Portugal, mas não só, é uma país esquizofrénico. Vive dilacerado entre uma legislação que tenta imitar o quadro legal dos países do norte da Europa fundado na religião protestante, e uma cultura mediterrânica, onde a família e os amigos possuem enorme preponderância. A figura do padrinho não é, em primeiro lugar, um fenómeno mafioso. É, antes, um fenómeno de integração social, numa sociedade marcadamente patriarcal, onde uma hierarquia de vassalos prestam tributo a um suserano, o padrinho. Este protege a família, uma família alargada para lá dos laços de sangue, distribuindo encargos e proventos em conformidade com os seus interesses, que acabam por ser os interesses dessa família. Todos estes casos de corupção que agora saltam nos jornais, bem como os inúmeros que nunca viremos a conhecer, são o fruto de uma cultura com centenas de anos, talvez mesmo milhares. É por isso que ninguém condena seriamente os corruptos e os corruptores. São eleitos, se forem a votos, pois contribuem de forma concreta para o bem comum, mesmo que isso signifique que contribuam mais significativamente para o seu bem. Mais do que acabar com padrinhos e afilhados, os portugueses pretendem ou ser afilhados de alguém ou, os mais ousados, ascender à categoria de padrinho, e assim fundar e proteger a sua família. As relações abstractas que existem entre os cidadãos do norte da Europa, onde todos são efectivamente indivíduos iguais perante a lei, são incompreensíveis em países onde o indivíduo é menos importante do que o grupo familiar de onde provém. As relações de sangue e as relações de amizade são concretas, os ditames da lei ou o bem comum geral, puras abstracções. Gostemos ou não. O resto é o espectáculo desta nossa esquizofrenia.