24/03/09

Os dias de suspensão


Este blogger está inactivo. A verdade, porém, é que as pilhas de trabalhos para ler, avaliar e discutir com os alunos me têm roubado tempo e disposição. Em verdade, em verdade, vos digo: nada melhor do que uns testes para avaliar os alunos. O controlo da fraude faz-se na sala de aula. Depois corrigir testes é uma coisa, ler trabalhos é outra [e a preocupação coma fraude é pior do que a angústia do guarda-redes no momento do penálti (será assim que se escreve? Não, o dicionário da Porto-Editora grafa penalty)]. Quando os alunos fazem seriamente os trabalhos aprendem 100 vezes mais do que num teste, o problema é mesmo a seriedade com que alguns se entregam ao acto. Enfim, ossos do ofício, mas a verdade é que depois de ler tanta coisa que seria bom não se ter lido, pouco discernimento resta para passar pelo blogue. Vamos ver se a coisa começa a aliviar.

21/03/09

Um jogo de equívocos



O futebol é um jogo perverso. Mobiliza demasiadas emoções e demasiadas paixões, mobiliza grandes interesses, mas está sempre sujeito a um erro da equipa de arbitragem. O Benfica, o meu Benfica, ganhou a Taça da Liga (nem sei bem o que isso é) ao Sporting. Mas o golo do Benfica, aquele que empatou o jogo, nasceu de uma decisão errada da equipa de arbitragem. Não era já mais do que tempo de se começar a usar meios electrónicos para detecção da verdade de certas jogadas? Com o dinheiro envolvido e as emoções clubísticas sempre tão acirradas, o uso desses meios é quase uma obrigação para manter a paz pública, isto para além da verdade objectiva dos jogos. Os homens enganam-se. Em princípio, presume-se que os árbitros, mesmo enganando-se, estão subjectivamente convencidos da verdade das suas decisões. Mas não é disso que se trata, mas da verdade objectiva do jogo. Parece, porém, que existe uma verdadeira indústria, talvez um lobby poderoso, que vive das paixões propiciadas pelos enganos no futebol. Talvez seja ele que não está interessado no uso de meios electrónicos para auxílio da arbitragem. É por coisas destas que o futebol cada vez me interessa menos. No fundo, não passa de uma brincadeira de garotos, ou de homens que teimam em não deixar de ser garotos, onde o erro, a distracção e a batota, como nos jogos infantis, têm um papel preponderante na determinação do mérito. Perdoem-me os benfiquistas menos dados, em matéria clubística, ao uso da razão. Mas qual o prazer de ganhar quando há um engano que perverte a verdade? Mesmo que essa verdade não seja aquela que os adeptos do adversário, neste caso do Sporting, supõem na sua indignação.

Mudança na correlação de forças

Consta que o PS vai deixar cair dois diplomas (o do voto presencial dos emigrantes e o do pluralismo enão concentração dos media) vetados por Cavaco Silva. Não quer criar mais atritos com o Presidente. Este súbito ataque de harmonia institucional, depois do que se passou com o famigerado estatuto dos Açores, significa apenas que os socialistas começam a perceber que a maioria absoluta lhes pode escapar e que um conflito com Cavaco Silva não lhes rende um voto, nem à esquerda. Significa uma mudança na correlação de forças e nada mais do que isso.

20/03/09

O Provedor de Justiça


Se isto é verdade, então o PSD bem pode limpar as mãos à parede. Jorge Miranda tem todas as condições para ser, como Nascimento Rodrigues, um Provedor da Justiça ferozmente independente e sério. Miranda é um dos pais da constituição. Mas acima de tudo é um homem de bem, um homem que, para além da sua formação académica na área do Direito constitucional, é reconhecidamente uma pessoa honesta. A Dr.ª Manuela Ferreira Leite que se deixe de estados de alma, reconheça, ao menos, que o PS teve, neste caso, golpe de asa. Mas sejamos prudentes. Vejamos o que os protagonistas têm para dizer nos próximos dias. Seja como for, se Jorge Miranda fosse o escolhido para Provedor de Justiça alguma coisa melhoraria na democracia portuguesa, ou pelo menos não pioraria.

Amália Rodrigues - Gaivota

Um novo começo


Até agora, as posições do Presidente americano, Barack Obama, têm mostrado que a troca de Bush pelo actual inquilino da Casa Brana tem sido bastante proveitosa para o mundo. A arrogância texana foi substituída pela inteligência. Veja-se o caso das relações com a Rússia, veja-se a posição de Obama perante o escândalo dos prémios de "produtividade" aos gestores da AIG, veja-se, agora, a mensagem dirigida ao povo e às autoridades iranianos. De facto, é necessário um novo começo. Com este gesto, longe de ser naïf, Obama encosta o regime de Teerão à parede. Já não há desculpa da arrogância e da prepotência americanas. É provável, mas apenas provável, que o mundo, desde que George W. Bush saiu da Casa Branca, se tenha tornado um pouco menos perigoso. Obama tem sido obreiro dessa transformação. Esperemos que os ventos lhe continuem a correr de feição. Nós, europeus, precisamos desesperadamente de uma América confiável e madura.

Jornal Torrejano, 20 de Março de 2009


No que toca à opinião, comece-se pelo cartoon de Hélder Dias. Na opinião escrita, Carlos Henriques escreve Benfica sem classe (estas as coisas a gente sabe, escusava de as ver escritas no jornal), Carlos Nuno, O Cine Clube, Francisco Almeida, Apenas Humano, Inês Vidal, Tartan e José Ricardo Costa, A Idade das Trevas.

Por esta semana está dada a notícia das notícias torrejanas. Bom fim-de-semana.

19/03/09

Argentino Luna

Prolegómenos à escravatura voluntária



Eu não esperaria que esta gente que governa tivesse um mínimo de decoro e respeito pelas pessoas. Quem inventou o concurso de professores titulares é capaz de tudo. Portanto, é capaz de criar uma situação de tal ordem na escola que, muitos professores em desespero de causa, peçam a aposentação com elevadas penalizações. Depois, é capaz de vir dizer que eles são necessários, desde que voluntários.

Há uma coisa, porém, que me intriga: O que terá a cara dos professores de diferente da de outros cidadãos? Fala-se que o Ministério da Saúde vai também recorrer a médicos aposentados, mas pagando-lhe. Por que motivo os professores hão-de ser voluntários nas escolas? Ainda por cima, se houver voluntários, estes terão de fazer um relatório crítico da sua actividade, uma espécie de auto-avaliação (a cabeça burocrática desta gente nunca pára de pensar). Este governo começou por baixar drasticamente os salários dos professores, como se eles fossem privilegiados relativamente a outros licenciados (a mais pura das mentiras), e agora acha que devem trabalhar gratuitamente. Parece que estamos perante os prolegómenos a uma nova prática de escravatura. A escravatura voluntária. O que vale é que o escravo tem o dever de fazer um relatório e de se auto-avaliar.

Joseph de Maistre - O estado habitual do género humano



A história prova, infelizmente, que a guerra é o estado habitual do género humano num certo sentido, isto é, o sangue humano deve correr sem interrupção sobre o globo, aqui ou ali, e a paz, para cada nação, é apenas um pequeno descanso.

Cita-se o encerramento do templo de Janus, sob Augusto, cita-se um ano do reino guerreiro de Carlos Magno (o ano de 790) onde ele não fez a guerra. Cita-se uma curta época depois da paz de Ryswicki, em 1697, e uma outra tão curta após a paz de Carlwotizz, em 1699, onde não houve guerra; não apenas na Europa, mas mesmo em todo o mundo conhecido.

Mas estas épocas são apenas momentos. [Joseph de Maistre, Considérations sur la France]

Abertura da escola à comunidade - II



O meu post anterior, Abertura da escola à comunidade, gerou alguns comentários discordantes. Em primeiro lugar, será bom olhar para o estatuto disursivo do post. Ele é, claramente, um post crítico e caricatural. A caricatura é sempre hiperbólica, aumenta desconfortavelmente os traços daquilo que é caricaturado, mas tem a vantagem de dar a ver o que a visão normal não compreende. O efeito aumentativo, digamos assim, mostra o sentido das coisas.

