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30/09/09

Novembro 2005: Crónica no Jornal Torrejano

Agora que estamos metidos nisto, não há nada como revisitar o passado. Nos finais de Novembro de 2005, ainda Cavaco não tinha sido eleito e este blogue não existia, escrevi no Jornal Torrejano, a crónica que segue:

Cavaco Silva falou…


Parece que o antecipadamente eleito Presidente da República começou a ter algumas ideias e vontade de as partilhar connosco. Depois de tanto silêncio, o Professor Cavaco começou a achar que um Presidente da República é mais do que um moderador da vida política. Pensa que pode ser um agente de desenvolvimento. Fiquei perplexo: os agentes de desenvolvimento não são a sociedade civil com a sua iniciativa e o governo com a sua política legislativa? Irá Cavaco, enquanto futuro Presidente da República, tornar-se, ao mesmo tempo, investidor, fundar empresas e criar riqueza para desenvolver o país? Nunca se lhe conheceu propensão para ser empresário e correr riscos, portanto não será isso que ele pretende.

Ora se não é isso, a única maneira de ser agente de desenvolvimento é interferir na vida da governação do país. É isto que me deixa perplexo. A legitimidade da governação cabe aos governos eleitos e não ao Presidente da República. Cogitemos que o Presidente da República entende, enquanto agente de desenvolvimento, desenvolver de uma determinada forma, mas o governo eleito, mandatado pelo portugueses para governar, acha que o desenvolvimento se deverá fazer de forma oposta.

Já imaginaram o bonito sarilho que as ideias do Professor Cavaco Silva podem provocar no nosso depauperado país? Dizer que um Presidente deve ser agente de desenvolvimento, no nosso sistema constitucional, pode ser o pontapé de saída para um conflito insanável em torno da governação. Esse conflito assentará no confronto entre duas maiorias – a governativa e a presidencial – que, possuindo legitimidade própria, embora para funções distintas, podem ser alavanca de conflitos muito sérios em Portugal. Será para isto que queremos eleger um Presidente da República?

Mas a minha perplexidade não fica por aqui. Se Cavaco Silva queria tanto ser agente de desenvolvimento, por que abandonou a governação? E quais os motivos que o levaram a não desenvolver o país quando era Primeiro-Ministro? E que motivos, com duas maiorias absolutas, o levaram a não tomar as decisões reformistas que Portugal, já na altura, tanto necessitava? E a magna questão da função pública, por que a criou ele? Não foi ele que deixou, para os futuros governos, uma situação completamente armadilhada? Não foi ele também que permitiu a proliferação indiscriminada de Universidades Privadas e de Institutos Politécnicos, cujo resultado é a baixa qualidade do ensino universitário e 60 000 licenciados no desemprego? E não foi ele que instituiu a Reforma Roberto Carneiro, que o actual governo segue religiosamente, e que destruiu o que restava de qualidade na escola portuguesa?

Cavaco Silva não pode falar. Pode fingir que fala. Mas sempre que deixar transparecer o que lhe vai na alma, os portugueses têm o súbito vislumbre de que podem estar a meter-se num grande sarilho.

26/09/09

Vasco Pulido Valente - A música dos deuses


Para ler na íntegra e meditar. Mais importante do que a reflexão sobre a opção de amanhã, é a reflexão sobre isto: A procissão dos deuses que, tocando e cantando, deixaram António já se ouve - ao longe, no Ocidente inteiro. Ao pé disto, o acto da amanhã é apenas um pormenor ridículo e insensato. Ridículo na sua dimensão, insensato na impotência que a cegueira dos actores promove. Ganhe quem ganhar em Portugal ou na Alemanha, nada fará retornar a procissão dos deuses.

