31/08/09

Malcolm Lowry - After Publication of “Under the Volcano”

Mais uma tentativa de tradução, agora de um poema de Malcolm Lowry, After Publication of “Under the Volcano”

Success is like some horrible disaster
Worse than your house burning, the sounds of ruination
As the roof tree falls succeeding each other faster
While you stand, the helpless witness of your damnation.

Fame like a drunkard consumes the house of the soul
Exposing that you have worked for only this –
Ah, that I had never known such a treacherous kiss
And had been left in darkness forever to work and fail.

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O resultado do exercício:

O triunfo é como um horrível desastre
Pior do que a casa incendiada ou o troar da ruína
É como as vigas de um telhado que rápido caem uma após outra
Enquanto estás de pé, indefesa testemunha da tua danação

Como bêbado a fama consome-te a casa da alma
Manifestando que só trabalhaste para isso –
Ah, como gostaria de nunca ter conhecido tão pérfido beijo
E tivesse ficado na eterna obscuridade para trabalhar e falhar

O seu blogue é viciante

O Zé Ricardo criou-me um problema ao nomear o averomundo como um dos dez blogues de que se confessa adicto. Isto parece que é um jogo onde os que são nomeados por alguém devem manter a corrente, nomeando dez blogues viciantes e três objectivos (esta palavra causa-me indisposição mental imediata) a curto prazo para o blogue próprio.

Comecemos, então, pelos objectivos:

1.º Conseguir não ceder à tentação quase diária de encerrar o blogue, o que contribuiria para evitar dizer coisas tontas.
2.º Deixar de falar em educação, coisa que não vou conseguir, mesmo que o PS tenha maioria absoluta, e a socióloga Rodrigues seja renomeada (vade retro).
3.º Fingir que não estamos em campanha eleitoral e não fazer comentário políticos (outro objectivo inatingível).

Se é grande a minha dificuldade em apresentar objectivos, maior é encontrar 10 blogues em que seja viciado. Logo dez, e eu que sou pouco dado a dependências. Vejamos, mesmo assim, e por ordem alfabética:

Alma Pátria - 42: Amália Rodrigues - Uma Casa Portuguesa


Amália Rodrigues - Uma Casa Portuguesa

Terminamos com Amália, com quem havia de ser? Não é ela ainda a Alma da Pátria? Até determinada altura da vida, detestava fado e Amália era-me indiferente. Hoje, gosto de fado e Amália é, para mim, o maior nome da música popular portuguesa. Inultrapassável. Há muitos fados de Amália mais interessantes do que Uma Casa Portuguesa. Mas esta rubrica é sobre a Alma Pátria, e não há nada que a Pátria goste mais do que da sua alegre casinha. E como é a casa da Pátria? No conforto pobrezinho do meu lar, / há fartura de carinho. /E a cortina da janela é o luar, / mais o sol que bate nela... / Basta pouco, poucochinho p'ra alegrar / uma existência singela... / É só amor, pão e vinho / e um caldo verde, verdinho / a fumegar na tigela.

Mesmo quando a casa é rica e cheia, ela é pobrezinha e plena de poucochinho. Está aqui tudo, não está?

Sócrates, a verdadeira

Manuela Ferreira Leite voltou a subir no barómetro da minha consideração, apesar de não ir votar nela. Depois do triste episódio dos candidatos arguidos, MFL tomou uma decisão digna de um país civilizado. Não haverá comícios do PSD durante a campanha eleitoral. Alguém sentirá falta daquela exaltação pornográfica? Em Portugal, os comícios não convencem um eleitor indeciso, são uma espécie de masturbação partidária, onde os apaniguados celebram a excelência das ideias daquilo a que chamam líder. Poder-me-ão dizer que MFL não faz comícios porque não tem ideias na cabeça dignas de celebração. Eu estarei de acordo. Mas nisso ela é igual aos líderes dos outros partidos. A sua vantagem é que, contrariamente aos outros, reconhece que nada sabe. Só sei que nada sei (é isto o programa mínimo do PSD), enquanto os outros nem sequer sabem que não sabem. Ela sim, é o verdadeiro Sócrates.

30/08/09

Fim de férias

Acabei de chegar a Torres Novas. Há cerca de um mês que não punha um pé na cidade. São quase 11 da noite. Devem estar uns 30º. Nenhum dos candidatos à Câmara será capaz, em caso de eleição, de climatizar a cidade? Votarei nesse.

Alma Pátria - 41: Francisco Fanhais - Porque


Francisco Fanhais - Porque

Está a acabar esta rubrica, Alma Pátria. Amanhã será o último post. Tinha pensado em mais um cantor de intervenção. Havia duas fileiras, digamos assim, para fazer a opção. Uma era a dos que tiveram e têm um importante papel na música popular portuguesa ainda hoje, gente como Sérgio Godinho ou José Mário Branco. A segunda fileira é de homens a que o 25 de Abril não trouxe uma assinalável fortuna na carreira das canções. Aqui poderia escolher entre Manuel Freire, José Jorge Letria, José Barata-Moura e Francisco Fanhais. Optei pelo padre Fanhais. Este seu disco marca uma época de advento de uma consciência crítica do regime dentro da própria Igreja. É a outra face da Alma Pátria, a do movimento dos baladeiros, gente que cantava canções de intervenção social apenas acompanhados por uma viola, embora a realidade desse grupo de cantores fosse um pouco mais complexa do que deixa entrever a caricatura que o nome dado ao movimento dá a entender.

29/08/09

John Keats - Give Me Women, Wine, and Snuff

Uma nova tentativa de tradução, agora de um poema de Keats, Give Me Women, Wine, and Snuff:

Give me women, wine, and snuff
Untill I cry out "hold, enough!"
You may do so sans objection
Till the day of resurrection:
For, bless my beard, they aye shall be
My beloved Trinity

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A proposta de tradução:

Dêem-me mulheres, vinho e tabaco
Até que grite “basta, é suficiente!”
Podem fazê-lo sem objecção
Até ao dia da ressurreição:
Pois, pelas minhas barbas, serão sempre
A minha amada Trindade.

Alma Pátria - 40: Francisco José - Olhos Castanhos


Francisco José - Olhos Castanhos

Este era também um dos "cromos" que não poderia faltar nesta "colecção" de Alma Pátria. Temos a reprodução da edição de Olhos Castanhos em 78 rpm (retirada do -). Foi também graças ao - que descobri que Francisco José é irmão do cientista Galopim de Carvalho, esse mesmo, o dos dinossauros. Olhos Castanhos é uma magnífica canção, a mais conhecida de Francisco José. Talvez fosse mais indicado uma outra, Guitarra Toca Baixinho, mais de acordo com o espírito da rubrica. Mas fiquemos pela taxonomia dos olhos. Se não tiver olhos castanhos, paciência.

Horror Vacui

Com a doutrina de Newton, estabeleceu-se, para toda a Europa esclarecida, a nova representação do espaço. Astros, massas de matéria, movimentam-se - ao equilibrarem-se as forças de atracção e de retracção - segundo leis de gravitação num espaço infinito e vazio.

