Mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas Normandas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas Normandas. Mostrar todas as mensagens

10/11/07

Crónicas Normandas VI - Here rests in honored glory

Here rests in honored glory a comrade in arms known but to God. São estas as palavras que ocupam, nas cruzes plantadas no cemitério americano, o lugar do nome, posto, local de origem e data de morte daqueles que já ninguém reconheceu aquando da entrega dos restos mortais – nunca o termo terá sido tão apropriado – à terra que os acolhe para o descanso eterno.

As narrativas sobre o soldado desconhecido sempre me impressionaram, mas há que reconhecer que todas elas assentam num equívoco: não há soldados desconhecidos. Enquanto soldados, são conhecidos, possuem identidade, fazem parte de uma comunidade, melhor, de uma fraternidade militar. É a morte que os torna desconhecidos, mas já não são mais soldados, o combate não os espera, e a vitória ou a derrota perante o inimigo deixou de lhes interessar. Expressões como soldado desconhecido ou comrade in arms known but to God são tentativas desesperadas de os integrar numa ordem que lhes é radicalmente estranha e de lhes dar uma última aparência de identidade.

Não será a morte apenas e só a perda efectiva da identidade? Na morte deixa-se de ser o que se é. As referências biográficas são coisas de vivos, uma forma de mitigar a dor, talvez de apaziguar a consciência. Morrer é desidentificar-se, abolir os limites impostos pela personagem social balizada pelas referências espácio-temporais que lhe couberam e pelos dados biográficos, dos quais o bilhete de identidade é o supremo resumo. Aquele a quem chamam soldado desconhecido, ou comrade in arms known but to God, é o que assume a morte na sua radical integralidade e deixa a sua identidade de vivo no desconhecimento dos que não o acompanharam na morte. Estes mortos trilharam a senda radical para o nada e tornaram-se, em consonância com esse desígnio, em ninguém. Apagaram os vestígios, limparam as pistas, confundiram os traços do caminho que foi o deles. Abandonaram sobre o campo de batalha a máscara. «Quem és tu Romeiro?» – «Ninguém.»

O culto do soldado desconhecido é o sintoma da culpabilidade sentida pelos vivos, uma tentativa desesperada de manter com aqueles restos, onde um dia se moveu uma forma humana, um laço, uma ligação que faça deles um resquício de humanidade. Nada nos garante, porém, que os mortos queiram permanecer humanos e manter com os vivos algum laço, seja de que natureza for. A honored glory em que descansa o soldado desconhecido já não lhe diz respeito, é um problema da consciência de terceiros. Ele encontrou a saída, o lugar onde todos os problemas da vida se dissolvem para não mais voltar. Dispensa inclusive a memória dos outros. Basta-lhe o descanso e, talvez, o known but to God. Os vivos, caso não fossem dados a exageros e traumas emocionais, deveriam apenas sussurrar requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis.

Post-Scriptum: com esta terminam as crónicas normandas e, também, o ciclo de fotografias relacionadas com o Dia D e o desembarque aliado na Normandia.

01/11/07

Crónicas Normandas V - The Gold Medal

No cemitério americano, junto a um daqueles mapas de betão e azulejo que orientam o olhar sobre o horizonte, ao lado de inúmeros visitantes, estão uma meia dúzia de veteranos de guerra, gente que participou, do lado vitorioso, nos acontecimentos do Dia D. O vigor que fora o deles terá sido, há muito, substituído pelo cansaço da vida, pelas artroses e, talvez mais de que todo o resto, pelo exercício intérmino da memória. Ali estavam, não sei se de passagem ou se a sua vida se terá tornado, com o funesto turismo de guerra, apenas numa sombra memoriosa que vagueia sempre por aqueles campos onde, com o terror inscrito no centro do ser, se bateram até à vitória. A morte nada quis, então, deles, apenas os deixou enredados na sua sombra e os prendeu ao passado, até que o tempo a disponha à ceifa.

São homens condecorados e que exibem as suas condecorações em vestes militares anacrónicas. Fazem-no como se o tempo tivesse parado ou se tivesse esquecido deles. Um, quando chegou, ao ver as pessoas a olhar aquele mapa e a perscrutar horizontes e linhas de combate, indica um ponto, talvez signo de território escarpado, e diz que foi ali que combateu e obteve a sua gold medal. Havia nele a inocência de uma criança, a irrisão de quem se tinha portado bem e, por isso, ganhara o mais apetecido dos brinquedos. Exibia-o agora, nesse orgulho que nasce da confusão da infância com a senilidade, a uma pequena multidão de basbaques que olhavam, talvez sem perceber o que significaria aquele adorno militar.

