28/02/09

Moisés David Ferreira - Reencontro X

no compasso das mãos,
a intermitência
de um naufrágio
surpreendentemente compacto e claro.
ainda que a distância se feche,
e o vento
se cubra de insensatas multidões,
uma fronteira abalará
desde o âmago
a lápide do tempo.
onde mar e ouro se tocam,
e o sal
restitui à língua o impossível,

a indómita viagem
florescerá do infortúnio.

Insensatez - Nara Leão

Coisas dos congressos



Apesar de ter militado politicamente nos anos setenta do século passado, nunca participei em nenhum congresso partidário. De certa forma, eu tinha uma espécie de anjo-custódio que me protegia, inclusive dos meus desejos. Tendo a minha actividade política cessado por volta de 1977/78, nunca mais tive curiosidade por esse tipo de acontecimento, onde os delegados se reúnem em conclave para escolher ou aclamar o chefe. Com o tempo, esse tipo de assembleias foi-me parecendo cada vez mais pornográfico.

Ora, estava eu a ver as notícias na SIC, e lá apareceram umas imagens da reunião da ordem socialista para re-sagração do seu pastor. Tudo bem, uma pessoa percebe para o que serve aquilo. Mas há coisas, porém, que custam ver. Não me estou a referir àquele esforçado militante que desenhava uma curiosa teoria sexual ao arrepio das necessidades do PS [haja alguém que explique ao homem que aquilo é só para tirar uns votos aos gajos do BE] e protestava contra os casamentos gays, seja lá isso o que for. Também não me estou a referir ao dedicado militante açoreano que canta para alegrar a Dr.ª Edite Estrela, nem sequer ao discurso do Dr. António Costa. O que custa mesmo ver é um homem com o passado e o presente de Jaime Gama tecer loas ao pastor da congregação. Uma pessoa olha para ele e até parece ver que ele não acredita numa palavra que diz. Mas que ele as diz, lá isso diz.

A escola verdadeiramente pública

Liceu Nacional Sá da Bandeira, Santarém

Foi ali, no Liceu Nacional de Sá da Bandeira, em Santarém, que prestei provas para ver se era admitido no ensino liceal. Todos os candidatos tinham de fazer exame escrito e submeter-se a uma prova oral, onde professores do Liceu testavam o conhecimento e a destreza intelectual do candidato. Não me lembro rigorosamente de nada das provas escritas. Recordo-me, porém, de ter uma sensação de estar num edifício descomunal, se comparado com a escola primária de Torres Novas, de onde vinha. Tive a clara sensação de uma descontinuidade ontológica entre esses espaço escolares (sim, eu na altura não fazia sequer ideia que essa palavra existia, tinha apenas 9 anos). Ali, no Liceu, como se dizia em Santarém, eu estava noutra realidade, e isso era claramente pressentido por uma criança de 9 anos.

Lembro-me também da prova oral. Havia alunos, pais e professores a assistir às provas. Meu Deus, aquilo era mesmo a sério. Era um obstáculo e as várias equipas (sim, o aluno, os pais e o professor que o tinha preparado formavam uma equipa) torciam pelo seu candidato (o qual jogava apenas consigo mesmo) e ansiavam que ele saltasse o obstáculo. Fui interrogado sobre aspectos da Língua portuguesa, de História e de Geografia de Portugal (onde, na altura, se incluía as colónias). Lembro-me vagamente de estar perante mapas, a declinar rios e afluentes, produções e recursos. Mas o que recordo melhor é a parte referente à Matemática. Não da prova em si, mas da personagem do professor. Um homem grisalho, de face rubicunda, vestido com uma bata branca (talvez isso me tivesse desconcertado um pouco), um ar severo. Julgo que, durante a prova realizada no quadro, ele manejava um ponteiro de cana-da-índia, mas que ali tomava o singular sentido de um objecto que tivesse nascido da fusão de um bastão e de um ceptro real (de facto, aquele professor era um representante da autoridade - a do saber, claro - e da comunidade). Diz quem assistiu, que ele foi impiedoso e excessivo no interrogatório. Confesso que não faço ideia da veracidade do facto, sei apenas que sobrevivi. Quando saíram os resultados, eu era já outra pessoa. Tinha 9 anos, mas já não estava na escola primária. A cerimónia iniciática tinha-me conduzido, como a milhares de rapazes e raparigas com 9 e 10 anos, para um novo território e uma nova realidade. Eu tinha prestado provas numa escola verdadeiramente pública.

Aquela experiência do excesso (o espaço excessivo, a seriedade dos actos) não era traumática. Apenas tornava mais forte quem por ela passava. A única injustiça que existia no processo residia no facto de muitos estarem à partida excluídos da prova devido à sua origem social. Era isso que deveria ser corrigido. Mas o que aconteceu foi o contrário. Isso continuou a separar os alunos, mas os obstáculos que os tornavam melhores e mais fortes foram, um a um, removidos.

Este é o meu comentário ao texto do Zé Ricardo, no Jornal Torrejano e no Ponteiros Parados.

Um caminho perigoso


No abertura do congresso dos socialistas, José Sócrates voltou a falar de "campanhas negras" e da necessidade de "travar um combate decisivo" pela "decência da vida democrática", o que, como refere o Diário de Notícias, significa levar o caso Freeport a votos.

Mas este caminho, além de demagógico, é altamente perigoso para a democracia e, se ele for levado para a frente, Sócrates não estará a cuidar da "decência da vida democrática", mas a destruir a democracia. Esta assenta na separação entre o poder judicial e o poder executivo. O caso Freeport, tal como ele se está a desenrolar, é um caso de Justiça e não de plebiscito eleitoral.

Se Sócrates quer cuidar da democracia então que tome uma atitude semelhante aquela que tomou o seu camarada de partido, António Vitorino. Sob suspeita de uma irregularidade fiscal, pediu a demissão e na Justiça provou a sua inocência. António Vitorino defendeu a democracia. Sócrates não precisa de se demitir. Basta que não fale em "campanhas negras" e aguarde serenamente, sem apelo aos sentimentos de rebanho que há em todos os partidos políticos, o resultado das investigações judiciais. A retórica do "combate decisivo" é perigosa, muito perigosa, pois mobiliza paixões e oculta razões, nomeadamente a razão jurídica que deve resultar do processo judicial.

Todos temos o sentimento de que o caso Freeport tem um aproveitamento político, mas cada vez é menos claro quem é o efectivo beneficiário desse aproveitamento. Seja como for, estamos à porta de um novo passo para o abismo da democracia portuguesa, cada vez mais terceiro-mundista, cada vez menos europeia.

27/02/09

Moisés David Ferreira - Reencontro IX

de pulsos colados
à cópula das sombras, desço
das estações,
este confabulatório frio o decalque
do sangue no rigor mais íntimo
da escuridão.
sem cálculos,
à primeira pedra
guardo o detalhe,
os milénios, a confissão
de mínimas metamorfoses,
uma promessa de velocidade a engolir
no fogo a temperatura da ruína.
acompanhando a trajectória
demorada do súbito projéctil,
a voz
donde retirara a boca
parece entrar-me no corpo pela espinha,
como se procurasse
atingir-me na medida mesma
em que das minhas vísceras
a pedra se soltara tendo como
destino a minha própria imagem presa
à superfície convulsiva do meu nome.

Tell me the truth about love - Benjamin Britten

Carlos Abreu Amorim - Hino ao relativismo

A ministra inglesa das Crianças, Beverley Hughes, elaborou um panfleto que visa orientar as conversas sobre sexo entre pais e filhos. Trata-se de mais um marco na ingerência do Estado na função educacional das famílias.


O documento exorta os pais a não imprimirem nos filhos a distinção entre o bem e o mal no plano sexual. Os menores deverão formar os seus juízos sem intervenção parental: o contexto social e, sobretudo, o Estado encarregar-se-ão disso. Os pais poderão ter conversas ‘light’ sobre o tema mas nada de quererem transmitir valores e virtudes ou de traçar cenários incómodos face a opções que se sabem erradas.


Ou seja, o Governo trabalhista inglês quer que os pais deixem de o ser – só geram os filhos que, depois, ficam ao ‘Estado dará’. [Correio da Manhã, 25/02/09]

Jornal Torrejano, 27 de Fevereiro de 2009


Pouca opinião, esta semana, na edição digital do JT: Carlos Henriques escrever Deby emocionante, Inês Vidal, Onde está o PS? e José Ricardo Costa, 12 Medidas para Salvar a Escola Pública em Versão Simplex.