15/05/09

Luís Campos e Cunha - Bela Vista, sem dúvida

São também responsáveis os muitos responsáveis da educação deste país. A primeira vez que se preocuparam verdadeiramente com o ensino pré-escolar foi com o governo Guterres. Sem pré-primária os filhos de imigrantes, portugueses de pleno direito, não conseguem ter sucesso escolar e a marginalidade é imediata. Os pais estão muitas vezes ausentes, porque são bons trabalhadores, mas não falam um português correcto e o insucesso escolar dos filhos é fatal e inevitável.

Por outro lado, a educação passou a ser neutra em valores. Não deu quadros morais de referência que permitissem distinguir o essencial do acessório. Na televisão uma senhora queixava-se da falta de apoios sociais. Mas já tinha um apartamento dado pela Câmara, a casa estava descuidada e desarrumada (de quem era a culpa?), e tinha duas grandes motas estacionadas na sala! Prioridades de quem tem os valores de pernas para o ar.

Também não é claro que a abordagem no ensino fosse a correcta: estes delinquentes certamente começaram por roubar uma insignificância qualquer a um colega e não foram punidos de forma equivalente. Falou-se com eles ou fechou-se os olhos para não os traumatizar e, com isso, deu-se a ideia de que a malvadez compensa. Roubar passou a ser permitido aos 7 anos e dez anos mais tarde temos as quadrilhas que temos.

A justiça, cada vez mais injusta, deixou de actuar em tempo e afastou o castigo do crime. Ou seja, não desincentivou actos ilegais e confirmou a (falta de) educação que receberam.

Mas há mais responsáveis: ministros da defesa. Há uns anos, sem se medirem as consequências, acabou-se com o serviço militar obrigatório (SMO). Primeiro, esta medida foi vista como uma medida de esquerda e foi uma grande conquista das "jotas" dos partidos; no entanto, o SMO foi, historicamente, uma conquista da esquerda para evitar as guardas pretorianas. Quem não conhece a história faz destas coisas. Segundo, o SMO obrigava os recrutas a viverem um ano com regras estritas, com responsabilização e com punições imediatas correspondentes para os prevaricadores. Terceiro, as Forças Armadas eram a melhor escola de formação profissional. Ninguém saía sem um ofício e aprendia a viver com regras. O SMO poderia ser dispendioso mas uma análise social custo-benefício deveria amplamente justificar esses custos.

Sem ensino pré-primário, uma escola sem moral, uma ideologia de facilitismo e de irresponsabilidade, bairros sociais que são guetos, integração social e moral impossível e uma sociedade avessa a impor valores, conduziram a esta situação socialmente explosiva. E para percebermos o que se passa, nem falei da Crise. Neste caso não há crise, há uma catástrofe social cozinhada em lume brando nos últimos 30 anos da nossa política.

A polícia pode resolver este caso mas nunca ela poderá resolver o problema. Resolver o problema passaria por reconhecer os erros que os políticos que têm estado no poder não reconhecem. Seria exigir o impossível. O Bairro da Bela Vista é, de facto, uma bela vista sobre a nossa sociedade.
[Luís Campos e Cunha, Público de 15 de Maio de 2009]

14/05/09

João Aguiar - Os perdigogos

(clicar na imagem para ler)

O ZR enviou-me isto, e eu não resisti a republicar aqui. Foi mais forte, mas os perdigogos têm tanto poder e fazem tão mal, que nunca é demais mostrar a insanidade que alimenta a educação em Portugal.

15/03/09

Vasco Pulido Valente - O Estado paga e o povo pasma

Clique na imagem para aumentar (crónica no Público, de hoje)

12/03/09

Afinal, não haverá pré-socráticos


Completam-se quatro anos de governação de José Sócrates. Republicamos o artigos que, na altura da tomada de posse, escrevemos no Jornal Torrejano. É um exercício curioso.

Haverá pré-socráticos?

