06-07-2009

A autonomia do ensino superior

Stephen P. Heyneman é consultor de Política Educativa Internacional, tem estado a estudar o sistema de ensino superior português e dá uma entrevista ao Público. Deve ser lida por aquilo que diz e por aquilo que anuncia sem dizer. Gostemos ou não do que diz, e eu não gosto de algumas coisas, o caminho do ensino superior vai ser mais ou menos aquele que ele propõe. Quando não há dinheiro, fala-se muito em autonomia. Esta, porém, tem o seu preço que as partes ainda não parecem disposta a pagar, mas não terão alternativa. Relativamente ao ensino não superior, é correcta a sua perspectiva sobre a aventura governativa do Magalhães.

05-07-2009

Luta de classes

O campo da luta de classes não tem fim. Está enganado quem pensa que ele se restringe ao mundo do trabalho, aos campos e fábricas, onde burgueses e proletários se defrontam eternamente. Não, todos os aspectos da vida são palco de uma luta fracturante. Veja-se a alteração da estratégia onomástica das classes populares. Segundo o Público, o povo começa a apropriar-se dos nomes que até há bem pouco tempo pertenciam às melhores famílias da pátria. Em 2008, os seis nomes femininos mais escolhidos foram Maria, Beatriz, Ana, Leonor, Mariana e Matilde. No masculino, as opções recaíram em João, Rodrigo, Martim, Diogo, Tiago e Tomás. Esta popularização dos nomes associados a certas elites é um manobra táctica de grande significado simbólico. Ao desapossar as boas famílias da exclusividade e da diferenciação que um nome tradicional traz, as classes populares estão a obrigar as elites a refugiarem-se, para se diferenciarem, nas Cátias, nas Vanessas, nas Irinas, nos Rubens, nos Márcios, nos Fábios. Quem, nos dias de hoje, vai chamar ao seu filho Martim ou Matilde? Como se vê, não há tréguas nesta eterna luta entre diferenciadores e igualitaristas.

Da vida do espírito - LER

A LER já foi uma das revistas mais belas que se publicaram. A nova série não tem a qualidade plástica da anterior, mas mesmo assim é uma belíssima revista. Num mundo de imagens, a LER trata de objectos e pessoas estranhos, livros e leitores. Talvez no futuro a revista seja considerada uma revista de Arqueologia e de Pré-História. O número de Julho traz na capa Vasco Pulido Valente e lá dentro uma entrevista com ele. Só isto justifica os 5 euros que custa. Pulido Valente diz mal de muita gente (Saramago - uma derivação da literatura da América Latina, Lobo Antunes, Agustina Bessa-Luís), mas explica por que razão ela não poderia nunca ser escritor. Para ser escritor é necessário ter uma voz e ele apenas tem uma vozinha. Na LER há muitas coisas mais sobre livros, saliento apenas o extracto de uma reedição de Eduardo Lourenço, Esquerda na Encruzilhada ou fora da História? (1986) Haverá temática política mais actual?

Da vida material - Wine (Junho)

A Wine é uma revista de vinhos que vai já no n.º 36 (Junho). Não é apenas pela elegante concepção que vale a pena comprar a revista. Fala-nos do mundo dos vinhos e da gastronomia, coisas indissociáveis. Este número traz uma reportagem com seis produtores de Alvarinho, aquele vinho extraordinário que só se produz, a partir da casta do mesmo nome, nos concelhos de Monção e Melgaço. É verdade, no outro lado da fronteira também há, mas adquire aí o estranho nome de Albariño e não sei se é do nome, se da nacionalidade, aquilo não sabe ao mesmo. Vale também a pena, neste número, ler a opinião de Charles Metcalfe sobre os vinhos do Porto de 2007 (Após esta prova de vinhos do Porto, se disser que atrobuí 90 ou mais pontos a 25 dos 42 vinhos presentes talvez dê um indício do meu entusiasmo...). Não esquecer ainda o trabalho sobre a cozinha beirã. Mas toda a revista é um prazer e há a oportunidade de descobrir o que há de mais dinâmico, em Portugal, no mundo dos vinhos. E nunca esquecer a divisa que se está a apossar do averomundo: não há nada mais espiritual do que a vida material.

Da vida material - Blue Cooking (Junho)

Já tinha visto cá por casa a Blue Cooking, mas desatento como sou não tinha passado os olhos pela revista. Hoje, porém, calhou pegar na de Junho. Desde a concepção gráfica até às receitas sugeridas, passando pela crítica, a Blue Cooking é um belo e adequado objecto. Isso mesmo, um objecto material que dá prazer tocar, olhar e imaginar aquilo que poderemos saborear. Pecado da gula? Pelo contrário, introdução à redenção. Não foi numa ceia, a última, que o Cristo preparou a redenção da humanidade sob o império do pão e do vinho? Os tempos tornaram-se mais complexos e a perseguição dos dietistas quase se tornou direito constitucional. Mas há que resistir, enquanto se pode. Deixo aqui duas sugestões da Blue Cooking de Junho. Uma sopa de abacate e camarão e uma salada de vegetais queijo feta. Receitas? Bem, isso já me ultrapassa e sempre se pode consultar a própria revista.

04-07-2009

O estudo da SEDES

O estudo efectuado pela SEDES sobre o actual estado do regime político tem aspectos, ligados à questão do poder, bem desagradáveis. Tanto o poder judicial como o poder político recebem uma avaliação bastante negativa. Esta avaliação confirma apenas a percepção comum de um real e efectivo afastamento entre as elites político-judiciais e o povo que elas, putativamente, deveriam representar e defender.

Desde o final dos anos 80 que os portugueses são dos europeus mais insatisfeitos com a sua democracia. Os anos decorridos desde então não melhoraram, pelo contrário, a percepção que se tem do regime. Sobre isto há duas maneiras de interpretar a causa dessa insatisfação. Poder-se-á sempre invocar a tradicional estranheza nacional relativamente aos valores da liberdade, mas essa será uma má explicação. A segunda forma é olhar para o afastamento entre elites e povo. É esta a perspectiva confirmada pelo estudo do SEDES. A justiça é sentida como profundamente classista, e o poder político como defesa e promoção dos interesses privados dos próprios políticos. Esta percepção, caso não estivéssemos na União Europeia, já teria motivado e legitimado tentações militares, o que mostra uma outra vertente do problema. A União Europeia tem-se tornado uma almofada protectora da indigência da classe política nacional.

03-07-2009

A renúncia de Maria João Pires

Maria João Pires, segundo noticia o Público, vai renunciar à nacionalidade portuguesa. Torna-se apenas e só cidadã brasileira. A causa é o ter-se cansado "dos coices e pontapés que tem recebido do Governo português", a propósito do projecto de Belgais. Não faço ideia de quem tem razão, se a pianista, se o governo. Estes projectos utópicos sempre me pareceram excessivos e inadequados à realidade portuguesa. Mas isso é irrelevante. O que merece nota é a reacção de muita gente na caixa de comentários do Público. Ali está o pior de nós. E eu não acho que se deva ter uma reverência especial por quem quer que seja, nem acho que o Estado tem de alimentar os devaneios dos nossos artistas. Mas em muitos daqueles comentário, e já ultrapassaram os 400, ressuma a pura inveja e a ódio àquilo que é grande, e Maria João Pires, mesmo que Belgais seja um utopia sem sentido, é uma grande pianista. É por isso, e não pela falência de Belgais, que Portugal nunca deixará de ser um Portugal dos pequeninos.

Grandes Armazens do Chiado

O fascínio do passado reside na sua imperfectibilidade. Eu sei que as nossas representações desse passado são perfectíveis, mas o passado em si é absolutamente perfeito e como tal imposível de aperfeiçoar. Quando nos deparamos com algo vindo do passado, a primeira coisa que damos conta é da sua absoluta superioridade relativamente ao presente. Nisto não há nostalgia, mas apenas a constatação de um facto. O presente não passa de um híbrido entre o que está concluído e o que está em aberto. O passado, pelo contrário, é um animal de raça pura, de pedigree assegurado, nele não há possibilidades em aberto, tudo está fechado, concluído, feito, perfeito. Por exemplo, estas imagens que recolhi no Beautiful Century (um blogue a visitar regularmente) são a prova do que está dito. Comecemos então a digressão pelos Grandes Armazéns do Chiado, no ano da graça de 1910. Esta primeira imagem diz respeito à back cover do winter catalog, como escreve a autora do blogue. Em 1910, os Grandes Armazéns do Chiado eram um império distribuído pelo país fora. Aveiro, Braga, Faro, Coimbra, Evora (sem acento), Portalegre, Covilhã, Lisboa, Porto, Setubal (sem acento), Vizeu (assim mesmo), Funchal, Caldas, Beja, S. Miguel. Tenho a ideia de ver antigas fotografias de Torres Novas com uma agência dos Grandes Armazéns do Chiado, na praça 5 de Outubro. Como se vê, a proliferação dos hipermercados não é uma invenção do eng.º Belmiro de Azevedo. Já no tempo da Monarquia isso acontecia. Uma viagem atenta pelos desenhos não deixa de ser particularmente interessante. Toda uma lição de sociologia pátria está ali inscrita. Atente-se apenas nas figuras humanas das imagens referentes a Lisboa e à Covilhã. O que me fascina, porém, é a ortografia. Falo menos na acentuação, muito diferente da nossa, mas da grafia de certas palavras. Por exemplo, paiz em vez de país, ou succursaes em vez de sucursais. Que distância e que distinção.

Já imaginou a inexistência do pronto-a-vestir? Talvez. Concebeu um mundo de alfaiates, modistas e costureirinhas a receber nos seus ateliês particulares os clientes. Sim, isso é verdade, ainda me lembro bem desse mundo ser praticamente dominante, mas em 1910 a vida material era já muito mais complexa. Veja-se esta página, a 33 do catálogo dos Grandes Armazéns do Chiado. Ensina a tirar medidas, para depois se efectuarem encomendas de roupa. A elegância era assinalável. O que se podia encomendar? As senhoras, capas e confecções, vestidos, calçado, chapéus e luvas; os homens, camisas, casacos, collarinhos e colletes (o duplo "l" como sintoma de civilização), calça (no singular) e essa inesquecível peça de lingerie masculina que dá pelo nome de ceroulas, cujas medidas são as das calças. Também há fatos para os meninos e vestidos para as meninas. Mas o supremo encanto da página é os plissés (mais tarde falava-se em plissados). Dois tipos de plissés, os Soleil e os accordeon (os primeiros com letra maiúscula e os segundos com minúscula), ou deitado. São executados nos ateliês da casa. Também há recortagem (mas aqui falta-me a cultura para perceber se diz respeito aos plissés ou não) à machina, o que é bem diferente de recortagem à máquina, coisa mais ligado à metalurgia e à metalomecânica.


A página 32 do catálogo de inverno de 1910, um catálogo imaginado em plena Monarquia, e que entrou em vigor no início da República, traz-nos os edredons. Quase todos de setim liberty e com enchimento duvet francez. Quantos enigmas aqui? Hoje escrevemos cetim. A palavra chegou até nós vinda de França, onde se diz satin, e tem a sua origem no árabe zaituni referente à cidade chinesa Zaitun, onde o tecido era fabricado. E no simples setim temos uma prática ancestral de globalização que nos faz sonhar com desertos e rotas da seda, camelos e oásis, estreitas sendas e longos poentes. Nada mais evidente, porém, do que a adjectivação do setim, liberty. Que propriedade que não a liberdade poderá vir ao espírito quando se pensa em setim ou mesmo em cetim? Um setim liberty com enchimento francez duvet. Duvet? Claro, duvet a palavra francesa para penugem, para o conjunto de penas que enchem o edredon. Uma coisa é ter um edredon de penas e outra, totalmente diferente, é possuir um edredon duvet, ainda por cima com setim liberty. Repare-se como a vida material é tão pouco material, como ela depende do espírito. Talvez não exista coisa mais espiritual do que a vida material. Mas não deixemos passar em claro um pormenor significativo: o enchimento duvet, que já não é um enchimento qualquer, é feito segundo os preceitos da hygiene. Não é apenas a nobreza do "y" que nos cativa e que indica o caminho de degradação popular que vai da era da hygiene aos nossos rudes tempos da higiene. Há ali toda uma dedução de carácter kantiano, que pressupõe o imperativo categórico do respeito pela pessoa enquanto fim em si mesmo, para chegar aos preceitos que defendem essa pessoa através da hygiene do enchimento francez duvet. Que tempos!

Como já foi dito, nada há mais espiritual do que a vida material, e esta não é nada se não tiver em conta aquilo que nos alimenta. Por exemplo, lentilhas, ervilhas, favas e grão não levantam o problema da diferença ontológica. São o que são e não têm qualificativo. Diríamos que são transversais. Já o feijão é diferente. Há o feijão suisso (assim mesmo), o frageolet, o soisson e o cabreiro, e por mais caro que seja o cabreiro, alguém de boas famílias o pedirá? Pelo contrário, um feijão frageolet ou soisson é digno de ser encomendado pelas melhores famílias da pátria. Novidade ou quase deveria ser o vinho engarrafado. O Carcavellos, branco (150 réis) ou tinto (120 réis), era vendido em garrafões ou barris de 5 litros. Uma elegante garrafa enrolhada e capsulada automaticamente do Carcavellos brancos custava 100 réis. A manteiga era vendida em lata, manteiga do Dão ou manteiga da Praia d'Ancora. O café Princeza era vendido em lindas latas axaroadas (não sabe o que é? nós também não). A página 31 do catálogo de inverno dos Grandes Armazéns do Chiado é uma introdução, delicada mas informativa, à dieta das classes médias no início da República ou no fim da Monarquia, conforme preferir.


Como vê, caro leitor, o passado é absoltamente imperfectível, pois ele é belo e perfeito. E é de tal maneira perfeito que basta umas quantas páginas de um catálogo comercial para deixar manifesta a sua inexcedível beleza. O que nos dá a esperança de, quando formos definitivamente passado, a beleza nos tocar.

Jornal Torrejano, 03 de Julho de 2009

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02-07-2009

O gesto do dr. Pinho

Para dizer a verdade, estes corninhos do ministro Manuel Pinho foram o seu grande gesto político. Como em Portugal nunca se reconhece o mérito onde ele existe, o pobre Pinho lá teve de pedir a demissão. O pessoal do PS anda de cabeça perdida, nem o electrónico engenheiro civil independente consegue evitar distúrbios. O cheiro a derrota é uma coisa horrível. Nada pior para a sanidade mental do que o odor a cadáver. Não me digam que vamos ter de aturar os PSD impantes com uma maioria absoluta.

Quanto vale o voto dos professores?

A política absolutamente abstrusa de Sócrates e de Lurdes Rodrigues abriu caminho para o PSD tentar penetrar no professorado. As quatro áreas de que fala Manuela Ferreira Leite são aceites por todos os professores, ou quase: estatuto do aluno; estatuto da carreira docente; sistema de avaliação docente; desburocratização do ensino. Tudo isso deverá ser mexido e alterado radicalmente. Mas os professores não se devem precipitar. Devem também perguntar o que pensa ela do destino do ensino público, e da actual forma de gestão das escolas e do papel das autarquias nessa gestão. Devem, ainda, perceber como se pretende concretizar as alterações naquelas áreas. Por exemplo, não estou a ver como uma avaliação externa dos professores, feita por empresas (e há empresas muito interessadas em fazê-la) não implique um calvário burocrático ainda maior do que o desenhado por Lurdes Rodrigues e Valter Lemos. E eu sei muito bem do que estou a falar. Já chega de ingenuidade.