Para a semana haverá mais Jornal Torrejano. Bom fim-de-semana.

Detectives atrás dos filhos

Pais contratam detectives para controlar filhos, noticia o DN. Namoros, saídas, consumos de drogas, utilização da Internet, tudo isso é objecto de "investigação" do detective contratado. Os "psi" de serviço comentam: «O recurso a detectives "não faz sentido numa relação de pais e filhos", acredita Daniel Sampaio. "É quase psicótico os pais querem controlar o incontrolável", critica Rui Ferreira Nunes.» Mas a questão não é se o recurso a detectives faz ou não sentido ou se é a manifestação de um sintoma psicótico. O problema é outro: que tipo de sociedade construímos que obriga a este tipo de actos? Que tipo de sociedade é a nossa que ninguém controla as novas gerações? Que contributo deram para a situação muitos pais que agora se vêem obrigados a chamar os nossos Sherlocks? E que responsabilidade têm as teorias de muitos "psi" de serviço nos último 20 a 30 anos?

26/02/09

Moisés David Ferreira - Reencontro VIII

a voz regressa nua,
maculada, baça,
desabrochando no ventre
da maré vazante,
quando a incipiência das deambulações se apaga
e o riso se acama no seu berço:
uma explosão. medo.
na areia indecifrável,
um trilho de búzios desconexos,
a danação das línguas, vogais
rasgadas,
e o espumoso leite da noite
cercando o mergulho das mãos na claridade.

Clemencic Consort - Carmina Burana

O bispo iluminou-se

Afinal o bispo Williamson teve uma iluminação. Alguém lhe demonstrou, e em curto espaço de tempo, que o holocausto sempre existiu. A expulsão da Argentina, por motivos de opinião, foi um excesso inaceitável. Mas esta tão súbita iluminação sobre a verdade histórica do genocídio do povo judaico só me faz lembrar a iluminação, na estrada de Damasco, de Saulo de Tarso. Mais: o bispo obedeceu ao Papa e pediu desculpa por ter negado o holocausto (aqui). Parece que na Igreja Católica ainda há quem mande, isto para além de provocar iluminações súbitas. Nem sempre o princípio de autoridade é uma coisa má, pelo contrário.

Apontamentos para uma arte poética - III

A poesia, mesmo quando suspende a gramaticalidade usual, reforça a nossa percepção do mundo como uma evidente relação de causas e efeitos. Mas se a nossa visão do mundo como uma cadeia de conexões causais tem a sua raiz num hábito psicológico, como defende David Hume, não deveria a poesia visar um "para além" do hábito? A consumação da essência da poesia não seria permitir que a linguagem dissesse esse outro mundo que se oculta no hábito, hábito que nos obriga a associar os fenómenos em infinitas cadeias de causas e efeitos? Mas que mundo seria esse onde não existisse uma ligação entre os fenómenos? Esse mundo não é perceptível por nós, pois contraria a formatação psicológica com que apreendemos a realidade envolvente e mesmo a nossa realidade subjectiva. Se conseguirmos imaginar uma utilização poética da linguagem para além daquela que fazemos, poderemos pensar então numa poesia não-causal. Mas esta poesia teria de re-inventar a sintaxe, descativando-a das conexões causais. Esse seria um primeiro passo, para logo de seguida instituir novas formas de conexão não causais. Ou, no limite, marcar uma nova forma de discurso no qual estivesse ausente toda e qualquer conexão, para além da continuidade temporal e da contiguidade no espaço [continua]. [26/02/2009]

25/02/09

Moisés David Ferreira - Reencontro VII

a essência do lugar: um rasgo esquivo
na mancha da solidão.
e os dedos cavam as lâmpadas cujo
filamento é um sistema de relâmpagos.
estou à beira de um relâmpago: esta janela
bebendo a liquefacção de todos os invernos passados
a dançar dentro da chuva.
quando as oliveiras frias levantavam a sua lua de cânticos
e o fruto, o único fruto, era o assombro:
de repente, a cor dilatada dos pulmões
sustendo a respiração;
ou o adentrar das raízes do fogo
no extremo inconcluso da carne.
esta janela: e o grito estabelece-se
na pulsação migratória das minhas próprias mãos,
a princípio coberto da fuligem
dos dias que não sangram, depois
geométrico como se quisesse
levantar-se do seu húmus,
ou ser música. a memória desfaz-se,
e desfeita comanda a orquestra
do que é derradeiro, mínimo:
o diamante insular dos teus olhos
escorrendo da paragem do tempo,
a consumação das estrelas nesta chama a abandonar
a superfície do lume,
o vento acabado de sair
das vísceras de um litoral.

Diana Krall - A Case of You [Live]

Kjell Nordstrom - Inovação e emoção

Kjell Nordstrom

Kjell Nordstrom dá uma interessante entrevista ao Público, de hoje. Este professor universitário sueco é considerado como um dos grandes gurus do mundo dos negócios, e mesmo aqueles que não gostam de gurus nem do mundo dos negócios devem prestar-lhe alguma atenção. Este tipo de pessoas tem uma especial capacidade de orientar o olhar para aquilo que pode estar a chegar. Quais os traços fundamentais que se destacam na sua retórica sobre a saída da actual crise? A inovação e a emoção. Curiosamente são já os conceitos fundamentais que conduziram à crise em que estamos mergulhados. A produção do inédito e a substituição da razão pelo sentimento são os elementos estruturantes do Zeitgeist das últimas décadas. Quem pensar que a actual crise é uma janela aberta para um certo retorno de alguns valores ligados à racionalidade ocidental está redondamente enganado. A crise que se está a viver é um momento onde a aceleração dos processos iniciados com a modernidade se vai intensificar. Isto significa que a tensão do futuro sobre o presente vais ser ainda maior e que o pensamento dos actores sociais estará mais preso a imagens desse futuro do que à realidade efectiva do presente. Daí a importância da inovação e da emoção.

Mas se pensarmos na essência destes dois conceitos ficamos perplexos. Tanto um como o outro dissolvem aquilo que é essencial para o homem viver e para as comunidades se desenvolverem: a estabilidade. O que assegura a estabilidade é a solidez da tradição e a clareza da razão. Inovar significa destruir a tradição, substituir o testado pelo que é novo. Apelar à emoção quer dizer apenas que as decisões (individuais e colectivas) irão sendo cada vez mais tomadas sobre a obscuridade do sentimento, em detrimento da luz da razão. Isto significa então uma coisa deveras interessante: a saída para a crise é a intensificação da própria crise: dissolver os laços racionais, substituí-los por "links" emotivos, destruir o existente através da inovação como processo de produção não apenas do novo, mas também da obsolescência do velho, tudo isto significa apenas o crescimento das situações críticas que atingem o mundo humano. Talvez o que possa estar a acontecer não seja uma crise episódica, como aquela de 1929, mas a entrada num período crítico contínuo e prolongado, do qual não haja saída dentro do quadro de valores em que nos movemos desde o século XVII.

Há em toda esta história uma obscuridade que não deixa de assediar o pensamento. Que estranha racionalidade foi aquela que emergiu no século XVII, com Descartes, e se desenvolveu com o Iluminismo, o idealismo alemão, o pragmatismo americano, que está a conduzir à aniquilação da própria razão no magma do sentimento? Que irracionalidade se escondia no projecto da modernidade para que agora ele venha, mais uma vez, à luz do dia?

24/02/09

Moisés David Ferreira - Reencontro VI

cerca-nos o último enigma –
a ave sem ocaso – torrentes
cardeais
descerrando o som umbilical da noite,
a abrupta flâmula
do mar.

