Mostrar mensagens com a etiqueta Ler os outros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ler os outros. Mostrar todas as mensagens

23/02/10

Salvação



É bem lamentável que esta bela metáfora cristã, «a salvação», seja tão usada e por consequência tão desprezada. Tornou-se um insípido sinónimo de «piedade» e perdeu a sua significação profunda. A «salvação» ultrapassa, aliás, as simples conveniências morais. É um termo que implica um profundo respeito pela realidade metafísica do homem, reflecte o interesse que Deus lhe dá, o amor e o cuidado que Ele tem com o ser íntimo do homem, Seu filho, com tudo o que nele há de divino. Não é apenas a natureza humana que é «salva» pela misericórdia divina, mas sobretudo a pessoa humana. O objecto de salvação é único, insubstituível, incomunicável: é o si mesmo. E este verdadeiro eu interior deve ser retirado, como uma pérola, do fundo do mar, e salvo da confusão, da vacuidade, da imersão no que é vulgar, heteróclito, banal, sórdido, efémero. [Thomas Merton (1963). Semences de contemplation. Paris: Seuil, pp. 36/7]

14/02/10

Uma educação liberal


Raramente estou de acordo com o que escreve João Carlos Espada (JCE). Não é, porém, o caso de hoje. O seu artigo, Os grandes livros e a educação do carácter, no jornal i, toca no que é essencial na educação universitária. A universidade não pode ser aquilo em que se está a transformar. A educação universitária deve ser uma educação liberal. Liberal aqui deve ser entendido, como o próprio João Carlos Espada refere, como o era na Idade Média, em contraponto com a servidão. Nessa educação liberal o fundamental é a conversação e o contacto com as grandes obras, os clássicos, e também com grandes professores. A universidade deve servir para formar, como afirma Burke na citação feita por JCE, a aristocracia natural que existe em todos os povos. Iria mesmo mais longe, toda a educação deveria servir para formar o que há de naturalmente melhor em cada um dos indivíduos. Deste ponto de vista, toda a educação deve ser aristocrática. Embora, a partir de um certo grau de ensino comum, os percursos se devam diferenciar conforme as aptidões de cada um. Mas desde que uma criança entra na escola deve-se-lhe propor como horizonte o tirar de si aquilo que tem de melhor, seja uma vocação política, científica, técnica ou outra dentro do que é determinado como socialmente aceitável. Só esta educação, que é verdadeiramente uma educação do carácter através da aquisição de um currículo, pode tornar os homens livres e empreendedores. Só uma educação aristocrática é capaz de gerar respeito pelos valores da democracia. E é nisto que o Ocidente está a falhar, desde a escola básica à universidade. Em vez de homens livres, está a formar escravos. Escravos dos seus próprios desejos, já não habituados a uma satisfação diferida, como escravos dos outros a que se venderam por falta de carácter e incapacidade de resistir a si mesmos.

Uma nota final sobre a referência que JCE faz a Platão. Muitas vezes JCE, embora não tenha lido muito do que ele escreveu e possa estar a ser injusto, refere-se a Platão, na esteira de Popper, para o integrar nos advogados de regimes totalitários. Hoje, porém, escreveu algo de mais essencial e de menos anacrónico sobre o autor da República. «Mas seria com Platão e Aristóteles que a ideia de educação liberal viria a receber total consagração intelectual.» Eis uma afirmação com a qual estou plenamente de acordo. A educação dos homens livres é aquilo que visa a filosofia. Diria mais. Sem educação filosófica, não há educação livre nem para a liberdade.

