Mostrar mensagens com a etiqueta Heimat. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Heimat. Mostrar todas as mensagens

10/09/11

A idade


Vir passar o fim-de-semana à Serra da Lousã e não trazer máquina fotográfica, eis o que alguns poderão pensar ser a sabedoria que só a idade dá. Puro equívoco. A idade não traz sabedoria, mas uma capacidade infinita para esquecer coisas. Só isso.

24/01/10

Gran'Gula em Coruche



Chega à pacata vila de Coruche, ali no vale do Sorraia, e apetece-lhe uma refeição tranquila, diferenciada, onde exista bom gosto e sobriedade, que não é outra coisa senão o sintoma desse bom gosto. Onde poderá encontrar isso, se é que pode? Pode. Encontra-o no Gran'Gula (se seguir o link, terá acesso à ementa e a uma panorâmica geral do restaurante).

O ambiente e a decoração são sóbrios e elegantes, o atendimento é gentil e com sábio equilíbrio entre a atenção necessária e distância certa. A comida, segundo a experiência que lá fizemos, é óptima, um sempre difícil equilíbrio entre a tradição portuguesa e a cozinha de autor. Começou-se com pão com manteiga, uma manteiga de ovelha de Azeitão, um jogo entre o sabor da manteiga e a evocação do queijo. Entre as entradas disponíveis, escolheu-se a farinheira preta com abacaxi, ambos grelhados. O abacaxi equilibra muito bem a farinheira preta, corta-lhe ameaças de indigestão, e joga como se fosse uma espécie de metáfora, embora comece a ser relativamente corrente, aproximando dois campos gustativos muito distantes. Resulta bem.

Filetes de linguado marinados com açorda de tomate e limão (não consta da lista do blogue linkado mais acima). Dos filetes nada há dizer, a não ser que se apresentaram como se esperava, bem temperados, sem oleosidades, sápidos, e muito bem acompanhados por uma açorda de gosto delicado e suave. Uma belíssima combinação. No prato de carne, experimentámos o folhado de perdiz. Também ele excelente. O folhado vinha coberto por uma redução de vinho tinto e chalota que lhe dava um toque de distinção e acompanhado por um gratinado de brócolos e arroz selvagem. Como sobremesa, preferiu-se o crumble de maçã e pêra, que igualou a qualidade de toda a refeição. Tudo isto foi acompanhado, como sempre fazemos, por um tinto da zona, um Vale das Lebres (2006). Não conhecíamos e foi uma nova e belíssima surpresa da enologia ribatejana. Vale a pena ir a Coruche.

17/01/10

Herdade de Cadouços


Não tema o ocasional leitor que este blogger se vá arvorar em especialista de vinhos. Não é, não vai. Mas, confesso, sou um diletante, mero amador sem formação técnico-científica, coisa hoje sempre necessária para falar de vinhos, para além da formação em retórica. Gosto de vinhos, de bons vinhos, como milhões de pessoas. Nos últimos tempos tenho-me tornado um adepto, cada vez mais fervoroso, dos vinhos do Ribatejo. Sei que as condições edafoclimáticas desta província não se podem comparar com as do Douro, mas os projectos vinícolas ribatejanos são cada vez mais interessantes.

Este vinho, por exemplo, devido ao nome que ostenta, tinha todas as condições para não ser por mim comprado. Há coisas que me recuso a experimentar por causa do nome que ostentam ou do rótulo. Preconceitos meu. Mas numa visita gastronómica à Herdade de Cadouços (Bemposta, Abrantes) bebi um dos vinhos da Herdade, o Memorium (na altura, devido ao tal preconceito, recusei este Yes We Can). Foi uma belíssima experiência. Ora, à saída da Herdade, há uma loja de vinhos e comprei vários exemplares dos produtos da casa, o Cadouços 2007 (7 €), o Harmony (14 €), o Memorium (17 €)e o famigerado Yes We Can (17 €) [preços na herdade, embora se comprar não sei quantas garrafas deste e daquele sai a um pouco menos. No restaurante da herdade, o vinho está ao mesmo preço]. Hoje abri uma garrafa do Yes We Can. Esqueça-se o nome, a identidade com o slogan de Obama, esqueçam-se os preconceitos, e beba-se lentamente, bem lentamente. Tanto o Memorium como o Yes We Can passam o exame deste pobre examinador com uma bela nota. Veremos os outros.

