Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema. Mostrar todas as mensagens

31/01/10

As minhas virtudes preconceituosas

(Imagem daqui)


Quando se é novo, e estamos convencidos de que não temos preconceitos, é a altura em que somos mais preconceituosos, pois julgamos os nossos preconceitos como se fossem evidências universais. Se temos a sorte de amadurecer, coisa que não acontece a muito boa gente, descobrimos que afinal essas evidências eram pouco evidentes e a sua universalidade, muito particular. Isto é meio caminho para eliminar um conjunto de preconceitos nefastos para a vida social e o respeito pelos outros, ao mesmo que tempo que se aprende a transformar outros preconceitos em virtudes individuais.


Ontem, por uma questão premente de horários, fui ver o filme de Michael Haneke, O Laço Branco, ao Corte Inglês. Quando vou ao cinema em Lisboa, por norma, vejo os filmes numa daquelas cadeias onde não existe possibilidade de comer pipocas. É um dos meus preconceitos virtuosos ou uma das minhas virtudes preconceituosas. Percebo que em muitos dos filmes que passam nas salas de cinema o melhor mesmo são as pipocas, mas o filme de Haneke não é entretenimento - horrível espanholismo -, mas um filme denso e duro, um filme que contrasta com a leveza das pipocas.


O que me surpreendeu ontem, eu que não estou habituado a salas com pop-corn, foi a idade dos pipoqueiros, gente que se aproxima perigosamente da minha idade. Não, não eram jovens modernos formatados na cultura americana. Era gente que estudou ainda no tempo em que a cultura francesa era o guia irremediável da nossa desgraça ou, quanto muito, a severa Inglaterra era o contraponto do acordeão parisiense. Como se vê, gente, ao contrário de mim, capaz de se adaptar aos novos tempos, gente despreconceituosa, capaz de aliar a leveza do que come ao peso do que vê. E eu saí do cinema, jurando que, fosse qual fosse o horário, não mais iria a uma sala pipoqueira. Por uma questão de preconceito estético.

30/01/10

Michael Haneke - O Laço Branco


Acabei de ver O Laço Branco (Das Weiss Band) do realizador Michael Haneke. Um filme magnífico situado nas vésperas da primeira Grande Guerra. O filme começa por ser uma exposição sobre o carácter precário da memória. O narrador, que participa de certa maneira da vida da comunidade onde os acontecimentos narrados se passam, reconhece, logo no início, que a memória dos factos, passados há muito, é imprecisa e que, apesar de sentir uma necessidade imperiosa de contar a história, o que sabe dela advém dessa memória vacilante e de "ouvir dizer".

Esta imprecisão memorial corresponde, porém, ao recalcamento de um conjunto de estranhos crimes ocorridos dentro de uma comunidade camponesa submetida quase feudalmente a um senhor. Esses crimes, nunca oficialmente desvendados, são obra de um conjunto de crianças. A subterrânea perversidade das crianças surge em contraponto com a subjectivação das normas morais dentro de uma comunidade protestante. O laço branco não é outra coisa senão o símbolo dessa subjectivação. No fundo, o filme trata do confronto entre a violência do bem, aquela que se exerce sobre as subjectividades infantis para a interiorização da norma moral, e a violência do mal que, dissimuladamente como os adultos, as crianças praticam.

Que o pastor, o mais zeloso dos moralistas, se recuse a encarar a perversidade dos próprios filhos, acaba por tornar evidente a cumplicidade entre a regulação protestante das consciências e o mal. Tudo isto, contudo, se dissolve na irrupção da guerra. Diria que se está perante um filme da contra-reforma, onde a subjectividade individual acaba por ser a fonte de uma perversidade oculta, mas que se manifesta continuamente. Essa falência da moral protestante perante a perversidade natural do homem fica em suspenso com o advento da Guerra de 1914-18. Nós que sabemos o que veio a seguir, percebemos como é que esse mal recalcado, na Alemanha, se veio a manifestar com o advento do nazismo. Um filme a ver.

13/07/09

Marguerite Duras - India Song 2

Não, o filme de Marguerite Duras, India Song, não envelheceu. Os trinta e quatro anos que passaram não lhe trouxeram rugas nem cabelos brancos. É tão verosímil, ou inverosímil, hoje como o deve ter sido em 1975. A questão que se pode colocar é se aquele objecto é, de facto, um objecto pertencente à categoria “cinema”.

Marguerite Duras diz: “Como eu tenho uma espécie de desgosto em relação ao cinema que tem sido feito, enfim, da maior parte do cinema que tem sido feito, eu queria retomar o cinema do zero, numa gramática bem primitiva… bem simples, bem primária: recomeçar tudo”.