10/12/09

Sebald - o meu avô



Hoje, porém, releio sempre as histórias do almanaque, provavelmente porque, como observou Benjamim, uma marca da sua perfeição é que facilmente as esquecemos. Mas não foi somente a etérea fugacidade da prosa de Hebel o que, ao cabo de um par de semanas, me levou a querer saber se o barbeiro de Segringen e o alfaiate de Pensa ainda existiam; o que me faz voltar constantemente a Hebel é também o facto, inteiramente fortuito, de o meu avô, cuja linguagem em muitos aspectos fazia lembrar a do amigo da casa, ter o hábito de comprar todos os anos um calendário Kempten no qual anotava, a lápis de tinta, os dias da festa onomástica de parentes e amigos, a primeira geada, o primeiro nevão, a irrupção do föhn, as trovoadas, granizos e similares, bem como, nas páginas para notas, uma qualquer receita para o fabrico de vermute ou de aguardente de genciana. [W. G. Sebald (2009). O Caminhante Solitário. Lisboa: Editorial Teorema, pp. 12]
-------------
Volto a um dos meus autores preferidos, W. G. Sebald. Esta minha preferência talvez se deva à partilha do seu culto pela memória. Educado filosoficamente numa tradição que vai da reminiscência platónica à rememoração de Ricoeur, passando pela memória como presente do passado, de Agostinho de Hipona, com o passar dos anos, e o crescimento inusitado das memórias, fui ficando cada vez mais sensível aos exercícios mnésicos na literatura, chegando a pensar, muitas vezes, que toda a literatura não é outra coisa senão um imenso exercício memorial.

O meu culto de Sebald, porém, não se deve apenas a essa atenção comum à memória. Deve-se à destreza como ele convoca e entrelaça as memórias para narrar uma história, uma história que, sendo-me absolutamente estranha, parece ser a minha história. Neste pequeno excerto, Sebald começa por falar nas histórias de almanaque de Johann Peter Hebel (1760-1826), um dos grandes escritores de língua alemã, famoso precisamente por essas histórias, mas logo deriva para a memória do seu avô, dos seus gestos e da forma como regulava o mundo.

Eu, que nunca tive um avô, pois morreram ambos muitos anos antes de eu nascer, vejo-me a recordar esse avô que não tive, e recordo-me dele a anotar o seu calendário, talvez uma vulgar agenda, a anotar os dias de aniversário de filhos e netos, os acontecimentos climáticos significativos, o dia que nevou, ou aquele em que o fogo devastou o pinhal à saída da aldeia. Chego a vê-lo a consultar as suas anotações sobre receitas de aguardentes e licores. Sei bem que toda esta recordação é imaginada, mas só em parte. Conheci várias pessoas que faziam algumas daquelas coisas que regulavam a vida do avô de Sebald, mas a história que o escritor me conta permitiu sintetizá-las numa única figura, aquela que nunca conheci, o meu avô. E este meu avô comove-me, como se tivesse existido e me tivesse passeado e mostrado as estrelas e os campos. Um grande escritor é aquele que me faz ter o avô que nunca tive.

13/11/09

Luís Campos e Cunha - O horror à decência



E a anarquia, quase geral em que vive o ensino secundário, tem horror ao Colégio Militar, obviamente. Aliás, a verdade é mais funda: a anarquia quase geral da nossa sociedade tem horror à instituição militar. Uma instituição organizada, como a militar, que cultiva os valores da honra, da camaradagem, da disciplina e do dever para com a pátria, não pode ser bem vista pela sociedade actual. A nossa vida colectiva -a civil - privilegia o oportunismo, habituou-se aos casos de corrupção (com ou sem fundamento), tem uma imprensa virada para o escândalo e uma televisão com novelas que são difusoras da falta valores e da ausência dos bons costumes. O Colégio Militar poderá acabar mas as razões estão na nossa sociedade e não dentro dos muros do Colégio. O horror à decência é dos indecentes.

26/09/09

Vasco Pulido Valente - A música dos deuses


Para ler na íntegra e meditar. Mais importante do que a reflexão sobre a opção de amanhã, é a reflexão sobre isto: A procissão dos deuses que, tocando e cantando, deixaram António já se ouve - ao longe, no Ocidente inteiro. Ao pé disto, o acto da amanhã é apenas um pormenor ridículo e insensato. Ridículo na sua dimensão, insensato na impotência que a cegueira dos actores promove. Ganhe quem ganhar em Portugal ou na Alemanha, nada fará retornar a procissão dos deuses.