Os homens podem agora representar-se um espaço vazio, o que antes não podiam, mesmo que alguns filósofos tenham falado do "vazio". Antes, os homens tinham medo do vazio; tinham o chamado horror vacui. Agora, esquecem o seu medo e, finalmente, já não acham nada de mais em eles e o seu mundo existirem no vazio. Os escritores do iluminismo do século XVIII, e Voltaire à sua cabeça, sentiam-se até muito orgulhosos em relação a uma tal representação, passível de ser cientificamente provada, de um mundo num espaço infinito e vazio. Mas tenta representar-te efectivamente, por uma vez, um espaço efectivamente vazio! Não apenas um espaço vazio de ar, mas completamente vazio também da matéria mais fina e subtil! Tenta na tua representação, por uma vez, diferenciar efectivamente espaço e matéria, separá-los um do outro e pensar um sem o outro! Poderás então pensar o nada absoluto. Sobre aquele horror vacui riram-se muito os iluministas. Mas ele era talvez apenas o compreensível tremor diante do nada e do vazio da morte, diante de uma representacão niilista e diante do niilismo em geral. [Carl Schmitt (2008). Terra e Mar - breve reflexão sobre a história universal. Lisboa: Esfera do Caos Editores, pp. 66-67]
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Este belo livro, do controverso Carl Schmitt, merece ser lido. Uma breve, mas funda reflexão sobre a História Universal a partir da consideração dos elementos terra e mar, uma reflexão sobre a revolução espacial que subjaz à transição de uma geopolítica terrestre para uma geopolítica marítima. O que me interessa agora é, todavia, apenas um pormenor. Esse pormenor é o horror vacui, o horror do vazio. Até determinada altura da história da humanidade existia uma experiência fundamental, a do horror ao vazio. A partir, porém, de certo momento histórico esse horror desapareceu. O momento histórico é o do nascimento da Física moderna e a concomitante alteraçãodna concepção de espaço. De Copérnico a Newton, passando por Bruno, Kepler e Galileu, a antiga representação do espaço, herdada de Ptolomeu e de Aristóteles, foi pulverizada. É esta nova representação que vai racionalizar a relação do homem com o vazio e, ao racionalizá-la, dissolver o horror que o homem sentia perante a possibilidade de vazio. Ora essa experiência de ausência de horror perante o vazio foi-se ampliando. Aquilo que é, primeiramente, um dado físico e cosmológico é transferido para outras instâncias, nomeadamente para a esfera da vida social e das valorações éticas e até políticas. O vazio do universo funda, desta maneita, o vazio ético e o vazio das crenças políticas e sociais. Dito de outra maneira, a revolução científica que está na origem da modernidade ocidental é o alicerce do niilismo europeu, ao racionalizar a relação do homem com o vazio. Este é o principal problema que enfrenta, desde há séculos, a humanidade europeia, e por força da extensão da sua influência a todo o globo, a humanidade em geral.

28/08/09

Alma Pátria - 39: Chinchilas - D. João


Chinchilas - D. João

Uma visitação ao "nosso" rock dos anos sessenta e setenta. Esse rock era essencialmente uma manifestação para bailes de Liceu e suave entretenimento de teenagers da classe média, consolidada ou em ascensão. No entanto, começava a penetrar no país uma cultura juvenil ligadas ao uso de alucinogénios. Este D. João, do grupo Chinchilas, data de 1970 e é já um reflexo dessa cultura, ainda em fase de fermentação na metrópole, em Moçambique, por exemplo, teria já um desenvolvimento diferente. Conta-se, na letra da canção, a história de um drogado, um junkie, na linguagem "técnica" da época. Como se vê, está longe de ser pura a alma da pátria.

A exemplaridade do Bloco de Esquerda

No Público de hoje, Vasco Pulido Valente faz uma análise ao Bloco de Esquerda, a partir de uma entrevista concedida por Francisco Louçã à revista Sábado. Como conclusão, VPV diz: “O Bloco é um buraco, um vazio, um intervalo. Ou, mais precisamente, é o refúgio de quem não quer votar PC ou já não quer votar PS e por qualquer outra razão, sentimental ou outra, detesta a direita. Tirando o palavreado e a pretensão de virtude, não existe.” Genericamente, concordo com a análise feita. No entanto, há algo de essencial que escapa a VPV. É um facto que, enquanto força de esquerda, o Bloco não tem a solidez do PCP ou mesmo do PS. O Partido Comunista estrutura-se na relação com a classe operária, uma relação baseada numa promessa de emancipação da opressão proveniente de uma sociedade classista. O PS foi e é, de certa maneira, o partido da burguesia urbana e radical, “nascido” entre a casta da advocacia (Soares, Zenha, etc.) e, hoje em dia, muito ligado a um certo mundo universitário. O BE, porém, é claramente uma emanação das sociedades pós-modernas. Aquilo que parece ser negativo na leitura de VPV, o facto do BE ser um “buraco”, um “vazio”, um “intervalo” ou mesmo um “refúgio”, é a força do BE. Quando Louçã diz que o “Bloco nasceu de ‘uma exigência’ profunda de aggiornamento da esquerda”, diz qualquer coisa que VPV não percebe, e que talvez nunca possa vir a perceber. O aggiornamento não se refere a uma refundação programática. Essa é impossível. Não é possível, nas sociedades tardo-capitalistas, um programa de esquerda, mesmo que, por vezes, possa haver algum crescimento dos tradicionais Partdos Comunistas. Esse aggiornamento nasce da própria estrutura ideológica que dirige o BE. Já não existe uma “grande narrativa” como a que preside ao PCP, mas um conjunto de pequenas histórias que mobilizam a acção política para pequenos casos concretos. Com certa razão, o PCP acusa o BE de ser um partido de causas mas não de princípios. O problema, porém, é que nas sociedades pós-modernas os princípios fazem pouco sentido, tornaram-se meras abstracções, frases vazias apenas alimentadas pelo fervor dos militantes. O que é fulcral neste tipo de sociedades não é a solidez da classe operária ou a afirmação da burguesia, mas a ausência de solidez e de afirmação, aquilo que VPV chama “buraco”, “vazio”, “intervalo”. O BE é um partido político autenticamente pós-moderno, no sentido que explorou a seu favor o buraco, o vazio, o intervalo, a ausência, o niilismo que se intensifica na transição da modernidade para a pós-modernidade. Por isso tornou-se um refúgio, mas o que VPV não percebe é que as sociedades pós-modernas são constituídas cada vez mais por refugiados. O único partido que se aproxima desta percepção social, mas no pólo político oposto, é o Partido Socialista de Sócrates. Sim, no pólo político oposto. Não por acaso, muito empresários gostam de Sócrates e das suas políticas, para desgosto da direita tradicional. Por tudo isto, VPV está mais uma vez desfocado quando, a propósito da crítica que Louçã faz às elites políticas dirigentes, escreve: “Claro que o Bloco, coitado, se julga a nova elite.” O problema é que o Bloco representa de facto o tipo de elite política que vai emergir, ou que já está a emergir, uma elite pós-moderna, uma elite que pretende ocupar o vazio, o intervalo, e o voto dos “refugiados”, pois haverá "refugiados" de todas as cores. A direita tradicional, depois do episódio Manuela Ferreira Leite e da(s) presidência(s) de Cavaco, não será estruturalmente muito diferente.

27/08/09

William Blake - The Sick Rose

O belo poema de Blake, The Sick Rose:

O Rose, thou art sick!
The invisible worm
That flies in the night,
In the howling storm,


Has found out thy bed
Of crimson joy:
And his dark secret love
Does thy life destroy.

Agora, o exercício de traição, A Rosa Doente:

Ó rosa doente!
O verme invisível
Voou pela noite,
Na terrível tormenta,

E achou o teu leito
De alegria rubra:
Obscuro, o seu amor
Da vida te levará.

Ou ainda esta traição:

Ó rosa doente!
O verme invisível
Voou pela noite,
Na porcela terrível,

E achou em teu leito
A alegria rubra:
Obscuro, o amor fará
Que a morte te cubra.