18/10/09

Coimbra fantasmática


Hoje estive mais uma vez em Coimbra. Sentei-me numa esplanada da Visconde da Luz para tomar café, deambulei por ruas e ruelas, espantei-me, de novo, pela visceral beleza de tudo aquilo. Almocei junto ao rio, num belo espaço, bem cuidado, nas margens do Mondego, postas à disposição de conimbricenses e de forasteiros. Vi a recuperação de imensas casas na cidade antiga, tudo com bom gosto, equilíbrio, sem rupturas na harmonia do povoado. Mas, apesar de tudo isto, a cidade parecia um paraíso de fantasmas. O comércio fechado, por ser domingo, afastou as gentes dali. O pior é, todavia, a ausência de turistas, de gente vinda do estrangeiro para se perder por aquelas ruelas. Coimbra merecia ser "vendida" de uma forma mais agressiva. Um domingo não tem de ser um dia onde a vida da cidade fecha para descanso. Lisboa deve ter estado, como é habitual, cheia de estrangeiros. Coimbra merecia igual sorte.

05/09/08

Obras malignas do tinhoso

Até parece que o “A Ver o Mundo” está por conta do Zé Ricardo, não está. Mas no sua crónica de hoje, no Jornal Torrejano, O Countryside, e quase a terminar, escreve: «Os portugueses falam muito na beleza do Minho. Do Minho? O Minho é horrível. Infestado de casas horríveis, anexos com chapas de zinco, sucatas lado a lado com couves galegas. A paisagem rural portuguesa foi invadida pelos horríveis eucaliptos, mato, baldios, e os nativos, aos fins-de-semana, entretêm-se a invadir os centros comerciais mais próximos

Este é o sentimento de desolação que se tem sempre que a paisagem natural é invadida pelos portugueses. Portugal tem uma bela paisagem, mas raros são os momentos em que não se aviste um barracão, umas chapas de zinco, casas por pintar, telhados multicoloridos e essa verdadeira instituição nacional que é o azulejo de casa-de-banho a atapetar as paredes exteriores das vivendas. Como diz o Zé, o Minho é horrível. De verde tem o vinho, mas a paisagem está cada vez mais catastrófica. Talvez com a excepção do Alentejo e de um ou outro sítio abandonado pelo progresso autárquico, tudo se tem tornado infamemente horrível.

Mas a poluição não é apenas visual, também é sonora. A Igreja Católica deveria ser processada por permitir que as suas igrejas, nomeadamente no Minho, mas não só, tenham substituído o velho sino de bronze por um artefacto mecânico, obra de um diabo de péssimo gosto estético. Depois, essa obra do tinhoso não se limita a dar as horas, e os tradicionais e bucólicos toque das trindades e das avé-marias. Agora, nem sei bem o nome, é uma reprodução de um cântico de Fátima, que está longe de engrandecer a virtude da Virgem, e que atanaza, à maneiro do maligno, os ouvidos do pobre viajante. Por cá não há countryside que resista à criatividade indígena.

29/07/08

As cidades morrem como as gatas


Tive uma gata siamesa durante dezasseis anos. Um dia deitou-se, mais uma vez, no cesto da roupa suja e acomodou-se de maneira a que a cabeça ficasse mais baixa que o resto do corpo. Começou a morrer. Não sei se foi a morte que veio ou a vida que a abandonou. Sei apenas que não morreu toda e inteira imediatamente. Havia partes do corpo que tinham morrido, enquanto outras ainda estavam vivas. Foi uma agonia que durou horas, até que a morte ficou completa e a cabeça deixou de ter sinais de vida.

Já há muito que não andava pela parte antiga da cidade (Torres Novas). Hoje, porém, fui comprar uns livros à Gil Pais e uns cd’s ao Balta, e deixei-me andar por aquilo que foi o centro vivo da vila onde cresci. Ao olhar para os negócios em trespasse, para as casas – umas caídas, outras abandonadas, outras cheias de solidão –, ao ver o ar cansado das pessoas, ao pressentir o desânimo que tomou conta de ruas e paredes, lembrei-me da morte da minha gata. Como ela, também o centro de uma cidade morre aos poucos. Não sei se é a morte que vem ou a vida que parte, mas sente-se um véu fúnebre que vai caindo aqui e ali, até que já nada do antigo esplendor – por pobre e provinciano que fosse – reste. As cidades são seres vivos e morrem como eles. A minha cidade está a morrer como morreu a minha gata: pedaço a pedaço, lentamente, numa agonia silenciosa. Olho-a como olhei a gata moribunda: impotente.