03/08/09

M. S. Lourenço - Ideologia igualitarista

Na minha experiência, um aluno que incorreu num disparate representou sempre para mim uma oportunidade de crescimento e não uma perda. Um aluno aprende ao ser-lhe mostrado o erro: a sua concentração aumenta, a sua atenção tem um foco e, em geral, erros que são corrigidos a tempo não são repetidos.

Estou a pressupor um caso padrão, de um aluno com uma inteligência média ou acima da média. Infelizmente, tive alguns alunos com uma inteligência abaixo da média, para os quais a situação de erro era tida como uma situação de pânico. Estes alunos são vítimas da ideologia igualitarista, segundo o qual todas as pessoas são igualmente inteligentes e tornam-se às vezes agressivos contra a disciplina quando descobrem que são menos inteligentes do que alguns dos seus colegas. Tentei travar a agressividade procurando mostrar que não é a disciplina que está errada mas antes a ideologia igualitarista. É do ponto de vista psicológico no entanto interessante constatar que algumas daquelas pessoas, que viveram na pele o erro da ideologia igualitarista, não a consideram por isso refutada e continuam a insurgir-se contra a disciplina.
[Pedro Tamen (2007). Uma entrevista a M. S. Lourenço]

M. S. Lourenço - O sentido da vida

Para voltar ao problema de base, a questão a colocar é a seguinte: Qual é a ideia de Brouwer que eu adoptei e fiz dela um factor de orientação para a minha vida?

A ideia básica é que neste momento da história da humanidade já se atingiu um estádio de hipertrofia de interacção social. Não se deve por isso colaborar numa expansão desta hipertrofia, a qual se destina a legitimar os objectivos triviais da civilização de massas. Deve-se por isso renunciar a posições de leadership na já descontrolada hipertrofia da civilização de massas, exercendo a mencionada abstinência de participação em cliques ou lobbies, quaisquer que eles sejam.

Sigo assim Spengler, Brouwer e Wittgenstein na convicção de que o nível de entropia na cultura actual, e o seu consequente processo de desintegração, é neste momento irreversível e que a explosão demográfica, a sobreprodução industrial e científica e a exploração criminosa da natureza atingiram as próprias condições físicas da sobrevivência no planeta. Assim a humanidade, depois da sua morte espiritual pelas mãos da indústria da cultura, terá a sua morte física pela impossibilidade de viver no planeta, e por isso a sua escatologia vai ser em tudo igual à de uma colónia de bactérias que desaparece da face da terra depois de cumprir um limitado ciclo de vida
. [Miguel Tamen (2007). Uma entrevista a M. S. Lourenço]

20/07/09

Raymond Aron - Intelectuais

Neste debate, Kautsky permanecia no campo do profetismo e acreditava (provavelmente bem) ser fiel ao ensino de Fr. Engels. O argumento maior contra os sindicalistas, contra os revisionistas, aquele que dá boa consciência aos socialistas cada vez que agem contra a vontade aparente do grande número, é Kautsky que o formula, antes que Lenine, no Que Fazer?, tenha dele feito o fundamento do bolchevismo: abandonados a eles mesmos, os operários não ultrapassam o trade-unionismo, aspiram à melhoria da sua condição, hic et nunc, não tomam consciência do seu dever relativamente à humanidade, a saber a destruição do capitalismo e a edificação do socialismo, da sociedade sem classes. Quem recordará aos operários o seu destino? Quem guarda a consciência da missão histórica do proletariado contra as tentações de aburguesamento? Os intelectuais. Doutrina de intelectuais, o marxismo seduz os intelectuais devido ao papel histórico que ele lhes confia e pelo qual ele os engrandece aos seus próprios olhos. Os intelectuais vão ao proletariado para o guiar, não para se instruir na sua escola. [Raymond Aron (1977), Plaidoyer pour l'Europe Décadente. Paris: Robert Laffont, pp. 51]