Há nos homens que combateram e sobreviveram uma humanidade diferente da que existe naqueles que, como eu, nunca passaram pelo campo de batalha. Aqueles dias de trevas e de loucura, onde o sangue, a dor e a morte eram companheiros assíduos, iluminaram-nos e mostraram-lhes um mundo desconhecido dos outros. A guerra estabelece estranhos laços de camaradagem entre pessoas que, em quaisquer outras circunstâncias, se ignorariam. Mesmo entre inimigos que, na altura do combate, se teriam morto sem qualquer razão pessoal, nasce, chegada a paz, um espírito secreto de partilha e de comunhão que os aproxima e torna irmãos, numa fraternidade que não conhece já a frágil linha que separa amigos e inimigos.

Naquela gold medal, não vi o heroísmo daquele homem, a bravura com que enfrentou o fogo inimigo, o acto pelo qual se «libertou da lei da morte». Aquela medalha, assim exibida, reluziu para mim como uma fronteira que separa duas humanidades, a dos homens livres que nunca desceram ao campo de batalha e a dos que hipotecaram a sua liberdade e se enredaram nas cadeias da memória dos combates, para que os outros fossem livres. Descobri, naquele instante, como a minha liberdade assenta no sacrifício de uma outra humanidade, que a necessidade dos tempos fez desprezar a sua própria vida e a sua própria liberdade. É essa humanidade que reconstrói ainda, passados tantos anos, o seu mundo como se tecesse um tapete de sombras, feito de clarões e gritos, odor a sangue e uma nostalgia sem fim, onde os não iniciados jamais penetrarão. The gold medal é apenas uma porta que a vida nunca me obrigou a transpor.

13/10/07

Crónicas Normandas IV - A razão no cemitério

O que me surpreendeu, sem que isso devesse acontecer, ao entrar nos cemitérios militares alemão e americano, na Normandia, foi o excesso de racionalidade da sua concepção. Não sabia o que deveria esperar, tinha algumas imagens do cemitério americano construídas com base no ouvir dizer, mas nada me preparara para o espectáculo de racionalidade que, em ambos, se espraiou perante o olhar. É possível que todos os cemitérios, pelos menos os modernos, obedeçam a princípios de ocupação racional do solo. Mas não é essa racionalidade arquitectónica a que me refiro. Falo de uma estranha racionalidade geométrica, um zelo decorativo, ao mesmo tempo simples e aberto e tranquilo e grandioso, do espaço onde repousam os militares mortos em combate.

Naqueles cemitérios, a morte é mais asséptica do que nos civis, pensei mal entrei no cemitério alemão, confirmei a sensação no americano. Há uma clara encenação de qualquer coisa. Todos aqueles espaços, belos espaços, constituem o cenário de uma mistificação. Há ali uma razão que oculta a realidade, que a esconde dos olhos ímpios dos visitantes, que oferece uma imagem suave e leve da carnificina real que levou para ali os despojos humanos que lá repousam.

No reverso do cenário, debaixo de cruzes e lápides, velados pela relva verde tão bem cuidada, estão corpos fragmentados, ossos de onde os músculos voaram pela força das bombas, restos de gente a quem a morte chegou na precipitação do combate. Quem está ali não morreu de morte natural, nem a doença, prolongada ou súbita, assinalou para o trânsito final. A ceifeira chegou atarefada, cansada de tanta colheita, e apanhou os corpos como pôde. Na guerra, não há tempo para preparar a morte, para escolher os eleitos, para lhes dar um último sinal. É obscura a razão que opera nos campos de batalha, uma razão fincada no acaso, em jogos aleatórios, na sem razão do que acontece. Rios de sangue, vísceras a céu aberto, crânios estilhaçados, corpos dilacerados, gritos sem fim, o roncar dos carros de combate, as metralhadoras que crepitam, a explosão de bombas e granadas. Ali antegoza-se o inferno.

Quando olhamos estes campos relvados, as campas perfiladas sob um céu de cinza, já não vemos nada do que levou aqueles homens a escolherem-nos para morada eterna. Repousam tranquilos, como se amanhã pudessem sair das suas campas e correr por ali fora, conversar com outros mortos, aspirar o ar marítimo tão próximo. A razão geométrica que comanda estes espaços é uma mentira piedosa, uma mentira que visa apaziguar não a revolta dos que morreram, mas a consciência dos que vivem. Que tranquilos são estes espaços, dizemos, e pegamos nos nossos corpos, ainda inteiros, e seguimos viagem. Ali nada aconteceu. A razão não passa de uma grande actriz.

