06-07-2009
05-07-2009
Luta de classes
O campo da luta de classes não tem fim. Está enganado quem pensa que ele se restringe ao mundo do trabalho, aos campos e fábricas, onde burgueses e proletários se defrontam eternamente. Não, todos os aspectos da vida são palco de uma luta fracturante. Veja-se a alteração da estratégia onomástica das classes populares. Segundo o Público, o povo começa a apropriar-se dos nomes que até há bem pouco tempo pertenciam às melhores famílias da pátria. Em 2008, os seis nomes femininos mais escolhidos foram Maria, Beatriz, Ana, Leonor, Mariana e Matilde. No masculino, as opções recaíram em João, Rodrigo, Martim, Diogo, Tiago e Tomás. Esta popularização dos nomes associados a certas elites é um manobra táctica de grande significado simbólico. Ao desapossar as boas famílias da exclusividade e da diferenciação que um nome tradicional traz, as classes populares estão a obrigar as elites a refugiarem-se, para se diferenciarem, nas Cátias, nas Vanessas, nas Irinas, nos Rubens, nos Márcios, nos Fábios. Quem, nos dias de hoje, vai chamar ao seu filho Martim ou Matilde? Como se vê, não há tréguas nesta eterna luta entre diferenciadores e igualitaristas.
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Da vida do espírito - LER
A LER já foi uma das revistas mais belas que se publicaram. A nova série não tem a qualidade plástica da anterior, mas mesmo assim é uma belíssima revista. Num mundo de imagens, a LER trata de objectos e pessoas estranhos, livros e leitores. Talvez no futuro a revista seja considerada uma revista de Arqueologia e de Pré-História. O número de Julho traz na capa Vasco Pulido Valente e lá dentro uma entrevista com ele. Só isto justifica os 5 euros que custa. Pulido Valente diz mal de muita gente (Saramago - uma derivação da literatura da América Latina, Lobo Antunes, Agustina Bessa-Luís), mas explica por que razão ela não poderia nunca ser escritor. Para ser escritor é necessário ter uma voz e ele apenas tem uma vozinha. Na LER há muitas coisas mais sobre livros, saliento apenas o extracto de uma reedição de Eduardo Lourenço, Esquerda na Encruzilhada ou fora da História? (1986) Haverá temática política mais actual?
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Da vida material - Wine (Junho)
A Wine é uma revista de vinhos que vai já no n.º 36 (Junho). Não é apenas pela elegante concepção que vale a pena comprar a revista. Fala-nos do mundo dos vinhos e da gastronomia, coisas indissociáveis. Este número traz uma reportagem com seis produtores de Alvarinho, aquele vinho extraordinário que só se produz, a partir da casta do mesmo nome, nos concelhos de Monção e Melgaço. É verdade, no outro lado da fronteira também há, mas adquire aí o estranho nome de Albariño e não sei se é do nome, se da nacionalidade, aquilo não sabe ao mesmo. Vale também a pena, neste número, ler a opinião de Charles Metcalfe sobre os vinhos do Porto de 2007 (Após esta prova de vinhos do Porto, se disser que atrobuí 90 ou mais pontos a 25 dos 42 vinhos presentes talvez dê um indício do meu entusiasmo...). Não esquecer ainda o trabalho sobre a cozinha beirã. Mas toda a revista é um prazer e há a oportunidade de descobrir o que há de mais dinâmico, em Portugal, no mundo dos vinhos. E nunca esquecer a divisa que se está a apossar do averomundo: não há nada mais espiritual do que a vida material.
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Da vida material - Blue Cooking (Junho)
Já tinha visto cá por casa a Blue Cooking, mas desatento como sou não tinha passado os olhos pela revista. Hoje, porém, calhou pegar na de Junho. Desde a concepção gráfica até às receitas sugeridas, passando pela crítica, a Blue Cooking é um belo e adequado objecto. Isso mesmo, um objecto material que dá prazer tocar, olhar e imaginar aquilo que poderemos saborear. Pecado da gula? Pelo contrário, introdução à redenção. Não foi numa ceia, a última, que o Cristo preparou a redenção da humanidade sob o império do pão e do vinho? Os tempos tornaram-se mais complexos e a perseguição dos dietistas quase se tornou direito constitucional. Mas há que resistir, enquanto se pode. Deixo aqui duas sugestões da Blue Cooking de Junho. Uma sopa de abacate e camarão e uma salada de vegetais queijo feta. Receitas? Bem, isso já me ultrapassa e sempre se pode consultar a própria revista.
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04-07-2009
O estudo da SEDES
O estudo efectuado pela SEDES sobre o actual estado do regime político tem aspectos, ligados à questão do poder, bem desagradáveis. Tanto o poder judicial como o poder político recebem uma avaliação bastante negativa. Esta avaliação confirma apenas a percepção comum de um real e efectivo afastamento entre as elites político-judiciais e o povo que elas, putativamente, deveriam representar e defender.
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03-07-2009
A renúncia de Maria João Pires
Maria João Pires, segundo noticia o Público, vai renunciar à nacionalidade portuguesa. Torna-se apenas e só cidadã brasileira. A causa é o ter-se cansado "dos coices e pontapés que tem recebido do Governo português", a propósito do projecto de Belgais. Não faço ideia de quem tem razão, se a pianista, se o governo. Estes projectos utópicos sempre me pareceram excessivos e inadequados à realidade portuguesa. Mas isso é irrelevante. O que merece nota é a reacção de muita gente na caixa de comentários do Público. Ali está o pior de nós. E eu não acho que se deva ter uma reverência especial por quem quer que seja, nem acho que o Estado tem de alimentar os devaneios dos nossos artistas. Mas em muitos daqueles comentário, e já ultrapassaram os 400, ressuma a pura inveja e a ódio àquilo que é grande, e Maria João Pires, mesmo que Belgais seja um utopia sem sentido, é uma grande pianista. É por isso, e não pela falência de Belgais, que Portugal nunca deixará de ser um Portugal dos pequeninos.
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Grandes Armazens do Chiado
O fascínio do passado reside na sua imperfectibilidade. Eu sei que as nossas representações desse passado são perfectíveis, mas o passado em si é absolutamente perfeito e como tal imposível de aperfeiçoar. Quando nos deparamos com algo vindo do passado, a primeira coisa que damos conta é da sua absoluta superioridade relativamente ao presente. Nisto não há nostalgia, mas apenas a constatação de um facto. O presente não passa de um híbrido entre o que está concluído e o que está em aberto. O passado, pelo contrário, é um animal de raça pura, de pedigree assegurado, nele não há possibilidades em aberto, tudo está fechado, concluído, feito, perfeito. Por exemplo, estas imagens que recolhi no Beautiful Century (um blogue a visitar regularmente) são a prova do que está dito. Comecemos então a digressão pelos Grandes Armazéns do Chiado, no ano da graça de 1910. Esta primeira imagem diz respeito à back cover do winter catalog, como escreve a autora do blogue. Em 1910, os Grandes Armazéns do Chiado eram um império distribuído pelo país fora. Aveiro, Braga, Faro, Coimbra, Evora (sem acento), Portalegre, Covilhã, Lisboa, Porto, Setubal (sem acento), Vizeu (assim mesmo), Funchal, Caldas, Beja, S. Miguel. Tenho a ideia de ver antigas fotografias de Torres Novas com uma agência dos Grandes Armazéns do Chiado, na praça 5 de Outubro. Como se vê, a proliferação dos hipermercados não é uma invenção do eng.º Belmiro de Azevedo. Já no tempo da Monarquia isso acontecia. Uma viagem atenta pelos desenhos não deixa de ser particularmente interessante. Toda uma lição de sociologia pátria está ali inscrita. Atente-se apenas nas figuras humanas das imagens referentes a Lisboa e à Covilhã. O que me fascina, porém, é a ortografia. Falo menos na acentuação, muito diferente da nossa, mas da grafia de certas palavras. Por exemplo, paiz em vez de país, ou succursaes em vez de sucursais. Que distância e que distinção.
a tirar medidas, para depois se efectuarem encomendas de roupa. A elegância era assinalável. O que se podia encomendar? As senhoras, capas e confecções, vestidos, calçado, chapéus e luvas; os homens, camisas, casacos, collarinhos e colletes (o duplo "l" como sintoma de civilização), calça (no singular) e essa inesquecível peça de lingerie masculina que dá pelo nome de ceroulas, cujas medidas são as das calças. Também há fatos para os meninos e vestidos para as meninas. Mas o supremo encanto da página é os plissés (mais tarde falava-se em plissados). Dois tipos de plissés, os Soleil e os accordeon (os primeiros com letra maiúscula e os segundos com minúscula), ou deitado. São executados nos ateliês da casa. Também há recortagem (mas aqui falta-me a cultura para perceber se diz respeito aos plissés ou não) à machina, o que é bem diferente de recortagem à máquina, coisa mais ligado à metalurgia e à metalomecânica.
