31/12/08

Há um ruído de corvos no lancil do passeio.

Há um ruído de corvos no lancil do passeio.
Ao longe ouve-se a agonia de uma ambulância,
o estrídulo repicar do aço sobre um incêndio de palha.
Se as vozes alvorecem a cantar, adormecem surdas,
deixando um rasto de sangue e saliva
na orla negra, um dia rio lhe chamaram.

Apagaram os faróis e o mar é um cemitério de barcos
carcomidos pelo sal, um depósito de algas negras,
sacos de plástico, peixes e almas em decomposição.
Assim começam todos os anos e assim terminam.
Mas o ardor do álcool e a ilusão do sangue
semeiam quimeras ali onde os dias germinam.

25/12/08

José Carreras, Diana Ross, Placido Domingo - O Tannenbaum

Pois é, estamos mesmo em época de Natal.

Stille Nacht (Silent Night) German - Sing Along

Este "Stille Nacht", cantado na língua original pela Nana Mouskouri, é especialmente dedicado à leitora Maria Correia. Um Bom Natal.

24/12/08

Luciano Pavarotti - O Holy Night

Bom Natal a todos.

23/12/08

22/12/08

Fora do tempo


De uma coisa não se pode acusar Bento XVI: de flectir o joelho perante o espírito do tempo (aqui). A posição sobre o denominado casamento homossexual e a recusa de uma imagem de Papa pop-star, tão ao gosto de uma certa juventude católica, são sinais de que no Vaticano está alguém que sabe o que quer e sabe, fundamentalmente, que não se deve vender os princípios para comprar sufrágios ou banhos de multidão. Por vezes este Papa faz-me lembrar o velho professor do Violência e Paixão, de Visconti, aquele filme que tanto agrada ao meu amigo Zé Ricardo. Também a mim, diga-se de passagem

19/12/08

Jornal Torrejano, 19 de Dezembro de 2008

Nova edição on-line do Jornal Torrejano. Destaque para a aprovação do orçamento municipal, um orçamento na ordem dos 70 milhões de euros. Referência também para apresentação, por António Rodrigues, da taxa de execução do programa Turris XXI. Nota ainda para o sentimento de insegurança que atemoriza torrejanos.

Na opinião comece-se com o desporto. Carlos Henriques escreve Benfica fora; Porto dentro, Fernando Faria Pereira, O problema do Pai Natal, Inês Vidal, Tucha, Jorge Cordeiro Simões, A nova biblioteca, José Ricardo Costa, A Biblioteca, José Trincão Marques, Educação e democracia, Santana-Maia Leonardo, O ovo da serpente.

Ficamos por aqui, para a semana haverá mais, assim o determinem os fados. Bom fim-de-semana e boas compras natalícias.

18/12/08

O governo conseguiu


O governo conseguiu. Depois de um elevado esforço e uma política persistente, o governo de Sócrates conseguiu que mais de 80% dos professores passassem a odiar a sua profissão. Esta é a percentagem de docentes que, se pudessem, se reformariam mesmo com penalização. É evidente que isto não incomoda o governo e deve dar um sentimento de alegria a Lurdes Rodrigues e acólitos. Aliás, que interesse tem um estudo que não foi levado a cabo pelo ISCTE?

Grupo Corpo - Bach (1) - Belo Horizonte

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Para começar bem o dia.

Grupo Corpo - Bach (2) - Belo Horizonte

Para começar bem o dia.

Grupo Corpo - Bach (3) - Belo Horizonte

Para começar bem o dia.

Grupo Corpo - Bach (4) - Belo Horizonte

Para começar bem o dia.

17/12/08

Vision of Hildegard von Bingen-voice Hana Blochová-KVINTERNA

O problema da educação


Há dias, ao ler o trabalho de um aluno, descobri a essência do problema educativo português. Dizia, esse aluno, que com aquele trabalho esperava inalar muitos conhecimentos. Considerando o desempenho geral dos alunos portugueses, concluí que a questão não é do foro da pedagogia ou das ciências da educação, mas da otorrinolaringologia. Muito nariz entupido há por esse país fora.

