderam assinalar a ocasião, que tanto enche de orgulho os gauleses, com o incêndio de 600 viaturas (DD). É uma maneira de dizer que estão lá e que o melhor é mesmo não se esquecerem deles. A polícia deteve 220 pessoas, cerca de uma por cada três carros ardidos. Paris não é apenas a capital da revolução, é também a zona mais propícia a estes jogos multiculturais.

Da importância da perspectiva

Há vinte anos vivia-se pior, mas toda a gente acreditava que poderia melhorar. Hoje, vive-se melhor, mas todos desconfiam que só podem mudar para pior. É tudo uma questão de lugar de onde se olha.

João Paulo Guerra - Notas

O que Portugal deveria fazer, para fazer disparar a média da avaliação nacional, era criar uma cátedra de esperteza saloia, cadeira na qual sobram os licenciados, mestres e doutores.A produção de cartolas com os respectivos coelhos está em franca expansão em Portugal. Se desse para exportar resolveria alguns dos problemas da economia portuguesa. O problema é que não dá pois a avaliação dos mercados não segue os critérios e padrões que têm vindo a ser aplicados em Portugal para a produção de sucessos miraculosos. Como, por exemplo, no ensino. De um ano para o outro, o insucesso escolar crónico converteu-se num sucesso assombroso. Poderá mesmo falar-se numa obra miraculosa da Senhora de Lurdes que está no Ministério da Educação: após o grande sucesso das notas dos exames nacionais de matemática do 12º ano, com a média nacional a disparar para os 14 valores, as notas positivas de matemática do 9º ano quase duplicaram.

Porém, o milagre da matemática tem vindo a ser ensombrado pelos diabos dos números. As associações dos professores de matemática atribuem a explosão das notas na disciplina à crescente facilidade dos exames nacionais. Dizem mesmo que há questões nos exames dos 12º e 9º anos que poderiam ser resolvidas por alunos dos 2º e até do 1º ciclo.

Seja como for, enquanto a contestação vai e vem, as estatísticas vão melhorar e não tardará que a Europa seja invadida por fornadas de jovens portugueses que vão concorrer num mercado aberto de trabalho com excelentes avaliações mas periclitante formação. E se um dia os portugueses também forem acusados na Europa de batoteiros em matéria de avaliação do ensino? Ou até mesmo arguidos da produção de notas falsas nos exames nacionais?
[Diário Económico]

14/07/08

Exodus - XXI

Eram tecedeiras. No vagar teciam longas horas,
obscuras sombras tudo cobriam e na voz
rouca, voz era o que se ouvia, enchiam
os minutos de suspeitas, a lama
a crescer num inverno de dedos cruzados,
os olhos negros no fundo do rosto, a vida vendida
a retalho, a mercearia de tulhas já vazias.

Os cereais tinham acabado e nada restava
onde os braços pudessem mergulhar as mãos,
assim os terminavam. Pela noite, soltava-se
um instinto mortal e elas vogavam pelas casas,
cabelos soltos a tocar os seios descaídos,
uma ânsia de assassínio no canto da boca,
ou a solidão a aplanar o caminho do coração.

O que ferir alguém que morra, morrendo morrerá…
A noite avançava incólume na escuridão
sem estrelas, onde tudo abrandava, e a morte
cansada deixava a carne em frágil decomposição.
De olhos cerrados adormecia como se sonhasse
impérios desfeitos, camisas de seda,
ou o branco véu, à noiva no altar cobre.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

La marseillaise - 219 aniversário Revolución Francesa

Fez hoje 219 anos que se deu a tomada da Bastilha, data simbólica da Revolução Francesa. Este vídeo diz respeito às grandiosas comemorações de 1989, do bicentenário do evento. A grande Jessie Norman dá voz ao hino que sublima um dos mais espantoso dos movimentos políticos, senão o mais espantoso, que sobre a terra e debaixo dos céus ocorreu.

Da natureza do político (príncipe)

Quão louvável seja num príncipe (político) o manter a palavra dada e viver com integridade e não com astúcia, qualquer um o entende. No entanto, vê-se pela experiência do nosso tempo terem feito grandes coisas aqueles príncipes (políticos) que tiveram em pouca conta a palavra dada e que souberam, com astúcia, dar a volta aos cérebros dos homens; e no fim superaram aqueles que se fundaram na sinceridade. [Nicolau Maquiavel (2008). O Príncipe. Tradução de Diogo Pires Aurélio. Temas e Debates/Círculo de Leitores]

Fim dos bairros sociais e responsabilidade individual

Na sequência dos graves acontecimentos ocorridos na Quinta da Fonte, surgiram especialistas a defender o fim dos bairros sociais. Na verdade, os bairros sociais são verdadeiros guetos onde a pobreza e a marginalização se tornam o caminho para condutas desviantes. Há ali um acumular incalculável de pólvora que no primeiro momento explode. Mas o problema não é apenas um problema de territórios e da convivência dentro dos territórios. A questão é outra e prende-se com a forma como a comunidade nacional e as suas instâncias políticas lidam com os processos de integração daqueles que chegam vindos de outras paragens ou dos que já cá estavam mas não faziam parte efectiva da comunidade. A integração não pode ser apenas uma espécie de assistencialismo social, um distribuição de casas e subsídios que acabam por gerar o pior. A integração deve assentar numa dialéctica muito forte entre direitos e deveres, em que os primeiros geram os segundos e estes fortalecem os primeiros. Essa dialéctica forte, porém, não deve ser deixada ao acaso e é preciso que Estado e sociedade civil, com as suas instituições diversificadas, participem activamente na integração. Mas nada disto fará sentido se àqueles que se devem integrar não se fizer também sentir a sua responsabilidade nessa integração. Isto porque não pode haver direitos e deveres sérios sem o princípio de responsabilidade individual. Acabar com os bairros sociais é uma óptima ideia se o caminho for o da tripla responsabilização: do indivíduo, da sociedade civil e das instituições políticas. Talvez o bairro social seja a imagem de marca de um assistencialismo negador da responsabilidade da pessoa que acabou por não resolver coisa nenhuma.

Robert Doisneau - La dernière valse du 14 Juillet