08/11/09

Impressões - XXXV


José Nogué, La esfinge marina (1910)

a trémula água que se agita
o peso do céu a arder
ou a rosa que se abre
para a desdita

tudo conspira
para que o teu nome
venha envolto de espuma
e em cada olhar se veja
não a pedra não a rocha
mas a velha esfinge
que devorou a bruma

Os crucifixos italianos



O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem decidiu proibir os crucifixos nos estabelecimentos escolares italianos. Segundo o Público, uma sondagem do Corriere della Sera mostra, porém, que a grande maioria dos italianos, 84%, é favorável à manutenção dos crucifixos na sala de aula. Dentro desta maioria conta-se 68% daqueles que nunca vão à missa.

O preocupante nesta história não é o conflito entre o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e o sentir da imensa maioria dos italianos, nem tão pouco o direito de ingerência em assuntos internos que os países europeus criaram para certas instâncias internacionais. Aquilo que é mesmo preocupante centra-se no escavar da identidade europeia, na abolição sistemática dos símbolos que nos conduziram até aqui. Mais tarde ou mais cedo tudo isto se pagará. Seja pela sujeição a símbolos que são radicalmente estranhos à tradição europeia, seja pelo acréscimo de intolerância e fanatismo religiosos dos próprios europeus. Contrariamente ao que pensam os herdeiros do Iluminismo e do Jacobinismo, não há vazios religiosos. A destruição do cristianismo, fundamentalmente do catolicismo, é apenas a antecâmara para que outras religiões, porventura bem menos civilizadas, tomem o lugar daquela que venera o Crucificado.

Mais um passo...



Uma vitória de Barack Obama. A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou a proposta de reforma do sistema de saúde, que prevê o alargamento da cobertura médica a quase toda a população norte-americana. Falta agora a votação no Senado, para os EUA, em matéria de Saúde, darem um passo para fora das trevas medievais. Mais um passo...

Lá se vai mais um bocado da auto-estima



O dr. Manuel Damas formou-se em Medicina Nuclear, mas a sua especialidade é sexologia, e dirige o Centro Avançado de Sexualidades e Afectos, no Porto. Deu uma entrevista à revista Sábado. Parece apostado em reforçar a baixa auto-estima dos portugueses do sexo masculino, mostrando o que se esconde por detrás da prosápia heróica com que se pintam. Transcrevo...

Diz que o homem português ainda tem muito a aprender, no que toca ao sexo.

É muito marialva, mau amante. Passou da figura do Rafael Bordalo Pinheiro, baixo, gordo, careca e de bigode, para um homem mais alto, mais magro e de brinco à Cristiano Ronaldo. Ou seja, modernizou-se aparentemente, mas com muita superficialidade. Temos de avançar para o futuro. E isso passa também pela sexualidade e pelos afectos. Há muita desinformação, muito analfabetismo na área da sexualidade.

07/11/09

Impressões - XXXIV


Leopold Romañach, Marina


este equilíbrio
entre terra e água
é um fogo que brilha
na curva da tarde

incendeia mãos e olhos
traça um rumor de madeira
como se anunciasse
uma praia de carvão

este equilíbrio
branco como a vertigem
anoitece pela casa
que o tempo trai

Chemins qui ne mènent nulle part


O tempo das avaliações



Afinal não são só professores que estão sob o fogo da avaliação. O senhor Procurador-Geral da República veio informar-nos que as conversas escutadas entre o sr. dr. Vara, distinto administrador de bancos, e o sr. eng.º Sócrates, não menos distinto primeiro-ministro de Portugal, estão também sob avaliação. Qual será a escala e os indicadores utilizados? Será que o eng.º Sócrates vai ser obrigado a fazer um relatório de auto-avaliação?

Deixando de lado a tolice das avaliações, há coisas que me fazem espécie, como se diz por estes lados. Em primeiro lugar, faz-me espécie a gestão do segredo de justiça. Como é que conversas inerentes a um processo ainda em segredo de justiça, conversas que envolvem o primeiro-ministro de Portugal, são mais públicas que um resultado de um jogo de futebol transmitido pela RTP? Não se trata de defender Sócrates. Trata-se de exigir que a Justiça portuguesa não continue a atolar-se na lama, lama que já lhe cobre os ombros. Esta publicidade extemporânea serve para quê e a quem? É sintoma de quê? Faz-me espécie também que o senhor Procurador-Geral venha lançar uma sombra com a história da avaliação. Não deveria eximir-se a abrir a boca e agir se tivesse de o fazer e quando fosse a hora de o fazer? Faz-me espécie, por fim, a propensão que há para associar o nome do primeiro-ministro a casos desagradáveis.

