Como se banaliza, até o reduzir a um puro flato destituído de significado, um conceito filosófico? Assim: «Sócrates: Queda do Muro significou "novo paradigma mundial"». A noção de paradigma, importada do eidos (ideia) platónico pela mediação da teoria do desenvolvimento da ciência de Thomas S. Kuhn, tornou-se um bordão na mão de quem não faz a mínima ideia do que é efectivamente um paradigma, qual a arqueologia do conceito, e para que finalidade foi criado. Quando oiço alguém utilizar a palavra paradigma dá-me vontade de o mandar calar de imediato, ou de desligar a televisão. Tornou-se uma daqueles noções que se exibem mecanicamente para se mostrar uma erudição inútil e que de facto não se possui. No caso vertente, um filosofês técnico.
Das Unheimlich é um termo alemão que fez fortuna a partir de um artigo homónimo de Sigmund Freud. Unheimlich traduz-se por inquietante estranheza. É algo que é, ao mesmo tempo, excessivamente familiar e desconhecido. Poderíamos dizer que é aquilo que sendo tão familiar se tornou desconhecido. Quando emerge, porém, provoca o pavor. É assim a manifestação do que se recalcou, e essa manifestação resulta de uma espécie de quebra da nossa descrição causal do mundo. Perante a a manifestação desse qualquer coisa a reacção é de uma inquietante estranheza, como se algo se viesse abater sobre nós.
Perante a irrupção de Neto e Falâncio, os "homens da luta" de megafone em riste, foi certamente isso que aconteceu aos dirigentes socialistas e a Sócrates. A emergência do recalcado. Aquelas figuras não faziam parte daquele lugar nem deste tempo. Mas ali estavam, ridículos e rascas, com o megafone na mão e viola em punho. A boa consciência não gosta deste tipo de humor selvático, quase dionisíaco, e isso manifestou-se nos comentários na imprensa e nos blogues. Mas este tipo de humor é muito mais radical do que aquele que agora é incensado. A radicalidade funda-se numa estranheza inquietante que nos traz um mundo que preferíamos não ver, o mundo que afundámos no inconsciente. Enquanto o humor eleitoral dos Gatos visa iluminar as personalidades, este tipo rasca de humor visa pô-las em causa. O discurso de Sócrates sobre a tolerância é, naquelas circunstâncias, absolutamente patético e, nesse seu pathos, absolutamente risível. Aqueles não eram seus rivais políticos, aqueles Neto e Falâncio nasceram da cratera que se abrira na sua própria personalidade perplexa perante a manifestação do recalcado. Aquele humor não provoca riso, provoca medo. E é o medo que fala quando se comenta com desdém a proeza dos humoristas. Mas o facto é que, contrariamente a outros, despertaram o cómico e o risível.
A acção dos humoristas do Vai Tudo Abaixo, no Seixal, mostrou os limites dos Gatos Fedorentos. Tornou evidente como o seu humor deixou de ser corrosivo, embora possa ser inteligente. É um humor com o qual o sistema e o regime vivem bem, de tal maneira que as personagens principais fazem já parte do próprio programa, como se se legitimassem mutuamente, humoristas e dirigentes políticos. Mas esta arriscada prestação na arruada do PS, pouco dada a ser compreendida pelo cidadão comum, despe as figuras públicas da sua aura e coloca-as perante uma estranha e inquietante realidade, que não é outra senão a própria realidade. Sócrates mal deve ter respirado. Não há nada que um político em busca de votos mais deteste do que a realidade (por exemplo, esta).
Palavra de honra que tinha programado, lá mais para a frente, este post sobre o Raul Solnado. Mas tendo ele morrido hoje, antecipei-o. Quantas vezes terá passado esta historieta humorística na rádio portuguesa de illo tempore? Bem, não é música, mas é como se fosse. É o humor que era permitido. Raul Solnado, porém, não é um homem do antigo regime, aliás como muitos outras figuras que passam pelo Alma Pátria. Pelo contrário, ele é uma das faces da democracia portuguesa. E acima de tudo, Raul Solnado era uma pessoa de bem. Isso é o mais importante.