Nostalgia e vergonha



Uma das maiores humilhações do regime democrático é aquela que, de certa forma, o autor do blogue Combustões retrata no post Santa nostalgia. Um regime democrático não tinha que, obrigatoriamente, gerar a nostalgia do sistema educativo do regime de Salazar. Mas o descalabro a que pedagogice pateta e a irresponsabilidade política conduziram o sistema educativo quase que sublima e santifica o que se fazia anteriormente. Mais: para vergonha da nossa democracia o sistema educativo actual, aquele que nasceu das últimas eleições (mas que já se vinha desenhando há muito), é, considerando os respectivos contextos sociais e epocais, menos democrático e menos democratizador da sociedade que o sistema dos anos sessenta. A destruição da escola pública veio pôr a nu qualquer coisa que já se suspeitava: só as classes médias altas e altas das grandes cidades têm a possibilidade de dar uma educação menos má aos seus filhos. O nefasto ensino secundário (essa coisa que nasceu da destruição dos liceus), aquela espécie de coisa a que se chama ensino básico e um ensino técnico sempre a recomeçar do zero são aquilo a que os menos afortunados têm direito. Isto não é apenas uma abjecção académica, mas um acto de infinita injustiça social.

Dressur by Mauricio Kagel

Convite à valsa


O ridículo não é apenas ridículo... (2)

A PSP de Braga decidiu justificar a apreensão de livros de arte com a reprodução na capa do belíssimo quadro de Courbet (ver post anterior). Vejamos as razões de acto tão inusitado: «A polícia adianta que a confiscação dos livros não ficou a dever-se à violação de “qualquer norma do código penal”, mas às queixas dos pais de várias crianças que visitaram a feira do livro em saldo, no centro da cidade.“Tratou-se de uma medida cautelar para evitar uma alteração da ordem pública e o cometimento de outros crimes”, afirmou ao PÚBLICO o segundo-comandante da PSP Henriques Almeida, que diz ter havido “iminência de confrontos físicos” no recinto da feira.“Havia vários grupos de crianças a visitar a feira que, depois de se aperceberem da obra, arrastaram vários colegas para a verem. Os pais não gostaram da situação, começaram a ficar inquietados e pediram aos organizadores que retirassem os livros”, explica o responsável da polícia.» Cometimento de "outros" crimes? Mas que crimes foram cometidos? Iminência de confrontos físicos no rrcinto da feira? Mas aqueles que ameaçaram a ordem pública não foram detidos ou identificados? Estas justificações ainda são mais canhestras e deploráveis do que as anteriores. Algo vai mal na nossa paróquia.

O ridículo não é apenas ridículo...



Foi graças ao Portugal dos Pequeninos que tomei conhecimento disto: «Em Braga, três agentes [da PSP] "levantaram" o "competente auto" e apreenderam numa feira de livros de saldo alguns exemplares de um livro sobre pintura que ostentava na capa o famoso Courbet, A Origem do Mundo». Parece, na douta explicação adiantada, que «os livros continham imagens pornográficas expostas publicamente». Interessa-me pouco o nível cultural dos guardas da PSP, ainda menos a discussão sobre o que distingue o erótico do pornográfico (aliás, conceitos que não se aplicam à obra em questão), nem sequer a querela sobre o que é arte ou não é. O que me interessa mesmo é perceber de que doença é que esta acção da PSP de Braga e a não menos interessante interdição, logo levantada, de umas imagens do corso de Torres Vedras são sintomas. Parece que as nossas instituições de justiça e de segurança andam muito interessadas nos costumes. Haverá na mente de quem nos governa a ideia de voltar à polícia de costumes? Estas acções ridículas não são apenas ridículas, são perigosas por aquilo que indiciam, e eu não sou propriamente um libertino ou um imoralista. Parece que nos últimos anos, de forma mais ou menos inconsciente, um clima adverso à liberdade se foi instalando no país. Seria bom que estes sintomas desaparecessem rapidamente de cena. O ridículo não é apenas ridículo, pode ser letal.

21/02/09

Moisés David Ferreira - Reencontro V

pronunciado um nome, o esqueleto
sobrepõe-se à pele, desabrocha,
o crepúsculo
comprime a fala, devolve-a
à tensão dos ossos,
e o magma do tempo quieto
rompe a crosta dos lábios.
– chamar alguém – soletrar
do fundo um nome –,
é descompassar a morte, ir harpejando
o lume
no extremo desta água.

Bruno Maderna: Aura (1972)


Sinfonieorchester des Norddeutschen Rundfunks diretta da Giuseppe Sinopoli.

Capolavoro del tardo Maderna scritto per l'ottantesimo anniversario della fondazione della Chicago Symphony Orchestra. In questa splendida composizione c'è tutto il Maderna ultimo, fine ricercatore di timbri e speculazioni sonore di tipo post-impressionista. L'andamento rapsodico del lavoro e l'utilizzo sporadico della tecnica dei gruppi caratterizza il dipanarsi di una serie di idee sviluppate in modo quasi cameristico, con un uso dell'Orchestra spesso divisa per sezioni che dialogano attraverso una serie di rimandi organizzati in modo ciclico. Un'Opera di fascino assoluto, che fa rimpiangere una volta di più la perdita del suo autore, grande Compositore e ottimo direttore d'orchestra, un musicista che certamente avrebbe detto ancora molto negli anni a venire.

Ciência e ideologia


O Zé Ricardo, num interessante post onde refere o interesse de Álvaro Cunhal pela teoria de Darwin, escreve «A Ciência, por princípio e definição, não é ideológica. Mas é uma arma demasiado séria e poderosa para ser desprezada pelas ideologias.» Nestas proposições, que assentam num certo consenso iluminista, há um problema que me parece merecer pensamento. A questão poderá ser formulada da seguinte maneira: o que, na ciência, a torna digna de interesse por parte da ideologia? O que nela permite a sua exploração ideológica por parte das ideologias políticas?

O termo ideologia foi criado no início do século XIX, pelo filósofo francês Destutt de Tracy, e tinha o significado de uma ciência das ideias, tomadas estas como o conjunto de estados da consciência. A fortuna do conceito de ideologia nasce, porém, com a utilização feita do termo por Marx. Para este, a ideologia representava uma visão invertida, distorcida do real. De certa forma, é desta maneira que o Zé Ricardo a utiliza no seu post.

Mas se nós quisermos perceber o fenómeno ideológico, não podemos pôr de lado nem a primeira definição de ideologia dada por de Tracy, nem sequer uma longa arqueologia que terá um momento importante nas Ideias platónicas, e deverá também incluir obrigatoriamente o conceito de “idola”, de Francis Bacon. Também, para essa arqueologia, não é pouco importante a problemática judaica do combate à idolatria, a perversão na crença nos ídolos.

Onde deveremos inscrever a ciência dentro desta problemática? Não será ela uma arma contra toda a idolatria e contra toda a distorção que a ideologia introduz na relação do homem com a realidade? Sim, mas... A ciência não deixa de ser um produto ideológico, se aceitarmos a definição muito genérica dada por de Tracy. A ciência, ao lado de outros fenómenos como a filosofia, o senso comum, o mito, etc., faz parte dos sistemas ideológicos, tomados no sentido geral, com que a humanidade apreende e compreende o mundo. Entre a ideologia política, tomada como forma distorcida de compreensão do real, e a ciência há uma comunidade: são ambas formas de compreensão e de acção sobre o real. Este é um primeiro motivo que permite o aproveitamento pela ideologia política (totalitária ou democrática) da ciência. Esta pela sua natureza ideológica originária presta-se a estes aproveitamentos perversos.

Mas há ainda uma outra razão pela qual deve relativizar-se a primeira proposição do Zé Ricardo: «A Ciência, por princípio e definição, não é ideológica». A ciência não é apenas um produto ideológico, entre outros, produzido pela espécie humana, mas um produto que possui na sua raiz uma decisão ideológica muito específica. A instituição da ciência moderna com Galileu, depois continuada por Newton, etc., constrói um objecto de investigação por decisão ideológica. O que Galileu faz é definir aquilo que deve ser ou não ser considerado natureza para objecto de investigação. Esta decisão não está inscrita na natureza das coisas. Deve-se a uma opção fundada na consciência humana, a uma opção ideológica. Como certas leituras fenomenológicas mostraram, há uma pré-compreensão do que é a natureza, pré-compreensão que determina a definição de objecto de investigação, bem como a construção do corpo teórico, dos processos e métodos de investigação, etc. As ciências, tanto as da natureza como as sociais e humanas, assentam, dessa forma, numa tomada de posição (uma perspectiva unilateral) sobre os respectivos objectos. Desse ponto de vista, a ciência é ideologia e ideologia que se funda num determinado perspectivismo sobre o real. É por isso, pela sua natureza ideológico-perspectivística, que a ciência exerce uma enorme atracção sobre a ideologia política, seja ela de que quadrante for, também ela perspectivística.

