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15/09/11

As tensões dos mercados


Os principais bancos centrais do mundo vão avançar com operações de injecção de liquidez nos bancos, para travar as tensões do mercado monetário. O interessante da situação é que ela reduziu a economia ao dinheiro, isto é, à pura informação. Não foram apenas os seres humanos que desapareceram da economia, também as mercadorias, os bens e os serviços se volatilizaram. Agora tudo se passa como se a vida material se tivesse reduzido a uma espécie de jogo do monopólio, mas de onde desapareceram as casas, os bairros, as estações, as companhias. Restam apenas as notas, transformadas num sinal electrónico no monitor de um magalhães (isto antes deste ter sido suspenso para avaliação). A verdade, porém, é que por todo o mundo, e com especial incidência em países como Portugal, a informação electrónica corre, em profusão, das nossas contas bancárias para os senhores do mercado monetário, talvez para lhes acalmar o nervosismo e as tensões. Coitados, há vidas duras.

01/02/10

Tanta candura aflige



Com candura, num país em que todos somos mais ou menos cândidos, o ministro das Finanças confessa que se enganou rotundamente na previsão do défice. Mas foi um engano sem intenção. Quer dizer, enganou-se não por perversidade mas por incompetência. E continua no governo? Em última análise, apesar de ser moralmente inaceitável um engano intencional, este seria tecnicamente mais admissível e, como a política não é a moral, também seria politicamente mais compreensível.

O interesse desta história reside na difícil compatibilização entre os imperativos da moral, da política e conhecimento técnico da economia. Se Teixeira dos Santos estivesse calado talvez ainda fosse o melhor. Tanta candura aflige.

27/01/10

Aristóteles - Administrar uma casa


A pessoa que tiver intenção de administrar uma casa [hoje, pode entender-se por casa qualquer organização] de forma correcta tem de estar familiarizada com os lugares de que se vai ocupar, ser dotada, por natureza, de boas qualidades e de possuir, por vontade própria, sentido de trabalho e de justiça. Ora, se algum destes elementos lhe faltar, irá cometer erros frequentes na empresa a que meteu mãos. [Aristóteles, Os Económicos, 1345b7 - 11]
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Uma pequena lição de Aristóteles sobre a figura, para utilizar a linguagem actual, do gestor. Nesta pequena lição, pensa-se, porém, tudo o que é essencial. Em primeiro lugar, a vocação, isto é, o ser dotado por natureza de qualidades para o cargo que se desempenha. Vocação não significa aqui o mero desejo de ordenar e dominar os outros, mas a posse inata, nascida com a pessoa (por natureza), de qualidades que visam o bem da organização e a realização das finalidades a que esta se propõe. Não basta, todavia, a vocação, as boas qualidades naturais. São precisas mais duas coisas. Por um lado, o conhecimento (estar familiarizada com os lugares de que se vai ocupar). Como é peregrina a ideia de que um gestor gere bem qualquer coisa, desde uma empresa de sapatos até um hospital ou uma escola. Para administrar uma organização é preciso conhecê-la e aos fins a que ela se propõe. Mas qualidades naturais e conhecimento ainda não são suficientes, é preciso uma vontade boa. Como se manifesta esta vontade boa? Pela posse do sentido de trabalho e do sentido de justiça. Veja-se que não basta trabalhar muito e bem. É preciso ser justo no exercício do poder gestionário. A justiça implica o reconhecimento do contributo de todos os membros e a distribuição de encargos e recompensas de acordo com esse contributo. Se algum destes elementos faltar, então os erros na condução da organização serão frequentes. Ora, serão os nossos gestores, directores, administradores, públicos e privados, detentores de todas estas qualidades? Que importância darão eles, na prática e não na sua mera opinião, por exemplo, à justiça? A sociedade portuguesa está numa situação muito difícil. Parte substancial dessa dificuldade não advirá do facto dos nossos dirigentes não satisfazerem esta tabela de valores aristotélica? Não precisará o país de começar por reformar a sua classe dirigente a todos os níveis?

