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24/09/11

O retrato de um país


Em pouco tempo, o sempre tão assertivo, como agora se diz, dr. Jardim viu-se obrigado a refazer o discurso duas vezes. Mas tudo isto é irrisório. Sejam as peripécias vocálicas do senhor, sejam os 5 800 milhões ou 7 000 milhões da dívida da Madeira, nada altera o essencial. O dr. Alberto João Jardim e a Madeira são o retrato fiel de Portugal. São o símbolo da nossa estadia na União Europeia. O que se está a descobrir na Madeira - e que todo este coro de virgens murchas, que agora se atiram ao líder madeirense, já sabia - é o que se passa em cada recanto do território nacional. O azar do dr. Jardim é que o pessoal da troika gosta imenso do dinheirinho que pôs cá e está-se nas tintas para as ameaças da independência da Madeira. O dr. Jardim ganhará as eleições, mas está acabado. Mas nem nisso difere do resto do país.

16/09/11

Dinamarca, o retorno da esquerda

(Foto no Público)

Uma coligação de esquerda, liderada pela senhora Helle Torning-Schmidt, venceu as eleições dinamarquesas, e pôs fim a dez anos de governação de direita. A Dinamarca está confrontada com um défice público de 4,6% do PIB e um desemprego jovem na área dos 10%. Retorna agora à velha tradição social-democrata. Uma política fiscal mais rigorosa, investimento público e reforma do mercado de trabalho. Apesar de ser provável a vitória da direita nas próximas eleições espanholas, é possível que as eleições dinamarquesas anunciem a próxima deslocação do pêndulo político europeu para o centro esquerda. Resta saber como as questões do Euro e das dívidas soberanas vão influenciar, nos próximos anos, o destino da União e a percepção da realidade por parte dos eleitores.

15/09/11

As tensões dos mercados


Os principais bancos centrais do mundo vão avançar com operações de injecção de liquidez nos bancos, para travar as tensões do mercado monetário. O interessante da situação é que ela reduziu a economia ao dinheiro, isto é, à pura informação. Não foram apenas os seres humanos que desapareceram da economia, também as mercadorias, os bens e os serviços se volatilizaram. Agora tudo se passa como se a vida material se tivesse reduzido a uma espécie de jogo do monopólio, mas de onde desapareceram as casas, os bairros, as estações, as companhias. Restam apenas as notas, transformadas num sinal electrónico no monitor de um magalhães (isto antes deste ter sido suspenso para avaliação). A verdade, porém, é que por todo o mundo, e com especial incidência em países como Portugal, a informação electrónica corre, em profusão, das nossas contas bancárias para os senhores do mercado monetário, talvez para lhes acalmar o nervosismo e as tensões. Coitados, há vidas duras.

13/09/11

Mistérios da dívida grega


Juros da dívida grega a dois anos ultrapassaram os 90%. Risco de default da Grécia salta para 98%. Os gregos por certo brincaram com coisas sérias. Portaram-se mal. No entanto, não é claro que as "maldades" que fizeram não lhes tenham sido, pelo menos em parte, de alguma forma impostas. Por quem? Talvez por aqueles que agora estão disponíveis a emprestar dinheiro a juros de 90%. Porque há uma coisa que eu, nada versado no esoterismo económico, não compreendo. Como se empresta dinheiro a quem se sabe que não pode pagar? Se o risco é tão alto, nem a 1000% ao dia seria um bom negócio, e o natural seria os mercados não estarem disponíveis para emprestar um cêntimo.

12/09/11

Frugais e omnívoros


Como pode um governo tão liberal conviver com uma pessoa que diz "Gosto da política no sentido de fazer coisas novas pelos outros." Ora se há uma coisa que um político liberal nunca deve fazer é coisas pelos outros. Apenas deve deixar que os outros façam por si, sem que ele os impeça. É o chamado governo frugal. Ora frugalidade na acção é coisa que o governo PSD da Madeira nunca teve em vista. Como casar Alberto João Jardim e os frugais Vítor Gaspar e Álvaro Santos Pereira? O ministro Relvas poderá dar uma mãozinha?