Bloco central

O candidato a deputado pelo PSD, João de Deus Pinheiro, acha que seria muito benéfico para o país uma coligação PS-PSD. É natural que pense assim, pois foi um homem do bloco central, tendo sido ministro da Educação (logo da Educação) de um governo PS-PSD, liderado pelo dr. Mário Soares, tendo Mota Pinto como vice primeiro-ministro. A verdade é que esse bloco central abriu o caminho para 10 anos de cavaquismo. Mas um bloco central hoje não abrirá caminho a coisa alguma, a não ser para o crescimento exponencial do BE e do PCP. Na altura, a expectativa da entrada na CEE, e depois os milhões que de lá vieram e que o próprio Cavaco começou a malbaratar, apaziguaram os ânimos e transformaram muitos espíritos revolucionários em empreendedores de "sucesso". Hoje, porém, a União Europeia deixa-nos indiferentes e a entrada de dinheiro tornou-se um hábito que já não acalma ninguém. O bloco central, coisa que tem algumas hipóteses de vir a acontecer, pode ser muito benéfico para aumentar a confusão política no país. Bloco de Esquerda e Partido Comunista agradecem.

Alma Pátria - 38: António Menano - Menina e Moça


António Menano - Menina e Moça

Coimbra, Fado de Coimbra. Quais os grandes nomes? Certamente, José Afonso e Adriano Correia de Oliveira, também Luís Goes ou mesmo Luís Piçarra. Mas na arqueologia dessa canção encontramos gente como Augusto Hilário, Edmundo Bettencourt e o grande António Menano. Se o Fado de Lisboa expressa a alma popular portuguesa e, de certa forma, a alma aristocrática, almas muito mais próximas do que se pensa, o Fado de Coimbra é a expressão intelectual e burguesa da alma pátria. Mas aqui surpreende-se uma alma burguesa estranha à burguesia europeia, pois a saudade e o passado, mas não não o futuro e a sua dinâmica progressista e dissolutória, são os elementos ideológicos estruturais. Uma burguesia fatalista explica muito daquilo que ainda somos.

26/08/09

A recondução de Ben Bernanke

A recondução deste homem, Ben Bernanke, à frente da Reserva Federal americana é um símbolo de como os EUA, mas também outras instâncias políticas e económicas, estão a interpretar o desenvolvimento da crise financeira. Ben Bernanke distinguiu-se no combate à crise, mas contra ele tem o facto de a não ter antecipado e até de ter contribuído para ela. Contrariamente ao que se pensou, nomeadamente à esquerda, o desenrolar da vida económica mundial não vai ser o de uma maior regulação dos mercados financeiros. Bernanke acaba por simbolizar a salvação do status quo económico mundial e a sua recondução é o reconhecimento disso mesmo. Portanto, quem tirou o Marx das prateleiras vai ter de o recolocar lá e aqueles que julgavam que iriam deixar de clamar contra o neoliberalismo, pois este teria morrido, bem podem afinar as gargantas. A vida é o que é, gostemos ou não dela.

Pouco qualificados

Isto explica com clareza e distinção as razões por que continua a haver grande insucesso escolar, mesmo que ele agora seja disfarçado, e nas estatísticas pareça estar a descer. A economia portuguesa continua a absorver uma grande percentagem de trabalhadores pouco qualificados, 31%, o mesmo que há duas décadas atrás. Aqueles que querem entrar no mercado de trabalho sentem que não precisam de qualificações para as tarefas disponíveis. Por que motivo teriam de estudar? O insucesso escolar não existe, é uma fantasia criada pelo burocratas da educação e por políticos falhos de causas. A escola portuguesa é demasiado boa para a sociedade em que se encontra. O fraco rendimento escolar de muitos alunos está justificado pelas expectativas de trabalho que têm no horizonte. Mais, a escola portuguesa é de tal maneira boa que tem produzido alunos com demasiada preparação para a economia do país. Veja-se o número de licenciados no desemprego. Esta é a realidade. O devaneio reside na ideia de que a escola vai mudar a sociedade, coisa que está na cabeça dos nossos governantes e pretendentes a tal. Quando as pessoas com baixa preparação escolar (não estou a falar de diplomas) perceberem que não arranjam trabalho, elas vão estudar e obrigar os seus filhos a estudar. E nem quererão Novas Oportunidades, mas ensino sério e rigoroso. Todo o resto é uma fantasia arquitectada por gente que vive nas nuvens ou que precisa desesperadamente de vender o eduquês para viver, e assim coloniza as escolas com idiotices sem fim.

Alma Pátria - 37: Madalena Iglésias - Ele e Ela


Madalena Iglésias - Ele e Ela

Se me pedissem uma canção para representar o espírito do Festival RTP da canção, pelo menos daqueles anos que vão desde 1964 a 1974, eu não teria qualquer dúvida de escolher esta. Contrariamente a muitas canções que por lá passaram, tendo algumas ganho, esta não tem mensagem subliminar. É uma coisa inócua e era isso que tanto a RTP como a Eurovisão pretendiam. O conteúdo desejado era a ausência de conteúdo, uma coisa ritmada e bem disposta, de preferência que falasse de amor, mas nada de grandes tensões amorosas. A qualidade textual, e até musical, de muitas canções que apareceram no Festival é apenas a prova da inexistência de um lugar natural onde elas pudessem ter a sua vida. Ele e Ela é, de facto, o espírito da coisa.

Tem razão Jardim

Raramente estou de acordo com Alberto João Jardim, mas agora estou, e não sou, nem vou ser, militante do PSD ou sequer eleitor. Jardim tem razão quando acusa Moita Flores de deslealdade. Este é candidato independente pelo PSD à Câmara de Santarém. Não gosta de Manuela Ferreira Leite, uma juízo de gosto legítimo. Mas essa legitimidade não lhe dá outra legitimidade para, no momento em que tem o apoio do partido dirigido pela mesma Manuela Ferreira Leite, vir tornar público, em claro desafio ao partido que lhe deu espaço para as suas ambições políticas, o seu desgosto pessoal pela Presidente. E quando decide condecorar, em momento pré-eleitoral, o primeiro-ministro, adversário número um de Manuela Ferreira Leite, isto só pode ser entendido como provocação. Podia tê-lo feito há muito mais tempo ou, então, esperar para daqui a uns meses, caso seja eleito de novo para Presidente da Câmara de Santarém. Jardim tem toda a razão. Uma coisa é a independência outra a deslealdade. Condecorador e condecorado não saem bem na fotografia.

25/08/09

Economia, História e Filosofia

No Ladrões de Bicicletas, há um post muito interessante feito a partir de uma questão, levantada em Novembro na London School of Economics, pela Rainha Isabel II. Perguntava a soberana "como é que ninguém viu aproximar-se a crise?" O texto do Ladrão de Bicicletas Jorge Bateira é interessante e remete para um conjunto de outros textos internacionais que merecem ser lidos. Ressalto apenas uma tese. O que teria impedido os economistas de prever, com raras excepções, a crise seria a sua frágil formação em História. A Economia terá seguido um caminho de afirmação de modelos matemáticos, em detrimento do saber histórico. Ora, o que se passa é que esses modelos matemáticos são uma espécie de Ideias puras platónicas, e por isso encontram-se desligados do mundo sensível, onde a vida e a economia real decorrem. Sendo assim, não basta uma formação fundada em princípios gerais de Economia e em Matemática. A História, entre outros saberes, é fundamental para fazer uma análise do real. Na minha ignorância desse saber esotérico que é a Economia, partilho plenamente desta opinião do autor do post. A História é uma disciplina essencial para a compreensão do real, seja político, seja social, seja económico. A História mostra a diversidade das vias da vida económica, coisa que não parece aceite por muitos economistas. Estes, em última análise, escondem-se na modelização matemática para impor uma determinada visão da economia, e mostrá-la como a única possível. Mas não é apenas a História que está em défice. É também a Filosofia. Pensar e raciocinar são coisas muito diferentes. O que se passa é que os economistas, partindo de modelos matemáticos, se limitaram a raciocinar dentro do esquema lógico de onde partiram. Mas pensar é abrir-se para o que ainda não está pensado, para o impensado e, muitas vezes, para o que parece impensável. Não basta a História para se saber pensar economicamente. A História será uma condição necessária, mas não suficiente. Ela fala-nos do passado, transforma-o em exemplo. O futuro, porém, ainda não é exemplar, ainda não foi pensado. Ele é do domínio do impensado e foi isso que, para além da informação histórica, faltou. Por detrás da Economia subjazem modelos filosóficos que não são explicitados e, por isso, não suscitam debate e pensamento. A Economia, sem abandonar a Matemática, precisa de retornar à História e, fundamentalmente, aquilo que lhe deu origem, a Filosofia. A crise não foi prevista porque o pensamento foi substituído pelo mero raciocínio.

