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13/08/07

Diário de um banhista - Epílogo

Não há bem que não acabe, nem mal que sempre dure. É com esta referência à cultura popular e ao são senso comum que me despeço deste diário, querido diário, que me tem acompanhado nestes dias de exílio, nesta peregrinação ao santuário de Posídon. Dirá o leitor, o eventual leitor, corrijo, que o provérbio não esclarece se esta estadia é, por mim, banhista, considerada um bem ou um mal, um exílio ou uma peregrinação. Lamento, mas deixarei a interpretação em aberto. Não quero condicionar a leitura destas aventuras e impor uma significação unívoca. Expostas ao mundo, cada um que as interprete como quiser ou como puder. Nelas encontrará vasta matéria para meditação sobre a natureza dos homens e do mundo e, se for mais aberto ao domínio do esotérico, certamente irá passar longas horas em busca da chave cabalística que se oculta no emaranhado destas pobres narrativas.

Saiba, porém, que hoje, o último dia desta aventura, e isto não é despiciendo para a tal chave acima referida, decidi passar a manhã na praia, a passear para cá e para lá, a molhar os pés, a ver os mais afoitos dentro de água. Para quê, perguntar-me-ão. Para nada, respondo. O banhista ideal, ao contrário do banhista real e empírico, é perfeitamente destituído de qualquer interesse e finalidade. Faz o que faz e nada mais há a acrescentar.

Resta-me, agora, arrumar as malas, despedir-me da criançada, que tem mais que fazer do que aturar banhistas em fase de pré-senilidade, e adeus oceano tenebroso, o vasto mundo, a terra firme, espera por mim. Ite, Missa est.

12/08/07

Diário de um banhista - XII

O mal sempre vem. Hoje, domingo, ocorreu o que temia na semana passada. Regra da casa: ao domingo, ninguém põe pé na praia, seja esta qual for. Que aconteceu, hoje, domingo? Foi declarado dia de excepção. Por que motivo, Senhor, fizeste tão inconstantes as tuas criaturas? Tudo para a praia; a criançada banhante na vanguarda solar. Criançada quer dizer aqui: gente entre os 20 e os 27 anos. Mas quem será fiel às regras expressas para regulação da comunidade? No dia em que as regras não forem cumpridas por ninguém ainda serão regras? E poderá uma comunidade, pequena que seja, viver sem regras? Não, não, mil vezes não.

Eu, o banhista por antonomásia, decido abdicar do meu prazer da areia, dos escaldões solares, da gratificante companhia dos milhares e milhares de seres humanos que vêm exibir para a praia a sua humanidade, abdico, repito-me, da excelência da sua companhia nas águas onde mergulho e decido, reafirmo, assim e num gesto de puro altruísmo, sacrificar-me pelos valores comunitários. Vão sem mim, digo, com um ar pesaroso e compungido, como se tivesse acabado de sair de um confessionário. Tenho pena de não os acompanhar, faço notar, mas fico por aqui a garantir o cumprimento zeloso das regras, a dar o exemplo que os mais novos, quando forem mais velhos e perceberem o alcance do gesto, reterão e transmitirão à sua descendência, se a tiverem.

Abandonado por todos, sem esperança de uma sardinhada dominical, condenado a uma refeição frugal, o fiel banhista aqui está perante o computador a cumprir a sua missão: narrar a sua gesta, contar aos outros os seus feitos, propagar ao mundo a sua epopeia nas praias de Portugal. É um fresco épico o que o meu ego me pede, um fresco que cale as navegações de gregos e de troianos e até de lusitanos. Sinto-me já o novo Camões anunciado pelo Pessoa. Suave é a carícia das ninfas e o vento da inspiração.

Mas o que resta a quem fica só? A memória, a doce mas infiel memória. A recordação das aventuras tidas, dos banhos tomados, dos mergulhos dados. A única coisa que posso fazer é desfolhar o glorioso livro da minha estadia a banhos e dar a conhecer os extraordinários episódios onde, nestes dias, se revelou a minha essência de banhista. Mas será que vale a pena repetir-me? Não será este diário, fiel acompanhante e confidente querido, a expressão mais viva dessas aventuras? Valerá a pena fazer como as pessoas já entradas na idade e repetir-me até não mais me poderem ouvir?