A constitucionalização da menoridade política


A constitucionalização do limite do défice público é uma confissão extraordinária. Os políticos que a subscreverem estão a dizer aos eleitores que os seus talentos de gestores da coisa pública não merecem qualquer confiança. É bastante provável que assim seja. Mas a confissão da incapacidade de governar,  visando a reeleição, sem recurso à despesa é o outro lado da menoridade política. A mando dos credores, a constituição tornar-se-á um tutor de uma classe política menor, que transformou o país naquilo que ele é, um protectorado.

11/09/11

Ten Years After


Há dez anos tive o meu segundo grande choque com o mundo muçulmano. O primeiro tinha sido em 1979, com a Revolução iraniana. Esse primeiro choque foi de tal maneira grande que me obrigou a rever os quadros mentais em que tinha sido educado politicamente. Afinal o mundo não se resumia à luta entre comunismo e capitalismo, entre a URSS e os EUA. Havia mais vida para além da Guerra Fria. Nessa altura, descobri que Portugal tinha uma fronteira a sul e não apenas a leste. Se de Espanha não viriam bons ventos, o certo é que os grandes sarilhos poderiam vir do sul, isto é, de um Norte de África politicamente instável. 

Há dez anos, apesar da espectacularidade do golpe, o choque foi menor. Mas mesmo assim foi um choque tremendo. Tenho meditado sobre este problema ao longo dos anos, tenho-me perguntado qual o seu verdadeiro significado. Fui mudando de ponto de vista. Hoje em dia, do ponto de vista da Al-Qaeda, talvez o seu maior ganho tenha sido elevar o mundo muçulmano à consciência do ódio que tem ao mundo ocidental. Mais que mostrar a fragilidade da defesa americana, mais que ferir o orgulho do império, mais que assustar americanos e ocidentais em geral, a vitória terrorista centra-se na tomada de consciência, por parte de todo o mundo muçulmano, de um ódio larvar ao mundo ocidental. Dez anos depois, o ódio está bem vivo, mais consolidado que a própria organização terrorista, que tem sofrido golpes profundos. 

As primaveras do mundo árabe são uma exígua fresta de oportunidade. Não para regimes democráticos idênticos aos nossos, mas para se abrir uma época pós-ódio ao ocidente, uma época de des-solidificação do ódio. Depende de muitas coisas. Muitas delas não estão nas mãos dos ocidentais, mas há uma que está, a forma como se comportam perante a evolução dos novos regimes. Convém não destruir, com o oportunismo que nos caracteriza, o pequeno capital que ainda resta. É provável que muitos milhões de muçulmanos estejam cansados de tanta morte e queiram uma vida normal. Ter trabalho, fazer negócios, ir à mesquita, cumprir o Ramadão, estudar, educar os filhos, etc. Esta pequeníssima oportunidade deveria ser explorada até ao fim, fundamentalmente pelos europeus e, entre estes, pelos europeus do sul, onde se encontram também os franceses, por muito que isso os possa desgostar. Dez anos depois, talvez se possa abrir um inimaginável caminho para a tolerância.

09/09/11

Júlio de Matos, a política e a República


A liberdade, a soberania popular e a igualdade, que à civilização prestaram, como formas dissolventes da teocracia, um prodigioso serviço, começaram, uma vez tornadas ídolos mentais, a ser-lhe eminentemente funestas.

Do culto da liberdade de consciência nasceu a anarquia mental em que vivemos e que preparou em grande parte, como um dia ainda procurarei demonstrar, a inesperada renascença mística do final do século XIX, que nos reconduziria, se fosse possível prolongá-la, ao servilismo intelectual da fase teocrática.

Do culto da soberania popular derivou, mercê da interferência cada vez maior da plebe inculta na formação dos governos, um regime plutocrático e centralizados, que é já nos povos latinos uma tirania disfarçada e que amanhã será o mais intolerável dos despotismos.