06/11/09

Impressões - XXXIII


Van Gogh, Paisaje fluvial con barcas de remos en la orilla (1887)

um rio – floresta de rosas azuis
onde barcos dançam
sonâmbulos
no sono da margem

o vento tacteia os cascos
e os remos são pétalas
desamparadas
a cair para fora da viagem

A sombra



(Imagem retirada, com a devida vénia, do aluaflutua)

Militantes socialistas de Braga condenam ataques de Correia de Campos, antigo ministro da Saúde, a Manuel Alegre. Por si só, esta posição significa pouco, mas ela não deixa de indicar o rumor que, como uma sombra, começa a atravessar as hostes socialistas, depois de uns anos de ataraxia mental.

O fim da infância



Há dias disseram-me que a casa onde nasci tinha sido demolida. Em sua substituição está, um pouco atrás, a ser construída uma outra. Apossou-se de mim uma sensação de vazio, como se só agora me tivesse realmente separado dela. Não sei que relação as pessoas têm com as casas onde nasceram, mas eu tinha uma relação muito forte, embora a casa já não estivesse na posse da família há cerca de 30 anos. Foi ali que vi o mundo, que descobri a luz, que sujei as mãos na terra, que vi a erva pela primeira vez. Foi lá que descobri o céu e os astros. Foi lá que o meu pai fez o meu primeiro presépio, com um céu azul e estrelas e um Menino nas palhas. Foi lá que vi os primeiros animais, foi lá que vi a minha avó chegar uma e outra vez, com os cabelos que para mim sempre foram brancos. Foi lá que escutei os meus tios-avós, os donos primitivos da casa, de quem ainda guardo uma grata recordação. Foi lá que ouvi a voz da minha mãe e que vi as suas flores, e escutei as suas orações. Foi lá que descobri a água dos poços e os frutos da terra. A demolição dessa casa, já irreal, representa a expulsão definitiva do paraíso e a sentença de um retorno impossível, mesmo que ele fosse ilusório e nunca verdadeiramente desejado. Talvez a minha infância tenha agora acabado de acabar. Não tenho casa onde voltar.

05/11/09

Impressões - XXXII


Berthe Morisot - Boat - Entry to the Midina in the Isle of Wight (1875)

as águas ondulam
sob o império de um barco
a luz ferida que avança
deixa esteiras à passagem
inunda o olhar de gratidão

que destino o teu
se o desalento da tarde
descai sobre os ombros
e a mão outrora feroz
não é mais que água
sob tirania de um casco
que vai a passar

A lei das compensações



Os ingleses é que pagam as frustrações de Braga. A vida é assim, umas coisas compensam as outras. Mas para se ficar mais tranquilo sobre o real valor da coisa, é preciso ganhar aos grandes de cá, não bastam os médios de lá de fora.

Contaminações



O idílio alemão tem qualquer coisa de confinado, de reduzido, como de resto sugere a etimologia da palavra «idílio», a pequena imagem ou pequeno quadrozinho florido da literatura helenistica. A história alemã, que entretanto visa impérios universais e milenares, nasce muitas vezes de uma moldura provinciana, de um horizonte municipal. Assim, por exemplo, um historiador refere o plano secreto preparado para a tomada de Ulm, em 1701, por parte dos Bávaros, aliados de Luís XIV, alguns dos quais tinham conseguido infiltrar-se na cidade disfarçados de camponeses, e camponeses com a missão, de resto cumprida, de abrirem os portões da fortaleza às suas tropas: «O tenente Baertelmann levará debaixo do braço um cordeiro; o sargento Kerbler, dois frangos, o tenante Habbach, vestido de mulher, levará na mão uma cesta de ovos...»