Não, vou poupar o leitor aos meus acessos temporãos de senilidade e calar-me. Desde que deixei de ir à missa e ao futebol, o domingo sempre foi um dia triste, salpicado de angústia. Remeto-me ao silêncio. Nele, conforta-me o espaço espiritual onde a minha memória, a doce memória destes dias bem-aventurados, me vai consolar. Sim, a rememoração sempre foi a mais doce das consolações. É ela que vai ser o analgésico para a dor de tanto abandono e tanta traição. É duro ser um fiel banhista.

11/08/07

Diário de um banhista - XI

No outro dia fiquei chocado. Então, não é que os Inspectores da ASAE apreenderam 400, ou terão sido 4000?, Bolas-de-Berlim fresquinhas, daquelas mesmo boas para comer em pleno tempo de banhos. Esta preocupação com a saúde pública parece-me uma manobra das capitais escandinavas para aniquilaram as vantagens competitivas de Portugal. Não percebem que tudo isto é uma forma de indústria caseira, diria mesmo que é o nosso verdadeiro artesanato. Depois da alheira de Mirandela, dos múltiplos salpicões, dos chouriços e dos chourições, agora até Bola-de-Berlim está a ser alvo das arbitrariedades dos inspectores a soldo do governo, que por sua vez contemporiza com as pretensões daquela malta esbranquiçada, educada, ecológica e liofilizada, que habita as regiões do norte deste continente que viu nascer o glorioso banhista que eu sou.

Note-se que não quero aqui denegrir a imagem do nosso primeiro-ministro e acusá-lo de ser agente infiltrado das potências nórdicas adeptas da liofilização geral. Não, saliento apenas que o seu espírito pós-moderno, habitado pela epopeia da sociedade do conhecimento e pelo sonho – verdadeiro desígnio pátrio – do choque tecnológico, não o habilita a compreender o desvelo com que nós, portugueses ignaros, amamos os riscos provenientes da manufactura caseira de alimentos. Que interessam as salmonelas, se as bolas são uma arte caseira, feita com as mãos sujas, mas patrióticas, que fazem um bolo plenamente nacional, apesar daquela funesta referência a Berlim? São capazes de me explicar?

É um facto que sou um banhista. Mais, sou o verdadeiro banhista, aquele onde a essência de banhista coincide com a sua própria existência. Mas isso não quer dizer que não seja patriota e não ame aquilo que todos nós portugueses – deixem-me falar no plural – amamos. Solidário com o Portugal autêntico, levemente desgostado com a deriva tecnicizante do Engenheiro, ao levantar-me hoje, eu que sou por natureza indeciso, tomei uma decisão: nada de praia, vou realizar a minha vocação de banhista para outro lado.

E lá fui em demanda do Santo Graal. Entrava e saía, à socapa, de cafés e pastelarias até que chego ao Templo e entro no Santo dos Santos. Era ali que terminava a dorida busca do cálice com o sangue de Cristo. Miro a vitrina, salivo, sinto o coração a palpitar. Uma Bola-de-Berlim, digo em voz de comando. A rapariga não se amedronta com o meu vociferar, sorri, indulgente quase cativante, e retruque: com ou sem creme? Sorrio também. Sinto-me em casa, no meu Portugal, nada naquela rapariga simples do povo me faz lembrar o Engenheiro Sócrates. Talvez o buço, se o Engenheiro o deixasse crescer, mas não nos desviemos. Com creme, minha amiga – respondo a fazer-me já íntimo –, com creme, que eu sou banhista. Ela não deixou de sorrir e serviu-me uma enorme bola a abarrotar de creme, esplendidamente banhada em óleo – quantas bolas, ó doces bolas, não terá aquele óleo fritado antes desta que irá morrer nas minhas vísceras e contribuir assim para a untuosidade geral do meu querido Portugal.

Ser banhista é mais do que tomar banho, ser banhista é comer Bolas-de-Berlim com creme, ser banhista é ser português sem os desvarios tecnológicos dos engenheiros e dos inspectores que nos engenham e inspectam a cada momento. A ASAE, o governo, o próprio Engenheiro, que fiquem sabendo: resistiremos, não passarão. Que vão para a Finlândia que os deu à luz (como vêem, sou um banhista educado), nós continuaremos com as nossas bolas no sítio que é o delas.