França, onde se diz satin, e tem a sua origem no árabe zaituni referente à cidade chinesa Zaitun, onde o tecido era fabricado. E no simples setim temos uma prática ancestral de globalização que nos faz sonhar com desertos e rotas da seda, camelos e oásis, estreitas sendas e longos poentes. Nada mais evidente, porém, do que a adjectivação do setim, liberty. Que propriedade que não a liberdade poderá vir ao espírito quando se pensa em setim ou mesmo em cetim? Um setim liberty com enchimento francez duvet. Duvet? Claro, duvet a palavra francesa para penugem, para o conjunto de penas que enchem o edredon. Uma coisa é ter um edredon de penas e outra, totalmente diferente, é possuir um edredon duvet, ainda por cima com setim liberty. Repare-se como a vida material é tão pouco material, como ela depende do espírito. Talvez não exista coisa mais espiritual do que a vida material. Mas não deixemos passar em claro um pormenor significativo: o enchimento duvet, que já não é um enchimento qualquer, é feito segundo os preceitos da hygiene. Não é apenas a nobreza do "y" que nos cativa e que indica o caminho de degradação popular que vai da era da hygiene aos nossos rudes tempos da higiene. Há ali toda uma dedução de carácter kantiano, que pressupõe o imperativo categórico do respeito pela pessoa enquanto fim em si mesmo, para chegar aos preceitos que defendem essa pessoa através da hygiene do enchimento francez duvet. Que tempos!
e grão não levantam o problema da diferença ontológica. São o que são e não têm qualificativo. Diríamos que são transversais. Já o feijão é diferente. Há o feijão suisso (assim mesmo), o frageolet, o soisson e o cabreiro, e por mais caro que seja o cabreiro, alguém de boas famílias o pedirá? Pelo contrário, um feijão frageolet ou soisson é digno de ser encomendado pelas melhores famílias da pátria. Novidade ou quase deveria ser o vinho engarrafado. O Carcavellos, branco (150 réis) ou tinto (120 réis), era vendido em garrafões ou barris de 5 litros. Uma elegante garrafa enrolhada e capsulada automaticamente do Carcavellos brancos custava 100 réis. A manteiga era vendida em lata, manteiga do Dão ou manteiga da Praia d'Ancora. O café Princeza era vendido em lindas latas axaroadas (não sabe o que é? nós também não). A página 31 do catálogo de inverno dos Grandes Armazéns do Chiado é uma introdução, delicada mas informativa, à dieta das classes médias no início da República ou no fim da Monarquia, conforme preferir.
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Jornal Torrejano, 03 de Julho de 2009
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02-07-2009
O gesto do dr. Pinho
Para dizer a verdade, estes corninhos do ministro Manuel Pinho foram o seu grande gesto político. Como em Portugal nunca se reconhece o mérito onde ele existe, o pobre Pinho lá teve de pedir a demissão. O pessoal do PS anda de cabeça perdida, nem o electrónico engenheiro civil independente consegue evitar distúrbios. O cheiro a derrota é uma coisa horrível. Nada pior para a sanidade mental do que o odor a cadáver. Não me digam que vamos ter de aturar os PSD impantes com uma maioria absoluta.
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Quanto vale o voto dos professores?
A política absolutamente abstrusa de Sócrates e de Lurdes Rodrigues abriu caminho para o PSD tentar penetrar no professorado. As quatro áreas de que fala Manuela Ferreira Leite são aceites por todos os professores, ou quase: estatuto do aluno; estatuto da carreira docente; sistema de avaliação docente; desburocratização do ensino. Tudo isso deverá ser mexido e alterado radicalmente. Mas os professores não se devem precipitar. Devem também perguntar o que pensa ela do destino do ensino público, e da actual forma de gestão das escolas e do papel das autarquias nessa gestão. Devem, ainda, perceber como se pretende concretizar as alterações naquelas áreas. Por exemplo, não estou a ver como uma avaliação externa dos professores, feita por empresas (e há empresas muito interessadas em fazê-la) não implique um calvário burocrático ainda maior do que o desenhado por Lurdes Rodrigues e Valter Lemos. E eu sei muito bem do que estou a falar. Já chega de ingenuidade.
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A trapalhada continua
Parece estar confirmada a trapalhada das eleições no Benfica. A sofreguidão de Luís Filipe Vieira, a tentativa de evitar o surgimento de uma alternativa credível levou ao actual estado. Parece que apenas Bruno Carvalho, não faço ideia quem seja, está em condições de ir a votos. Quem se lembra de um presidente do Benfica como António Borges Coutinho só pode mesmo rir ou então chorar.
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Outro símbolo
Eu não sou favorável a que a banca seja, na sua totalidade ou mesmo na sua maioria, pública. O papel do Estado não é negociar com o dinheiro, embora possa necessitar, como forma de regulação, da posse de um banco, como a CGD. Dito isto, gostava de fazer uma digressão na memória e ir aos primeiros tempos do BCP. Lembram-se como ele era incensado? Lembram-se como a sua política laboral não levantava problemas e era mesmo aplaudida. Era o banco da moda e representava uma certa atitude no país. Dito de outra maneira, o BCP representava uma certa cultura. Houve muita gente que nunca se cansou de sublinhar a diferença entre o BCP e a banca pública. Essa gente não deveria vir agora explicar a história do BCP, estabelecer a relação entre aquele começo e os dias de hoje? Não será legítimo perguntar se no início não estava já contido aquilo que o tempo veio a manifestar? O BCP é outro dos símbolos do regime.
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Um símbolo
De um arguido deve presumir-se a sua inocência. Dias Loureiro não é excepção. Mas a sua trajectória não deixa de ser um caso interessante e um símbolo da evolução do regime democrático em Portugal. Da provinciana Coimbra para Lisboa através da política. Da política para o mundo dos negócios através ainda da política. Do mundo dos negócios para os problemas com a Justiça através desse mesmo mundo dos negócios. Nas mãos do PS e do PSD, a democracia portuguesa tornou-se isto, um imenso pântano onde política e negócios se confundem e onde o país vai definhando a cada dia que passa. É possível que este tipo de condutas seja a norma na vida política. Sendo assim, porém, não consigo compreender como há ainda gente que, não estando envolvida na política, toma partido com veemência a favor ou contra um dos partidos da área da governação. A única atitude que me parece cada vez mais razoável, por parte dos cidadãos, é a crítica feroz a quem está na área do poder. A crítica significa o desejo de limitar a acção de quem "pode" ao que é essencial. Os cidadãos comuns só têm duas formas de acção política: votar e criticar. Considerando o que se tem passado, deveríamos pensar, enquanto cidadãos, que todos os governantes são culpados de abuso do poder até prova em contrário. Mas não será isto uma inversão da norma jurídica que se aplica a qualquer cidadão? Aparentemente, sim. Mas os detentores do poder não são cidadãos comuns, têm um poder de tal modo excessivo sobre todos nós, onde se inscreve o poder de fazer a lei, que há que defender a comunidade e os indivíduos da acção de quem "pode".
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A estratégia socialista
Há duas coisas em que o actual Partido Socialista é excelente. A primeira é a propaganda através dos brinquedos tecnológicos. A segunda é isto: "Socialistas, diz o Público, centram estratégia na destruição do “falar verdade” de Manuela Ferreira Leite." Se o PSD se deixar arrastar para este tipo de coisas, então perderá alguma vantagem que, de momento, possa ter. O que se passa? O país está perante duas imagens, a de José Sócrates e a de Ferreira Leite. A imagem de Sócrates, como pessoa politicamente credível, caiu quase até ao grau zero, durante o mandato. Por outro lado, Ferreira Leite tem uma imagem de pessoa séria, credível, de pessoa que não pisa o risco seja no que for. É esta imagem que o PS se propõe destruir. Veremos qual a solidez da Presidente do PSD e da equipa que a aconselha. Mas isto é também uma terrível confissão por parte do PS. A confissão de que a imagem de Sócrates, ao nível da credibilidade, é irrecuperável. A única esperança é denegrir a imagem da concorrência, fazer uma campanha negra, o que para um partido que esteve no poder 4 anos não deixa de ser um triste sintoma.
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Marcadores: Política
01-07-2009
Metamorfoses L
Alfred Schnittke – Piano Concerto no. 2
imensas eram as ruas desabitadas
tinham cheiro a clorofórmio
e das janelas pendiam sacos de plástico
farrapos de roupas a ondular ao vento
molas de plástico a que o sol comera a cor
se alguém as percorria ao entardecer
ou ousava ali parar na noite escura
elas uivavam como se tivessem vida
ou uma memória animal as habitasse
e lhes desse voz na praia do silêncio
nas calçadas crescem ervas esquivas
símbolos de uma vida ressequida
– sussurram se lhes bate o vento –
são bandeiras de uma pátria vazia
onde há muito secaram os últimos rios
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A trapalhada das eleições
Onde chegou o meu velho Benfica? A trapalhada inaudita das eleições poderá lançar o clube num autêntico caos. Havia um tempo em que o clube não dava um único passo que não estivesse juridicamente fundado. Agora não parece um clube desportivo mas um clube de aventuras. Com uma nova época a começar, com milhões de euros gastos mais um vez, o clube arrisca-se a não ter uma cabeça que não seja motivo de troça e de condescendência dos seus principais adversários. Mas o que se está a passar é um novo sinal da fragilidade que tomou conta da instituição. Se o clube estivesse forte, certas candidaturas folclóricas não passariam disso mesmo, o folclore que sempre existe em instituições democráticas. Mais uma época perdida e ainda não começou.