O desespero


Bento XVI alvitrou que a crise económica poderia ser um caminho para redescobrir o verdadeiro sentido do Natal. Como já muitas vezes disse, sou um admirador de Bento XVI. Mas, mais uma vez, não posso partilhar a esperança dele. Esperar que a crise económica possa abrir o coração dos homens ao mistério do Natal, ao valor da simplicidade e ao sentido da pobreza representado pelo menino que nasce no presépio é desconhecer o coração dos homens. A angústia provocada pela crise económica não é metafísica, é apenas económica. Não é ao divino que toma carne que os homens irão orar, mas ao deus do dinheiro. Mas não foi aos sacerdotes desse deus que aquele que nasceu no presépio de Belém expulsou do templo?

Talvez as palavras do papa Ratzinger sejam não o exercício da virtude teologal da esperança, mas apenas o sintoma de um fundo e mal disfarçado desespero.

15/12/08

Chick Corea & Hiromi Uehara - Spain

Cegueira por cegueira


Uma das marcas essenciais de uma sociedade civilizada é a distinção entre justiça e vingança. Por mais repugnante que seja um crime, e este ocorrido no Irão é um crime repugnante (a violência de um homem sobre uma mulher é absolutamente atroz), é inaceitável que a justiça seja um acto de vingança. A vítima, que cegou devido a um ataque com ácido de um pretendente rejeitado, convenceu o tribunal a aplicar idêntico tratamento ao culpado. Mesmo que a nossa indignação esteja de acordo com a exigência da vítima, a razão sabe que a vingança e o «olho por olho...» são ainda formas mais perversas de injustiça. Basta este pequeno exemplo para percebermos que a distância que vai da Europa ao Irão é muito maior do que o espaço físico que há entre ambos.

Explosões gregas

Tenho evitado escrever sobre os acontecimentos da Grécia. Há, no entanto, uma coisa que merece ser realçada: a morte ocasional de um jovem de 15 anos, mesmo às mãos da polícia, está longe, muito longe, de poder explicar todos estes dias de tumultos. A sociedade grega esperava por alguma coisa para poder dizer o que lhe vai na alma. E aquilo que lhe vai na alma está longe de ser luminoso. Alguns articulistas vêm na explosão social dos últimos dias um protesto contra o governo de direita de Costas Caramanlis. É verdade, mas é só uma ínfima parte da verdade. Aquilo que emerge é um protesto mais radical contra um modo de vida e contra o próprio Zeitgeist. Dissociar estas explosões daquilo que tem sido a espiral de escândalos da economia mundial e do modo de vida que ela, nos últimos vinte anos, impôs é querer tapar o Sol com uma peneira. A única coisa que importa saber é se estes acontecimentos se ficam pela Grécia ou se se espalham Europa fora, nomeadamente num país como Portugal, onde o equilíbrio social é muito precário.

14/12/08

Camarada Enver Hodja

Como na totalitária Albânia, Paulo Portas, o querido líder do CDS-PP, conseguiu um histórico resultado na reeleição para chefe do seu pequeno partido (95,1%). Agora que o camarada Paulo Portas está reeleito já pode a pátria dormir descansada.

13/12/08

Robert Ambrose Conducts Tristan Murail (part 1)

Por estranho que possa parecer, eu gosto da música do compositor francês Tristan Murail. Mas isso não é sinal de qualquer elevação espiritual, ou de uma extraordinária predisposição intelectual, ou mesmo de um refinamento do gosto. É antes sintoma da minha desagregação mental, da dilaceração do pensamento, da guerra civil que me percorre o cérebro e lança neurónios contra neurónios, hemisfério contra hemisfério. Começo assim por ouvir a anunciação do anjo da guerra e os exércitos entram em acção. A terra arde e todas as sensações que nascem em mim são estilhaços de vidro e fragmentos de granadas. Ao longe, oiço trovões. Como o mundo, tudo em mim se cinde. Tento sintonizar o ouvido na música e uma volúpia de cinza e fogo arrasta-me para fora do silêncio da noite. A madrugada ainda não é um risco no horizonte, apenas dois sóis se chocam no interior da galáxia, talvez o meu cérebro, dirão.

Marianne Faithfull - So sad

Poetas Torrejanos Contemporâneos


Foi hoje o lançamento desta colectânea. Poetas Torrejanos Contemporâneos reúne produção de 23 poetas ligados a Torres Novas, uns pelo nascimento, outros pela vida, que cá os fixou. Neles se inclui este blogger. A iniciativa e o trabalho de recolha foi de António Mário Lopes dos Santos, que também prefaciou e anotou a obra. A capa é de Joana Santos.