Foi apresentado o governo de Sócrates e, como era de esperar, rapidamente se percebeu que não houve nenhuma maioria de esquerda nas últimas eleições. O PS ganhou ao centro e formou um governo de centro-esquerda. Quem estava à espera de um hipotético carnaval baseado na demagogia folclórica e na irresponsabilidade reivindicativa sofreu uma desilusão. O novo primeiro-ministro teve, após a vitória eleitoral, duas novas vitórias: deu credibilidade à formação do seu governo e formou-o com uma forte imagem de coesão e reformismo.

Dos ministros escolhidos, ressalta uma mensagem de responsabilidade e de interesse em enfrentar as dificuldades do país. Boas notícias são Campos e Cunha nas Finanças e Manuel Pinho na Economia. Dois homens que vêm de fora do PS com uma imagem de grande rigor. O retorno de Mariano Gago à Ciência e Tecnologia e de Correia de Campos à Saúde são também excelentes notícias. Freitas do Amaral carimba a matriz centrista do governo. Na Educação, há, pelo menos, uma boa notícia: nem Ana Benavente, nem Santos Silva vão tutelar a pasta. Esperemos que a nova ministra seja insensível à demagogia e irresponsabilidade daqueles que estão empenhados em prosseguir o caminho de destruição do sistema educativo português.

Aquilo que, todavia, espera o novo governo parece ser mais um trabalho para Hércules do que para Sócrates. Equilibrar as Finanças, endireitar a Segurança Social, reformar a Saúde, a Administração Pública e a Justiça, desenvolver e modernizar a Economia, pôr ordem na Educação. Em todas estas áreas movem-se poderosos interesses e existem fortes obstáculos. Muitas das medidas a tomar terão custos sociais e serão contestadas, no Parlamento, por todas as oposições e na rua pelo PCP e pelo BE. O caminho de Sócrates, como o do Céu, é estreito, mesmo muito estreito. Pede-se-lhe que faça aquilo que nenhum primeiro-ministro, antes dele, fez: cortar nos privilégios instalados, fomentar o reformismo inovador, equilibrar e dar coesão à comunidade nacional. Que seja ao mesmo tempo liberal na economia e social-democrata na concepção da comunidade política.

Ora, se fugir das reformas, como o fizeram Cavaco e Guterres, perderá as próximas eleições sem honra nem glória e deixará o país num pântano ainda maior do que o actual. Se tiver coragem, se enfrentar com decisão os problemas, muito provavelmente perderá na mesma as próximas eleições, mas perderá com honra e deixará um país com futuro aberto à sua frente. E poderá acontecer que os eleitores percebam o que fez.

A Sócrates pede-se-lhe uma inteligência de Aristóteles e uma força de Hércules. Se as tiver, então um dia, quando se estudar a vida política da III República, falar-se-á em Sócrates e em pré-socráticos. Caso contrário, o socratismo não terá sido mais do que um sofístico equívoco.
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Mais logo, talvez se faça um balanço e leitura destas expectativas. O tempo não deixa de ser um grande escultor: ensinou-nos que, afinal, este Sócrates não passava de um mero sofista.

11/03/09

Manuel António Pina - Ainda a "educação"

O conflito aberto do actual ME não só com os professores mas também com a língua portuguesa não é apenas sintoma da incultura e do "porreirismo pá", terreno propício à arrogância e à pesporrência, por ali dominantes. É sintoma de algo mais grave, e estrutural, pois dir-se-ia previsível que, num ministério da "educação" cujas políticas perderam de vista quaisquer objectivos de "instrução", substituídos por aquilo que, em eduquês padrão, é designado por formulações obtusas como "aprender a aprender" ou "desenvolvimento de competências", sejam inteiramente irrelevantes práticas ou pessoas instruídas.

Mesmo que, por hipótese, fosse possível organizar (sob os auspícios, sei lá, das Novas Oportunidades) uma Conferência de Paz entre a responsável da DREN ou o secretário de Estado Valter Lemos (aquele das propostas "colocadas 'de' cima da mesa") e a Gramática, ou entre o "Magalhães" e a Ortografia, o problema central manter-se-ia. No actual estado de coisas, o cínico ditado segundo o qual "quem não sabe fazer ensina", deve, mais apropriadamente, ser substituído por "quem não sabe ensinar 'educa'" [Jornal de Notícias, 11 de Março de 2009].

