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02/01/10

A não ser que algo aconteça…


O mundo natural luxuriante onde o homem evoluiu está a ser transformado num ambiente largamente artificial (prosthetic). De forma crucial, num espaço de tempo humanamente relevante, esta perda da biodiversidade é irreversível. É verdade que a vida na terra recuperou a sua riqueza após a última grande extinção; mas somente após terem passado dez milhões de anos. A não ser que algo aconteça para quebrar a orientação actual, todas as futuras gerações de seres humanos viverão num mundo biologicamente mais empobrecido do que foi durante uma eternidade (for aeons). [John Gray (2004). Heresies Against Progress and Other Illusions. London: Granta Books, pp. 33]

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O que dá que pensar nesta citação de John Gray não é a constatação da perda da biodiversidade. Tão pouco a ideia de um ambiente cada vez mais artificial. Aliás, a ideia de Gray remete para um ambiente protésico, isto é, pleno de próteses. O que dá que pensar é a expressão “A não ser que algo aconteça…”(Unless something occurs…). O que poderá acontecer para levar os homens a alterar a forma como colonizam o planeta? Há aqui o reconhecimento dos limites do entendimento humano, a confissão de que é necessário que algo de exterior ao homem surja, para que este altere a orientação que imprime à sua própria vida, como aliás se viu pelo magros ou nulos resultados da conferência de Copenhaga. Mas este “a não ser que algo aconteça…” inscreve o céptico filósofo inglês numa tradição pouco considerada filosoficamente, a do profetismo do Antigo Testamento. No “a não ser que algo aconteça…” pensa-se já a catástrofe a vir, o castigo de um Deus irado com os seus filhos. Quando a pura imanência se mostra impotente para travar os desvarios humanos, o que lhes resta? O recurso à transcendência, ao exógeno, ao totalmente outro.

08/12/09

Conspirações


Portugal aqueceu 1,2 graus nas últimas décadas e vive fenómenos extremos como chuvadas intensas, ondas de calor e vagas de frio prolongadas. A responsabilidade deste incremento da temperatura é, segundo Adérito Serrão, presidente do Instituto de Meteorologia (IM), da acção humana, nomeadamente das consequências da revolução industrial, que intensificou as emissões de dióxido de carbono.

O mais curioso nesta história do aquecimento global é a emergência de teses negacionistas. Aparentam ser um exercício da razão crítica e lançam a confusão entre o senso comum destituído de capacidade analítica e de informação. No fundo, são exercícios próximos daqueles que negam o holocausto dos judeus. Muitas vezes os defensores destes teses negacionistas são os mesmos. Tentam denunciar estranhas conspirações que moldam as teses do holocausto e do aquecmento global, mas na verdade quando se começa a puxar o fio dé ambos os negacionismos encontramos interesses políticos comuns na sua origem. Quem defende a inexistência do holocausto de judeus na II Grande Guerra? Quem tem petróleo para vender e provocar mais emissões de CO2? Como se vê, é fácil montar uma nova teoria da conspiração.

07/12/09

Recusar a mercantilização do ambiente



Nem sempre se pode estar em desacordo com o PCP. Por exemplo, a posição dos comunistas perante o comércio da poluição parece-me bastante justa. A crítica à mercantilização do ambiente e à privitização da atmosfera é essencial para afirmação sobre elas de um direito público internacional e evitar que, devido ao talento das equipas jurídicas ao serviço das grandes multinacionais, a defesa do ambiente e a protecção da atmosfera se venham a reger pelas leis do mercado e da economia, e não da política. A atmosfera bem como o ambiente do planeta são bens comuns partilhados por todos os seres que habitam a Terra, não podem estar sujeitos à lei da oferta e da procura, nem ao jogos dos interesses privados, por muito amplos que estes sejam.

13/11/09

Icebergs à deriva



Há uma corrente que insiste em negar a causalidade humana nos fenómenos relacionados com as alterações climáticas. Um dos argumentos é curioso. Funda-se num apelo à humildade. Seria uma arrogância humana desmedida, pretender que as alterações que estão a ocorrer no clima do planeta se devem à acção de uma das espécies que o habita. Mas dois séculos e meio de Revolução Industrial, uma revolução cada vez mais acelarada e disseminada por todos os cantos do planeta, alguma coisa devem ter contribuído para o actual estado de coisas. Por exmplo, para o fenómeno dos icebergs que se estão a deslocar para a Novaz Zelândia ou para a acelarção da perda de massa na Gronelândia. Mas subjacente a este tipo de posições está uma não pequena arrogância, uma hubris prometaica que presume que tudo é permitido ao homem. Que o fogo tenha sido roubado aos deuses e dado aos homens é um crime que, apesar da condenação de Prometeu, pode ser perdoado à espécie humana. É duvidoso, porém, que os deuses permitam impunemente que o homem utilize esse mesmo fogo para reduzir a casa onde habitam a cinzas.