30/05/08

Ruínas de Vila Cardílio

6 de Fevereiro de 2008

25/05/08

Jaracandás em flor, hoje


Em Lisboa, os jacarandás florescem em Maio, mas por aqui a norma são os primeiros dias de Junho. Este ano, porém, as flores dos jacarandás vieram bem mais cedo. Este é um dos jacarandás da Escola Artur Gonçalves.

03/05/08

Retiro da Fataça em Foros da Serrada Grande, Boquilobo

Sou um ribatejano um pouco fora de contexto. Não me interpretem mal, até gosto de touradas, embora não seja um aficionado. Não é de toiros que quero falar, mas do peixe que se come pela borda-d’água. Foi preciso chegar ao dia de hoje para comer pela primeira vez enguias. E não bastando isso, adentrei-me pela culinária local e comi também fataça grelhada. Outra vergonha, ligada a esta, é que nunca tinha ido a nenhum dos restaurantes populares do Boquilobo, a aldeia do concelho de Torres Novas que viu nascer Humberto Delgado, e onde há um festival das enguias.

Incitado por um blogue de Ramiro Marques (veja as belas fotografias feitas por Ramiro Marques), lá me tirei de manias e cá vamos à procura do Retiro da Fataça. Onde é, onde não é? E numa reminiscência de carácter platónico ocorreu-me a existência de um tascaréu, mas é mesmo reminiscência, em pleno Paul do Boquilobo. Íamos já bem dentro da estrada do campo quando, por descargo de consciência, pergunto a um transeunte (transeunte era eu, o senhor era agricultor e estava ali a cuidar dos campos) pelo dito retiro. Ele coça a cabeça e diz «ó homem, ele já fechou isso há muito, agora tem uma casa ali para os Foros da Serrada Grande, para os lados do Boquilobo.» E lá apontámos o carro para a terra onde o general sem medo sonhou com aviões e fardas militares.

O Retiro da Fataça é um restaurante popular enorme. O serviço é simpático, a comida generosa, o preço está de acordo com o carácter popular do empreendimento. As enguias fritas demonstraram que eu andava a perder qualquer coisa na vida. Sou assim, um pouco serôdio, lento de raciocínio, mas vou lá chegando. A fataça, embora não destrone o meu sável de estimação, mostra que há mais vida nas águas do rio que o dito sável. É um peixe suculento, de carnadura branca e com sabor delicado. A acompanhar, uma salada mista escorreita e umas migas especiais. Uma espécie de açorda feita com caldo de peixe e tomate, suponho eu. Tudo isto, migas, enguias e fataça foi, por mim, temperado com vinagre onde havia uns piripiris generosos. O efeito, para quem gosta, é espantoso. Para sobremesa, pode-se escolher de uma enorme lista de doces que fazem parte das ementas deste tipo de restaurantes. Acompanhou-se o popular repasto com um tinto Quinta de S. João Batista, ali mesmo ao lado, das caves D. Teodósio. Um vinho de 2004 feito à base de Castelão. Um belo vinho para o preço (7,5€ no restaurante) e que se bateu muito bem com o peixe de rio. A qualidade deste vinho confirma a excelência das terras torrejanas, riachenses no caso em apreço, para a produção vitivinícola.

31/01/08

A maçã dos polifenóis

Cá para mim só quero maçãs Bravo Esmolfe. Em Lisboa chamam-lhe pêro, mas está-se mesmo a ver que aquilo são maçãs e não me convencem do contrário. E se não for essa, que seja a Malápio Fino ou a Malápio da Serra, ou mesmo a Pêro Pipo. Dizem que têm muita fibra e polifenóis, adoro polifenóis, que nunca mais acabam e, como se sabe, fibras e polifenóis previnem o cancro e as doenças cardiovasculares. Não há nada como as maçãs da Beira, segundo um estudo científico (ver Lusa). Gosto quase tanto de estudos científicos como de polifenóis. Só espero que a cereja do Fundão e a melancia da Covilhã e o vinho do Dão também tenham muitos polifenóis e muitos estudos científicos. Também subscreveria uma petição para determinar a quantidade de fibra, de polifenóis e de estudos científicos da laranja do Pafarrão, que não é da Beira, mas daqui ao pé de casa e é das melhores que há. Não se lhe poderia chamar laranja Bravo Esmolfe ou mesmo laranja Pêro Pipo?