07/10/07

Crónicas Normandas III - No cemitério americano

Li algures que todas as campas deste cemitério estão voltadas para a América. Como se um dia fosse possível estes homens abandonarem o reino dos mortos, caminhar sobre as águas tenebrosas do Atlântico, chegar à terra prometida, onde abraçariam pais e filhos, as mulheres, as jovens namoradas que por lá deixaram. Nesta simbologia patriótica há um trágico desígnio. Voltados para ocidente, para as terras americanas, não é para a luz que eles olham, mas para o crepúsculo do poente. É nesse continente longínquo que, para quem vive na Europa, está o lugar onde a luz do dia vai morrer. Ironia funesta, o sítio de luz e redenção afinal não é mais do que um espaço de trevas e morte. Os mortos para a morte estão voltados.

São pomares de cruzes brancas, aqui e ali salpicados por estrelas de David, pomares cujo fruto foi colhido e não mais retornará. Percorrem-se as áleas, pisa-se a relva, olham-se os nomes no mármore frio de amargura, tocam-se as flores que por lá foram deixadas. A brisa marítima fustiga as faces. Há gente, muita gente, por todo o cemitério, estamos no lugar dos vencedores, mas aqueles que estão debaixo da terra, esses há muito que perderam, por mais que digamos a heroicidade dos seus gestos, a dádiva da vida para nos livrar do horror, eles perderam, transviaram-se do caminho da vida, encontraram a fria glória e o aconchego na terra húmida de um país estrangeiro. Penélope não os acolherá.

Há famílias que procuram, ainda hoje, a campa dos seus, recolhem-se perante a voraz pedra da morte, rezam uma oração, deixam flores, enquanto o vento continua a soprar gélido e cortante. Às vezes, chuvisca; outras, porém, o Sol rompe e ilumina por instantes as gotas de água que crescem nas folhas verdes da relva. Ainda há gente que chora, mas há muitos que apenas excursionam por ali, gente inoportuna, gente a coleccionar locais, paisagens, igrejas, cemitérios, recordações turísticas de quem perdeu a alma ou a vendeu num saldo de fim de estação. Aqueles mortos não são os seus, mesmo se a liberdade que ora usufruem foi comprada com a vida dos que dormem sob o peso da pedra.

Aqui e ali surgem velhos soldados fardados, trazem no peito o peso das condecorações tidas e, na memória, o horror da metralha incandescente, o sorriso de não saberem como não são eles a quem se visita, o esgar perplexo de terem escapado daqueles campos e de retornarem, como Ulisses, à pátria e aos níveos braços de Penélope, que no tear teceu os dias, os longos dias, que haveriam de trazer o bem amado daquela Tróia ignota. Agora, antes que a luz da vida se apague, vêm visitar o campo sagrado da morte; é um campo de glória para os que morreram e uma bênção para os vivos, vivos que caminham entre as sombras dos que, no fundo da terra, chamam por eles.

28/09/07

Crónicas Normandas II - No cemitério alemão

É um cemitério quase vazio, pontuado apenas por alguns visitantes. Dos que perdem, a memória desvanece-se mais rapidamente. O silêncio da derrota, matizado pela luz da manhã e pela névoa sombria que do mar sempre vem, entranha-se no visitante, abre-lhe o espírito à angústia, dá-lhe uma sensação de compunção inexplicável. Há um estreito caminho de lajes rodeado de campos relvados, onde aos mortos foi dada a última casa. Assim se caminha em direcção a um monumento em louvor do soldado desconhecido, daqueles que, para além da vida, perderam também o nome, o segredo da identidade, o fio ténue que os ligava a uma história, a uma tradição, à terra longínqua onde nasceram, para virem morrer nos campos da Normandia.

Todo o cemitério está pensado segundo uma racionalidade geométrica, como se, depois da aventura da desrazão nazi, os alemães tivessem sentido a necessidade de voltar aos fundamentos da razão moderna, à natureza matemática que a habitava. É um cálculo vindo das trevas o que ali se encontra, o produto de uma ilusão, a transformação da violência do combate e do pânico da morte – sim, entre todos os que ali estão sepultados, haveria algum que, no mais fundo de si, não sentisse esse pânico? A falência da ordem normal da vida, que todo o combate traz, não acenderia nas suas almas uma angústia inexplicável, mesmo se esquecida na hora de mostrar a coragem? – numa paisagem de recolhimento meditativo, num jardim onde o visitante espera ver monges a passear, de espírito recolhido, enquanto aguardam a revelação do deus.

