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08/09/11

Thomas Mann, Os Buddenbrook (3)


No apogeu do sucesso empresarial, político e pessoal, Thomas Buddenbrook sente um deslaçamento interior, como se os acontecimentos, que até aí dominara, começassem a fugir ao seu controlo. Não era nada de visível, apenas uma sensação interior. Os gregos diriam que a Tyche (a deusa Fortuna, para os romanos) o abandonara. No entanto, pelo menos no período helenístico, a deusa tomou uma coloração de pura arbitrariedade, como se ela concedesse os seus favores e desfavores ao acaso. Thomas Buddenbrook, porém, associa essa perda da mão sobre o mundo, essa incapacidade de submeter a realidade aos seus projectos, não ao abandono da deusa, mas a um excesso seu. A sua nova casa, a troca da rica casa, onde se instalara ao casar, por outra, maior e mais esplendorosa. Este excesso, esta ultrapassagem da justa medida, é aquilo a que os gregos do período clássico chamavam hybris. Embora, Thomas Mann não fale, no romance, em Tyche e hybris, é isso que está em jogo. Thomas Buddenbrook sente o deslaçamento interior como uma punição do seu excesso. Aqui, de forma talvez surpreendente, percebe-se a conexão entre o mundo burguês do século XIX e os gregos da antiguidade clássica. A ordem dos negócios, para os burgueses modernos, ou a ordem pessoal e cívica, para os antigos gregos, estão ligadas à sophrosyne, à prudência fundada no auto-conhecimento, o qual nos diz quais os limites que não devemos ultrapassar.

Havia, na época clássica dos gregos, a esperança de que uma conduta sensata evitasse os desvarios da fortuna. Na tragédia, por exemplo, a vinda da má fortuna está sempre ligada a um excesso, embora este não esteja na mão do herói evitar. De certa maneira, Thomas Buddenbrook também não pode evitar a nova casa, que a situação social lhe impõe. Deste ponto de vista, Os Buddenbrook, escondem sob o modelo romanesco, uma intencionalidade trágica. Mas aquilo que talvez seja mais interessante pensar resida nos nossos dias. Se na época a que corresponde o romance, segundo e terceiro quartéis do século XIX, ainda é possível fazer uma conexão entre a perda da fortuna com a hybris, hoje em dia, onde tudo foi reduzido a puro jogo (o jogo dos mercados, por exemplo), a fortuna, a deusa Tyche, está desligada do comportamento, seja ele sensato ou excessivo. É o tempo dos aventureiros. Como no período helenístico, a Tyche tornou-se arbitrária e cega. Ora, o período helenística marca o começo do fim do esplendor dos gregos, o início da sua derrocada. Que o início da nossa comece na Grécia, só espantará quem ache que a história começou com a eleição da senhora Merkel.

05/09/11

Thomas Mann, Os Buddenbrook (2)


O romance permite, muitas vezes, associar o prazer estético da obra com uma certa aprendizagem sobre a dimensão social da vida humana. Não que o romance vise apreender e explicar o social, mas, ao tomá-lo como matéria romanesca, permite que o leitor compreenda certas realidades de uma forma mais viva que aquela que lhe é dada pelo estudo de um documento académico. Os Buddenbrook permite intuir a natureza da tradição burguesa da Europa central e do norte, de cariz protestante. O ethos burguês, uma coisa tão estranha à tradição peninsular, está ali desocultado na sua plenitude. O cálculo entre prudência e risco, a importância da empresa no seio da cidade, a piedade protestante são a matéria sobre a qual se constrói a intriga nuclear da acção romanesca. Para um europeu do Sul, tudo aquilo não deixa de ter um ar estranho e, fundamentalmente, ajuda-o a perceber a profunda reticência com que a Alemanha da senhora Merkel olha para nós. Mas, o mais curioso, aquilo que hoje se ouve acerca dos europeus meridionais, era a voz corrente nos alemães do norte acerca dos bávaros, seus irmãos do sul da Alemanha, como Thomas Mann não deixa de retratar em Os Buddenbrook. É como se houvesse, impregnado na mente da espécie humana, uma espécie de racismo geográfico, onde o Sul surge sempre como inferior ao Norte.