09/07/09

A caixa de Pandora ambiental

O grande problema das economias de mercado reside no ambiente. Este parece, até agora, um limite intransponível para a voracidade do homo faber. O modelo de vida que resulta do desenvolvimento económico das nações assenta na contínua subida do consumo, de forma a que se gere uma contínua subida da produção, o que origina riqueza e emprego, os quais produzem estabilidade social e política. Mas este aumento de produção implica o consumo sempre maior de energia. O nó górdio parece estar aqui. Ou o desenvolvimento da ciência e da tecnologia permite, em tempo útil, encontrar energias limpas e baratas (um desejo do tipo sol na eira e chuva no nabal), ou todo o modo de vida dos países ricos, emergentes e pobres terá de mudar drasticamente. É preciso compreender bem uma coisa: o consumo frenético e excessivo é o que permite às sociedades modernas e em vias de modernização subsistirem. Uma retracção da procura e uma prática generalizada da poupança seriam uma catástrofe social e política, com um desemprego incontrolável e a pauperização generalizada das populações. Por isso, pode-se perceber as reticências da China e da Índia em reduzir em 50%, até 2050, a emissão de gases com efeito de estufa. Agora que descobriram as virtualidades do capitalismo ocidental parece não estarem interessadas em partilhar os problemas que esse mesmo capitalismo traz. Aquilo que está em jogo, porém, é a possibilidade de, no futuro, ainda existir vida humana digna desse nome sobre o planeta, para falar à maneira de Hans Jonas. Nós, ocidentais, abrimos a caixa de Pandora e agora falta-nos poder para a fechar.

10/03/09

Lá volta a questão dos níveis


Os especialistas estão a chegar à conclusão de que as previsões para a subida do nível da água do mar pecam por conservadoras. A situação será muito pior do que se julgava (aqui), podendo essa subida ser o dobro do projectado. Uma tarefa interessante será especular sobre os vários imperativos que impendem sobre as sociedades actuais. Diminuir o efeito de estufa e a pressão sobre as natureza e, ao mesmo tempo, aumentar os níveis de vida das populações do planeta, gerando maior consumo. Há qualquer coisa que não funciona. Se existe, uma relação entre o aumento do nível da água do mar e a actividade humana, não será que alguma coisa terá de mudar? Se queremos baixar o nível da água do mar, então teremos que baixar a emissão de gases com efeito de estufa. Se temos de baixar essas emissões, teremos de produzir e consumir menos. Se produzimos e consumimos menos, então o nível de vida terá de baixar. Não seria altura de inventar um novo paraíso que substitua o paraíso do consumo e da riqueza?

17/02/09

Mau humor climático


Há em certos sectores da sociedade, com reflexo em áreas significativas da blogosfera, um desprezo claro pela temática do aquecimento global do planeta. A tese centra-se na ideia de que o aquecimento não é o produto da nossa acção, nomeadamente da emissão de gases que provocam o efeito de estufa. É um facto que certas profecias apocalípticas não se realizaram, ou ainda não se realizaram (as profecias têm essa vantagem, nunca dizem quando se realizam e o futuro está sempre em aberto). Mas notícias como esta aqui, que diz que "um bloco de gelo com cerca de 14 mil metros quadrados desprendeu-se da plataforma de Wilkins, na Antárctida", estão longe de serem tranquilizadoras. De facto, assistimos a uma luta ideológica que tende a distorcer os factos. Isto, tanto da parte dos catastrofistas, digamos assim, como da dos negacionistas. Sejam as alterações climáticas apenas produto da nossa acção, sejam produto da evolução espontânea e autónoma do clima do planeta, sejam da junção dos dois factores, a verdade é que, a cada dia que passa, o problema parece ser mais claro. Não sei se as medidas paliativas que se estão a tomar servirão para alguma coisa. Seja como for, o tipo de vida que tem sido o nosso parece já, tendo em conta o mau humor climático, não ser possível por muitos anos.