As tropas bávaras, que graças a este golpe de mão se apoderaram de Ulm — hoje a cidade fica no limite entre Baden-Württemberg e a Baviera —, eram aliadas do Rei-Sol, mas a política de Luis XIV, com a sua modernização centralizadora e imperialista que destrói os poderes locais, faz parte de uma outra história, pertence a um capítulo que inclui Robespierre, Napoleão ou Estaline, ao passo que os aliados alemães dos autocratas franceses pertencem ao particularismo medieval, estreito e «idílico» que a história moderna, e especialmente a de França, depressa deixa para trás. [Cláudio Magris, Danúbio]

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Uma das coisas que me retém junto deste livro de Magris é a combinação entre vários tipos de género. Estamos perante uma narrativa que conta pequenas histórias, que faz crónica, apresenta reflexões de carácter filosófico, deixa entrever algumas perspectivas científicas, mobiliza a História. Esta contaminação, que de certa forma constitui o núcleo central do romance moderno, tem o seu antepassado, como bem viu Nietzsche, no diálogo platónico, também ele produto de outros géneros literários que o génio de Platão soube fundir. Isto serve-me para ir a um outro lado. O carácter central da narrativa na vida dos homens e no seu saber. Da poesia lírica às ciências da natureza, talvez mesmo à matemática e à lógica, aquilo que subjaz a todos esses campos é o aspecto narrativo, por estranho que isso possa parecer aos ouvidos de um físico, de um biólogo, ou, por maioria de razão, de um matemático. Em qualquer dos géneros, sejam literários, filosóficos ou científicos, alguém conta alguma coisa a alguém. A distinção entre els não residirá na sua hipotética incomensurabilidade. O que os distingue são as estratégias retóricas presentes em cada um deles, estratégias essas que se adequam a diferentes línguas e linguagens, para as configurar e obrigar a contar-nos uma história, seja a das realidades infra atómicas, seja a da aventura do ADN, seja a que se expressa num epigrama, ou num breve conto, ou mesmo na pequena anedota, mais ou menos pícara, que se conta no dia a dia. A narrativa de Magris é um símbolo de tudo isto, e por isso um prazer refinado para o leitor.

04/11/09

Impressões - XXXI


Lilla Cabot Perry, The State House, Boston (1910)

o manto que a terra cobre
a desolação do frio sobre as árvores
as folhas como mãos caídas
suspensas desses ramos
abandonados pela seiva

a vida não é um herbário
onde colas vitórias e derrotas
e deixas uma página em branco
para a folha que não encontraste

deixa vir o frio do inverno
e senta-te diante do fogo que arde
se esperares a muralha cairá
sob o peso que o tempo traz

Uma viagem no Barroco - 23 François Couperin - La Sultane (1668-1733)


François Couperin - La Sultane


François Couperin, known as le grand to distinguish him from an uncle of the same name, was the most distinguished of a numerous family of French musicians, officially succeeding his uncle and father as organist of the Paris church of St. Gervais when he was eighteen. He enjoyed royal patronage under Louis XIV and in 1693 was appointed royal organist and belatedly royal harpsichordist. As a keyboard-player and composer he was pre-eminent in France at the height of his career. He died in Paris in 1733.

Couperin composed church music for the royal chapel under Louis XIV. The surviving Leçons de ténèbres are possibly the best example of this form of composition, the first of the three for soprano solo and continuo and the third for two sopranos, settings of the Lamentations of Jeremiah for the Holy Week liturgy.

Couperin's chamber music includes L'apothéose de Lully (The Apotheosis of Lully), a tribute to the leading composer in France in the second half of the 17th century Jean-Baptiste Lully, a tribute to the Italian composer Corelli, L'apothéose de Corelli, part of a larger collection of ensemble pieces under the title Les goûts réunis (Tastes United), an exploration of the rival French and Italian tastes in music, a quarrel in which Couperin remained neutral. The Concerts royaux represent another important element in Couperin's music for instrumental ensemble.

Couperin's compositions for the harpsichord occupy a very important position in French music. In 27 suites for the harpsichord, most of them published between 1713 and 1730, Couperin offered a series of harpsichord pieces, many of them descriptive in one way or another. These richly varied suites or "ordres" represent the height of Couperin's achievement as a composer and arguably that of the French harpsichord composers (Naxos).

Sonate en Quatuor "La Sultane": I. [Gravement]; II. [Gaiement]; III. Air [Tendrement]; IV. [Gravement]

Manfredo Kraemer, violin. Jay Bernfeld, viola da gamba. Carol Lewis, viola da gamba. Michel Murgier, basse de violon. Mike Fentross, theorbo. Skip Sempé, clavecin.

Capriccion Stravangante. Director: Skip Sempé.