Podemos afirmar que os acontecimentos passado na Escola Básica 2/3 de Silgueiros, Viseu, são o resultado directo das políticas do actual governo? Não, não podemos. Mas podemos dizer outra coisa. Podemos dizer que a forma como o actual governo tem incrementado a chamada abertura da escola à comunidade, na continuidade de anteriores governos, desprotege as instituições escolares perante estes acontecimentos. A escola é um território onde as famílias se movem, ou pretendem mover, como se estivessem em casa. Este mover-se como se estivesse em casa não é uma pura metáfora. Os valores provenientes das famílias, muitas vezes adversos ao ethos escolar, invadem e instalam-se na escola, devido ao papel atribuído pelo poder político (note-se bem) às famílias, dentro da escola. Quando se abre a escola à comunidade entram pessoas que pensam segundo o bem comum e o ethos escolar, mas também entram todos os outros com culturas adversas.

Este acontecimento, aliás como muitos outros, é um revelador do que significa abrir a escola à comunidade. Percebo que o problema não seja apenas português. Não o é. Mas isso não isenta de culpa aqueles que, em Portugal e nos países ocidentais, têm advogado semelhantes políticas. Essas pessoas têm nome, essas pessoas foram investidas nos mais altos cargos para tomar decisões. As decisões que tomaram foram erradas e, em vez de proteger a escola da sociedade, retiraram-lhe todas as defesas, deixando-as à mercê do arbítrio da comunidade. Essas pessoas que, no poder político fomentaram tais políticas, devem arcar com estes acontecimentos em cima dos seus ombros.

A escola não é um lugar como os outros, pois o que se pretende ali não é reduplicar a vida tal como ela acontece, mas preparar as novas gerações para integrar a comunidade, mas trazendo para essa comunidade o melhor, um conjunto de valores depurados pelo ambiente escolar, um conjunto de valores que, muitas vezes, devem contradizer as práticas e os preconceitos dessa comunidade. Um exemplo: na vida civil a honestidade é, hoje em dia, pouco apreciada. Na escola, deveria ser um valor indiscutível, um "dogma" do qual nenhum aluno pudesse duvidar, um preceito que deveria fazer tremer aquele aluno que pensasse fazer batota. Ora, se a escola se abre à comunidade, são os valores da comunidade que penetram na escola, pois a comunidade é muito mais forte do que a instituição escolar.

O meu post anterior nada tinha a ver com os professores e as sua reivindicações (muitos defendem, tragicamente, a retórica da abertura da escola). Tinha tudo a ver com os alunos, a sua defesa, a defesa das novas gerações. Como disse Hannah Arendt, é preciso proteger as novas gerações da sociedade e a sociedade das novas gerações. A abertura da escola à comunidade não faz uma coisa nem outra. É evidente, repito, que os acontecimento de Viseu não são associáveis directamente ao executivo. Mas este intensificou até ao paroxismo algo que já vinha do tempo do marcelismo, e que a democracia apenas incrementou, algo que destruiu aquela fronteira invisível que dizia a todos nós, etnias com culturas diferentes incluídas, que há uma diferença ontológica entre o espaço escolar e o espaço público onde decorre a vida civil. Essa fronteira invisível já era frágil, mas por acção do poder político, e não por qualquer movimento espontâneo da sociedade, essa fronteira já não existe. Por isso, aqueles que entraram dentro da escola de Silgueiros agiram com toda a naturalidade e espontaneidade, os portões da escola já não significam nada.

18/03/09

Abertura da escola à comunidade

É isto a chamada abertura da escola à comunidade. Parabéns a todos os governantes, com especial incidência a Lurdes Rodrigues, Valter Lemos, Jorge Pedreira e Engenheiro Sócrates. Estão a conseguir.

SIDA, sexo e abstinência


Há na Igreja Católica uma estranha limitação da inteligência naquilo que diz respeito à sexualidade. O Papa retomou a questão do preservativo e dele não ser solução para combater, em África, a propagação da SIDA. Contrapõe a abstinência sexual como modo eficaz de luta. De facto, tem alguma razão. Se deixar de haver relações sexuais, logo deixa de haver perigo de contágio por via sexual. Do ponto de vista lógico, o raciocínio é exemplar. O problema, porém, é a SIDA não ser uma questão lógica, uma espécie de erro de raciocínio ou de falácia formal. O pensamento da hierarquia da Igreja Católica sobre o assunto é que se tornou falacioso. O que irá na cabeça destas pessoas, pessoas inteligentes como Ratzinger, para achar que os africanos, ou outros quaisquer, se irão dedicar à abstinência e o mundo inteiro se tornará num universo de auto-castrados? O preconceito sexual da Igreja é tão forte que esquece um dos seus ensinamentos essenciais: o homem é um ser caído, logo pecador. Essa é a sua natureza. Esperar que o mundo se converta à abstinência é a mesma coisa que esperar que nasçam laranjas nos postes de electricidade. Não lhes está na natureza. Portanto, há que lidar com a realidade tal como ela é. O dever de todos, Igreja Católica incluída, é aconselhar uma sexualidade responsável, chamando à atenção para a sua dimensão ética e para a responsabilidade de cada um perante o outro.

Há ainda outra coisa que me deixa perplexo. Eu posso compreender que certos indivíduos possam viver a sua sexualidade através da abstinência. Esta não é uma assexualidade, mas uma sexualidade activamente não consumada. Posso respeitar essa opção, posso mesmo admirá-la. Não posso, porém, querer que ela se torne em lei universal da natureza humana, pois isso arrastaria o fim da própria humanidade (basta ler Kant para perceber a imoralidade da universalização da abstinência). Além do mais, há qualquer coisa de ímpio nesta posição da Igreja. Não me estou a referir ao facto do seu discurso poder fomentar a propagação da doença. Estou-me a referir à tentativa desesperada em pôr fim às artimanhas do desejo, que empurram continuamente os indivíduos para a sexualidade. Mas não terá sido isso que o Criador terá querido? Não estaria ele interessado que a vida humana se propagasse? Não terá sido por isso que o ser humano foi dotado de um desejo irresistível pelo sexo, de forma a que a vida vencesse as limitações que a natureza ou a razão lhe querem impor? Em última análise, não seria melhor a Igreja deixar Deus e o pecado fora do assunto? Que se saiba Deus ainda não explicou qual a melhor forma de tratar da SIDA.

Não fora isso, e não seriam carecas nem teriam gota


O maior médico de sempre – e fundador da medicina como ciência — dizia que as mulheres estavam ao abrigo da queda do cabelo e de dores nos pés: ora, hoje vemo-las sem cabelo e com gota nos pés! Não que a natureza das mulheres sofresse alguma mutação. Só que foi ultrapassada, e, como elas se igualaram aos homens em matéria de excessos, passaram a sofrer dos mesmos distúrbios físicos que os homens. Não fazem menores noitadas nem bebem menos do que eles; no consumo óleo e de vinho rivalizam plenamente com os homens. Tal como eles, “restituem” pela boca as iguarias que o estômago rejeita e aliviam-se, vomitando, do vinho consumido; tal como eles, chupam bocados de gelo para aliviar a azia. Em matéria de sensualidade também em nada cedem aos homens: elas, que nasceram para ser passivas (possam os deuses e deusas castigá-las como merecem!), tão longe se aventuraram na via da licenciosidade que agora, com os homens, são elas quem desempenha o papel activo! Porquê admirar-nos então que Hipócrates, a glória da medicina, o maior conhecedor da natureza humana, seja assim apanhado a mentir, dada a presente abundância de mulheres calvas e atacadas da gota?! Elas perderam as regalias próprias do seu sexo e, renunciando à feminilidade, viram-se condenadas às moléstias dos homens. [Séneca, Cartas a Lucílio, XCV]

16/03/09

A vaidade de parecer civilizado


Há um mistério que não consigo explicar. Por que motivo a legislação que rege o mundo escolar parece adaptada a um país que não o nosso. Hoje, uma adolescente de 13 anos, agrediu a soco e a pontapé uma professora. Esta teve de receber tratamento hospitalar. O que devia espantar os portugueses, se eles estivessem minimamente interessados no futuro do país, seriam as seguintes questões: como é que passou pela cabeça da "criança" poder agredir uma professora? Que sistema educativo é este que permite que os alunos tenham iniciativa para fazer coisas destas? A política educativa é de tal maneira permissiva para com as diabruras da criançada, que nos faz pensar que estamos num daqueles países do norte da Europa, onde a consciência moral e cívica é de tal forma forte que não há ninguém que pense prejudicar os colegas, fazer batota nos estudos ou faltar ao respeito aos adultos.