10/07/09

Argumentos de autoridade

Por que razão será tudo tão mau em Portugal? Como é notório, sou um leitor atento e interessado no que escreve Vasco Pulido Valente. Mas a crónica de hoje no Público (sem link) é um exemplo da nulidade da opinião. Esta nulidade nem vem da matéria em questão, mas da forma como é apresentada. Trata da direita em Portugal e do mérito do CDS. O artigo apresenta quatro razões para o facto de a direita, neste caso o CDS, ser relativamente fraca em Portugal (1.ª - a falta de legitimidade democrática dos seus fundadores; 2.ª O não ter entrado nos governos provisórios pós-25 de Abril; 3.ª A passividade e o oportunismo que a ditadura incutiu na direita; 4.ª O carácter miserável e inigualitário do país ser adverso à direita. Até aqui tudo, apesar de discutível, é compreensível. O que é incompreensível é o corolário final. Cito: "Só que os tempos mudam e o CDS merece crescer. Esperemos que Paulo Portas consiga o improvável." VPV não apresenta um único argumento em que fundamente esta conclusão final. Explica a falta de mérito originário do CDS, mas não mais do que isso. Relativamente ao suposto mérito do CDS, apenas fornece um hipotético argumento: os tempos mudam. O facto de os tempos mudarem não justifica nada, nem o merecimento do CDS crescer nem o seu contrário. Isto não é sério. É apenas a expressão de um desejo, o que é uma característica do género literário a que chamamos "opinião". No entanto, faz parte da retórica desse género a apresentação de razões que justifiquem os nossos desejos apresentados como teses razoáveis. E VPV não o faz. A sua tese funda-se apenas na autoridade que ele próprio representa, portanto uma falácia. Isto não respeita os leitores.

29/06/09

Slavoj Zizek - Irão em decomposição

Quando um regime autoritário se aproxima de sua crise final, sua dissolução, via de regra, se dá em dois passos. Antes de seu desabamento de fato, ocorre uma ruptura misteriosa: de repente, as pessoas sabem que o jogo já chegou ao fim e simplesmente deixam de sentir medo. Não é apenas que o regime perde sua legitimidade, mas seu próprio exercício do poder é visto como reacção importante de pânico.

Em "Shah of Shahs" [Xá dos Xás], um relato clássico da revolução de Khomeini, Ryszard Kapuscinski localizou o momento preciso dessa ruptura: numa encruzilhada em Teerã, um manifestante isolado se negou a sair do lugar quando um policial lhe ordenou aos gritos que saísse. O policial, constrangido, simplesmente se afastou. Em poucas horas, Teerã inteira já sabia do incidente, e, embora os enfrentamentos nas ruas tenham continuado por semanas, todo mundo já sabia que a partida chegara ao fim. Estará algo semelhante acontecendo agora?

Fatos e versões

Há muitas versões sobre os acontecimentos em Teerã. Alguns enxergam nos protestos a culminação do "movimento reformista" pró-ocidental, na linha das revoluções "cor de laranja" na Ucrânia, na Geórgia etc. -ou seja, uma reacção secular à revolução de Khomeini. Eles apoiam os protestos, que vêem como o primeiro passo em direcção a um novo Irã liberal-democrático, liberto do fundamentalismo muçulmano.

Contra eles se erguem os cépticos que pensam que Ahmadinejad venceu de fato: ele seria a voz da maioria, enquanto o apoio ao candidato reformista derrotado Mir Hossein Mousavi viria sobretudo da classe média e de sua juventude dourada. E há os que vêem em Mousavi nada mais do que um membro do establishment dos clérigos, cujas diferenças com Ahmadinejad são apenas superficiais: Mousavi também quer levar adiante o programa de energia atómica, é contra o reconhecimento de Israel e teve o pleno apoio de Khomeini quando foi primeiro-ministro nos anos da guerra contra o Iraque.