Sob suspeita



É preciso ir mais longe. Isto significa o quê? Significa apenas que devemos desconfiar mais e melhor. Num tempo como o nosso, a suspeita deve recair sobre tudo e sobre todos. Em primeiro lugar, devemo-nos colocar a nós mesmos sob suspeita. Devemos suspeitar dos nossos actos, dos nossos pensamentos, dos nossos gestos, das nossas crenças, das nossas visões. Mas esta suspeita que fazemos recair sobre nós deve ser universalizada. A corrupção do carácter, para usar o belo título de um livro de Sennett, é universal, tão universal que já ninguém dá por essa corrupção. Aprendemos a viver segundo as regras dos corruptores e hoje pensa-se que elas são não apenas a lei jurídica como a lei moral. O carácter corrompido tornou-se inocência, mas esta não é ausência do mal, mas o desconhecimento da maldade do próprio mal.

03/11/09

Impressões - XXX


Claude Monet, Bordighera, Italy (1884)

o fundo onde tudo se recolhe
abre-se para a lenta inércia do olhar
como se uma história cantasse
na hora em que a terra escurece

não é a tristeza que cai sobre a face
nem o abandono que há-de vir
não é a dor que se desenha no horizonte
nem a queda que se pressente

ouve-se apenas a cotovia cantar
e sentado à sombra da buganvília
vê-se crescer sobre o mundo
o véu tecido pela insignificância

Uma viagem no Barroco - 22 Girolamo Frescobaldi - Aria di balletto (1583-1643)


Girolamo Frescobaldi - Aria di balletto (Scott Ross)


Italian keyboardist and composer. His father was a musician and a prominent Ferrarese citizen; he studied with the Ferrarese court organist Luzzaschi (a debt he often acknowledged in dedications), from whom he received training on Vicentino's chromatic archicembalo as well. He was named organist at the Accadernia della Morte in 1597 at the age of 14. At some point he came under the patronage of Guido Bentivoglio, a cleric and member of a powerful Ferrarese family. The duchy of Ferrara reverted to the papacy upon Alfonso's death in 1597; the principal Vatican figure in the affair, Cardinal Pietro Aldobrandini, promised a post at the papal court to Guido, who soon went to Rome, taking Frescobaldi with him. Girolamo was admitted to the Accademia di S. Cecilia in 1604 and became organist at S. Maria in Trastevere in 1607. He accompanied Guido to Flanders in 1607-8, where a set of his 5-part madrigals was published. He was summoned back to Rome by Guido's brother Enzo, a Vatican official, and was appointed organist of the Cappella Giulia, St. Peter's, upon his return; he worked also as a member of Enzo's household musica, though he was less than diligent in that post. He married in 1612 after fathering two illegitimate children by his future wife; by 1615 he seems to have left the service of the Bentivoglio family for that of Cardinal Aldobrandini, while the court of Mantua made an abortive effort to engage him in that same year. (Continuar a ler em HOASM , cf. também wikipedia)

Na morte de Claude Lévy-Strauss



Foi hoje anunciada a morte do antropólogo Claude Lévy-Strauss. Tinha 100 anos. Foi uma das figurantes marcantes, no campo intelectual, do século XX. Como homenagem, deixo aqui os três últimos parágrafos de um texto de 1975, um texto que todos os professores, pais, pedagogos e gente interessada em educação, inclusive ministros socialistas, deveriam ler uma e outra vez até terem percebido a simples mensagem que ele contém. O texto denomina-se Palavras Retardatárias sobre a Criança Criadora. Perdoe-se-me a extensão da citação.

Os nossos filhos nascem e crescem num mundo feito por nós, que antecipa as suas necessidades, previne as suas perguntas, os encharca de soluções. A este respeito, não vejo diferença entre os produtos industriais que nos inundam e os «museus imaginários» que, sob a forma de colecções de livros de bolso, de álbuns de reproduções e de exposições temporárias em jacto contínuo desvitalizam e embotam o gosto, minimizam o esforço, baralham o saber: vãs tentativas para acalmar o apetite bulímico de um público sobre o qual desabam desordenadamente todas as produções espirituais da humanidade. Que, neste mundo de facilidades e desperdício, a escola continue a ser o único sítio em que é preciso ter trabalho, sofrer uma disciplina, passar por vexames, progredir passo a passo, viver, como se costuma dizer, «no duro», não é coisa que as crianças aceitem, pois já não a podem compreender. Daí a desmoralização que as invade, quando sofrem toda a espécie de coacções para as quais tanto a família como a sociedade não as prepararam e as consequências por vezes trágicas desta inadaptação.