Em Portugal, no campo da educação, a legislação é uma mentira social. Os alunos que nós temos não são nórdicos. São portugueses. Não gostam de trabalhar, não têm remorsos se fazem batota, pelo contrário, não têm, muitos e muitos deles, qualquer noção de respeito pelos outros. A escola na Finlândia, na Suécia, na Dinamarca, etc. pode estar aberta à comunidade, pois a escola é uma emanação da comunidade e dos valores desta. Em Portugal, a abertura da escola à comunidade é um erro trágico. Em Portugal os valores fundamentais da escola são estranhos à comunidade. Quando a escola se abre, entram para dentro da escola todos aqueles valores negativos que uma educação saudável deveria erradicar.

A legislação e os sistemas sociais dos países devem estar de acordo com os povos que servem, e não ser uma aplicação mecânica de coisas interessantes que se fazem lá fora, noutras circunstâncias e entre outros povos. Mas como explicar isto aos políticos que nos governam? Como fazer frente àquela triste vaidade de quererem parecer civilizados porque fazem leis aparentemente civilizadas, mas que apenas contribuem para a degradação cívica de um povo?

15/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XXV

(o copo tornando ampla
cada sílaba, unindo
um sopro fundo
ao estremecimento das mãos.
fronteira, fractura, frémito:
a língua avolumada
num iridescente vórtice –
e, entre a chuva e a manhã,
uma
ponte aberta em resplendor.)
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Com este poema completa-se a publicação do ciclo de autoria de Moisés David Ferreira. A minha pública gratidão, por ter permitido a sua publicação no A Ver o Mundo. Foi, sem dúvida, um dos momentos mais altos na vida deste blogue. Muito obrigado. A poesia voltará daqui a uns tempos, como é hábito nesta casa.

Heimat-Trilogy (Heimat / Heimat II / Heimat 3)

Vasco Pulido Valente - O Estado paga e o povo pasma

Clique na imagem para aumentar (crónica no Público, de hoje)

14/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XXIV

e a infância corre-te, indesvendada,
imóvel,
no enigma dos dias diluídos,
chegada do mar, segurando-o
num búzio, num
fio de sal, num peixe pressentido. conta-te
o seu rol de adivinhações,
todos os cais, todos os raptos,
todas as impossíveis rotas –
e assim te concebe olhando-a,
e longamente te prepara
para o nascimento.

Ute Lemper - Alabama Song

Manifestações argumentativas



Todos sabemos que uma parte do discurso político é puramente ociosa. Os políticos dizem coisas para preencher o espaço reservado à discursividade. Por norma, dizem idiotices políticas, coisas sem sentido. Veja-se o que disse o ilustre engenheiro, que a vontade de Deus (se a voz do povo é a voz de Deus, então a vontade do povo é a vontade de Deus) nos deu por timoneiro, nesta hora de barco à deriva (sinal seguro de que a divindade está apostada em que nos afoguemos), sobre a manifestação de ontem levada a efeito pela CGTP. Por exemplo, "Lamento que nessas manifestações não existam argumentos, mas apenas acusações e insultos. Lamento que organizações sindicais se limitem ao insulto e ao insulto pessoal, chamando-me mentiroso."

Para além da sua estratégia de autovitimização, estratégia muito a propósito que se vem a desenhar desde a nova eclosão do caso Freeport, devido aos manifestantes lhe chamarem mentiroso, o que eu acho notável é a propensão intelectual que o nosso engenheiro parece ter. Lamenta, sua Ex.ª, que na manifestação não haja argumentos. Portanto, José Sócrates deveria esperar que uma manifestação popular fosse uma espécie de emanação daquelas aulas universitárias que ele deve ter frequentado para se licenciar. Aulas onde alunos e professores se entregavam a longas cadeias de raciocínios, vigiados na sua validade lógica e verosimilhança retórica.

Eu já estou a imaginar aquela manifestação da CGTP não a gritar slogans (coisa que ocorre em todas as manifestações que há por esse vasto mundo), mas a desfiar argumentos, contra-argumentos, objecções e refutações. Carvalho da Silva não discursaria, mas avaliaria as melhores teses e respectiva argumentação, não do ponto de vista político e social, mas lógico-retórico. Eis o que faz entregar a direcção de um país a um engenheiro.

13/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XXIII

o desamparo é a mãe da intensidade.
também o fogo, parco
em seu começo, frugívoro,
se dilata logo, acudindo a quem
pacientemente lhe confia os olhos.
na insónia desligada da vigília, o rasgão
a dar para a íntima
dança ígnea.
– despetalar o sono até que ver
seja o trânsito entre o livro e o relâmpago,
e as mãos caibam
tanto no fôlego
que se lancem pela água como
uma aliança:
grandes
sinais.

VeljoTormis - Raua needmine

Antônio Delfim Netto - O fracasso da economia acadêmica

Para quem quiser perceber mais um pouco da crise financeira internacional, aqui fica um excelente artigo de Antônio Delfim Netto, antigo ministro brasileiro da Fazenda, e publicado na revista Valor:

Em 1609, Galileu Galilei, (1564-1642) depois de ter aperfeiçoado um instrumento construído um pouco antes por óticos holandeses, produziu uma luneta que chamou de “Perspicillum”. Com ela deu origem a uma revolução na astronomia. Por isso, a União Astronômica Internacional e a Unesco elegeram 2009 como o Ano Internacional da Astronomia. Qual é a profunda importância de Galileu? A resposta é simples, como nos informa o ilustre prof. Antonio Augusto Passos Videira (revista “Ciência Hoje”, jan./fev. 2009: 18): “Suas descobertas contribuíram para minar a primazia da concepção aristotélica do cosmo, baseada na beleza dos corpos celestes e na imutabilidade dos céus. Em longo prazo, suas ideias - sustentadas pela matemática, por medidas e por uma retórica afiada - ergueram uma visão do mundo na qual se buscavam leis para os fenômenos naturais”.

Mas qual a importância disso agora, há de perguntar-se, irritado, um daqueles economistas que se pensa portador da “verdadeira” ciência econômica? Eu também uso a matemática! A pequena diferença é que o seu “tipo” de conhecimento tem muito mais a ver com Aristóteles esteticamente matematizado do que com Galileu. Em lugar de tentar entender como funciona o sistema econômico, tenta ensiná-lo como deveria funcionar em resposta à beleza dos seus axiomas…

(…) Um grupo de oito importantes economistas (todos um pouco mais ou um pouco menos críticos, mas sem dúvida, competentes membros do “mainstream” e senhores da mais sofisticada matemática e econometria) acabam de publicar um trabalho, “A Crise Financeira e o Fracasso Sistêmico da Economia Acadêmica”(1). É um verdadeiro réquiem de corpo presente para a economia pré-galileliana, que foi dominante na última geração.

A síntese do artigo (em tradução livre) é a seguinte:

“A profissão dos economistas parece ter ignorado a longa construção que terminou nesta crise financeira internacional e ter significativamente subestimado as suas dimensões quando ela começou a manifestar-se. Na nossa opinião, essa falta de entendimento foi devida à má alocação dos recursos de pesquisa na economia. Fixamos as raízes profundas desse fracasso na insistência da profissão em produzir modelos que - por construção - ignoram elementos fundamentais que controlam os resultados no mundo dos mercados reais. A profissão falhou, lamentavelmente, na comunicação ao público das limitações e fraquezas e, mesmo, dos perigos que caracterizam os modelos de sua preferência. Esse estado de coisas deixa claro a necessidade de uma fundamental reorientação das pesquisas que devem ser feitas pelos economistas e, também, do estabelecimento de um código de comportamento ético, que exija deles o conhecimento e a comunicação (para o público) das limitações e dos maus usos potenciais possíveis de seus modelos”.