Alma Pátria - 36: Hugo Maia Loureiro - Canção de Madrugar


Hugo Maia Loureiro - Canção de Madrugar

A Alma Pátria continua a explorar o filão do Festival RTP da canção. Hugo Maia Loureiro era, no início dos anos setenta, um dos nomes fortes do Festival. Julgo que nunca ganhou. Em 1970, com Canção de Madrugar, fica em segundo lugar, atrás de Sérgio Borges, Onde vais rio que eu canto. Canção de Madrugar, com música de Nuno Nazareth Fernandes, letra do inevitável José Carlos Ary dos Santos.

O lastro

A notícia da detenção de dois suspeitos de um crime violentíssimo ocorrido na zona de Torres Vedras gerou, mais uma vez, uma catadupa de comentários. Estes comentários feitos, na sua grande maioria, a coberto de um suposto anonimato deveriam ser de leitura obrigatória por parte dos dirigentes políticos. Um crime violento é sempre ocasião para que venha ao cima o que há de pior em nós. Caso a caso, esta reacção popular é inócua, mas lentamente e com o acumular dos casos, a que se junta uma forte desconfiança no sistema de Justiça, ela vai construindo um substrato psico-social onde se podem alicerçar coisas muito desagradáveis. Estas caixas de comentários, como já aqui disse, são a nova forma da voz do povo. E a voz do povo é continuamente um apelo à justiça pelas próprias mãos, como se os nossos tribunais fossem já incapazes de fazer reinar a ordem e proteger e restabelecer, através do direito penal, a paz pública. Parece que estamos a criar, com o nosso proverbial deixa-andar, o lastro para a intolerância, o racismo, a xenofobia, o lastro para uma deriva securitária.

24/08/09

Alma Pátria - 35: Eduardo Nascimento - O Vento Mudou


Eduardo Nascimento - O Vento Mudou

Há uma coisa que é verdade na ideologia do Estado Novo, a natureza multirracial do Portugal de então. Uma prova? A vitória, em 1967, de Eduardo Nascimento, angolano, no Festival RTP da canção e, consequentemente, a sua eleição para representar Portugal no Festival da Eurovisão. A guerra em Angola, que deu o tiro de partida para as guerras coloniais dos anos sessenta e setenta do século passado, tinha começado há cerca de seis anos e faltavam ainda sete para terminar. Curiosamente, Eduardo Nascimento é o autor do hino do MPLA. Apesar dos ventos de mudança que a cançoneta apregoa, ainda faltava muito para que o vento mudasse definitivamente. Este vento apenas falava de delíquios do coração.

Não se podem calar?

O governo, em desespero de causa, ufana-se com a descida do insucesso escolar. É evidente, no entanto, que, excluindo esse mesmo governo e alguns assalariados da causa, não há ninguém que acredite na bondade do feito. Toda a gente percebeu que os níveis de exigência foram condicionados pela estratégia governativa e pela chantagem sobre o corpo docente feita através do estatuto da carreira e do projecto de avaliação de professores, a que se adicionou uns exames mais complacentes. Estamos em maré eleitoral e tudo serve para uma demagogia desbragada. Quem está dentro de uma escola, porém, conhece bem a realidade, realidade essa que está construída por um quadro legal que torna quase invisível o insucesso real, isto é, as aprendizagens que não são feitas. Quando esta gente for corrida da governação do país, lá para 2011, não restará grande coisa da educação pública portuguesa. Exames sem credibilidade, um corpo docente desbaratado, alunos e famílias sem a noção do que é um ensino de qualidade e exigente, escola como sítio de lazer e não de trabalho. É possível que o sistema educativo português nunca mais recupere das malfeitorias políticas que lhe foram feitas pelo actual governo. Ao menos, por uma questão de decência, podiam calar-se e fingir que não existiam.

23/08/09

Alma Pátria - 34: Carlos Mendes - Verão


Carlos Mendes - Verão

O Festiva RTP da canção e o Festival da Eurovisão tinham um peso enorme no panorama da música ligeira, era assim que então se dizia. Verão, de Carlos Mendes, foi a canção vencedora do Festival RTP de 1968, um ano de intensa vida política por essa Europa fora, revoltas estudantis em França (que depois se atearam por Itália, Alemanha, EUA) Primavera de Praga, na antiga Checoslováquia. Por cá o ditador havia de cair da cadeira. O imaginário português, presente nesta canção, é o do Verão, com as suas aventuras pequeno-burguesas e o tédio que se aproxima pelo fim da estação estival. Havia toda uma mitologia em torno do Verão, uma mitologia própria de um país que ainda não tinha descoberto as praias inundadas de gente e o turismo de massas. É dessa mitologia, que tem no romance Sinais de Fogo, de Jorge Sena, a sua legitimação, que esta cantigueta extrai a sua existência.

Uma vida política animada

Há uma coisa que é inegável: nos EUA a política é levada muito a sério e está longe do consenso mole que infestou a vida cívica dos países europeus. O caso mais notável é o da luta do Presidente Obama para instituir um sistema nacional de saúde. Cerca de 1/6 da população americana não tem qualquer tipo de assistência médica e Obama quer fazer frente a esse défice. A oposição fora e dentro do seu partido é enorme. As companhias de seguros nem querem ouvir falar do projecto Obama, bem como uma enorme multidão de médicos. A guerra tem sido bem dura e tem custado perdas grandes de popularidade por parte do Presidente. Extraordinário é o epíteto que os adversários do projecto lhe dão: um sistema de saúde socialista. Os EUA são o retrato fiel de uma sociedade onde a aristocracia nunca existiu, e onde certos valores provenientes do antigo regime não foram incorporados. Por isso, a vida social é de uma dureza sem paralelo nos países civilizados. Que morram milhões de pessoas anualmente por falta de assistência médica é coisa que não afecta parte considerável dos americanos. Nos EUA o dinheiro, símbolo do triunfo social, é bem mais importante do que as pessoas. Quem não o tem, e por isso está impedido de aceder aos seguros de saúde, não merece ter assistência médica. A morte sem assistência é a contrapartida do mérito. A cruzada de Obama não é apenas contra os interesses instalados, mas também contra uma maneira de pensar e de representar a sociedade e os seres humanos. Vai ser uma guerra dura e nada garante que Obama a ganhe. É animada a vida política dos americanos.

22/08/09

Alma Pátria - 33: Maria Teresa de Noronha - Mataram a Mouraria


Maria Teresa de Noronha - Mataram a Mouraria

Um retorno ao fado aristocrático com Maria Teresa de Noronha. Nome grande do fado nos anos quarenta, cinquenta e sessenta, uma autêntica cantora da Rádio. Só abandona a Emissora Nacional em 1968. A Mouraria, um dos bairros mais populares de Lisboa, é um símbolo do fado. De certam maneira este título, Mataram a Mouraria, anunciava a morte do fado, o que, como sabemos hoje, estava longe de ser verdade. Repare-se na conexão entre fado, Mouraria, tradição, passado. Todas estas palavras são topos essenciais do fado e de uma certa alma nacional. Mais uma faceta da Alma Pátria, numa das grandes vozes do fado.

