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31/08/09

Alma Pátria - 42: Amália Rodrigues - Uma Casa Portuguesa


Amália Rodrigues - Uma Casa Portuguesa

Terminamos com Amália, com quem havia de ser? Não é ela ainda a Alma da Pátria? Até determinada altura da vida, detestava fado e Amália era-me indiferente. Hoje, gosto de fado e Amália é, para mim, o maior nome da música popular portuguesa. Inultrapassável. Há muitos fados de Amália mais interessantes do que Uma Casa Portuguesa. Mas esta rubrica é sobre a Alma Pátria, e não há nada que a Pátria goste mais do que da sua alegre casinha. E como é a casa da Pátria? No conforto pobrezinho do meu lar, / há fartura de carinho. /E a cortina da janela é o luar, / mais o sol que bate nela... / Basta pouco, poucochinho p'ra alegrar / uma existência singela... / É só amor, pão e vinho / e um caldo verde, verdinho / a fumegar na tigela.

Mesmo quando a casa é rica e cheia, ela é pobrezinha e plena de poucochinho. Está aqui tudo, não está?

30/08/09

Alma Pátria - 41: Francisco Fanhais - Porque


Francisco Fanhais - Porque

Está a acabar esta rubrica, Alma Pátria. Amanhã será o último post. Tinha pensado em mais um cantor de intervenção. Havia duas fileiras, digamos assim, para fazer a opção. Uma era a dos que tiveram e têm um importante papel na música popular portuguesa ainda hoje, gente como Sérgio Godinho ou José Mário Branco. A segunda fileira é de homens a que o 25 de Abril não trouxe uma assinalável fortuna na carreira das canções. Aqui poderia escolher entre Manuel Freire, José Jorge Letria, José Barata-Moura e Francisco Fanhais. Optei pelo padre Fanhais. Este seu disco marca uma época de advento de uma consciência crítica do regime dentro da própria Igreja. É a outra face da Alma Pátria, a do movimento dos baladeiros, gente que cantava canções de intervenção social apenas acompanhados por uma viola, embora a realidade desse grupo de cantores fosse um pouco mais complexa do que deixa entrever a caricatura que o nome dado ao movimento dá a entender.

29/08/09

Alma Pátria - 40: Francisco José - Olhos Castanhos


Francisco José - Olhos Castanhos

Este era também um dos "cromos" que não poderia faltar nesta "colecção" de Alma Pátria. Temos a reprodução da edição de Olhos Castanhos em 78 rpm (retirada do -). Foi também graças ao - que descobri que Francisco José é irmão do cientista Galopim de Carvalho, esse mesmo, o dos dinossauros. Olhos Castanhos é uma magnífica canção, a mais conhecida de Francisco José. Talvez fosse mais indicado uma outra, Guitarra Toca Baixinho, mais de acordo com o espírito da rubrica. Mas fiquemos pela taxonomia dos olhos. Se não tiver olhos castanhos, paciência.

28/08/09

Alma Pátria - 39: Chinchilas - D. João


Chinchilas - D. João

Uma visitação ao "nosso" rock dos anos sessenta e setenta. Esse rock era essencialmente uma manifestação para bailes de Liceu e suave entretenimento de teenagers da classe média, consolidada ou em ascensão. No entanto, começava a penetrar no país uma cultura juvenil ligadas ao uso de alucinogénios. Este D. João, do grupo Chinchilas, data de 1970 e é já um reflexo dessa cultura, ainda em fase de fermentação na metrópole, em Moçambique, por exemplo, teria já um desenvolvimento diferente. Conta-se, na letra da canção, a história de um drogado, um junkie, na linguagem "técnica" da época. Como se vê, está longe de ser pura a alma da pátria.

27/08/09

Alma Pátria - 38: António Menano - Menina e Moça


António Menano - Menina e Moça

Coimbra, Fado de Coimbra. Quais os grandes nomes? Certamente, José Afonso e Adriano Correia de Oliveira, também Luís Goes ou mesmo Luís Piçarra. Mas na arqueologia dessa canção encontramos gente como Augusto Hilário, Edmundo Bettencourt e o grande António Menano. Se o Fado de Lisboa expressa a alma popular portuguesa e, de certa forma, a alma aristocrática, almas muito mais próximas do que se pensa, o Fado de Coimbra é a expressão intelectual e burguesa da alma pátria. Mas aqui surpreende-se uma alma burguesa estranha à burguesia europeia, pois a saudade e o passado, mas não não o futuro e a sua dinâmica progressista e dissolutória, são os elementos ideológicos estruturais. Uma burguesia fatalista explica muito daquilo que ainda somos.