10/08/07

Diário de um banhista - X

Confortado na certeza de ser o único e verdadeiro banhista, recusei-me hoje a pôr o pé na praia, não vá ele inchar ou tomar-se de urticária. Quem precisar de mostrar que é um banhista que vá a banhos, eu fico-me pela esplanada a enxotar moscas, a ler jornais, a beber cafés e a rodar a cadeira para fugir ao sol. Olho o mar e começo a contar os dias que faltam para, contristado, deixar o lugar idílico a que chamam praia, lugar que o calendário deste mundo infeliz me impõe com a regularidade das estações. Nem uma aventura, mesmo metafísica, tenho para contar hoje neste pobre diário. Estes tempos fritam-me os neurónios, esfriam-me a coragem, e pouco mais consigo fazer do que balbuciar algumas palavras e deslocar-me, entre as sombras mortais que me rodeiam, com o ar desgastado de quem a vida abusou com trabalhos e sofrimentos, lutas e canseiras. Um banhista, mesmo da estirpe dos imortais como eu, não é de ferro. Estou cansado e, como o divino Ulisses, sonho com o regresso à pátria, que o malfadado Posídon não permite. Suspiro, se oiço o vozear das águas a bater nas areias. Quando chegarei a Ítaca, à minha doce ilha, pedaço de terra rodeada de calor por todos os lados?

09/08/07

Diário de um banhista - IX

Chegado ao 12.º dia de estadia na praia questiono-me: serei um verdadeiro banhista? Terei o direito de escrever este diário? Esta interrogação não cai do céu aos trambolhões, não. Pelo contrário, há motivos empíricos que sustentam o dilema que me assoberba a razão. Quando tudo estava preparado para rumar em direcção à praia, não é que uma súbita angústia se apossa de mim e me faz dizer: vão, vão, sem mim. Cá os espero. E lá foram e eu fiquei dividido entre as cartas de Schiller e uma ida ao café. Acabei por escolher uma esplanada sobre o mar, onde li duas cartas sobre a educação estética da humanidade, bebi uma italiana – em sentido figurado, note-se – e olhei as águas do mar em profunda meditação metafísica.

Foi perante esta inclinação para fugir a sete pés da areia que o meu espírito se interrogou sobre a minha verdade enquanto banhista. Será que sou um banhista? Em desespero, recorri ao dicionário, o da Porto-Editora, passe a publicidade, e encontrei as seguintes definições de banhista: “1. pessoa que toma banho no mar, no rio, ou em piscinas; 2. pessoa em tratamento em local de águas medicinais”. Como se poderá ver pelas definições dadas, senti-me vítima de exclusão. Então eu que não estou em tratamento num local de águas medicinais, nem tomo banho no mar, no rio, ou em piscinas, nem sequer em albufeiras nem em lagos ou lagoas, não tenho direito ao nome de banhista?

Terei de suportar, neste mundo pós-moderno, séculos e séculos de preconceitos fundados na discriminação social e na divisão classista? A revolução francesa não trouxe a igualdade? Não foi para que todos fossemos banhistas que se cortaram tantas cabeças? Terão sido em vão tantos sacrifícios? Pobre Maria Antonieta, infeliz Robespierre. Nesta profunda angústia existencial, duvidando da minha própria essência de banhista, decido mergulhar mais fundo no dicionário e fazer uma pesquisa em «banho».

Aleluia, aleluia, eis a boa­-nova. Depois de cinco definições literais, denotativas, de banho, surge uma primeira definição figurada. A conotação salvar-me-á, pensei. Banho é “a acção de se impregnar de ou mergulhar em”. Quando vi «impregnar de», desconfiei. Nada de «impregnanços» e ainda por cima equívocos: impregnar de… Meus Deus, de que se impregnarão as pessoas que se impregnam de…? Mas este equívoco, insuportável quando se utiliza o vocábulo «impregnar», tem um carácter salvífico se aplicado a mergulhar em… Esta abertura de sentido mostra, afinal, que eu, aquele que não mergulha em mares, rios, piscinas, lagos, albufeiras e poços, posso (desculpem a cacofonia) ainda assim mergulhar em… e ostentar o glorioso epíteto de banhista.