O final do trabalho é ainda mais preocupante:

“Acreditamos que a teoria econômica caiu numa armadilha de um equilíbrio subótimo, no qual o grosso do esforço de pesquisa não foi dirigido para as mais angustiantes necessidades das sociedade. Paradoxalmente, um efeito retroativo, que se autorreforça dentro da profissão, levou à dominância de um paradigma que tem base metodológica pouco sólida e cuja performance empírica é, para dizer o menos, apenas modesta. Pondo de lado os mais prementes problemas da moderna economia e fracassando na comunicação das limitações e das hipóteses contidas nos seus modelos mais populares, a profissão dos economistas tem certa responsabilidade na produção da crise atual. Ela falhou na sua relação com a sociedade. Não produziu tanto conhecimento quanto seria possível sobre o comportamento da economia e não a alertou dos riscos implícitos nas inovações que criava. Além do mais, relutou em enfatizar as limitações da sua análise. Acreditamos que o seu fracasso em sequer antecipar os problemas gerados pela crise do sistema financeiro e a sua incapacidade de prover qualquer sinal antecipado dos eventos que iriam se passar exigem uma reorientação fundamental dessas áreas e uma reconsideração de suas premissas básicas”.

Trata-se de um trágico “requiescat in pace”, não para a teoria econômica, mas para o “mainstream” pré-galileliano, que se apropriou dela com imensa irresponsabilidade. Podemos voltar agora à modesta e útil economia política?

(1) Os autores são David Colander, Katarina Inlesuis, Alan Kirman e outros.

Jornal Torrejano, 13 de Março de 2009

Disponível está a edição digital do Jornal Torrejano. Destaque para a "confluência" de posições entre o sindicalismo ea Igreja Católica relativa à segurança social: a necessidade de abrir novos caminhos. Referência para o atletismo na zona: meeting em Alcanena e corta-mato em Riachos. No Nersant, um especialista analisou o novo código do trabalho.

Na opinião, comece-se com Carlos Henriques e Tudo na mesma na frente da Liga. Inês Vidal escreve Filhos e enteados, José Ricardo Costa, O Triunfo do Pindérico, e Miguel Sentieiro, Uma vista de olhos.

Para a semana haverá mais Jornal Torrejano digital. Bom fim-de-semana.

Liberdade e obediência



Para compreender o verdadeiro valor da obediência espiritual, devemos distinguir cuidadosamente a vontade própria e a liberdade real. Esta distinção tem um grande importância, porque somos chamados a ser livres na obediência e não a sacrificar toda a liberdade para responder, como máquinas, à autoridade.

A obediência a Deus é a forma mais alta da liberdade. A sujeição à tirania do automatismo, que este venha dos caprichos da vontade própria ou das ordens cegas do despotismo, das convenções, da rotina ou da inércia, faz-nos perder toda a liberdade.

Uma das ilusões mais comuns consiste consiste em crer que ao opor os meus caprichos às ordens da autoridade, eu manifesto a minha liberdade, eu ajo «espontaneamente». Ora esta maneira de agor não tem a ver com a espontaneidade verdadeira e não conduz de modo nenhum à verdadeira liberdade, mas antes à insubordinação. [Thomas Merton (1963). Semences de Contemplation. Paris: Ed. du Seuil, pp. 148]

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Esta citação de Thomas Merton, monge trapista, permite perceber por que motivo, no conflito entre professores e Ministério da Educação, a Igreja Católica portuguesa esteve genericamente do lado dos professores. A Igreja tem uma longa experiência sobre a relação entre a autoridade, a liberdade e a obediência, e sabe perfeitamente, pelo menos nos seus círculos mais esclarecidos, que a autoridade e a obediência, mesmo fora dos mosteiros contemplativos, são o fundamento mais sólido da liberdade, e, por isso mesmo, da educação das novas gerações. É deste cristianismo que a Europa precisa. Precisa que ele penetre novamente no tecido social. Isto não significa, porém, que aquilo que é necessário acontecer aconteça, de facto. Mas, caso não aconteça, a evolução da Europa será problemática. Como é que a liberdade poderá subsistir numa cultura que cortou a relação com uma das suas fontes mais originárias?

Leituras


Todos sabemos que apenas se visa ajudar a melhorar a vida das pessoas, a curar doenças graves, etc, etc. Cientistas britânicos "mostraram pela primeira vez que talvez seja possível "ler" a mente de uma pessoa, observando apenas a sua actividade cerebral." Não era aí, na mente com a sua actividade cerebral, que residia a última reserva de intimidade? Não se pensou sempre que a liberdade de pensar, enquanto puro acto de pensar, era inexpugnável? Claro, os cientistas falam de tratamento da doença de Alzheimer, o que nos comove a todos, mas estes projectos, pois eles são vários, queiram ou não, estão a abrir as portas para a transferência do Big Brother de fora para dentro seres humanos. Existindo a técnica, não faltarão os "bons" motivos para a usar. Uma técnica que começa por ser qualquer coisa laboratorial, em breve se tornará de uso comum. As aplicações políticas serão as mais interessantes. Admirável mundo novo.

12/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XXII

repito: o vento
é um galope travejado de crisálidas,
uma súplica submersa
à máscara surda que
sob o ténue acorde trazes
que te vê o medo.
repito: espera-te
o derradeiro assombro em cada sopro,
uma volátil erupção, vértebras, a
passada oblíqua, o inacessível rito
de tocar coisas
onde incessantemente principiem: fonte
(outra vez o imo
do circum-naufrágio).

Doris Monteiro - Samba De Verão

Má sorte ser cronista

Tendo em atenção o post anterior, como vejo, passados quatro anos, aquilo que disse na referida crónica?

Afirmei: "O PS ganhou ao centro e formou um governo de centro-esquerda". É verdade, o PS ganhou ao centro, mas o governo, na governação, não teve um matiz de centro-esquerda, mas, no essencial, de centro-direita. Só em aspectos secundários é que o governo de Sócrates governou à esquerda. Primeiro engano do cronista, isto é, engano meu.

Afirmei: "O novo primeiro-ministro teve, após a vitória eleitoral, duas novas vitórias: deu credibilidade à formação do seu governo e formou-o com uma forte imagem de coesão e reformismo". A primeira proposição é uma constatação de facto. A segunda, de certa forma, foi confirmada em parte, o governo foi sempre coeso. Já o reformismo começou com muito ímpeto, mas logo se tornou difuso, para se tornar apenas numa imagem de propaganda. O reformismo não tocou no essencial. Meio engano.

Afirmei: "Boas notícias são Campos e Cunha nas Finanças e Manuel Pinho na Economia. Dois homens que vêm de fora do PS com uma imagem de grande rigor". Campos e Cunha desapareceu muito rapidamente, Manuel Pinho tornou-se um ministro absolutamente ridículo. Engano completo do cronista.

Afirmei: "O retorno de Mariano Gago à Ciência e Tecnologia e de Correia de Campos à Saúde são também excelentes notícias. " Afinal, Mariano Gago tornou-se num Ministro secundário, um gestor burocratizado dos feudos que pululam no ensino superior português. Hoje em dia não agrada a ninguém. Correia de Campos desapareceu em combate. Conseguiu alguma coisa? Sim, tornou as populações mais desprotegidas ainda mais desprotegidas. Aliás, esta foi uma marca do governo, nestes quatro anos. Novo engano do cronista.

Afirmei: "Na Educação, há, pelo menos, uma boa notícia: nem Ana Benavente, nem Santos Silva vão tutelar a pasta. Esperemos que a nova ministra seja insensível à demagogia e irresponsabilidade daqueles que estão empenhados em prosseguir o caminho de destruição do sistema educativo português". Errei claramente. Lurdes Rodrigues e respectivos acólitos são piores do que Ana Benavente e Santos Silva, coisa que já era extraordinariamente difícil. O sistema está desarticulado e falho de sentido e justiça internos. Parece que o lema é quanto pior melhor.