A trapalhada continua

Parece estar confirmada a trapalhada das eleições no Benfica. A sofreguidão de Luís Filipe Vieira, a tentativa de evitar o surgimento de uma alternativa credível levou ao actual estado. Parece que apenas Bruno Carvalho, não faço ideia quem seja, está em condições de ir a votos. Quem se lembra de um presidente do Benfica como António Borges Coutinho só pode mesmo rir ou então chorar.

Outro símbolo

Eu não sou favorável a que a banca seja, na sua totalidade ou mesmo na sua maioria, pública. O papel do Estado não é negociar com o dinheiro, embora possa necessitar, como forma de regulação, da posse de um banco, como a CGD. Dito isto, gostava de fazer uma digressão na memória e ir aos primeiros tempos do BCP. Lembram-se como ele era incensado? Lembram-se como a sua política laboral não levantava problemas e era mesmo aplaudida. Era o banco da moda e representava uma certa atitude no país. Dito de outra maneira, o BCP representava uma certa cultura. Houve muita gente que nunca se cansou de sublinhar a diferença entre o BCP e a banca pública. Essa gente não deveria vir agora explicar a história do BCP, estabelecer a relação entre aquele começo e os dias de hoje? Não será legítimo perguntar se no início não estava já contido aquilo que o tempo veio a manifestar? O BCP é outro dos símbolos do regime.

Um símbolo

De um arguido deve presumir-se a sua inocência. Dias Loureiro não é excepção. Mas a sua trajectória não deixa de ser um caso interessante e um símbolo da evolução do regime democrático em Portugal. Da provinciana Coimbra para Lisboa através da política. Da política para o mundo dos negócios através ainda da política. Do mundo dos negócios para os problemas com a Justiça através desse mesmo mundo dos negócios. Nas mãos do PS e do PSD, a democracia portuguesa tornou-se isto, um imenso pântano onde política e negócios se confundem e onde o país vai definhando a cada dia que passa. É possível que este tipo de condutas seja a norma na vida política. Sendo assim, porém, não consigo compreender como há ainda gente que, não estando envolvida na política, toma partido com veemência a favor ou contra um dos partidos da área da governação. A única atitude que me parece cada vez mais razoável, por parte dos cidadãos, é a crítica feroz a quem está na área do poder. A crítica significa o desejo de limitar a acção de quem "pode" ao que é essencial. Os cidadãos comuns só têm duas formas de acção política: votar e criticar. Considerando o que se tem passado, deveríamos pensar, enquanto cidadãos, que todos os governantes são culpados de abuso do poder até prova em contrário. Mas não será isto uma inversão da norma jurídica que se aplica a qualquer cidadão? Aparentemente, sim. Mas os detentores do poder não são cidadãos comuns, têm um poder de tal modo excessivo sobre todos nós, onde se inscreve o poder de fazer a lei, que há que defender a comunidade e os indivíduos da acção de quem "pode".

A estratégia socialista

Há duas coisas em que o actual Partido Socialista é excelente. A primeira é a propaganda através dos brinquedos tecnológicos. A segunda é isto: "Socialistas, diz o Público, centram estratégia na destruição do “falar verdade” de Manuela Ferreira Leite." Se o PSD se deixar arrastar para este tipo de coisas, então perderá alguma vantagem que, de momento, possa ter. O que se passa? O país está perante duas imagens, a de José Sócrates e a de Ferreira Leite. A imagem de Sócrates, como pessoa politicamente credível, caiu quase até ao grau zero, durante o mandato. Por outro lado, Ferreira Leite tem uma imagem de pessoa séria, credível, de pessoa que não pisa o risco seja no que for. É esta imagem que o PS se propõe destruir. Veremos qual a solidez da Presidente do PSD e da equipa que a aconselha. Mas isto é também uma terrível confissão por parte do PS. A confissão de que a imagem de Sócrates, ao nível da credibilidade, é irrecuperável. A única esperança é denegrir a imagem da concorrência, fazer uma campanha negra, o que para um partido que esteve no poder 4 anos não deixa de ser um triste sintoma.

01-07-2009

Metamorfoses L

Alfred Schnittke – Piano Concerto no. 2

imensas eram as ruas desabitadas
tinham cheiro a clorofórmio
e das janelas pendiam sacos de plástico
farrapos de roupas a ondular ao vento
molas de plástico a que o sol comera a cor

se alguém as percorria ao entardecer
ou ousava ali parar na noite escura
elas uivavam como se tivessem vida
ou uma memória animal as habitasse
e lhes desse voz na praia do silêncio

nas calçadas crescem ervas esquivas
símbolos de uma vida ressequida
– sussurram se lhes bate o vento –
são bandeiras de uma pátria vazia
onde há muito secaram os últimos rios

A trapalhada das eleições

Onde chegou o meu velho Benfica? A trapalhada inaudita das eleições poderá lançar o clube num autêntico caos. Havia um tempo em que o clube não dava um único passo que não estivesse juridicamente fundado. Agora não parece um clube desportivo mas um clube de aventuras. Com uma nova época a começar, com milhões de euros gastos mais um vez, o clube arrisca-se a não ter uma cabeça que não seja motivo de troça e de condescendência dos seus principais adversários. Mas o que se está a passar é um novo sinal da fragilidade que tomou conta da instituição. Se o clube estivesse forte, certas candidaturas folclóricas não passariam disso mesmo, o folclore que sempre existe em instituições democráticas. Mais uma época perdida e ainda não começou.

Paranóia

Há quase dois anos escrevi aqui isto. De então para cá, a paranóia do inquérito não abrandou, pelo contrário. Ontem fui com a minha mulher a uma empresa privada fazer uma operação no carro dela. No fim, entre milhares de papéis, lá veio o famoso questionário de avaliação. Era solicitada a fazer a avaliação do processo. Se alguém vem cá a casa fazer um serviço relativo ao telefone ou à Internet, sou logo solicitado a preencher, se assim o quiser, um questionário de avaliação do desempenho.

Estou farto. Se as empresas querem avaliar os seus funcionários que o façam, mas não incomodem os clientes, mesmo sob o pretexto de que a resposta é livre (era melhor que o não fosse...), com os seus problemas. Esta paranóia burocrática é insuportável. Como cliente, posso avaliar o desempenho negativo de uma operação de três maneiras. A primeira, é pedir o livro de reclamações; a segunda, é falar para um superior hierárquico do funcionário; a terceira, é não comprar mais nenhum produto ou serviço na empresa. Avalio positivamente sempre que volto como cliente. Não preciso de preencher questionários idiotas.

As empresas que pedem para que o cliente faça uma avaliação formal da relação que manteve com ela são empresas que não pensam no cliente, mas apenas nelas e na sua incapacidade de fazerem uma boa avaliação do seu desempenho. São as empresas que terão de descobrir como agradar aos clientes sem os incomodar com isso. A paranóia da avaliação tornou-se um caso psiquiátrico. E, como se vê, o problema tanto afecta as instituições públicas como as privadas. Só falta a resposta à questão sacramental: quem está a ganhar dinheiro com o fomento desta doença?

Sarkozy - cultura e civilização


Esta intervenção do Presidente francês é um exemplo claro e distinto do problema aqui focado sobre a distinção, segundo Leo Strauss, entre cultura e civilização. É provável que a tradição inglesa jamais venha a pôr o problema neste pé, é provável que exista em Inglaterra um espírito de tolerância para com as diferenças culturais e uma aceitação do multi-culturalismo que não é exibida aqui por Sarkozy. Mas também é provável que esse espírito se funde na condescendência e, em última análise, no desprezo pela sorte daquelas que estão submetidas à cultura vigente em certos meios sociais muçulmanos. A aparente intolerância de Sarkozy revela um profundo respeito pelas liberdades individuais e, fundamentalmente, pela liberdade da mulher. E há uma coisa em que Sarkozy tem razão. Não devemos ter vergonha dos nossos valores nem de os defender. Acrescento eu: esses valores têm um carácter universal e visam o respeito pelos indivíduos, independentemente da cultura ou da religião de origem. São valores que promovem a civilização, tal como Leo Strauss a entende, mesmo que para isso combatam certo tipo de valores culturais.

A irritação socialista com Cavaco

Segundo o Público, os socialistas andam irritados com Cavaco e as críticas começam a ser públicas. Quem tem paciência já para esta farsa? Cavaco não foi eleito com o beneplácito do excelso engenheiro e a conivência do dr. Mário Soares? Quem anda na política, aos anos que andam Sócrates e Soares, sabe muito que a candidatura de Mário Soares só tinha uma finalidade objectiva: permitir a eleição de Cavaco Silva e a consequente não eleição de Manuel Alegre. Nem Soares nem qualquer dirigente importante do PS alguma vez acreditou na possibilidade de reeleição do antigo presidente.

Nos cálculos da elite dirigente dos socialistas acreditava-se ao mesmo tempo em várias coisas estúpidas. Em primeiro lugar, acreditava-se que Cavaco seria mais dócil com o "espírito reformista", que atafulhava as cabeças "pensantes" do PS, do que Manuel Alegre. Em segundo lugar, acreditava-se que o desconchavo do PSD seria permanente. Em terceiro lugar, acreditava-se que o tempo de Cavaco tinha passado e que a subtileza da máquina de propaganda socialista seria o suficiente para impor respeito a um Cavaco tido por pouco mais do que um labrego.

Mas Cavaco, desde que saiu de S. Bento, tem uma agenda própria e tem uma virtude política que é de sublinhar: a paciência. Esperou pacientemente que passassem os 10 anos de Jorge Sampaio. Esperou, depois de eleito, que a arrogância da tropa socratista fosse tornando Sócrates em personagem detestável. Esperou, com não menos paciência, que o PSD arrumasse a casa segundo os seus, de Cavaco, desígnios. Agora, o tempo e o espírito do momento jogam a seu favor. Por que razão se haveria de calar? Soares calou-se quando Cavaco era primeiro-ministro?

Não sei o que é mais de espantar, se a irritação presente com o Presidente, se a estupidez originária que levou ao sub-reptício apoio da direcção do PS a Cavaco. Era claro que Cavaco não ia para Belém brincar às casinhas. Ele queria ordenar o país segundo a sua visão, sem ter de aturar a máquina partidária do PSD, que o aborrece de morte. Por outro lado, Cavaco queria e quer ajustar as contas consigo mesmo. Ele sabe que os seus mandatos como primeiro-ministro, independentemente do foguetório e do incenso, foram muito piores do que por aí se diz. Ele sabe que é responsável por muito do pior que aconteceu em Portugal depois da entrada na CEE. Seja como for, Sócrates está à beira de descobrir que é um menino do coro deslumbrado com os seus fatos armani e os seus electronic toys ao pé do velho Cavaco Silva.

Da pequena glória

Esta notícia não é agradável para o jogador mais caro da história do futebol mundial. Por muito aborrecida que seja a pressão a que se está sujeito devido aos delírios dos adeptos, um jogador de futebol deve saber comportar-se. Não apenas porque esse é o dever de todos nós, mas ainda pelo facto de Cristiano Ronaldo viver dos delírios e das fantasias dos adeptos. É isso que lhe paga o ordenado, e este não será tão pequeno quanto isso. Se a notícia é verdadeira, há que juntar o facto muito desagradável de a agressão ser dirigida a uma rapariga, ainda por cima menor. Se Cristiano Ronaldo não souber cuidar da vida, é possível que esta, até aqui tão generosa, deixe de cuidar dele. Às vezes, há coisas que cheiram a tragédia, apesar de o presente só mostrar o lado paradisíaco e glorioso. Quem diria ao bravo e glorioso Agamémnon que, ao regressar à pátria, depois da vitória em Tróia, o esperavam a traição da mulher e a morte violenta? De glórias feitas em pó e de riquezas transformadas em miséria está o futebol cheio.

30-06-2009

Metamorfoses XLIX

Tristan Murail – Le Lac pour ensemble

o medo avança entre cartas trocadas
e um desejo de consolo a abrir o coração
não vale a pena deitar a mão ao gargalo
há muito que o álcool se evaporou
deixando um odor a madeira velha
no abismo grudado ao fundo da garrafa

um itinerário livre nas águas
o remo preso na ânsia da mão
assim vai o remador na senda da tarde
e tacteia os céus com olhos fechados
para não ver a melancolia do azul
ou o vazio onde floresce o pavor

não há astúcia que pare o bater do coração
nem nuvem que sombreie o sol
apenas se ouve o latejar dos remos
e o desconcerto da ave que grita
como se o peito fosse seca argila
e o ar pedra que no céu a vai matar

A coisa começa a manifestar-se

Se o leitor for paciente e demorar algum tempo a olhar as imagens que a televisão transmite sobre o PSD, descobrirá que o mal já se move por lá. Não atente a Manuela Ferreira Leite, passe antes os olhos pela envolvência. Toda a pesporrência socrática, toda a arrogância que tomou conta da governação socialista, aflora agora nas hostes laranja, porventura ainda mais enfatuada. Ainda não é óbvia. É mais a forma como se olha, alguns gestos não controlados, o tom de voz que começa tornar-se imperativo, as certezas que parecem aflorar naqueles cérebros, tudo indicadores do que vem aí, se o PSD formar governo. Ainda não conhecemos o programa eleitoral, mas o estilo está completamente definido. Se a hora chegar, serão exactamente iguais aos socialistas. Não sei como é nos outros países democráticos, mas em Portugal as elites políticas não se sentem nem se pensam como servidoras do povo. O poder é o lugar de uma estranha exibição do ego, o exercício de vaidades incomensuráveis, o palco para a manifestação universal das suas pequenas pessoas. Saberá essa gente que ministro vem do latim ministru, que significa servidor? Saberá essa gente que primeiro-ministro é apenas o primeiro-servidor? Em Portugal, o poder é o lugar onde gente absolutamente indiferenciada pensa que pode tornar-se diferenciada. Em Portugal, com honrosa excepções, o poder é o lugar do parvenu. E o que é um parvenu com poder?

Le Sacre Du Printemps by Pina Bausch Wuppertal Dance Theater

Pina Bausch morreu hoje, tinha 68 anos.

O caso Elisa

A candidatura de Elisa Ferreira à câmara do Porto é um símbolo daquilo que é hoje o Partido Socialista. O Porto é a segunda cidade do país, e uma candidatura à sua câmara implica que o candidato assuma de alma e coração, sem reservas mentais, a entrega a essa candidatura. No momento em que Elisa Ferreira aceita ser também candidata ao parlamento europeu o seu destino no Porto ficou praticamente traçado. Os portuenses parecem não estar interessados em quem procura um lugar de destaque político a qualquer preço. Nem a subtil sugestão de aproximação ao FCP os comove. O Partido Socialista é cada vez mais visto como uma agência de empregos políticos, um partido sem alma, sem princípios, um partido preso à voragem do poder a todo o custo. No Porto, as sondagens são letais para o PS. O que irá acontecer em Lisboa? Será que o Partido Socialista vai ter a capacidade de transformar o dr. Santana Lopes num génio da política e num mago da gestão autárquica?