17/02/09

Nuno Pacheco (Público de 17/02/09) - Ela devia estar viva, ele podia estar livre

Ahmad vai ficar preso para o resto da vida por ter tirado o resto da vida à irmã. Ele tem 23 anos, ela tinha apenas 16. Ambos demasiado jovens para tal drama e, no entanto, tanto ele como ela são a face visível de um problema maior: o dos chamados "crimes de honra" em nome da família, frequentes em certos meios islâmicos.

As fotos que acompanhavam a notícia da sentença, nas agências, mostravam, além do ar vago e algo comprometido do réu, a reacção colérica do pai, atirando pelos ares as velas que tinham sido colocadas à porta do tribunal, com a cara da filha e em sua memória. Como se a injustiça fosse apenas a da sentença, ao tirar-lhe um filho depois de perder outro. "O mundo em que ele vive não é o nosso. É um mundo em que a honra da família vale mais do que a vida de uma pessoa", disse no tribunal o procurador Boris Bochnick. E, na verdade, é nesse pressuposto que a família Obeidi, de origens afegãs, viveu e vive na Alemanha de hoje.

Morsal, a vítima, não exigia nada de muito extravagante. Nascida no Afeganistão, queria apenas poder viver como as jovens alemãs da sua idade. A revista Der Spiegel, que após o crime foi no encalço da sua história, descobriu uma guerra familiar que já vinha de longe, com discussões, espancamentos e intervenção dos serviços sociais.

Depois da escola, onde convivia com estudantes de 18 países, Morsal costumava reunir-se com os amigos num local que a família não considerava recomendável. Um local "onde se podia fumar, ouvir música e ocasionalmente beber álcool", como se escrevia na Spiegel de 25 de Agosto de 2008, num longo artigo intitulado O elevado preço da liberdade. Morsal gostava de hip-hop, pop afegã e chamava a atenção dos rapazes. Um pesadelo para a família.

Família que, no entanto, não era sequer considerada das mais tradicionalistas. Simplesmente, não pactuava com a visão do mundo que era já a de Morsal. E que incluía calças justas, maquilhagem e cabelo das mulheres a descoberto. No meio das desavenças, tentaram um truque: enviaram-na para o Afeganistão, para se "regenerar". Não resultou. No regresso, o pai (nas palavras da Spiegel) esperava uma filha diferente e esta um pai diferente. "Ficaram ambos decepcionados." Até que, certa noite, o irmão (que tinha antecedentes criminais, de violência juvenil) a atraiu, com a ajuda de um primo, a uma estação de autocarros e a apunhalou vinte vezes. Até ferir o antebraço.

Ahmad, diz, "amava" a irmã. Ela temia-o, mas, juntos, temiam ainda mais o pai, um antigo soldado afegão treinado pelos soviéticos e imigrado na Alemanha desde 1992. A "honra" da família fê-lo perder dois filhos. Ela devia estar viva, ele podia estar livre. Isto se a tradição medieval a que tantos ainda se submetem passasse a ser, apenas, uma vaga recordação do passado.