25/01/10

A festa do orçamento


O CDS vai abster-se, na votação do Orçamento de Estado, em nome do interesse nacional e da pátria. O PSD abster-se-á também, certamente em nome dos mesmos. Já o PCP deverá votar contra agastado com a obsessão do governo em endireitar as contas públicas (se ainda fosse ensquerdar) e por uma questão de fé. Também o BE deverá votar contra por causa dos desempregados e duma fé mais light, mas fé ainda. Votos contra, também, em nome do interesse nacional e da pátria, por certo. Estou convencidíssimo que o própria PS gostaria imenso de se abster ou mesmo votar contra o orçamento de estado, ainda em nome do interesse nacional e da pátria. No fundo, teria todas as razões. O orçamento é aquele que Bruxelas e o Euro impõem e que não agrada a ninguém e a que ninguém pode fazer frente. Se pudessem, o défice chegaria ao 10% ou 12%. Ficaríamos todos mais alegres, o povo pela diminuição do sacrifício, as elites políticas pela generosa dádiva paternal. Quando o barco se afundasse, logo se haveria de ver se os salva-vidas funcionavam.

22/01/10

Uma violenta luta


No artigo de hoje, no ionline, Paul Krugman ironiza com as respostas dos banqueiros à comissão de inquérito à crise financeira. Parecem ser as pessoas mais ignorantes, relativamente às consequências dos seus actos de gestão financeira, que há sobre a terra. Mas o que o artigo deixa compreender é outra coisa: a violenta luta que se trava entre aqueles que querem que continue a situação que levou à crise e as forças que defendem a racionalidade da regulação do Estado sobre o sector financeiro. Ainda estamos longe de saber quem ganhou.

13/01/10

Morte lenta


Devido à baixa competitividade, a economia portuguesa enfrenta uma ameaça de morte lenta, diz a agência de rating Moody's. Isso, porém, não obsta que a economia não vá crescer. Vai, mas os salários reais vão diminuir e o desemprego vai aumentar. No meio de toda esta trapalhada, a dívida das pessoas e do Estado não pára de crescer. Por que somos pouco competitivos? Porque gostamos de viver bem acima daquilo que produzimos. A nossa entrada para a União Europeia não significou, do ponto de vista da psicologia social, que iríamos trabalhar, estudar e planear a vida como as grandes economias europeias. Significou apenas o sentimento de ter direito a viver como os europeus, sem que isso representasse ter o dever de trabalhar como eles, a começar pelas nossas castas políticas e económicos e a acabar no comum dos cidadãos. Estes vinte e tal anos não mudaram o que havia de pior em nós, apenas serviram para mascarar esse pior, o que significou, na prática, uma acentuação até ao desespero do mal que já nos corroía. Se não nos cuidarmos, a morte lenta em breve se tornará em morte súbita.

Google vs China


Esta história da colisão da Google com os dirigentes políticos chineses é, a diversos títulos, instrutiva. Em primeiro lugar, refira-se que a Google deveria muito bem saber ao que ia quando decidiu instalar-se na China. Para tal pactuou com a censura. O mercado chinês é de tal maneira apelativo que as grandes empresas ocidentais, sempre tão prontas a falar de liberdade, esquecem de imediato o seu amor por ela, quando se trata de se instalarem na China. Em segundo lugar, a China tenta manter, e até agora com êxito, o equilíbrio entre a liberdade de iniciativa empresarial e a mais férrea censura no campo político e ideológico. Direitos do homem e direitos dos trabalhadores são coisas, talvez demasiado ocidentais, que não incomodam os dirigentes comunistas chineses. Por fim, torna-se, mais uma vez, evidente que a liberdade empresarial e a iniciativa privada não conduzem à liberdade nem são dela sintomas, como advoga o credo liberal.

03/12/09

Que fazer?



Não é de bom tom, à esquerda, chamar a atenção para os oráculos do FMI. Mas gostava de saber como se vai resolver a situação económica nacional. Uma despesa pública enorme com salários e contribuições sociais, uma economia desvitalizada e quase moribunda, um povo sem ambição e com uma formação, mesmo quando se possui vários diplomas, a roçar a indigência, uma imaginação habituada a um longo exercício mimético mas incapaz de produzir o inédito e o não existente. Que fazer?

