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05/09/11

Thomas Mann, Os Buddenbrook (2)


O romance permite, muitas vezes, associar o prazer estético da obra com uma certa aprendizagem sobre a dimensão social da vida humana. Não que o romance vise apreender e explicar o social, mas, ao tomá-lo como matéria romanesca, permite que o leitor compreenda certas realidades de uma forma mais viva que aquela que lhe é dada pelo estudo de um documento académico. Os Buddenbrook permite intuir a natureza da tradição burguesa da Europa central e do norte, de cariz protestante. O ethos burguês, uma coisa tão estranha à tradição peninsular, está ali desocultado na sua plenitude. O cálculo entre prudência e risco, a importância da empresa no seio da cidade, a piedade protestante são a matéria sobre a qual se constrói a intriga nuclear da acção romanesca. Para um europeu do Sul, tudo aquilo não deixa de ter um ar estranho e, fundamentalmente, ajuda-o a perceber a profunda reticência com que a Alemanha da senhora Merkel olha para nós. Mas, o mais curioso, aquilo que hoje se ouve acerca dos europeus meridionais, era a voz corrente nos alemães do norte acerca dos bávaros, seus irmãos do sul da Alemanha, como Thomas Mann não deixa de retratar em Os Buddenbrook. É como se houvesse, impregnado na mente da espécie humana, uma espécie de racismo geográfico, onde o Sul surge sempre como inferior ao Norte.

03/09/11

Thomas Mann, Os Buddenbrook



Estou a reler a primeira obra de Thomas Mann. Tinha-a lido há quase trinta anos (meu Deus, trinta anos...), na tradução de Herbert Caro, para os Livros do Brasil. Agora comprei a nova tradução, de Gilda Lopes Encarnação, para a Dom Quixote. Comecei a ler e já ultrapassei metade da obra. Duas notas. Não me lembrava praticamente de nada, tirando o pano de fundo da intriga, a ambiência de uma família burguesa, numa cidade alemã do século XIX. Foi como se a memória, ao fim deste tempo, tivesse reduzido a riqueza das peripécias e personagens a uma mera abstracção que, para sua comodidade, pode arquivar num pequeníssimo espaço. O deprimente é que isso não se passa apenas com a literatura. Todas as nossas experiências, exaltantes que tenham sido, jazem agora como meras abstracções num canto obscuro do cérebro. Mas essa é a natureza das coisas, nem vale a pena protestar.
Mas esta releitura tem-me feito pensar sobre o que é a grande literatura. Tinha tentado reler alguns romances de Hermann Hesse, de que gostara bastante. Foi um experiência decepcionante. Deixei-os todos de lado, ao fim de algumas páginas. O mesmo me aconteceu com um dos romances do Sartre que mais me marcou, A Idade da Razão. Quase no começo, constatei que já não tinha paciência. O tempo desses livros tinha passado definitivamente. Com Os Buddenbrook, pelo contrário, ainda existe avidez na leitura, embora seja uma avidez mais sensata e ponderada, mais observadora da técnica e da arte. O que são grandes livros? Aqueles que podemos reler.