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Paranóia
Há quase dois anos escrevi aqui isto. De então para cá, a paranóia do inquérito não abrandou, pelo contrário. Ontem fui com a minha mulher a uma empresa privada fazer uma operação no carro dela. No fim, entre milhares de papéis, lá veio o famoso questionário de avaliação. Era solicitada a fazer a avaliação do processo. Se alguém vem cá a casa fazer um serviço relativo ao telefone ou à Internet, sou logo solicitado a preencher, se assim o quiser, um questionário de avaliação do desempenho.
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Sarkozy - cultura e civilização
Esta intervenção do Presidente francês é um exemplo claro e distinto do problema aqui focado sobre a distinção, segundo Leo Strauss, entre cultura e civilização. É provável que a tradição inglesa jamais venha a pôr o problema neste pé, é provável que exista em Inglaterra um espírito de tolerância para com as diferenças culturais e uma aceitação do multi-culturalismo que não é exibida aqui por Sarkozy. Mas também é provável que esse espírito se funde na condescendência e, em última análise, no desprezo pela sorte daquelas que estão submetidas à cultura vigente em certos meios sociais muçulmanos. A aparente intolerância de Sarkozy revela um profundo respeito pelas liberdades individuais e, fundamentalmente, pela liberdade da mulher. E há uma coisa em que Sarkozy tem razão. Não devemos ter vergonha dos nossos valores nem de os defender. Acrescento eu: esses valores têm um carácter universal e visam o respeito pelos indivíduos, independentemente da cultura ou da religião de origem. São valores que promovem a civilização, tal como Leo Strauss a entende, mesmo que para isso combatam certo tipo de valores culturais.
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A irritação socialista com Cavaco
Segundo o Público, os socialistas andam irritados com Cavaco e as críticas começam a ser públicas. Quem tem paciência já para esta farsa? Cavaco não foi eleito com o beneplácito do excelso engenheiro e a conivência do dr. Mário Soares? Quem anda na política, aos anos que andam Sócrates e Soares, sabe muito que a candidatura de Mário Soares só tinha uma finalidade objectiva: permitir a eleição de Cavaco Silva e a consequente não eleição de Manuel Alegre. Nem Soares nem qualquer dirigente importante do PS alguma vez acreditou na possibilidade de reeleição do antigo presidente.
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Da pequena glória
Esta notícia não é agradável para o jogador mais caro da história do futebol mundial. Por muito aborrecida que seja a pressão a que se está sujeito devido aos delírios dos adeptos, um jogador de futebol deve saber comportar-se. Não apenas porque esse é o dever de todos nós, mas ainda pelo facto de Cristiano Ronaldo viver dos delírios e das fantasias dos adeptos. É isso que lhe paga o ordenado, e este não será tão pequeno quanto isso. Se a notícia é verdadeira, há que juntar o facto muito desagradável de a agressão ser dirigida a uma rapariga, ainda por cima menor. Se Cristiano Ronaldo não souber cuidar da vida, é possível que esta, até aqui tão generosa, deixe de cuidar dele. Às vezes, há coisas que cheiram a tragédia, apesar de o presente só mostrar o lado paradisíaco e glorioso. Quem diria ao bravo e glorioso Agamémnon que, ao regressar à pátria, depois da vitória em Tróia, o esperavam a traição da mulher e a morte violenta? De glórias feitas em pó e de riquezas transformadas em miséria está o futebol cheio.
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30-06-2009
Metamorfoses XLIX
Tristan Murail – Le Lac pour ensemble
o medo avança entre cartas trocadas
e um desejo de consolo a abrir o coração
não vale a pena deitar a mão ao gargalo
há muito que o álcool se evaporou
deixando um odor a madeira velha
no abismo grudado ao fundo da garrafa
um itinerário livre nas águas
o remo preso na ânsia da mão
assim vai o remador na senda da tarde
e tacteia os céus com olhos fechados
para não ver a melancolia do azul
ou o vazio onde floresce o pavor
não há astúcia que pare o bater do coração
nem nuvem que sombreie o sol
apenas se ouve o latejar dos remos
e o desconcerto da ave que grita
como se o peito fosse seca argila
e o ar pedra que no céu a vai matar
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A coisa começa a manifestar-se
Se o leitor for paciente e demorar algum tempo a olhar as imagens que a televisão transmite sobre o PSD, descobrirá que o mal já se move por lá. Não atente a Manuela Ferreira Leite, passe antes os olhos pela envolvência. Toda a pesporrência socrática, toda a arrogância que tomou conta da governação socialista, aflora agora nas hostes laranja, porventura ainda mais enfatuada. Ainda não é óbvia. É mais a forma como se olha, alguns gestos não controlados, o tom de voz que começa tornar-se imperativo, as certezas que parecem aflorar naqueles cérebros, tudo indicadores do que vem aí, se o PSD formar governo. Ainda não conhecemos o programa eleitoral, mas o estilo está completamente definido. Se a hora chegar, serão exactamente iguais aos socialistas. Não sei como é nos outros países democráticos, mas em Portugal as elites políticas não se sentem nem se pensam como servidoras do povo. O poder é o lugar de uma estranha exibição do ego, o exercício de vaidades incomensuráveis, o palco para a manifestação universal das suas pequenas pessoas. Saberá essa gente que ministro vem do latim ministru, que significa servidor? Saberá essa gente que primeiro-ministro é apenas o primeiro-servidor? Em Portugal, o poder é o lugar onde gente absolutamente indiferenciada pensa que pode tornar-se diferenciada. Em Portugal, com honrosa excepções, o poder é o lugar do parvenu. E o que é um parvenu com poder?
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Le Sacre Du Printemps by Pina Bausch Wuppertal Dance Theater
Pina Bausch morreu hoje, tinha 68 anos.
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O caso Elisa
A candidatura de Elisa Ferreira à câmara do Porto é um símbolo daquilo que é hoje o Partido Socialista. O Porto é a segunda cidade do país, e uma candidatura à sua câmara implica que o candidato assuma de alma e coração, sem reservas mentais, a entrega a essa candidatura. No momento em que Elisa Ferreira aceita ser também candidata ao parlamento europeu o seu destino no Porto ficou praticamente traçado. Os portuenses parecem não estar interessados em quem procura um lugar de destaque político a qualquer preço. Nem a subtil sugestão de aproximação ao FCP os comove. O Partido Socialista é cada vez mais visto como uma agência de empregos políticos, um partido sem alma, sem princípios, um partido preso à voragem do poder a todo o custo. No Porto, as sondagens são letais para o PS. O que irá acontecer em Lisboa? Será que o Partido Socialista vai ter a capacidade de transformar o dr. Santana Lopes num génio da política e num mago da gestão autárquica?
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O princípio do ressentimento
Graças ao Zé Ricardo cheguei a esta notícia. Quando era novo, devo ter defendido coisas deste género ou piores. Hoje, porém, estes ajustes de contas com o passado e os mortos cheiram-me mal, por muito putrefactos que já fossem os mortos ainda em vida. Depois de Ferrol, terra de nascimento de Francisco Franco, agora é Madrid que retira os títulos honoríficos outorgados ao ditador. Neste acto há poucas coisas ou nenhumas que mereçam louvor. O ditador está morto e não se pode defender. A virtude da coragem está fora desta acção. Mas será uma acção justa? Aparentemente seria, mas nunca será capaz de apagar a mancha de ser uma acção ditada pelo vencedor do momento. Deste ponto de vista, a proposta da Esquerda Unida é idêntica àquela que, nos tempos do franquismo, atribuiu os títulos a Franco. O pior de tudo, porém, é que estas acções são o fruto do ressentimento contra o passado. A Espanha teve uma história e ela foi o que foi. Apagá-la simbolicamente, como nós o fizemos com o dr. Salazar, ainda é uma forma de derrota e de submissão ao espírito do vencedores de então. Se um povo é autenticamente livre não precisa de apagar o passado, nem de "des"-crever aquilo que a história, para o bem e para o mal, escreveu. De certa forma, este acto é uma pequena vitória do velho ditador, que se tornou agora "vítima" dos re-escritores da história. O ressentimento nunca é um bom conselheiro.
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Leo Strauss - Cultura e civilização
Aliás, a palavra cultura deixa na indeterminação qual a coisa que se deve cultivar (o sangue e a terra ou o espírito), enquanto o termo civilização designa imediatamente o processo que visa a fazer do homem um cidadão e não um escravo, um homem das cidades e não um rústico, um amante da paz e não da guerra, um ser civilizado e não um vadio. Uma comunidade tribal pode muito bem ter uma cultura, isto é, produzir hinos, cânticos, ornamentos para o seu vestuário e para as suas armas, olaria, danças, e fruir de tudo isso. Não poderá, todavia, ser civilizada. Interrogo-me se o facto do homem ocidental ter perdido muito do seu orgulho anterior, o orgulho tranquilo e apropriado de ser civilizado, não é um fundamento da actual ausência de resistência ao niilismo (Leo Strauss, Sur le nihilisme allemand).