28/11/09

Desporto e virtude


Não sei se aquela retórica, que ribombava no meu tempo ao anunciar o desporto como escola de virtudes, ainda está em vigor. Provavelmente, mas claramente fora do prazo de validade. A máfia das apostas, segundo a justiça alemã, conseguiu perverter os resultados de competições desportivas em 17 países. Um dia, as pessoas decentes proibirão os filhos de pronunciar a palavra desporto. Quantos filmes não foram feitos sobre a perversão das corridas de cavalos? Agora começamos a suspeitar que não há jogo, seja de que modalidade for, que não faça parte de uma enorme rede e que qualquer resultado é fruto não do mérito, mas do embuste? Mas quando se acha que tudo é mercadoria e que o desporto é uma indústria, o que se pode esperar que aconteça? Mas o pior é que a suspeita não fica por aqui. A suspeita cresce desmesurada até à pergunta ingénua sobre quanto na economia real não é já fruto da mão invisível das máfias.

27/10/09

Da imutabilidade das coisas



Quarenta mil idosos passam fome em Portugal. Delphi fecha em Ponte de Sor e atira 430 pessoas para o desemprego. Certamente haverá explicações económicas para este triste panorama. As empresas estão obsoletas e fecham. As pessoas envelhecem, tornam-se obsoletas, ficam sem emprego, passam fome no ocaso da vida. Tudo isto, porém, não passa do sintoma de uma sociedade que nunca se preocupou em tornar-se mais adaptada à realidade e mais justa. A injustiça social, em Portugal, é companheira fiel da desadequação educativa, científica e tecnológica do país. Apesar de mirabolantes planos tecnológicos, planos que andamos a inventar há décadas - Sócrates não o primeiro -, o destino, como numa tragédia grega, parece imutável.

Imagem do Ares da Minha Graça.

21/10/09

O que se esconde no desemprego



O Público anuncia que a Delphi da Guarda vai despedir 500 trabalhadores (ver também aqui). Há no ficar sem trabalho qualquer coisa muito obscura. Não me estou a referir aqui à hipotética malevolência das classes exploradoras do trabalho de outrem, nem àqueles que deliberadamente querem ficar sem trabalho. Falo antes de uma experiência ontológica radical que se dá nesse acontecimento. É essa experiência que dinamiza as múltiplas atitudes políticas que são geradas em torno do desemprego. De certa maneira, um despedimento é uma espécie de condenação à morte. Esta condenação nem vem obrigatoriamente da entidade empregadora. É como se uma dada colónia de animais deparasse, de um momento para o outro, com o esgotamento das reservas alimentares do ambiente onde vive. Uma empresa deixar de ter mercado, sejam quais forem os motivos, é como o esgotamento das reservas alimentares de uma dada colónia animal. Esta condenação à morte proferida pelo mercado é, desta maneira, pensável em analogia com aquilo que acontece na natureza. Sendo assim, porém, ela abre um estranho "direito natural" àquele que é vítima de despedimento, um direito de lutar de qualquer maneira pela sua sobrevivência e a dos seus. Um despedimento suspende, do ponto de vista moral, a ordem cultural e com ela a ordem jurídica. Um despedimento que condena as pessoas ao não trabalho reinscreve as relações humanas na ordem da natureza, na ordem da luta pela sobrevivência, na guerra de todos contra todos. É por isto que a tentativa de certos sectores liberais de reduzir a sociedade ao mercado é dissolvente e perigosa. Os mecanismos do estado social, nomeadamente os da protecção no desemprego, mas não só, são fundamentais para evitar o retorno ao estado de natureza. Têm a função política de assegurar a ordem. O estado social ou o estado providência não nasceram de considerações de ordem moral, não nasceram da bondade do coração humano ou de uma utopia socialista. Nasceram do medo, nasceram como forma de evitar a guerra de todos contra todos. É a ameaça dessa guerra que devemos descortinar cada vez que se noticia este tipo de despedimento colectivo.