O princípio do ressentimento

Graças ao Zé Ricardo cheguei a esta notícia. Quando era novo, devo ter defendido coisas deste género ou piores. Hoje, porém, estes ajustes de contas com o passado e os mortos cheiram-me mal, por muito putrefactos que já fossem os mortos ainda em vida. Depois de Ferrol, terra de nascimento de Francisco Franco, agora é Madrid que retira os títulos honoríficos outorgados ao ditador. Neste acto há poucas coisas ou nenhumas que mereçam louvor. O ditador está morto e não se pode defender. A virtude da coragem está fora desta acção. Mas será uma acção justa? Aparentemente seria, mas nunca será capaz de apagar a mancha de ser uma acção ditada pelo vencedor do momento. Deste ponto de vista, a proposta da Esquerda Unida é idêntica àquela que, nos tempos do franquismo, atribuiu os títulos a Franco. O pior de tudo, porém, é que estas acções são o fruto do ressentimento contra o passado. A Espanha teve uma história e ela foi o que foi. Apagá-la simbolicamente, como nós o fizemos com o dr. Salazar, ainda é uma forma de derrota e de submissão ao espírito do vencedores de então. Se um povo é autenticamente livre não precisa de apagar o passado, nem de "des"-crever aquilo que a história, para o bem e para o mal, escreveu. De certa forma, este acto é uma pequena vitória do velho ditador, que se tornou agora "vítima" dos re-escritores da história. O ressentimento nunca é um bom conselheiro.

Leo Strauss - Cultura e civilização

Aliás, a palavra cultura deixa na indeterminação qual a coisa que se deve cultivar (o sangue e a terra ou o espírito), enquanto o termo civilização designa imediatamente o processo que visa a fazer do homem um cidadão e não um escravo, um homem das cidades e não um rústico, um amante da paz e não da guerra, um ser civilizado e não um vadio. Uma comunidade tribal pode muito bem ter uma cultura, isto é, produzir hinos, cânticos, ornamentos para o seu vestuário e para as suas armas, olaria, danças, e fruir de tudo isso. Não poderá, todavia, ser civilizada. Interrogo-me se o facto do homem ocidental ter perdido muito do seu orgulho anterior, o orgulho tranquilo e apropriado de ser civilizado, não é um fundamento da actual ausência de resistência ao niilismo (Leo Strauss, Sur le nihilisme allemand).
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A conferência Sur le nihilisme allemand foi pronunciada em 1941. Strauss encontrava-se já nos EUA e assistia de longe ao domínio do nazismo sobre a sua pátria. A conferência é uma análise do niilismo alemão que de certa forma está na origem do fenómeno nazi. O que me interessa, porém, sublinhar é a velha distinção entre cultura e civilização e perguntar se, nas actuais sociedades, não estamos a assistir a uma regressão da civilização em detrimento da cultura. O multiculturalismo tem sido usado como arma de arremesso para fazer recuar os processos civilizacionais, entendidos estes à luz das palavras de Leo Strauss: tornar o homem num cidadão e não num escravo. Perceber isso, por seu turno, exige interrogar a conexão entre as sociedades liberais e o niilismo, o que implica ainda uma outra interrogação: o que torna o conceito de cidadão, nas sociedades actuais, tão frágil e permeável ao não civilizado, ao não cívico? Será o seu carácter, nas sociedades modernas, puramente formal? Será a sua conexão com uma organização política, o Estado-Nação, que se encontra sob fogo de estruturas políticas infra-estaduais (as regiões e os municípios) e supra-estaduais (a União Europeia, por exemplo)? Será a própria natureza ontológica do cidadão, o que implica a investigação daquilo que faz com que um cidadão seja um cidadão, isto é, a sua essência? Seja qual for a questão que se coloque como determinante daquilo que dá que pensar, o texto de Strauss abre para uma reflexão sobre a conexão entre cidadania e niilismo, desviando este último conceito da área ética e da filosofia da cultura, para o introduzir na reflexão sobre o político.

29-06-2009

Metamorfoses XLVIII

Igor Stravinsky – The Rite of Spring

estes estranhos animais cujo nome se apagou
correm desfigurados pela luz da floresta
trazem mãos de água e deslizam pela sombra
ao tocar no musgo que de verde cobre o chão

tocam tambores na casa dos guardas
anunciam o frémito por dentro do sangue
traçam ondas de cal no interior das grutas
onde dormem homens perdidos no tempo

insectos acordam de um longo sono
e chupam o sangue de vítimas servis
são uma labareda de cinza no horizonte
e cantam ao zumbir das pequenas asas

ergue-se inteira uma paisagem de papel
e nela componho a floresta de seda
homens e animais bebidos pelo esquecimento
a premeditação de um longo homicídio

e tudo se perde na férvida escuridão
um paraíso de tílias a perfeição dos plátanos
talvez as tuas palavras trémulas
se me olhas com a primavera na mão

O exemplo Madoff

O senhor Bernard Madoff montou um esquema fraudulento que defraudou, durante anos e anos, muita gente em muitos milhões de dólares. Descoberta a trapaça há meses, este poderoso financeiro foi preso, julgado e hoje conheceu a sentença. O juiz aplicou-lhe uma pena de 150 anos. O que impressiona, porém, é menos a dureza da pena do que a rapidez da justiça. De notar também o facto da condição social do réu não ter contado para a decisão do juiz.

Tudo isto é, para o português comum, algo que não pertence ao seu mundo. Seja como for, o exemplo Madoff abre um outro horizonte aos portugueses. Como irá funcionar a justiça portuguesa nos casos de escândalos financeiros domésticos? Por quanto tempo se irão arrastar os processos? Que papel terá a condição social dos eventuais réus? O caso Madoff constitui-se agora como um padrão segundo o qual o poder judicial português, e por contaminação o próprio poder político, vai ser julgado. É possível que gente importante em Portugal não tenha o destino (a condenação) de Madoff, mas a justiça portuguesa será severamente julgada pela opinião pública.

Slavoj Zizek - Irão em decomposição

Quando um regime autoritário se aproxima de sua crise final, sua dissolução, via de regra, se dá em dois passos. Antes de seu desabamento de fato, ocorre uma ruptura misteriosa: de repente, as pessoas sabem que o jogo já chegou ao fim e simplesmente deixam de sentir medo. Não é apenas que o regime perde sua legitimidade, mas seu próprio exercício do poder é visto como reacção importante de pânico.

Em "Shah of Shahs" [Xá dos Xás], um relato clássico da revolução de Khomeini, Ryszard Kapuscinski localizou o momento preciso dessa ruptura: numa encruzilhada em Teerã, um manifestante isolado se negou a sair do lugar quando um policial lhe ordenou aos gritos que saísse. O policial, constrangido, simplesmente se afastou. Em poucas horas, Teerã inteira já sabia do incidente, e, embora os enfrentamentos nas ruas tenham continuado por semanas, todo mundo já sabia que a partida chegara ao fim. Estará algo semelhante acontecendo agora?

Fatos e versões

Há muitas versões sobre os acontecimentos em Teerã. Alguns enxergam nos protestos a culminação do "movimento reformista" pró-ocidental, na linha das revoluções "cor de laranja" na Ucrânia, na Geórgia etc. -ou seja, uma reacção secular à revolução de Khomeini. Eles apoiam os protestos, que vêem como o primeiro passo em direcção a um novo Irã liberal-democrático, liberto do fundamentalismo muçulmano.

Contra eles se erguem os cépticos que pensam que Ahmadinejad venceu de fato: ele seria a voz da maioria, enquanto o apoio ao candidato reformista derrotado Mir Hossein Mousavi viria sobretudo da classe média e de sua juventude dourada. E há os que vêem em Mousavi nada mais do que um membro do establishment dos clérigos, cujas diferenças com Ahmadinejad são apenas superficiais: Mousavi também quer levar adiante o programa de energia atómica, é contra o reconhecimento de Israel e teve o pleno apoio de Khomeini quando foi primeiro-ministro nos anos da guerra contra o Iraque.

Finalmente, os mais lamentáveis de todos são os defensores esquerdistas de Ahmadinejad: para eles, o que realmente está em jogo é a independência iraniana. Ahmadinejad teria vencido porque defendeu a independência do país, expôs a corrupção das elites e usou a riqueza petrolífera para incrementar a renda da maioria pobre.

Essa visão ignora os fatos, a saber: o alto índice de participação na eleição, que dos 55% de praxe subiu para 85%, só pode ser explicado como um voto de protesto. E também manifesta uma cegueira em relação a uma demonstração genuína de vontade popular, ao pressupor, de maneira paternalista, que Ahmadinejad é o presidente que convém aos atrasados iranianos, que ainda não teriam maturidade suficiente para serem governados por uma esquerda secular.

Por mais que se oponham, todas essas versões interpretam os protestos iranianos segundo o eixo de linha-dura islâmica versus reformistas liberais pró-ocidentais. E é por isso que elas têm tanta dificuldade em situar Mousavi: ele seria um reformista que tem o apoio do Ocidente e procura mais liberdade pessoal e economia de mercado ou é um membro do establishment clerical cuja eventual vitória não afectaria seriamente a natureza do regime?

Tais oscilações extremas revelam que todas essas versões deixam de captar a verdadeira natureza dos protestos. A cor verde adoptada pelos partidários de Mousavi, os gritos de "Allahu Akbar!" que ressoam dos telhados de Teerã no escuro da noite indicam claramente que os manifestantes enxergam sua actividade como repetição da revolução de 1979 de Khomeini, como um retorno às raízes dela, desfazendo sua corrupção posterior.

Esse retorno às raízes não é apenas programático; ele diz respeito, mais ainda, ao modo de actividade das multidões: a enfática união das pessoas, sua solidariedade abrangente, a auto-organização criativa, a improvisação de maneiras de articular o protesto, o misto singular de espontaneidade e disciplina, como a marcha lúgubre de milhares de pessoas em silêncio total. Estamos diante de um levante popular genuíno dos partidários iludidos da revolução de Khomeini.

Não herói, mas corrupto

Há duas consequências cruciais. Para começar, Ahmadinejad não é o herói dos pobres islâmicos, mas, sim, um legítimo populista islamo-fascista corrompido. Sua demagógica distribuição de migalhas aos pobres não nos deve enganar: por trás dele estão não apenas órgãos de repressão policial e um aparato de relações públicas muito ocidentalizado, mas também uma nova e forte classe rica, fruto da corrupção do regime.

Em segundo lugar, devemos traçar uma diferença nítida entre os dois principais candidatos opostos a Ahmadinejad, Mehdi Karoubi e Mousavi. Karoubi é de facto um reformista, alguém que propõe basicamente a versão iraniana de política de identidade, prometendo favores a todos os grupos distintos. Mousavi é inteiramente diferente: seu nome representa o genuíno renascimento do sonho popular que fundamentou a revolução de Khomeini. Mesmo que esse sonho tenha sido uma utopia, devemos reconhecer nele a genuína utopia da própria revolução.

O que isso quer dizer é que a revolução de Khomeini de 1979 não pode ser reduzida a uma tomada do poder pela linha-dura islâmica -ela foi muito mais que isso. Agora é o momento de recordarmos a incrível efervescência do primeiro ano após a revolução, com a explosão estarrecedora de criatividade política e social, experimentos organizacionais e debates entre estudantes e cidadãos comuns.

E em último lugar, mas não menos importante, o que isso significa é que existe no islã um potencial libertador genuíno.

Emancipação

O futuro é incerto. Mas, seja qual for o resultado, é muito importante guardarmos em mente que estamos assistindo a um grande acontecimento de emancipação que não se enquadra no contexto da luta entre progressistas pró-ocidentais e fundamentalistas antiocidentais.

Se nosso pragmatismo cínico nos fizer perder a capacidade de reconhecer essa dimensão emancipacionista, então nós, no Ocidente, estaremos de fato ingressando numa era pós-democrática e nos preparando para os nossos próprios Ahmadinejads. [Folha de São Paulo (sem link), 28 de Junho de 2009, Tradução de Clara Allain.]

O que se passa no Irão?

Para perceber o que se está a passar no Irão e o papel deste homem, o ayatollah Rafsanjani, ler o trabalho de Margarida Santos Lopes, no Público. Mais logo, reproduzirei aqui um interessante artigo do filósofo Slavoj Zizek sobre o Irão em decomposição.

Um problema com a transparência

O Partido Socialista tem um problema com a transparência. Por exemplo, eu sei que o concurso que existia ao nível da colocação de professores não era grande coisa, mas tinha a virtude de ser transparente. As regras eram claras e não estavam submetidas ao arbítrio de ninguém. Esse concurso foi destruído e abriu-se as portas para, mais dia menos dia, as colocações de professores serem feitas por ajuste directo pelos directores das escolas (agora, personagens de poder quase incontrolado) ou pelas autarquias. O leitor sabe o que isso significa. Sabe perfeitamente como se fabricam critérios para que alguém com menos habilitações ou qualificações possa ultrapassar quem estiver melhor colocado, mas que não conhece ninguém ou que é indesejado pessoal ou politicamente. Este é um exemplo de uma deliberada atitude do Partido Socialista para acabar com a transparência onde ela ainda subsistia.

O exemplo mais interessante, porém, é este. O portal (uma das coisa que o socratismo tanto gosta) para a transparência nas obras públicas foi adjudicado sem concurso público, por ajuste directo. Há uma coisa que me espanta neste governo, governo tão bem acolitado por gente vinda do ISCTE. Ainda não explicaram ao engenheiro Sócrates que a modernidade não é propriamente ter muitas engenhocas, mas uma atitude que implica a universalidade e a real transparência dos negócios públicos e privados? O que descobrimos é que o Partido Socialista não passa de uma organização pré-moderna fascinada com gadgets. Uma tristeza.

Ciência e Política (Léo Strauss)

Para detalhar um pouco mais, é verdade que o ensinamento de Platão a propósito da tirania é indispensável à compreensão do “totalitarismo” de hoje, mas desconhecer-se-ia este fenómeno contemporâneo se se o identificasse pura e simplesmente à tirania do passado. Basta notar que o “totalitarismo” de hoje é essencialmente fundado sobre as “ideologias”, e em última análise sobre uma ciência vulgarizada ou desviada, enquanto que o fenómeno antigo não repousava sobre tal fundamento (Léo Strauss, Sur une nouvelle interprétation de la philosophie politique de Platon).

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Strauss escreve este texto em 1946, um tempo onde o fenómeno totalitário está especialmente vivo. Nas décadas seguintes desenvolveu-se todo um pensamento de oposição entre democracia e totalitarismo. O apogeu prático-político dessa reflexão teórica é a derrota do campo comunista, simbolizada na queda do Muro de Berlim. Mas, a partir daí, a democracia política parece definhar por falta de substância. Com isto quero dizer: deixou de haver alternativas verdadeiras, e com possibilidade de ascender ao poder, em confronto. Mais, os fenómenos que estavam ligados ao totalitarismo aparecem também ligados às chamadas práticas democráticas. Apesar da proclamação da morte das ideologias, da morte das grandes narrativas, a verdade é que as governações não dispensam as narrativas ideológicas, apresentem-se estas na forma mínima ou na forma de grande narrativa. Por outro lado, o papel da ciência vulgarizada e desviada tem, como aconteceu nos regimes totalitários, um papel estruturante da acção política. Não são apenas as ciências empírico-analíticas, as ciências da natureza, que são mobilizadas enquanto tecnociência para prover a dominação sobre a natureza, mas também as chamadas ciências histórico-hermenêuticas, as ciências sociais e humanas, que são cada vez mais utilizadas para um exercício refinado de dominação sobre a comunidade e os cidadãos. Desde a ciência política à sociologia, passando pela psicologia, a antropologia, a economia, o poder tem tido a capacidade de produzir narrativas ideológicas, por vezes narrativas mínimas, outras grandes narrativas, a partir dos conhecimentos que estas ciências vão produzindo.

Se podemos pensar que nos encontramos numa fase de perversão do ideal democrático, que a democracia apresenta cada vez mais sintomas inerentes aos regimes totalitários, podemos dizer que será importante conhecer o que os clássicos, Platão e Aristóteles, pensaram dos regimes políticos, nomeadamente da democracia e da tirania. Mas isso não bastará. Será necessário confrontar o ideal regulador moderno da democracia representativa com o actual exercício do poder nas democracias ocidentais. Será preciso observar o papel que nelas continua a ter a ciência vulgarizada e transformada em ideologia. Uma atenção muito importante merece o papel desempenhado pela ideologização das ciências sociais e humanas. O que implicará também, para além da reflexão política propriamente dita, uma investigação dos fundamentos destas ciências, para compreender como elas permitem com tanta facilidade a transformação do seu discurso no discurso de uma seita em luta pela manutenção ou conquista do poder.