A meditação leva-me mais longe e revela-me a essência da verdade. Enquanto todos os outros são banhistas de mar, ou de rio, ou de lagoa, ou do quer que seja, eu que não sou banhista de nada em particular, sou um banhista em geral. Pobres banhistas do mundo empírico, enroladas na materialidade das águas, o que sois vós, sombras, ao pé de mim? Eu sou o verdadeiro banhista, a essência de banhista reside em mim, como para Platão a essência do mundo sensível residia no mundo das ideias. Ora se eu sou não um banhista particular e empírico subjugado às especificidades e limitações sensíveis, mas a ideia veraz e imutável de banhista, então não há qualquer razão para a minha angústia. Estou salvo e este diário, de cuja legitimidade eu começava a desconfiar, encontra-se não só justificado de facto, mas também de direito. Ó pobres mortais, vós de banhistas apenas sois a sombra, enquanto eu, aquele que mergulha em…, é o único banhista digno desse nome. Mergulhem onde vos aprouver, que eu mesmo no café já estou imerso em… e nunca deixo, onde quer que esteja, de ser o banhista que sou. A angústia que de mim se apossou é apenas o sentimento de desprazer daquele que sabe o que é a verdade e se vê confrontado com as sombras ilusórias daquilo a que os pobres mortais, de pensamento errante, chamam realidade. Ora, passem bem.

08/08/07

Diário de um banhista - VIII

Decisão e coragem são virtudes maiores de um banhista. A mim, porém, são qualidades que me falecem mal enfrento as águas. Saudoso de aventuras marítimas lá me dirigi para uma das muitas praias que por aqui há. Sugeri que fossemos a outra mais habitual. Perdi a votação. Muito vento, foi o que ouvi como justificação. Parece que aqui se vive numa democracia argumentativa, com direito a justificação dos actos e tudo. Lá fomos, armados de chapéu-de-sol, toalhas, cremes contra os ultravioletas e um livro que escondi entre o atoalhado.

Um banhista que não viva numa barraca tem de aliar à decisão e à coragem a perspicácia geográfica de um fundador de colónias. Como os antigos gregos que saíam da sua cidade natal e iam para a Anatólia ou para a Sicília em busca de território livre e, quando o encontravam, aí fundavam uma nova cidade, colónia da primeira e protegida pelos deuses desta, também os banhistas de chapéu-de-sol e toalha têm de espiar o território, descobrir clareiras, apossar-se com determinação de cada palmo de terreno, delimitar uns metros quadrados, se os houver, de areia, erguer um altar, fazer uma hecatombe, e depois… Bom, depois, mesmo que não haja necessidade de uma oposição determinada a novos colonizadores, é preciso vigiar as fronteiras e exibir o poderio da nova colónia. Como? Erguendo acrópoles de lona defendidas por muralhas de atoalhados turcos coloridos para ofuscar o adversário. Há quem use corta-ventos, mas faço parte de uma geração apostada em novas formas de defesa, mais imateriais e fundadas na vigilância electrónica e no uso de informação via satélite. Adoro planos tecnológicos.

Colónia fundada e defendida, dá-se início à função. Os colonizadores cansados da longa viagem começam a despir-se e exibem-se em roupa interior, com o estranho nome de fato-de-banho, como se alguém precisasse de um fato quando toma banho. Esfregam-se com cremes, esticam os peitos, verificam a consistência dos músculos, se são do sexo masculino acomodam aquilo que os faz ser o que são, se são do feminino tentam tapar os pêlos que sempre crescem onde não devem e que as fazem parecer o que não são. Depois, desatam a correr para a água, os mais decididos, ou avançam lentamente, os timoratos. É o que acontece comigo. Mal a água me cobre os pés, sinto uma dor como se os ossos se partissem.

É aqui que a decisão e a coragem se mostram a as virtudes maiores de um banhista. Respiro fundo, olho o sol e tomo uma decisão: para a Acrópole e já. Debaixo do chapéu-de-sol observo o movimento do universo, e o ir e vir das águas, oiço a restolhadas das crianças e o ganir dos cães de companhia, a maior parte nas respectivas acrópoles, enquanto os seus donos se espojam areia fora. Abro o livro, ponho os óculos de leitura e mergulho nas páginas batidas pelas areias trazidas pelo vento suave. Amanhã levarei tampões para os ouvidos. Para ler, preciso de silêncio.