A edição, de 1000 exemplares, deve-se à coragem de Joaquim Cabral, da livraria Ponte do Raro e da sua Ponte Editora.

Eis o nome dos culpados: Alexandre Saldanha da Gama, Ana Catarina Faustino, António Lúcio Vieira, António Mário Lopes dos Santos, Carlos Nuno, Eduardo Bento, Emília Duque, Hugo Santos, Jorge Carreira Maia, José-Alberto Marques, José Brites, José Coêlho, José Duarte da Piedade, Julião Bernardes, Luís Simões Gomes, Maria Adelaide Oliveira Simões, Maria Fernanda Pinto, Maria Sarmento, Maria Zabeleta, Martinho Branco, Moisés David Ferreira, Paula Bordalo Faustino, Pedro Barroso.

12/12/08

Nico - My Heart Is Empty (live)

Jornal Torrejano, 12 de Dezembro de 2008


Na opinião, como é hábito, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Na opinião escrita, o périplo começa com Carlos Henriques e Benfica arrasador, depois passa por Carlos Nuno e O complexo do pai, Inês Vidal e Aparentemente, para acabar com José Ricardo Costa e 27.

Para a semana haverá mais, assim o determinem os astros. Bom fim-de-semana e vá vendo o que se passa por aqui indo até ao Jornal Torrejano.

Encerrado

Encerrado, diz o SE Jorge Pedreira. Está fechado o processo de negociação sobre a avaliação de professores. É possível. Aliás, essa é a única coisa que este governo consegue fazer: encerrar. Estou a exagerar. O governo de Sócrates também consegue fechar, liquidar, tapar, trancar, vedar, cercar, enclausurar. É isso que os portugueses, e não apenas os professores sentem. A sua vida está encerrada, fechada, liquidada, tapada, trancada, vedada, cercada, enclausurada. Os portugueses, pela mão do ilustre Sócrates, vivem asfixiados. Uma asfixia lenta, mas impiedosa. Ao elergermos esta gente assinámos a autorização da nossa eutanásia enquanto povo. Sim, sr. Secretário, está encerrado. Só a medíocridade tem as portas abertas neste país.

11/12/08

Sinais políticos

A aprovação do Estatuto dos Açores e a continuação da guerra do Ministério da Educação com os professores são dois sinais políticos importantes. Nas hostes governativas perpassa a convicção de que Cavaco Silva é irrelevante e que a guerra com os professores reforça a adesão eleitoral a Sócrates. Estes sinais são importantes e ninguém se deve confundir. Sócrates pode ser um mau governante, mas é um bom político. É preciso que os protagonistas, como agora se diz, não baralhem os planos. É mais fácil um bom político alcançar uma maioria absoluta do que um bom governante.

Tocata e fuga

Pego num velho livro de David Mourão-Ferreira, entre a sombra e o corpo, composto por 30 pequenos poemas, todos eles constituídos por dois hexassílabos culminados, rematados como diz o próprio poeta, por um trissílabo [Assim, por exemplo: «Quantas mãos Quantos dedos / para que em seda cedam / as paredes]. Os poemas são de um erotismo musical quase comovente. Mas, como muitas vezes, há outras coisas que me prendem ao livro. Logo a começar a capa, aquela velha capa da Moraes Editores, a capa da colecção Círculo de Poesia. Depois espreito o ano de edição e descubro que é de 1980, de Novembro de 1980. O meu exemplar é da primeira edição. Vou ver se o livro tem o meu nome como usava fazer até certa altura. Descubro dois nomes, o meu e o de uma mulher, aquela que na altura partilhava a vida comigo. Vejo também a data da compra, 31 de Dezembro de 1980. No último dia do ano de 1980, comprei um livro de poesia. Não consigo já descobrir onde. Isso foi quase há 28 anos. A Moraes Editora acabou, deixei de partilhar primeiro os livros e depois a vida com a dona daquele nome, o poeta morreu, há muito que deixei de pôr o quer que seja nos livros que compro. Resta o essencial, aqueles pequenos poemas, poemas como este: «Bebo mais do que toco / E que insónias afogo / neste copo». Talvez não haja mais nada a não ser isso, as insónias que afogamos nos copos ou nos corpos que bebemos.