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29-06-2009
Metamorfoses XLVIII
Igor Stravinsky – The Rite of Spring
estes estranhos animais cujo nome se apagou
correm desfigurados pela luz da floresta
trazem mãos de água e deslizam pela sombra
ao tocar no musgo que de verde cobre o chão
tocam tambores na casa dos guardas
anunciam o frémito por dentro do sangue
traçam ondas de cal no interior das grutas
onde dormem homens perdidos no tempo
insectos acordam de um longo sono
e chupam o sangue de vítimas servis
são uma labareda de cinza no horizonte
e cantam ao zumbir das pequenas asas
ergue-se inteira uma paisagem de papel
e nela componho a floresta de seda
homens e animais bebidos pelo esquecimento
a premeditação de um longo homicídio
e tudo se perde na férvida escuridão
um paraíso de tílias a perfeição dos plátanos
talvez as tuas palavras trémulas
se me olhas com a primavera na mão
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O exemplo Madoff
O senhor Bernard Madoff montou um esquema fraudulento que defraudou, durante anos e anos, muita gente em muitos milhões de dólares. Descoberta a trapaça há meses, este poderoso financeiro foi preso, julgado e hoje conheceu a sentença. O juiz aplicou-lhe uma pena de 150 anos. O que impressiona, porém, é menos a dureza da pena do que a rapidez da justiça. De notar também o facto da condição social do réu não ter contado para a decisão do juiz.
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Slavoj Zizek - Irão em decomposição
Quando um regime autoritário se aproxima de sua crise final, sua dissolução, via de regra, se dá em dois passos. Antes de seu desabamento de fato, ocorre uma ruptura misteriosa: de repente, as pessoas sabem que o jogo já chegou ao fim e simplesmente deixam de sentir medo. Não é apenas que o regime perde sua legitimidade, mas seu próprio exercício do poder é visto como reacção importante de pânico.Em "Shah of Shahs" [Xá dos Xás], um relato clássico da revolução de Khomeini, Ryszard Kapuscinski localizou o momento preciso dessa ruptura: numa encruzilhada em Teerã, um manifestante isolado se negou a sair do lugar quando um policial lhe ordenou aos gritos que saísse. O policial, constrangido, simplesmente se afastou. Em poucas horas, Teerã inteira já sabia do incidente, e, embora os enfrentamentos nas ruas tenham continuado por semanas, todo mundo já sabia que a partida chegara ao fim. Estará algo semelhante acontecendo agora?
Fatos e versões
Há muitas versões sobre os acontecimentos em Teerã. Alguns enxergam nos protestos a culminação do "movimento reformista" pró-ocidental, na linha das revoluções "cor de laranja" na Ucrânia, na Geórgia etc. -ou seja, uma reacção secular à revolução de Khomeini. Eles apoiam os protestos, que vêem como o primeiro passo em direcção a um novo Irã liberal-democrático, liberto do fundamentalismo muçulmano.
Contra eles se erguem os cépticos que pensam que Ahmadinejad venceu de fato: ele seria a voz da maioria, enquanto o apoio ao candidato reformista derrotado Mir Hossein Mousavi viria sobretudo da classe média e de sua juventude dourada. E há os que vêem em Mousavi nada mais do que um membro do establishment dos clérigos, cujas diferenças com Ahmadinejad são apenas superficiais: Mousavi também quer levar adiante o programa de energia atómica, é contra o reconhecimento de Israel e teve o pleno apoio de Khomeini quando foi primeiro-ministro nos anos da guerra contra o Iraque.
Finalmente, os mais lamentáveis de todos são os defensores esquerdistas de Ahmadinejad: para eles, o que realmente está em jogo é a independência iraniana. Ahmadinejad teria vencido porque defendeu a independência do país, expôs a corrupção das elites e usou a riqueza petrolífera para incrementar a renda da maioria pobre.
Essa visão ignora os fatos, a saber: o alto índice de participação na eleição, que dos 55% de praxe subiu para 85%, só pode ser explicado como um voto de protesto. E também manifesta uma cegueira em relação a uma demonstração genuína de vontade popular, ao pressupor, de maneira paternalista, que Ahmadinejad é o presidente que convém aos atrasados iranianos, que ainda não teriam maturidade suficiente para serem governados por uma esquerda secular.
Por mais que se oponham, todas essas versões interpretam os protestos iranianos segundo o eixo de linha-dura islâmica versus reformistas liberais pró-ocidentais. E é por isso que elas têm tanta dificuldade em situar Mousavi: ele seria um reformista que tem o apoio do Ocidente e procura mais liberdade pessoal e economia de mercado ou é um membro do establishment clerical cuja eventual vitória não afectaria seriamente a natureza do regime?
Tais oscilações extremas revelam que todas essas versões deixam de captar a verdadeira natureza dos protestos. A cor verde adoptada pelos partidários de Mousavi, os gritos de "Allahu Akbar!" que ressoam dos telhados de Teerã no escuro da noite indicam claramente que os manifestantes enxergam sua actividade como repetição da revolução de 1979 de Khomeini, como um retorno às raízes dela, desfazendo sua corrupção posterior.
Esse retorno às raízes não é apenas programático; ele diz respeito, mais ainda, ao modo de actividade das multidões: a enfática união das pessoas, sua solidariedade abrangente, a auto-organização criativa, a improvisação de maneiras de articular o protesto, o misto singular de espontaneidade e disciplina, como a marcha lúgubre de milhares de pessoas em silêncio total. Estamos diante de um levante popular genuíno dos partidários iludidos da revolução de Khomeini.
Não herói, mas corrupto
Há duas consequências cruciais. Para começar, Ahmadinejad não é o herói dos pobres islâmicos, mas, sim, um legítimo populista islamo-fascista corrompido. Sua demagógica distribuição de migalhas aos pobres não nos deve enganar: por trás dele estão não apenas órgãos de repressão policial e um aparato de relações públicas muito ocidentalizado, mas também uma nova e forte classe rica, fruto da corrupção do regime.
Em segundo lugar, devemos traçar uma diferença nítida entre os dois principais candidatos opostos a Ahmadinejad, Mehdi Karoubi e Mousavi. Karoubi é de facto um reformista, alguém que propõe basicamente a versão iraniana de política de identidade, prometendo favores a todos os grupos distintos. Mousavi é inteiramente diferente: seu nome representa o genuíno renascimento do sonho popular que fundamentou a revolução de Khomeini. Mesmo que esse sonho tenha sido uma utopia, devemos reconhecer nele a genuína utopia da própria revolução.
O que isso quer dizer é que a revolução de Khomeini de 1979 não pode ser reduzida a uma tomada do poder pela linha-dura islâmica -ela foi muito mais que isso. Agora é o momento de recordarmos a incrível efervescência do primeiro ano após a revolução, com a explosão estarrecedora de criatividade política e social, experimentos organizacionais e debates entre estudantes e cidadãos comuns.
E em último lugar, mas não menos importante, o que isso significa é que existe no islã um potencial libertador genuíno.
Emancipação
O futuro é incerto. Mas, seja qual for o resultado, é muito importante guardarmos em mente que estamos assistindo a um grande acontecimento de emancipação que não se enquadra no contexto da luta entre progressistas pró-ocidentais e fundamentalistas antiocidentais.
Se nosso pragmatismo cínico nos fizer perder a capacidade de reconhecer essa dimensão emancipacionista, então nós, no Ocidente, estaremos de fato ingressando numa era pós-democrática e nos preparando para os nossos próprios Ahmadinejads. [Folha de São Paulo (sem link), 28 de Junho de 2009, Tradução de Clara Allain.]
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O que se passa no Irão?
Para perceber o que se está a passar no Irão e o papel deste homem, o ayatollah Rafsanjani, ler o trabalho de Margarida Santos Lopes, no Público. Mais logo, reproduzirei aqui um interessante artigo do filósofo Slavoj Zizek sobre o Irão em decomposição.
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Um problema com a transparência
O Partido Socialista tem um problema com a transparência. Por exemplo, eu sei que o concurso que existia ao nível da colocação de professores não era grande coisa, mas tinha a virtude de ser transparente. As regras eram claras e não estavam submetidas ao arbítrio de ninguém. Esse concurso foi destruído e abriu-se as portas para, mais dia menos dia, as colocações de professores serem feitas por ajuste directo pelos directores das escolas (agora, personagens de poder quase incontrolado) ou pelas autarquias. O leitor sabe o que isso significa. Sabe perfeitamente como se fabricam critérios para que alguém com menos habilitações ou qualificações possa ultrapassar quem estiver melhor colocado, mas que não conhece ninguém ou que é indesejado pessoal ou politicamente. Este é um exemplo de uma deliberada atitude do Partido Socialista para acabar com a transparência onde ela ainda subsistia.