Cansados de praia, desfazemos a colónia e voltamos à terra pátria. Um banhista não passa de um Sísifo.

07/08/07

Diário de um banhista - VII

Continua a nortada, apesar da temperatura por aqui ter subido. Olho a praia sentado numa esplanada, vejo veraneantes infelizes a segurar chapéus, a correr atrás disto e daquilo, o vento a tudo empurra. As águas ainda estão bravias e a bandeira vermelha, imagino. Mais um dia sem por pé na areia.

Como mortal, este triste banhista submete-se aos imperativos do corpo. Há que satisfazer os impulsos homeostáticos. Triste sorte a dos humanos. E lá me desloco ao hipermercado, que não é assim tão hiper, mas enfim, se temos de comer…

Foi assim que me vi mergulhado num mar de pessoas, a ulular em torno de prateleiras e bancas, os olhos vorazes e as mãos como garras a encher cestos e carros, numa orgia de sacos de plástico, dinheiro de plástico, chinelos de plástico a sonhar comida de plástico. Alumiou-se então o cérebro e percebi, nesse instante, o sorriso de plástico do nosso primeiro-ministro, o Eng.º Sócrates. Numa democracia de sacos de plástico, num povo cada vez mais plastificado, quem melhor para dirigir a plastificação geral?

Vem uma pessoa a banhos para descobrir a essência da nação. Portugal é um país de plástico. Um dia até a areia será de plástico. É o plano tecnológico, cheio de inovações e projectos para desenvolver a pátria. Haja engenheiros, pensei enquanto passava o cartão no terminal da caixa. Recolho ao lar e oiço, ao fundo, o bater das ondas e o sopro do vento. Éolo continua indisposto, Posídon não está melhor. É duro ser um banhista numa pátria de marinheiros. Melhores dias virão.

06/08/07

Diário de um banhista - VI

Frívolo banhista, quem te manda a ti tentar os deuses? Mal sabes tu que eles concedem aos mortais aquilo que estes mendigam. Então, não foste tu que ontem falaste em tempo cinzento, aragens frescas, ventos a cortar a face? Então, toma, aí o tens. Hoje levantei-me decidido a cumprir o meu estatuto de banhista, homem que corta as ondas, lobo-do-mar. Feitas as abluções matinais, tomado o pequeno-almoço, logo exclamei: para a praia. Olharam-me com comiseração. Vi estampado nas faces um juízo irónico sobre a minha sanidade mental, mas ninguém disse o que quer que fosse. Se é para ir à praia, então toca a andar. E lá se foi…

O pior foi sair do carro. Uma nortada das antigas. Não cortava a face, não, cortava o corpo todo, varria os banhistas da praia, levantava ondas de areia, acastelava as águas, semeava um reboliço que mais parecia um terreiro de feira corrido a varapau. Agora, vamos, sussurraram-me. Gaguejo, conto aquela história do anúncio da Sagres – ao mar, ao mar, ao mar; ao bar, ao bar, ao bar – mas ninguém acha graça. Para a praia, para a praia, exclamam, isto não é o Moledo, sugerem-me. A humanidade tem destas coisas.

Como quem paga uma promessa, ou como se fôssemos um cortejo de penitentes, lá marchámos em direcção ao santuário. Bandeira vermelha, alguns surfistas e uma solidão maior que o mundo. Está frio, comento. Olham-me com desprezo. Acrescento: ao menos vamos a casa vestir umas calças e uns corta-ventos. Sorriem. Qual o quê? Toca a marchar e lá me levam a dar uma volta pela ventania, até que alguém exclama: já chega. Chegou. Sinto risos nas minhas costas, olhares malévolos, desconfio de um pacto com Éolo. Gosto de vento, mas o vento norte podia ser menos frio e cortante, concedo. Amanhã, a saga do banhista continua, se tiver mesmo de ser… Que os deuses me protejam.

05/08/07

Diário de um banhista - V

Domingo. Hoje não há saga do pobre banhista. Os banhos de mar, quer dizer, as visitas à praia, estão, cá por casa, proscritos nos dias que outrora eram os do Senhor. É questão de sanidade mental, oiço dizer. Concordo. Mas uma regra não é uma lei, e há que desconfiar: quando chegará o dia em que a regra dá lugar à malfadada excepção?