Um caso exemplar

Um caso exemplar. Abdelbaset al-Megrahi foi condenado a prisão perpétua devido ao atentado de Lockerbie, onde morreram 270 pessoas. Não se tratava de um avião militar, mas de um avião civil, cheio de civis. O governo escocês decidiu libertar al-Megrahi por razões humanitárias, o líbio sofre de cancro e está em fase terminal. Este homem, responsável pela morte de quase três centenas de inocentes, foi recebido, em Tripoli, como um herói. Os ingleses e os americanos acham que a recepção foi perturbadora. Uma péssima metáfora para explicar a realidade. A recepção não foi perturbadora, pelo contrário. Ela clarificou, mais uma vez, o que o mundo islâmico e a rua dos países islâmicos pensam dos nossos valores. O que me espanta, em todo este processo, é que os dirigentes políticos ocidentais se espantem com a reacção à chegada de al-Megrahi a casa. A vida de um infiel, aos olhos desta cultura, vale zero. Espanta-me, mas já menos, também a "confiança" que os países ocidentais decidiram outorgar ao chefe líbio. De facto, os ocidentais estão sempre prontos a vender os seus valores por meio dúzia de oportunidades de negócio. Depois, espantam-se.

21/08/09

Brincar aos regimes

Agora que se aproxima a passagem de um século sobre a proclamação da República, parece recrudescer a actividade de alguns nostálgicos da monarquia. É legítimo, pois vivemos numa sociedade democrática, e não se devem censurar os ideais particulares de cada um. Por vezes, entrego-me a um devaneio e ponho-me a imaginar o que haveria de diferente entre este Portugal republicano, governado por Sócrates, e um Portugal monárquico, que só poderia ser governado por Sócrates. Pouca coisa. Em vez de Cavaco Silva, Presidente, teríamos Duarte Pio de Bragança, Rei. É certo que Cavaco é uma espécie de tesoureiro-mor alcandorado a patrono da pátria, mas que dizer de Duarte Pio? Não há palavras que o possam descrever. De Cavaco podemos livrar-nos ao fim de cinco anos, no máximo dez. Com Duarte Pio, teríamos de ter constantemente no pensamento a hora da sua morte, o que não deixaria de ser mórbido. Depois, seria preciso orar aos deuses para que o primogénito fosse minimamente capaz e recomeçaria todo o ciclo, no qual não teríamos mão, a não ser à maneira de Alfredo Costa e Manuel Buíça. Não é preciso mais nada para preferir a República, onde a legitimidade do Presidente deriva da escolha popular, a uma Monarquia sempre com défice de legitimidade. Com a actual separação da Igreja e do Estado, um Rei seria sempre ilegítimo. A Monarquia assentava num princípio hereditário, onde o poder temporal era derivado da unção da autoridade espiritual, a Igreja. Contrariamente ao que pretendem os monárquicos, a República não tem nenhum défice de legitimidade. Aliás, a sua implantação é muito semelhante à da Monarquia Portuguesa. Esta resulta de uma rebelião contra o poder instituído na altura e foi legitimada, posteriormente, pelo Papa. A República nasce da rebelião contra o poder instituído e legitimou-se, posteriormente, através do sufrágio popular, e legitima-se sempre que elege um novo Presidente. Até um monárquico como Salazar percebeu que não era bom andar a brincar aos regimes, e mexer na natureza republicana do Estado português.

Alma Pátria - 32: Petrus Castrus - Marasmo


Petrus Castrus - Marasmo

A Alma Pátria recua até o ano de 1971. A influência das banda de rock progressivo começava a fazer ouvir-se, por exemplo, na música do Quarteto 1111. Marasmo é o título do primeiro single do grupo Petrus Castrus, um grupo de José e Pedro Castro, onde tocaram múltiplos músicos, entre 1971 e 1978, com destaque para, logo no início, Júlio Pereira. O título do disco, Marasmo, não deixa de ser uma referência ao ambiente social que o país vivia no início da década de setenta, uma referência também ao sentimento de um ego esmagado pela totalidade social. Um retrato da pátria focado de um outro horizonte.

Feridas abertas

Parece que Pacheco Pereira terá admitido que a inclusão de António Preto é uma ferida aberta nas listas de candidatos a deputados pelo PSD. Usa mesmo uma linguagem esotérica, falando na cessidade de engolir sapos com a finalidade de correr com o grupo de Sócrates do poder. Como ressalta do que venho a escrever neste blogue, não morro de simpatias pelo engenheiro Sócrates e o seu grupo, acho mesmo que se ele se fosse embora seria uma bênção para o país e para o próprio Partido Socialista. Mas não confundamos as coisas. As listas do PSD é que têm dois candidatos arguidos em processos judiciais, sendo um desses processos muito pouco simpático. Pacheco Pereira deveria interrogar-se sobre o exemplo que o seu partido, pelo qual ele aceita candidatar-se mesmo assim, dá ao país. Uma coisa é a presunção de inocência, e toda a gente é inocente até prova em contrário. Outra coisa é a oportunidade política. Não compreendo, e no país ninguém compreende, o convite que Manuela Ferreira Leite endereçou a essas duas pessoas. Ainda mais incompreensível é o facto de eles terem aceite. Depois de António Vitorino ter abandonado um governo do eng.º Guterres por uma mera suspeita num assunto fiscal (ainda por cima infundada), depois da batalha travada por Luís Marques Mendes, enquanto presidente do PSD, para evitar candidatos com problemas com a Justiça, a decisão de Manuela Ferreira Leite representa um recuso inaceitável. Se havia alguma coisa que Manuela Ferreira Leite poderia apresentar era uma imagem de pessoa séria. A sua decisão, aos olhos da opinião pública, não veio consolidar essa imagem. Feridas abertas? Sim, e talvez essas feridas possam custar uma derrota eleitoral.

Jornal Torrejano, 21 de Agosto de 2009

Está on-line a edição semanal do Jornal Torrejano. É só clicar aqui e vai até .

20/08/09

Alma Pátria - 31: Fernando Tordo - Tourada


Fernando Tordo - Tourada

Vencedora do Festival RTP da canção, 1973. Como explicar que esta letra, de José Carlos Ary dos Santos (não tem interesse enquanto poeta, mas foi um grande letrista), passe pela censura, se apresente a concurso na televisão da ditadura, e ganhe? Só há uma explicação. Uma parte substancial do país já tinha percebido que o regime se tinha transformado numa enorme tourada. Esta canção é uma autêntica canção de intervenção, uma canção que anunciava os tempos que estavam para vir. Se não tivesse mais nenhum interesse, mas ela possui outros, interessaria enquanto facto profético anunciador do amanhã, quase dos amanhãs que cantam. Quem diria?

Toque de finados

O Dr. Mário Soares, na Visão desta semana, escreve um artigo com o título "Marx saiu do purgatório?" O texto possui a leveza inerente à estação em que estamos, leveza habitual no autor. A dada altura diz: "A crise de 2008-2009, em que nos encontramos, representou, contudo, o toque de finados do neoliberalismo e parece ter retirado do purgatório Karl Marx". Tirando o facto de Mário Soares se ter equivocado relativamente à saída de Marx do purgatório (não foi a crise financeira que o tirou de lá, foi o Vaticano que acabou com o purgatório e transferiu as almas que lá se encontravam para outros recantos do além), há uma coisa que me faz uma grande confusão. Como se pode afirmar que a actual crise representa o toque de finados do neoliberalismo? Como explicar a tão rápida resposta dos mercados à crise? Como explicar a forma organizada como os Estados vieram em socorro do modelo económico em desgraça? Aquilo que potencia o chamado neoliberalismo continua a vigorar, gostemos ou não. Os mercados nacionais continuarão abertos, a mão-de-obra oriental continuará a produzir o empobrecimento das classes médias europeias, o trabalho, físico ou intelectual, não deixará de ser considerado mercadoria, agora uma mercadoria à escala global. O capital financeiro não deixará de ter um papel preponderante na economia global. Esta crise assemelha-se mais a uma doença provocado por um vírus oportunista, mas debelável, do que a uma fase terminal do neoliberalismo. Pode ser que Marx, com a ajuda de Ratzinger, tenha sido transferido para o céu, para um dos andares térreos, claro, sempre é um materialista. Mas pensar que vamos amanhã ao funeral do neoliberalismo é uma ilusão inútil, que os portugueses perceberão imediatamente a seguir às próximas eleições, ganhe quem ganhar.