16/10/09

O problema



O problema está mesmo aqui. Uma notícia do Público diz-nos que os indicadores de conjuntura mostram aumento do ritmo da retoma. Uma outra, porém, estabelece o horizonte do quadro de recuperação: 18 por cento dos portugueses são pobres e a situação tende a piorar. Como em tudo o mais, as boas notícias neste país nunca são para todos. A economia irá recuperar mais rapidamente do que se esperava, mas a pobreza irá também aumentar. Este é o problema. Uma parte cada vez maior da comunidade portuguesa mostra-se incapaz de se integrar nos novos tempos.

06/10/09

A gestão pelo terror


A demissão do número dois da France Telecom, Louis Pierre Wenes, após o suicídio de 24 colaboradores da empresa, em dezoito meses, é uma tentiva de ocultar a natureza das coisas. Os sindicatos acusam Wenes de ter introduzido a gestão pelo terror. O problema, porém, não reside em Wenes, mas na própria natureza da economia mundial. Ela é pensada em analogia com a lei da natureza, onde só sobrevive o mais forte. Este acontecimento revela também outra coisa. Os trabalhadores europeus estiveram, durante décadas, resguardados daquilo que acontecia noutros lados. Com a abertura das fronteiras, com a expansão do comércio mundial, com a concorrência levada ao extremo, os europeus não percebem o que lhes está a acontecer. Não apenas irão ficar cada vez mais pobres, mesmo que as economias nacionais fiquem mais ricas, como os regimes de trabalho serão cada vez mais duros e prolongados. O tempo das amplas classes médias europeias chegou ao fim. Sem o contraponto dos regimes comunistas e o medo que estes geravam, a essência da economia de mercado revela-se em toda a sua natureza. Dentro desta natureza está a consideração de que os homens não são mais do que mão-de-obra, isto é, mercadoria que se compra, vende e joga no lixo, quando não é precisa.

04/10/09

O fim da aparência sagrada



Por causa desta notícia do Público, sobre os médicos cubanos a exercer em Portugal, e do nosso post O destino dos médicos, não é descabido citar Marx, o Marx do Manifesto do Partido Comunista (Obras Escolhidas de Marx e Engels, Tomo I, Edições Avante, pp. 109). Não há nada como voltar aos clássicos. Então oiçamo-lo...

«[A burguesia] Resolveu a dignidade pessoal no valor da troca, e no lugar de um sem-número de liberdades legítimas e estatuídas colocou a liberdade única, sem escrúpulos, do comércio. Numa palavra, no lugar da exploração encoberta com ilusões políticas e religiosas, colocou a exploração seca, directa, despudorada, aberta.

A burguesia despiu todas as actividades até aqui veneráveis e estimadas com piedosa reverência da sua aparência sagrada. Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência em trabalhadores assalariados pagos por ela.»

As coisas são o que são. Ler Marx não faz mal a ninguém, mesmo aos não marxistas, como é o caso do autor deste blogue. É sempre um choque com a realidade. E a realidade é sempre chocante, como se irá começar a perceber, entre as classes médias, em breve. Não deixa, porém, de ser simbólico que o processo de proletarização dos médicos em Portugal ganhe incremento - ele já começou há mais tempo - com pessoas vindas de um país cuja elite política é cultora de Marx.

O destino dos médicos



Os médicos portugueses estão chocados com as condições de quase escravatura dos seus colegas cubanos a exercer no sul do nosso país. Para além de razões puramente humanitárias, têm razões pessoais. Este é o destino que se prepara para a classe em Portugal, como já acontece noutros lados. Depois dos professores, chegou a vez da proletarização dos médicos. Vai ser mais insidiosa, levará mais tempo, mas far-se-á através das inelutáveis leis do mercado. A ideia central subjacente a tudo isto é a contínua concentração do dinheiro nas mãos de alguns e a destruição desse cancro europeu que são as classes médias. Os proletários de hoje já não são as pessoas que trabalham na ferrugem, nos teares, na construção civil. Os proletários têm cursos superiores, mestrados e doutoramentos.

10/09/09

Para os mais distraídos

Para os mais distraídos. Quem pensava que o apertar orçamental era coisa do passado, o senhor Trichet veio lembrar o credo que anima a sua fé. Por cá, mal acabe a pandemia eleitoral, voltará a retórica da consolidação orçamental, da redução do défice, da perseguição aos funcionários públicos, talvez aumentos mais ou menos encapotados de impostos, embora o senhor Trichet ache já são demasiados, etc., etc. Independentemente de quem ganhar as eleições, voltará a velha política, aquela que Sócrates andou a vender durante quase todo o mandato, seja pela mão do próprio, seja pela da dr.ª Ferreira Leite. Portanto, preparemo-nos.