Finalmente, os mais lamentáveis de todos são os defensores esquerdistas de Ahmadinejad: para eles, o que realmente está em jogo é a independência iraniana. Ahmadinejad teria vencido porque defendeu a independência do país, expôs a corrupção das elites e usou a riqueza petrolífera para incrementar a renda da maioria pobre.

Essa visão ignora os fatos, a saber: o alto índice de participação na eleição, que dos 55% de praxe subiu para 85%, só pode ser explicado como um voto de protesto. E também manifesta uma cegueira em relação a uma demonstração genuína de vontade popular, ao pressupor, de maneira paternalista, que Ahmadinejad é o presidente que convém aos atrasados iranianos, que ainda não teriam maturidade suficiente para serem governados por uma esquerda secular.

Por mais que se oponham, todas essas versões interpretam os protestos iranianos segundo o eixo de linha-dura islâmica versus reformistas liberais pró-ocidentais. E é por isso que elas têm tanta dificuldade em situar Mousavi: ele seria um reformista que tem o apoio do Ocidente e procura mais liberdade pessoal e economia de mercado ou é um membro do establishment clerical cuja eventual vitória não afectaria seriamente a natureza do regime?

Tais oscilações extremas revelam que todas essas versões deixam de captar a verdadeira natureza dos protestos. A cor verde adoptada pelos partidários de Mousavi, os gritos de "Allahu Akbar!" que ressoam dos telhados de Teerã no escuro da noite indicam claramente que os manifestantes enxergam sua actividade como repetição da revolução de 1979 de Khomeini, como um retorno às raízes dela, desfazendo sua corrupção posterior.

Esse retorno às raízes não é apenas programático; ele diz respeito, mais ainda, ao modo de actividade das multidões: a enfática união das pessoas, sua solidariedade abrangente, a auto-organização criativa, a improvisação de maneiras de articular o protesto, o misto singular de espontaneidade e disciplina, como a marcha lúgubre de milhares de pessoas em silêncio total. Estamos diante de um levante popular genuíno dos partidários iludidos da revolução de Khomeini.

Não herói, mas corrupto

Há duas consequências cruciais. Para começar, Ahmadinejad não é o herói dos pobres islâmicos, mas, sim, um legítimo populista islamo-fascista corrompido. Sua demagógica distribuição de migalhas aos pobres não nos deve enganar: por trás dele estão não apenas órgãos de repressão policial e um aparato de relações públicas muito ocidentalizado, mas também uma nova e forte classe rica, fruto da corrupção do regime.

Em segundo lugar, devemos traçar uma diferença nítida entre os dois principais candidatos opostos a Ahmadinejad, Mehdi Karoubi e Mousavi. Karoubi é de facto um reformista, alguém que propõe basicamente a versão iraniana de política de identidade, prometendo favores a todos os grupos distintos. Mousavi é inteiramente diferente: seu nome representa o genuíno renascimento do sonho popular que fundamentou a revolução de Khomeini. Mesmo que esse sonho tenha sido uma utopia, devemos reconhecer nele a genuína utopia da própria revolução.

O que isso quer dizer é que a revolução de Khomeini de 1979 não pode ser reduzida a uma tomada do poder pela linha-dura islâmica -ela foi muito mais que isso. Agora é o momento de recordarmos a incrível efervescência do primeiro ano após a revolução, com a explosão estarrecedora de criatividade política e social, experimentos organizacionais e debates entre estudantes e cidadãos comuns.

E em último lugar, mas não menos importante, o que isso significa é que existe no islã um potencial libertador genuíno.