Curiosamente, hoje que me levantei tarde, deu-me um súbito desejo de ir à praia e fazer jus à minha condição de banhista ou de pré-banhista. Tempo cinzento, uma aragem fresca, ameaça de chuviscos. É em dias assim que o corpo me puxa para o mar. Sonho com praias vazias, o vento a bater as águas e a cortar a face, o sol oculto por nuvens escuras e o extenso areal libertado da presença humana. Mesmo para os humanos a humanidade é um problema. Hoje, domingo e tempo incerto, será possível?

Comprar os jornais, tomar café, dar um giro e ver as praias. Ingenuidade minha, a humanidade oferece-me o esplendor dos seus corpos sobre as areias, dentro de água, corpos que se agitam como se temessem a imobilidade eterna. Resigno-me e, melancólico, penso que ainda não será hoje que a excepção toma o lugar da regra. Vou fotografar naturezas mortas, materiais inúteis, lixos, a sombra projectada pela humanidade.

Balanço: oitavo dia junto ao mar, idas à praia = 1 (uma), banhos de mar = 0 (zero). Não há razão para queixas. Nada melhor que os tempos de praia.

04/08/07

Diário de um banhista - IV

É dura a vida de um banhista. Estava ontem muito descansado quando um telefonema lançou o pânico. Para amanhã, a visita de uma amiga. O mundo turva-se, isto de mulheres e praia conjuga-se com tal perfeição que já estava a ver-me arrastado, em pleno Sábado, imagine-se, para um areal pejado de corpos espojados pelo chão, alegres trinados das criancinhas – sim, sim, dessas mesmas que o divino Mestre dizia para deixarem ir até Ele, mas Ele, sábio que era, não ia à praia, mesmo aquilo no Jordão não foi um banho, mas um baptizado, leram bem, um baptizado e esse só acontece uma vez na vida, pois uma pessoa não anda sempre a mergulhar nas águas para lavar pecados, não haveria João Baptista que chegasse, e se querem lavar a alma que vão ao confessionário, não à praia –, a ver-me arrastado, dizia, para o espectáculo dos portugueses em roupa interior, há quem lhe chame fatos de banho, portugueses exuberantes, desejosos de mostrar o viço e a peitaça e o coxame e a celulite e o pneu. Era este programa audiovisual que já se desenhava no horizonte da pobre imaginação que me coube em sorte. A coisa foi de tal maneira impressiva que passei a noite a sonhar com praias cobertas de portugueses e eu entre eles a caminhar, como sonâmbulo, a exibir a tristeza da minha figura, metido nuns boxers vermelhos a que toda a gente teimava chamar calções de banho.

Quando me levantei, bem cedo e mal dormido, a coisa piorou: estava um céu azul e um sol esplendoroso. Ergui as mãos ao alto e disse Senhor tem piedade das pobres florestas, olha as ignições, ajuda este país malquisto, apieda-te da lavoura, das plantas e dos animais, manda nuvens e chuva e tempo fresco. Nada. Eis o verdadeiro sentido da derrelicção. Senti-me abandonado, desprezado, humilhado. É por estas e por outras que as pessoas deixam a Igreja, esquecem as missas, mandam ao diabo os mandamentos, salvo seja, t’arrenego, ó belzebu. A manhã caminha por aí fora, toma-se café, compra-se os jornais, e uma voz insidiosa diz ó tanto calor, está mesmo bom para ir à praia, respondo ó tanto calor, está mesmo bom para ficar em casa. E ali se fica naquela indecisão, vai não vai, vais tu, fico eu, e eis que aquela amiga, a que haveria de vir, liga a dizer que sim, que vem, mas não está disposta para a praia. Respiro fundo, agradeço ao Senhor, sento-me comovido. Talvez sejam incompreensíveis os caminhos do Altíssimo. Salvo in extremis. É dura a vida de um banhista.