Afirmei: "Pede-se-lhe que faça aquilo que nenhum primeiro-ministro, antes dele, fez: cortar nos privilégios instalados, fomentar o reformismo inovador, equilibrar e dar coesão à comunidade nacional. Que seja ao mesmo tempo liberal na economia e social-democrata na concepção da comunidade política". O que aconteceu? Sócrates proletarizou os professores e as classes médias, foi politicamente maleável perante os verdadeiros privilegiados, fomentou uma aparência de inovação, cujo emblema é o Magalhães, tornou a comunidade nacional menos coesa. Nem foi liberal na economia nem social-democrata na concepção da comunidade política. No fundo, navegou à vista, sem quaisquer princípios orientadores sérios, sem plano sério para o país que não seja o de se fazer reeleger à custa da propaganda mais desbragada (de novo entra aí o Magalhães). Nova expectativa errada do cronista.

Concluí assim: "A Sócrates pede-se-lhe uma inteligência de Aristóteles e uma força de Hércules. Se as tiver, então um dia, quando se estudar a vida política da III República, falar-se-á em Sócrates e em pré-socráticos. Caso contrário, o socratismo não terá sido mais do que um sofístico equívoco." Só acertei no "caso contrário". De facto, Sócrates não passou de um caso contrário, um sofístico equívoco. Sem inteligência de Aristóteles, a força de Hércules só lhe serviu para perseguir os mais fracos.

Moral da história: o melhor é não ter expectativas sobre quem nos vai governar. A decepção está sempre garantida. Má sorte ser cronista.

Afinal, não haverá pré-socráticos


Completam-se quatro anos de governação de José Sócrates. Republicamos o artigos que, na altura da tomada de posse, escrevemos no Jornal Torrejano. É um exercício curioso.

Haverá pré-socráticos?

Foi apresentado o governo de Sócrates e, como era de esperar, rapidamente se percebeu que não houve nenhuma maioria de esquerda nas últimas eleições. O PS ganhou ao centro e formou um governo de centro-esquerda. Quem estava à espera de um hipotético carnaval baseado na demagogia folclórica e na irresponsabilidade reivindicativa sofreu uma desilusão. O novo primeiro-ministro teve, após a vitória eleitoral, duas novas vitórias: deu credibilidade à formação do seu governo e formou-o com uma forte imagem de coesão e reformismo.

Dos ministros escolhidos, ressalta uma mensagem de responsabilidade e de interesse em enfrentar as dificuldades do país. Boas notícias são Campos e Cunha nas Finanças e Manuel Pinho na Economia. Dois homens que vêm de fora do PS com uma imagem de grande rigor. O retorno de Mariano Gago à Ciência e Tecnologia e de Correia de Campos à Saúde são também excelentes notícias. Freitas do Amaral carimba a matriz centrista do governo. Na Educação, há, pelo menos, uma boa notícia: nem Ana Benavente, nem Santos Silva vão tutelar a pasta. Esperemos que a nova ministra seja insensível à demagogia e irresponsabilidade daqueles que estão empenhados em prosseguir o caminho de destruição do sistema educativo português.

Aquilo que, todavia, espera o novo governo parece ser mais um trabalho para Hércules do que para Sócrates. Equilibrar as Finanças, endireitar a Segurança Social, reformar a Saúde, a Administração Pública e a Justiça, desenvolver e modernizar a Economia, pôr ordem na Educação. Em todas estas áreas movem-se poderosos interesses e existem fortes obstáculos. Muitas das medidas a tomar terão custos sociais e serão contestadas, no Parlamento, por todas as oposições e na rua pelo PCP e pelo BE. O caminho de Sócrates, como o do Céu, é estreito, mesmo muito estreito. Pede-se-lhe que faça aquilo que nenhum primeiro-ministro, antes dele, fez: cortar nos privilégios instalados, fomentar o reformismo inovador, equilibrar e dar coesão à comunidade nacional. Que seja ao mesmo tempo liberal na economia e social-democrata na concepção da comunidade política.

Ora, se fugir das reformas, como o fizeram Cavaco e Guterres, perderá as próximas eleições sem honra nem glória e deixará o país num pântano ainda maior do que o actual. Se tiver coragem, se enfrentar com decisão os problemas, muito provavelmente perderá na mesma as próximas eleições, mas perderá com honra e deixará um país com futuro aberto à sua frente. E poderá acontecer que os eleitores percebam o que fez.

A Sócrates pede-se-lhe uma inteligência de Aristóteles e uma força de Hércules. Se as tiver, então um dia, quando se estudar a vida política da III República, falar-se-á em Sócrates e em pré-socráticos. Caso contrário, o socratismo não terá sido mais do que um sofístico equívoco.
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Mais logo, talvez se faça um balanço e leitura destas expectativas. O tempo não deixa de ser um grande escultor: ensinou-nos que, afinal, este Sócrates não passava de um mero sofista.

Da origem do celibato dos padres


De facto, não foram reis que ensinaram, a princípio, a religião cristã, mas simples particulares que, por largo tempo, contra a vontade dos que detinham o poder e de quem eram súbditos, se reuniam habitualmente em Igrejas privadas, instituíam cerimónias sagradas, administravam, organizavam e decidiam tudo sozinhos, sem terem minimamente em conta o Estado. Quando, porém, volvidos muitos anos, a religião começou a introduzir-se no Estado, os eclesiásticos tiveram de a ensinar, tal como a haviam definido, aos próprios imperadores, o que lhes valeu serem reconhecidos como seus doutores e intérpretes e bem assim como pastores da Igreja e vigários de Deus. Além disso, para que mais tarde os reis cristãos não lhes pudessem retirar essa autoridade, os eclesiásticos acautelaram-se optimamente, proibindo o casamento aos principais ministros da Igreja e ao supremo intérprete da religião. A isto acresce ainda o terem os dogmas da religião aumentado em tão grande número e confundirem-se de tal maneira com a filosofia que o seu supremo intérprete tinha de ser supremo filósofo e teólogo e atender a uma infinidade de especulações inúteis, o que só é possível a particulares com bastante tempo livre. [Baruch Espinosa (2004) Tratado Teológico-Político, tradução de Diogo Pires Aurélio, pp. 380]

11/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XXI

os livros inclinam a sua espessura
para o interior dos órgãos.
(quando qualquer coisa é mínima,
rompe a idade
como uma pedra rara,
a sua álgida pulsação arremessada
ao desespero.)
os livros – nunca abertos, afinal – assestam
essa fluidez aos ombros –
e um discreto silêncio,
como o de um arroio à beira
de uma grande solitude,
unge de atenção o tacto.
(um livro, afinal, é uma atenção
que impuramente se conduz
ao lugar de um começo.)

Sigur Ros- The Nothing Song

A reconquista das Espanhas


Faz hoje 5 anos que Madrid amanheceu sob a luminosa expressão daquilo que incendeia certos corações. Os ataques terroristas de 11 de Março mataram 196 pessoas, e mostraram que a Europa, essa velha Europa de raízes cristãs, tem inimigos prontos para tudo. Há muitos anos que descobri isto. É também isso, os desejos de reconquista islâmica de Espanha (dira mais correctamente da Península Ibérica que), que o Cardeal Canizares denuncia com preocupação. Contrariamente ao que muitos pensam, esta ameaça é, apesar de não ser factível nesta altura, bem real. A situação política internacional é cada vez mais volátil e a alteração da correlação de forças pode ser mais rápida do que se imagina. Como o Cardeal Canizares, defendo a urgente necessidade, também por este motivo, de um recrudescimento do cristianismo na Península Ibérica. Precisamos de um Estado laico, mas também precisamo de uma Igreja Católica dinâmica socialmente, sem as pretensões ao poder que a caracterizaram durante uma parte da sua vida. O cristianismo é a matriz essencial das liberdades ocidentais. Não o esqueçamos.