02/01/09

Vasco Pulido Valente - A divisão da Rússia


Como em Portugal, em Inglaterra ou França, também a televisão de Putin organizou um concurso para eleger os maiores russos da história. Embora não deva ser levado muito a sério, o resultado é curioso e dá uma ideia, embora vaga, do que sente e quer a população comum. A imprensa europeia só se preocupou com o terceiro lugar de Estaline e com a diferença mínima a que ficou separado de Alexandre Nevski e Piotr Stolipin, como se a popularidade de Estaline representasse só por si o nacionalismo agressivo, que o novo regime ostensivamente fomenta. Sucede que as coisas não são tão simples. Quem vir a lista dos 9 finalistas, que os nossos jornais não publicaram, fica com um retrato bastante mais contraditório e complexo de uma Rússia que, pouco a pouco, tenta reocupar o seu lugar no mundo. Alexandre Nevski, o primeiro classificado, não levanta qualquer dificuldade: é o emblema da resistência eslava aos cavaleiros teutónicos ou, de maneira geral, à Alemanha, ainda hoje naturalmente odiada. Já Stolipin, o número dois, quase santificado por Soljenitsin, passa pelo homem que podia ter evitado a revolução bolchevique, se o czar o não tivesse traído e, provavelmente, mandado matar. O voto nele implica uma absoluta rejeição do comunismo. Como, de resto, o voto em Pedro, o Grande (5.º), que tentou civilizar e abrir a Rússia ao Ocidente; em Alexandre II (8.º), um reformador pacífico; e obviamente em Nicolau II (10.º), o último czar. O caso de Catarina II (9.º), uma "iluminista" notória, oscila entre a "modernidade" e a conquista, mas provavelmente foi escolhida pela conquista.O que não admira, porque a expansão do Império é a essência do Estado russo e os "construtores" do Império heróis nacionais. Sem isso, não se perceberia a admiração por Estaline, que ganhou a guerra e submeteu a Moscovo a Europa Central e parte da Alemanha; ou por Lenine (6.º), que recebeu e reorganizou mais solidamente a herança do czarismo; ou por Suvorov (7.º), um general particularmente cruel, que se distinguiu na Polónia e na Turquia e acabou vencido na Suíça por Massena, um futuro acólito de Napoleão. O concurso mostra que a Rússia continua dividida entre o desejo de uma "normalidade" europeia e o Império, a que nunca renunciará ou pode algum dia renunciar. Infelizmente, e apesar das fantasias de há 15 anos, não existe maneira de transformar uma potência asiática num país democrático e ordeiro do Ocidente. [Público, 2 de Janeiro de 2009]
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A conclusão do texto de VPV, "Infelizmente, (...), não existe maneira de transformar uma potência asiática num país democrático e ordeiro do Ocidente", coloca então uma questão de fundo: como devem os países democráticos e ordeiros do Ocidente lidar com uma potência asiática? A resposta a este problema não é despicienda. Ainda por cima porque esses países não têm de lidar com uma potência asiática, mas com múltiplas potências asiáticas. O que se tem visto até aqui é aquilo a que Sartre chamava a má-fé, a decisão pela não decisão. Finge-se que o problema não existe, e se ele não existe não há que encará-lo, nem que lidar com ele.

14/11/08

Jornal Torrejano, 14 de Novembro de 2008


Na opinião, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Continue-se, depois, com a opinião escrita. Carlos Henriques escreve A lotaria dos penalties, João Carlos Lopes, Herói improvável, José Ricardo Costa, A síndrome de Arquelau e Santana-Maia Leonardo, Inimigos da escola.

Por fim, sempre pode ir vendo as notícias do dia-a-dia aqui da zona. É o que se chama informação local com dimensão global. Então, até sexta-feira, assim o queiram os deuses. Bom fim-de-semana.

08/11/08

Apartheids

Como se sabe, ele há apartheids e apartheids. Nem todas as segregações merecem a nossa atenção e o favor da nossa opinião. No Combustões, há um excelente post, mais um, sobre um dos apartheids mais silencioso de que há memória. Onde ? No paraíso, isto é, nos EUA.

17/10/08

Jornal Torrejano, 17 de Outubro de 2008

On-line esta já a edição semanal do Jornal Torrejano. Para destaque foi seleccionada a reacção do CRC de Assentis, que referiu os subsídios em dívida, durante a cerimónia das Memórias da História. Refira-se ainda a passagem a independente do vereador do PSD, Nuno Santos, magna questão da política local.