Manuela Ferreira Leite - dois equívocos

O entusiasmo é mau conselheiro e Manuela Ferreira Leite anda entusiasmada, assim como as hostes laranja que já sonham com o retorno ao poder. O entusiasmo cega e tapa a realidade. Para que país está a falar Manuela Ferreira Leite quando propõe o Estado mínimo? É verdade que existem para aí umas duas dúzias de liberais, provavelmente dependentes do Estado, que acharão graça à ideia. Mas num país com um tecido social tão frágil, falar de Estado mínimo não me parece lá muito boa ideia. Em segundo lugar, gostaria de saber quem são os spin doctors que a aconselham. Num país como o nosso, vir falar em rasgar as políticas anteriores, por mais que isso seja verdade - e não é - é um acto suicida. Os portugueses gostam de políticos cordatos, embora com autoridade, e de brandos costumes. Quem promete a revolução acaba na oposição.

28-06-2009

Metamorfoses XLVII

Arnold Schoenberg – Verklaerte Nacht

esqueci nesta noite as palavras de amor
sobram-me vocábulos dispersos
metáforas ditas ao acaso
um céu de mogno sem estrelas

por vezes vejo cruzes desenhadas nas folhas
as árvores ressequidas pelo sol de verão
agora batidas pela estridente nortada
e do mar vêm salpicos de espuma
as ondas quebradas contra a areia
o grito das gaivotas a troar pelas ruas

a inóspita mão acaricia o ar
lança a garra contra o cortina da noite
e desenha palavras enquanto folheia um a um
os livros secos que se desprendem
das árvores sufocadas pelo mar

não encontro na pálida secura das folhas
a palavra aquela que tinha para dizer
se as trevas do dia não tivessem levado
para a pátria do esquecimento
as promessas de amor – todas as que fizera

Pobretes mas alegretes


A notícia do Público começa assim: Pobres, desmobilizados mas, apesar disso, felizes. E um pouco depois lê-se: "O índice resultante do inquérito diz que 35 por cento dos portugueses têm uma privação alta ou média. Mais de metade (57 por cento) tem um orçamento familiar abaixo dos 900 euros."

Como se vê, o salazarismo está entranhado em nós. Melhor, o salazarismo era o resultado daquilo que já estava entranhado no corpo social. Toda a retórica da ditadura girava em torno da máxima "pobres, mas honrados". Hoje talvez já não sejamos tão honrados, ou antes, a honra deixou de ser um valor central na tábua de valoração dos povos ocidentais, foi substituída pela felicidade. Nós adaptámo-nos a essa revolução de valores. Éramos pobres, mas honrados. Agora somos pobres, mas felizes.

Em tudo isto há uma imensa sabedoria dos portugueses. Intrínseca e secretamente sabemos que vivemos numa sociedade pequena, provinciana, pacóvia, uma sociedade de poucas oportunidades. Sabemos também que sempre existiu uma casta que dominou e distribuiu o poder conforme as suas conveniências. Sabemos mais coisas ainda. Sabemos que é muito perigoso, em Portugal, ser inteligente, pensar, ter espírito crítico. Fazer coisas novas e interessantes é praticamente impossível. Esses devaneios pagam-se muito caro. Sabemos que não há lugar onde os medíocres não dominem. Sabemos também que eles não perdoam a quem não é medíocre. Portanto, não vale a pena estarmos mobilizados seja para o que for. Não fazer ondas ou ter um low profile, para parecer moderno, são as nossas máximas de acção. A honra ou a felicidade são apenas o corolário de um teorema existencial, cujas premissas são as relações sociais, e a conclusão é a pobreza.

Democracias

Manuel Zelaya, Presidente das Honduras

Segundo consta, este senhor não gosta da democracia representativa e estava a preparar-se, contra a lei e o parecer das instituições, para a substituir por uma democracia participativa, seja lá isso o que for. Para tal tinha marcado uma consulta popular para hoje. Segundo a AFP, os "poderes Legislativo e Judiciário do país consideram ilegal a realização da consulta popular e haviam pedido aos militares do país para que desobedecessem às ordens do Executivo". Os militares não se fizeram rogados e detiveram o Presidente. Para completar a história, Hugo Chávez ameaça intervir para pôr fim ao que ele chama de golpe de Estado.

Chávez é uma espécie de doença que mina a América Latina, fundamentalmente a de expressão castelhana. Depois de décadas de terríveis ditadores de direita, estamos a assistir aos desmandos dos populismos de esquerda. Percebe-se que esses populismos têm uma ampla base social, mas também se percebe que, caso não haja muito petróleo para vender, o destino desses povos vai ser o mesmo de sempre, a pobreza. Se a obra dos portugueses, o Brasil, é o que é, o que dizer da obra colonial de nuestros hermanos?

Mau tempo



Acordei já tarde. À espera tinha, porém, uma manhã tempestuosa. Relâmpagos, trovões e chuva, chuva que parece não acabar mais. Ao contrário de Noé, não fui avisado por ninguém. Querem prova maior de que não somos todos iguais? Talvez também não seja precisa a arca.

27-06-2009

Metamorfoses XLVI

Giacinto Scelsi – Hymnos

tinha as vazias mãos suspensas
e cantava voz dorida e rouca um salmo
a fé perdera-se às primeiras metáforas
e durante muito tempo baixara a cabeça

a vergonha uma flor imperiosa
desenhara na fronte uma cruz de saliva
e sob o seu peso a cabeça pendia
cobrindo o leve estertor do peito

que destino poderia dar às frases
que da garganta irrompiam
traçavam nos lábios um relâmpago
e estrondeavam pelas ruas desertas

encolhia os ombros sem desejo de saber
e à memória chegavam tormentos passados
o granizo contra a janela
a noite desfeita pelo uivo da madrugada

então cantava no desconsolo do rio
ou no incêndio que consome a vida
desfaz em cinza a candeia da carne
e purifica cada palavra que da boca cai

Prémio Lemniscata



Pronto! Foi-me atribuído um prémio, ou uma nomeação, ou sei lá o quê. O Prémio Lemniscata, seja lá isso o que for. Estava uma pessoa muito descansada e zás. Vai ao Ponteiro Parados, como é hábito, e encontra lá isto, por excesso de amabilidade da Ivone. Nestas coisas há sempre o outro lado. No caso do averomundo, o outro lado é a tentação quase diária, de há uns meses para cá, para pôr cobro à experiência. Mas lá vou andando, post aqui, post ali. Mas o outro lado tem sempre um direito e um avesso. O avesso deste outro lado é ter de atribuir, para que a corrente continue, umas nomeações. Julgo que são seis, o que para mim são demais, a fazer fé no que tenho visto por outros lados.

Por mim, fazia apenas duas nomeações. São aquilo que eu chamo os blogues PP.

Ponteiros Parados - isto não se trata da economia do dom, logo não é retribuição de dádiva anterior. Gosto das reflexões do Zé - menos as que se referem à questão religiosa, mas isso deve-se ao "defeito genético" de que ele sofre e que lhe enviesa o raciocínio sobre o fenómeno - e das suas excelentes fotografias. Gosto e muito do tom pesporrente de muitos dos postais da Ivone. Tenho inveja de não ser eu a escrever aquelas coisas.

Portugal dos Pequeninos - João Gonçalves tem a melhor escrita sobre política na blogosfera e apenas comparável à de Vasco Pulido Valente, na imprensa. Tem uma retórica excelente e, apesar de não partilhar com ele a sua admiração pelo dr. Salazar nem o desvelo pelo PSD, sinto que tem uma noção de comunidade e de bem público que me é próxima.

Blasfémias - raramente concordo com o que se escreve lá, mas gosto do espírito da coisa, e, por vezes, não muitas, até faço lá uns comentários ou "pego-me" com João Miranda.

Combustões - outro blogue muito bem escrito, politicamente conservador, mas que evidencia também um espírito de comunidade que é próximo do meu. E aprendo muito por lá, fundamentalmente sobre o Oriente.

Bicho Carpinteiro - os pequenos e sibilinos comentários de Medeiros Ferreira são pérolas do comentário político que não perco. Sem o espalhafato do Prof. Marcelo, Medeiros Ferreira é um maquiavélico praticante. De alto coturno. Já acho dispensável os postais de Joana Amaral Dias, uma pesporrência que não admiro. Nem todas as pesporrências são iguais.

De Rerum Natura - indispensável blogue sobre ciência. Genericamente gosto do que lá se escreve, incluindo os postais da pedagoga de serviço, Helena Damião. O destaque, porém, vai para Carlos Fiolhais. Dispensável era o filósofo de serviço. Com tantas coisas interessantes que a filosofia tem para dizer, mesmo sobre a ciência, e logo haveria de calhar um analítico.

Eis a minha selecção. Deve haver coisas melhores, mas não tenho tempo. Há outras para as quais tenho tempo, mas seis são seis e não mais de seis.

Um outro cristianismo

O GRANDE SILÊNCIO (Die Große Stille) de Philip Grönning (2005)

Há, contudo, no marxismo um falso misticismo e uma falsa religiosidade suficientes para seduzir aqueles que sentem fome de algum substituto da religião espiritual. Não há dúvida que a exigência de “fé” e de auto-sacrifício feita pelo marxismo é uma realidade humana muito mais sólida do que a irresponsável pseudo-cristandade que ainda floresce em certas sociedades devotadas inteiramente aos valores seculares. Mas há algum perigo espiritual no marxismo e na pseudo-contemplação que a sua visão do mundo implica. Este perigo resido no apelo cripto-religioso que ele oferece àqueles que não têm estômago para as formas vazias da religião popular, na qual o conceito “deus” morreu de exaustão. [Thomas Merton, The Inner Experience]

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Este texto de Merton é interessante não apenas por mostrar a estrutura cripto-religiosa do marxismo militante, mas pela crítica que faz às formas vazias de um cristianismo ora perdido nos valores seculares, ora preso na religiosidade popular. Mas abre também a porta para se pensar como uma outra forma de entendimento do religioso pode ter sentido nas sociedades modernas. A religião deverá ser menos código moral e mais experiência espiritual. Se o cristianismo ainda puder falar aos sectores mais diferenciados do Ocidente, será pela vertente da experiência espiritual e não da codificação dos comportamentos. Será um cristianismo mais próximo do originário e menos um cristianismo medieval ou da Contra-Reforma. Mas este será sempre um cristianismo dirigido a uma elite espiritual. Como poderá o Cristianismo falar para a massa que perdeu, em primeiro lugar, para o marxismo e, depois, para o consumo e a ideologia niilista que impregna os mass media?

A estratégia de Cavaco


Cavaco Silva continua um político refinado e sabe muito bem as linhas com que se cose. Não dá passos em falso nem tiros para o ar. Podemos não simpatizar com o estilo, e eu não simpatizo, mas há que reconhecer que sabe bem para onde quer ir e como quer ir. Foi eficaz no que disse sobre o negócio da PT e da TVI. Não se perdeu com a data da marcação das eleições. Era público e notório que toda a sua inclinação o levava a marcar as eleições para o mesmo dia das autárquicas. Mas contrariando as pretensões do PSD, o único partido com posição idêntica à sua, marcou-as para 27 de Setembro. O PS não poderia mover-lhe grande guerra caso seguisse as pretensões do PSD, mas nem um pequeno conflito inútil o Presidente quis armar com a data das eleições. O tecido que ele está, desde muito antes de ser eleito, a tecer vai-se compondo. Cavaco sempre ambicionou mandar no país sem ter que aturar os desvarios da máquina do PSD e da vida partidária. Agora começa a brilhar, para ele, uma luz ao fundo do túnel. Se Manuela Ferreira Leite ganhar, e conseguir uma maioria absoluta com o CDS, então Cavaco chegará onde sempre quis chegar, desde que abandonou a governação do país e entregou o PSD a Fernando Nogueira. A aposta é muito alta e pode arrastar consigo, caso a direita não consiga maioria de governo, a não reeleição de Cavaco para a Presidência. Mas Cavaco é um jogador calculista. Veja-se como ele tem, de forma quase amigável, encostado o engenheiro Sócrates às cordas. Quando e se puder, esmaga-o.

O caminho do PSD



Já aqui escrevi, várias vezes, que simpatizo com Manuela Ferreira Leite. Enquanto acho insuportáveis pessoas como José Sócrates, Lurdes Rodrigues ou Valter Lemos, acho a actual líder do PSD uma figura humana muito mais interessante e da qual me sinto muito mais próximo. Simpatizar com uma pessoa, porém, não é simpatizar com as suas políticas.

O Expresso, de hoje, traz já as linhas gerais do que vai ser o programa do PSD. Fala em 'Estado imprescindível'. O que significa isto? Apenas a demissão do Estado na área dos direitos sociais. Diz o Expresso: "Na Saúde e na Educação, os sociais-democratas preconizam que se alargue progressivamente o regime de liberdade de escolha entre operadores públicos e privados." Quem acompanha estas coisas, percebe aquilo que vai acontecer, caso o PSD governe. Os serviços públicos vão diminuir ainda mais de qualidade e prepara-se a entrega de hospitais e escolas públicas à voracidade dos interesses privados. Como se tem descoberto, esses interesses têm pouco interesse no bem público e mais nos seus negócios. Como todos sabemos, privatizar nestas áreas significa piorar o que se oferece aos cidadãos.

Do ponto de vista de Educação, aquele que melhor conheço, o que se está a preparar, então, é um novo terramoto no ensino público. Em tempos, a direita poderia ser um factor interessante de consolidação e de qualificação do ensino público. Mas isso era no tempo em que a direita era conservadora e defendia o Estado-nação. Hoje, rendeu-se ao folclore do liberalismo e à retórica do Estado mínimo. Mesmo os ensinamentos da crise mundial não parecem comovê-la.

Por que defendo a intervenção do Estado na área da Educação? Por dois motivos essenciais:


1. A educação é um elemento central da soberania dos Estados. A educação, e isso foi percebido muito cedo pelos filósofos gregos, é estruturante na vida política e cívica. A saúde ainda se pode dizer que é um problema privado. Na educação, isso é impossível. Veja-se a ideia da escolaridade obrigatória. Nas sociedades modernas, o consenso social que permite que elas funcionem é fabricado nas escolas, através de complexos processos de transmissão curricular. Na educação, como na Justiça, na Segurança ou na Defesa, há um interesse específico do Estado e da Nação: é ela que permite instituir continuamente o desejo de soberania.

2. A educação pode ser um caminho para uma certa equidade social. Para tal, é preciso que exista uma educação de qualidade. Ora, essa custa dinheiro e, tirando os colégios dirigidos às elites sociais, não é rentável. Se se persistir na ideia de privatizar a educação, sabemos que haverá escolas privadas a receber subsídios do Estado e a fornecer serviços muito piores do que aqueles que as escolas públicas fornecem. O fosso social tornar-se-á bem maior do que já é.