09/09/09

Aproximações

Segundo o inquérito Transatlantic Trends 2009, as opiniões públicas europeias estão mais próximas de Obama do que estavam de Bush, embora menos entusiásticas as dos países da Europa central e de leste. Percebe-se pelo carisma do presidente americano, por uma aparente inflexão na política externa, mais retórica do que real e, um dado que não deve ser subestimado, pelas preocupações internas de Obama com o serviço nacional de saúde, algo que os cidadãos da velha Europa prezam e cuja destruição, por ventos vindos do outro lado do Atlântico, é temida. É como se Obama, com a sua política de saúde, se quisesse chegar mais à Europa.

Curioso nos resultados é a reacção dos portugueses, contrariamente aos europeus e mais próxima dos americanos, aos gastos governamentais com a crise financeira. Importante seria saber qual o peso que a intervenção do Estado no BPN, e a própria crise do BPP, têm na opinião dos portugueses.

Um retrato

Um retrato fiel do país. Até ao final do ano o fisco vai vender 75 000 automóveis penhorados em execução fiscal. Pensar que isto é o resultado da crise financeira e económica internacional seria prova de ingenuidade. O cruzamento de fisco por pagar e automóveis é uma expressão da natureza lusitana. Os deveres fiscais são coisas incompreensíveis, boas para os tansos, mas nada melhor do que um automóvel para comprovar o sucesso na vida. Ambas as coisas são, porém, a capa de uma realidade mais substancial, a nossa atávica pobreza. Gostamos de viver como europeus desenvolvidos, mas não gostamos de estudar, trabalhar e pensar à sua maneira. De certa forma, acha-se que se tem direito a tudo, sem deveres para nada.

07/09/09

Revelações

É complexo, para o cidadão comum, o mundo da economia. O clima económico, o que significará esta metáfora metereológica?, parece que melhorou, pelo quarto mês consecutivo. Mas enquanto o clima da economia nacional se adentra pela Primavera e, sorridente, anuncia o Verão, os indivíduos parecem estar a sucumbir às gripes da estação, como se pode ver pela Rodhe, pela Qimonda solar, ou pelo agravamento da queda dos negócios na indústria, durante o mês de Julho. A empresas vão à falência, o sector industrial vende cada vez menos, perde emprego e baixa os salários, mas as expectativas económicas não param de subir. Das duas uma, ou os agentes económicos não são muito racionais, ou a Economia é um saber esotérico, onde a razão foi suspensa em nome de uma qualquer revelação. Talvez quando Portugal não tiver produção industrial, como já não tem produção agrícola, a nossa economia seja um sucesso.

04/09/09

Pouco entusiasmo

Começa-se a perceber o óbvio. Os sinais de retoma da economia mundial, apesar da profundidade da crise, estão a esbater o o entusiasmo reformista que atingiu, no auge da crise, as administrações dos países mais ricos. No fundo, há quem pense que o que aconteceu foi apenas devido a uma distracção de uns quantos, e que, hoje em dia, foram desenvolvidos mecanismos económico e políticos que permitem enfrentar com êxito situações críticas como a que se vive. Se assim é, por que razão haveria de se mexer na estrutura internacional que começou a ser desenhada por Thatcher e Reagan? Mas não é apenas os sinais de retoma da economia (sinais aliás contraditórios, segundo alguns analistas) que estão a esfriar o entusiasmo dos políticos nas reformas. É a própria ideologia com que olham o mundo e os interesses a que ela corresponde. Os sinais de retoma são apenas sinais, e podem ser lidos de maneira contraditória. O que vai ser determinante é o escopo ideológico e os interesses que aí se representam, e que estruturam as decisões a tomar. O entusiasmo reformista não nasceu de uma outra compreensão da relação entre economia, política e sociedade, nasceu do pânico. Debelado o pânico, o paciente esquece a medicação.