03/09/11

Thomas Mann, Os Buddenbrook



Estou a reler a primeira obra de Thomas Mann. Tinha-a lido há quase trinta anos (meu Deus, trinta anos...), na tradução de Herbert Caro, para os Livros do Brasil. Agora comprei a nova tradução, de Gilda Lopes Encarnação, para a Dom Quixote. Comecei a ler e já ultrapassei metade da obra. Duas notas. Não me lembrava praticamente de nada, tirando o pano de fundo da intriga, a ambiência de uma família burguesa, numa cidade alemã do século XIX. Foi como se a memória, ao fim deste tempo, tivesse reduzido a riqueza das peripécias e personagens a uma mera abstracção que, para sua comodidade, pode arquivar num pequeníssimo espaço. O deprimente é que isso não se passa apenas com a literatura. Todas as nossas experiências, exaltantes que tenham sido, jazem agora como meras abstracções num canto obscuro do cérebro. Mas essa é a natureza das coisas, nem vale a pena protestar.
Mas esta releitura tem-me feito pensar sobre o que é a grande literatura. Tinha tentado reler alguns romances de Hermann Hesse, de que gostara bastante. Foi um experiência decepcionante. Deixei-os todos de lado, ao fim de algumas páginas. O mesmo me aconteceu com um dos romances do Sartre que mais me marcou, A Idade da Razão. Quase no começo, constatei que já não tinha paciência. O tempo desses livros tinha passado definitivamente. Com Os Buddenbrook, pelo contrário, ainda existe avidez na leitura, embora seja uma avidez mais sensata e ponderada, mais observadora da técnica e da arte. O que são grandes livros? Aqueles que podemos reler.

19/02/10

Livros no domínio público (Brasil)


O Ministério da Educação da República Federal do Brasil disponibiliza um site, denominado Domínio Público, onde o viajante internético poderá descarregar um enorme conjunto de obras, de quase todas as áreas, caídas, as obras, no dito domínio público. Há muitas coisas em português, bem como noutras línguas usáveis, digamos assim. Há mesmo muitas coisas portuguesas, mais que em Portugal. Cheguei a isto através de um daqueles e-mails que se recebem e anunciam uma causa. Neste caso, a causa diz respeito à suposta intenção do governo brasileiro fechar o site devido, diz-se, ao pouco uso. Passo a transcrever parte do e-mail. "Estamos em vias de perder tudo isso, pois vão desativar o projeto por desuso, já que o número de acesso é muito pequeno". Isto foi recebido agora, mas já tinha recebido um semelhante há bastante tempo. Portanto, estamos perante uma de três hipóteses. Primeira, é mesmo verdade e o ME do Brasil, zangado com a falta de acesso a um mercado fundado na graça (tudo é grátis) e não na troca, decidiu, ou quase, encerrar a loja; segunda, é mentira e estamos perante uma daquelas histórias que povoam as mitologias urbanas em tempo de internet; terceira, o governo do Brasil encontrou uma forma sagaz de fazer publicidade ao seu site - um excelente serviço público, diga-se - utilizando a nossa infinita capacidade de indignação com quem está no poder (se for assim, a equipa de promoção está de parabéns).

Seja como for, e como cautelas e caldos de galinha não fazem mal a ninguém, passe pelo Domínio Público, faça o download de umas quantas obras em PDF, já agora leia-as por desfastio, e dê três vivas à lusofonia e um muito obrigado a todos aqueles que disponibilizam o seu tempo ou dinheiro para tornar acessível, segundo uma lógica fundada na graça, uma parte substancial da cultura humana.

17/02/10

Avaliação da experiência Kindle 2


Vamos lá, então, a uma avaliação (parece que se vive num tempo de avaliações) da experiência de leitura no Kindle 2, o eReader da Amazon. Escolheram-se quatro categorias. Manuseamento, Leitura, Livros disponíveis e Trabalho. Deixaram-se de lado questões técnicas como o carregamento da bateria ou a audição dos textos (ainda não experimentei esta possibilidade).

Manuseamento­. O Kindle manuseia-se bastante bem, é leve, permite a leitura nas mais diversas situações. A princípio estranha-se o “virar” da página. A tendência é repetir o gesto mecânico inerente aos livros em papel, mas rapidamente nos habituamos a carregar nos botões (PREV PAGE e NEXT PAGE) ergonomicamente situados. A desvantagem reside em ser mais difícil e moroso saltar páginas. Há acesso a um menu que permite ir para um índice, mas muitos dos e-books disponíveis gratuitamente não possuem o índice operativo, isto é, que permite clicar na indicação do capítulo e aparecer no local onde o capítulo se inicia. Nos livros comprados (foram dois) para Kindle, na Amazon, os índices funcionam. Também noutros e-Books gratuitos esses índices funcionam, mas não em todos. O menu permite também ir para determinada localização (location) do livro, mas é necessário saber para onde se quer ir. A sensação ao tacto do aparelho não é desagradável, mas não é papel. É fria e metálica. É também escorregadia, por isso recomendo a compra de uma capa de cabedal. Torna o Kindle mais pesado, mas protege o ecrã e evita que o aparelho escorregue das mãos. Já apanhei, por sorte, o meu no ar, quando experimentava ler sem capa protectora. O miniteclado para introduzir notas e fazer pesquisa é trabalhável. Não estamos a falar de um computador, mas de um livro que permite fazer anotações nele e a partir dele.