Enfim, do culto da igualdade combinado com o precedente resultou esse perigoso e contagioso estado mental que Raphael Garofalo chama com rara felicidade a superstição socialista. (Júlio de Matos (1904), "Prefácio" à tradução portuguesa de A Superstição Socialista, de Raphael Garofalo)

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Júlio de Matos foi dos mais eminentes psiquiatras portugueses e um dos mais destacados intelectuais apoiantes da 1.ª República. Não admira, assim, que a República se tenha tornado no que tornou. O positivismo político, patilhado com Teófilo Braga e outros republicanos, não era apenas adversário da religião, em particular da Católica, mas também dos próprios princípios da revolução francesa, os quais não passavam de ídolos, cujo valor residia apenas em terem combatido o Antigo Regime. Igualdade, Soberania popular e Liberdade, para o determinismo mecaniscista de Júlio de Matos, não passavam de ideias funestas. Talvez por isso, a República tenha sido a tragédia que foi, uma tirania partidocrática sem grande base popular.  

06/09/11

Excesso de licenciados


Neste artigo, o catalão Josep Maria Ruiz Simon, professor de Filosofia Medieval na Universidade de Girona, faz uma breve história da lamentação relativa ao excesso de licenciados. Teria começado em França, no século XVII. Richelieu e Colbert estavam bastante preocupados com o assunto e com as suas consequências sociais. O problema emerge quando o número de lugares socialmente disponíveis não é suficiente para os que fizeram formação superior e as ambições que acalentam. Historiadores como Lawrence Stone e Roger Chartier estabeleceram a conexão entre esse excesso e a radicalização política que conduziu à Gloriosa Revolução, em Inglaterra, e à Revolução Francesa. Que significado político poderá vir a ter, por exemplo e para não falar dos milhares de licenciados que nunca exerceram profissão compatível com a sua formação, o despedimento em massa de professores? As tranquilas águas em que Portugal parece viver são o pior dos sintomas. As grandes tempestades marítimas são sempre antecedidas pela mais densa calmaria.

04/09/11

Caixeiros-viajantes


Não sei o que será mais decadente e degradante, se Sócrates a vender Magalhães a Hugo Chávez, se isto? Pode ser que tenhamos de vender a TAP, a EDP, as Águas, pode ser. Mas será que os senhores da Lufhtansa, caso se interessem pela TAP, não saberão para onde ela voa? Os primeiro-ministros de Portugal transformaram-se em caixeiros-viajantes?

Fim da laicidade do Estado?


Esta foto de Miguel Manso, para o Público, surpreende o momento em que Pedro Passos Coelho decretou o fim da laicidade do Estado português. A contemplação, em que o primeiro-ministro caiu para revelar, ao povo crente, o princípio do fim da crise para o início de 2012, é prova de que a fé já substituiu a razão na direcção do Estado. E o fervor é tanto que Passos Coelho nem ouve a senhora Lagarde, directora do FMI, menos dada à mística, que se atreveu a anunciar a iminência de uma recessão da economia mundial. Recessão que, como se sabe, não nos afectará se, de mãos postas, orarmos à deusa Krisis. Se não resultar, a culpa é de Miguel Relvas, que em vez de pôr as mãos e rezar está a jogar no telemóvel.

27/02/10

Um destino singular


Esta excelente fotografia, de João Henriques, do Público, tira a sua excelência daquilo que ela diz de Sócrates. O fundo negro parece prenunciar o horizonte para onde se dirige. É um facto que ele está de costas semi-voltadas para esse horizonte, mas não é menos verdade que ele o envolve. O segundo traço da fotografia é a singularidade de Sócrates. Esta singularidade, que ele desesperadamente cultivou, no entanto, não significa grandeza. Em primeiro lugar, essa singularidade significa solidão. Sócrates está só, inclusive no seu próprio partido, acossado por uma matilha que lhe ladra às canelas. Ele está a aprender dolorosamente que não se deve tratar os outros como cães, pois acabam sempre por morder. Em segundo lugar, essa singularidade é captada na fotografia pela expressão do primeiro-ministro. Há ali um azedume com o destino. Ele que envolto num ego hiperbólico ansiava um lugar glorioso na História, vê-se agora pura e simplesmente como o primeiro primeiro-ministo obrigado a depor perante a Assembleia da República, lugar aliás onde, tantas vezes, tratou de forma inqualificável a oposição, que agora o obriga a depor. Um destino singular.