19/08/09

Alma Pátria - 30: Teresa Tarouca - Meu Bergantim


Teresa Tarouca - Meu Bergantim

Hoje a Alma Pátria faz uma incursão no fado de natureza aristocrática. O fado desde há muito que conjuga duas fortes raízes, a popular, de que é representante, por exemplo, Alfredo Marceneiro, e a aristocrática, onde sobressai o nome de Maria Teresa de Noronha. Também Teresa Tarouca possui uma ascendência aristocrática, bisneta dos condes de Tarouca, e faz parte dessa fileira de fadistas. O material existente no You Tube é francamente restrito e não foi possível apresentar um fado mais tradicional. Ficamos então com o Meu Bergantim, que era o que estava disponível.

Da dissolução da Pólis

O lamento tradicional de que o marxismo carece de toda a reflexão política autónoma, tende a impressionar-nos como sendo uma força, e não uma fraqueza. Pois o marxismo não é uma filosofia política; embora exista, sem dúvida, uma prática marxista da política, o pensamento político marxista, quando não é prático, tem exclusivamente a ver com a organização da sociedade e com o modo de as pessoas cooperarem na organização da producão. A crença neoliberal de que, no capitalismo, só o mercado interessa é, portanto, um parente próximo da concepção marxista de que, para o socialismo, o que importa é a planificação: nenhum deles tem tempo para disquisições políticas legítimas. Temos muito em comum com os neoliberais, na realidade, virtualmente tudo - excepto o essencial! [Frederic Jameson, Postmodernism: Or, the Cultural Logic of Late Capitalism]
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Para lá do carácter provocador ou chocante da afirmação de Jameson, há uma coisa que permanece um facto: tanto o liberalismo como o marxismo visam a destruição do político. Aquilo que marca a modernidade e a própria pós-modernidade é a aversão à dimensão política da existência humana e a proposição, explicitamente ou não, de utopias onde o Estado é dissolvido. Não esqueçamos o seguinte: toda a violência que o Estado exerceu, no chamado socialismo real, tinha por fim atingir a sociedade sem classes, onde o Estado desapareceria. Também a retórica liberal do Estado mínimo almeja a desarticulação do Estado e sonha com um paraíso onde só existam consumidores e relações livres entre consumidores. Liberais, socialistas e comunistas, de formas diferentes, todos eles visam a anarquia, a supressão de uma ordem onde as comunidades se organizam segundo estruturas políticas. Contrariamente, porém, ao pensamento de Jameson, aquilo que separa os neoliberais dos marxistas não é o essencial, mas o acessório, a organização da produção e da distribuição de bens. No essencial, estão unidos, pois a essência do homem é impensável sem a dimensão política. Esta não é uma excrescência, mas a condição de possibilidade da existência e persistência do humano. O que descobrimos assim é um longo projecto de desarticulação do homem, um projecto emergente na modernidade (talvez a visão mecanicista do homem que vai de Descartes a de La Mettrie seja um símbolo percursor), mas que a pós-modernidade vem deliberadamente acentuar. Mais interessante do que o debate sobre a ruptura entre moderno e pós-moderno, debate centrado, por exemplo, na diferenciação e autonomia das esferas (religião, política, arte, ciência) inerente à modernidade e na actual des-diferenciação e hibridação pós-moderna, é a reflexão sobre o pós-moderno como momento de intensificação paroxística de tendências dissolventes libertadas com a modernidade. Tendências essas que têm dois pólos particularmente significativos no marxismo e no liberalismo, independentemente das múltiplas formas que ambos vão tomando.

18/08/09

Alma Pátria - 29: João Villaret - Cântico Negro (José Régio)


João Villaret - Cântico Negro

Hoje a Alma Pátria sai dos caminhos da canção e entra nos da declamação. A rádio in illo tempore passava poesia. Recordo Villaret e também Manuel Lereno. João Villaret morre em 1961. Se olharmos para a capa do disco "João Villaret no São Luís" há qualquer coisa que é inconcebível. Em plena ditadura, um actor consegue encher um teatro apenas para ser ouvido a declamar poesia. Mais, esse mesmo actor tinha um programa semanal na RTP, de larga audiência, onde dizia os grandes poetas. Esse mundo acabou. Ainda David Mourão-Ferreira e Mário Viegas tiveram programas do género, mas tudo isso está definitivamente morto, no contexto cultural pós-moderno em que vivemos. No vídeo, um poema de José Régio, um poema que li muitas vezes e que ouvi também muitas vezes declamado pelo meu colega de escola Luís Filipe Pisco. Dizia-o bem.

Ainda não perdeu o jeito



Como se pode constatar aqui, Cavaco Silva ainda não perdeu o jeito. Sabe muito e sempre soube resguardar-se. É um adversário terrível, só dá a cara quando tem a certeza da vitória. Uns rapazes do PS, gente que até pela idade deveria ter mais tino e saber com quem se metiam, acusaram o Presidente ou a Presidência de tomar partido nas eleições. A resposta foi brutal: denúncia de uma restrição das liberdades. Cavaco precisa de correr com Sócrates. Se Sócrates torna a ganhar, a sua recandidatura é irrelevante. Mas se Manuela Ferreira Leite formar governo, Cavaco volta ao centro da decisão política, por intermédio de terceiros. Aí, faz sentido retornar à Presidência. Seja como for, até ao dia das eleições não faltarão golpes e contra-golpes. Mas esta polarização é falsa. Ambos os bandos defendem, com nuances, coisas muito semelhantes. O que está em jogo não são programas adversos, mas apenas empregos e capacidade para os distribuir.

17/08/09

O discurso sobre o filho-da-puta


Este post, infelizmente, não é uma homenagam ao texto de Alberto Pimenta. Antes fosse. Aqui, no 31 de Armada (junte-se também isto), aquele blogue de rapazes monárquicos, está o resumo, com os respectivos links, da essência da discussão política em Portugal. Como as partes em confronto não têm ideias divergentes, nem qualquer tipo de ideia, haveria de chegar o momento em que a realidade deveria vir ao de cima. Como se manifestou a realidade? Num arraial de filho-da-puta para cá, filho-da-puta para lá. Que não se contrarie ninguém. Mas, atenção, num país como o nosso, o filho-da-puta é um crónico vencedor. Portanto, não se percebe por que razão se há-de estar a atribuir antecipadamente a vitória ao campo adversário.