As intenções do PSD são perigosas. Um programa de direita, na área da educação, não deveria obviamente proibir o ensino privado. Mas deveria cuidar do ensino público de forma a torná-lo melhor, mais exigente, mais rigoroso e mais disciplinado. As escolas públicas têm forças suficientes para dar uma volta ao que se passa na educação. Precisam, porém, de políticas centrais claras e objectivas. Não precisam de mais confusão. Precisam de diferenciação dos percursos escolares, precisam de selecção de professores e também dos percursos dos alunos, precisam de avaliação rigorosa dos alunos. Não precisam de revoluções, sejam socialistas ou liberais. Confesso, porém, que espero o pior do PSD, nesta área. A educação é um lugar maldito, onde os políticos acham que devem exercitar as suas utopias privadas, ao arrepio daquilo que é o saber acumulado por quem trabalha na área. Ganhe o PS ou o PSD, os governantes irão continuar a destabilizar as escolas e a torná-las em sítios irracionais. Foi o que sempre fizeram, desde que sou professor.

A queda

Se há duas personagens que marcam o estilo e a natureza do actual governo, elas são o primeiro-ministro, José Sócrates, e a ministra da Educação, Lurdes Rodrigues. Têm muitas coisas em comum, desde um certo provincianismo, embora tratado de formas diferentes, até à arrogância, passando pele inflexibilidade, fundamentalmente quando pensam que estão perante os mais fracos.

Os sinais da queda de ambos têm vindo a crescer, embora ainda não seja claro que isso aconteça. Sócrates vê, pela primeira vez, o PSD de Ferreira Leite ultrapassar o PS nas intenções de voto. As sondagens valem o que valem, mas é sempre mais agradável aparecer em primeiro lugar do que em segundo. E uma coisa é já evidente: o PSD pode ganhar as eleições legislativas. Outro sintoma da queda de Sócrates é a história do veto governamental à compra de parte da TVI pela PT. Para Sócrates, colocar a PT na TVI seria um passo interessante para fazer calar certos telejornais particularmente desagradáveis. Mas o governo, devido à intervenção do Presidente da República, foi obrigado a recuar. Também a animação do caso Freeport, apesar do primeiro-ministro não ter sido visado, está longe de ser benéfica para o PS.

Relativamente à ministra da Educação, os tempos também não têm sido favoráveis. A senhora pode falar sobre os bons resultados do sistema educativo, mas ninguém, tirando os acólitos de serviço, acredita na veracidade da coisa. Todos desconfiam, e certamente com alguma razão, da qualidade dos exames e das Provas de Aferição. Mas não bastava isso, um estudo da Deloitte vem mostrar que uma das grandes medidas de combate aos professores (sim, o ME teve por missão combater os seus professores), as quotas na avaliação, é uma especificidade portuguesa, inventada pela actual equipa, na sua política de suave e disfarçado terror dentro das escolas.

O Partido Socialista ainda pode reverter a situação, mas que ele merece um grande castigo, isso merece-o. Não é que a alternativa seja interessante. Nós já sabemos o que é um país governado por Cavaco (sim, será Cavaco a governar a partir de Belém), Ferreira Leite e Portas. Mas o Partido Socialista precisa de uma purga, precisa de limpar toda uma cultura absolutamente inaceitável que se instalou no partido e, através dele, no Estado central e nas autarquias. Não sei se o PS tem capacidade de regeneração, ou se a doença que o afecta se tornou crónica. Mas um tratamento na oposição não lhe fará, por certo, nada mal. Bem precisa e o país também. Mas ainda não é líquido que isso aconteça.

Isabel Hormigo - Exames ou trivialidades?

Olhando para muitos dos exames actuais, há quem diga que as perguntas são hoje mais fáceis do que o eram há dez ou 20 anos. Praticamente todos estão de acordo neste ponto, excepto algumas pessoas que têm responsabilidades no sistema educativo e que têm estado envolvidas nas sucessivas reformas do ensino. Existe uma contradição curiosa: umas vezes diz-se que o "quadro cognitivo" se tornou diferente com o acesso de todos à educação e que, por isso, não se pode ser hoje tão exigente como antigamente se era. Outras vezes diz-se que o ensino actual é mais avançado e exigente, pois se pede aos estudantes uma atitude interpretativa e crítica, e não a memorização de factos ou a capacidade de cálculo.A realidade é que, sem conhecer factos e sem capacidade de cálculo, não se sabe como se pode ter uma atitude interpretativa e crítica. E a realidade também é que basta abrir algumas provas de há 20 anos e algumas actuais para ficarmos preocupados. Seria bom conhecer melhor em que medida o nível de exigência dos exames se degradou, se é que, como julgamos, se degradou de facto continuamente. Mas para isso seria necessário um estudo comparativo sério, que não se conhece. Não negando uma evolução dos exames, que acompanhou alguma evolução dos programas e dos tempos e nos trouxe tópicos mais actuais e contextos mais modernos, há traços muito preocupantes nas provas actuais. O primeiro é o seu diminuto grau de exigência. O segundo é a insistência infantilizante na contextualização, que é inimiga da capacidade de abstracção. O terceiro é a trivialidade extrema dos cálculos e procedimentos testados. Os últimos exames de Matemática do 9.º ano aproximam-se perigosamente de ser apenas testes que basta ter bom senso para resolver e em que a matemática se reduz a banalidades.Vivemos num mundo moderno que não se compadece com a ignorância técnica e com a incompetência. Quem compete com os jovens que estamos a educar são os da Europa, da Ásia e de todo o mundo. A educação é fundamental para o nosso desenvolvimento e a matemática uma alavanca decisiva desse progresso. Não podemos continuar prisioneiros de ideias pedagógicas retrógradas que atrasam o nosso ensino. Há a tentação de pensar que temos à nossa frente todo o tempo do mundo. Não o temos. Todos os anos, meses e dias que se percam na educação são décadas de atraso do país. Não vale a pena fingir. [Público, de hoje]

26-06-2009

Metamorfoses XLV

Bruno Maderna – Biogramma

florescem agora os jacarandás
vieram depois dos castanheiros
e pintam no céu uma ilusão de vida
a promessa de um arco-íris que não virá

com essas mentiras construímos a vida
erguemo-las como hóstias consagradas
carne de um deus cansado
por cansaço se entregou

de que te vale falar de esperança
e colher as pétalas que a tímida flor
pelo chão deixa cair

avança põe um pé no caminho
não perguntes a que destino leva
nem queiras na terra deixar vestígio

O espectáculo da Justiça

Se há uma coisa que me impressiona no caso Freeport, e há bem mais que uma, é o espectáculo da Justiça. Este caso já devia ter sido investigado e resolvido há muito. Não o foi. Agora assistimos a um processo de constituição de arguidos como se assistíssemos a uma telenovela. No episódio de hoje, descobrimos o sexto arguido, José Inocêncio, antigo presidente socialista da Câmara de Alcochete. É evidente que este tipo de administração do suspense, este enrolar da intriga, tem consequências políticas e vai desgastando o Partido Socialista. Não é que o PS, pela forma como tem embrulhado a Justiça, não o mereça. Merece. Mas a decência das instituições passava bem sem o triste espectáculo do Freeport. E aqui não me estou a referir apenas ao processo do licenciamento. Estou a falar do andamento do processo judicial. O que nos reservará o próximo episódio?

O novo Provedor de Justiça


Quando o PS e o PSD decidiram tratar seriamente do caso, a figura do futuro Provedor de Justiça emergiu sem dificuldade. Alfredo José de Sousa reúne, segundo o Público, o consenso dos dois maiores partidos e, por certo, não será mal recebido pelos restantes. Mas como explicar a humilhação infligida a Nascimento Rodrigues e, de certa maneira, a Jorge Miranda? A facilidade com que chegaram a este nome de consenso prova que, anteriormente, os dois maiores partidos estavam longe de agir com boa-fé política. E nesse devaneio pouco se importaram com o estado de saúde do ex-Provedor ou com a necessidade de dar credibilidade ao cargo. É com isto que lentamente se vai corroendo a legitimidade das instituições.

Adenda - Post corrigido graças a José Trincão Marques. De facto, havia uma lamentável troca entre Alfredo de Sousa e Alfredo José de Sousa (cf. explicação nos comentários).

Jornal Torrejano, 26 de Junho de 2009


Em linha está a edição semanal do Jornal Torrejano.

25-06-2009

Metamorfoses XLIV

Emmanuel Nunes – Tissures

a fragrância tecida nas folhas dos limoeiros
abre-se na tarde sobre ruas sonâmbulas
de onde partiram os últimos moradores

as casas são agora vísceras ao sol
entranhas que a vida recusou
vidros partidos cal carcomida
trave que cede ou telhados em ruína

a tudo isto juntas pelo cuidado da mão
e num bordado de linha clara
ergues paisagens de glória ausente
o fogo apagado as cinzas tão frias
e os animais a passear no desterro
de onde ninguém os recolherá

voltas para recompor as imagens
teces com barro a canção do destino
mas tudo cede à gravidade
e entrega-se ao precário silêncio da areia

ainda oiço o gorgolejar da vida ao naufragar
no pântano viscoso e espesso do tempo

avanço uma mão mas logo a retiro
o medo tomou-me conta das faces
e pulsa em cada célula do coração

O mais antigo instrumento musical conhecido


Segundo o Público, este é o instrumento musical mais antigo, que se conhece. Esta flauta terá cerca de 35 000 anos, é feita de osso de grifo e foi encontrada numa gruta na Alemanha. O que é curioso neste achado é a percepção de uma clara linha de continuidade entre esta flauta arcaica e as modernas flautas. Para além disso, a nossa imaginação é impelida para trás na ânsia de imaginar aquilo que teria antecedido este instrumento, pois o que vemos é apenas um momento já sofisticado de algo que começou muito antes. Como soaria, que tipo de música esses nossos antepassados fariam e em que ocasiões?

Como se produz o niilismo em educação?


O niilismo pode ser entendido, de uma forma muito geral, como a desvalorização de todos os grandes valores tradicionais. Mais, o niilismo é a morte do próprio sentido das coisas. De certa forma, as sociedades modernas e contemporâneas são produtoras de niilismo. A sua essência é a contínua desvalorização dos valores, a destruição dos núcleos de sentido que constituem as tradições humanas. Como se produz o niilismo?

Olhemos para a notícia que origina o post anterior. Um dito especialista canadiano em tecnologia assiste em Portugal a uma aula e conta "como os alunos recorreram à Internet para resolver uma questão colocada pelo professor: para saber o que era um equinócio, grupos de alunos pesquisaram a informação e quem a descobriu primeiro explicou-a aos colegas".

Quem é professor percebe, de imediato, que o acontecimento é absolutamente banal. O que aconteceu com a Internet poderia acontecer com enciclopédias em papel, com livros da especialidade, com um texto dado pelo professor ou com o próprio manual da disciplina. Mas este acontecimento banal, acontecimento que apenas prolonga uma forma de trabalhar antiga é visto como um acontecimento excepcional, inovador e símbolo de uma revolução a fazer.

O que significa aqui "revolução"? Destruição da tradição de ensino, destruição dos valores que permitiram construir o conhecimento, incluindo o conhecimento que deu origem aos computadores e à Internet. A partir deste exemplo absolutamente marginal, erige-se toda uma concepção de ensino que é apresentada como inovadora, mas da qual é erradicado de facto todo o acto de ensinar. Fazer a vontade a este senhor Tapscott significa reduzir toda a tradição de ensino a zero e com isso reduzir o ensino à pura nulidade. O professor já não ensina. Mas compreende-se, se não se for ideologicamente cego, que concomitantemente também o aluno não aprende. E é isto que está a emergir em muitos sítios do Ocidente.

Não pense o leitor que sou retrógrado tecnológico. Sou dos professores mais antigos a usar computador em tarefas educativas. Incremento o uso da Internet na pesquisa e das ferramentas que ela disponibiliza como apoio à aprendizagem. Isso, porém, não implica qualquer dissolução da minha responsabilidade última em ensinar os meus alunos, de viva voz, falando com eles, expondo e discutindo, reflectindo em conjunto. É para isto que servem os professores, não para gerir aprendizagem ou a utilização de gadgets.

Estes inovadores tecnológicos, estes inspectores Gadgets, que pululam em torno da educação, são um dos principais perigos para o futuro do Ocidente. São portadores de uma barbárie que visa reduzir a nada tudo o que construímos. Não sei se o Ocidente terá forças para resistir a esta barbárie nascida no seio da própria ciência, nascida de uma perversão ideológica que existe na transformação do conhecimento científico em tecnologia. O próprio poder político ocidental se transformou numa fonte de barbárie e de produção de niilismo. Se não for possível parar esta gente, então pagaremos muito caro a nossa impotência.

Educação: Portugal na vanguarda


Consta que o senhor Don Tapscott é especialista em tecnologia. Compreende-se que fique fascinado com o desempenho das máquinas e com as extraordinárias aulas onde o professor deixa de ensinar e se transforma num técnico de gestão de engenhos informáticos. Compreende-se mesmo que o senhor queira vender ao Presidente americano a extraordinária ideia que descobriu em Portugal. Ideia aliás que os americanos já conhecem e já ensaiaram há muito. Também se sabe que muitas escolas americanas, depois de terem feito a experiência, decidiram proibir os computadores em sala de aula. Aliás, como o senhor reconhece no artigo, os estudos sobre a presença de computadores em sala de aula foram inconclusivos. E isso é o mínimo que se pode dizer.

Este tipo de comentários servem, porém, para sustentar um equívoco tremendo que se instalou no ensino em Portugal. Nós não estamos na vanguarda de coisa nenhuma, ou se estamos na vanguarda de alguma coisa é a do niilismo educativo. Tudo se está a tornar mais irrelevante e menos exigente. Os especialistas podem especular sobre o que lhes apetecer, mas a percepção que existe nas escolas é bem diferente. Os próprios alunos sentem isso. Já aprenderam, por exemplo, que o calendário eleitoral e a própria luta política têm efeitos específicos sobre o grau de dificuldade dos exames. Há coisa que os alunos aprendem depressa.

É evidente que precisamos de professores que dominem bem as ferramentas tecnológicas. Mas isso é uma exigência idêntica àquela que existia antes. Os professores tinham obrigação de dominar bem o uso de enciclopédias, dicionários, modelos de investigação, etc. Mas isso não os fazia bons professores, embora pudesse ajudar. Ser professor não é uma questão tecnológica e a qualidade do ensino não tem relação directa com o uso da tecnologia disponível. O ensino funda-se numa relação entre professor e aluno, e essa relação é uma forma de mediação do saber. Aquele que sabe transmite o saber ao que não sabe. É nesta relação que se constitui as relações culturais, uma das quais é a do saber.

Mas o que mais me espanta é o actual entusiasmo, fundado na existência da internet, com o autodidactismo. Este há muito que tinha má fortuna. Agora recrudesce fundado num devaneio tecnológico, como se o saber não fosse uma tradição humana e como se as tradições humanas pudessem ser transmitidas de outra forma que não a do contacto directo entre seres humanos. Mas o problema de tudo isto reside na classe política, muitas vezes inculta ou embasbacada com gadgtes. Na ânsia de mostrar serviço, não hesitam em fazer das escolas o laboratório das suas utopias pessoais. O senhor Don Tapscott acha que as escolas americanas devem entrar no século XXI, imitando as escolas portuguesas (ele não sabe o que são as escolas portuguesas, nem sequer aquela que viu). Isto deve encantar o engenheiro Sócrates e talvez comova o senhor Obama. Mas, na verdade, o que o ensino ocidental precisa é de meditar na experiência clássica dos gregos. Não para a decalcar, mas para perceber a filiação e os fundamentos do ensino ocidental, e para saber conjugar as transformações sociais e técnicas com o núcleo central da nossa tradição de ensino. Sobre isto, é provável que o senhor Tapscott pouco tenha a dizer, e desconfio que aos nossos políticos uma coisa dessas deva parecer absolutamente arcaica e sem sentido. Há muito que eles deixaram de entender o que significa a palavra princípios.