Resta saber se é a escola que está errada, se é uma sociedade que perde cada vez mais e todos os dias o sentido da sua função. Ao pormos o problema da criança criadora, enganamo-nos no tema: porque somos nós próprios, tornados consumidores desenfreados, quem se mostra cada vez menos capaz de criar. Angustiados pela nossa carência, esperamos a vinda do homem criador. E como não nos apercebemos dele em parte alguma, viramo-nos, em desespero de causa, para os nossos filhos.

Temamos, no entanto, que, ao sacrificarmos as rudes necessidades da aprendizagem aos nossos sonhos egoístas, acabemos por lançar a escola pela borda fora, com tudo aquilo que ela ainda representa, e que venhamos a privar os nossos sucessores do pouco que ainda permanece sólido e substancial na herança que podemos deixar-lhes. Seria aberrante pretender iniciar os nossos filhos na criação pelas vias da arte, recorrendo a métodos pedagógicos inspirados pelos frutos ilusórios da nossa esterilidade. Reconheçamos ao menos que procuramos nisso uma consolação: ao fazermos da criança a medida do criador, damos a nós próprios uma desculpa por termos deixado a arte regredir ao estádio do jogo, mas sem termos tido o cuidado de não abrirmos a porta a confusões muito mais graves entre o jogo e os outros aspectos sérios da vida. Ai de nós, nem tudo na vida é jogo. É aos jovens espíritos que nos incumbe formar, que se fica a dever esta lição fundamental. Lição que nos convidam a calar para a satisfação, na verdade bem ingénua, de justificar aquilo a que ainda se chama arte pelos exercícios atraentes que, sob o colorido de reforma pedagógica, proporcionam às crianças; exercícios em que, no entanto, os próprios adultos podem encontrar — e nada mais — um muito vivo agrado. [Claude Lévy-Strauss, O Olhar Distanciado]

O apagamento da figura humana



Hoje reparei numa coisa que estava a escapar-me. Desde que comecei, aqui no blogue, a publicar poesia feita em cima de quadros, a exibição da figura humana, nesses quadros, foi-se tornando cada vez mais rara. Há séries onde ela é constante, mas nas úlimas séries,  actual incluída, são cada vez menos os quadros onde se vislumbra um ser humano. Não quer dizer que os não haja. A primeira série deste género que publiquei, uma série feita sobre - em cima de - quadros de Gustav Klimt, tinha um certo equilíbrio entre quadros onde a figura humana estava presente e outros onde ela estava ausente. Vista daqui parece o prenúncio de uma certa esquizoidia, entendida esta na sua raiz grega, que remete para uma cisão, uma fenda que se abre na forma das coisas, neste caso da realidade humana.

Esta evolução, provavelmente passível de reversão, não representa um acréscimo de misantropia, nem um culto tardio dos deuses silvestres, nem uma patologia específica, espero. Por vezes, a humanidade cansa-nos, ou cansamo-nos de nós próprios, o que vai dar ao mesmo. Isso seria uma boa razão para o seu esquecimento. Um olhar enviesado sobre o homem, por outro lado, pode ser mais penetrante, poeticamente falando, do que um olhar directo. Ao ir apagando a figura humana, deixo pairar perante o olhar as suas obras, a aldeia que fez nascer, a paisagem que deixou subsistir, a casa que construiu, a ponte que ergueu entre duas margens. Estas obras humanas transfiguradas pela arte acabam por tornar o Homem, apesar de tudo, mais aceitável. São uma ilusão, mas são aquela ilusão que permite não desesperar completamente da humanidade. Esquecer os homens nas suas obras, naquelas sobre as quais a arte fez cair o véu da ilusão, poderá ser a condição necessária para os aceitar.

02/11/09

Impressões - XXIX


Eugène Louis Boudin, Trouville, Le Port (1886)

o verão declinava naquelas praias
e os barcos anunciavam a noite
como se uma velha fotografia viesse
assombrar as pequenas paixões
que me retêm longe de ti

uma gaivota deixava um traço de tristeza
e no céu as nuvens desenhavam
a face onde pressentia a tua voz
essa distância que nunca se aproxima
mesmo se o coração arde no fogo da noite

Uma viagem no Barroco - 21 Johann Kaspar Ferdinand Fischer - Chaconne (1665-1746)


