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15/01/10

As coisas técnicas



Esta belíssima imagem de propaganda a um transístor portátil da Grundig (1958) foi vampirizada de o Dias Que Voam, um blogue que merece bem estas vampirizações, para além de inúmeras visitas e leituras. Aliás, há lá outro anúncio notável da Grundig (1957), uma verdadeira lição de sociologia da época. Este transístor seria então, segundo a publicidade, uma jóia. Pequena, mas autêntica. Se pela autenticidade a Grundig nos assevera o seu carácter verdadeiro, oposto a uma falsificação, pela associação com uma jóia faz evocar em nós o que é belo e aquilo que resiste ao tempo, aquilo que é eterno.

Eis aqui, porém, a mentira da técnica. As coisas técnicas, na sua verdade, podem ser belas, e num momento apenas, mas não eternas. A beleza delas decairá rapidamente, para não falar no facto de serem produzidas para se tornarem obsoletas. Por exemplo, eu olho quase como a rapariga do anúncio para o meu e-book Kindle, mas sei já que ele representa o passado. A beleza que ainda entrevejo nele e o prazer que me dá na suavidade da leitura que me proporciona serão em breve ultrapassados por um novo objecto que se oferecerá imperativo, pelo saber da técnica e do design, à minha voluptosa faculdade de desejar.

10/09/07

Magia e Técnica

«Acabámos de dizer que a magia tende a assemelhar-se às técnicas, à medida que ela se individualizava e se especializava na persecução dos seus fins. Mas há, entre estas duas ordens de factos [magia e técnica], mais do que uma similitude exterior: há identidade de função, pois uma e outra, (…), tendem para os mesmos fins. Enquanto a religião tende para a metafísica e se absorve na criação de imagens ideais, a magia sai, por mil fissuras, da vida mística onde vai buscar as suas forças, para se misturar na vida laica e servi-la. Ela tende para o concreto, como a religião tende para o abstracto. Ela trabalha no mesmo sentido que trabalham as nossas técnicas, indústrias, medicina, química, mecânica, etc.» [Marcel Mauss, Teoria Geral da Magia – Conclusão]

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Se Marcel Mauss diz que a magia tende assemelhar-se à técnica, não se poderá inferir que a técnica se assemelha à magia? Melhor, que a técnica é uma forma de magia? Mas se for assim pensada, não encontramos uma base para explicar a capacidade de fascinar que a técnica possui? Esta capacidade de fascínio não reside tanto na paixão que a modernidade devota às possibilidades da técnica, mas no facto desta [isto é, das suas realizações] permanecer praticamente inquestionada.

Mas se se admitir a técnica como uma forma de magia, deveremos conduzir o inquérito mais longe. O que está na base da técnica? A ciência moderna. E o que está na base da ciência moderna? A lógica, o pensamento racional. Isso significa, então, que a ciência e o próprio pensamento racional ainda seriam modalidades do pensamento mágico. Argumentar-se-á que a indistinção entre pensamento mágico e pensamento racional não ajudará a explicar nem um nem outro. Talvez, mas não seria desinteressante explorar a comunidade que existirá entre eles. Uma coisa, porém, poderia encontrar um princípio de explicação na continuidade entre pensamento mágico e pensamento racional: o problema de um mundo racionalizado produzir fenómenos absolutamente irracionais. Por exemplo, o planeamento familiar conduzir à inexistência de famílias. Por exemplo, a racionalidade presente no extermínio dos judeus pelo nazismo. Por exemplo, a organização racional das instituições conduzir a formas de vida institucionais absolutamente inumanas.