Manuel António Pina - Ainda a "educação"

O conflito aberto do actual ME não só com os professores mas também com a língua portuguesa não é apenas sintoma da incultura e do "porreirismo pá", terreno propício à arrogância e à pesporrência, por ali dominantes. É sintoma de algo mais grave, e estrutural, pois dir-se-ia previsível que, num ministério da "educação" cujas políticas perderam de vista quaisquer objectivos de "instrução", substituídos por aquilo que, em eduquês padrão, é designado por formulações obtusas como "aprender a aprender" ou "desenvolvimento de competências", sejam inteiramente irrelevantes práticas ou pessoas instruídas.

Mesmo que, por hipótese, fosse possível organizar (sob os auspícios, sei lá, das Novas Oportunidades) uma Conferência de Paz entre a responsável da DREN ou o secretário de Estado Valter Lemos (aquele das propostas "colocadas 'de' cima da mesa") e a Gramática, ou entre o "Magalhães" e a Ortografia, o problema central manter-se-ia. No actual estado de coisas, o cínico ditado segundo o qual "quem não sabe fazer ensina", deve, mais apropriadamente, ser substituído por "quem não sabe ensinar 'educa'" [Jornal de Notícias, 11 de Março de 2009].

Sociedade e violência


O massacre de hoje numa escola secundária alemã é mais um sintoma de que algo vai muito mal, no Ocidente, na relação entre os jovens e a sociedade. A moda dos massacres nos liceus foi importada dos EUA e está a propagar-se aos países do norte e centro da Europa. Seremos imunes? Num mundo globalizado, ninguém está imune ao contágio das atitudes e comportamentos. Até porque as teorias educacionais e a forma como se vê a infância e a juventude é idêntica em todo o mundo ocidental. A escola é um sítio muito específico e concentra nela muitas tensões, as quais têm sido intensificadas com as teorias da abertura da escola à comunidade. É o que se passa também em Portugal. Estes exemplos (aqui e aqui) vindos de Braga mostram, mais uma vez, que a doença existe e que ela pode tornar-se numa tragédia.

Hannah Arendt chamava, já há várias décadas, a atenção para o problema da autoridade, nomeadamente na autoridade na escola. Ela é fundamental para proteger as crianças e os jovens da sociedade. Mas Arendt também chamava a atenção para a necessidade de proteger a sociedade dos actos dos próprios jovens. Parece que ela tinha toda a razão, contra aqueles que endeusaram a infância e a juventude e criaram as condições para acontecimentos como os de hoje, em Estugarda.

10/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XX

o frio começa a rodar sobre a aridez.
e as mãos refluem, recusam
uma existência ponderada.
resta-te, sobre um sal encapelado
e fúnebre, um caminho de ecos,
um crepúsculo eléctrico,
cada vez menos palavras franqueando
o prolongado delírio,
cada vez mais desconexas sílabas,
cada vez mais vogais
permitindo à voz desmantelar-se
num aceno, chegar
à encruzilhada que a noite ainda vela.

Susana Baca - De Los Amores

Lá volta a questão dos níveis


Os especialistas estão a chegar à conclusão de que as previsões para a subida do nível da água do mar pecam por conservadoras. A situação será muito pior do que se julgava (aqui), podendo essa subida ser o dobro do projectado. Uma tarefa interessante será especular sobre os vários imperativos que impendem sobre as sociedades actuais. Diminuir o efeito de estufa e a pressão sobre as natureza e, ao mesmo tempo, aumentar os níveis de vida das populações do planeta, gerando maior consumo. Há qualquer coisa que não funciona. Se existe, uma relação entre o aumento do nível da água do mar e a actividade humana, não será que alguma coisa terá de mudar? Se queremos baixar o nível da água do mar, então teremos que baixar a emissão de gases com efeito de estufa. Se temos de baixar essas emissões, teremos de produzir e consumir menos. Se produzimos e consumimos menos, então o nível de vida terá de baixar. Não seria altura de inventar um novo paraíso que substitua o paraíso do consumo e da riqueza?

José Trincão Marques - Terra Nossa


Em linha, desde 8 de Março, encontra-se Terra Nossa, blogue de José Trimcão Marques. A epígrafe, uma citação de Miguel Torga, dá o mote ao empreendimento: "o meu segredo é este: curo as chagas com pensos da terra". Portanto, estamos perante um blogue telúrico, como os primeiros posts parecem indicar. Mas há também intervenção no modus faciendi nacional: «A ironia cáustica e lúcida destas palavras parte da boca do velho Afonso da Maia. Portugal está cheio de Egas e Carlos que se lamentam do país onde nasceram, mas nem legumes se dão ao trabalho de plantar (quanto mais outras coisas). Sem darem por isso, acabam por fazer parte da prodigiosa imbecibilidade nacional do «não vale a pena». Portanto, um blogue que não alinha com os Vencidos da Vida. Vamos ver a evolução. Seja como for, a blogosfera com origem em Torres Novas está a tornar-se mais rica.

Os comunistas e a educação


Por norma, considera-se que o PS e o PSD, devido à permanência na governação, são os grandes responsáveis do desastre educativo. Isto é verdade. Mas não podemos esquecer o papel do Partido Comunista na difusão de uma ideologia que fundamenta e intensifica o desastre escolar. Já nem me estou a referir às reivindicações do jovens comunistas para pôr fim aos exames. Refiro-me, por exemplo, a este post de Vítor Dias, no Tempo das Cerejas. Veja-se o desvelo com que este dirigente comunista trata as afirmações do sociólogo francês Olivier Galland. As proposições de Galland vêm na mesma linha da ideologia que destruiu a escola republicana em França, e que impediu um salutar desenvolvimento da escola pública portuguesa. Vítor Dias compraz-se na sociologice mais barata que infecta o discurso educativo. É pena.

09/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XIX

o poema empurra-te para uma fímbria
de litorais. se a mesa se dobra, acercas
uma viagem, e a vertigem debruça-se
como um selo sobre o júbilo.
exiguamente colado à escuridão,
escreves – e a trémula vida dos nomes
socorre-te do estertor das fábulas.
demorada em sua leveza,
cada fonte é também
um ramo de cicatrizes
que floresce para um sangue anterior
ao tempo, sob
a vigilância da fauna
que desune o esqueleto.

Stephan Micus - Mikhail's Dream

A virtude da honestidade


António Barreto escreveu, ontem, no Póblico o seguinte: «À honestidade aconteceu algo de parecido. A ponto de se considerar que uma pessoa honesta "é parva" e "não sabe da poda". Abundam os lugares-comuns que revelam que a honestidade não é um valor com muita saída. Quem defende a honestidade é considerado "ingénuo". De alguém que perde tempo a escrever sobre a necessidade da honestidade na vida pública se dirá simplesmente que perde tempo com "sermões". De um honesto se garante que nunca será rico nem irá muito longe na política. Um comerciante que não "mete a unha" é palerma. Um corretor de bolsa que não usa informação privilegiada e não manipula os concorrentes é um mau profissional. Um político que, antes das eleições, não esconde as dificuldades, para só as revelar depois de ganhar, é um "tonto" e deveria mudar de profissão. Um empresário que nada oculta aos trabalhadores é um "samaritano" sem killer instinct. Um estudante que copia ou plagia só merece condenação se for descoberto. Aliás, se for "apanhado", a complacência é de rigor

Por um acaso, numa das minhas aulas de hoje, a questão da honestidade na actividade escolar foi debatida. A necessidade de não copiar, de não plagiar, de não pedir aos primos licenciados que façam os trabalhos. Enfim a necessidade de evitar a batota, pois ela não só distorce a justiça entre alunos, como torna aquele que faz batota menos apto.

Houve duas coisas que me impressionaram. Em primeiro lugar, impressionou-me a complacência, para não dizer o desprezo, com que muitos alunos encaram o dever de honestidade e probidade intelectuais. Por mais que se explique, do ponto de vista ético e até do ponto de vista da utilidade pura e simples, eles não entendem a gravidade do acto de copiar, de entregar trabalhos feitos por outros, etc. Em segundo lugar, impressionou-me a intervenção de alguns alunos que subliminarmente deram a entender que percebiam muito bem as limitações dos professores para penalizar os alunos batoteiros.