Por vezes, há uma flor deixada na campa que ostenta um nome, um nome que ainda alguém reconhece como sendo da família, talvez um amigo querido que por ali ficou, um companheiro de escola, um namorado que não chegou nunca ao tempo das núpcias. Mas tudo é tão raso, um mar de campas, muitas delas ocupadas por dois viajantes, que juntos, quem sabe se não se odiariam, entraram para a viagem eterna de onde não se retorna. O barqueiro que a todos recolhe não faz acepção de nomes, nem de ódios ou amores, junta movido pela lei do capricho que habita no frio coração que é o seu. Aqui e ali, segundo um obscuro desígnio arquitectural, erguem-se conjuntos de cruzes de Malta, cinco cruzes, sublinhando a esperança da ressurreição ou o mero anúncio do retorno silente dos alemães à casa da cristandades, esquecidas as pulsões heróicas da mitologia bárbara que os animava durante a guerra. Nem Odin, nem as valquírias, apenas a humilhante cruz do Cristo.
Quando saio, deparo com dois enormes livros. São, à maneira de um apocalipse judaico, suprema ironia, os livros dos mortos. Neles se inscreve o nome daqueles que ali estão sepultados e ainda lhes restaram os traços caligráficos da identidade. Namenbuch, o livro dos nomes, diz cada um deles. Tremo perante a visão e olho-os de longe. Tenho vontade de os folhear, acariciar as capas, mas a mão pára. Uma voz diz-me: e se lá estiver o teu nome?

22/09/07

Crónicas Normandas I - Crateras e destroços (Point du Hoc Ranger Memorial)

O mar ao fundo, não o de esmeralda da nossa costa, mas um mar de cinza e névoa, a lembrar, por instantes, o betão. O vento frio bate nas faces e há à minha frente um campo imenso de destroços e crateras. Um lugar quase inacessível a quem vem do mar, impossível de tomar, pensavam os alemães. Passados mais de 60 anos, a razão tenta adoçar o espaço, torná-lo visitável, recuperá-lo, em forma de memorial, para o turismo, para o insólito turismo de guerra.

Aproximo-me da falésia e espreito a praia, as águas escuras do mar normando e imagino o desembarque dos homens lá em baixo, 225 Rangers norte-americanos, e penso nos homens cá em cima. Tudo está já demasiado civilizado para se perceber a natureza militar da operação, o fogo dos alemães sobre os americanos, estes a escalar a falésia, aqueles sob o bombardeamento da aviação aliada. A respiração quase se suspende e caminho, vou campo fora. Aquilo não foi um filme. Os homens bateram-se até à morte, até à suspensão da respiração, ao explodir das entranhas. É um campo de crateras, vestígios dos bombardeamentos da aviação, um mapa lunar, como o imaginamos a partir dos nossos sonhos mais nocturnos. Estranhas covas cobertas de erva e, sabe-se lá por quê, atravessadas ao centro por um carreiro, como se os transeuntes seguissem os caminhos de uma geografia sagrada, pontuada por estações onde os crentes descem para se recolher no sítio onde a bomba explodiu. Lugares de hierofania, penso.

Entre crateras, há ruínas das instalações militares alemãs, bunkers destruídos pela força das bombas. Quantos alemães ali teriam morrido? Não digo nazis, custa-me, perante o espectáculo, pensar aqueles soldados como nazis. Quantos dos que aqui morreram seriam mais novos do que os meus filhos? O cimento armado permanece em silêncio. Sim, em silêncio, pois o memorial canta a glória dos Rangers vitoriosos. Inclino-me perante o feito desses homens, mas como poderei esquecer os outros, os que retrospectivamente sei que eram meus inimigos. Tinham corpo e alma como eu, e espírito e desejos e fantasias como eu. Vieram ali para morrer. No meu coração há um eterno reconhecimento aos americanos, mas que homem serei se esquecer os derrotados?

Fogo e aço terão caído por todo o lado. Um corpo dilacerado, um corpo incendiado, que diferença fará a língua que falou. A morte caiu sobre ele e roubou-o à glória dos dias. Olho a praia e o meu coração treme, é uma praia ambígua feita de luz e trevas. A luz normanda que incendiou a imaginação dos impressionistas e as trevas que habitam o coração desesperado dos homens. Lá em baixo há mar e areia e gaivotas. Não vejo homens, apenas as sombras do passado se erguem e estendem-me a mão. Oiço-as surpreso, estás aqui, dizem-me, porque morremos para que viesses. Olham-me com gratidão, toda a gratidão que lhes devo.