24/08/08

O caminho do nuclear

A crise dos preços da energia tem sido propícia para abrir caminho à opção nuclear. A tendência é para falar dessa energia de forma angelical, como se ela não contivesse ameaças efectivas que, pela sua natureza, não podem ser colocadas lado a lado com os perigos contidos noutras energias. Vale a pena meditar numa notícia do Sol sobre um incêndio de uma central na Catalunha. Refere-se também aí a um acidente ocorrido em Novembro do ano passado, “sem perigos significativos (sic) para a população”, mas que geraram a recomendação de uma multa para os gestores da central entre 9 e 22,5 milhões de euros.

24/07/08

O caminho do nuclear - II

Agora são as confederações patronais que pretendem avaliar a produção de energia nuclear (JN). Em nome da competitividade económica. Com pequenos passos, a campanha pelo nuclear vai crescendo. Um dia destes, haverá consenso nacional. O pior vai ser quando determinarem o lugar das centrais.

17/07/08

O caminho do nuclear

Apesar de o governo estar apenas voltado para as energias renováveis e a eficiência energética, apesar de Manuela Ferreira Leite pensar que a intervenção de Constâncio sobre o problema “apenas serviu para desviar as atenções”, a verdade é que a opção pelo nuclear lá vai fazendo o seu caminho. Hoje foi Jerónimo de Sousa que não acha, apesar de o PCP não defender essa alternativa, que seja “um sacrilégio discutir essa matéria”, defendendo, caso haja inclinação pelo nuclear, a necessidade de um grande debate. Marcelo Rebelo de Sousa vai mesmo mais longe e diz que o governo deve nomear comissão de especialistas para fornecer informação credível que oriente o debate sobre o problema. Como se vê, a coisa vai já relativamente rápida.

16/07/08

As palavras de Constâncio

Vítor Constâncio veio dizer o óbvio perante a actual situação energética do país. Por muito que a QUERCUS grite ou o governo afiance que só pensa nas energias renováveis e na eficiência energética, toda a gente percebe que o actual modelo de produção e consumo de energia não se pode manter. Quase todos nós simpatizamos com o não ao nuclear. De certa forma fomos educados pela contestação à central nuclear de Ferrel e pelos grandes desastres das centrais nucleares estrangeiras. Mas será que queremos retroceder no uso da energia? Queremos mesmo abdicar do conforto que sobre ela se construiu? Já se percebeu que não serão moinhos de vento que responderão ao problema. O pior, porém, é que o problema terá mesmo de ser respondido.

09/07/08

De Rerum Natura - Biocombustíveis e aumento de preços

Num post de Palmira Silva, o De Rerum Natura aborda o problema da ligação da produção de biocombustíveis ao aumento de preços dos bens alimentares. Há referência a um artigo do Guardian onde é citado um relatório do Banco Mundial. Por fim, são fornecidos 6 links para posts onde o De Rerum Natura trata do assunto. Um dossiê à mão sobre um assunto fundamental.

05/07/08

Biocombustíveis

Parece que estamos encerrados num labirinto e que não há fio de Ariane que nos valha. Assolados pelos problemas do efeito de estufa e da necessidade de diminuir a dependência do petróleo, não têm faltado ideias e modas. Uma das modas mais levadas a sério foi a do biodiesel. Era o caminho para um novo mundo verde e sem petróleo, pensava-se e apregoava-se. Mas como todas as utopias, também esta está a mostrar a sua face distópica. Segundo um estudo do Banco Mundial «os biocombustíveis são responsáveis por 75 por cento do aumento dos preços». Diminui-se a dependência do petróleo, mas morre-se de fome. Mas os efeitos negativos não ficam por aqui: «Produção de combustíveis alternativos provoca um aumento dos gases com efeito de estufa» e ainda: «Desflorestação e alteração do uso dos solos são fontes importantes de emissões de dióxido de carbono». Lá estamos nós de novo na mãodos senhores do petróleo. É compreensível que gostemos de brincar aos feiticeiros. O problema é que a natureza continua apostada em virar o feitiço contra o feiticeiro.

19/05/08

Investimento externo, petróleo e ambiente

Não quero ser de intrigas, mas a coisa está cada vez melhor para o ambiente. Com o investimento externo a cair 50% em 2007 e o petróleo a rondar os 128 dólares, a melhor coisa é o pessoal começar a pensar noutro estilo de vida, um estilo mais ecológico. Por mim, acabei de apagar a luz do candeeiro. Sempre me pareceu que Sócrates lá bem no fundo era um ecologista. Faltava-lhe a oportunidade para ecologizar.

