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10/07/07

Tradição e alheamento

“Mas se o pensamento pessoal não é o fundamento da identidade de um indivíduo (se não tem mais importância do que um chapéu), onde está então esse fundamento?

A esta busca sem fim trouxe Thomas Mann a sua contribuição importantíssima: pensamos agir, pensamos pensar, mas é um outro ou são outros que pensam em nós e agem em nós: hábitos imemoriais, arquétipos que, tornados mitos, passando de geração em geração, possuem uma força de sedução imensa e nos teleguiam a partir (como Mann diz) do «poço do passado».”

Milan Kundera (1994). Os Testamentos Traídos. Edições Asa, pp. 16

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O «poço do passado» de que fala Mann é um outro nome para o conceito de tradição. Aquilo que somos somo-lo porque pertencemos a uma tradição. É nela que, de uma forma inconsciente, mergulham as nossas raízes. Mas esta ligação não é em primeiro lugar uma conexão cultural.

Aquilo que somos, devemo-lo, já no estrato biológico, à herança genética. O ADN que recebemos dos nossos pais é uma ponte que, de geração em geração, nos liga ao fundo obscuro da humanidade, depois à animalidade e, por fim, enraíza-nos no próprio ser. O que cada um de nós é, ainda e só do ponto de vista biofísico, representa já uma incomensurável dívida para com os ancestrais e através deles para com o próprio ser, do qual tudo provém.

De certa forma, podemos então dizer que existe um substrato biofísico da tradição. Esta não é um nada ou um mero conjunto de conteúdos que estejam ali disponíveis para serem manipulados, sem mais. Do ponto de vista cultural, o conceito de tradição reenvia-nos para essa ancestralidade, que, segundo Mann, pensa e age em nós. Não somos sujeitos que possam começar o quer que seja sem essa carga do passado. A língua que falamos, por exemplo, não a inventámos, não a criámos, herdámo-la da comunidade onde nascemos. Aquilo que é válido para a língua, vale para a cultura no seu todo, desde as regras de cortesia até às normas morais.

As sociedades tradicionais viviam no culto dessa tradição. Isso não significa que elas não se transformassem. A transformação, porém, era uma resposta não contra a tradição mas uma espécie de readaptação da vida comunitária aos princípios, muitas vezes obscuros, dessa tradição. Esta era uma espécie de modelo arquetípico que tinha a finalidade de fornecer um horizonte à existência dos homens e um fundamento significativo à sua identidade.

O que marca as sociedades modernas é a revolta contra a tradição. O moderno nasce como oposição deliberada à tradição. Na modernidade, o imperativo é reconstruir todo o mundo cultural a cada nova geração, cortar os laços com o passado. A tradição, todavia, tem resistido e é ela que, apesar dos ataques do moderno, permite a esse mesmo moderno reconhecer-se enquanto tal.

O que é absolutamente novo, nos dias de hoje, na cultura pós-moderna, é o alheamento completo não só da tradição como da revolta moderna contra ela. O mundo pós-moderno é o mundo do alheamento. O desenvolvimento tecnológico e a forma como se pratica a ciência nos dias de hoje fizeram crescer uma mentalidade onde reina a ilusão de se poder construir uma existência sem qualquer conexão ao passado. A ligação vertical com os ancestrais está a ser substituída pela ligação horizontal em rede.

Ciência e tecnologia são dois motores essenciais de uma cultura baseada no momento, de uma cultura niilista. O curioso é que a grande maioria dos cientistas não percebe o efeito do seu próprio trabalho. Veja-se, por exemplo, o combate dos cientistas do blogue De Rerum Natura pela defesa racionalidade.

Como a ciência para a sua aprendizagem não necessita de um estudo dos seus processos de evolução históricos, como ela é apresentada desligada daquilo que, do ponto de vista filosófico, está no seu fundamento, a praxis científica e o desenvolvimento tecnológico nela assente são dois factores de dissolução da racionalidade e da conexão com a tradição nas sociedades de hoje.

O papel social da ciência e da tecnologia não é a produção de conhecimento e de bens úteis para a humanidade. Esse é o invólucro onde se esconde a sua acção dissolvente das tradições e a ilusão de se poder a cada momento produzir o novo. Por muito que isso doa à racionalidade de muitos cientistas, na sua actividade esconde-se a mais violenta irracionalidade: a de roubar o fundamento do sentido que estrutura e articula as identidades humanas e a de ser dinamizadora do alheamento pós-moderno. [Para uma outra altura fica a reflexão sobre o papel em tudo isto da didactização da ciência.]

05/05/07

O eterno retorno ou a transfiguração

Ao estudarmos essas sociedades tradicionais, surpreendeu-nos sobretudo um aspecto: a sua revolta con­tra o tempo concreto, histórico, a sua nostalgia de um regresso periódico ao tempo mítico das origens, à Idade do Ouro. Só descobrimos o significado e a função daquilo a que chamámos «arquétipos e repetição» quando com­preendemos a vontade que essas sociedades tinham de recusar o tempo concreto e a sua hostilidade em relação a qualquer tentativa de «história» autónoma, isto é, de história sem regulação arquetípica. Esta recusa não é simplesmente o efeito das tendências conservadoras das sociedades primitivas, como este livro provará. Quanto a nós, dever-se-á ver nesta depreciação da história, ou seja, dos acontecimentos sem modelo trans-histórico, e nesta recusa do tempo profano, contínuo, uma certa valoriza­ção metafísica da existência humana. Mas esta valoriza­ção não é, de modo nenhum, a mesma que certas corren­tes filosóficas pós-hegelianas tentam dar, nomeadamente o marxismo, o historicismo e o existencialismo, depois da descoberta do «homem histórico», do homem que existe na medida em que se faz a si próprio no seio da história. [Mircea Eliade, O Mito do Eterno Retorno.]