Messiaen • Quartet for the End of Time [w/dance]

Passaram ontem 100 anos do nascimento do compositor francês Olivier Messiaen. Esta post vem com um dia de atraso, mas este blogger já esteve, enquanto blogger, em melhor forma. Ainda por cima, Messiaen é um dos seus compositores contemporâneos favoritos. Este estranho quator foi escrito num campo de prisioneiros, em Görlitz, na Silésia e estreado perante uma não menos estranha audiência em 15 de Janeiro de 1941: prisioneiros das mais diversas proveniências e oficiais nazis (cf. aqui o post de Pedro Mexia com o seu artigo no Público de dia 6.).

10/12/08

Irritações e ajudas

Parece mesmo que o confronto entre o ME e os professores está a deixar marcas profundas no PS. Se assim não fosse, o que explicaria o acinte de Sócrates ou a benévola ajuda do Dr. Soares à ministra. No Educação do meu Umbigo, Paulo Guinote dá a resposta merecida a Sócrates. Seja como for, os professores devem preparar-se para o pior. É provável que Sócrates ainda ache que esmagar os professores, humilhá-las e destruir a escola pública dá votos. E quando cheira a votos nada detém esta gente. A educação, em democracia, sempre foi o terreno fértil para a demagogia mais tresloucada. As asneiras que se fazem, para não se falar em verdadeiros crimes de traição, só se notam anos depois. Mas o mais notável deste conflito reside no facto de ele mostrar que as governações ocidentais se transformaram em inimigas declaradas dos seus povos e dos interesses mais fundos destes. A anarquia semeada pelo actual governo nas escolas portuguesas é apenas um mero exemplo. Todos nós já percebemos que o primeiro-ministro está mais preocupado com banqueiros do que com professores, alunos ou pessoas que precisam de ter os seus filhos em escolas públicas decentes. No fundo, essa gentalha não conta.

09/12/08

Maiores de 23

Estava na cara que seria assim, mas perante a demagogia de todos terem direito a tudo, criou-se mais um problema no ensino superior. O Público faz um belo resumo da situação no artigo «Alunos "maiores de 23" não estão nos cursos que garantem mais e melhores empregos». Mas alguém, com um mínimo de seriedade, esperaria que esses alunos, muitos sem a escolaridade obrigatória, escolhessem os cursos com matemáticas, físicas ou químicas? Que exemplo se pretende, com isto, dar aos sub-23? De naufrágio em naufrágio...

08/12/08

07/12/08

Callas & Tebaldi

Colapso?

A falta de uns deputados do PSD a uma votação sobre a suspensão do actual modelo de avaliação de professores gerou um coro de protestos e um excelente artigo de António Barreto, no Público de hoje (ler Colapso). Duvido, porém, que a metáfora utilizada, colapso, para caracterizar a situação política portuguesa seja adequada. No termo colapso pensa-se uma queda repentina. Mas não é isso o que se está a passar. Para haver uma queda espectacular seria necessário que aquilo que caísse tivesse subido a uma certa altura e aí se tivesse mantido. Ora, há muito que as instituições, os protagonistas políticos e os valores que regem a ambos são rasteiros. O que assistimos é, assim, a um prolongado desmoronamento das instituições e valores essenciais. É um desmoronamento que não causa emoção, pois todos, há muito, percebemos que tudo se está a dissolver, entregue a actores de terceira e quarta categorias. Não, não é um colapso. É uma queda lenta, previsível e irremediável, que apenas provoca um esgar de irritação e um leve bocejo.

Noções difíceis e esforço inútil

Todavia, nos nossos dias, vive-se bem sem esses códigos e a sua persistência é que é, pelo contrário, considerada insuportável, ou um entrave às liberdades elementares. Um rapaz, que regressava de umas férias passadas numa comunidade (laica) de jovens, no estrangeiro, respondeu a um jornalista que o que mais lhe agradara fora ter passado um mês sem ter de dizer «obrigado» ou «desculpe». E neste caso os seus pais ainda se devem ter esforçado, sem dúvida, por lhe ensinar essas noções tão difíceis… Muito mais numerosos são os casos dos que julgam já não ser necessário, sequer, um esforço tão inútil. [Philippe Ariès (1977). Prefácio a A Civilidade Pueril, de Erasmo]

Ah, note-se que Ariès estava a escrever nos anos 70 do século passado, na civilizada França.

Ser espanhol?