Jorge Miranda retira candidatura


Jorge Miranda retirou a sua candidatura a Provedor da Justiça. Fê-lo por uma causa nobre. Não concordou que houvesse disciplina de voto na próxima tentativa de eleição. Jorge Miranda é uma das figuras mais respeitadas e mais respeitáveis da democracia portuguesa. Seria, por certo, um excelente Provedor e dignificaria o cargo, como, aliás, o tem feito Nascimento Rodrigues. Posso admitir com boa vontade que nós, portugueses, talvez o merecêssemos enquanto Provedor. Mas a verdade que ele não mereceria ser confundido com as pobres personagens que tomaram conta do regime democrático e que, com afinco e persistência, o estão a conduzir para o abismo. Há alturas que a grandeza não se deve misturar com a pequenez.

24-06-2009

Metamorfoses XLIII

Philip Glass – Metamorphosis

no limiar da sombra há um animal
touro feroz sobre a planície cresce
quando se cavalga pela terra manchega
e o sol oferece a calma da exaustão

um milhafre cruza os céus de fogo
e um frémito varre toda a terra nua
não há cavalo nem cavaleiro que a dobre
apenas a sombra do touro a apazigua

as poucas árvores por deus ali abandonadas
são símbolos de água a voz do paraíso
dia após dia o transportamos aos ombros
como se fosse não prémio mas castigo

e na indiferença desta tarde infernal
onde tudo suspendeu o movimento
descubro no lugar do bem o sopro do mal
e na mudança o princípio do esquecimento

A Antígona de Teerão

Neda Agha-Soltan

É este o rosto da jovem mulher iraniana que se vê morrer durante uma manifestação em Teerão (ver o vídeo do Telegraph). Olhamo-la e vemos nele uma nova personificação de Antígona. Sempre que encontramos uma Antígona, sabemos que estamos perante a tirania. O destino de todas as antígonas é dar o seu sangue pela liberdade e é essa dádiva que torna a sua beleza misteriosa e inconfundível. São mães que nunca tiveram filhos, mas trazem nas entranhas essa coisa extrordinária que é o desejo de ser livre.

A data das eleições


Quando não há problemas, nós temos a capacidade de os inventar só para nos entretermos neste tempo estival. Sobre a questão da coincidência ou não das eleições legislativas e autárquicas, os dois argumentos opostos parecem-me risíveis. Defender a mesma data para ambas as eleições com uma justificação económica não é um argumento civicamente nobre. Pode dizer-se sempre que a democracia é mais importante do que esse gasto adicional. Mas defender que a data deve ser diferente pois estamos perante eleições diferentes e campanhas eleitorais diferentes é um argumento que pressupões várias coisas. Em primeiro lugar, pressupõe que as magníficas ideias que pululam nas campanhas eleitorais nos interessam e que a generalidade do povo português presta alguma atenção aos devaneios que os partidos políticos apresentam na ânsia de chegar ao poder. Em segundo lugar, mesmo que todos nós estivéssemos interessados nas extraordinárias ideias que habitam aquelas cabeças, isso não teria de significar que não conseguíssemos destrinçar claramente entre uma eleição onde os portugueses vão escolher um governo e aquela onde vão escolher autarcas. Nós sabemos muito bem quem são uns e outros. Sabemos os poderes que ambos têm e não nos falta capacidade para, caso estejamos interessados, sintonizar o nosso cérebro ora na campanha para as legislativas, ora nos debates locais. Apesar de tudo, não somos assim tão estúpidos.

23-06-2009

Metamorfoses XLII

Gavin Bryars – Farewell to Philosophy

no farol cor de malva crescem flores silvestres
à minuciosa luz do entardecer
os barcos tecem redes pequenas armadilhas
onde aprisionam as águas até que o porto
os devore na sombra que desagua na noite

um sino repica ao longe e escutam-se passos
na pressa que levam partilham o medo da solidão
e se sulcam as ruas onde se ouve o marulhar das águas
é para as infestar de geada e restos de sal

a película de seda escura que cobre o horizonte
rasga-se se o farol rodopia e por um instante a ilumina
traçando um cone de luz promessa de um dia nítido
sem a gangrena que a tudo escurece

não falemos em extinção nem na ânsia
que toma os membros os inclina e joga pelo chão
deixemos apenas as flores crescer no farol de malva
para gritarem quando chegar o calor do estio
deixemos apenas a luz sucumbir no terror da mão

Do equívoco do privilégio


A política tem destas coisas. Os espanhóis na tentativa de atrair cérebros estrangeiros para o seu país inventaram um regime especial de impostos. Estão agora a descobrir que os grandes beneficiários da imaginação política são os jogadores de futebol estrangeiros a actuar em Espanha. Enquanto os jogadores espanhóis pagam um imposto na ordem dos 43% sobre o que ganham, os estrangeiros limitam-se a pagar 24%. A perturbação introduzida pelas contratações de Kaká e de Cristiano Ronaldo pelo Real Madrid veio agudizar a consciência do logro e pôr a nu a infracção a um dos princípios fundamentais, eu diria que é um princípio de valor universal, das sociedades burguesas, o princípio da iniquidade dos privilégios.

Nada disto, porém, se deve confundir com a discussão sem sentido sobre se deve haver um tecto para as contratações de jogadores. Apenas o mercado deve regular esse tecto. O que não pode haver é distorções no mercado e num mesmo país jogadores de futebol serem taxados de modo diferente apenas porque uns nasceram em Espanha e outros no estrangeiro. Devido ao peso económico das competições europeias seria curial, para não distorcer o mercado e a concorrência entre equipas, que os países europeus caminhassem, através de acordos, para uma tributação dos salários com pouca margem de diferença.

A saga continua...

Hoje foi dia de exame de Matemática B (ensino secundário). A saga continua. Ler aqui a opinião da SPM.

Os balanços da senhora ministra


A senhora ministra da Educação faz balanço positivo da época de exames e congratula-se com o profissionalismo das partes envolvidas. É comovente tanta atenção e tanta motivação positiva dispensada às partes. Parece que vamos ter resultados bons, o que será já uma consolidação do trabalho vindo do ano passado.

O que eu não percebo é a estratégia tão arrevesada seguida para atingir tão nobres fins. No fundo, fazer novo estatuto da carreira docente, ter que suportar greves e manifestações a roçar a unanimidade albanesa do professorado foi um suplício desnecessário. Bastava a senhora ministra ter orientado politicamente a política de exames como orientou e ter ameaçado os professores com a sua responsabilização pelo facto dos alunos não quererem estudar. Os resultados seriam os que vamos ter, brilhantes, e não haveria tanto cansaço e tanto desgaste político.

Os pais que interessam, aqueles que têm dinheiro e vivem em Lisboa e Porto, há muito que têm os filhos nos colégios privados e não são afectados pelas políticas da senhora ministra. Os outros têm direito ao sucesso nas notas. Contentem-se com isso. Que os filhos tenham um bom ensino não está inscrito na carta dos seus direitos. As boas universidades, as que exigem conhecimento, não são para os filhos deles.

Como professor há uma coisa, porém, que não me deixa de intrigar. Se compararmos os actuais exames com os anteriores, verificamos que os maus resultados que havia não se deviam aos professores, mas às equipas de exames que faziam provas demasiado difíceis para os alunos. Não compreendo como é que essas equipas não foram duramente castigadas e por que motivo se perseguiu e vilipendiou na praça pública toda a classe docente. Afinal, a culpa não era dos professores. Há sempre qualquer coisa na lógica deste Ministério da Educação que me escapa.

22-06-2009

Metamorfoses XLI

Olivier Messiaen - Quator pour la fin du temps

a cidade desfalece ao crepúsculo
casas caídas ruínas vindas da terra jubilosa
a visão solar do casario ao longe
as árvores ressequidas pelo calor de junho
e o insuportável cristal a tudo deixa ver

um cheiro a urina seca vem das esquinas
aqui e ali miam gatos vadios pardos cansados
à luz dos candeeiros chega a liturgia da noite
ilumina as velhas paredes do castelo
onde cessaram de repente todos os combates

sigo com atenção o lento trabalho do bolor
um exército de cavaleiros azuis invade a laranja
delimita o território conquistado
traça universos de morte na madeira das casas
anuncia na língua dos profetas o porvir

entro num café ainda aberto as mesas vazias
no balcão estão copos sujos cascas de tremoços
– um súbito clarão atravessa a rua e logo um carro o segue –
a televisão grita no silêncio furioso da sala
e numa cadeira de fórmica o dono dormita babando-se

é tarde as cores esbatem-se num cinza matizado
das paredes das casas vêm ondas de calor
aqui e ali ouvem-se vozes e uma bicicleta passa
corta o ar quente e perde-se na curva ao entrar
nos meus olhos abertos para a cegueira que os contamina



De queda em queda...


Mas o que é que se passa no Benfica? Quem são estes figurões? Como é que o maior e mais importante clube de Portugal chegou aqui?

O exame de Matemática do 9.º ano

Continua a saga dos exames nacionais. Hoje foi a vez do exame de Matemática do 9.º ano. A tragédia do ensino em Portugal está contida na profunda divergência que as duas associações profissionais fazem da prova.


Já a Sociedade Portuguesa de Matemática acha que a prova é absolutamente elementar:

" 1. Após análise ao Exame do 9º ano hoje efectuado, a SPM verifica que o nível geral da prova é de novo demasiado elementar. O exame destina-se a alunos no final da escolaridade obrigatória. Após nove anos de ensino de matemática exigir-se-ia um maior grau de dificuldade.
2. Logo na pergunta 1, pede-se a média aritmética de três números: 382, 523 e 508. A facilitar ainda os cálculos, que são triviais na posse da calculadora permitida nesta prova, fornece-se a soma (1413) — é uma questão do 6.º ano de escolaridade. Na pergunta 5, pede-se ao aluno que leia valores num gráfico simples. Após leitura desses dados pede-se que calcule o valor de 100 euros em libras, sendo sabido quantas libras vale um euro. A pergunta 6 está ao nível do 3.º ano de escolaridade. Na pergunta 7, pede-se para identificar um sistema de duas equações a duas incógnitas que nem se pede para resolver.
3. Em quase todas as perguntas, os conceitos são testados com exemplos demasiado elementares. Os cálculos são todos muito simples, a equação do segundo grau é trivial, para mais sendo fornecida a fórmula resolvente, e os exemplos de geometria são demasiado directos.
4. Não há problema algum em introduzir num exame perguntas de anos anteriores ou de grau de dificuldade baixo. O que é prejudicial é que um número exagerado de perguntas corresponda a tópicos que deveriam estar sabidos anos antes e que todas ou quase todas as perguntas tenham um grau de dificuldade muito baixo. 5. Grande parte da matéria essencial do 9.º ano de escolaridade não foi coberta por esta prova. É o caso da resolução de inequações, sistemas e equações literais, multiplicação de polinómios, intervalos de números reais, proporcionalidade inversa e igualdade ou semelhança de triângulos.
6. Tanto professores como alunos que se empenharam durante estes anos lectivos sentem-se desacompanhados e desapoiados com esta prova. O que exames deste tipo transmitem é a ideia de que não vale a pena estudar mais do que as partes triviais das matérias. Tanto os jovens que prosseguem os seus estudos no Secundário como os que terminam aqui a sua escolaridade não podem concluir estar bem preparados pelo facto de conseguirem um resultado satisfatório neste exame.
7. Pode pensar-se que provas elementares têm a vantagem de ajudar a perceber que as questões matemáticas não são intransponíveis. Mas estabelecer patamares demasiado baixos, em vez de incentivar a mais estudo e mais conhecimento, acaba por prejudicar todos — tanto os melhores, que se sentem desincentivados, como os menos treinados, que sentem menos necessidade de trabalhar para aumentar o seu domínio das matérias. Em suma, uma prova demasiado elementar como esta não serve o progresso do ensino. Pelo contrário, cria precedentes difíceis de contrariar.
8. A matemática é uma das matérias mais importantes para a formação dos nossos técnicos e dos cidadãos do futuro. Estamos no século XXI. É urgente formar técnicos competentes, capazes de competir num mercado internacionalizado e numa economia em que o conhecimento tem uma importância cada vez maior.
"

Nem vou comentar. O leitor perceberá as intencionalidades das várias partes em conflito. Pobre país.

O nascimento da UDP em Torres Novas

Primeiro símbolo da UDP

Continuando com o exercício de memória política: como nasce da UDP em Torres Novas? Antes, um pouco de história da organização. Tanto quanto me recordo, a UDP nasce da confluência de três grupos “m-l” (marxistas-leninistas), de orientação maoísta. São eles, o CARP-ML (Comités de Apoio à Reconstrução do Partido- Marxista Leninista), fundado em 1973, e que tinha militantes como Francisco Martins Rodrigues, João Pulido Valente e Rui d’Epinay, o CCRML (Comités Comunistas Revolucionários Marxistas Leninistas), fundado em 1969, e onde se podiam encontrar como militantes João Bernardo (um grande teórico da extrema-esquerda), Acácio Barreiros, Mariano Gago e Jorge Coelho (sim, esses mesmos), e a URML (Unidade Revolucionária Marxista Leninista), fundada em 1971. São este três grupos que dão origem à UDP em finais do ano de 1974. Não vejo aqui, prolongando a conversa do post anterior, qualquer presença dos grupos católicos. Mas descortina-se a presença de muitos estudantes ligados ao Instituto Superior Técnico, também antigos quadros do CMLP (Comité Marxista Leninista Português), resultante da cisão original no PCP dos maoístas portugueses.

O núcleo UDP de Torres Novas nasce ligado a uma estrutura muito curiosa. No Entroncamento havia um grupo maoísta com certo peso (ainda se reflecte hoje na votação do BE) que não pertencia a nenhum dos grupos referidos anteriormente e estava organizado em torno do jornal Ribatejo na Luta. Desse grupo, havia gente com ligações ao IST, entre eles o José Manuel Alcobia, falecido há muito. Esse grupo participa na fundação da UDP, mas de forma autónoma, sem filiação em nenhum grupo "ml". Foi no contacto com essas pessoas, nomeadamente com um estudante do Técnico, e hoje professor na Universidade de Coimbra (aliás um tipo absolutamente notável, que tinha um Citroën 2 cavalos, que metia água por tudo o que era sítio, e possuía uma belíssima colecção de música clássica, com a qual me iniciei verdadeiramente nessa música), que estava destacado na região para fazer trabalho político (era assim que se falava na altura), que nasceu a UDP de Torres Novas. Ainda me lembro de quem foram os fundadores (quase tudo gente pouco mais do que imberbe), mas não vou referir nomes. Um deles era eu (também pouco mais do que imberbe). Refiro apenas que havia um professor da escola secundária (hoje, ES Maria Lamas) que também tinha sido formado pelo Técnico. Era na casa desse professor que decorriam as reuniões do partido. Depois, a UDP alugou uma sede em frente à antiga Tipografia Conde Marques. Não me recordo agora o nome da rua e o prédio já não existe. Às vezes, penso que alugaram a casa para sede da UDP com medo das ocupações, muito em moda na época. O preço da renda era 300 escudos, que foram pagos escrupulosamente, pelo menos até à altura em que saí. Mas as pessoas eram cordatas e honestas e o ímpeto revolucionário era mais fruto da época do que condição natural das pessoas, digo eu. Muitas dessas pessoas não têm, hoje em dia, nada a ver com essas opções do passado. Julgo que, como eu, abandonaram, com uma ou outra excepção, a política activa. Ideologicamente não sei onde se situam. Como é público e notório, eu não me situo, nem de perto nem de longe, nas proximidades daquilo que eram as minhas opções há mais de 30 anos. Nem sequer consigo dizer se há alguma linha de continuidade entre o Bloco de Esquerda local e o antigo núcleo da UDP.