26/08/09

Alma Pátria - 37: Madalena Iglésias - Ele e Ela


Madalena Iglésias - Ele e Ela

Se me pedissem uma canção para representar o espírito do Festival RTP da canção, pelo menos daqueles anos que vão desde 1964 a 1974, eu não teria qualquer dúvida de escolher esta. Contrariamente a muitas canções que por lá passaram, tendo algumas ganho, esta não tem mensagem subliminar. É uma coisa inócua e era isso que tanto a RTP como a Eurovisão pretendiam. O conteúdo desejado era a ausência de conteúdo, uma coisa ritmada e bem disposta, de preferência que falasse de amor, mas nada de grandes tensões amorosas. A qualidade textual, e até musical, de muitas canções que apareceram no Festival é apenas a prova da inexistência de um lugar natural onde elas pudessem ter a sua vida. Ele e Ela é, de facto, o espírito da coisa.

25/08/09

Alma Pátria - 36: Hugo Maia Loureiro - Canção de Madrugar


Hugo Maia Loureiro - Canção de Madrugar

A Alma Pátria continua a explorar o filão do Festival RTP da canção. Hugo Maia Loureiro era, no início dos anos setenta, um dos nomes fortes do Festival. Julgo que nunca ganhou. Em 1970, com Canção de Madrugar, fica em segundo lugar, atrás de Sérgio Borges, Onde vais rio que eu canto. Canção de Madrugar, com música de Nuno Nazareth Fernandes, letra do inevitável José Carlos Ary dos Santos.

24/08/09

Alma Pátria - 35: Eduardo Nascimento - O Vento Mudou


Eduardo Nascimento - O Vento Mudou

Há uma coisa que é verdade na ideologia do Estado Novo, a natureza multirracial do Portugal de então. Uma prova? A vitória, em 1967, de Eduardo Nascimento, angolano, no Festival RTP da canção e, consequentemente, a sua eleição para representar Portugal no Festival da Eurovisão. A guerra em Angola, que deu o tiro de partida para as guerras coloniais dos anos sessenta e setenta do século passado, tinha começado há cerca de seis anos e faltavam ainda sete para terminar. Curiosamente, Eduardo Nascimento é o autor do hino do MPLA. Apesar dos ventos de mudança que a cançoneta apregoa, ainda faltava muito para que o vento mudasse definitivamente. Este vento apenas falava de delíquios do coração.

23/08/09

Alma Pátria - 34: Carlos Mendes - Verão


Carlos Mendes - Verão

O Festiva RTP da canção e o Festival da Eurovisão tinham um peso enorme no panorama da música ligeira, era assim que então se dizia. Verão, de Carlos Mendes, foi a canção vencedora do Festival RTP de 1968, um ano de intensa vida política por essa Europa fora, revoltas estudantis em França (que depois se atearam por Itália, Alemanha, EUA) Primavera de Praga, na antiga Checoslováquia. Por cá o ditador havia de cair da cadeira. O imaginário português, presente nesta canção, é o do Verão, com as suas aventuras pequeno-burguesas e o tédio que se aproxima pelo fim da estação estival. Havia toda uma mitologia em torno do Verão, uma mitologia própria de um país que ainda não tinha descoberto as praias inundadas de gente e o turismo de massas. É dessa mitologia, que tem no romance Sinais de Fogo, de Jorge Sena, a sua legitimação, que esta cantigueta extrai a sua existência.

22/08/09

Alma Pátria - 33: Maria Teresa de Noronha - Mataram a Mouraria


Maria Teresa de Noronha - Mataram a Mouraria

Um retorno ao fado aristocrático com Maria Teresa de Noronha. Nome grande do fado nos anos quarenta, cinquenta e sessenta, uma autêntica cantora da Rádio. Só abandona a Emissora Nacional em 1968. A Mouraria, um dos bairros mais populares de Lisboa, é um símbolo do fado. De certam maneira este título, Mataram a Mouraria, anunciava a morte do fado, o que, como sabemos hoje, estava longe de ser verdade. Repare-se na conexão entre fado, Mouraria, tradição, passado. Todas estas palavras são topos essenciais do fado e de uma certa alma nacional. Mais uma faceta da Alma Pátria, numa das grandes vozes do fado.