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Ciência e Política (Léo Strauss)
Para detalhar um pouco mais, é verdade que o ensinamento de Platão a propósito da tirania é indispensável à compreensão do “totalitarismo” de hoje, mas desconhecer-se-ia este fenómeno contemporâneo se se o identificasse pura e simplesmente à tirania do passado. Basta notar que o “totalitarismo” de hoje é essencialmente fundado sobre as “ideologias”, e em última análise sobre uma ciência vulgarizada ou desviada, enquanto que o fenómeno antigo não repousava sobre tal fundamento (Léo Strauss, Sur une nouvelle interprétation de la philosophie politique de Platon).-------------------------
Strauss escreve este texto em 1946, um tempo onde o fenómeno totalitário está especialmente vivo. Nas décadas seguintes desenvolveu-se todo um pensamento de oposição entre democracia e totalitarismo. O apogeu prático-político dessa reflexão teórica é a derrota do campo comunista, simbolizada na queda do Muro de Berlim. Mas, a partir daí, a democracia política parece definhar por falta de substância. Com isto quero dizer: deixou de haver alternativas verdadeiras, e com possibilidade de ascender ao poder, em confronto. Mais, os fenómenos que estavam ligados ao totalitarismo aparecem também ligados às chamadas práticas democráticas. Apesar da proclamação da morte das ideologias, da morte das grandes narrativas, a verdade é que as governações não dispensam as narrativas ideológicas, apresentem-se estas na forma mínima ou na forma de grande narrativa. Por outro lado, o papel da ciência vulgarizada e desviada tem, como aconteceu nos regimes totalitários, um papel estruturante da acção política. Não são apenas as ciências empírico-analíticas, as ciências da natureza, que são mobilizadas enquanto tecnociência para prover a dominação sobre a natureza, mas também as chamadas ciências histórico-hermenêuticas, as ciências sociais e humanas, que são cada vez mais utilizadas para um exercício refinado de dominação sobre a comunidade e os cidadãos. Desde a ciência política à sociologia, passando pela psicologia, a antropologia, a economia, o poder tem tido a capacidade de produzir narrativas ideológicas, por vezes narrativas mínimas, outras grandes narrativas, a partir dos conhecimentos que estas ciências vão produzindo.
Se podemos pensar que nos encontramos numa fase de perversão do ideal democrático, que a democracia apresenta cada vez mais sintomas inerentes aos regimes totalitários, podemos dizer que será importante conhecer o que os clássicos, Platão e Aristóteles, pensaram dos regimes políticos, nomeadamente da democracia e da tirania. Mas isso não bastará. Será necessário confrontar o ideal regulador moderno da democracia representativa com o actual exercício do poder nas democracias ocidentais. Será preciso observar o papel que nelas continua a ter a ciência vulgarizada e transformada em ideologia. Uma atenção muito importante merece o papel desempenhado pela ideologização das ciências sociais e humanas. O que implicará também, para além da reflexão política propriamente dita, uma investigação dos fundamentos destas ciências, para compreender como elas permitem com tanta facilidade a transformação do seu discurso no discurso de uma seita em luta pela manutenção ou conquista do poder.
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Manuela Ferreira Leite - dois equívocos
O entusiasmo é mau conselheiro e Manuela Ferreira Leite anda entusiasmada, assim como as hostes laranja que já sonham com o retorno ao poder. O entusiasmo cega e tapa a realidade. Para que país está a falar Manuela Ferreira Leite quando propõe o Estado mínimo? É verdade que existem para aí umas duas dúzias de liberais, provavelmente dependentes do Estado, que acharão graça à ideia. Mas num país com um tecido social tão frágil, falar de Estado mínimo não me parece lá muito boa ideia. Em segundo lugar, gostaria de saber quem são os spin doctors que a aconselham. Num país como o nosso, vir falar em rasgar as políticas anteriores, por mais que isso seja verdade - e não é - é um acto suicida. Os portugueses gostam de políticos cordatos, embora com autoridade, e de brandos costumes. Quem promete a revolução acaba na oposição.
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28-06-2009
Metamorfoses XLVII
Arnold Schoenberg – Verklaerte Nacht
esqueci nesta noite as palavras de amor
sobram-me vocábulos dispersos
metáforas ditas ao acaso
um céu de mogno sem estrelas
por vezes vejo cruzes desenhadas nas folhas
as árvores ressequidas pelo sol de verão
agora batidas pela estridente nortada
e do mar vêm salpicos de espuma
as ondas quebradas contra a areia
o grito das gaivotas a troar pelas ruas
a inóspita mão acaricia o ar
lança a garra contra o cortina da noite
e desenha palavras enquanto folheia um a um
os livros secos que se desprendem
das árvores sufocadas pelo mar
não encontro na pálida secura das folhas
a palavra aquela que tinha para dizer
se as trevas do dia não tivessem levado
para a pátria do esquecimento
as promessas de amor – todas as que fizera
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Pobretes mas alegretes
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Marcadores: Sociedade
Democracias
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Marcadores: Política
Mau tempo
Acordei já tarde. À espera tinha, porém, uma manhã tempestuosa. Relâmpagos, trovões e chuva, chuva que parece não acabar mais. Ao contrário de Noé, não fui avisado por ninguém. Querem prova maior de que não somos todos iguais? Talvez também não seja precisa a arca.
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27-06-2009
Metamorfoses XLVI
Giacinto Scelsi – Hymnos
tinha as vazias mãos suspensas
e cantava voz dorida e rouca um salmo
a fé perdera-se às primeiras metáforas
e durante muito tempo baixara a cabeça
a vergonha uma flor imperiosa
desenhara na fronte uma cruz de saliva
e sob o seu peso a cabeça pendia
cobrindo o leve estertor do peito
que destino poderia dar às frases
que da garganta irrompiam
traçavam nos lábios um relâmpago
e estrondeavam pelas ruas desertas
encolhia os ombros sem desejo de saber
e à memória chegavam tormentos passados
o granizo contra a janela
a noite desfeita pelo uivo da madrugada
então cantava no desconsolo do rio
ou no incêndio que consome a vida
desfaz em cinza a candeia da carne
e purifica cada palavra que da boca cai
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Prémio Lemniscata
Pronto! Foi-me atribuído um prémio, ou uma nomeação, ou sei lá o quê. O Prémio Lemniscata, seja lá isso o que for. Estava uma pessoa muito descansada e zás. Vai ao Ponteiro Parados, como é hábito, e encontra lá isto, por excesso de amabilidade da Ivone. Nestas coisas há sempre o outro lado. No caso do averomundo, o outro lado é a tentação quase diária, de há uns meses para cá, para pôr cobro à experiência. Mas lá vou andando, post aqui, post ali. Mas o outro lado tem sempre um direito e um avesso. O avesso deste outro lado é ter de atribuir, para que a corrente continue, umas nomeações. Julgo que são seis, o que para mim são demais, a fazer fé no que tenho visto por outros lados.
Por mim, fazia apenas duas nomeações. São aquilo que eu chamo os blogues PP.
Ponteiros Parados - isto não se trata da economia do dom, logo não é retribuição de dádiva anterior. Gosto das reflexões do Zé - menos as que se referem à questão religiosa, mas isso deve-se ao "defeito genético" de que ele sofre e que lhe enviesa o raciocínio sobre o fenómeno - e das suas excelentes fotografias. Gosto e muito do tom pesporrente de muitos dos postais da Ivone. Tenho inveja de não ser eu a escrever aquelas coisas.
Portugal dos Pequeninos - João Gonçalves tem a melhor escrita sobre política na blogosfera e apenas comparável à de Vasco Pulido Valente, na imprensa. Tem uma retórica excelente e, apesar de não partilhar com ele a sua admiração pelo dr. Salazar nem o desvelo pelo PSD, sinto que tem uma noção de comunidade e de bem público que me é próxima.
Blasfémias - raramente concordo com o que se escreve lá, mas gosto do espírito da coisa, e, por vezes, não muitas, até faço lá uns comentários ou "pego-me" com João Miranda.
Combustões - outro blogue muito bem escrito, politicamente conservador, mas que evidencia também um espírito de comunidade que é próximo do meu. E aprendo muito por lá, fundamentalmente sobre o Oriente.
Bicho Carpinteiro - os pequenos e sibilinos comentários de Medeiros Ferreira são pérolas do comentário político que não perco. Sem o espalhafato do Prof. Marcelo, Medeiros Ferreira é um maquiavélico praticante. De alto coturno. Já acho dispensável os postais de Joana Amaral Dias, uma pesporrência que não admiro. Nem todas as pesporrências são iguais.
De Rerum Natura - indispensável blogue sobre ciência. Genericamente gosto do que lá se escreve, incluindo os postais da pedagoga de serviço, Helena Damião. O destaque, porém, vai para Carlos Fiolhais. Dispensável era o filósofo de serviço. Com tantas coisas interessantes que a filosofia tem para dizer, mesmo sobre a ciência, e logo haveria de calhar um analítico.
Eis a minha selecção. Deve haver coisas melhores, mas não tenho tempo. Há outras para as quais tenho tempo, mas seis são seis e não mais de seis.