Equilibrar o barco

Na década de oitenta, uma Direita vitoriosa passou à ofensiva. No mundo anglo-saxónico, os regimes de Reagan e Tatcher, após terem enfraquecido o mundo operário, reduziram a regulamentação e a redistribuição. Alastrando desde a Inglaterra ao continente europeu, a privatização do sector público, os cortes na despesa social e elevados níveis de desemprego suscitaram uma nova norma de desenvolvimento neoliberal, que viria a ser implementado pelos partidos da Esquerda não menos do que pela Direita. No final da década, a missão desempenhada, no pós-guerra, pela social-democracia na Europa Ocidental - o Estado-providência baseado no pleno emprego e no provimento universal - fora, em grande parte, abandonada pela Internacional Socialista. [Perry Anderson (1998). As Origens da Pós-Modernidade. Lisboa: Edições 70, pp. 122]
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O que assistimos com a governação Sócrates foi a realização em Portugal daquilo que outros partidos da Internacional Socialista já tinham feito: trair a sua própria tradição e abandonar o pacto social-democrata que eles, juntamente com a democracia-cristã, tinham construído em nome de uma sociedade equilibrada. Isto coloca claramente um problema a esses mesmos partidos: para que servem eles? De certa forma, o espectro político europeu tornou-se redundante. Os partidos políticos da área de governo têm as mesmas políticas. Contrariamente ao que se quer fazer crer, não há qualquer alternativa para as próximas eleições. PSD e PS representam absolutamente a mesma coisa e os mesmos interesses, obedecem aos mesmo imperativos, possuem as mesmas fidelidades, servem os mesmo senhores, ajoelham perante os mesmo ídolos. Aí não há alternativa. O problema remanescente tem a ver com os eleitores da esquerda democrática. Não se revêm nas formações de inspiração marxista-leninista, mas também não se revêm nas sociedades que os partidos da Internacional Socialista estão a construir, sociedades acintosamente injustas, sociedades de uma diferença de classes abissal. Para esses, a única saída é a radicalização do voto. Se a esquerda democrática colapsou e se converteu aos ideários da direita, com o fanatismo dos conversos, resta apenas tentar equilibrar o barco.

Alma Pátria - 28: Tristão da Silva - Aquela Janela Virada para o Mar


Tristão da Silva - Aquela janela virada para o mar

Quem fez o upload deste vídeo para o You Tube diz que Tristão da Silva terá escrito esta canção enquanto estava preso, por ser oposicionista à ditadura. Não consegui confirmar a história. Existem algumas pequenas biografias na rede, mas em nenhuma delas consegui encontrar referência a esse facto. Seja verdade ou seja apenas uma ficção, o facto é que esta canção passava bastante na rádio nos tempos do dr. Salazar. É uma das canções que dão a imagem de marca do cantor e faz claramente parte da alma pátria.

Vida, sociedade, prestação de provas

No De Rerum Natura encontrei este texto de Francesco Alberoni sobre os exames:

A vida, na sua essência, na sua estrutura, é projecto e risco. Há sempre um momento em que ficamos suspensos à espera (...). Não compreendo os pedagogos que pretendem acabar com os exames nas escolas. O exame é parte integrante da educação. Não compreendo os pais que pretendem evitar esse stress aos filhos. Viver significa prever, calcular, dominar o stress.

Só quando temos que enfrentar um exame é que nós nos apercebemos do que podíamos e devíamos ter feito. Antes tendemos a deixar-nos embalar pelas ilusões, a imaginar o mundo como gostaríamos que fosse (...). Em todas as alturas, devemos procurar adquirir sempre o estado de espírito próprio do dia que antecede a batalha, para ver se não nos enganámos em nada, se não nos esquecemos de um pormenor importante (...) Devemos reproduzir o melhor possível a realidade, a angústia da realidade, a incerteza da realidade (...). Só (...) aceitando até ao fim o difícil exame, nós podemos correr o risco do futuro.” [Francesco Alberoni (1995). O Optimismo. Lisboa: Bertrand, pp. 84-85]
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Aquilo que o sociólogo italiano escreve já foi o mais puro senso comum. Era uma evidência que iluminava o comportamento de uma comunidade. O que merece meditação, antes de mais, é a forma como essa evidência foi corroída e se dissolveu. Uma grande guerra ideológica foi lançada contra o bom senso comunitário, tornou incerto o que é uma experiência estruturante da humanidade, seja nas sociedades modernas, seja nas sociedades tradicionais, seja nas sociedades arcaicas. Prestar provas (sejam exames ou provas iniciáticas) é o fundamento da integração das novas gerações nas respectivas sociedades. Mas a prestação de provas é também uma demarcação. Prestar provas e ficar aprovado significa que se deixou qualquer coisa para trás, que se saltou um obstáculo, que se cresceu. A destruição dos exames foi uma, entre outras, estratégias para a contínua infantilização das sociedades ocidentais. Na ideologia que certos pedagogos e muitas famílias ostentam, descobre-se uma resistência ao tornar-se adulto, ao crescer, como se a criança e o jovem pudessem viver eternamente na despreocupação e na irresponsabilidade. Este impulso da irresponsabilização emana directamente das novas formas de capitalismo, as quais exigem uma massa amorfa de consumidores, de gente que se relaciona com os artefactos, pertençam eles ao mundo material ou ao imaterial, como as crianças se relacionam com os brinquedos.

Contrariamente ao que pensa a esquerda sobre a educação, o fim dos exames, o fim da prestação de provas, não significa uma maior facilidade na produção da igualdade social. Pelo contrário, este tipo de ideologia não é emancipatório, mas propício a uma reestruturação dos sistemas de ensino, onde os filhos das elites têm acesso, através dos colégios privados e confessionais, a um ensino exigente e rigoroso, e os filhos da plebe democrática têm a escola pública como lugar de gozo e de prazer, lugar de irresponsabilidade social e pessoal. A política educativa seguida nos últimos quatro anos, pela mão dos socialistas, teve como finalidade impor este modelo profundamente classista, o qual começou a ganhar forma com a Reforma Roberto Carneiro, nos tempos em que Cavaco Silva era primeiro-ministro. Não por acaso, Cavaco Silva cobriu todos os desmandos da equipa de Lurdes Rodrigues. Por detrás da retórica da sociedade do conhecimento, por detrás do incenso às novas tecnologias, o que está em jogo é uma brutal divisão social, cujo núcleo central reside na negação aos alunos das escolas públicas o direito a um ensino exigente, rigoroso, de alta qualidade. E isso exige, concomitantemente, se não o fim dos exames, a sua irrelevância.

16/08/09

Nuno Ribeiro

Nuno Ribeiro

Esta casa não está transformada num blogue de ciclismo. Mas ter andado todo o tempo da Volta a fazer postagens sobre ciclismo e não haver uma referência à Volta deste ano, parece-me excessivo. É um facto que há muitos anos deixei de me interessar por este desporto, como pela generalidade dos outros. A paixão desportiva tem a sua pátria nessa terra encantada que é a infância e a adolescência. Depois, ou se desenvolve a razão e se olha com outros olhos as competições desportivas, ou a pessoa recusa-se a crescer e prolonga até à morte a atitude agonística presente em toda a paixão pelo desporto. Calhou-me, talvez com pouco mérito meu, a primeira hipótese. Olho com alguma razoabilidade para o fenómeno desportivo e, confesso, que ele já pouco me emociona. Mas essa terra encantada da infância persiste dentro de nós e é ela que me chama quando escrevo sobre o ciclismo. É também uma outra coisa. O ciclismo, aliás como o futebol, vieram até mim por intermédio do meu pai. Escrever sobre estas coisas é uma forma de me sentir próximo dele, uma espécie de culto aos mortos, aos mortos significantes. Aqui fica, assim, a homenagem ao homem que hoje ganhou a nossa pequena Volta. Não será pior nem melhor que os meus heróis de há quarenta anos, mas nunca terá lugar, por culpa da idade que tenho, no panteão da minha memória.