No opinião, Acácio Gouveia que escreve A importância das associações de pais, Carlos Henriques, Quim, o melhor em campo, Carlos Nuno, Serviço nacional de socorro, Inês Vidal, (In)conveniente, este blogger, Porque se reformam os professores?, José Ricardo Costa, Andar aos papéis, Miguel Sentieiro, O Fintinhas, Santana-Maia Leonardo, Casamento da treta.

Acabou-se por esta semana. Daqui a sete dias haverá mais Jornal Torrejano e notícia dele, por aqui. Assim os deuses no-lo acordem. Bom fim-de-semana.

16/10/08

Interesses de Estado

A tortura da água? A história dos prisioneiros suspeitos de terrorismo é uma página negra na história americana e, por repercussão, na própria história dos países ocidentais. Eu sei que as razões de Estado justificam tudo. Mas as razões de Estado devem mover-se pela defesa dos interesses do Estado, órgão de decisão de uma comunidade politicamente organizada. O que é curioso na democracia ocidental, e isto é uma das coisas mais notáveis que ela possui e lhe dá superioridade, é que os valores éticos possuem eles próprios um valor político. Talvez, para a defesa dos interesses políticos do Estado americano e dos estados ocidentais em geral, seja mais importante a imagem de respeito pelos direitos do homem e dos prisioneiros do que as informações vergonhosamente obtidas sob tortura. Um Estado democrático que tortura é um Estado que se está a fragilizar e a pôr em causa os seus próprios e mais fundamentais interesses. Mas Bush e a gente que o rodeia conseguirão acompanhar a extensão do raciocínio?

Ressuscitar fantasmas

O juiz Baltasar Garzón ordenou uma investigação aos desaparecidos nos tempos do franquismo. Argumenta o magistrado que o caso se inscreve na esfera de competências da mais alta instância judicial espanhola e dá uma razão espantosa: na origem do conflito, em Julho de 1936, esteve um levantamento militar “ilegal”. A ser assim, se essa moda pega, em Portugal não faltarão julgamentos. A começar pelo levantamento ilegal do 25 de Abril de 1974, depois pelo 28 de Maio de 1926, pelo 5 de Outubro de 1910, pelas guerras liberais – também não estavam inscritas na ordenação jurídica do reino –, pelo 1.º de Dezembro de 1640 e, para encurtar razões, até ao 24 de Junho de 1128, quando Afonso Henriques, em S. Mamede, derrota as tropas de sua mãe. Por vezes, os juízes tentam julgar a história, mas o julgamento da história é apenas feito pela memória e pelos vencedores do momento. A história é uma soma de ilegalidades, a destruição da ordem vigente anterior e a instalação de uma nova ordem. Assim, até ao infinito. Se a justificação da legitimidade de abertura do processo é absolutamente risível, do ponto de vista histórico-político, esse não é ainda o seu maior problema. A democracia espanhola nasceu, cresceu e fortificou-se no silêncio dos cadáveres. Esse silêncio permitiu que as partes desavindas, há longas décadas, se aproximassem, que esquerda e direita convivessem no parlamento e na sociedade. Que esquerda e direita se sucedessem na governação. Toda a gente sabe que há muito ressentimento escondido, que o tempo diluirá. Mas também se sabe que não há ali ninguém que tenha as mãos limpas de sangue. Esquerda e direita mataram-se impiedosamente. As esquerdas (republicanos, socialistas, comunistas, trotskistas, anarquistas) mataram-se entre si. A direita terá assassinado mais, pois foi a vencedora. Mexer em cadáveres é ressuscitar fantasmas. E, nestas coisas, os nossos fantasmas são sempre melhores e mais vítimas do que os dos nossos adversários. Por vezes, é melhor para os vivos deixar os mortos em paz, mesmo injustiçados. Talvez eles próprios agradecessem.

15/10/08

O retorno do mouro?