15/11/07

A vida simples de Miss Pearls


Na última visita a Miss Pearls, deparo-me com um post intitulado “A vida simples”. É um post simples, composto por três fotografias, das quais me apropriei, de forma indecorosa, da primeira. Esta, como as outras, não tem, em aparência, nada de especial, mas, mal entrei no blogue, o olhar ficou preso nela. Se me impunha correr por ali abaixo e ver o que por lá havia, qualquer coisa me puxava para a fotografia. Uma sensação de desconforto assaltava-me perante “a vida simples” que ali se mostrava. Não sei que rua é aquela, nem onde fica, nem quem lá mora. O mais certo é nunca ter passado por lá. No entanto, já vi e já percorri aquela rua milhares de vezes. Uma curva, a estrada empedrada, as casas brancas e já cariadas, os telhados desalinhados, o portão vermelho, as paredes salitradas, a erva a crescer pelos telhados, o cinzento das barras, as portas a cair para a estrada. Quantas vezes terei passado por sítios assim? Perscruto a fotografia como se esperasse uma ameaça. Nada acontece. Uma súbita revelação, porém, dá-se ao olhar e aquilo que se viu milhares de vezes e em milhares de sítios surge agora como uma essência depurada. Está ali tudo o que somos. O que vejo já não é aquela rua, mas o país. Um país que nos apressamos a esconder, que nos apressamos a esquecer, como se tivéssemos vergonha da simplicidade que nos instituiu, como se temêssemos a natureza que nos coube. Olho a fotografia, é um exercício de rememoração, uma ascensão ao mundo da verdade. O que ali está não é uma rua concreta, mas a ideia viva de um país que morre, que se desfaz, que se desfarela. Se, em vez de esquecer, houvesse a coragem de deixar o olhar correr por ali fora, talvez ainda fosse possível fundar alguma grandeza na mera simplicidade de uma simples vida.

15/10/07

06/07/07

Jornal Torrejano, 06 de Julho de 2007

On-line está a edição de hoje do Jornal Torrejano. Destaque para três notícias: a demissão da direcção do Centro Hospitalar do Médio Tejo, por decisão do Ministério; a polémica em torno das Festas do Almonda; a análise pela Assembleia Municipal do plano para o centro histórico da cidade. Na opinião, comece-se com o cartoon "do contra" de Hélder Dias, depois José Ricardo Costa (A douda ignorância), Jorge Salgado Simões (Paralelos Inusitados), Carlos Nuno (Os cogumelos), Pinto Correia (Filme Português na corrida aos Óscares) e o blogger de averomundo (A degradação do espírito). Há mais coisas por lá e, por certo, para a semana, se o mundo não acabar, haverá nova edição do Jornal Torrejano.

26/04/07

Castanheiros em flor II

Hoje, havia tapetes de flores de castanheiro pelos passeios da avenida. Afinal não foi o calor a derrubá-las, foi o vento. Mas ainda merecem o olhar de quem passa.

25/04/07

Castanheiros em flor

Antes da flor do jacarandá vem a dos castanheiros, que, por um momento, se abre luminosa e povoa de cores, as mais frágeis, os passeios da avenida. O Almonda, surpreso, sustém a respiração, as águas petrificam-se, recolhem-se na sua própria essência, e antes de continuarem a cavalgada em direcção ao Tejo, deitam um último olhar ao esplendor que fulgura avenida fora. Por estes dias, há que percorrer a João Martins de Azevedo, quem lhe chamará assim?, de cabeça levantada. Depois virá o inclemente calor e a queda começará inexoravelmente, como em tudo na vida.

18/04/07

Tal como antigamente

Leio avidamente a obra de W. G. Sebald. Pergunto-me, muitas vezes, o que nos leva a preferir a obra de um escritor à de outro. A resposta não está na mestria da escrita, ou pelo menos não está aí a sua verdade essencial. Há escritores magistrais cuja obra pouco nos diz. Julgo, embora sem uma evidência a corroborar o juízo, que a preferência radica numa espécie de reconhecimento de “si-mesmo” nas páginas dessa obra.