As dificuldade de Portugal não são apenas económicas. As mais graves residem aqui, no desprezo pela honestidade. As escolas deveriam ser um lugar onde o desprezo que a comunidade tem pela virtude da honestidade seria duramente combatido. O que acontece, porém, é que a ideologia oficial manda abrir as escolas à comunidade, o que tem por consequência que a escola acabe por ser soterrada pela maneira como a comunidade vê o mundo e as relações sociais. O que este governo tem feito, ao nível do estatuto dos alunos, é acentuar as anteriores políticas de desresponsabilização das novas gerações, e por isso permitir que uma cultura, onde a honestidade não faz sentido, se solidifique cada vez mais no sistema de ensino.

Triste tristeza, por que és tão triste...


O actual regime político português está esgotado. Se dúvidas houvesse, bastaria ler as palavras do Presidente da República. Cavaco Silva disse estar «preocupado e até um pouco triste com a situação que o país atravessa». Desde quando a tristeza faz parte do jogo de linguagem da política? Haverá melhor prova de esgotamento do que a confissão de impotência presente nesta declaração? Repare-se na continuação do discurso do Presidente: «... mas continuo muito determinado em falar com os portugueses, conhecer as preocupações daqueles que têm dificuldades e estimular os que têm sucesso». Falar, conhecer, estimular são os verbos de uma confissão, de uma confissão de impotência que não é apenas a da limitação constitucional dos poderes presidenciais, mas do próprio regime. E o que pensa Cavaco fazer? Vai-se «manter no mesmo rumo, o de tentar dar confiança aos portugueses». Vai-nos dar mais do mesmo, daquilo que levou a esta "triste" situação, vai tentar (sic) dar confiança.

Cavaco não é exactamente como os outros políticos que pululam nos partidos governamentais. É mais honrado e mais atento aos valores do bem comum. O problema de Cavaco é que ele nunca passou de um contabilista, mesmo quando aprendeu os jogos esconsos da demagogia, na altura em que os dinheiros da CEE permitiam todos os delírios. Perdido o controlo na contabilidade, ele nada tem para dizer aos portugueses, aos portugueses que já não acreditam nas elites partidárias. A noite é cada vez mais escura.

O exemplo grego


Uma bomba explodiu em frente de um banco, em Atenas. É o segundo atentado nos últimos quatro dias. O caso grego não deixa de ser interessante. A contestação social gerada pela morte de um jovem não foi suficientemente percebida para lá das fronteiras helénicas. Não se tratou de uma revolta episódica. Pelo contrário, instalou-se um clima de contestação social global. Mas as coisas parecem não ficar por aí. Passou-se depois para a fase de pequenos actos criminosos (incêndios) contra instalações governamentais. Agora chegaram os atentados terroristas. Não nos esqueçamos, a Grécia é uma democracia e faz parte da União Europeia. Mas o problema não é apenas grego. O exemplo helénico tem condições sociais para alastrar a muitos países da União. A democracia não e um escudo contra a revolta gerada pela injustiça. Veremos.

08/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XVIII

(trabalhar no decalque de uma labareda,
a manhã um violino trespassando
as marés de simulacros.
e a garganta, presa a uma cascata,
de repente a já não poder mais:
arrancando ao som um acordo visceral, impetuoso –
e braços, pernas, cabelos todos
de regresso a um principiar de mundo,
vogais sem leme, sob o inexorável
recuo da boca, achando
o arquipélago final –
tantas vezes afundado no
sujo lacre da lucidez.)

Charles Aznavour - Que c'est triste Venise

Em busca do suicídio



Mário Nogueira emergiu, na crise que assola a educação, como a figura central da representação dos professores. Infelizmente! Esta ameaça de greve às avaliações mostra que a inteligência é coisa que não abunda lá para o lado dos sindicatos. Esta gente não terá percebido que na tentativa anterior de greve às avaliações, o governo trucidou os professores e abriu caminho para o conjunto de malfeitorias que se propôs fazer? Eu sei que há professores que defendem esse tipo de radicalização do conflito. Mas essa posição coloca os professores em maus lençóis. Em primeiro lugar, transforma o professor num mero assalariado, idêntico a qualquer outro que pode fazer greve em quaisquer circunstâncias. Isso significa que o professor não é um elemento central na constituição da comunidade e que não tem deveres especiais. Os professores que defendem isso, uma greve às avaliações, concordam tacitamente com a política governamental de proletarização da classe docente. Em segundo lugar, uma greve às avaliações, do ponto de vista táctico, é uma vitória para o governo. Mais uma vez terá oportunidade para isolar os professores, depois destes terem recuperado a simpatia da opinião pública.

Os sindicatos já erraram demasiado. Mesmo a recusa de negociar sem que o governo retirasse o actual modelo de avaliação foi um erro estratégico. Os sindicatos deveriam ter aceite o modelo e negociar a sua melhoria, a sua desburocratização e a eliminação de itens de avaliação absolutamente ridículos, como aqueles que dizem respeito à relação do professor com a escola ou com a comunidade. Mas este tipo de idiotices devem agradar tanto aos nossos sindicalistas como aos nossos decisores políticos. Não deixa de ser traumática para a classe docente estar entregue a pessoas como Lurdes Rodrigues, Valter Lemos, Jorge Pedreira, Mário Nogueira e a restante horda de sindicalistas.

07/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XVII

observa como o espanto
se desprende do jejum.
basta-te a tarde, o seu afago
a suspensas melodias,
o ainda sono de estenderes a nudez
pela profusão da infância.
talvez por isso o vinho se agarre tanto
ao nomadismo, e a noite se renda
a quem solta o lume por largos descampados,
cauterizando as constelações, a sabedoria
de quem primeiro soube beber
de um só hausto o firmamento.

Rytis Mazulis : Clavier of Pure Reason

PCP - 88 anos


Foi no Portugal dos Pequeninos que dei conta do aniversário do PCP. Ontem, o Partido Comunista Português fez 88 anos. Subscrevo o essencial daquele post de João Gonçalves. Quem me conhece há muitos anos sabe que militei fugazmente no PCP. Também sabe que há muitos anos que eu não me reconheço nem nos princípios teóricos-filosóficos do marxismo, nem na praxis dos partidos comunistas, qualquer que seja a sua orientação. Dito de outra maneira, não sou comunista nem gostaria de viver num regime comunista. Mas o PCP tem qualquer coisa que é exemplar na vida política portuguesa. Os seus militantes, genericamente, possuem convicções, lutam por elas, são gente honrada e tentam gerir a sua acção política pela interpretação que fazem do bem comum. Se os partidos da área da governação (PS, PSD e CDS-PP) tivessem idêntica atitude relativamente os ideais democráticos e republicanos e ao bem-comum, a democracia portuguesa não seria o pântano que é. Não sendo sequer simpatizante comunista, julgo, no entanto, que o PCP tem duas coisas essenciais a dar à sociedade portuguesa: 1. o seu exemplo relativo à forma de estar na política, batendo-se segundo princípios, convicções e causas, agindo de forma honrada e visando o bem-comum (de acordo com o que pensa ser o bem-comum); 2. dar voz a uma parte da população que a miséria política, económica e moral tende não apenas a empobrecer, mas a roubar-lhe a possibilidade de ter opinião e visibilidade política.

A sociedade portuguesa continua a dar razão de ser à existência do PCP.

EPHEMERA - biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira


Disponível em modo de blogue está EPHEMERA - biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira. Vale a pena ir lá, e passar algum tempo a explorar as coisas que por lá estão. Melhor do que aquilo que eu possa dizer são as palavras do próprio José Pacheco Pereira: «EPHEMERA tem como objectivo divulgar materiais da biblioteca e arquivo pessoais de José Pacheco Pereira, em particular dos diferentes espólios, doações, ofertas e aquisições que deles fazem parte. Na medida do possível, do tempo e das circunstâncias, todos estes materiais estão acessíveis aos investigadores que deles necessitem para o seu estudo e trabalho, nos condicionalismos normais de uma biblioteca e arquivos privados. Dada a dimensão e qualidade de alguns dos materiais, em particular as espécies únicas e as colecções especializadas inexistentes em bibliotecas e arquivos públicos, o meu objectivo, a prazo, é tornar disponível a todos este acervo.» Para além de EPHEMERA, José Pacheco Pereira mantém outros dois blogues: Abrupto e Estudos sobre o Comunismo.