03/08/07

Diário de um banhista – III

Que venham as burkas, burkas afegãs, daquelas que vão da cabeça aos pés. Não, não me converti ao Islão, mas começo a compreendê-los. Hoje, ó dia nefasto, quando me levantei, tudo estava ensolarado, fazia calor, e lá me arrastaram do café em direcção à praia, não sem antes, ainda em casa, note-se, me besuntarem de cremes por causa dos ultravioletas. Ele são cremes para a cara, cremes para o corpo, protector 30 e 40, numa conversa cabalística que mais parecia as deambulações esotéricas do Fernando Pessoa. O creme cai, olho-me ao espelho, apetece-me ulular e fazer a dança da chuva. Sinto-me um pele-vermelha. Contenho-me, haja decoro.

Lá vou, cantando e rindo, levado, levado, sim... Quando chego, piso a areia, os pés formigam. Anoto – mentalmente, não vá alguém pensar que levo o portátil ou aquele caderninho de capas pretas onde registo os ditos infelizes que me ocorrem – anoto, dizia, bandeira verde, maré baixa, pouca gente. A coisa não está completamente insalubre. Não sou banhista de barraca e lá se pousa o saco e toca a caminhar à beira-mar. Parece que faz bem aos músculos das pernas e da barriga e também à circulação. Melhor que os rebuçados do Dr. Bayard para a rouquidão. Uma pessoa caminha, caminha, os pés dentro de água, a areia molhada e dura, a água que vai e vem, como se não fosse esse o seu destino, e lá vou eu olhando os circunstantes, homens, mulheres, crianças, o sol bate-me no pescoço, nas costas não, pois o pólo é coisa que não dispo – há que poupar a humanidade à minha miséria – e continuo a anotar tudo, mentalmente, e sinto-me inclinado, cada vez com mais intensidade, para o Islão. Que venham as burkas, para homens, mulheres e crianças, que escondam os tristes espectáculos que ali se me apresentam. Desespero da humanidade.

Ao menos, penso contristado, fosse obrigatório o uso de fatos de banho do princípio do século passado, elegantes e frívolos, mas a esconder o excesso de humanidade que há em todos nós, mais nuns de que em outros. É isto que este pobre banhista pensa enquanto anda, anda, para fazer bem aos músculos e à circulação e à rouquidão. Paro, melhor, paramos. Vão ao banho e eu fico a ver, a olhar gaivotas, a contar barcos, a sonhar com sereias e a descobrir baleias. É nesse momento que alcanço a utilidade universal da burka, esse achado maior da humanidade, supremo conceito onde a igualdade se realiza e nos torna a todos menos infelizes.

Que coisa mais adorável é a praia.

02/08/07

Diário de um banhista - II

Continua a minha aventura no reino de Posídon. Hoje levantei-me cedo, olhei para o céu, um sol esplendoroso, fiquei em pânico. Será hoje? Uma volta por aqui e por ali, visita ao blogue, o primeiro post do dia. Propícios, os deuses cobrem o céu de nuvens. Respiro mais facilmente. O tempo melhora a olhos vistos, penso. Pego nas Metamorfoses, de Ovídio, acabadas de sair, na excelente colecção da Cotovia, em tradução de Paulo Farmhouse Alberto. Perco-me nas transformações. Ingénuo, ingénuo que eu sou. Os deuses são caprichosos, mas enviam-nos sinais. Metamorfoses não de humanos em aves ou vacas, mas transformações do tempo. O que tinha amanhecido ensolarado metamorfoseara-se em nuvens escuras e densas, mas nada neste mundo mutável é seguro. As nuvens dissiparam-se e lá veio o sol. Não tardou muito para me perguntarem, insidiosamente, se não ia à praia, a emoção tomou conta de mim. Fiz-me despercebido. Prefiro o Ovídio, mas calei-me. Lá foram pisar a areia e tomar banhos de sol e mar. Fiquei nas Metamorfoses e na música de Giovanni Pierluigi da Palestrina. Lá fora o silêncio deixa vir até mim o marulhar do mar. Adoro a praia.

01/08/07

Diário de um banhista - I

Adoro a praia. É um amor enternecido e respeitoso. Estou a banhos desde Domingo passado e, felizmente, ainda não pisei areia. Não se deve pisar aquilo que amamos. Há movimento cá por casa, gente que vai até à beira-mar, volta crestada pelo sol, enfarinhada de areia, comenta-se a excelência do tempo, do sol, da temperatura, da água… Eu acredito, acredito em tudo piamente, mas a minha devoção a tanta praia impede-me estes excessos…