Na Alemanha, as vendas do Capital, de Karl Marx, dispararam, em relação aos anos anteriores, e a expectativa é que continuem a crescer. Não se pense, contudo, que é o marxismo que está de volta. Este movimento de retorno a Marx inscreve-se na esfera dos eruditos. Não é o Marx que guia a acção e que conduzirá os homens ao paraíso, mas o Marx que se tornou um autor clássico. E como todos os grandes autores clássicos, e Marx é um grande autor clássico, é um mestre do pensamento, alguém que ajuda a pensar melhor e a melhor interpretar o mundo. É um Marx lido ao arrepio da sua célebre 11.ª tese ad Feuerbach: «Os filósofos limitaram-se até agora a interpretar o mundo de diferentes modos; do que se trata é de o transformar». Afinal, parece que é mesmo preciso continuar a interpretar o mundo. O velho Hegel sabia muito mais do que seu distante e belicoso discípulo.

14/10/08

Os que se vão embora

Manuel António Pina fala de A grande evasão. Refere-se ao pedido de reforma de muitos e muitos professores. Julgo que o Ministério de Educação está feliz com o acontecimento. É muito provável que haja quem pense que a eliminação da geração dos mais velhos, daqueles que ainda souberam o que é uma escola, amainará os ímpetos dos de meia-idade e deixará campo aberto aos jovens professores que, livres dessas ideias estapafúrdias de que a escola é um lugar de trabalho, que os professores devem ensinar e os alunos estudar, farão crescer, no terreno – acho que é assim que falam –, as luminosas ideias das mentes ministeriais, que nos hão-de conduzir ao Olimpo da ignorância e da insensatez. Na próxima sexta-feira, no Jornal Torrejano, também falaremos desses professores que se vão embora.

13/10/08

O peso da História

A História é um buraco negro onde tudo se consome. Agora descobriram que, hipoteticamente, Milan Kundera, conhecido escritor checo e oposicionista declarado do regime comunista, denunciou à polícia comunista, em 1950, um estudante. Este foi preso e condenado a 22 anos de cadeia, com trabalhos forçados. Kundera nega com veemência o episódio, que está alegadamente documentado. Ainda há pouco tempo o escritor alemão Günter Grass reconheceu também a sua colaboração nas forças militares do regime nazi.

Todo este alarido, porém, reside num equívoco: a de uma concepção pura do homem. Espera-se sempre que os heróis e as figuras elevadas de uma cultura sejam exemplares e neles nada haja que belisque a brancura da alma e a inocência angélica. O grande problema reside aqui, como reconheceu Kant: a inocência é uma coisa muito bonita, mas corrompe-se com muita facilidade. Depois, os homens mudam de opinião e aquilo que um dia lhes pareceu o caminho do paraíso é, agora, a porta do inferno. Somos todos mutáveis. E muitas vezes não fizemos coisas inomináveis porque o acaso ou a História ou o destino não o permitiram. Mas o carácter não contará? Conta, claro que conta sempre. Mas não nos iludamos sobre a força do carácter perante o peso da História. Mas então o peso da história será suficiente para nos absolver de um acto canalha? Não, não é. Não diminui em nada o peso da culpa, apenas modera o dedo da acusação.

12/10/08

Vontade de vomitar

Pulido Valente, na crónica de hoje no Público, fala do desinteresse que parece grassar na opinião publicada e na comunicação social nacionais pela crise financeira mundial. Atribui esse desinteresse à nossa eterna miséria, à incapacidade de percebermos tudo o que tenha mais de três números. É possível que tenha razão. Mas também é possível que estejamos perante uma resposta mais pragmática: que mão poderemos ter na crise que não provocámos? Todos sabemos a resposta: nenhuma. Então, para quê um excesso de preocupação, mesmo que o barco se esteja a afundar? A experiência da nossa miséria, experiência que obsidia Pulido Valente, é antes de mais a experiência da impotência colectiva. Raramente somos os senhores do nosso destino. Tudo o que é essencial se decide onde não estamos e mesmo o que se decide por cá decide-se onde a maioria não se encontra. É fácil a meia dúzia de janotas, que leram umas tretas sobre livre-arbítrio e umas linhas sobre a livre iniciativa, acusar meio mundo de incapacidade de sobreviver sem o apoio ou a âncora do Estado. O que não é fácil a essa meia dúzia é perceber a longa história que nos formatou e que tolheu qualquer espírito de iniciativa e que lhes dá a possibilidade de ganhar dinheiro à custa das idiotices que põem da boca para fora. Quando leio a maior parte dos comentadores tenho vontade de vomitar. É evidente que não incluo aqui Pulido Valente, o único que verdadeiramente vale a pena ler.