Emancipação

O futuro é incerto. Mas, seja qual for o resultado, é muito importante guardarmos em mente que estamos assistindo a um grande acontecimento de emancipação que não se enquadra no contexto da luta entre progressistas pró-ocidentais e fundamentalistas antiocidentais.

Se nosso pragmatismo cínico nos fizer perder a capacidade de reconhecer essa dimensão emancipacionista, então nós, no Ocidente, estaremos de fato ingressando numa era pós-democrática e nos preparando para os nossos próprios Ahmadinejads. [Folha de São Paulo (sem link), 28 de Junho de 2009, Tradução de Clara Allain.]

27/06/09

Isabel Hormigo - Exames ou trivialidades?

Olhando para muitos dos exames actuais, há quem diga que as perguntas são hoje mais fáceis do que o eram há dez ou 20 anos. Praticamente todos estão de acordo neste ponto, excepto algumas pessoas que têm responsabilidades no sistema educativo e que têm estado envolvidas nas sucessivas reformas do ensino. Existe uma contradição curiosa: umas vezes diz-se que o "quadro cognitivo" se tornou diferente com o acesso de todos à educação e que, por isso, não se pode ser hoje tão exigente como antigamente se era. Outras vezes diz-se que o ensino actual é mais avançado e exigente, pois se pede aos estudantes uma atitude interpretativa e crítica, e não a memorização de factos ou a capacidade de cálculo.A realidade é que, sem conhecer factos e sem capacidade de cálculo, não se sabe como se pode ter uma atitude interpretativa e crítica. E a realidade também é que basta abrir algumas provas de há 20 anos e algumas actuais para ficarmos preocupados. Seria bom conhecer melhor em que medida o nível de exigência dos exames se degradou, se é que, como julgamos, se degradou de facto continuamente. Mas para isso seria necessário um estudo comparativo sério, que não se conhece. Não negando uma evolução dos exames, que acompanhou alguma evolução dos programas e dos tempos e nos trouxe tópicos mais actuais e contextos mais modernos, há traços muito preocupantes nas provas actuais. O primeiro é o seu diminuto grau de exigência. O segundo é a insistência infantilizante na contextualização, que é inimiga da capacidade de abstracção. O terceiro é a trivialidade extrema dos cálculos e procedimentos testados. Os últimos exames de Matemática do 9.º ano aproximam-se perigosamente de ser apenas testes que basta ter bom senso para resolver e em que a matemática se reduz a banalidades.Vivemos num mundo moderno que não se compadece com a ignorância técnica e com a incompetência. Quem compete com os jovens que estamos a educar são os da Europa, da Ásia e de todo o mundo. A educação é fundamental para o nosso desenvolvimento e a matemática uma alavanca decisiva desse progresso. Não podemos continuar prisioneiros de ideias pedagógicas retrógradas que atrasam o nosso ensino. Há a tentação de pensar que temos à nossa frente todo o tempo do mundo. Não o temos. Todos os anos, meses e dias que se percam na educação são décadas de atraso do país. Não vale a pena fingir. [Público, de hoje]

13/06/09

Homens célebres

Para começar o dia, ir até ao Portugal dos Pequeninos e ler este texto de Fernando Pessoa dedicado aos dias de hoje, que já eram o seus dias.

15/05/09

Luís Campos e Cunha - Bela Vista, sem dúvida

São também responsáveis os muitos responsáveis da educação deste país. A primeira vez que se preocuparam verdadeiramente com o ensino pré-escolar foi com o governo Guterres. Sem pré-primária os filhos de imigrantes, portugueses de pleno direito, não conseguem ter sucesso escolar e a marginalidade é imediata. Os pais estão muitas vezes ausentes, porque são bons trabalhadores, mas não falam um português correcto e o insucesso escolar dos filhos é fatal e inevitável.