Há ainda uma outra questão que mereceria atenção. As ideologias políticas modernas são, em geral, produtos posteriores ao nascimento da ciência moderna. Seria interessante seguir o rasto dessas ideologias e observar o momento e a forma como elas se encontraram com a ciência moderna. Talvez pudéssemos constatar um facto muito curioso: o berço das ideologias políticas modernas, daquelas que pervertem e distorcem a visão da realidade, situa-se no caminho aberto por esse acontecimento seminal que o foi a decisão metodológica de Galileu. Talvez, eu sei que estou a usar uma formulação eufemística, a ideologia política, enquanto visão pervertida da realidade, tenha nascido da sobredeterminação ideológica presente no acto originário que institui a própria ciência. Mais: as ideologias políticas seriam uma espécie de ganga proveniente do impacto social causado pela ciência moderna, uma espécie de espuma causada pela própria sobredeterminação ideológica da ciência. Que essa sobredeterminação ideológica da ciência moderna seja recalcada é aquilo que dá que pensar.

O convite

Por que razão terá José Sócrates convidado Hugo Chávez para estar presente no congresso do Partido Socialista (aqui)? Sim, claro que, segundo um responsável socialista, o convite se deve às relações fortes, blá, blá, blá... Mas nesta notícia da TSF, encontramos motivações bem mais fortes e pertinentes. Diz-nos ela que a produtividade média de cada português, nos anos de Sócrates, cresceu 2%, mas o rendimento médio, desde 2005, continua a afastar-se da média europeia. Um Partido Socialista que favorece uma distribuição do rendimento desfavorável ao mundo do trabalho, precisa de comprar uma aura de esquerda para tentar evitar a perda de eleitorado para o PCP e o BE. Chávez seria um óptimo emblema para cobrir, com um selo de esquerda, políticas abertamente de direita. Em tempo de eleições não se limpam armas.

20/02/09

Moisés David Ferreira - Reencontro IV

(como blocos de inaudita densidade,
secretamente os versos comparecem
ao trabalho ázimo
da multiplicação do espaço –
construção não como
sobreposição de estratos de matéria,
mas como génese do núcleo
onde a matéria se dilata e entrelaça
no vácuo que a inaugura.)

Mercedes Sosa e Milton Nascimento - Volver a los 17

Um ofício tem um chão de ouro



Nos Provérbios, de Sebastian Franck (Frankfurt, 1560), é recolhida a versão do humanista germânico Johannes Agricola Schnitter (1494 - 1566) do seguinte provérbio: "Um ofício tem um chão de ouro". Esta formulação recolhe uma antiquíssima experiência da humanidade. Como ler esta frase? Ela diz-nos que compensa aprender um ofício. Diz-nos mesmo, noutras versões, que um bom ofício, uma vez adquirido, é sempre uma segurança, um chão ou fundamento para a riqueza.

Esta sabedoria tradicional, começou a morrer no exacto momento em que Agricola faz a sua formulação. Os tempos modernos começavam a emergir no horizonte histórico e preparavam o caminho para os nossos dias. Poderemos hoje dizer que um bom ofício nos dá segurança? Não. Os ofícios humanos tornaram-se evanescentes, as profissões alteram-se rapidamente, aparecem e logo desaparecem. Subjacente à perspectiva ainda recolhida por Agricola está a da estabilidade de uma vida, onde o ofício dá sentido e prosperidade. Hoje, porém, os homens, contra sua vontade, tornaram-se nómadas, não de um nomadismo que os leva de lugar em lugar fazendo sempre o mesmo, mas de um nomadismo psicológico que os obriga a aprender, se é que é isso que eles fazem, novos ofícios que desaparecerão em meia dúzia de anos. Que consequências terá este novo nomadismo para a sociedade, para a família e para o indivíduo? Ler ou escutar as notícias dá uma pequena ideia para onde conduz a nova sabedoria, à qual não falta os seus ferverosos Johannes Agricolas.

Marxs há muitos

António Vilarigues escreve, no Público de hoje, um artigo com o título “O meu Marx é diferente”. Refere-se às re-leituras que, um pouco por todo o lado, se estão a fazer da obra marxiana. Vilarigues acha-as uma “deturpação objectiva do seu (de Marx) pensamento”. Eu não espero já que pessoas como Vilarigues entendam uma coisa muito simples: os grandes autores são para serem interpretados, deformados, deslidos, treslidos. Não há nenhuma leitura canónica de Marx, como não há de Platão, nem de Espinosa, nem de Kant ou de Wittgenstein. Quero, porém, comentar algumas passagens do artigo em causa, e mostrar que o Marx de Vilarigues é efectivamente perigoso para a espécie humana.

«O meu Marx é o que converteu a utopia em pensamento político e este em acção revolucionária.» Esta frase bastava para perceber a essência utópica da acção dita revolucionária. Mas como salientei noutro post, a utopia é o princípio do crime político organizado. Foi também devido ao carácter utópico do marxismo que as experiências do dito “socialismo real” foram criminosas. Transformar a utopia em pensamento político e em acção revolucionária não é uma coisa bondosa. Pelo contrário, é dar armas à imaginação para que ela suprima a realidade e se entregue à volúpia daquilo que é meramente utópico (à letra, o que não tem lugar).

O Marx de Vilarigues foi «o que descobriu as leis objectivas do desenvolvimento social e provou cientificamente a inevitabilidade da superação do capitalismo e do triunfo do socialismo.» Mas como é possível, nos dias de hoje, dizer uma coisa destas? Mas que leis objectivas são essas? Onde é que podemos testá-las? Onde é que está a prova científica da inevitabilidade (sic) da superação do capitalismo e do triunfo do socialismo? Que ciência é esta? Apenas uma pseudo-ciência que produz proposições metafísicas que não podem ser testadas ou falsificadas, na linguagem de Karl Popper. Não, Marx não descobriu quaisquer leis do desenvolvimento social. Marx apenas fez um conjunto de proposições metafísicas, ao nível daquelas que afirmam a existência de Deus ou a imortalidade da alma. Marx, como muitos autores do século XIX, vivia fascinado pela mecânica clássica de Newton. Pensou que um projecto idêntico poderia ser aplicado à sociedade. Não podia. Marx não o sabia, mas nós no século XXI sabemo-lo. Mas como as proposições de Marx são metafísicas, ainda há pessoas que acreditam nelas por uma questão de fé, mas fé essa que é travestida de ciência.

O Marx de Vilarigues é «o que analisou a vida social como algo que está em permanente movimento. O Marx determinista, mas não fatalista.» Sim, é verdade. Um Marx determinista. Mas esse determinismo marxiano é o sintoma não apenas do seu mecanicismo social, como do desprezo pela liberdade. Se nós pensarmos que a sociedade se desenvolve segundo leis necessárias e inevitáveis, segundo uma determinação legal análoga à natureza, então não há liberdade humana. Resta-nos esperar, como uma fatalidade, pelo socialismo que há-de vir. Aliás, ele veio, mas parece que se aborreceu e foi-se embora.

Para dizer a verdade, este Marx de Vilarigues, e daqueles que pensam como ele, não serve para grande coisa. Marx é um grande pensador e, como todos os grandes pensadores, é um pensador que produziu um pensamento cheio de perigos. O perigo faz parte da essência do pensamento. O perigo do pensamento marxiano reside na utopia que se esconde sob a mitologia da acção revolucionária; reside também na ilusão da cientificidade da sua filosofia. Malgré soi, Marx era um metafísico.