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Um outro cristianismo
O GRANDE SILÊNCIO (Die Große Stille) de Philip Grönning (2005)
Há, contudo, no marxismo um falso misticismo e uma falsa religiosidade suficientes para seduzir aqueles que sentem fome de algum substituto da religião espiritual. Não há dúvida que a exigência de “fé” e de auto-sacrifício feita pelo marxismo é uma realidade humana muito mais sólida do que a irresponsável pseudo-cristandade que ainda floresce em certas sociedades devotadas inteiramente aos valores seculares. Mas há algum perigo espiritual no marxismo e na pseudo-contemplação que a sua visão do mundo implica. Este perigo resido no apelo cripto-religioso que ele oferece àqueles que não têm estômago para as formas vazias da religião popular, na qual o conceito “deus” morreu de exaustão. [Thomas Merton, The Inner Experience]
--------------------
Este texto de Merton é interessante não apenas por mostrar a estrutura cripto-religiosa do marxismo militante, mas pela crítica que faz às formas vazias de um cristianismo ora perdido nos valores seculares, ora preso na religiosidade popular. Mas abre também a porta para se pensar como uma outra forma de entendimento do religioso pode ter sentido nas sociedades modernas. A religião deverá ser menos código moral e mais experiência espiritual. Se o cristianismo ainda puder falar aos sectores mais diferenciados do Ocidente, será pela vertente da experiência espiritual e não da codificação dos comportamentos. Será um cristianismo mais próximo do originário e menos um cristianismo medieval ou da Contra-Reforma. Mas este será sempre um cristianismo dirigido a uma elite espiritual. Como poderá o Cristianismo falar para a massa que perdeu, em primeiro lugar, para o marxismo e, depois, para o consumo e a ideologia niilista que impregna os mass media?
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A estratégia de Cavaco
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Marcadores: Política
O caminho do PSD
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A queda
Se há duas personagens que marcam o estilo e a natureza do actual governo, elas são o primeiro-ministro, José Sócrates, e a ministra da Educação, Lurdes Rodrigues. Têm muitas coisas em comum, desde um certo provincianismo, embora tratado de formas diferentes, até à arrogância, passando pele inflexibilidade, fundamentalmente quando pensam que estão perante os mais fracos.
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Marcadores: Política
Isabel Hormigo - Exames ou trivialidades?
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26-06-2009
Metamorfoses XLV
Bruno Maderna – Biogramma
florescem agora os jacarandás
vieram depois dos castanheiros
e pintam no céu uma ilusão de vida
a promessa de um arco-íris que não virá
com essas mentiras construímos a vida
erguemo-las como hóstias consagradas
carne de um deus cansado
por cansaço se entregou
de que te vale falar de esperança
e colher as pétalas que a tímida flor
pelo chão deixa cair
avança põe um pé no caminho
não perguntes a que destino leva
nem queiras na terra deixar vestígio
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O espectáculo da Justiça
Se há uma coisa que me impressiona no caso Freeport, e há bem mais que uma, é o espectáculo da Justiça. Este caso já devia ter sido investigado e resolvido há muito. Não o foi. Agora assistimos a um processo de constituição de arguidos como se assistíssemos a uma telenovela. No episódio de hoje, descobrimos o sexto arguido, José Inocêncio, antigo presidente socialista da Câmara de Alcochete. É evidente que este tipo de administração do suspense, este enrolar da intriga, tem consequências políticas e vai desgastando o Partido Socialista. Não é que o PS, pela forma como tem embrulhado a Justiça, não o mereça. Merece. Mas a decência das instituições passava bem sem o triste espectáculo do Freeport. E aqui não me estou a referir apenas ao processo do licenciamento. Estou a falar do andamento do processo judicial. O que nos reservará o próximo episódio?
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O novo Provedor de Justiça
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Jornal Torrejano, 26 de Junho de 2009
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25-06-2009
Metamorfoses XLIV
Emmanuel Nunes – Tissures
a fragrância tecida nas folhas dos limoeiros
abre-se na tarde sobre ruas sonâmbulas
de onde partiram os últimos moradores
as casas são agora vísceras ao sol
entranhas que a vida recusou
vidros partidos cal carcomida
trave que cede ou telhados em ruína
a tudo isto juntas pelo cuidado da mão
e num bordado de linha clara
ergues paisagens de glória ausente
o fogo apagado as cinzas tão frias
e os animais a passear no desterro
de onde ninguém os recolherá
voltas para recompor as imagens
teces com barro a canção do destino
mas tudo cede à gravidade
e entrega-se ao precário silêncio da areia
ainda oiço o gorgolejar da vida ao naufragar
no pântano viscoso e espesso do tempo
avanço uma mão mas logo a retiro
o medo tomou-me conta das faces
e pulsa em cada célula do coração
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O mais antigo instrumento musical conhecido
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Como se produz o niilismo em educação?
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Educação: Portugal na vanguarda
«"Os professores que enfrentam uma sala de aulas cheia de miúdos com computadores precisam de aprender que já não são os especialistas no seu domínio: a Internet é que é", escreve Tapscott. Aludindo à sua experiência numa sala de aulas numa estadia em Portugal, Tapscott conta como os alunos recorreram à Internet para resolver uma questão colocada pelo professor: para saber o que era um equinócio, grupos de alunos pesquisaram a informação e quem a descobriu primeiro explicou-a aos colegas".»
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Jorge Miranda retira candidatura
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Marcadores: Política
24-06-2009
Metamorfoses XLIII
Philip Glass – Metamorphosis
no limiar da sombra há um animal
touro feroz sobre a planície cresce
quando se cavalga pela terra manchega
e o sol oferece a calma da exaustão
um milhafre cruza os céus de fogo
e um frémito varre toda a terra nua
não há cavalo nem cavaleiro que a dobre
apenas a sombra do touro a apazigua
as poucas árvores por deus ali abandonadas
são símbolos de água a voz do paraíso
dia após dia o transportamos aos ombros
como se fosse não prémio mas castigo
e na indiferença desta tarde infernal
onde tudo suspendeu o movimento
descubro no lugar do bem o sopro do mal
e na mudança o princípio do esquecimento
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A Antígona de Teerão
É este o rosto da jovem mulher iraniana que se vê morrer durante uma manifestação em Teerão (ver o vídeo do Telegraph). Olhamo-la e vemos nele uma nova personificação de Antígona. Sempre que encontramos uma Antígona, sabemos que estamos perante a tirania. O destino de todas as antígonas é dar o seu sangue pela liberdade e é essa dádiva que torna a sua beleza misteriosa e inconfundível. São mães que nunca tiveram filhos, mas trazem nas entranhas essa coisa extrordinária que é o desejo de ser livre.
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A data das eleições
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Marcadores: Política
23-06-2009
Metamorfoses XLII
Gavin Bryars – Farewell to Philosophy
no farol cor de malva crescem flores silvestres
à minuciosa luz do entardecer
os barcos tecem redes pequenas armadilhas
onde aprisionam as águas até que o porto
os devore na sombra que desagua na noite
um sino repica ao longe e escutam-se passos
na pressa que levam partilham o medo da solidão
e se sulcam as ruas onde se ouve o marulhar das águas
é para as infestar de geada e restos de sal
a película de seda escura que cobre o horizonte
rasga-se se o farol rodopia e por um instante a ilumina
traçando um cone de luz promessa de um dia nítido
sem a gangrena que a tudo escurece
não falemos em extinção nem na ânsia
que toma os membros os inclina e joga pelo chão
deixemos apenas as flores crescer no farol de malva
para gritarem quando chegar o calor do estio
deixemos apenas a luz sucumbir no terror da mão
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Do equívoco do privilégio
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A saga continua...
Hoje foi dia de exame de Matemática B (ensino secundário). A saga continua. Ler aqui a opinião da SPM.
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Os balanços da senhora ministra
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22-06-2009
Metamorfoses XLI
Olivier Messiaen - Quator pour la fin du temps
a cidade desfalece ao crepúsculocasas caídas ruínas vindas da terra jubilosa
a visão solar do casario ao longe
as árvores ressequidas pelo calor de junho
e o insuportável cristal a tudo deixa ver
um cheiro a urina seca vem das esquinas
aqui e ali miam gatos vadios pardos cansados
à luz dos candeeiros chega a liturgia da noite
ilumina as velhas paredes do castelo
onde cessaram de repente todos os combates
sigo com atenção o lento trabalho do bolor
um exército de cavaleiros azuis invade a laranja
delimita o território conquistado
traça universos de morte na madeira das casas
anuncia na língua dos profetas o porvir
entro num café ainda aberto as mesas vazias
no balcão estão copos sujos cascas de tremoços
– um súbito clarão atravessa a rua e logo um carro o segue –
a televisão grita no silêncio furioso da sala
e numa cadeira de fórmica o dono dormita babando-se
é tarde as cores esbatem-se num cinza matizado
das paredes das casas vêm ondas de calor
aqui e ali ouvem-se vozes e uma bicicleta passa
corta o ar quente e perde-se na curva ao entrar
nos meus olhos abertos para a cegueira que os contamina
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De queda em queda...
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O exame de Matemática do 9.º ano
Continua a saga dos exames nacionais. Hoje foi a vez do exame de Matemática do 9.º ano. A tragédia do ensino em Portugal está contida na profunda divergência que as duas associações profissionais fazem da prova.