Eis uma notável explicação da crise. Melhor que as mil páginas de especialistas que por aí se escrevem. Ah, ainda tem direito a rir, para além da compreensão efectiva da coisa. Veja onde conduz a gestão por objectivos (dedicada, esta parte, aos presidentes dos conselhos executivos das escolas portuguesas, tão deslumbrados com a parolice).
Não é difícil perceber por que motivo tem o PSD tanta dificuldade em arranjar um líder. Mas ele, como muito bem viu WEHAVEKAOSINTHEGARDEN, lá está feliz e sorridente, bem no centro da família. Não destoa.
Querem uma prova do grau de degradação a que chegou o ensino em Portugal? Então, leia-se com atenção e proveito esta notícia da Lusa. O jovem centrista (quer dizer, militante da Juventude Centrista, organização do CDS dedicada à puerícia) veio “apontar (nunca ensinaram o menino que não se aponta, que é feio) com frontalidade” aqueles que no período revolucionário andaram metidos em “sequestros e incêndios às sedes do CDS-PP logo após a revolução de Abril de 1974 e que continuam hoje no activo”.
Entre os malvados e para além das FP 25 de Abril que não existiam na altura, encontrar-se-ia o chefe do grupo parlamentar comunista, Bernardino Soares, na altura com 4 anos. O jovem chefe da secção de puericultura do PP ou conhece pouco a história política de 3.ª República ou não sabe fazer contas, aliás o mais provável tendo em conta a incapacidade genética dos portugueses para a Matemática. Incapacidade essa que não discrimina ninguém em função da cor política ou da origem de classe, para falar de forma mais marxiana.
Confesso, porém, que estou do lado do jovem Pedro Moutinho, o chefe da tal secção de puerícia do Dr. Portas e frontal emissor de tamanha idiotice. Bernardino Soares mesmo quando jovem pareceu-me sempre um velho. Portanto, não será de estranhar que com 4 anos já aparentasse a idade de 36 que deve ter agora. Sendo assim, é muito natural que o menino Bernardino andasse a brincar com o fogo e a prender crianças centristas na casa de banho do infantário. Mas mal saía do infantário, ia logo sequestrar democratas-cristãos e incendiar sedes do CDS (o PP também não existia, ao contrário do que dá a entender o nosso pequeno condottiero). Era o tempo da revolução e o pessoal tinha de se divertir com alguma coisa, e o melhor era mesmo fazer uns sequestros e incendiar umas sedes...
Depois de o segundo equipamento do Benfica ter sido amarelo e preto e cinzento e até azul, agora é cor-de-rosa, melhor cor-de-rosinha. Bem, se o Ricardo Araújo Pereira nada tem contra o assunto (ver aqui), quem sou eu para achar seja lá o que for. Cor-de-rosa, Violeta, Turquesa, Lilás, Creme, até Esmeralda. Enfim, um dia até será verde escuro… Ah, segundo parece, o equipamento principal voltou ao vermelho vivo, com pouco branco. Do mal, o menos.
Eis a natureza da Filosofia. O próprio Marx aparece travestido de filósofo, pouco interessado na praxis. Não percebo é o que está a fazer Beckenbauer no meio de um jogo de futebol. Talvez seja apenas o sintoma de uma corrupção. Corrupção que se afirma com a presença, no lado dos gregos, de Arquimedes. Não fosse ele ter dado aquele triste «eureka!» e nada se teria passado no jogo. Foi assim que ele corrompeu Sócrates e deu inicío à acção, atraiçoando a sua natureza filosófica e contemplativa, isto é, de praticante do ócio. Vídeo recomendado para início das aulas de Filosofia, no 10.º ano, como motivação das crianças, claro.
Escarnecido, abandonado, sofrer mil vezes no tempo. Nada ter, nada poder, nada ser, eis o meu esplendor. (Angelus Silesius, Cherubinisher Wandersmann, II, 244)