Em India Song as vozes estão deslocadas dos corpos. Os corpos pairam em cenários difusos, são transformados em fantasmas. Os fantasmas aparecem mas não falam. A palavra, seja diálogo ou narrativa, é exterior, uma espécie de comentário à dança corporal que as imagens exibem. Aqui há a conexão com o cinema primitivo, o cinema mudo onde as imagens são acompanhadas ou comentadas por uma música exterior. No filme de Duras, é a própria palavra que é exterior. Na tradição grega, a grandeza do herói reside tanto nas grandes acções como nas grandes palavras, prática e teoria conjugavam-se para tornar memorável, e por isso imortal, um homem.

O cinema, porém, é um produto moderno e a modernidade vive da separação, do cisma entre teoria e prática [em Descartes é tão luminoso o cisma que o filósofo se vê obrigado a adoptar uma moral (princípios práticos) provisória]. A verdadeira essência do cinema é essa separação entre o agir e o falar, por isso o cinema verdadeiro é o cinema mudo, onde apenas existe a mobilização dos agentes para e na acção. Percebemos assim uma estranha conexão entre o agir moderno e o agente fantasmático, como se toda a natureza do homem moderno fosse a de um fantasma, cuja imagem aparece, é literalmente aparição, mas não tem voz.

Mas não é a modernidade o “lugar” onde todos têm voz, onde todos acedem ao espaço público? Onde todos têm voz, já ninguém tem voz. A voz é um princípio aristocrático e não democrático. Mas na modernidade, essa modernidade cuja essência se revela numa arte mecânica como o cinema (que “estranhas” relações se podem estabelecer entre a mecânica e a cinemática), não se disseram e não se dizem coisas interessantes? Sim, mas Duras mostra no filme, de uma forma cruel, o alcance do dizer moderno: puro comentário. A voz na modernidade é comentário, sobreposição nascida da separação, voz que vem do além. Na modernidade não há heróis, pois às grandes acções não correspondem grandes palavras.

India Song é uma história de amor. Não. É um comentário narrativo a uma história de amor. Melhor, é um exercício cinematográfico que tenta conjugar o que não tem conjugação: a história e o amor. Não há histórias de amor. Onde penetrou a história morreu o amor. O filme de Duras fala-nos de tudo isso: da separação entre palavra e corpo agente, entre história e amor, entre modernidade e pré-modernidade (a Índia, o Ganges, os leprosos, tudo isso que já não vemos, apenas suspeitamos), fala-nos essencialmente da mortalidade a que estão confinados, por terem perdido a voz, os que cometem grandes acções.

12/07/09

Marguerite Duras - India Song

Este fim-de-semana o averomundo tem feito gazeta. Bem podia, agora, sentar-me e escrever um ou dois postais para dar vida a este sítio. Mas vou antes lá para dentro ver isto. Não vi na devida altura, em 1975 ou 1976. Comprei-o há dias. Temo, porém, que o filme tenha envelhecido de tal maneira que hoje já não faça sentido. Como muitos dos que têm formação em Filosofia, habituei-me a não dar importância às datas de edição e publicação dos objectos culturais. Platão ou Aristóteles são tão actuais hoje como no tempo deles. Mas esta actualidade acrónica de certos objectos culturais só funciona mesmo com aqueles que são universais. Verei daqui a duas horas se o filme de Duras se aguenta com mais de 30 anos em cima.

07/05/09

Sobre posters, cartazes e Ideias


Por causa do post anterior onde se dava conta do blogue Rato's Movie Posters, fui levado à reflexão sobre essa estranha relação entre o cinema e os posters ou cartazes em que ele se faz anunciar. Estes podem tornar-se uma paixão. Que poder terão eles para desencadear esse tipo de paixão e para que a indústria cinematográfica não os dispense na publicitação dos seus produtos?

Como também se disse no post anterior, há uma estranha perversidade nesta relação entre o cinema e os cartazes onde ele se anuncia (isto é, se noticia na esfera pública) e apresenta (isto é, onde ele se torna presente). O cinema parece-nos mais próximo da vida, pois imita o movimento que habita esta. A imagem combinada com o movimento, a imagem que se move, é mimésis da existência dos homens, da sua acção. O cinema, enquanto forma de expressão artística, parece ultrapassar as limitações de artes anteriores como o romance e a pintura. Mostra-nos as imagens que o romance apenas descreve, dá-nos o movimento que a pintura, em aparência, suspende. Por que precisará ele então, para se anunciar e tornar presente, da fixidez do poster/cartaz?