Leitura. Incomparavelmente melhor e menos cansativa do que num bom monitor de computador, apesar do ecrã ser pequeno. Tem a vantagem de apresentar seis tamanhos de caracteres à escolha, que vão desde os caracteres para os que vêem bem de mais até aos que precisam de caracteres bem grandes por verem bem de menos. Permite também escolher o número de palavras por linha. Além disto, que para mim é muito mas que encontro no computador, refira-se a qualidade do ePaper e da eInk. De facto, a relação entre o preto dos caracteres e a cor de fundo (que não sei designar) do “papel” é bastante agradável. Não há contrastes que firam a vista. A leitura é, na minha óptica, melhor no Kindle que em papel. Esta é uma grande arma deste tipo de aparelhos relativamente ao iPad, por exemplo. Não sendo retro-iluminado, o Kindle comporta-se como um livro normal. Precisa de luz exterior para ser lido. Ao desaparecer aquele brilho dos monitores de computador a vista é poupada.

Livros disponíveis. Na Amazon.com há mais de 300 mil livros à venda para Kindle, livros com codificação própria e só legíveis no Kindle. Essencialmente em inglês, mas abrangendo um leque alargado de interesses. Há outros sites que vendem também livros que o Kindle lê. Como disse num post anterior, existem milhares de livros gratuitos que o Kindle lê. Os nossos próprios textos podem ser transformados em ebooks lidos pelo Kindle. Mas o universo de livros disponíveis, nas várias línguas, irá crescer exponencialmente nos próximos anos. Os livros em PDF apresentam algumas dificuldades de leitura. Não é possível fazer zoom sobre eles. No entanto, esses livros, se não forem em imagem mas em texto, podem ser convertidos para linguagem que o Kindle lê normalmente, e por isso permite fazer zoom sobre eles. Também os jornais podem ser lidos no Kindle. O Público já está disponível por cerca de 14 dólares mensais.

Trabalho. Vantagens: podemos escrever anotações, colocar bookmarks, sublinhar. Podemos também pesquisar por palavras ou expressões. Esta é uma grande vantagem. Desvantagens: os livros comprados na Amazon.com para Kindle não permitem fazer scanner sobre eles para os trabalhar no computador (uma técnica que utilizo bastante em textos difíceis, para os analisar). Os outros livros disponíveis na internet, mesmo em linguagem legível por Kindle, permitem através de um programa denominado Calibre, fazer conversão para .pdf ou para .rtf e .txt, formatos que o Word lê. Depois é só trabalhar a parte que se quer e acompanhar a leitura no Kindle. Problemas: os livros comprados na Amazon.com não têm páginas idênticas aos livros em papel. Isto levanta um problema em trabalhos académicos, nomeadamente na localização de citações. No entanto, os ebooks têm aquilo que se chama “locations”. Por exemplo, o livro que estou a ler tem 2471 locations e vou na location 632-37. Isto permite referenciar a citação. Não sei, nem procurei, se existe já alguma norma de referência bibliográfica que contemple os ebooks.

Nota final. Um ebook é um óptimo instrumento de trabalho. Poupa a floresta, evita o crescimento desmesurado das estantes numa casa, é amigo do leitor. É possível, porém, que se esteja apenas no início de uma nova forma de conceber o livro.

22/12/09

Clássicos da Política



Clássicos da Política é uma colecção onde se reúnem algumas das obras fundamentais do pensamento político ocidental. Iniciativa conjunta da Temas e Debates e do Círculo de Leitores, estas obras apresentam um tradução cuidada e uma introdução útil. Foram publicadas, desde 2008, os seguintes volumes: O Político, de Platão; Tratado da República, de Cícero; O Príncipe, de Maquiavel; Tratado Político, de Espinosa; Testamento Político, de Richelieu; Contrato Social, de Rousseau; O que é o Terceiro Estado, de Sieyes; Defesa da Sociedade Natural, de Burke. Estão previstos 18 de Brumário, de Marx, e O Estado Comercial Fechado, de Fichte. Outra colecção de textos políticos a não perder. Julgo que alguns destes textos se encontram já esgotados.

21/12/09

Biblioteca de Teoria Política



Em 2008 surgiu a Biblioteca de Teoria Política no catálogo das Edições 70. O livro inaugural, salvo erro, foi A Razão das Nações, Reflexões sobre a Democracia na Europa, de Pierre Manent. É, porém, em 2009 que o catálogo ganha um peso decisivo com a edição de três autores fundamentais. Friedrich Hayek, de quem se publicou O Caminho da Servidão; Léo Strauss, de quem se publicou Direito Natural e História. Robert Nozick, de quem se publicou Anarquia, Estado e Utopia. Todas as obras merecem leitura e estudo atento por quem se interessa pelo fenómeno político. Seja na perspectiva do politólogo (horrível vocábulo), seja para esclarecimento (isto é mesmo um desejo) da acção do militante político, seja, como no nosso caso, na perspectiva do contemplativo, isto é, da filosofia. Fica-se a aguardar, com muita expectativa, o futuro desta colecção. Amanhã falaremos de uma outra colecção, e de outra editora importante de textos políticos.