Por outro lado, a educação passou a ser neutra em valores. Não deu quadros morais de referência que permitissem distinguir o essencial do acessório. Na televisão uma senhora queixava-se da falta de apoios sociais. Mas já tinha um apartamento dado pela Câmara, a casa estava descuidada e desarrumada (de quem era a culpa?), e tinha duas grandes motas estacionadas na sala! Prioridades de quem tem os valores de pernas para o ar.

Também não é claro que a abordagem no ensino fosse a correcta: estes delinquentes certamente começaram por roubar uma insignificância qualquer a um colega e não foram punidos de forma equivalente. Falou-se com eles ou fechou-se os olhos para não os traumatizar e, com isso, deu-se a ideia de que a malvadez compensa. Roubar passou a ser permitido aos 7 anos e dez anos mais tarde temos as quadrilhas que temos.

A justiça, cada vez mais injusta, deixou de actuar em tempo e afastou o castigo do crime. Ou seja, não desincentivou actos ilegais e confirmou a (falta de) educação que receberam.

Mas há mais responsáveis: ministros da defesa. Há uns anos, sem se medirem as consequências, acabou-se com o serviço militar obrigatório (SMO). Primeiro, esta medida foi vista como uma medida de esquerda e foi uma grande conquista das "jotas" dos partidos; no entanto, o SMO foi, historicamente, uma conquista da esquerda para evitar as guardas pretorianas. Quem não conhece a história faz destas coisas. Segundo, o SMO obrigava os recrutas a viverem um ano com regras estritas, com responsabilização e com punições imediatas correspondentes para os prevaricadores. Terceiro, as Forças Armadas eram a melhor escola de formação profissional. Ninguém saía sem um ofício e aprendia a viver com regras. O SMO poderia ser dispendioso mas uma análise social custo-benefício deveria amplamente justificar esses custos.

Sem ensino pré-primário, uma escola sem moral, uma ideologia de facilitismo e de irresponsabilidade, bairros sociais que são guetos, integração social e moral impossível e uma sociedade avessa a impor valores, conduziram a esta situação socialmente explosiva. E para percebermos o que se passa, nem falei da Crise. Neste caso não há crise, há uma catástrofe social cozinhada em lume brando nos últimos 30 anos da nossa política.

A polícia pode resolver este caso mas nunca ela poderá resolver o problema. Resolver o problema passaria por reconhecer os erros que os políticos que têm estado no poder não reconhecem. Seria exigir o impossível. O Bairro da Bela Vista é, de facto, uma bela vista sobre a nossa sociedade.
[Luís Campos e Cunha, Público de 15 de Maio de 2009]

15/03/09

Vasco Pulido Valente - O Estado paga e o povo pasma

Clique na imagem para aumentar (crónica no Público, de hoje)

11/03/09

Manuel António Pina - Ainda a "educação"

O conflito aberto do actual ME não só com os professores mas também com a língua portuguesa não é apenas sintoma da incultura e do "porreirismo pá", terreno propício à arrogância e à pesporrência, por ali dominantes. É sintoma de algo mais grave, e estrutural, pois dir-se-ia previsível que, num ministério da "educação" cujas políticas perderam de vista quaisquer objectivos de "instrução", substituídos por aquilo que, em eduquês padrão, é designado por formulações obtusas como "aprender a aprender" ou "desenvolvimento de competências", sejam inteiramente irrelevantes práticas ou pessoas instruídas.

Mesmo que, por hipótese, fosse possível organizar (sob os auspícios, sei lá, das Novas Oportunidades) uma Conferência de Paz entre a responsável da DREN ou o secretário de Estado Valter Lemos (aquele das propostas "colocadas 'de' cima da mesa") e a Gramática, ou entre o "Magalhães" e a Ortografia, o problema central manter-se-ia. No actual estado de coisas, o cínico ditado segundo o qual "quem não sabe fazer ensina", deve, mais apropriadamente, ser substituído por "quem não sabe ensinar 'educa'" [Jornal de Notícias, 11 de Março de 2009].