10/10/08

Jornal Torrejano, 10 de Outubro de 2008

Disponível encontra-se já a edição desta semana do Jornal Torrejano on-line. Destaque para a retirada de confiança política ao vereador do PSD Nuno Santos, por parte da direcção local do partido. Refira-se ainda o retorno à agenda social da ampliação do quartel dos bombeiros.
Na opinião, comece-se com Carlos Henriques que escreve Sporting paga a factura. Porto líder. Depois, Francisco Almeida escreve Remédio envenenado, João Carlos Lopes, Quartel novo, este blogger, Uma questão ética?, José Ricardo Costa, How do I look?, Santana-Maia Leonardo, Os clubes e a sua vocação e Vítor Lúcio Freire, De onde vem o exemplo.
E assim chega ao fim a notícia das notícias. Para a semana, se os deuses estiverem pelos ajustes, haverá mais. Mas são caprichosos os imortais. Um bom fim-de-semana, também com o Jornal Torrejano.

06/10/08

Afinal, a culpa é da moral

Tem-se assistido, devido à crise financeira mundial, a um certo retrocesso da louvação do capitalismo e uma crítica acerada às políticas económicas provenientes da era Reagan. Mas o capitalismo, aquele que está em crise, encontra os seus defensores. Henrique Raposo, no útimo Expresso, faz a apologia do que se tem passado, criticando a criação do bode expiatórios (sejam eles e cito «“os bandidos da Wall Street”, os políticos e as sociedades ocidentais»). O curioso é a lição maior que o articulista tira: «A maior lição desta crise não está ao nível da regulação institucional dos mercados, mas sim ao nível da auto-regulação que cada indivíduo deve possuir perante a tentação do crédito. Eis, portanto, a conclusão mais dolorosa: o capitalismo permanece de pé, mas estamos a descobrir que ter casa não é para toda a gente. Em 2008, morreu a democratização da propriedade através do empréstimo bancário.»

Extraordinária lição. Imagine o leitor que perante uma onda avassaladora de crimes, onde as instituições de segurança se impedissem de interferir e regular a segurança dos cidadãos, viesse alguém dizer que o principal problema estava ao nível, não da acção política, mas da auto-regulação que cada indivíduo deve possuir perante a tentação do crime. Isto é para levar a sério? Mas como é possível não responsabilizar todos aqueles que induziram, com interesses e ganhos evidentes, pessoas que não podiam cumprir os seus compromissos a comprar casa? Parece que os culpados de uma derrota militar são os cozinheiros. Os generais e a estrutura responsável é que não pode ser responsabilizada e muito menos a ideologia subjacente, ou a estratégia seguida. Pensar que o problema é moral (auto-regulação dos indivíduos) é querer iludir-se e iludir os outros. O mercado deixado a si-mesmo tal como aconteceu gerou a situação em que vivemos. Agora diabolizar os milhões de pobres que se deixaram tentar pelos cantos de sereia dos gestores inovadores parece ser, assim, um acto de profunda inteligência e compreensão da natureza dos homens e uma óptima solução para o que se está a passar. O melhor ser prendê-los a todos, aos que ficaram sem casa, por atentado à moralidade. Ao mesmo tempo deve-se gratificar infinitamente a gestão política ocidental por se ter demitido da fiscalização e regulação da economia e promover todas as administrações das instituições falidas.