Alma Pátria - 27: Adriano Correia de Oliveira - Trova do vento que passa

Adriano Correia de Oliveira - Trova do vento que passa

Voltamos à face oculta da alma pátria. Como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira chega à canção de intervenção pela mediação do fado de Coimbra. Entre 1960 e 1962, grava quatro EP's (discos com 4 faixas), todos eles dedicados à canção de Coimbra. A sua orientação como cantor de intervenção surge de forma nítida no quinto EP, editado no ano de 1963, Trova do Vento que Passa, onde todos os poemas cantados são de Manuel Alegre. Consta que foi um grande êxito comercial. O que é interessante na música portuguesa é o paradoxo de o sebastianismo e a saudade, manifestações ideológicas conectadas com a direita, terem encontrado as suas mais autênticas vozes em cantores de intervenção, como Luís Cília, José Afonso e Adriano Correia de Oliveira.

Volta a Portugal - algumas memórias XIII

Joaquim Agostinho

Há nomes grandes no ciclismo português que traçam a rota da modalidade no nosso país, nomes como José Maria Nicolau, Alfredo Trindade, Ribeiro da Silva, Alves Barbosa ou Marco Chagas (aquele que mais vezes, quatro, venceu a Volta a Portugal). Joaquim Agostinho, porém, foi o único ciclista português de classe internacional. Venceu três Voltas a Portugal, alcançou um segundo lugar na Vuelta a Espanha e dois terceiros no Tour. Era, no seu tempo, um dos grandes nomes do pelotão internacional. Quando morreu, aos 41 anos e vítima de um estúpido acidente numa prova, ainda competia, como se quisesse compensar ter começado tão tarde (aos 25 anos) na modalidade. Aqui termina, com o fim da Volta logo à tarde, esta deambulação pela minha memória do ciclismo nacional.

15/08/09

Quarenta anos de Woodstock

Jimi Hendrix - Purple Haze at Woodstock 1969

The Who - My Generation [Woodstock 1969]

Jefferson Airplane Saturday Afternoon Woodstock 1969

As efemérides são sempre amigas dos bloggers falhos de imaginação. Passam hoje 40 anos do Woodstock. Podemos dizer que o evento condensou toda uma cultura juvenil que se foi formando ao longo da década de sessenta. De certa maneira é o sumário do passado e um programa de futuro. Quarenta anos depois, o mundo que é o nosso é o que aquela gente e muitos dos que gostariam de lá ter estado formataram. Não se pode dizer que seja um mundo brilhante, mas há uma coisa de que não podemos acusar a geração do Woodstock: falta de eficiência. O niilismo e o relativismo que a animava foram eficientemente disseminados e tomaram conta do Ocidente.

Alma Pátria - 26: Fernando Farinha - O Meu Destino & Sempre Linda


Fernando Farinha - O Meu Destino - Sempre Linda

Fernando Farinha era um dos fenómenos da Rádio nos anos sessenta e, presumo, cinquenta. Era conhecido como o Miúda da Bica, referência ao bairro da Bica, Lisboa, para onde veio residir em criança, vindo do Barreiro. Começou a cantar muito cedo. Esta gravação parece ter sido feito quando ele tinha apenas 11 anos. É uma curiosidade, pois trata-se de um velho 78 rpm. Eis como soava, mais ou menos, um disco nos finais dos anos trinta ou início dos quarente.

Volta a Portugal - algumas memórias XI/XII

Mário Silva e Pedro Moreira

Junto aqui dois ciclistas bem presentes na minha memória. Têm palmarés dissemelhantes, melhor o do portista, mas como o blogue é meu, junto quem me apetecer. Mário Silva ganhou a Volta (1961) muito novo, tinha apenas 21 anos. Na Volta do ano seguinte ganhou o Prémio da Montanha. Na altura, era sempre apontado como um dos candidatos ao triunfo na prova, mas o melhor que alcançou foi um 3.º lugar. António Pedro Moreira nunca obteve uma classificação brilhante na Volta a Portugal (o melhor que conseguiu foi um 7.º lugar), mas está associado na minha memória às metas volantes, um enigmático prémio existente na Volta a Portugal, não sei se noutras. Ganhou o prémio das metas volantes três vezes (1966, 67 e 68). Ganhou ainda a classificação por pontos (camisola verde) em 1966. Ambos eram nomes emblemáticos dos respectivos clubes.

A paródia pós-moderna

A Condição Pós-moderna, escrita como uma encomenda oficial, restringe-se essencialmente ao destino epistemológico das ciências naturais - a cujo respeito, como Lyotard mais tarde confessou, o seu conhecimento era menos do que limitado. O que ele entreviu nelas foi um pluralismo cognitivo, baseado na noção - inédita para os públicos franceses, embora já há muito estereotipada para os anglo-saxonicos - dos diferentes e incomensuráveis jogos linguísticos. A incoerência da concepção original de Wittgenstein, muitas vezes notada, foi apenas acrescida pela afirmação de Lyotard de que tais jogos eram autárcicos e agonísticos, como se pudesse haver um conflito naquilo que não possui uma medida comum. A influência subsequente do livro esteve, neste sentido, em relação inversa ao seu interesse intelectual, quando se converteu na inspiração de um relativismo vulgar que, muitas vezes - aos olhos quer dos amigos, quer dos inimigos - passa pela marca do pós-modernismo. [Perry Anderson, As Origens da Pós-Modernidade. Lisboa: Ed. 70, pp. 39/40]


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Esta mesma marca de irrelevância intelectual de um dos mais famosos livros sobre a pós-modernidade é assumida pelo próprio Lyotard: "Inventei histórias, referi-me a um rol de livros que nunca lera, aparentemente causou impressão nas pessoas, mas tudo se resume a um pouco de paródia... É o pior dos meus livros; quase todos são maus, mas este é o pior": [Lotta Poética, Terceira Série, Vol. l, N° l, Janeiro 1987, p. 82 (idem, pp. 39)].


Há, no entanto, qualquer coisa no livro de Lyotard que é pregnante. Essa força advém-lhe do próprio carácter paródico. Lyotard podia saber pouco do que falava no seu célebre relatório, podia ter inventado histórias, podia citar livros que nunca lera, mas isso não torna a sua obra menos significativa relativamente ao espírito pós-moderno. Pelo contrário, o livro como atitude intelectual parece ser o resumo da pós-modernidade, do carácter paródico em que a própria vida e o saber se tornaram. A pós-modernidade é esse momento que, após a solidez material do mundo moderno, tudo se dissolve, se torna leve e risível.


A risibilidade da existência só encontra o seu outro na risibilidade do saber, de um saber que cresce exponencialmente, mas com o qual os seres humanos são cada vez menos sábios e menos humanos. Um relatório sobre o destino epistemológico das ciências naturais pode ser um motivo tão válido como uma investigação sobre colecções de cromos da bola para evidenciar o carácter risível do mundo. Lyotard escolhe muito bem a palavra paródia, evitando a referência directa à comédia. Esta deve ser sempre pensada na sua relação ancestral com a tragédia. A segunda, no dizer de Aristóteles, trata dos homens superiores, enquanto a primeira trata dos homens comuns ou inferiores.


Ora a paródia pós-moderna trata da ausência dos próprios homens, superiores ou inferiores, do mundo da vida. Ela assinala o lugar onde o homem se ausentou de si mesmo, dissolveu-se, reduziu-se a uma condição onde inferior e superior apenas fazem sentido entendidos num contexto zoológico. No entanto, não se deve interpretar o zoológico como referência a uma ciência, ainda que taxionómica, como a Zoologia. Deve ser ligado àquilo que entendemos quando escutamos a expressão "jardim zoológico". Ali os animais são criados em cativeiro para exposição pública. A pós-modernidade refere-se ao momento em que o mundo da vida se resume a um jardim zoológico, onde diferentes espécies de macacos se exibem perante outros macacos. A paródia é o contexto da risibilidade do animal humano reduzido ao horizonte dos seus apetites naturais. Um deles é exibir-se paroxisticamente perante o próximo. A característica essencial, porém, da paródia é o seu carácter de reinterpretação de um original. Agora os animais humanos parodiam o homem que um dia foram.