Apontamentos para uma arte poética - II

Nós percebemos o mundo como uma cadeia de causas e efeitos, como um contínuo de ligações entre fenómenos, mas será que o mundo é efectivamente assim? A relação causal existirá efectivamente? Por exemplo, David Hume, embora não a negando, diz que nós não temos qualquer experiência da conexão causal entre fenómenos. Apenas nos habituámos a esperar que certa coisa aconteça quando uma outra acontece ou aconteceu. A ligação causal seria então o resultado de uma idiossincrasia psicológica da espécie humana. Mas o que tem a poesia a ver com tudo isto? Em primeiro lugar, poderemos pensar que aquilo a que David Hume chama um hábito se relacione com a estrutura sintáctica das nossas línguas. A sintaxe ordena os elementos dentro da frase. Esta ordem, porém, não é uma ordem que pertença ao mundo, mas à língua. Diferentes línguas ordenam os elementos no interior da frase de formas diversas. Essa ordenação linguística acaba por ser uma forma de compreender o mundo. Eu olho para o mundo a partir da sintaxe da língua que falo. Podemos perguntar, de forma mais radical, se a conexão causal que compreendo no mundo não será o efeito global da sintaxe que uso para descrever o mundo. Pode não haver ordem no mundo, ordem entre os fenómenos, mas a sintaxe impõe-na, cria-a. Em segundo lugar, podemos perceber que a poesia, apesar de suspender, por vezes, certos usos sintácticos correntes, não atinge o núcleo central da percepção causal dos fenómenos mundanos ou psicológicos. Ela não suspende a sintaxe, refunda-a, o que significará que ela refunda a forma de compreender a conexão causal que nos parece existir no mundo. A poesia, mesmo aquela onde a gramaticalidade usual é questionada, acaba por reforçar essa nossa percepção do mundo como uma evidente relação de causas e efeitos [continua]. [20/02/2009]

Jornal Torrejano, 20 de Fevereiro de 2009


Na opinião, comece-se com Carlos Henriques e Benfica feliz na vitória. Depois, leia-se Inês Vidal, Pontes p'a todos, José Ricardo Costa, Em defesa da Aula Expositiva e Miguel Sentieiro, Crianças Índigo.

Chega. Para a semana, em conformidade com a disposição dos deuses e dos astros (mas os astros não são deuses?) haverá mais. Bom fim-de-semana.

A Estética dos Tempos


A blogosfera com origem em Torres Novas, o que é diferente da blogosfera torrejana, está mais rica. Em linha, desde 28 de Janeiro, está o A Estética dos Tempos, de Acácio Luz, arquitecto e professor, e membro de uma comunidade de vizinhos, real e não meramente virtual, da qual fazem parte o Zé Ricardo e este blogger.

O que poderá encontrar por lá? O melhor é mesmo ir, mas sempre lhe digo que pode esperar encontrar fotografia, belíssima fotografia, e reflexões sobre temas variados, como a arquitectura, a música, o teatro, a literatura, a educação. Portanto, um blogue que está a dar os primeiros passos e que vai tornar-se uma visita obrigatória.

19/02/09

Moisés David Ferreira - Reencontro III

o aceno é um rio decretando o fogo,
âncora a brotar
do ruir das idades.
ao pássaro recolhido
sobre os dilacerados frutos que cobrem
o diamante nocturno e tentacular
dos verões, alguns chamarão
crepúsculo, outros ainda
morte. mas o reencontro é a chave
que descerra o cofre da cinza, o seu tremor
ascensional. e a frase inaugura
o resplendor cantante
onde a rosa coincide
com a manhã.

Tabula Rasa - Miguel Robles/Arvo Part

O preço da liberdade


Os argentinos passaram das marcas. Este senhor, bispo Richard Williamson, tem dez dias para abandonar a Argentina (Sol). Cometeu algum crime? Não. Apenas um delito contra as evidências empíricas. O senhor bispo, que fora excomungado da Igreja Católica e posteriormente reintegrado, não acredita no holocausto. Ele acha que os nazis não mataram assim tantos judeus, quanto muito mataram apenas 200 ou 300 mil, como se isso não fosse já um crime absolutamente indesculpável. Esta crença, que é uma falsidade histórica, é antes do mais um erro cognitivo. Pode ser considerada uma opinião moralmente e politicamente inceitável. Mas apesar disso não pode ser objecto de perseguição política. A liberdade de opinião deve ser defendida, mesmo quando as pessoas persistem em pensar e exprimir coisas erradas. Esse é o preço da liberdade, e é nestes momentos que ela revela toda a sua natureza moral.

O Profeta Magalhães

O país ensandeceu. Não por acaso, os casos mais graves estão ligados com a educação. Agora foi o Ministério Público que decidiu proibir uma sátira, no Carnaval de Torres Vedras, ao Magalhães, essa invenção eleitoral acolitada pelo Ministério da Educação. Não bastava já a sandice da distribuição a esmo destes computadores, agora parece que são tão sagrados como o Profeta. Deles não pode haver caricatura, na caricatura em que o país se está a transformar.

Apontamentos para uma arte poética - I

No post abaixo, o poeta Paul Celan diz que o poema é uma forma de “manifestação da linguagem” e, por isso, é na sua “essência dialógico”, dirige-se a alguém. Como se sabe, o fazer poético, esse produzir de um texto que se dirige a alguém, estrutura-se pela suspensão da semântica vulgar, pela abertura de novos espaços de sentido. Isto faz-se a partir de duas estratégias. A primeira, mais corrente, é a utilização das chamadas figuras de estilo, nomeadamente da metáfora. A linguagem renova-se, ao ampliar o conteúdo dos significantes, e dá a ver o mundo de uma forma que, devido ao desgaste, o uso vulgar da linguagem é já incapaz. A segunda, menos usual, implica uma certa desgramaticalização da frase poética. Esta desgramaticalização é uma suspensão da sintaxe corrente, ou uma reconstrução da sintaxe em novos moldes. Sublinharia, porém, que a poesia, enquanto forma de tecer textos e apesar da renovação que impõe da forma como habitamos e vemos o mundo, não deixa de reforçar essa forma de ver o mundo, naquilo que é a sua essência, a de compreender o mundo como um nexo de relações de causa e efeito. Estas são apresentadas de uma forma mais sedutora, devido ao efeito das figuras de estilo, e são, de certa forma, reforçadas, pelas novas formas de aproximação sintáctica, mas é ainda o nexo causal que é mostrado, pela poesia, como verdadeira essência do mundo [continua]. [19/02/2009]

Paul Celan - O poema


Porque o poema não é intemporal. É certo que proclama uma pretensão de infinito, procura actuar através dos tempos — através deles, mas não para além deles.

O poema, sendo como é uma forma de manifestação da linguagem e, por conseguinte, na sua essência dialógico, pode ser uma mensagem na garrafa, lançada ao mar na convicção – esperançada — de um dia ir dar a alguma praia, talvez a uma praia do coração. Também neste sentido os poemas estão a caminho — têm um rumo.

Para onde? Em direcção a algo aberto, de ocupável, talvez a um tu apostrofável, a uma realidade apostrofável. Penso que, para o poema, o que conta são essas realidades. E acredito ainda que raciocínios como este acompanham, não só os meus próprios esforços, mas também os de outros poetas da geração mais nova. São os esforços de quem, sobrevoado por estrelas que são obra humana, de quem, sem tecto, também neste sentido até agora nem sonhado e por isso desprotegido da forma mais inquietante, vai ao encontro da língua com a sua existência, ferido de realidade e em busca de realidade.
[Paul Celan, in "Alocução na entrega do Prémio Literário da Cidade Livre e Hanseática de Bremen.]

Será que estamos a perceber?


"A crise é na realidade o toque a finados da globalização desregulada." Esta frase pertence a João Ferreira do Amaral (Diário Económico, de 18/02/09). Mas, penso, ainda não se está a perceber bem a situação. O problema não está na passagem de uma globalização desregulada para uma globalização regulada, nem, tão pouco, em passar da globalização para a localização, digamos assim.

O problema é muito mais vasto e põe em causa os próprios desígnios que são os das sociedades que cresceram na sequência do Iluminismo. Por exemplo, que consequências tem o crescimento económico? O planeta suporta-o? Que consequências humanas tem a actual tendência para o crescimento do horário de trabalho? Vamos retornar aos tempos do início da industrialização, vamos voltar à escravatura?