27/02/09

Carlos Abreu Amorim - Hino ao relativismo

A ministra inglesa das Crianças, Beverley Hughes, elaborou um panfleto que visa orientar as conversas sobre sexo entre pais e filhos. Trata-se de mais um marco na ingerência do Estado na função educacional das famílias.


O documento exorta os pais a não imprimirem nos filhos a distinção entre o bem e o mal no plano sexual. Os menores deverão formar os seus juízos sem intervenção parental: o contexto social e, sobretudo, o Estado encarregar-se-ão disso. Os pais poderão ter conversas ‘light’ sobre o tema mas nada de quererem transmitir valores e virtudes ou de traçar cenários incómodos face a opções que se sabem erradas.


Ou seja, o Governo trabalhista inglês quer que os pais deixem de o ser – só geram os filhos que, depois, ficam ao ‘Estado dará’. [Correio da Manhã, 25/02/09]

17/02/09

Nuno Pacheco (Público de 17/02/09) - Ela devia estar viva, ele podia estar livre

Ahmad vai ficar preso para o resto da vida por ter tirado o resto da vida à irmã. Ele tem 23 anos, ela tinha apenas 16. Ambos demasiado jovens para tal drama e, no entanto, tanto ele como ela são a face visível de um problema maior: o dos chamados "crimes de honra" em nome da família, frequentes em certos meios islâmicos.

As fotos que acompanhavam a notícia da sentença, nas agências, mostravam, além do ar vago e algo comprometido do réu, a reacção colérica do pai, atirando pelos ares as velas que tinham sido colocadas à porta do tribunal, com a cara da filha e em sua memória. Como se a injustiça fosse apenas a da sentença, ao tirar-lhe um filho depois de perder outro. "O mundo em que ele vive não é o nosso. É um mundo em que a honra da família vale mais do que a vida de uma pessoa", disse no tribunal o procurador Boris Bochnick. E, na verdade, é nesse pressuposto que a família Obeidi, de origens afegãs, viveu e vive na Alemanha de hoje.

Morsal, a vítima, não exigia nada de muito extravagante. Nascida no Afeganistão, queria apenas poder viver como as jovens alemãs da sua idade. A revista Der Spiegel, que após o crime foi no encalço da sua história, descobriu uma guerra familiar que já vinha de longe, com discussões, espancamentos e intervenção dos serviços sociais.

Depois da escola, onde convivia com estudantes de 18 países, Morsal costumava reunir-se com os amigos num local que a família não considerava recomendável. Um local "onde se podia fumar, ouvir música e ocasionalmente beber álcool", como se escrevia na Spiegel de 25 de Agosto de 2008, num longo artigo intitulado O elevado preço da liberdade. Morsal gostava de hip-hop, pop afegã e chamava a atenção dos rapazes. Um pesadelo para a família.

Família que, no entanto, não era sequer considerada das mais tradicionalistas. Simplesmente, não pactuava com a visão do mundo que era já a de Morsal. E que incluía calças justas, maquilhagem e cabelo das mulheres a descoberto. No meio das desavenças, tentaram um truque: enviaram-na para o Afeganistão, para se "regenerar". Não resultou. No regresso, o pai (nas palavras da Spiegel) esperava uma filha diferente e esta um pai diferente. "Ficaram ambos decepcionados." Até que, certa noite, o irmão (que tinha antecedentes criminais, de violência juvenil) a atraiu, com a ajuda de um primo, a uma estação de autocarros e a apunhalou vinte vezes. Até ferir o antebraço.

Ahmad, diz, "amava" a irmã. Ela temia-o, mas, juntos, temiam ainda mais o pai, um antigo soldado afegão treinado pelos soviéticos e imigrado na Alemanha desde 1992. A "honra" da família fê-lo perder dois filhos. Ela devia estar viva, ele podia estar livre. Isto se a tradição medieval a que tantos ainda se submetem passasse a ser, apenas, uma vaga recordação do passado.