Hipótese: a verdade de um filme encontra-se toda no cartaz que o anuncia e o torna presente. O cartaz não é um resumo do filme. O filme é que é a explicação, no tempo, de um cartaz. O cartaz, na sua fixidez, é uma imitação da eternidade; o filme, não passa de mimésis da temporalidade. Do ponto de vista do processo de produção, o filme é anterior ao cartaz que o resume; mas, do ponto de vista ontológico, o cartaz é anterior ao filme.

Estas reflexões inusitadas levam-nos a tocar a teoria platónica das Ideias. Estas são eternas e imutáveis, e constituem o modelo que dá realidade às coisas sensíveis, ao mundo dos seres onde nos encontramos. Também o cartaz é a a Ideia ou Paradigma que dá o ser ao próprio filme. Aqui encontramos um caminho de disputa com a estética platónica. Os produtos artísticas não são, como pensava Platão, cópias das cópias (objectos sensíveis) da realidade. Não são fantasmas de fantasmas, são verdadeiras Ideias, paradigmas segundo os quais a vida no mundo sensível decorre. O poster cinematográfico é a Ideia que dá ser a um filme, que por sua vez é Ideia que dá ser à vida quotidiana dos homens. Na eterna imutabilidade de um poster cinematográfico, concentra-se toda a possibilidade da existência. A Ideia platónica não é outra coisa do que a sublimação da obra de arte num mundo imaginário. A diferença pode encontrar-se no facto de a Ideia excluir de si todo o movimento, as obras de arte, na sua fixidez, contêm em si, de forma potencial, o movimento que a vida dará corpo.

Rato's Movie Posters


Eis um blogue para quem gosta de cinema. Não de uma forma completamente habitual, mas para quem gosta de cinema também a partir dos posters a que ele dá origem. Rato's Movie Posters é, para esses, um blogue a visitar obrigatoriamente. Ver as imagens das imagens. Eis uma interessante forma de perversidade. O cinema é o triunfo, contra a pintura e a fotografia, da imagem que se move. É nisto que reside a perversidade: olhar a imagem fixa que nos anuncia a imagem que se move. A não perder, absolutamente.

16/04/09

Somewhere Over The Rainbow - Judy Garland

Para a leitora Maria Correia.

25/01/09

Douglas Sirk - Imitation of Life (1959)

Continua a minha viagem pelo universo melodramático de Douglas Sirk.

24/01/09

Michael Powell & Emeric Pressburger - A Matter of Life and Death (1946)

Interrompi a viagem pela filmografia de Douglas Sirk, para uma intromissão na dos realizadores britânicos Michael Powell e Emeric Pressburger. A Matter of Life and Death é uma reflexão sobre como o amor é capaz de suturar os mundos mais distantes, sejam os que estão separados por um oceano, sejam aqueles cuja fronteira divide o reino dos vivos do reino dos mortos. A Matter of Life and Death é uma belíssima, comovente e, ao mesmo tempo, divertida obra de arte.

23/01/09

Douglas Sirk - All I desire (1953)

Contínua a minha viagem pelo universo melodramático de Douglas Sirk, um realizador excepcional, como é excepcional aqui Barbara Stanwick

08/01/09

Slavoj Zizek - Lacrimae Rerum


A experiência subjacente a O Homem Mais importante do Mundo [romance de Philip Dick] e The Truman Show [filme de Peter Weir] é que o paraíso californiano consumista de uma sociedade no último estádio do capitalismo é, na sua super-realidade, de certo modo irreal, sem substância e desprovido de inércia material. Assim, não é só Hollywood que encena uma ilusão de vida real desprovida do peso e da inércia da materialidade – na sociedade consumista da última fase do capitalismo, a própria «vida social real» adquire de algum modo as características de uma falsificação encenada, em que os nossos vizinhos se comportam na vida «real» como actores e figurantes… Mais uma vez, a verdade última do universo capitalista utilitário desespiritualizado é a desmaterialização da própria «vida real», a sua inversão num espectáculo espectral.

06/11/08

Brigitte Bardot & Jeanne Moreau

O fundamental é que não se perca a boa disposição, mesmo numa manhã fria como a de hoje. Será possível que o mundo já tenha sido assim tão ingénuo?

Jeanne Moreau - Le tourbillon de la vie (in Jules et Jim)

No mundo, talvez só haja uma coisa que nunca me deixe de surpreender: a beleza de uma mulher.