26/02/10

O espírito de união nacional


Chegou a altura de fazer a pergunta da qual se foge como o diabo da cruz: os últimos acontecimentos na Madeira têm ou não um carácter político? Aquilo que aconteceu foi apenas devido a uma inesperada violência da natureza ou esta encontrou aliados na forma como o homem organizou e dispôs a sua vida no território?

Agora, em torno do desastre da Madeira, todos brincam à União Nacional. Jardim, em primeiro lugar, mas também o governo e o Presidente. Em tudo isto, porém, há uma falsificação deliberada da realidade. O que se passou na Madeira é um assunto eminentemente político e como tal é um assunto conflitual. Por exemplo, o Expresso chama atenção para um programa da RTP2 que avisava, há mais de dois anos, para aquilo que poderia vir a acontecer (e que infelizmente aconteceu mesmo). Mas já antes disso, cientistas da Universidade de Aveiro (UA) alertavam para o perigo e mostravam as causas (muitas deles devido à intervenção humana) que poderiam conduzir a uma desgraça. Segundo o jornal, parece que esses cientistas foram apelidados pelos governantes madeirenses de "cientistas loucos".

A ser verdade esta história, é claro que há responsabilidade política nos acontecimentos da Madeira. O facto de discutir essa responsabilidade e de conflituar em torno dela não é prejudicial à solidariedade com o povo madeirense. Seria até, contrariamente ao que gostamos de pensar, prova de maturidade cívica e democrática. Mais, seria uma forma de tomada de consciência daquilo que poderá ocorrer em muitos outros lugares devido às mesmas causas apontadas, pelos especialista da UA, para a Madeira. Pensar que a discussão não é feita por reverência aos mortos e respeito aos desalojados é ingenuidade pura. Ela não é feita por medo de Jardim. É desse medo que nasce, neste caso, o nefasto espírito de união nacional.

Um espectáculo extraordinário

Esta suspeição sobre a Procuradoria-Geral e as afirmações de José António Saraiva no parlamento são mais um sintoma de profunda degradação que atingiu a Justiça em Portugal. À nossa frente desenrola-se o mais extraordinário dos espectáculos, pior que um tornado ou um tsunami, um espectáculo que ameaça não deixar pedra sobre pedra. Mas o mais preocupante deste espectáculo é que ele deixa os espectadores impávidos e serenos, como se a desagregação das instituições (seja pela perversão efectiva da sua acção, seja pela calúnia de alguém demente) não afectasse minimamente a maldita vidinha que nos cabe viver.

Quando no final do século passado, o filósofo francês Paul Ricoeur definiu o fundamental da vida ética fê-lo numa frase lapidar: uma vida boa com e para os outros em instituições justas. Isto significa que faz parte de uma vida boa a nossa existência dentro de instituições, e para que a vida não seja um mero estar vivo mas uma vida segundo o bem é necessário que as instituições sejam justas. O que é preocupante no caso da Justiça portuguesa já nem sequer é a questão de saber se ela é uma instituição justa. Ninguém dá um tostão pelo carácter justo da nossa Justiça. O que os cidadãos começam a perguntar é se ainda existe uma instituição de Justiça em Portugal.