21/08/09

Alma Pátria - 32: Petrus Castrus - Marasmo


Petrus Castrus - Marasmo

A Alma Pátria recua até o ano de 1971. A influência das banda de rock progressivo começava a fazer ouvir-se, por exemplo, na música do Quarteto 1111. Marasmo é o título do primeiro single do grupo Petrus Castrus, um grupo de José e Pedro Castro, onde tocaram múltiplos músicos, entre 1971 e 1978, com destaque para, logo no início, Júlio Pereira. O título do disco, Marasmo, não deixa de ser uma referência ao ambiente social que o país vivia no início da década de setenta, uma referência também ao sentimento de um ego esmagado pela totalidade social. Um retrato da pátria focado de um outro horizonte.

20/08/09

Alma Pátria - 31: Fernando Tordo - Tourada


Fernando Tordo - Tourada

Vencedora do Festival RTP da canção, 1973. Como explicar que esta letra, de José Carlos Ary dos Santos (não tem interesse enquanto poeta, mas foi um grande letrista), passe pela censura, se apresente a concurso na televisão da ditadura, e ganhe? Só há uma explicação. Uma parte substancial do país já tinha percebido que o regime se tinha transformado numa enorme tourada. Esta canção é uma autêntica canção de intervenção, uma canção que anunciava os tempos que estavam para vir. Se não tivesse mais nenhum interesse, mas ela possui outros, interessaria enquanto facto profético anunciador do amanhã, quase dos amanhãs que cantam. Quem diria?

19/08/09

Alma Pátria - 30: Teresa Tarouca - Meu Bergantim


Teresa Tarouca - Meu Bergantim

Hoje a Alma Pátria faz uma incursão no fado de natureza aristocrática. O fado desde há muito que conjuga duas fortes raízes, a popular, de que é representante, por exemplo, Alfredo Marceneiro, e a aristocrática, onde sobressai o nome de Maria Teresa de Noronha. Também Teresa Tarouca possui uma ascendência aristocrática, bisneta dos condes de Tarouca, e faz parte dessa fileira de fadistas. O material existente no You Tube é francamente restrito e não foi possível apresentar um fado mais tradicional. Ficamos então com o Meu Bergantim, que era o que estava disponível.

18/08/09

Alma Pátria - 29: João Villaret - Cântico Negro (José Régio)


João Villaret - Cântico Negro

Hoje a Alma Pátria sai dos caminhos da canção e entra nos da declamação. A rádio in illo tempore passava poesia. Recordo Villaret e também Manuel Lereno. João Villaret morre em 1961. Se olharmos para a capa do disco "João Villaret no São Luís" há qualquer coisa que é inconcebível. Em plena ditadura, um actor consegue encher um teatro apenas para ser ouvido a declamar poesia. Mais, esse mesmo actor tinha um programa semanal na RTP, de larga audiência, onde dizia os grandes poetas. Esse mundo acabou. Ainda David Mourão-Ferreira e Mário Viegas tiveram programas do género, mas tudo isso está definitivamente morto, no contexto cultural pós-moderno em que vivemos. No vídeo, um poema de José Régio, um poema que li muitas vezes e que ouvi também muitas vezes declamado pelo meu colega de escola Luís Filipe Pisco. Dizia-o bem.

17/08/09

Alma Pátria - 28: Tristão da Silva - Aquela Janela Virada para o Mar


Tristão da Silva - Aquela janela virada para o mar

Quem fez o upload deste vídeo para o You Tube diz que Tristão da Silva terá escrito esta canção enquanto estava preso, por ser oposicionista à ditadura. Não consegui confirmar a história. Existem algumas pequenas biografias na rede, mas em nenhuma delas consegui encontrar referência a esse facto. Seja verdade ou seja apenas uma ficção, o facto é que esta canção passava bastante na rádio nos tempos do dr. Salazar. É uma das canções que dão a imagem de marca do cantor e faz claramente parte da alma pátria.