Assim, a questão é bem mais verrumante do que um conflito entre modelos económicos. Não é apenas a economia que está em crise, mas todo um modelo civilizacional, modelo que do Ocidente foi exportado para o Oriente, e que está a implodir. O que não admira, pois o Iluminismo, de cariz liberal ou socialista, assentou, em última análise, a essência civilizacional na economia. O toque a finados que se escuta é um contínuo dobrar dos sinos. Os cadáveres não param de se empilhar. [Imagem extraída de Outra Política]

18/02/09

Moisés David Ferreira - Reencontro II

as escadas capturam o assombro,
árvores enleadas ao correr dos séculos,
o grito fulminante das pedras e das águas
assistindo ao desfilar de espectros sobre
o tenebroso cais da inocência.
no coração das muralhas,
veias oblíquas debatem-se
contra as máscaras insones
e o alvor dos túmulos;
dentro das pontes, cantos impérvios
detonam ainda
alguns lugares da infância. (outras mãos
renasceriam dos sopros se essa corda
fosse minuciosamente tangida pelo amplexo
de quem tivesse regressado
da morte – outra
voluptuosa onda afundaria o seu distendido mármore
nos dentes da tempestade).
os passos invertem a distância
dos ecos a si mesmos, floresce
uma câmara vertical
onde os dedos se mergulham
nos plexos do tempo
(para emergirem como uma esteira de estrelas,
a noite um peixe terrestre e volátil).
as escadas
são um lugar de relâmpagos,
a presença súbita de como que
a vida inteira
no lento abrir de pétalas
que é subir.

John Abercrombie - Timeless

O carnaval escolar



Será possível dar a perceber à opinião pública o grau extremo de degradação a que chegou a educação em Portugal? Não estou a falar sequer da qualidade de ensino ou da inanidade do currículo nacional, nem das ideias mirabolantes que ocorrem sistemáticamente na cabeça dos governantes educativos. Estou a falar do espírito que preside à escola em Portugal. Nada melhor para perceber isto do que a revolta dos pais de Paredes de Coura contra os professores e do apoio dado pela DREN a esses pais (aqui).

Consta que os professores do agrupamento de escolas de Paredes de Coura, tendo em conta o muito trabalho a que estão submetidos, decidiram suspender a realização de algumas actividades extra-curriculares. Entre elas a da realização de um desfile de Carnaval. Isto gerou a indignação dos pais. Leia-se o seguinte:«Eduardo Bastos lembrou aos professores que os alunos serão os "únicos prejudicados" com esta forma de protesto dos professores. os Encarregados de educação vão reunir hoje à noite para decidir que medidas tomar para "convencer" os professores a recuarem no cancelamento do desfile de Carnaval. »

Mas a não realização de um desfile de Carnaval prejudica os alunos, enquanto alunos, em quê? Faz parte do currículo nacional o desfile do Carnaval? É isto que preocupa os pais? É para isto que os pais são metidos na escola? Já ninguém tem a noção do ridículo?

Senão estivéssemos, por outro lado, perante o delírio mais extremo, como poderíamos explicar isto: «A Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) determinou hoje a realização do desfile de Carnaval dos alunos do Agrupamento de Escolas de Paredes de Coura apesar de os professores não terem decidido se acatarão a ordem da DREN.» O Ministério da Educação agora serve para obrigar à realização de desfiles de Carnaval? Ninguém tem vergonha?

Mas os professores não são menos responsáveis pelo estado a que se chegou. Foram eles que habituaram os pais a este tipo de folclore. Foram eles que, muitas vezes, substituiram, com o apoio e o gáudio do Ministério da Educação, a escola como centro de saber pela escola como centro de animação e actividades folclóricas. Foram eles que alimentaram, muitas vezes ingenuamente, o monstro que agora os devora.

A plebe democrática, como todas as plebes, preocupa-se com o pão e o circo. Está na sua natureza. Ao Ministério da Educação e aos professores tinha-lhes competido mostrar que a escola era um sítio de aprendizagem, um centro de transmissão de saber e não um espaço lúdico para entretenimento da criançada.

Este acontecimento de Paredes de Coura é o retrato fiel da situação a que se chegou em Portugal. O niilismo que tomou conta das instituições tornou-se agressivo. Os professores estão estupefactos. Mas já é tarde. Quem semeia ventos colhe tempestades. A essência da escola portuguesa não está já, e há muito tempo, na sala de aula, mas no desfile carnavalesco. Uma mascarada abjecta.

17/02/09

Moisés David Ferreira - Reencontro I

a viagem dá-se entre as mãos
e os lampadários submersos no asfalto.
(irrespiravelmente se unem
sangue e voz.)
uma fonte dilata as clareiras crepusculares,
espelhada
nas incisões do vento.
o tempo, esse, coroa de abalos
a seiva,
e a sua sísmica cor
é uma onda exigindo a exactidão estelar
de uma imaterial cartografia.

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Com este poema inicia-se a publicação do ciclo "Reencontro". Durante 25 dias, serão publicados os poemas deste ciclo, da autoria do meu amigo e antigo aluno David Moisés Ferreira. A revelação para os leitores de o A Ver o Mundo de um excelente poeta.

Jan Garbarek, Eberhard Weber, Marilyn Mazur, Rainer Brüninghaus

Mau humor climático


Há em certos sectores da sociedade, com reflexo em áreas significativas da blogosfera, um desprezo claro pela temática do aquecimento global do planeta. A tese centra-se na ideia de que o aquecimento não é o produto da nossa acção, nomeadamente da emissão de gases que provocam o efeito de estufa. É um facto que certas profecias apocalípticas não se realizaram, ou ainda não se realizaram (as profecias têm essa vantagem, nunca dizem quando se realizam e o futuro está sempre em aberto). Mas notícias como esta aqui, que diz que "um bloco de gelo com cerca de 14 mil metros quadrados desprendeu-se da plataforma de Wilkins, na Antárctida", estão longe de serem tranquilizadoras. De facto, assistimos a uma luta ideológica que tende a distorcer os factos. Isto, tanto da parte dos catastrofistas, digamos assim, como da dos negacionistas. Sejam as alterações climáticas apenas produto da nossa acção, sejam produto da evolução espontânea e autónoma do clima do planeta, sejam da junção dos dois factores, a verdade é que, a cada dia que passa, o problema parece ser mais claro. Não sei se as medidas paliativas que se estão a tomar servirão para alguma coisa. Seja como for, o tipo de vida que tem sido o nosso parece já, tendo em conta o mau humor climático, não ser possível por muitos anos.

Nuno Pacheco (Público de 17/02/09) - Ela devia estar viva, ele podia estar livre

Ahmad vai ficar preso para o resto da vida por ter tirado o resto da vida à irmã. Ele tem 23 anos, ela tinha apenas 16. Ambos demasiado jovens para tal drama e, no entanto, tanto ele como ela são a face visível de um problema maior: o dos chamados "crimes de honra" em nome da família, frequentes em certos meios islâmicos.

As fotos que acompanhavam a notícia da sentença, nas agências, mostravam, além do ar vago e algo comprometido do réu, a reacção colérica do pai, atirando pelos ares as velas que tinham sido colocadas à porta do tribunal, com a cara da filha e em sua memória. Como se a injustiça fosse apenas a da sentença, ao tirar-lhe um filho depois de perder outro. "O mundo em que ele vive não é o nosso. É um mundo em que a honra da família vale mais do que a vida de uma pessoa", disse no tribunal o procurador Boris Bochnick. E, na verdade, é nesse pressuposto que a família Obeidi, de origens afegãs, viveu e vive na Alemanha de hoje.

Morsal, a vítima, não exigia nada de muito extravagante. Nascida no Afeganistão, queria apenas poder viver como as jovens alemãs da sua idade. A revista Der Spiegel, que após o crime foi no encalço da sua história, descobriu uma guerra familiar que já vinha de longe, com discussões, espancamentos e intervenção dos serviços sociais.

Depois da escola, onde convivia com estudantes de 18 países, Morsal costumava reunir-se com os amigos num local que a família não considerava recomendável. Um local "onde se podia fumar, ouvir música e ocasionalmente beber álcool", como se escrevia na Spiegel de 25 de Agosto de 2008, num longo artigo intitulado O elevado preço da liberdade. Morsal gostava de hip-hop, pop afegã e chamava a atenção dos rapazes. Um pesadelo para a família.

Família que, no entanto, não era sequer considerada das mais tradicionalistas. Simplesmente, não pactuava com a visão do mundo que era já a de Morsal. E que incluía calças justas, maquilhagem e cabelo das mulheres a descoberto. No meio das desavenças, tentaram um truque: enviaram-na para o Afeganistão, para se "regenerar". Não resultou. No regresso, o pai (nas palavras da Spiegel) esperava uma filha diferente e esta um pai diferente. "Ficaram ambos decepcionados." Até que, certa noite, o irmão (que tinha antecedentes criminais, de violência juvenil) a atraiu, com a ajuda de um primo, a uma estação de autocarros e a apunhalou vinte vezes. Até ferir o antebraço.