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O nascimento da UDP em Torres Novas
Primeiro símbolo da UDPO núcleo UDP de Torres Novas nasce ligado a uma estrutura muito curiosa. No Entroncamento havia um grupo maoísta com certo peso (ainda se reflecte hoje na votação do BE) que não pertencia a nenhum dos grupos referidos anteriormente e estava organizado em torno do jornal Ribatejo na Luta. Desse grupo, havia gente com ligações ao IST, entre eles o José Manuel Alcobia, falecido há muito. Esse grupo participa na fundação da UDP, mas de forma autónoma, sem filiação em nenhum grupo "ml". Foi no contacto com essas pessoas, nomeadamente com um estudante do Técnico, e hoje professor na Universidade de Coimbra (aliás um tipo absolutamente notável, que tinha um Citroën 2 cavalos, que metia água por tudo o que era sítio, e possuía uma belíssima colecção de música clássica, com a qual me iniciei verdadeiramente nessa música), que estava destacado na região para fazer trabalho político (era assim que se falava na altura), que nasceu a UDP de Torres Novas. Ainda me lembro de quem foram os fundadores (quase tudo gente pouco mais do que imberbe), mas não vou referir nomes. Um deles era eu (também pouco mais do que imberbe). Refiro apenas que havia um professor da escola secundária (hoje, ES Maria Lamas) que também tinha sido formado pelo Técnico. Era na casa desse professor que decorriam as reuniões do partido. Depois, a UDP alugou uma sede em frente à antiga Tipografia Conde Marques. Não me recordo agora o nome da rua e o prédio já não existe. Às vezes, penso que alugaram a casa para sede da UDP com medo das ocupações, muito em moda na época. O preço da renda era 300 escudos, que foram pagos escrupulosamente, pelo menos até à altura em que saí. Mas as pessoas eram cordatas e honestas e o ímpeto revolucionário era mais fruto da época do que condição natural das pessoas, digo eu. Muitas dessas pessoas não têm, hoje em dia, nada a ver com essas opções do passado. Julgo que, como eu, abandonaram, com uma ou outra excepção, a política activa. Ideologicamente não sei onde se situam. Como é público e notório, eu não me situo, nem de perto nem de longe, nas proximidades daquilo que eram as minhas opções há mais de 30 anos. Nem sequer consigo dizer se há alguma linha de continuidade entre o Bloco de Esquerda local e o antigo núcleo da UDP.
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Sobre os militantes católicos
A minha memória não é efectivamente essa. É verdade que muitos militantes católicos se dividiram pelo PPD e pelo PS. Relativamente à UDP, não tenho essa impressão.
Para além do PSD e do PS, há uma franja enorme, entre jovens universitários e quadros operários católicos, que está na origem do MES (Movimento da Esquerda Socialista). Alguns desses militantes são pessoas notáveis e tiveram, e ainda têm, um papel político importante. Penso que também havia gente católica na FSP (Frente Socialista Popular) do Manuel Serra, uma cisão do PS, e na LUAR. É provável que também estivessem noutras organizações da extrema-esquerda, de que já não recordo o nome. Uma fatia deles terá ido para o PCP ou para o MDP-CDE, na altura.
Que memórias tenho eu sobre isso relativamente a Torres Novas? Eu não conhecia as organizações católicas (JOC e LOC) por dentro, mas conhecia as pessoas (naquele tempo, toda a gente conhecia toda a gente em TN). Os militantes católicos locais devem ter-se distribuído pelo PPD, pelo PS, claramente, pelo PCP (aliás, já antes do 25 de Abril havia uma cooperação local entre os jovens comunistas e os sectores católicos, isso eu conheço bem). Não tenho memória de ninguém dessa área católica na UDP, mas tenho no PRP (Partido Revolucionário do Proletariado). Julgo que o PRP, dirigido por Isabel do Carmo, tinha gente de extracção católica, mesmo a nível nacional. A nível local tinha de certeza.
Portanto, tanto quanto o meu conhecimento alcança, não havia ligação entre os militantes católicos e a UDP, mas não sei como era a nível nacional (nunca passei de um militante local), embora exista a referência do Padre Max, assassinado no norte, e do padre Martins Júnior, na Madeira. Mas julgo que essa presença de militantes católicos era excepcional, pois a UDP tinha uma forte e muito dogmática estrutura ideológica fundada nos princípios marxistas e no ateísmo. Veja-se o seu primeiro símbolo (no próximo post).
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21-06-2009
Metamorfoses XL
Pierre Boulez: ...explosant-fixe...
avança avança sempre e sempre
um cheiro sortido o pus em combustão
o abecedário de letras moribundas
a pele rasgada o mato rasteiro queimado
e a sombra vinda do céu avança sempre
exército astucioso sem pálpebras
orelhas hirtas e vestes esfarrapadas
nada o detém na quietude da planície
nada o detém à porta das cidades
ouve-se o troar dos combates
os vidros partidos as janelas a sangrar
a roupa pendurada nas varandas
é agora uma visão a profecia deste sonho
de cães a uivar e anjos degolados
a árvore desfeita em cinza
o rosto de todas as mães apagado
da memória dos filhos imundos
o exército marcha sob a luz do tambor
avança sempre sem homens triunfal
canta uma canção de embalar
canta sem voz sem face sem dor canta
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Marcadores: Poesia, Poesia - em mim
Da democracia cristã em Portugal
Leão XIIIA questão da democracia cristã em Portugal. Em Coimbra, foi criado em 1901 o CADC (Centro Académico de Democracia Cristã), inspirado na encíclica Rerum Novarum, publicada em 1891 pelo Papa Leão XIII. Fizeram parte do Centro, salvo erro, o Prof. Oliveira Salazar e o futuro Cardeal-Patriarca de Lisboa, Gonçalves Cerejeira. Com a ditadura, estes sectores cristãos são absorvidos pelo regime, juntamente com monárquicos anti-liberais e republicanos de direita. É a isto que Oliveira Salazar vai chamar União Nacional.
Continuaremos esta deambulação, com outras memórias, a partir do diálogo com o Zé Manel.
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20-06-2009
Metamorfoses XXXIX
Henri Dutilleux – Ainsi la Nuit
alguém desenhou a lua nova
contra um céu de trevas
e deixou dentro da noite uma janela
de onde se olha a escuridão
foram levados os rebanhos
e na cidade roubaram o que havia
a garrafa partida
um candeeiro de cristal
o santo que perdera a devoção
apagaram as palavras
e o silêncio fulgurou como uma ave
na transparência do céu
não era uma ilha a mudez da noite
nem a plataforma continental
que em desvario se desloca
arremessando cidades pelo chão
apenas uma lua nova
a escurecer em fundo de trevas
quando nada há para dizer
as palavras em pó
a esclerose sobre os dedos
a abrir cáries nas ruas
feridas pelos jardins
e um grito ermo no lugar da solidão
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Marcadores: Poesia, Poesia - em mim
A tradição social-democrata
Mas esta origem burguesa-liberal e republicana do PS explica ainda uma outra coisa. Explica a actual evolução dos socialistas portugueses. Por um lado, adoptam políticas tipicamente de direita, mas devido à costela republicana original sentem uma necessidade constante de "revolucionar" a sociedade, tornando a vida infernal em todos os sectores a que decidem levar o seu iluminismo jacobino. De facto, é esta a raiz do PS, uma raiz republicana, burguesa, iluminista e jacobina. É isto que, ao combinar-se com certas castas universitárias, o torna insuportável e um factor de desagregação social.
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Marcadores: Política
Autoeuropa e um conflito político surdo
Havia qualquer coisa que não estava clara na minha cabeça. Ao ouvir que os trabalhadores da Autoeuropa tinham recusado o acordo negociado entre a Comissão de Trabalhadores, liderada pelo bloquista António Chora, e a Administração da empresa, a ideia que me passou logo foi a da influência do PCP nesta decisão. Mas no que li, que foi pouco, e na lógica das coisas, isso não era claro. Um decisão de ruptura deste género é mais a marca dos antigos partidos (UDP e PSR) que compõem o núcleo central Bloco de Esquerda do que do PCP, sempre mais responsável, negociador, menos dado a aventuras. A última página do Expresso de hoje mostra-me, porém, que a minha intuição estava certa. O peso dos sindicalistas da CGTP foi decisivo no chumbo do acordo
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As palavras alemãs
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Marcadores: Literatura
19-06-2009
Do "à socapa" à prestidigitação (2)
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Do "à socapa" à prestidigitação
O Público de hoje traz duas referências à natureza da política educativa dirigida por Maria de Lurdes Rodrigues. Comecemos pela última página e pela secção "Sobe e desce". A Maria de Lurdes Rodrigues foi atribuída uma seta para baixo, e o texto diz tudo: "Não é transparente nem honesto que o Ministério da Educação altere à socapa, no seu site, o enunciado de um exame que entregou com um erro aos alunos." É preciso, porém, lembrar de que este "à socapa" está na génese da política educativa deste governo. Se se ler hoje o programa que o PS apresentou em 2005 a sufrágio (pp. 44 e seguintes), percebe-se que muito do que aconteceu nas escolas está lá, mas "à socapa". Está apresentado de uma forma geral sem que seja possível deduzir quais as acções concretas que serão tomadas. Com o mesmo programa poder-se-ia fazer coisas diametralmente opostas. Esta má-fé política constitui o fundamento da acção governativa a nível da educação. O truque com a prova de Biologia é apenas um pequeníssimo exemplo de uma atitude geral do partido do governo na área educativa.