24/02/10

Reforma aos 67 anos


Esta notícia do Correio da Manhã só pode surpreender a quem anda distraído. É evidente que a idade da reforma terá de subir. Muito provavelmente, o limite não irá ficar nos 67 anos, como se está agora a estudar. Uma situação económica débil, uma política de aposentação na função pública completamente irresponsável (como pode alguém imaginar como sensato que se ganhe mais quando se deixa de trabalhar do que quando se está no activo?), um aumento da esperança de vida, e, fundamentalmente, a inversão da pirâmide etária e a concomitante inexistência da renovação das gerações, tudo isto, e ainda mais a demagogia, a inépcia política e a cobardia de muitos governos, só podem conduzir a coisas como estas.

Não vale a pena sequer protestar contra o actual governo. Qualquer outro teria de fazer o mesmo, inclusive governos daqueles que nunca têm responsabilidade de governação e que se instalam facilmente na crítica acéfala deste tipo de medidas. Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.

20/02/10

Equívocos e soarismos


O artigo de Vasco Pulido Valente, no Público de hoje, diz o essencial sobre o equívoco da candidatura de Fernando Nobre à Presidência da República. Vale a pena ler. Sublinho apenas um aspecto. Mesmo contra sua vontade, a candidatura de Fernando Nobre pode servir a um certo soarismo, eu diria ao soarismo tout-court, para fazer eleger novamente Cavaco à Presidência. Contrariamente ao que se pensa, Cavaco Silva chegou à Presidência por decisão de Mário Soares. A candidatura deste às últimas eleições nunca serviu para outra coisa senão para fazer eleger Cavaco e evitar que Manuel Alegre tivesse alguma hipótese de chegar a Belém. Ou alguém imagina que um homem tão experiente como Mário Soares tivesse alguma ilusão sobre as suas possibilidades de vitória? Foi Soares quem colocou Cavaco em Belém. E não vejo razão alguma para que o mesmo Mário Soares, no silêncio da sua consciência e na silenciosa análise que faz da situação política, não queira que Cavaco lá continue. O resto, isto é, aquilo que se diz que cada um (Soares e Cavaco) diz do outro - o pior possível - não passa, mesmo que seja verdade, de mexericos. Soares sempre se achou dono do regime e assim se comporta velando por ele. E Cavaco é muito mais seguro para o regime que Alegre. Por isso, Soares fará tudo para que Alegre não seja o candidato oficial do PS. Veremos se terá espaço de manobra para não ter de apoiar, da boca para fora, a candidatura do seu velho camarada de partido.

19/02/10

Começou


Como era de prever, e aqui se disse ontem, as verdadeiras corporações que colonizam a educação começaram a cair sobre Paulo Rangel. Veja-se como se pronunciam aqui. Se eu estivesse no lugar de Rangel não diria que essa gente percebeu mal. Perguntaria, antes, pela sua responsabilidade no estado a que a educação chegou. Perguntaria, também, que interesse os move. Aquele discurso é bem conhecido de quem anda nisto há muitos anos. Começou a soar forte nos tempos em que Joaquim de Azevedo era secretário de Estado. O resultado está à vista.

Sejamos honestos. Ninguém "quer" que a escola pública funcione com exigência e seriedade. Ninguém suporta ouvir falar em selectividade. Mas todos sabemos que quanto menos selectiva é a escola pública, mais selectiva é a sociedade e menos possibilidade de êxito têm nessa sociedade os alunos da escola pública. Rangel, se for eleito líder do PSD, já comprou uma bela guerra. É um facto que o discurso de Rangel soa a senso comum. Mas os discursos científicos (ou pseudo-científicos) feitos contra o senso comum na educação criaram o caos. Chegou a altura de perguntar se não há que temperar a educação com esse senso comum, que não é outra coisa senão o sentido partilhado por uma comunidade.

Uma nota. Quem quiser alterar alguma coisa na educação não deve deixar amedrontar-se nem tomar uma posição defensiva. Pelo contrário, deve perguntar por que razão os defensores de tão belas teorias deixaram chegar o sistema educativo e a escola pública à inanidade a que ela chegou. No tribunal da Razão, não é Paulo Rangel que se deve sentar no banco dos réus. Mas os seus censuradores.