É preciso ter o cuidado de ter os dentes limpos; embranquecê-los com a ajuda de pós é completamente efeminado; esfregá-los com sal ou alúmen faz mal às gengivas; lavá-los com urina é um costume espanhol. [Erasmo, A Civilidade Pueril]

Domingo

Parece que ontem foi sábado, mas nem dei por ele. Se tudo estiver a decorrer como o convencionado, hoje será domingo. Mas não consigo perceber se é o dia em que a semana acaba ou aquele em que uma nova começa. Sinto apenas o vazio dos domingos, a chuva que cai e o fastio da eterna repetição do mesmo.

05/12/08

Carrilho e a educação

Algum pensamento sobre a crise profunda da educação pode ser lido no blogue de Manuel Maria Carrilho, Contingências. O post reproduz um artigo no DN, de 29 de Novembro passado. Mas vale a pena ler

Jornal Torrejano, 5 de Dezembro de 2008

Está já online a edição de hoje do Jornal Torrejano. Notícia grande é a inauguração pelo Presidente da República, Cavaco Silva, do nova Biblioteca Municipal. Referência também para o alerta do CRIT: 400 pessoas com deficiência permanente, no concelho.

Na opinião, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Na crónica escrita, Carlos Henriques escreve Benfica falha o 1.º lugar, João Carlos Lopes, Janelas, José Ricardo Costa, O Fascismo da Avaliação (crónica reproduzida mais abaixo), Miguel Sentieiro, A arte do Simulacro e Santana-Maia Leonardo, Alunos ou burros de carga.

Para a semana haverá mais, assim o disponha o fado. Então, um bom fim-de-semana e pode sempre dar uma espreitadela no site do Jornal Torrejano, com a sua actualização permanente de notícias locais.

José Ricardo Costa - O Fascismo da Avaliação

Eu sou professor e esta crónica é sobre avaliação. Mas não é sobre a avaliação dos professores. É sobre a cultura da avaliação ou a religião da avaliação.

Qualquer trabalhador deve ser avaliado. Mas ser avaliado não é o mesmo que uma cultura da avaliação. A cultura da avaliação leva-nos a uma espécie de fascismo da avaliação que, a par do fascismo higiénico, sanitário ou estético, tendem a tornar as nossas sociedades democráticas mais totalitárias e opressivas.

É fácil avaliar o desempenho de um trabalhador. Em qualquer empresa, hospital, escola, loja ou oficina, sabe-se quem desempenha bem ou mal o seu papel. Se é assíduo ou não, se chega ou não atrasado, se produz ou não produz, se faz bem ou não o que lhe pedem para fazer.

Mesmo na minha profissão, uma das mais difíceis de avaliar, sabe-se perfeitamente quem são os dois ou três profissionais que, em cada escola, por isto ou aquilo, desempenham mal as suas funções.

Ora, se em cada serviço há pessoas que, por inépcia ou irresponsabilidade, desempenham mal as suas funções, será apenas uma questão de intervir superiormente para corrigir os erros e, se não houver da parte do avaliado qualquer interesse em corrigir, intervir disciplinarmente.

Porquê então esta obsessão pela avaliação, por esta moderna cultura da avaliação? Comecemos pelo mais óbvi a questão financeira. Pagar menos ao maior número de pessoas. Mas, depois, falta a parte ideológica: a manipulação das ideias, uma mentalidade que legitime esta cultura e que leva as pessoas a aceitar a cultura da avaliação como sendo a coisa mais óbvia do mundo.

O que está, então, por detrás da avaliação? A ideia de que nunca somos suficientemente bons, que podemos fazer melhor, que há sempre alguma coisa que ainda não fizemos. E quando se trata de pensar no que é ainda possível vir a fazer, a imaginação fica descontrolada e pode começar mesmo a delirar.

Há tempos, na minha escola, estive a analisar os critérios de avaliação que permitiriam atribuir um ”Excelente” ao professor. Fiquei em estado de choque. Caso um professor os aplicasse para ser excelente, deveria ser expulso do ensino. Só um alienado poderia cumpri-los. Admito que haja professores assim. O problema é quando tais professores, considerados pelo poder como uma espécie de elite sacerdotal, passam a funcionar como modelos.