13/12/07

Problemas ambientais?

Como toda a gente já reparou não existe qualquer problema ambiental. Parece que é tudo invenção de uma turba destrambelhada e ociosa. Em vez da psicoterapia ou da prosaica polidela de esquinas, essa gente começou a espalhar o boato de que o aquecimento global estava a afectar o planeta e a dar cabo do ambiente.

Segundo noticia a Lusa, a década de 1998-2007 foi a “mais quente de que há registo”. Em 2007, registou-se o nível mais baixo de sempre de gelo no Ártico. Consta também que tem havido umas despropositadas cheias e tempestades de areia em muitos lugares desta pobre Terra, para não falar dos furacões que vão entretendo os dias lá para os lados do Pacífico. Também a temperatura da superfície do planeta se lembrou de começar a subir e o nível do mar, para não ficar atrás, está a subir 3 mm ao ano, enquanto a média no século passado foi de 1,7 mm.

Nunca tive uma especial inclinação pelos movimentos ecologistas, mas quando vejo certas luminárias, nacionais e internacionais, a dizer que não há evidência relevante sobre a existência de um problema ambiental sério, dá-me vontade de vestir de verde (honni soit qui mal y pense!).

Não é por acaso que muita gente tenta desmentir aquilo que está aos olhos de todos. O que está em causa é, de forma radical, o nosso modo de vida e os interesses que o protegem, fomentam e incentivam. Não vai ser a revolta dos homens contra um mundo absurdo que o vai parar. Vai ser a própria natureza que acabará por pôr a casa em ordem. Connosco ou talvez dispensando a nossa ajuda e a nossa presença. Sendo assim, em Bali não se está a passar nada e eu vou-me sentar tranquilamente a ler uma tradução francesa do Das Prinzip Verantwortung, que é como quem diz O Princípio de Responsabilidade, de Hans Jonas.

08/11/07

A energia e as potências libertadas

Segundo artigo do Público, a procura da energia irá subir 55% até 2030 (38% num cenário optimista). Cerca de 45% desta subida será da responsabilidade da China e da Índia. A China, em 2006, construiu 105 gigawatts de potência em centrais térmicas, sobretudo a carvão (foi como se instalasse a cada 4 dias uma central como a de Sines). A Índia vai precisar, em 2030, de 400 gigawatts de capacidade adicional. Curiosos são os números da frota automóvel chinesa: 5,5 milhões de veículos em 1990, 37 milhões em 2005 e até 2030 explodirá para 270 milhões. Para além da retórica sobre a defesa do ambiente e da aldeia comum, o que fica é a realidade dura dos números. Alguém vai dizer aos chineses e aos indianos que não podem consumir tanta energia? E os ocidentais, tirando a verborreia europeia, estarão dispostos a abdicar da sua vidinha confortável? A corrida à energia é um processo que não pára, está fora do controlo humano, como a economia que arrasta o consumo da energia. A modernidade é um processo de autonomia e de libertação. Ninguém percebeu, porém, que aquilo que essa libertação trazia estava muito longe de ser a emancipação do homem, mas a libertação de potências infra-humanas incontroláveis, que se preparam para o subjugar, senão mesmo para o destruir.

16/09/07

Descongelar os pólos

Escreve o Sol on-line: «Segundo a AEE, as regiões polares são muito vulneráveis às alterações climáticas. A velocidade do degelo é tão acelerada que alguns cientistas prevêem a extinção do gelo na área por volta de 2040.» Para 2040 faltam apenas 33 anos. Perceber-se-á o que significa isto? Descongelar os pólos não é bem a mesma coisa que descongelar o frigorífico…

08/09/07

Requiem pela Terra

Cito o Sol: “Os glaciares da Gronelândia estão a derreter a uma velocidade tal que a queda de gigantescos blocos de gelo no Oceano Atlântico já é apontada como causa de sismos na região.” “O gelo está a mover-se a dois metros por hora numa frente de 5 quilómetros de comprimento e 1 500 metros de profundidade.” “Esta sexta-feira, líderes religiosos cristãos, muçulmanos, hindus, xintoístas, budistas e judeus rezaram em silêncio pelo futuro do planeta, num barco ao largo de Ilulissat.” A grande questão que se coloca porém é o tipo de oração. Aposto que foi um Requiem, uma missa pelos defuntos. O nosso glorioso mundo moderno e tecnológico está a afundar o planeta. Requiem aeternam dona eis, Domine.