Não se trata de uma identificação com o escritor. Sei muito pouco dos escritores de que gosto. Evito as biografias. De Sebald, por exemplo, tirando a sua nacionalidade e o facto de ter morrido de acidente, nada sei. E, no entanto, pressinto que aquela escrita fala de mim ou, melhor, fala de alguma coisa, indefinível e quase obscura, que me toca, como se me dissesse respeito. É como se entre a obra e o leitor existisse uma comunhão.

Peregrino por “Vertigens. Impressões”, o último livro de Sebald publicado em Portugal. Na página 40, de forma inopinada, surge o seguinte texto: “No regresso fomos dar à Albrechtstrasse e Olga não resistiu à tentação de entrar na escola onde tinha andado em criança. Numa das salas de aula, precisamente aquela onde se sentava no princípio dos anos 50, a mesma professora continuava a ensinar, quase trinta anos depois, exortava, com a mesma voz, as crianças para que continuassem a trabalhar e não conversassem, tal como antigamente.” Ao ler estas palavras senti um desconforto dentro de mim, desconforto esse motivado, descobri-o logo de seguida, por uma experiência semelhante vivida há alguns anos.

Talvez há uns 8 ou 9 anos, por altura das Festas do Espírito Santo, em Meia Via, paro o carro, por um qualquer motivo que não importa, perto da escola primária. Fiz aí a primeira e a segunda classes, antes de nos termos instalado em Torres Novas. Saio e olho o desalentado bairro que nasceu, como um penhor dos tempos democráticos, diante da escola, nuns terrenos antigamente colonizados por sobreiros, se não me engano, e onde se realizavam, na altura da Festa, picarias. Esforçava-me por reter, para além da visão ameaçadoramente suburbana, as imagens dessas árvores sacrificadas ao arbítrio habitacional. A memória era atravessada por vislumbres do passado. Invadia-me a imagem de aí ter havido, nesses longínquos anos em que frequentei a escola, um acampamento de ciganos e de eu ter levado, talvez numa daquelas caritativas iniciativas escolares que haveria na época, material escolar como prenda de Natal para alguma criança do acampamento. Neste andar absorto diante da escola, sinto o vento a bater-me no rosto. É aqui que sinto uma comoção. Fico estático, perplexo, preso ao chão, aspirando avidamente aquele ar. Um passado com mais de 30 anos chegava até mim através do vento que corria. Mais do que as árvores mortas, mais do que o estranho acampamento de ciganos visitado pelo Natal, era a forma do vento correr que me perturbava. Desenterrava uma experiência de que eu não suspeitava sequer a existência. A forma do vento correr diante daquela escola tinha sido, para mim, tão peculiar que nunca, na verdade, a esquecera verdadeiramente. Ela estava ali pronta para, na primeira oportunidade, me assaltar e me fazer regressar a um mundo que eu julgara perdido para sempre.

Quando Sebald diz, logo a seguir, “Olga, como mais tarde me contou, teve uma crise de choro. Pelo menos, quando saiu de novo para a Alberchtstrasse, onde eu a esperava, encontrava-se num estado de comoção como nunca lhe tinha visto”, diz algo que eu compreendo perfeitamente. Esse encontro com um passado insuspeitado, esse reconhecimento de um acontecimento constitutivo de “si-mesmo”, mas que se encontra soterrado, provoca uma comoção. Como a personagem romanesca, também eu, perante o vento que corria, me senti perturbado e inquieto por essa estranha visita do passado, dum passado que vinha sob a máscara tão pouco definida do vento que corre. Ainda hoje, passados anos, sinto uma estranha inquietação quando penso nessa experiência. Toma conta de mim uma volúpia feita de prazer e terror. Prazer do reconhecimento; terror de que entre o que sou hoje e o que fui nesse longínquo passado nada tenha existido, ou o que existiu apenas tivesse sido uma longa e prolongada mentira.

A professora de Olga ensinava, tal como antigamente. O vento corria diante dessa minha primeira escola, tal como antigamente. “Tal como antigamente”; talvez baste esta expressão para iluminar por que razão gosto tanto da obra de Sebald. Enganar-se-á quem pensar que este “tal como antigamente” é uma expressão de saudade. Nessa expressão, encerra-se todo o mistério do tempo e do ser no tempo.

12/04/07

Entre colunas


11/04/07

Um risco no céu


30/03/07

Gigantomaquia


02/03/07