Mas atenção. Ninguém fica abandonado. Aí está a avaliação para nos ajudar, inspirar, ensinar o caminho. Ser avaliado é um privilégio, uma catequese que visa uma perfeição profissional cada vez maior. Devíamos mesmo beijar a mão daqueles que zelam por nós, que pensam e trabalham para nos avaliar e nos ajudam a superar-nos a nós mesmos.

Isaiah Berlin é um filósofo muito cá de casa. Um dos seus principais contributos é a célebre noção de liberdade positiva. Em si mesma, não é má de tod representa o desejo do indivíduo ser dono de si próprio, autónomo. Belíssimo.

Só que há aqui um problema. Eu não sou ainda o que, num mundo ideal, deveria ser. Sou imperfeito, tenho limitações, erro. Se ficar entregue a mim próprio não sou capaz de ser eu próprio, cumprir o meu desejo de ser eu próprio.

Mas não há problema. Há quem me possa proteger, ensinar, guiar: o Estado, o Partido, esta ou aquela instituição. Mais: há regras para nos ensinar o que todos devemos fazer para uniformizarmos os nossos comportamentos, para que ninguém fique isolado, marginalizado, perdido. Há um farol que nos ilumina, que nos tira as imperfeições, que não nos deixa errar.

A actual cultura da avaliação serve para os trabalhadores terem consciência que ainda não estão a conseguir ser o que gostariam de ser mas que, com a sua permanente auto-avaliação, poderão lá chegar.

Décadas depois de Hitler e Estaline, chegou a vez das nossas democracias liberais nos protegerem de nós próprios, dos nossos erros e imperfeições. Ensinam a sermos o que nós, no íntimo de nós mesmos, gostaríamos de ser: belos, saudáveis, perfeitos no trabalho, mais eficazes.

O actual PS não deixa os seus créditos por mãos alheias. Infestado de sociólogos, engenheiros sociais, planificadores, avaliadores, o PS não nos abandona, o PS protege-nos do mau azeite, das bolas de Berlim, da obesidade.

Como professor, também o PS me quer ajudar. Avalio-me e poderei então dizer, feliz: errei, falhei, sou imperfeito, mas, graças ao PS, pude descobri-lo e assim melhorar. Melhorar, melhorar, melhorar, como ovos que se vão sucessivamente partindo para fazer uma omeleta que nunca chega verdadeiramente a aparecer.

Será que não posso explicar melhor a matéria aos alunos? Não haverá ainda mais estratégias para eu poder explorar? E projectos? Será que estou a desenvolver os projectos que façam de mim um professor ainda mais activo e dinâmico? E será que estou a usar suficientemente as novas tecnologias? Estarei a ser suficientemente moderno? E será que não posso ter ainda mais um bocadinho de compreensão e paciência com um aluno que me chama ”filho da puta”? Será que estou a dar o meu total contributo para poder melhorar o ensino? Não poderia dar um bocadinho mais de mim mesmo? Não poderia ir mesmo a casa do aluno que abandonou a escola e trazê-lo de volta? Posso ou não posso? Posso ou não posso? Claro que posso, há professores que o fazem: os excelentes.

Pois, sabem o que eu digo a todos esses patifes do PS que nos governam? Vão dar banho ao cão. E não digo outra coisa porque sei que há senhoras de idade que lêem este jornal.
(Jornal Torrejano, 5 de Dezembro de 2008)

04/12/08

A graça de um bom governante

O Ménon é um diálogo de Platão, famoso pela experiência que Sócrates faz com um escravo ignorante para demonstrar que, mesmo sem ensino, ele já trazia um determinado saber. É a famosa demonstração da teoria da reminiscência. No entanto, aquele diálogo platónico tem outros motivos de interesse. Ele gira em torno de uma discussão sobre se a virtude (excelência) política é ensinável. A argumentação inclina-se para a impossibilidade de o fazer. Mas o que me interessa aqui é a conclusão. O que fará de um homem político um bom homem político? De onde lhe advirá a virtude ou excelência política? Do saber, da ciência? Não. Os homens políticos que dirigem rectamente as cidades não se distinguem, em última análise, dos poetas, ou dos adivinhos. Possuem um dom divino. Esse dom divino não é assim transmissível pelo ensino. Ou os deuses o concederam ou não. Esta tese não deixa de ser mais interessante do que a da República, onde Platão argumenta em favor do rei-filósofo, aquele que governa porque sabe o que é a Justiça e o Bem. E tem uma vantagem essencial: mostra a experiência da humanidade relativamente aqueles que a governam. Um bom governante, um governante justo e moderado, parece ser uma excepção, a dádiva dos deuses. Em linguagem cristã, uma graça. Em Portugal, por exemplo, parece que há muito que a graça não visita os nossos governantes.