Sobre os militantes católicos

Liga Operária Católica


Aproveito a converso com o Zé Manel, e um comentário anterior, para retornar à questão dos militantes católicos. Diz: “Os militantes desta corrente de pensamento dividiram-se em 1974 pelo PSD, pelo PS e até curiosamente pela UDP (que tinha uma grande influência na LOC).”

A minha memória não é efectivamente essa. É verdade que muitos militantes católicos se dividiram pelo PPD e pelo PS. Relativamente à UDP, não tenho essa impressão.

Para além do PSD e do PS, há uma franja enorme, entre jovens universitários e quadros operários católicos, que está na origem do MES (Movimento da Esquerda Socialista). Alguns desses militantes são pessoas notáveis e tiveram, e ainda têm, um papel político importante. Penso que também havia gente católica na FSP (Frente Socialista Popular) do Manuel Serra, uma cisão do PS, e na LUAR. É provável que também estivessem noutras organizações da extrema-esquerda, de que já não recordo o nome. Uma fatia deles terá ido para o PCP ou para o MDP-CDE, na altura.

Que memórias tenho eu sobre isso relativamente a Torres Novas? Eu não conhecia as organizações católicas (JOC e LOC) por dentro, mas conhecia as pessoas (naquele tempo, toda a gente conhecia toda a gente em TN). Os militantes católicos locais devem ter-se distribuído pelo PPD, pelo PS, claramente, pelo PCP (aliás, já antes do 25 de Abril havia uma cooperação local entre os jovens comunistas e os sectores católicos, isso eu conheço bem). Não tenho memória de ninguém dessa área católica na UDP, mas tenho no PRP (Partido Revolucionário do Proletariado). Julgo que o PRP, dirigido por Isabel do Carmo, tinha gente de extracção católica, mesmo a nível nacional. A nível local tinha de certeza.

Portanto, tanto quanto o meu conhecimento alcança, não havia ligação entre os militantes católicos e a UDP, mas não sei como era a nível nacional (nunca passei de um militante local), embora exista a referência do Padre Max, assassinado no norte, e do padre Martins Júnior, na Madeira. Mas julgo que essa presença de militantes católicos era excepcional, pois a UDP tinha uma forte e muito dogmática estrutura ideológica fundada nos princípios marxistas e no ateísmo. Veja-se o seu primeiro símbolo (no próximo post).

21-06-2009

Metamorfoses XL

Pierre Boulez: ...explosant-fixe...

avança avança sempre e sempre
um cheiro sortido o pus em combustão
o abecedário de letras moribundas
a pele rasgada o mato rasteiro queimado
e a sombra vinda do céu avança sempre
exército astucioso sem pálpebras
orelhas hirtas e vestes esfarrapadas

nada o detém na quietude da planície
nada o detém à porta das cidades
ouve-se o troar dos combates
os vidros partidos as janelas a sangrar
a roupa pendurada nas varandas
é agora uma visão a profecia deste sonho
de cães a uivar e anjos degolados

a árvore desfeita em cinza
o rosto de todas as mães apagado
da memória dos filhos imundos
o exército marcha sob a luz do tambor
avança sempre sem homens triunfal
canta uma canção de embalar
canta sem voz sem face sem dor canta

Da democracia cristã em Portugal

Leão XIII

Continuemos a conversa com o Zé Manel, do Canhotices, a propósito de duas postagens e respectivos comentários do averomundo (esta e esta). Algumas indicações históricas fundadas na memória pessoal, em leituras diversas, e não na investigação científica.

A questão da democracia cristã em Portugal. Em Coimbra, foi criado em 1901 o CADC (Centro Académico de Democracia Cristã), inspirado na encíclica Rerum Novarum, publicada em 1891 pelo Papa Leão XIII. Fizeram parte do Centro, salvo erro, o Prof. Oliveira Salazar e o futuro Cardeal-Patriarca de Lisboa, Gonçalves Cerejeira. Com a ditadura, estes sectores cristãos são absorvidos pelo regime, juntamente com monárquicos anti-liberais e republicanos de direita. É a isto que Oliveira Salazar vai chamar União Nacional.

A democracia cristã hibernou em Portugal durante a ditadura, embora a partir dos anos sessenta houvesse núcleos católicos que, inspirando-se na doutrina social da Igreja, contestavam o regime. A revista o Tempo e o Modo, posteriormente tomada pelo MRPP, teve aí a sua origem. Nomes como Alçada Batista, Bénard da Costa, M. S. Lourenço, José Escada, etc. são preponderantes nesse movimento. Também dentro dessa inspiração encontramos o grande poeta Ruy Belo.

Com o 25 de Abril, nasceram muitos partidos e pelo menos dois reclamavam-se da democracia-cristã. O PDC (Partido da Democracia-Cristã) de Silva Resende e Sanches Osório, partido menor e claramente à direita e sem relação com a tradição centrista de esquerda da democracia-cristã europeia, mas que ainda teve alguma visibilidade nos anos quentes da revolução, onde chegou a ser proibido.

Nasceu também o CDS (Partido do Centro Democrático Social) que, também ele, reivindica a ideologia da democracia cristã. O papel do CDS na revolução está envolto na ganga ideológica e conflitual da altura, mas hoje começa a ser possível perceber algumas coisas. Em primeiro lugar, o núcleo original do CDS é claramente centrista, com certos laivos à esquerda, e democrata-cristão. Se na altura, quando se olhava da esquerda ou da extrema-esquerda, se via o CDS como um partido quase fascista, isso devia-se à cegueira ideológica que os anos quentes da revolução semearam em todos nós. O CDS tinha de facto uma elite política notável (Freitas do Amaral, Lucas Pires, Adriano Moreira, Basílio Horta, Amaro da Costa, Vítor Sá Machado, Rui Pena (torrejano, segundo julgo), etc.), mas não de direita. Não é por acaso que muitos dos seus dirigentes, incluindo o pai fundador, Diogo Freitas do Amaral, acabaram por se cruzar com o Partido Socialista.

O papel do CDS na revolução foi o de integrar as franjas mais conservadoras da sociedade portuguesa, uma sociedade ainda bastante ruralizada e arcaica, apesar do crescimento industrial dos anos 60 e 70, na democracia. Há que reconhecer, hoje em dia, que o CDS o fez com elevada competência. Apesar de não ter votado a constituição de 76, o CDS manteve dentro do regime e da vida democrática sectores sociais importantes que estavam amarrados à ditadura. Havia, de facto, um “abismo” entre a notável e esclarecida elite partidária e a massa eleitoral, sendo esta muita mais direitista que aquela. Esse papel importante teve como consequência tornar o CDS, agora também PP, naquilo que é hoje, um partido médio, ideologicamente inconsistente, onde não encontramos já, embora isso seja comum aos outros partidos, o nível intelectual e político que as suas primeiras elites apresentavam.

Em resumo, podemos dizer que a democracia cristã em Portugal sacrificou-se duas vezes. A primeira vez, sacrificou-se dissolvendo-se dentro do regime autoritário de Salazar. A segunda vez, sacrificou-se para mediar a entrada dos sectores mais conservadores da sociedade dentro do regime democrático. Se o primeiro sacrifício é desprezível, o segundo é amplamente meritório e talvez seja isso que, inconscientemente, certos sectores da direita portuguesa não perdoam a Diogo Freitas do Amaral, personagem incontornável na consolidação da democracia portuguesa.

Hoje, como se pode constatar, não existe nenhuma corrente credível da democracia cristã em Portugal. Isso deve-se, por certo, aos sacrifícios que apontámos atrás e ainda à crise das ideologias. Mas haverá outras razões, nomeadamente sociológicas. Um exemplo. Que impacto poderia ter em Portugal, um país tão pouco industrializado, a encíclica de Leão XIII? Apenas nos sectores intelectuais católicos. A Rerum Novarum dirigia-se ao mundo operário, era uma tentativa da Igreja não perder esse mundo para o marxismo e o ateísmo. Só bem mais tarde a inspiração dessa encíclica pôde fermentar nos sectores operários portugueses, mas a ditadura não deu possibilidades de se formar um autêntico pensamento político democrata-cristão. Como não tivemos social-democracia, também não tivemos democracia-cristã como a europeia, nomeadamente como a que existia em Itália (onde acabou muito mal, apesar de ter começado muito bem) e na Alemanha (onde continua de boa saúde).

Continuaremos esta deambulação, com outras memórias, a partir do diálogo com o Zé Manel.

20-06-2009

Metamorfoses XXXIX

Henri Dutilleux – Ainsi la Nuit

alguém desenhou a lua nova
contra um céu de trevas
e deixou dentro da noite uma janela
de onde se olha a escuridão

foram levados os rebanhos
e na cidade roubaram o que havia
a garrafa partida
um candeeiro de cristal
o santo que perdera a devoção

apagaram as palavras
e o silêncio fulgurou como uma ave
na transparência do céu

não era uma ilha a mudez da noite
nem a plataforma continental
que em desvario se desloca
arremessando cidades pelo chão

apenas uma lua nova
a escurecer em fundo de trevas
quando nada há para dizer
as palavras em pó
a esclerose sobre os dedos
a abrir cáries nas ruas
feridas pelos jardins
e um grito ermo no lugar da solidão

A tradição social-democrata

Stalin, Lenin e Kalinin dirigentes do Partido Operário Social-Democrata Russo

A propósito do comentário feito pelo Zé Manel ao post anterior, fundamentalmente à ausência de representantes do Partido Socialista nos conflitos laborais, vale a pena olhar para a tradição social-democrata portuguesa. O que acontece, e isso talvez seja o essencial, é que não existe nenhuma tradição social-democrata em Portugal.

A social-democracia europeia tem a sua fundação no movimento operário do século XIX, na denominada II Internacional. Os partidos social-democratas (chamando-se social-democratas, socialistas ou trabalhistas) são, originariamente, partidos revolucionários que, a partir de determinada altura, se tornam reformistas e acabam por se transformar num dos pilares do sistema político europeu no século XX. O seu núcleo de apoio essencial residiu nos sindicatos (veja-se, por exemplo, o caso inglês e o caso alemão).

Em Portugal, porém, nada disto aconteceu. Houve, nos finais de século XIX, um Partido Socialista, mas com pouquíssima influência, ainda por cima num país excessivamente rural e com uma indústria incipiente. O movimento operário português, até aos anos 30 de século XX, é mais representado pelo anarquismo do que pela social-democracia. Depois, é o Partido Comunista que assume um papel de representação política do mundo operário.

O actual Partido Socialista nasce não do movimento operário, mas de elementos provenientes da tradição republicana e burguesa, nomeadamente de certos sectores da advocacia e de outras profissões liberais. Esta origem burguesa-liberal do PS explica a profunda incapacidade do partido penetrar no mundo laboral. A própria UGT, controlada pelo PS, foi uma criação pós-25 de Abril e pouca influência tinha ou tem no mundo operário.


Mas esta origem burguesa-liberal e republicana do PS explica ainda uma outra coisa. Explica a actual evolução dos socialistas portugueses. Por um lado, adoptam políticas tipicamente de direita, mas devido à costela republicana original sentem uma necessidade constante de "revolucionar" a sociedade, tornando a vida infernal em todos os sectores a que decidem levar o seu iluminismo jacobino. De facto, é esta a raiz do PS, uma raiz republicana, burguesa, iluminista e jacobina. É isto que, ao combinar-se com certas castas universitárias, o torna insuportável e um factor de desagregação social.

Autoeuropa e um conflito político surdo

Havia qualquer coisa que não estava clara na minha cabeça. Ao ouvir que os trabalhadores da Autoeuropa tinham recusado o acordo negociado entre a Comissão de Trabalhadores, liderada pelo bloquista António Chora, e a Administração da empresa, a ideia que me passou logo foi a da influência do PCP nesta decisão. Mas no que li, que foi pouco, e na lógica das coisas, isso não era claro. Um decisão de ruptura deste género é mais a marca dos antigos partidos (UDP e PSR) que compõem o núcleo central Bloco de Esquerda do que do PCP, sempre mais responsável, negociador, menos dado a aventuras. A última página do Expresso de hoje mostra-me, porém, que a minha intuição estava certa. O peso dos sindicalistas da CGTP foi decisivo no chumbo do acordo

Em torno deste pré-acordo e da sua rejeição parece travar-se, ainda que por interposta motivação (a da defesa dos trabalhadores e dos seus direitos), um duro conflito entre o BE e o PCP. A posição de António Chora representa a típica atitude da esquerda social-democrata, que reinou durante muito tempo na Alemanha Federal. Uma atitude ponderada e equilibrada, uma atitude onde já não se inscreve a destruição do capitalismo, mas da instauração de um regime de intercomunicação entre partes que, tendo interesses divergentes, não são compreendidas como mortalmente opostas. A manobra da CGTP, escorada na necessidade de defender conquistas adquiridas, visa mostrar o carácter não revolucionário dos homens ou do homem do BE. Define de forma clara e transparente, ao escolher o conflito em lugar da negociação, perante a classe operária quem é o partido revolucionário e quem são os reformistas.

Mas a parada tornou-se demasiado alta. Se a Administração despedir mesmo os 250 trabalhadores contratados? Quem será responsável pela sua transformação em vítimas sacrificiais e subsequente imolação aos interesses da estratégia revolucionária? Os partidos comunistas, por norma, têm uma longa tradição de luta sabem até onde podem levar os conflitos sem que sejam conduzidos a um desastre, mas também têm uma longa tradição de sacrificar gente à sua estratégia política.

Em tudo isto, porém, há qualquer coisa anacrónica. Conflitos como este, entre sectores da esquerda, foram muitos nos anos quentes do pós 25 de Abril, embora o PCP tivesse uma posição mais social-democratizante e os pré-BE mais radicalizada. O problema é que as condições geopolíticas são completamente diferentes. De facto, neste momento, não há dois mundos possíveis, o capitalismo e o socialismo. Este morreu por incompetência. Há apenas o capitalismo, cuja crise parece servir apenas para mostrar a sua força. Nestas circunstâncias, o caminho reformista fundado na comunicação e diálogo talvez seja o mais sensato. Veremos o que nos vai ensinar o futro da Autoeuropa em Portugal. Veremos se não vamos jogar no lixo uma empresa fundamental à economia do país.

As palavras alemãs


As palavras alemãs pendem da língua alemã como pesos de chumbo, disse eu a Gambetti, e fazem o espírito baixar, em qualquer caso, para um nível pernicioso a esse mesmo espírito. O pensar alemão, tal como o falar alemão paralisam rapidamente sob o fardo desumano da sua língua, que reprime tudo o que é pensado ainda antes de chegar a ser expresso; com a língua alemã, o pensamento alemão só dificilmente se conseguiu desenvolver e nunca atingiu a sua plena floração, ao contrário do pensamento românico com as línguas românicas, como prova a história dos esforços seculares dos Alemães. Embora eu tenha em mais apreço o espanhol, provavelmente porque me é mais familiar, Gambetti deu-me nessa manhã mais uma preciosa lição sobre a fluidez, a leveza e a infinidade do italiano, que está para o alemão como uma criança duma família feliz e abastada, que cresceu inteiramente livre, para uma que foi oprimida, espancada e se tornou, por isso, aleivosa, nascida de gente pobre ou paupérrima. Muito mais apreciadas devem ser, portanto, disse eu a Gambetti, as obras que os nossos filósofos e escritores conseguiram realizar. Cada palavra, disse eu, puxa forçosamente o seu pensamento para baixo, cada frase, seja o que for que eles se tenham atrevido a pensar, pende para o chão e assim faz cair sempre tudo no chão. Por isso, é também a sua filosofia e é também o que eles escrevem como se fossem de chumbo. [Thomas Bernhard, Extinção]

19-06-2009

Do "à socapa" à prestidigitação (2)

Quando se ouve isto, não deveríamos parar todos para pensar? O que pretende este governo quando permite que todos os dias venham alunos para a televisão rir-se do grau de dificuldade dos exames? Não seria menos confrangedor acabar já com os exames? Não seria mais honesto, no acto da matrícula no 1.º ano, combinar com a família que diploma se vai entregar à criança no fim dos 12 ou 15 ou 17 anos de escolaridade? Então, o menino João vai ser mestre em quê? Mestre em engenharia civil, responde o papá deslumbrado. Lá fica o registo, que acompanha o processo do aluno até ao fim da universidade, quase me ia enganando e escrever até ao fim dos estudos superiores, mas como não é preciso estudar, não faz sentido falar em estudos superiores ou mesmo inferiores. Bastaria não morrer e ter o processo que comprovasse o precoce desejo do papá. As próprias universidades poderiam fazer previsões estatísticas correctas dos diplomas que teriam de passar. Tudo seria mais honesto e simples, ou simplex.