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Jornal Torrejano, 19 de Junho de 2009
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Marcadores: Jornal Torrejano
Reflexões sobre a liberdade
Enquanto quiserdes viver plenamente autónomos, como senhores absolutos, sem mesmo um deus para vos dar ordens, vivereis fatalmente como escravos ou como membro isolado de uma organização qualquer. Paradoxalmente, é ao aceitar Deus que vos tornareis livres e libertos da tirania humana, pois quando O servirdes, o vosso espírito não mais se transvia na servidão. Deus não convidou os filhos de Israel a abandonar a servidão no Egipto; Ele ordenou-lhes que o fizessem. (Thomas Merton, Semences de Contemplation)
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Este texto de Merton tem o poder de mostrar duas coisas essenciais da nossa cultura ocidental. Em primeiro lugar, a filiação da liberdade na tradição religiosa judaico-cristã. E a liberdade não deve ser aqui entendida na visão dualista da liberdade negativa - liberdade positiva, herdada da reflexão de Isaiah Berlin e, de certa forma, da tradição liberal (cf artigo da Stanford Encyclopedia of Philosophy, onde é feita uma exposição aturada dos dois conceitos e a sua discussão), mas a liberdade como acto de libertação e de emancipação. O que surpreendemos no texto é o devir histórico do ser livre, mas um devir histórico que é, curiosamente e ao mesmo tempo, pré-político e político. É pré-político no sentido que tem um cunho religioso e a liberdade vem da relação com o absoluto que emancipa e liberta da servidão perante as coisas relativas. É político pois a imagem da libertação do povo de Israel do cativeiro está ligada à separação de uma comunidade política, a do Egipro, e à formação de outra comunidade política, neste caso de uma Teocracia.
Merton mostra ainda uma outra coisa, um estranho paradoxo: a liberdade nasce de uma injunção exterior. Não nasce da deliberação e do livre-arbítrio do indivíduo, mas da ordem que Deus dá ao povo de Israel: deixai de ser escravos! Esta injunção à liberdade, exterior à consciência, evidencia a complexidade da temática da liberdade consubstanciada na dialéctica da autonomia e da obediência. Ordenam-me que seja livre. Só chegarei à liberdade se obedecer à injunção divina. Este paradoxo fascinou os filósofos e está presente, por exemplo, na moral kantiana onde, em última instância, a única coisa que está em jogo é o tornar-me livre, o realizar a liberdade, facto que me é ordenado através de um imperativo formal e categórico. Ou então na filosofia moral de Sartre onde a liberdade é ressentida como uma condenação, estou condenado a ser livre.
Esta dialéctica da obediência e da autonomia que institui a liberdade só podia ser sentida pela consciência humana como algo divino. O mundo natural, o curso natural das coisas, está submetido à férrea necessidade (a cadeia causal dos acontecimentos que são regulados pelas leis naturais) ou o acaso. Em ambos, na necessidade e no acaso, não há liberdade. Esta é radicalmente estranha à ordem natural das coisas, mesmo das coisas humanas. É essa estranheza que o Antigo Testamento, no livro do Êxodo, capta em linguagem religiosa, como se a desmesura da liberdade só pudesse chegar aos homens por uma ordem de Deus.
Toda esta dimensão da reflexão sobre a liberdade é, lógica e ontologicamente, anterior à problemática da liberdade negativa e da liberdade positiva, sendo a primeira entendida como ausência de coacção, barreiras e obstáculos, e a segunda, a liberdade positiva, entendida como possibilidade de agir autonomamente e realizar os seus objectivos fundamentais. Tanto num caso como no outro, há que considerar um devir da liberdade, um tornar-se livre, mas um tornar-se livre obedecendo a uma injunção. Fica a questão seguinte: os perigos, apontados pela tradição liberal à liberdade positiva, não estarão ligados a este paradoxo originário da liberdade, à perversão da injunção originária, à transição da ordem de Deus para uma ordem colectiva, onde o colectivo é visto como totalidade orgânica onde se dissolvem, na obediência puramente humana, as liberdades individuais?
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18-06-2009
Metamorfoses XXXVIII
Krzysztof Penderecki – Sextet
dançam ao som da tempestade
e bebem até o corpo se dissolver
levado pelos últimos raios de sol
não pagam a taça erguida à memória
que dos céus revoltosos se desprende
e gritam se lhes arde o corpo iluminado
por algum relâmpago vindo do outro lado
não sabem o preço da servidão
nem do destino a cor que se pega à alma
apenas do corpo escorre um sangue esverdeado
inunda o chão vai por baixo das portas
na rua é um lago onde adormecem os barcos
dançam incrédulos sob a luz da ignorância
e lá fora os deuses trovejam cólera
um imposto de sangue está em dívida
e à luz intermitente que vem dos céus
avançam altivos pés ligeiros faces iradas
incendeiam os campos de trigo
lançam sobre as vinhas o granizo
semeiam epidemias nos rebanhos adormecidos
e dançam os homens no crepúsculo infestado
dançam como se dormissem ao beber
os pés no chão o corpo fremente as mãos pelo ar
dançam ao som dos carros de combate
dançam na luz sobrenatural que cai
dançam na noite que chega vinda do mar
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Marcadores: Poesia, Poesia - em mim
Da arte de cumprimentar
Depois de o Zé Ricardo ter escrito isto e isto, espero não lhe retirar matéria para nova incursão na sociologia das relações interpessoais, digamos assim. Um tormentoso problema atravessa certas áreas da sociedade portuguesa. Como cumprimentar, com um ou dois beijos? Consta que a tradição dos dois beijos é de influência francófona, que se teria disseminado nas aristocracias ibéricas. O problema dos dois beijos reside na sua popularização e, hoje em dia, não há cão nem gato que não use dois beijos para saudar alguém do sexo oposto. As famílias aristocráticas, refugiadas em Inglaterra durante as guerras liberais, trouxeram para cá a forma de cumprimentar seca e rápida dos círculos aristocráticos ingleses onde se moviam, um beijo. É este cumprimento que agora começa, também ele, a democratizar-se. Contrariamente ao que pensa uma certa casta social que julga diferenciar-se do poviléu pelo facto de se saudar apenas com um beijo em vez da popularizada e democrática saudação com dois, a sua forma de cumprimento está irremediavelmente contaminada pela mimésis popular. Há muito que o beijo único na face deixou de fazer parte de círculos restritos e caiu nas mãos, quero dizer nas faces, dos que gostam de macaquear as famílias bem. Daqui até ao uso generalizado é um passo.
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Marcadores: Ocasionália, Sociedade
17-06-2009
Metamorfoses XXXVII
Sofia Gubaidulina - In Tempus Praesens
o sossego das tardes de verão
a tinta a escorrer pela parede
e as mãos sujas de chumbo
oiço trovejar ao longe
os vidros abanam
anunciam a tempestade
alguém se esconde num telheiro
a tudo isso chamo mundo
e ele desaba no meu olhar
com o silvo de uma palavra
que se despedaça
rasga-se em sílabas
mostra o esqueleto
os ossos polidos
a carne devorada pelas moscas
da água escura vem um presságio
o jardim das camélias incendiado
o barco que se afunda
na volúpia do rio
a ruína da casa onde te ouvia
o sossego das tardes de verão
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Marcadores: Poesia, Poesia - em mim
Juízes e futebol
A propósito disto, também fiquei ontem perplexo. Aquela cara não me era desconhecida, mas eu nem queria acreditar. A princípio cheguei a pensar que era o Emídio Rangel, o homem do jornalismo. Mas não, era mesmo o juiz Rui Rangel. Não é de agora que os juízes se imiscuem no futebol. Mas depois de toda a sociedade ter compreendido que o mundo do futebol está longe de ser uma coisa recomendável, nem que seja pelo carácter absoluto das paixões clubísticas, não seria de bom senso que juízes ou magistrados não interferissem nas coisas da bola, e que moderassem absolutamente as suas paixões clubísticas? Como pode o cidadão comum acreditar na justiça que se faz nos casos do futebol? Não pode. Aos olhos da opinião pública, o que sepassa nos estádios é transferido directamente para as salas de audiência.
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O amor pelas urnas
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Marcadores: Política
O falhanço de Quique Flores
É notável a explicação dada por Luís Filipe Vieira para o falhanço de Quique Flores no Benfica. Quique falhou porque não era português. Se Vieira olhasse para a história do clube teria de dizer outra coisa. Quique falhou apesar de não ser português. A última vez que o Benfica foi campeão era treinado por um italiano e são muito poucos os campeonatos ganhos com treinadores portugueses. Até aos anos 80, mais coisa menos coisa, o Benfica tinha uma dupla característica: jogadores só portugueses, treinadores só estrangeiros. Foi esta associação que o tornou quase imbatível durante anos e anos. Também é verdade que os tempos eram outros, e os presidentes do Benfica também. Só espero que Vieira tenha razão numa coisa, que Jorge Jesus não vai falhar. Se isso acontecer não haverá nacionalidade ou disfunção do treinador que justifique Vieira.
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Marcadores: Futebol

















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