03/12/08

Schubert - Ave Maria - Jessye Norman


Entrámos na época natalícia. Esqueçamos a azáfama e o comércio das prendas. Saudemos: Avé Maria, ó cheia de graça. Sim ouvir esta voz é uma das provas da existência de Deus e da graça que habita no seio das mulheres.

As causas da única e verdadeira oposição

É muito curioso que certos blogues dados à política se recusem a assinalar o óbvio: a verdadeira e a mais frontal oposição a este governo vem dos professores. Parece ser o único grupo social que percebeu a essência da política socratista: o vazio, o niilismo, a destruição de qualquer coisa que ainda funcione. É provável que muitos e muitos professores, talvez a maioria, não tenha sequer consciência plena do que está a fazer. Mas o instinto docente, aquilo que leva cada um a enfrentar a sua profissão, foi um poderoso sinalizador de que não é possível continuarmos na destruição de valores essenciais para as nossas sociedades: a disciplina, a ordem, o trabalho, o reconhecimento do mérito. Os professores podem honrar-se de estar a defender os valores essenciais que a comunidade depositou nas suas mãos para transmitir às novas gerações. Nunca o niilismo foi tão arrogante, nunca a destruição dos valores essenciais a transmitir às novas gerações foi tão longe, como com o actual governo. Nunca um grupo social foi tão claro na defesa dos valores essenciais. O que está verdadeiramente em causa é muito mais do que o método de avaliação de professores, a divisão artificial de uma carreira ou um Estatuto corporativo. O que está em causa é a defesa dos valores essenciais que permitem que a nossa comunidade continue a existir no futuro. O que está em causa é fazer frente ao niilismo que avança ferozmente e que tem neste governo um agente esforçado e dedicado.

Qual a causa que move o governo?

Mais um dia de conflito entre professores e governo. Muitos de nós, onde me incluo, decidiram abdicar de um dia de salário para protestar contra a política educativa de Sócrates e de Lurdes Rodrigues. E, no entanto, todos nós já percebemos qual é a política educativa deste governo: chegar às eleições e dizer que já há avaliação de professores, como se antes deles não houvesse. Se o processo de avaliação antes da manifestação de Novembro era perverso e diabolicamente burocrático, os remendos tornaram-no em qualquer coisa de irrisório, numa desconsideração pela racionalidade dos professores. A única coisa que move Sócrates são os votos, o poder apresentar qualquer coisa ao eleitorado, nem que seja mais uma farsa na escola pública. É isto o que move o governo. Mas isto é também a confissão não apenas da irresponsabilidade dos governantes, como da falência de uma maioria absoluta, a qual para pouco ou nada serviu. É o que dá entregar a governação do país a gente como esta. E eu, infelizmente, também votei neles.

02/12/08

Penguin Cafe Orchestra - Wildlife

Reformismo educacionais

Afinal, a estupidez educacional não nos cabe apenas a nós. Eis um interessante artigo do Guardian, de Peter Mortimore. Antes de começar a falar na Austrália, parecia que ele se estava a referir ao governo Sócrates.

Amanhã farei greve

Raramente adiro às greves de professores. Amanhã, porém, farei greve. São três motivos essenciais que me levam a fazê-lo. Ei-los, dos mais «egoístas» aos mais «altruístas».

1. Faço greve porque gosto de ensinar, mas ensinar mesmo. É isso que faz de mim professor. Este governo criou tal confusão nas escolas que o acto de ensinar se tornou irrelevante. A avaliação de professores projectada é apenas o ataque decisivo contra os professores que o são verdadeiramente, contra aqueles que têm como finalidade profissional transmitir o saber que lhes foi confiado para o distribuir aos outros. Esta avaliação de professores, como outros actos deste governo, visa a desvalorização do ensino.

2. Faço greve também pelos meus alunos. Os meus alunos têm direito a uma escola decente e a professores que ensinem. Se os professores foram ferozmente prejudicados e humilhados pelo governo de Sócrates, as principais vítimas foram os alunos. Foi-lhes roubada, mais uma vez, a possibilidade de terem uma escola que os prepare seriamente para os desafios que terão pela frente.