Ahmad, diz, "amava" a irmã. Ela temia-o, mas, juntos, temiam ainda mais o pai, um antigo soldado afegão treinado pelos soviéticos e imigrado na Alemanha desde 1992. A "honra" da família fê-lo perder dois filhos. Ela devia estar viva, ele podia estar livre. Isto se a tradição medieval a que tantos ainda se submetem passasse a ser, apenas, uma vaga recordação do passado.

Maldita FIFA


A FIFA não é nossa amiga. Ainda fez um esgar ameaçador, como quem diz que, pelo menos ela, estaria disposta a proteger-nos contra nós próprios. Vã ilusão. A candidatura luso-espanhola à realização de um Mundial (2018 ou 2022) foi oficialmente aceite. Não faltarão agora discursos encorajadores, grandes frases a dizer coisas idiotas como o homem sonha e a obra nasce. Também não faltarão os homens de boa vontade, os homens de iniciativa e os homens de conhecimento. Aliás, prevejo que não falte mesmo nada, além de juízo nas cabeças.

Utopia e crime

Ossário de vítimas do Khmer Vermelho

Começou hoje o primeiro julgamento de um responsável do regime Khmer vermelho (Cambodja). De certa forma, é um dia histórico. O regime foi particularmente virulento, tendo assassinado grande parte da população. Destruiu as cidades, os templos, as escolas, fuzilou professores e sacerdotes, concentrou o que restava da população nos campos. Enfim, uma espécie particularmente desagradável de hiper-comunismo maoísta. Há no entanto um ensinamento filosófico em todo este processo. A sociedade e a política não podem ser objecto de utopias. É muito corrente contrapor às perversões ideológicas, de direita ou de esquerda, a bondade da utopia. Mas a utopia é tudo menos uma coisa bondosa. O que significa a utopia? Significa que a imaginação se libertou da experiência sensível e dos ditames da razão. Um delírio apossa-se das pessoas e aquilo que é apenas uma imagem irreal pode tornar-se realidade. Como a experiência e a razão estão postas entre parêntesis, a imaginação determina a vontade na acção. Sem qualquer imperativo moral que a coaja, a vontade é agora um veículo perfeito do delírio utópico. Facilmente se percebe como tudo isso se torna num empilhamento infinito de cadáveres. Se a realidade resiste, isto é, as pessoas, então a força fará o que tem a fazer. A palavra utopia, que a tantos corações generosos inflama, é apenas, ao nível social e político, a senha para o crime generalizado.

Significantes sem significado



Há muito tempo que deixei de compreender a utilidade de certas proposições utilizadas pelos políticos. Por exemplo, o dirigente do CSD-PP, Hélder Morais, veio dizer que é preciso libertar Lisboa do governo socialista, ao que acrescentou que sempre que houve um govermo de direita em Lisboa, a cidade esteve melhor. Eu nem sequer pretendo que ele demonstre empiricamente as suas proposições. Nem tão pouco espero que as argumente. São crenças que valem tanto como as suas contrárias, isto é, nada. Mas em vez de utilizar este tipo de língua-de-pau, seria melhor que os políticos só falassem quando tivessem qualquer coisa para dizer. Neste caso, o brioso dirigente centrista poderia explicar como a sua coligação vai transformar Lisboa numa coisa melhor do que é. Toda este gente sofre de um verdadeiro equívoco, pensa que existe por falar. O silêncio, porém, estaria muito mais de acordo com a essência destes protagonistas, a nulidade política. Quando falam, para utilizar a terminologia de Ferdinand de Saussure (uma autoridade cai sempre bem), o que lhes sai da boca não passa de um significante sem significado, ou, numa aproximação mais medicinal, um flato.

16/02/09

Ao longe, a súbita sombra

Edward Hopper - Road in Maine (1914)

Ao longe, a súbita sombra
traz a tarde aos meus dias.
Sento-me numa rocha de cinza,
protejo com a mão os olhos,
e fico à espera do entardecer.

Ao longe, oiço um grito
e as mãos pendem doridas,
como se um perigo espreitasse
na curva do caminho.
Inclino-me como um náufrago,
encho os bolsos de erva seca e…

Ao longe, um fogo espera-me.

Alfredo Kraus & Maria Callas (1958) "Traviata - Brindis"

Som da Emissora Nacional. Récita da Traviata no S. Carlos, em 1958. Grande não é apenas a Callas. Grande é Alfredo Kraus, um dos maiores tenores de sempre. Há quem o eleja como o melhor de todos os tempos, mas estas coisas valem o que valem. O que vale a pena é escutar, mesmo sem o auxílio da representação.

Aristóteles - A justiça: igualdade segundo o mérito


Há duas formas de conceber a igualdade: ou segundo o número, ou segundo o mérito. Considero numérica a igualdade que diz respeito ao que é igual e idêntico, em quantidade e grandeza. Por igualdade segundo o mérito, considero o que é igual em termos proporcionais. Por exemplo: é no plano de uma igualdade numérica que o três excede o dois, e o dois ao um. Contudo, é de uma igualdade proporcional que se trata, quando o quatro excede o dois, e o dois o um; de facto, o dois e o um são, respectivamente, partes iguais do quatro e do dois, isto é, ambos dizem respeito às respectivas metades.

Deste modo, partindo do princípio que todos estamos de acordo que a justiça exercida de um modo absoluto visa a igualdade segundo o mérito, surgem divergências porque — como já foi referido — alguns, sendo iguais em certos aspectos, presumem ser iguais em tudo, ao passo que outros, sendo desiguais nalgum ponto, reclamam para si mesmos uma total desigualdade em todas as coisas.
[Aristóteles, Política, 1301 b 30-38]
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Eis todo o problema da justiça social. A reflexão de Aristóteles vai incidir, após esta citação, no tipo de regime que melhor visa a justiça, entendida como igualdade segundo o mérito. Temos a grande vantagem de todos os nossos grandes problemas terem sido descobertos pelos gregos. Quando as nossas soluções falham, então voltemos às fontes originais da nossa sabedoria, para refrescar a memória e para rejuvenescer a sabedoria.

Chávez como sintoma

Na vitória de Chávez, no referendo de ontem, há qualquer coisa que merece ser meditada. Não será o tique de militar-ditador, já suficientemente propagandeado, nem a sua idiossincrasia, nem tão pouco a peregrina ideia da revolução bolivarina. Note-se que a vitória de Chávez não tem aquele resultado expressivo das eleições nos antigos países socialistas (54,4 - 45,6). Portanto, estamos perante processos aparentemente democráticos. Estes resultados, então, mostram que na sociedade venezuelana, provavelmente em muitas outras da América Latina, há qualquer coisa que não funciona, se o liberalismo económico se torna vigente. Pobres, excluídos, gente em desespero, convivem mal com a liberdade puramente formal, mas que permite a instituição de grandes clivagens sociais. O ensinamento maior, mesmo para as nossas sociedades, é que os mecanismos económicos, nomeadamente o mercado, devem existir em função dos homens e não estes em função da eficiência produtora e distribuidora. A vitória de Chávez ensina que, para evitar este tipo de políticas populistas, é necessário encontrar um justo equilíbrio nas sociedades. Um equilíbrio social entre os indivíduos que as compõem, como um equilíbrio entre aquilo que o homem deve dar à produção económica e aquilo que esta deve dar ao homem. O que se está a passar na América Latina, para além da denúncia de certas pulsões autoritárias, merece uma atenção mais cuidada. Mesmo nós europeus, em especial os portugueses, talvez tenhamos algo a aprender, e certamente não será o bolivarismo ou o socialismo. Chávez é apenas um sintoma.

15/02/09

Nessa história que agora lês

Edward Hopper - Habitación de Hotel (1931)

Nessa história que agora lês
está escrito o esquecimento.
Nela, voas sobre oceanos,
e, em cada hora, dia ou mês,
descobres o pesado fermento
com que deixas passar os anos.