Do "à socapa" à prestidigitação

O Público de hoje traz duas referências à natureza da política educativa dirigida por Maria de Lurdes Rodrigues. Comecemos pela última página e pela secção "Sobe e desce". A Maria de Lurdes Rodrigues foi atribuída uma seta para baixo, e o texto diz tudo: "Não é transparente nem honesto que o Ministério da Educação altere à socapa, no seu site, o enunciado de um exame que entregou com um erro aos alunos." É preciso, porém, lembrar de que este "à socapa" está na génese da política educativa deste governo. Se se ler hoje o programa que o PS apresentou em 2005 a sufrágio (pp. 44 e seguintes), percebe-se que muito do que aconteceu nas escolas está lá, mas "à socapa". Está apresentado de uma forma geral sem que seja possível deduzir quais as acções concretas que serão tomadas. Com o mesmo programa poder-se-ia fazer coisas diametralmente opostas. Esta má-fé política constitui o fundamento da acção governativa a nível da educação. O truque com a prova de Biologia é apenas um pequeníssimo exemplo de uma atitude geral do partido do governo na área educativa.

Mas o título de primeira página do mesmo jornal mostra um outro e gravíssimo problema na educação. Diz o título: «Boas notas nas provas de aferição voltam a não convencer professores», e logo de seguida acrescenta: «Regressa crítica às facilidades em Língua Portuguesa e Matemática. "Só falta escreverem os textos" pelos alunos, dizem os docentes de Português.»

O problema reside na má-fé política originária ter desencadeado uma enorme vaga de contestação e o governo ter respondido com a politização dos exames. Politizar os exames significa entendê-los como prova da justeza da acção governativa. Ao politizar os exames, o governo governamentalizou-os. Ao governamentalizá-los, o governou partidarizou os exames nacionais. São agora usados como matéria de propaganda das mirabolantes políticas educativos do extraordinário ministério. Este truque está a desvalorizar o valor social dos exames. Por muito que Lurdes Rodrigues, o inefável Valter Lemos, ou o engenheiro Sócrates falem da evolução na educação, ninguém na sociedade civil acredita e as pessoas começam a convencer-se de que os exames são mesmo facilitados para que toda a gente tenha direito ao sucesso, quer trabalhe ou não, e o governo tenha o sucesso eleitoral que deseja. Os próprios alunos sabem disso e dizem-no às televisões. Esperam exames fáceis, pois estamos em ano de eleições. A crise na credibilidade do sistema nacional de exames e de provas de aferição vai levar anos a ser corrigida, se é que o próximo governo vai estar interessado em corrigi-la. O "à socapa" inicial transformou-se numa enorme manobra política de prestidigitação com a finalidade de mostrar como boas as péssimas medidas de política educativa. Quem paga isto? Os alunos e o país.

Jornal Torrejano, 19 de Junho de 2009


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Reflexões sobre a liberdade



Enquanto quiserdes viver plenamente autónomos, como senhores absolutos, sem mesmo um deus para vos dar ordens, vivereis fatalmente como escravos ou como membro isolado de uma organização qualquer. Paradoxalmente, é ao aceitar Deus que vos tornareis livres e libertos da tirania humana, pois quando O servirdes, o vosso espírito não mais se transvia na servidão. Deus não convidou os filhos de Israel a abandonar a servidão no Egipto; Ele ordenou-lhes que o fizessem. (Thomas Merton, Semences de Contemplation)

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Este texto de Merton tem o poder de mostrar duas coisas essenciais da nossa cultura ocidental. Em primeiro lugar, a filiação da liberdade na tradição religiosa judaico-cristã. E a liberdade não deve ser aqui entendida na visão dualista da liberdade negativa - liberdade positiva, herdada da reflexão de Isaiah Berlin e, de certa forma, da tradição liberal (cf artigo da Stanford Encyclopedia of Philosophy, onde é feita uma exposição aturada dos dois conceitos e a sua discussão), mas a liberdade como acto de libertação e de emancipação. O que surpreendemos no texto é o devir histórico do ser livre, mas um devir histórico que é, curiosamente e ao mesmo tempo, pré-político e político. É pré-político no sentido que tem um cunho religioso e a liberdade vem da relação com o absoluto que emancipa e liberta da servidão perante as coisas relativas. É político pois a imagem da libertação do povo de Israel do cativeiro está ligada à separação de uma comunidade política, a do Egipro, e à formação de outra comunidade política, neste caso de uma Teocracia.

Merton mostra ainda uma outra coisa, um estranho paradoxo: a liberdade nasce de uma injunção exterior. Não nasce da deliberação e do livre-arbítrio do indivíduo, mas da ordem que Deus dá ao povo de Israel: deixai de ser escravos! Esta injunção à liberdade, exterior à consciência, evidencia a complexidade da temática da liberdade consubstanciada na dialéctica da autonomia e da obediência. Ordenam-me que seja livre. Só chegarei à liberdade se obedecer à injunção divina. Este paradoxo fascinou os filósofos e está presente, por exemplo, na moral kantiana onde, em última instância, a única coisa que está em jogo é o tornar-me livre, o realizar a liberdade, facto que me é ordenado através de um imperativo formal e categórico. Ou então na filosofia moral de Sartre onde a liberdade é ressentida como uma condenação, estou condenado a ser livre.

Esta dialéctica da obediência e da autonomia que institui a liberdade só podia ser sentida pela consciência humana como algo divino. O mundo natural, o curso natural das coisas, está submetido à férrea necessidade (a cadeia causal dos acontecimentos que são regulados pelas leis naturais) ou o acaso. Em ambos, na necessidade e no acaso, não há liberdade. Esta é radicalmente estranha à ordem natural das coisas, mesmo das coisas humanas. É essa estranheza que o Antigo Testamento, no livro do Êxodo, capta em linguagem religiosa, como se a desmesura da liberdade só pudesse chegar aos homens por uma ordem de Deus.

Toda esta dimensão da reflexão sobre a liberdade é, lógica e ontologicamente, anterior à problemática da liberdade negativa e da liberdade positiva, sendo a primeira entendida como ausência de coacção, barreiras e obstáculos, e a segunda, a liberdade positiva, entendida como possibilidade de agir autonomamente e realizar os seus objectivos fundamentais. Tanto num caso como no outro, há que considerar um devir da liberdade, um tornar-se livre, mas um tornar-se livre obedecendo a uma injunção. Fica a questão seguinte: os perigos, apontados pela tradição liberal à liberdade positiva, não estarão ligados a este paradoxo originário da liberdade, à perversão da injunção originária, à transição da ordem de Deus para uma ordem colectiva, onde o colectivo é visto como totalidade orgânica onde se dissolvem, na obediência puramente humana, as liberdades individuais?

18-06-2009

Metamorfoses XXXVIII

Krzysztof Penderecki – Sextet

dançam ao som da tempestade
e bebem até o corpo se dissolver
levado pelos últimos raios de sol

não pagam a taça erguida à memória
que dos céus revoltosos se desprende
e gritam se lhes arde o corpo iluminado
por algum relâmpago vindo do outro lado

não sabem o preço da servidão
nem do destino a cor que se pega à alma
apenas do corpo escorre um sangue esverdeado
inunda o chão vai por baixo das portas
na rua é um lago onde adormecem os barcos

dançam incrédulos sob a luz da ignorância
e lá fora os deuses trovejam cólera
um imposto de sangue está em dívida
e à luz intermitente que vem dos céus
avançam altivos pés ligeiros faces iradas
incendeiam os campos de trigo
lançam sobre as vinhas o granizo
semeiam epidemias nos rebanhos adormecidos

e dançam os homens no crepúsculo infestado
dançam como se dormissem ao beber
os pés no chão o corpo fremente as mãos pelo ar
dançam ao som dos carros de combate
dançam na luz sobrenatural que cai
dançam na noite que chega vinda do mar


Da arte de cumprimentar

Depois de o Zé Ricardo ter escrito isto e isto, espero não lhe retirar matéria para nova incursão na sociologia das relações interpessoais, digamos assim. Um tormentoso problema atravessa certas áreas da sociedade portuguesa. Como cumprimentar, com um ou dois beijos? Consta que a tradição dos dois beijos é de influência francófona, que se teria disseminado nas aristocracias ibéricas. O problema dos dois beijos reside na sua popularização e, hoje em dia, não há cão nem gato que não use dois beijos para saudar alguém do sexo oposto. As famílias aristocráticas, refugiadas em Inglaterra durante as guerras liberais, trouxeram para cá a forma de cumprimentar seca e rápida dos círculos aristocráticos ingleses onde se moviam, um beijo. É este cumprimento que agora começa, também ele, a democratizar-se. Contrariamente ao que pensa uma certa casta social que julga diferenciar-se do poviléu pelo facto de se saudar apenas com um beijo em vez da popularizada e democrática saudação com dois, a sua forma de cumprimento está irremediavelmente contaminada pela mimésis popular. Há muito que o beijo único na face deixou de fazer parte de círculos restritos e caiu nas mãos, quero dizer nas faces, dos que gostam de macaquear as famílias bem. Daqui até ao uso generalizado é um passo.

Seja como for, a decisão por um beijo ou dois não deixa de ser uma decisão complexa numa situação tão rápida e evanescente quanto aquelas que ocorrem na grande-área e exigem o juízo instantâneo e preclaro do árbitro. Esta complexidade é atestada por quem menos se espera. Não deveria o embaixador do reino de Sua Majestade, a Rainha Isabel II, saber qual o cumprimento a usar em cada momento? Se acha que sim, então está enganado e deve ler este post, do embaixador britânico, Alex Ellis, no seu blogue Brandos Costumes. Se nem um embaixador britânico se sabe orientar em tão espinhoso e melindroso, quão importante, assunto, o que se poderá dizer dos pobres plebeus que vivem naquela fronteira entre o popular "dois beijos" e o em vias de popularização "um beijo"?

No mundo profissional, julgo que se está a expandir, mesmo entre mulheres, um cumprimento mais adequado: o aperto de mão. Desde que seja uma aperto de mão formal, seco, nem demasido mole nem demasido rígido, nem exessivamente rápido nem excessivamente longo, julgo que a alternativa é adequada, pelo menos não é tão má quanto as pessoas andarem a trocar beijos, seja um ou dois, nos locais de trabalho. Aliás o único local de trabalho onde se pode trocar beijos é na escola pública portuguesa, mas são beijos na boca até os participantes, vulgo alunos, perderem a respiração. Mas, como se sabe, a escola em Portugal não deve ser entendida como um local de trabalho, mas um parque de diversões e uma estância de férias prolongadas para muitos dos alunos.

Esta história de nos saudarmos com contacto corporal é coisa que acho dispensável. Por que razão as faces das mulheres que eu encontro têm de levar com a minha de raspão? Por que motivo temos de andar a apertar as mãos uns aos outros, alguém é capaz de dizer? Nada melhor do que usar uma pequena vénia. O homem passa por uma mulher, inclina levemente a cabeça, ela semicerra os olhos, eventualmente esboça um leve sorriso, e cada um vai à sua vida. Entre pessoas do mesmo sexo, bastava um pequeno cumprimento oral, quero dizer um bom-dia ou boa-tarde, um olá, um viva, um como está?, um bem obrigado, etc. Depois, do ponto de vista erótico, nada pior que os cumprimentos que utilizam beijos. Numa vénia ligeira e distante pode desenhar-se todo o espaço do jogo amoroso, que, como se sabe, precisa de espaço e de distância para que, como todos os jogo, se possa desenrolar. Portanto, nem um beijo, nem dois, nem aperto de mão. Uma vénia ligeira e discreta. Para todos? Seria o ideal, mas poderiam começar os sectores mais diferenciados da sociedade. Enquanto o povo se empanturra de beijos, as classes com mais capital simbólico, chamemos-lhe assim, começavam a usar a vénia com esperança de que o seu exemplo civilizasse a turba e tudo se tornasse um pouco mais discreto ou menos boçal.

17-06-2009

Metamorfoses XXXVII

Sofia Gubaidulina - In Tempus Praesens

o sossego das tardes de verão
a tinta a escorrer pela parede
e as mãos sujas de chumbo

oiço trovejar ao longe
os vidros abanam
anunciam a tempestade

alguém se esconde num telheiro

a tudo isso chamo mundo
e ele desaba no meu olhar
com o silvo de uma palavra
que se despedaça
rasga-se em sílabas
mostra o esqueleto
os ossos polidos
a carne devorada pelas moscas

da água escura vem um presságio
o jardim das camélias incendiado
o barco que se afunda
na volúpia do rio
a ruína da casa onde te ouvia

o sossego das tardes de verão

Juízes e futebol

A propósito disto, também fiquei ontem perplexo. Aquela cara não me era desconhecida, mas eu nem queria acreditar. A princípio cheguei a pensar que era o Emídio Rangel, o homem do jornalismo. Mas não, era mesmo o juiz Rui Rangel. Não é de agora que os juízes se imiscuem no futebol. Mas depois de toda a sociedade ter compreendido que o mundo do futebol está longe de ser uma coisa recomendável, nem que seja pelo carácter absoluto das paixões clubísticas, não seria de bom senso que juízes ou magistrados não interferissem nas coisas da bola, e que moderassem absolutamente as suas paixões clubísticas? Como pode o cidadão comum acreditar na justiça que se faz nos casos do futebol? Não pode. Aos olhos da opinião pública, o que sepassa nos estádios é transferido directamente para as salas de audiência.

O amor pelas urnas


No caso do cidadão que votou duas vezes, não sei o que hei-de admirar mais. Se o amor pelas urnas do eleitor, se a qualidade do simplex que permite tanta paixão eleitoral.

O falhanço de Quique Flores

É notável a explicação dada por Luís Filipe Vieira para o falhanço de Quique Flores no Benfica. Quique falhou porque não era português. Se Vieira olhasse para a história do clube teria de dizer outra coisa. Quique falhou apesar de não ser português. A última vez que o Benfica foi campeão era treinado por um italiano e são muito poucos os campeonatos ganhos com treinadores portugueses. Até aos anos 80, mais coisa menos coisa, o Benfica tinha uma dupla característica: jogadores só portugueses, treinadores só estrangeiros. Foi esta associação que o tornou quase imbatível durante anos e anos. Também é verdade que os tempos eram outros, e os presidentes do Benfica também. Só espero que Vieira tenha razão numa coisa, que Jorge Jesus não vai falhar. Se isso acontecer não haverá nacionalidade ou disfunção do treinador que justifique Vieira.