06/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XVI

quando as lâmpadas se ferem, o frio
faz surpreendentes ditados
à sinuosa quietação dos lábios.
quando se respira
contra uma janela alta, mãos
mergulhadas no espanto,
a vida toda é isto, ali:
um vidro pulmonar, a paisagem
de tal modo unida ao fôlego
que ambos se indistinguem num mesmo correr
de aparições.

Arnett Cobb & Eddie "Lockjaw" Davis - Go Power

O direito de enterrar e honrar os mortos


Vale a pena ler o trabalho do Público sobre Khavaran, um lugar perto de Teerão, para onde foram despejados os cadáveres daqueles que o regime islâmico iraniano foi executando entre 1980 e 1988. Um lugar "onde as flores e as lágrimas estão proibidas". O horror descrito pelos entrevistados é inominável, mas as palavras da escritora Monireh Baradran deixaram-me absolutamente perplexo: "O direito de enterrar os mortos e de os honrar é, na minha opinião, mais importante do que o direito de cidadania." Não é apenas o sintoma de um desespero perante a ignomínia que nos toca, mas, mais do que todo o resto, é ouvir, em 2009, a voz de Antígona a exigir a sepultura e honras fúnebres para o seu irmão, como se a tragédia de Sófocles ainda fosse pregnante, como se o dever para com os mortos se tivesse de sobrepor aos deveres para com os vivos. Aqueles que acham que o Islão pode ser um útil "compagnon de route" na luta contra o Ocidente capitalista, deveriam, se não forem completamente pervertidos, meditar nas palavras destes iranianos a que o Público dá voz.

Jornal Torrejano, 06 de Março de 2009

Disponível na internet encontra-se a edição desta semana do Jornal Torrejano. Destaque para a decisão da Assembleia Municipal de Torres Novas: anulou a concessão de serviços de águas a privados. Referência também para a decisão da Câmara começar por pagar as dívidas com juros mais elevados.

Na opinião, comece-se por ler Carlos Henriques e Mau futebol no Porto-Sporting. Depois, pode ler Carlos Nuno, O engenheiro, Francisco Almeira, Desconhecido, Inês Vidal, Corrimão e José Ricardo Costa, Violência Doméstica.

Para a semana haverá mais Jornal Torrejano, assim o queiram os imortais. Bom fim-de-semana.

Haja esperança (II)

As sondagens parecem não correr de feição para o partido do governo. É já qualquer coisa. Isto não significa que Sócrates não possa a vir a obter uma maioria absoluta. Mas talvez os portugueses estejam a despertar de um sonho, e comecem a perceber que afinal era um pesadelo. Não é que o nível político das oposições seja sequer recomendável. Não é pior nem melhor do que o do governo, é igualmente medíocre. Mas uma situação confusa, talvez seja um princípio de saída. Alguma coisa terá de acontecer, alguma coisa será melhor do que o estado a que se chegou. Haja esperança.

Haja esperança (I)


Nem tudo corre pelo pior. Em 2008, nasceram mais bebés do que em 2007. Os números estão, agora, ao nível de 2006. O aumento de nascimentos, num país envelhecido como o nosso, é uma coisa salutar e que convém sublinhar, como se sublinhou aqui, em anos anteriores, o desastre demográfico. Este aumento pode não querer dizer nada, mas também pode representar um princípio de esperança. Por muito trabalho que dêem a educar, uma comunidade precisa desesperadamente de novos elementos. Caso contrário, morrerá. Haja esperança.

05/03/09

Moisés David Ferreira - Reencontro XV

o que eu digo é: abre os ossos
com a leveza de um outono a tombar.
as palavras são globos subterrâneos,
vazios ao meio – têm de chegar à boca
como um extenso ritual a desfazer-se.
até à derradeira deserção.
o que eu digo: escreve
como se caçasses uma visão,
ou um fantástico animal
se conduzisse, incisivo, para o teu ventre,
e lhe tomasses o instinto como
se a morte fosse o destino desse amplexo.

Gotan Project - Milonga de amor

Democracia na era da suspeita



Historicamente, a democracia manifestou-se sempre tanto como uma promessa, tanto como um problema. Promessa de um regime harmonizado com as necessidades da sociedade, sendo esta última fundada sobre a realização de um duplo imperativo de igualdade e de autonomia. Problema de uma realidade, muitas vezes, bastante longe de satisfazer estes nobres ideais. O projecto democrático nunca deixou de ficar incompleto lá mesmo onde ele era proclamado, quer tenha sido grosseiramente pervertido, subtilmente contraído ou mecanicamente contrariado. No sentido mais forte do termo, nunca conhecemos regimes plenamente «democráticos». As democracias realmente existentes permaneceram inacabadas ou mesmo confiscadas, em proproções, segundo os casos, muito variáveis. Daí que os desencatamentos andem a par com as esperanças que fizeram nascer as rupturas com os mundos da dependência e do despotismo [Pierre Rosanvallon (2006). La contre-démocracie. La politique à l'âge de la défiance. Paris: Ed. du Seuil].

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Não se encontrará a nossa democracia perto do quadro descrito por Rosanvallon? Não se estará ela a tornar numa «democracia» confiscada. É certo que as instituições vão funcionando, mas vive-se um momento em que a tensão entre a esperança na democracia e a descrença (o autor fala em défiance - desconfiança, suspeita) nela parece estar a pender para o lado da suspeita. Muita gente começa a suspeitar da capacidade da democracia realizar as suas promessas.

O interesse do texto de Rosanvallon reside em chamar a atenção sobre o óbvio: a democracia realiza-se num cumprimento de um duplo imperativo, o da igualdade e o da autonomia, isto é, da liberdade. Durante os últimos decénios a querela entre igualdade e liberdade tem animado as discussões sobre filosofia política, tendo a consideração da igualdade sofrido um abalo, até como desforra dos tempos em que o igualitarismo marxista tomou conta de uma parte do mundo e arrastou uma parte substancial do Ocidente a inventar o Estado-Providência, uma forma democrática de assegurar uma certa igualdade entre os membros de uma sociedade.

O que interessa, neste momento em que as desigualdades entre os homens se acentuam, é chamar a atenção para uma outra perspectiva. A querela entre liberdade e igualdade sublinhou apenas os aspectos aparentemente incompatíveis entre ambas. Mas o que ficou recalcado foi o facto de liberdade e igualdade se requererem mutuamente. O perigo das desigualdades sociais acentuadas não é apenas do aumento do fosso entre ricos e pobres, mas o de abrir o caminho para uma efectiva eliminação da autonomia de larga massa de indivíduos e a consequente supressão da liberdade.

A democracia é promessa e problema. Promessa de uma sociedade mais justa, problema de encontrar a justa medida onde igualdade e liberdade se maximizem mutuamente. A suspeita que nasce sobre a democracia funda-se nessa clivagem entre igualdade e liberdade, clivagem que faz parecer que a liberdade apenas serve para que os mais fortes oprimam os mais fracos. Se não quisermos ver a liberdade suprimida, então será melhor que cuidemos e reinventemos novas formas de realizar os imperativos da democracia.

A feroz concorrência


O mercado em Portugal sempre foi uma armadilha para os portugueses. A concorrência deveria fazer baixar os preços e encontrar formas de melhor servir os consumidores. Mas, por cá, quanto mais concorrência existe, mais devagar descem os preços. Pelo menos, parece. Veja-se o caso dos lucros da Galp no último trimestre de 2008. O lento acerto no preço dos combustíveis, relativamente à evolução do preço internacional do petróleo, gerou um acréscimo dos lucros, segundo o Público, de 105 milhões de Euros. Dito de outra maneira, foram os consumidores penalizados em 105 milhões de euros, só nas compras efectuadas à Galp, pela concorrência feroz que existe no mercado português dos combustíveis. Depois, os nossos liberais ficam espantados pelas saudades dos consumidores dos tempos em que os preços eram tabelados politicamente. Vá lá saber-se por quê.