Stan Getz Quartet - Desafinado, Girl from Ipanema

Eleições no PS


Tem significado político relevante a vitória albanesa de Sócrates, nas eleições para Secretário Geral do PS? Tem. Mostra que o partido está mais do que certo numa nova maioria absoluta. Portanto, as pessoas perfilam-se em torno daqueles que as podem levar ou manter no poder. Por vezes, esquecemo-nos de que o ethos que conduz um partido político é o da conquista e da manutenção do poder, seja lá como for. A exigência de um comportamento moral comprometido com o bem comum e de uma atitude crítica face à realidade política, não faz parte da natureza do político, mas inscreve-se, nos regimes democráticos, nos direitos de defesa do cidadão contra aqueles que ocupam o poder, sejam eles quem forem. Se Sócrates não trouxesse consigo o olor do poder, o PS mostrar-se-ia mais crítico e fracturado. Imaginação não haveria de faltar. Agora, porém, as tropas têm o seu general bem definido. Os cidadãos devem aprender a cuidar-se.

14/02/09

Talvez aprendas nesse abandono

Edward Hopper - Desnudo Tumbado (1924-27)

Talvez aprendas nesse abandono
o secreto desígnio, a natureza o deu.
Ainda procuras sôfrega
e toda a seda que tocas rasga-se,
terra de saibro e cascalho,
o tronco rugoso da figueira,
ou um buraco a doer-te no corpo.

Quando encontraste,
não soubeste o que encontraste,
nem deste às horas o tempo de serem hora.
Tudo se toldou
e no nevoeiro que te coube
não houve desolação que a olhar te ensinasse.

Senta-te nessa cama de plástico
e deixa desfilar os pretendentes.
Enganas-te. Não os matarei.
Ninguém poderá matar o que morto nasceu.
Ficam-te para consolo:
hão-de tocar-te o corpo com mãos frias
e um esgar de pus no sexo.

King Crimson - Epitaph

Heranças


Aqui se explica por que motivo há homens que são umas autênticas cavalgaduras. Afinal, é tudo uma questão genética. Há muitos milhões de anos, homens e cavalos tiveram um antepassado comum. Parece que era quadrúpede. Apesar da nossa evolução nos ter levado ao bipedismo, a tendência para o coice, a besteira e para agir que nem uma cavalgadura ficou anichada no cérebro. Heranças.

13/02/09

As coisas secretas da nossa secreta

Como se vê aqui, tudo o que diz respeito à nossa secreta é secreto. O facto de, nos computadores da Presidência do Conselho de Ministros, centenas de pessoas terem acesso à identificação, com fotografia e tudo, de 23 dos nossos secretos espiões é apenas um pormenor sem relevo. Por uma questão de fé, confiamos todos nos serviços secretos ou discretos, ou talvez nem isso. E quando nos asseguram qualquer coisa sobre eles, nem uma sombra de desconfiança floresce no coração dos portugueses. Parece que anda tudo a brincar.

Suspensão de facto dos direitos sindicais

O que é narrado, nestas notícia aqui e aqui, é intolerável. Não apenas porque a violência é um atentado intolerável contra a integridade da pessoa, mas também porque a liberdade do mundo do trabalho se organizar e de fazer greve é um direito essencial da cidadania. Para milhões de pessoas, os direitos sindicais são último refúgio da cidadania. Um Estado que permite isso está à beira de deixar de ser um Estado de direito. Maus ventos estão a começar a correr na sociedade portuguesa.

Jornal Torrejano, 13 de Fevereiro de 2009

Em linha (este blogue acaba de sofrer uma inflexão nacionalista) está já a nova edição do Jornal Torrejano. Destaque para as primeiras propostas do PSD para as autárquicas. Referência também para a comemoração, na novíssima biblioteca municipal, do Dia Europeu da Internet Segura, com um debate. Triste é a notícia que refere o Desportivo: cada vez mais último.

Na opinião, para não variar, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Na crónica escrita, Carlos Henriques escreve Jornada de emoções, Carlos Nuno, Cenas quentes, Inês Vidal, Amor Virtual, Jorge Moita Fazenda, Carta Aberta às vítimas do genocídio social de 2009, José Ricardo Costa, Engenharia Social e Miguel Sentieiro, Passa ao outro e não ao mesmo.

Acabou-se, para a semana haverá mais, se houver. Bom fim-de-semana.

Falta de leituras

Falta de leituras. É o que dá o espírito do tempo. As pessoas chegam a ministros e não leram nada do que é essencial, e depois são apanhadas de surpresa. Foi o que aconteceu com o nosso pobre ministro das Finanças, foi apanhado de surpresa. E isto de um ministro das Finanças ser apanhado de surpresa é coisa rara. Só mais raro é um ministro dos Negócios Estrangeiros ser apanhado de surpresa. Mas vamos ao que interessa. Perante os resultados fornecido pelo INE e referentes ao último trimestre de 2008, onde se mostra que o país entrou em recessão técnica, Teixeira dos Santos disse «Não esperaríamos quebra tão acentuada» Fiquei perplexo. Eu já estou habituado a que os economistas se entreguem às previsões mais desencontradas e que não acertem em nenhuma, mas este grau de surpresa deixa-me atónito. Eu recomendava ao senhor ministro uma leitura sistemática dos fragmentos de Heraclito. Mas Heraclito era economista? Não. Seria Heraclito ministro das Finanças de Éfeso? Também não. Mas sabia pensar, qualidade que entretanto se deteriorou. Num dos fragmentos diz que quem não espera o inesperado não o encontrará. Equipado por tal sabedoria, Teixeira dos Santos já não seria apanhado de surpresa e teria evitado a necessidade de mais um orçamento rectificativo. [Cartoon rapinado daqui]

A santidade científica

Ontem foi dia de S. Darwin. Sempre me espanta o espírito religioso não apenas dos ateus mais acérrimos (a crença na inexistência de Deus é tão religiosa como o seu contrário), mas das gentes da ciência. Na galeria dos santos da ciência há alguns que são inevitáveis. S. Galileu, S. Darwin. Einstein está a caminho da beatificação. Estes santos têm os seus dias de culto e há cerimónias litúrgicas para os incensar. Não vejo, do ponto de vista da propensão geral da humanidade para a superstição, problema nenhum no assunto. No entanto, há duas pequenas coisas que sempre me acodem ao espírito quando vejo este tipo de rituais.

Em primeiro lugar, não esqueço que entre a ciência, produto da aliança entre a razão e a experiência, mediada pela imaginação, e a religião há um efectivo elo de ligação. Comte bem o pressentiu. A religião é um produto da imaginação, fundada numa certa experiência empírica do mundo e articulado pela razão. É do fundo religioso que vai emergir a filosofia, a qual estabelece o nexo, agora oculto, entre religião e ciência. Tende-se a esquecer que ambas são produtos das faculdades humanas e a obnubilar o efectivo traço que existe entre elas. Traço esse, aliás, que se manifesta na santificação e culto dos cientistas.

Em segundo lugar, a minha razão ri-se sempre um pouco (maldita razão céptica) com a pretensão da ciência como explicação do mundo. Não é apenas a revisibilidade a que os conhecimentos científicos estão sujeitos, devido ao progresso da investigação. É mais do que isso. Um dia chegará, poderemos imaginá-lo, em que as explicações científicas, isto é, o empreendimento da ciência, parecerá às mentes mais racionais desse tempo uma coisa tão irrazoável como hoje parece ser, para as mentes racionais, os discursos religiosos de Abraão, de Moisés, de Cristo, de Maomé, de Lao Tsé, etc. E estes discursos, podemos constatá-lo, representaram formas muito interessantes de razoabilização da vida humana.

Esta minha posição não representa uma atitude anticientífica. Mas entedia-me a tentação de absolutização, ainda que subreptícia, de uma coisa que só pode ser relativa e ter um significado relativo, pois é produto do espírito humano. Mas, note-se, o problema não está em retornar às velhas explicações criacionistas para contrapor a Darwin, ou ao cosmos ptolemaico-aristotélico em contraposição a Kepler e a Galileu. O problema é que talvez tenha chegado a hora de se começar a pensar na pós-ciência. Por vezes, interrogo-me que caminhos poderiam ser abertos por uma análise transcendental (atenção, à maneira kantiana) das faculdades humanas, agora porém iluminada pelos contributos da própria ciência, da neurobiologia, por exemplo.

Dir-me-ão: mas não será contraditório fundar-se na ciência a sua ultrapassagem? Eu respondo com duas perguntas: não foi na religião que se encontrou o fundamento da filosofia? Não foi na filosofia que se encontrou o alicerce que fez nascer a ciência?