Johann Kaspar Ferdinand Fischer - Chaconne

Johann Casper Ferdinand Fischer was born in Germany around 1670, though we shall never be certain when. We find the first record of his existence in the mid-1690's when appointed Hofkapellmeister to the Margrave Ludwig Wilhelm, and it was the brilliance that Fischer brought to music at the court that made him an important musical figure. Obviously a fine harpsichordist, he was responsible for bringing a French influence into German music. There is just one question mark that remains unanswered, and that surrounds the variability of the quality of music which carries his name, leading to the speculation that there may have been two - or even three - generations of Fischers who contributed to the works that carry his name. That has been given further substance by the fact that Fischer would have had to compose for over 60 years to cover the approximate dates of composition, which would have been a long time in the early 18th century.

Possibly his most outstanding work, the Musicalischer Parnassus, published in 1738, represents the fusion of French and German styles. In the form of nine suites, they transform the style of French orchestral dances to the more restricted tonal scale of the harpsichord. Yet Fischer achieved works of a vivacity and piquant pleasure, many that would rival in impact and melodic invention the finest keyboard music of Scarlatti. Each suite carries the name of one of the Muses, and can be seen as a reflection of the supposed character of that Muse. Fischer's knowledge of French style extends to the use of the latest dance rhythms of the time, and the idea of using pairs of Minuets. This 'modern' outlook for a man probably in his late 50's or early 60's has added to the speculation of a younger hand being responsible. Though looking back, we find it consistent with a composer who had always been willing to experiment. In this case Fischer was employing many of the latest compositional styles, the rotating musical figures of the gigue in the third suite being just one example, while his oft use of broken chords, adds a distinctly humorous atmosphere to the dances. The summation is a group of short movements that prove a constant joy (Naxos).

Gustav Leonhardt joue sur l'orgue Dom Bedos de Sainte-Croix de Bordeaux la Chacconne de Johann Kaspar Ferdinand Fischer.

Falência técnica



Depois da SAD do Sporting, a do Benfica entrou em falência técnica. A do Porto está um pouco melhor, mas não muito. Esta é a verdade do nosso futebol, talvez a verdade do futebol de muitos países europeus. O futebol expandiu-se como contraponto ao fenómeno capitalista. O desenraizamento provocado pela proletarização de milhões de pessoas conduziu à necessidade de encontrar novas raízes e formas de identidades. Na Europa, o futebol foi o principal veículo desse apelo ao enraizamento. De certa forma, o futebol era uma reacção ao mundo moderno das sociedades capitalistas. No momento, em que ele próprio se torna um empreendimento essencialmente capitalista, perde a sua identidade originária e dá o triste espectáculo a que assistimos. Eficácia financeira e tradição identitária e afectiva são coisas que casam mal, pelo menos por cá.

Padrinhos e afilhados



Portugal, mas não só, é uma país esquizofrénico. Vive dilacerado entre uma legislação que tenta imitar o quadro legal dos países do norte da Europa fundado na religião protestante, e uma cultura mediterrânica, onde a família e os amigos possuem enorme preponderância. A figura do padrinho não é, em primeiro lugar, um fenómeno mafioso. É, antes, um fenómeno de integração social, numa sociedade marcadamente patriarcal, onde uma hierarquia de vassalos prestam tributo a um suserano, o padrinho. Este protege a família, uma família alargada para lá dos laços de sangue, distribuindo encargos e proventos em conformidade com os seus interesses, que acabam por ser os interesses dessa família. Todos estes casos de corupção que agora saltam nos jornais, bem como os inúmeros que nunca viremos a conhecer, são o fruto de uma cultura com centenas de anos, talvez mesmo milhares. É por isso que ninguém condena seriamente os corruptos e os corruptores. São eleitos, se forem a votos, pois contribuem de forma concreta para o bem comum, mesmo que isso signifique que contribuam mais significativamente para o seu bem. Mais do que acabar com padrinhos e afilhados, os portugueses pretendem ou ser afilhados de alguém ou, os mais ousados, ascender à categoria de padrinho, e assim fundar e proteger a sua família. As relações abstractas que existem entre os cidadãos do norte da Europa, onde todos são efectivamente indivíduos iguais perante a lei, são incompreensíveis em países onde o indivíduo é menos importante do que o grupo familiar de onde provém. As relações de sangue e as relações de amizade são concretas, os ditames da lei ou o bem comum geral, puras abstracções. Gostemos ou não. O resto é o espectáculo desta nossa esquizofrenia.