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24/01/10

Gran'Gula em Coruche



Chega à pacata vila de Coruche, ali no vale do Sorraia, e apetece-lhe uma refeição tranquila, diferenciada, onde exista bom gosto e sobriedade, que não é outra coisa senão o sintoma desse bom gosto. Onde poderá encontrar isso, se é que pode? Pode. Encontra-o no Gran'Gula (se seguir o link, terá acesso à ementa e a uma panorâmica geral do restaurante).

O ambiente e a decoração são sóbrios e elegantes, o atendimento é gentil e com sábio equilíbrio entre a atenção necessária e distância certa. A comida, segundo a experiência que lá fizemos, é óptima, um sempre difícil equilíbrio entre a tradição portuguesa e a cozinha de autor. Começou-se com pão com manteiga, uma manteiga de ovelha de Azeitão, um jogo entre o sabor da manteiga e a evocação do queijo. Entre as entradas disponíveis, escolheu-se a farinheira preta com abacaxi, ambos grelhados. O abacaxi equilibra muito bem a farinheira preta, corta-lhe ameaças de indigestão, e joga como se fosse uma espécie de metáfora, embora comece a ser relativamente corrente, aproximando dois campos gustativos muito distantes. Resulta bem.

Filetes de linguado marinados com açorda de tomate e limão (não consta da lista do blogue linkado mais acima). Dos filetes nada há dizer, a não ser que se apresentaram como se esperava, bem temperados, sem oleosidades, sápidos, e muito bem acompanhados por uma açorda de gosto delicado e suave. Uma belíssima combinação. No prato de carne, experimentámos o folhado de perdiz. Também ele excelente. O folhado vinha coberto por uma redução de vinho tinto e chalota que lhe dava um toque de distinção e acompanhado por um gratinado de brócolos e arroz selvagem. Como sobremesa, preferiu-se o crumble de maçã e pêra, que igualou a qualidade de toda a refeição. Tudo isto foi acompanhado, como sempre fazemos, por um tinto da zona, um Vale das Lebres (2006). Não conhecíamos e foi uma nova e belíssima surpresa da enologia ribatejana. Vale a pena ir a Coruche.

05/07/09

Luta de classes

O campo da luta de classes não tem fim. Está enganado quem pensa que ele se restringe ao mundo do trabalho, aos campos e fábricas, onde burgueses e proletários se defrontam eternamente. Não, todos os aspectos da vida são palco de uma luta fracturante. Veja-se a alteração da estratégia onomástica das classes populares. Segundo o Público, o povo começa a apropriar-se dos nomes que até há bem pouco tempo pertenciam às melhores famílias da pátria. Em 2008, os seis nomes femininos mais escolhidos foram Maria, Beatriz, Ana, Leonor, Mariana e Matilde. No masculino, as opções recaíram em João, Rodrigo, Martim, Diogo, Tiago e Tomás. Esta popularização dos nomes associados a certas elites é um manobra táctica de grande significado simbólico. Ao desapossar as boas famílias da exclusividade e da diferenciação que um nome tradicional traz, as classes populares estão a obrigar as elites a refugiarem-se, para se diferenciarem, nas Cátias, nas Vanessas, nas Irinas, nos Rubens, nos Márcios, nos Fábios. Quem, nos dias de hoje, vai chamar ao seu filho Martim ou Matilde? Como se vê, não há tréguas nesta eterna luta entre diferenciadores e igualitaristas.

Da vida material - Wine (Junho)

A Wine é uma revista de vinhos que vai já no n.º 36 (Junho). Não é apenas pela elegante concepção que vale a pena comprar a revista. Fala-nos do mundo dos vinhos e da gastronomia, coisas indissociáveis. Este número traz uma reportagem com seis produtores de Alvarinho, aquele vinho extraordinário que só se produz, a partir da casta do mesmo nome, nos concelhos de Monção e Melgaço. É verdade, no outro lado da fronteira também há, mas adquire aí o estranho nome de Albariño e não sei se é do nome, se da nacionalidade, aquilo não sabe ao mesmo. Vale também a pena, neste número, ler a opinião de Charles Metcalfe sobre os vinhos do Porto de 2007 (Após esta prova de vinhos do Porto, se disser que atrobuí 90 ou mais pontos a 25 dos 42 vinhos presentes talvez dê um indício do meu entusiasmo...). Não esquecer ainda o trabalho sobre a cozinha beirã. Mas toda a revista é um prazer e há a oportunidade de descobrir o que há de mais dinâmico, em Portugal, no mundo dos vinhos. E nunca esquecer a divisa que se está a apossar do averomundo: não há nada mais espiritual do que a vida material.

Da vida material - Blue Cooking (Junho)

Já tinha visto cá por casa a Blue Cooking, mas desatento como sou não tinha passado os olhos pela revista. Hoje, porém, calhou pegar na de Junho. Desde a concepção gráfica até às receitas sugeridas, passando pela crítica, a Blue Cooking é um belo e adequado objecto. Isso mesmo, um objecto material que dá prazer tocar, olhar e imaginar aquilo que poderemos saborear. Pecado da gula? Pelo contrário, introdução à redenção. Não foi numa ceia, a última, que o Cristo preparou a redenção da humanidade sob o império do pão e do vinho? Os tempos tornaram-se mais complexos e a perseguição dos dietistas quase se tornou direito constitucional. Mas há que resistir, enquanto se pode. Deixo aqui duas sugestões da Blue Cooking de Junho. Uma sopa de abacate e camarão e uma salada de vegetais queijo feta. Receitas? Bem, isso já me ultrapassa e sempre se pode consultar a própria revista.