3. Faço greve porque acredito na missão da escola pública. Não no simulacro de escola que este governo pretende impor aos portugueses, mas de uma escola pública marcada por níveis elevados de exigência e de apoio aos alunos. Os alunos provenientes dos meios mais desfavorecidos não precisam de uma escola pública baseada na facilidade. Pelo contrário, a única forma deles saírem dessa situação social é terem à sua disposição uma escola pública de grande qualidade.

BPP - O dinheiro na arena da vida

Imagem de Tiago Vital

Nunca a publicidade foi tão premonitória. Mas, como todos sabemos, o dinheiro não é igual para todos. Assim, não tendo certamente que ver com as personagens que rodeiam o BPP, o Estado, isto é o dinheiro dos contribuintes, tomou a sábia decisão de proteger o dinheiro do BPP das investidas do toiro, quero dizer da vida. Na nossa república socialista, a única coisa que comove o governo são as fragilidades dos poderosos. Seria desagradável aquela gente toda perder o seu Banco de gestão de fortunas, ou as fortunas que por lá estão a ser geridas. Cada vez me comove mais o liberalismo dos liberais e empreendedores portugueses. O liberalismo português nunca passou da ideologia de uns quantos figurões que por tudo e por nada se voltam para o Estado, como uma criança se volta para o pai. Ao menos que nos poupassem os ditirambos à mão invisível e à eficiência mercado.

Afrontas - o estatuto dos Açores

Sócrates julga poder dispensar a cooperação estratégica com Cavaco Silva. Em vez de um gesto de boa-vontade para com o Presidente, o governo decidiu afrontá-lo e aprovar o estatuto da Região Autónoma dos Açores tal e qual o vetou Cavaco. Se achei despropositada a encenação da comunicação de Cavaco sobre o assunto, também não posso deixar de achar tonta e irresponsável a actual decisão do governo. Se Cavaco não tinha razão na forma, tinha-a no conteúdo.

A gente que tomou conta do Partido Socialista, no entanto, está convicta de duas coisas: 1. de que podem afrontar todos os poderes instalados, desde que isso não ponha em causa os votos que poderão obter nas urnas. Neste caso, julgam que Cavaco é irrelevante; 2. que depois da sua majestosa passagem pelo governo, nada deve subsistir como estava, mesmo que o país se desagregue e ameace desaparecer.

Atenção, porém: nem Cavaco é irrelevante, nem a arrogância é boa conselheira e nem todos estamos interessados em ver destruir uma herança quase com mil anos. As pessoas começam a ficar cansadas desta gentinha.

Rabih Abou-Khalil - Ma Muse M'amuse

01/12/08

Primeiro de Dezembro


Agora está na moda ser iberista, ou pelo menos não ser contra a ideia. Eu confesso que gosto imenso de Espanha. Gosto mesmo das múltiplas espanhas que existem. Mas como não gosto nada do Zeitgeist, eu quero aqui prestar homenagem àqueles que se lembraram de defenestrar o Miguel de Vasconcelos e correr com os espanhóis de cá. Já estou velho para mudar de nacionalidade. Nasci português, para bem e talvez mais para o mal, que morra português. Apesar de republicano confesso, hoje bebo um copo em memória de D. João IV.

Estamos todos mais descansados

Imagem do Jumento
Noticia o Sol que, para o diário conservador espanhol El Mundo, o nosso primeiro-ministro, o eng.º Sócrates, é o sexto homem mais elegante do mundo. Depois dos ingleses terem eleito o nosso ministro das Finanças como o pior da União Europeia, todos nós sentimos uma recompensa com a brilhante distinção dado ao nosso chefe do governo. Em cosmética, de facto, nunca fomos tão maus quanto isso. Os portugueses, sem excepção, torcem por Sócrates. Para o ano será o mais elegante dos elegantes, mesmo que o país se arraste sem destino nem comando e ameace, ao nível da qualidade de vida dos cidadãos, cair para fora da Europa.

Vantagens

Também em relação às outras artes, o orador e a retórica têm, sem dúvida, a mesma vantagem: a retórica não tem necessidade de conhecer a realidade das coisas; basta-lhe uma certa técnica de persuasão que ela inventou para parecer, perante os ignorante, mais sábia do que os sábios. [Platão, Górgias, 459 b]