18/02/10

Saberá com quem se está a meter?


Pela primeira vez vejo um político a olhar para a educação de acordo com a realidade que existe e não segundo um conjunto de abstracções. Subscrevo tudo o que Rangel disse sobre a educação, mesmo as coisas mais desagradáveis. E a coisa mais desagradável que disse é que uma criança aos 12 anos pode começar uma escolaridade voltada para o mundo do trabalho. É preciso ter coragem para dizer uma evidência. Se isso já existisse, ter-se-iam salvo muitos alunos, ter-se-ia evitado muito abandono escolar, ter-se-ia despertado muitas vocações práticas. Ter-se-ia evitado que muitos jovens caíssem na marginalidade. As boas intenções daqueles que se vão levantar indignados com Rangel - já estão a levantar-se - valem o que valem, e aquilo que valem é um abandono escolar desmedido, um terceiro ciclo do ensino básico hilariante, um ensino secundário degradado e, fundamentalmente, um mar de ilusões que transformaram a escola portuguesa num exercício de ilusionismo e de burocracia sem fim.

À pergunta "Combatia o abandono escolar introduzindo mais cedo o ensino profissional?" Rangel responde: "Não... aceitando quebrar um tabu! Introduzindo um ensino profissional misto a partir, talvez, do 7º ano de escolaridade. Aceitar esse encaminhamento sem lhes fechar a porta, caso eles queiram regressar a um sistema puramente académico (sublinhados a negrito nossos)." Nestes termos, e precisamente nestes termos, a sua proposta faz todo o sentido.

Agora, porém, Paulo Rangel não se deve iludir. O que diz sobre a educação vai mobilizar contra si muitos e poderosos interesses que colonizam o sistema de ensino e que vivem, no sentido literal do termo, da ideologia dominante na escola. O chamado facilitismo (palavra de que não gosto) e a degradação do ensino não são uma maldade da natureza, são o resultado de interesses que vivem desse facilistismo e dessa degradação, que o promovem, falando sempre em nome do sucesso escolar, para poderem parasitar o sistema educativo. Rangel deverá ter clara consciência do vespeiro onde se está a meter. Esse vespeiro é transversal ao espectro político. Quando se fala em corporações na educação, as pessoas pensam logo nos professores. Desconhecimento e ingenuidade. Há na educação, no silêncio dos gabinetes, de empresas privadas e de certos estabelecimentos do ensino superior, corporações bem mais poderosas do que os pobres 135 mil professores. Essas corporações silenciosas não brincam em serviço, como se tem visto nos últimos anos. Podemos apostar que será pela questão do ensino misto aos 12 anos que começarão os ataques e a defesa desesperada do status quo. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

16/02/10

Vai começar a privatização das escolas



É assim que as coisas começam. O PS dá uns passos, abre umas portas. Quando chegar o PSD, e vai chegar relativamente em breve, fará o resto. Nessa altura, o PS protestará, muito de esquerda, muito ameaçador, mas escudado na maioria de direita que toma a decisão, e secretamente contente com o que ele começou. Enquanto não estiver destruído tudo na educação não estão descansados. Ou alguém imagina que a privatização das escolas públicas secundárias serve para outra coisa que não uns "empresários" da educação embolsarem uns dinheiros à conta do contribuinte e da proletarização dos professores? Haverá alguém tão ingénuo que pense que os alunos vão beneficiar alguma coisa?

15/02/10

Morrer de frio

Esta notícia mostra que aquela ideia peregrina de que Portugal é um país de clima temperado não passa de uma valente idiotice. Idiotice essa que, durante muito tempo, dispensou os construtores de casas de as prepararem para o frio. Mas a notícia é ainda o espelho de uma outra coisa. Espelha a miséria endémica e uma sociedade absolutamente desequilibrada, que nem os dinheiros provenientes da União Europeia conseguiram disfarçar. Portugal, um dos países da União onde mais se morre de frio.