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Mircea Eliade deixou, há muito, de ser um autor que se possa citar em público. No entanto, muito do que escreveu merece leitura e o seu silenciamento deveria ser motivo de interrogação, se não mesmo de inquietação.

Mircea Eliade, como outros autores, desenha perfis de sociedades e modos de vida diferentes dos nossos, mas com a particularidade de não serem sociedades utópicas, produtos da imaginação mais ou menos delirantes dos seus autores. Fala de sociedades que existiram, as chamadas sociedades tradicionais. Estas foram absolutamente recalcadas, bem como os seus fundamentos metafísicos, com a vitória do mundo moderno, o mundo histórico em que o “homem existe na medida em que se faz a si próprio no seio da história”.

Esta ideia do «homem se fazer a si próprio» que habitava no seio do marxismo e das correntes pós-hegelianas não passava de uma ideia ainda ingénua. Mas esta ingenuidade – o eu é o fruto de uma experiência histórico-social – abriu as portas para os dias de hoje, nos quais essa ingenuidade desapareceu por completo. O desenvolvimento da ciência e da técnica traçaram o caminho para uma reconstrução da natureza humana, o primeiro passo para a sua transfiguração. Estas sociedades históricas são movidas pela atracção do futuro, mas esse futuro, começamos a descobri-lo, não nos fará mais humanos, mas tornar-nos-á noutra coisa qualquer, que ainda não sabemos, que está velada, mas que acabará por se revelar, isto é, mostrar-se naquilo que é em sua verdade.

Ao usar o conceito de «transfiguração», remeto para o domínio da arte. Toda a arte é transfiguração de uma matéria plástica (som, cor, luz, materiais diversos, língua, etc.). O que começamos a assistir é à transformação do homem em matéria humana plástica e assim ao abrir caminho para esse trabalho de transfiguração. A História, entendida como o processo do homem histórico, significa, desse modo, apenas a morte do homem. A dinâmica que nos empurra para o futuro não nos traz apenas a morte do indivíduo, mas prefigura a morte da própria espécie às mãos da sua arte de transformação. É este o verdadeiro significado do conceito de progresso.

As sociedades tradicionais representam a recusa de compreender o homem como uma ponte – uma ponte entre o animal pré-humano e aquilo que virá depois do homem. Dessa forma, recusam a morte do homem e, por isso abominam, a história. Não é que não tenham consciência do tempo, nem da passagem deste. Recusam, porém, a sua linearidade e sublinham a natureza cíclica, o que supõe um eterno retorno do mesmo. Este ciclo do eterno retorno é a imagem da eternidade e a natureza não seria mais do que um espelho dessa eternidade, onde a humanidade permanece sempre aquilo que é.

A verdadeira clivagem que existe no mundo não é entre liberalismo e marxismo, entre esquerda e direita, entre democracia e ditadura. A clivagem efectiva é entre tradição e modernidade, entre sociedades históricas e sociedades não-históricas.

Aquilo que dá que pensar não é tanto a recusa da história pelas sociedades tradicionais, mas o ímpeto não questionado que nós, modernos, colocamos na aventura histórica que se dirige para a nossa própria transfiguração, isto é, para a nossa morte.

30/03/07

Música para o fim-de-semana

Faça-se uma viagem ao Japão, parta-se para longe ficando onde se está. Mergulhe-se na música japonesa. Uma combinação entre a tradição e a música erudita. Para começar, música tradicional. Oiça-se o Ensemble Yonin no Kai, no álbum Sankyoku. É um álbum que apresenta composições para “shakuhachi” (um género de flauta, ver fotografia do Ensemble), shamisen (um instrumento de três cordas, ver à direita na fotografia) koto (instrumento com treze cordas e cerca de 1,80m de comprimento) e canto. É uma excelente iniciação à música tradicional e uma passagem para uma cultura que, apesar de vivermos em tempos globais, nos é completamente estranha. Ouvir como se estivesse a meditar.

A segunda proposta é um compositor erudito moderno: Toru Takemitsu e o álbum com o belíssimo nome A String Around Autumn. A música de Takemitsu é influenciada vela vanguarda europeia, nomeadamente por Varese, Schoneberg e Messiaen. Composições há que a presença do Schoenberg de “Verklaerte Nacht” e do “Pierrot Lunaire” parece evidente, pelo menos para um mero amador. Há, por outro lado, a presença da tradição musical japonesa, o que torna a música de Toru Takemitsu uma ponte de contacto entre ocidente e oriente, uma outra visão de um mundo global, que procura, nas raízes mais fundas, aquilo que pode permitir, mais do que o diálogo, a comunhão.


Como curiosidade ficam os nomes, os belos nomes, das 4 faixas que compõem o álbum: 1. A String Around Autumn; 2. I Hear The Water Dreaming; 3 . A Way A Lone II; 4. Riverrun.

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Já que estamos a falar do Japão eis uma pequena história da tradição Zen, recolhida no livro de Nyogen Senzaki e Paul Reps, 101 Histórias Zen, da Editorial Presença:

O VERDADEIRO CAMINHO

O mestre Zen Iquiú visitou Ninacava, pouco antes de ele abandonar esta vida.
- Queres que te conduza? – perguntou Iquiú.
Ninacava replicou:
- Cheguei aqui sozinho e parto sozinho. Que ajuda poderias dar-me?
Iquiú respondeu:
- Se pensas realmente que chegas e partes, essa é a tua ilusão. Deixa que te mostre o caminho onde não há chegar nem partir.
Com estas palavras, Iquiú revelara tão claramente o caminho, que Ninacava sorriu e deixou este mundo.

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Para meditar a ouvir a música do Ensemble Yonin no Kai ou a de Toru Takemitsu.