16/08/09

Alma Pátria - 27: Adriano Correia de Oliveira - Trova do vento que passa

Adriano Correia de Oliveira - Trova do vento que passa

Voltamos à face oculta da alma pátria. Como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira chega à canção de intervenção pela mediação do fado de Coimbra. Entre 1960 e 1962, grava quatro EP's (discos com 4 faixas), todos eles dedicados à canção de Coimbra. A sua orientação como cantor de intervenção surge de forma nítida no quinto EP, editado no ano de 1963, Trova do Vento que Passa, onde todos os poemas cantados são de Manuel Alegre. Consta que foi um grande êxito comercial. O que é interessante na música portuguesa é o paradoxo de o sebastianismo e a saudade, manifestações ideológicas conectadas com a direita, terem encontrado as suas mais autênticas vozes em cantores de intervenção, como Luís Cília, José Afonso e Adriano Correia de Oliveira.

15/08/09

Alma Pátria - 26: Fernando Farinha - O Meu Destino & Sempre Linda


Fernando Farinha - O Meu Destino - Sempre Linda

Fernando Farinha era um dos fenómenos da Rádio nos anos sessenta e, presumo, cinquenta. Era conhecido como o Miúda da Bica, referência ao bairro da Bica, Lisboa, para onde veio residir em criança, vindo do Barreiro. Começou a cantar muito cedo. Esta gravação parece ter sido feito quando ele tinha apenas 11 anos. É uma curiosidade, pois trata-se de um velho 78 rpm. Eis como soava, mais ou menos, um disco nos finais dos anos trinta ou início dos quarente.

14/08/09

Alma Pátria - 25: Filarmónica Fraude - 25


Filarmónica Fraude - 25

Uma fraude que nasceu em 1968 e terminou em 1969. Nasceu, segundo parece, entre o Entroncamento e Tomar. A Filarmónica Fraude representou um corte com o tipo de música que se praticava em Portugal, combinando o ritmo da pop ou o rock progressivo com a música tradicional portuguesa. Não consegui nenhum vídeo com os grandes temas da banda, nomeadamente Flor de Laranjeira e Menino. Aliás, este tema, 25, uma referência à guerra colonial, foi o único vídeo disponível que encontrei e diz respeito a uma das faixas do único álbum do grupo, Epopeia.

13/08/09

Alma Pátria - 24: Alfredo Marceneiro - Amor de Mãe


Alfredo Marceneiro - Amor de Mãe

Depois do interregno de ontem, volta o Alma Pátria com um nome grande do fado, Alfredo Marceneiro. Aqui não é o lugar para contar a história dos artistas seleccionados, nem o blogger tem competência para o fazer (pode ver aqui uma pequena biografia do grande Marceneiro). Não identifiquei o autor, talvez seja o próprio Marceneiro, mas a letra deste fado é uma nova e exuberante lição de sociologia pátria. "Há vários amores na vida / Lindos como o amor perfeito / Belos como a Vénus querida / De tantos que a vida tem / Só um adoro e respeito / É o santo amor de mãe". Elucidativo.

11/08/09

Alma Pátria - 23: Simone de Oliveira - Desfolhada Portuguesa

Simone de Oliveira - Desfolhada Portuguesa

Simone de Oliveira é uma presença constante, desde os finais dos anos cinquenta, no panorama da cultura popular portuguesa. De certa forma, ela acompanha a evolução da vida social e política portuguesa. Começa a sua preparação, enquanto cançonetista, numa "escola" do regime, o Centro de Preparação de Artistas da Emissora Nacional. A sua estreia, como cantora, dá-se em 1958. Onze anos depois, vence o Festival RTP com uma canção, Desfolhada Portuguesa, escrita pelo poeta e letrista comunista José Carlos Ary dos Santos. O delicioso desta história reside no facto da afirmação, no corpo do poema, "quem faz um filho, fá-lo por gosto" tem gerado controvérsia, o que levou a que se considerasse a letra como muito ousada. Curioso também é ter passado na censura. Estávamos a começar a primavera marcelista e havia um certo amaciamento, que desapareceu rapidamente, do regime. Já agora, note-se a força que emana de Simone de Oliveira.