30/08/09
28/01/09
O sublime terrível
É uma expressão habitual, sobretudo na linguagem religiosa, atribuir a um homem que está a morrer a expressão de que vai do tempo para a eternidade.Esta expressão nada de facto diria se por eternidade se entendesse aqui um tempo que se estende até ao infinito; porque assim o homem nunca sairia do tempo, mas passaria sempre de um para outro. Por conseguinte, deve por ela entender-se um fim de todo o tempo, com a ininterrupta duração do homem. Mas tal duração (olhada a sua existência como grandeza) deve, no entanto, considerar-se como uma grandeza totalmente incomparável com o tempo, da qual, sem dúvida, não podemos fazer nenhum conceito (a não ser simplesmente negativo). – Esta ideia tem em si algo de atroz, porque conduz, por assim dizer, à beira de um abismo do qual, para quem nele se despenha, nenhum retorno é possível [«No severo lugar, que nada atrás deixa volver, o segura a eternidade com fortes braços», Haller]; e, contudo, este pensamento tem também algo de atraente, pois não se pode deixar de para aí dirigir sempre o olhar aterrorizado [Não conseguem os corações saciar-se de ver, Virgílio]. É o sublime terrível, em parte pela sua obscuridade, em que a imaginação costuma agir com maior poder do que na claridade da luz. [Kant, O fim de todas as coisas (1794)]
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07/12/08
Domingo
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17/05/08
Vivemos numa época interessante!
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06/01/08
A adoração do Menino pelos Reis Magos
A partir da experiência de colocar, durante a quadra natalícia, posts com pintura alusiva ao Natal e festas adjacentes, descobri, embora as fontes utilizadas sejam muito escassas (refiro o excelente museu virtual espanhol Ciudad de la Pintura – “la mayor pinacoteca virtual”, de onde extraí os quadros apresentados), que a representação da adoração do Menino pelos Reis Magos encontra o seu apogeu na arte do Renascimento. Melhor, vai do final do Gótico e transição para o Renascimento até ao final do Renascimento e ao Maneirismo. A partir do Barroco, o interesse pela temática é cada vez menor, encontrando-se muito pouco presente na pintura do século XX.Esta “descoberta” levou-me à seguinte questão: Porq
uê este interesse da pintura renascentista pela cena da adoração dos Magos? Ao olhar para as reproduções dos quadros, aquilo que me chamou a atenção foi a sensação de se estar perante uma autocontemplação. O que os quadros apresentam não é tanto a fábula dos Reis Magos, mas uma época que se vê ela própria como uma infância, o Renascimento. Não é o menino-Deus que é adorado, mas o homem que se dobra perante si próprio e se descobre como uma promessa a realizar. O cristianismo continha esta possibilidade absolutamente ateia: a figura do menino é o símbolo do homem do futuro e orienta as ek-stases temporais para esse mesmo futuro: o passado e o próprio presente veneram essa promessa que o futuro realizará.Nas múltiplas cenas da adoração dos Magos (e a magia não é um dos interesses menores desse Renascimento), Deus encontra-se já evacuado e o homem, com os seus múltiplos interesses, prepara-se para tomar conta da cena do mundo. É aqui (entre o fim da Idade Média e o início da Idade Moderna) que começa a morte de Deus. É um período de longa agonia, mas de uma agonia que não gera dor. Em muitos dos quadros existe uma alegria exuberante, para não falar da exuberância material que se disfarça por detrás de representações de um estábulo arruinado. A maioria daqueles quadros, desde as personagens até aos edifícios, passando pelas vestes, fala apenas e só da época em que foram pintados (talvez não pudessem fazer outra coisa). Fala de uma época que celebra a vitória do homem sobre Deus na adoração de Menino-Jesus. Todo o poder (político e sacerdotal, é isso que representam os Reis Magos) se dobra agora perante a promessa do homem do futuro. A adoração do
menino é a marca de um tempo que se julga a si mesmo como o início de grandes coisas, onde Deus deixou de contar e o único protagonista da história vai ser o homem que, enquanto menino, ali é adorado.O que atormenta, porém, é o que vem depois. O que significará, a partir dos tempos modernos, o contínuo e cada vez mais acentuado desinteresse da pintura pela cena da adoração do menino pelos Reis Magos? Aqui recordo-me daquele quadro de Van Gogh, onde apenas umas botas velhas sem o seu dono são representadas. Será lá, dentro delas, do sítio de onde já saiu o homem, que se esconde Deus?
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01/01/08
Ano Novo
Com votos de Bom Ano Novo, transcrevo informação recebida de Fernando Correia de Oliveira, o nosso maior especialista em relógios e no tempo:Não resisti a esta apropriação. Dá sempre jeito.
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24/05/07
Ser anacrónico
Mesmo uma educação tradicional centra a criança na voragem do futuro. É preciso ser absolutamente indigente ou incomensuravelmente rico para que o amor pelo passado não seja apenas um culto reactivo, uma experiência do ressentimento, revolta contra a vida.
Ser anacrónico é a esperança dos que não cultuam o futuro nem o passado. Pertencer a todos os tempos e a nenhum. Instalar-se na Grécia e de seguida na Renascença. Passear-se por Roma, para logo caminhar em Konigsberg e, boquiaberto, ver o professor Kant na pontualidade dos seus passeios. Em todos os tempos ser estrangeiro e estar neste tempo como se a ele não pertencesse.
Quando falam em utopias os intestinos revolvem-se-me. Recusar o espaço é o pecado maior, é recusar o corpo, os corpos que amámos, os lugares que nos acolheram. O tempo, porém, é um déspota implacável que a cada instante nos pontapeia, como se exibisse uma ordem de expulsão nunca completamente cumprida. O tempo expulsa-nos do espaço, rouba-nos os corpos amados, descorporaliza-nos. O tempo é o verdadeiro significado da utopia.
Em vez da utopia a ucronia. Melhor, a anacronia. Ser anacrónico e nada mais do que anacrónico. Quanto tempo demorará a viagem para o não-tempo?
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Jorge Carreira Maia
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05/05/07
O eterno retorno ou a transfiguração
Ao estudarmos essas sociedades tradicionais, surpreendeu-nos sobretudo um aspecto: a sua revolta contra o tempo concreto, histórico, a sua nostalgia de um regresso periódico ao tempo mítico das origens, à Idade do Ouro. Só descobrimos o significado e a função daquilo a que chamámos «arquétipos e repetição» quando compreendemos a vontade que essas sociedades tinham de recusar o tempo concreto e a sua hostilidade em relação a qualquer tentativa de «história» autónoma, isto é, de história sem regulação arquetípica. Esta recusa não é simplesmente o efeito das tendências conservadoras das sociedades primitivas, como este livro provará. Quanto a nós, dever-se-á ver nesta depreciação da história, ou seja, dos acontecimentos sem modelo trans-histórico, e nesta recusa do tempo profano, contínuo, uma certa valorização metafísica da existência humana. Mas esta valorização não é, de modo nenhum, a mesma que certas correntes filosóficas pós-hegelianas tentam dar, nomeadamente o marxismo, o historicismo e o existencialismo, depois da descoberta do «homem histórico», do homem que existe na medida em que se faz a si próprio no seio da história. [Mircea Eliade, O Mito do Eterno Retorno.]-------
Mircea Eliade deixou, há muito, de ser um autor que se possa citar em público. No entanto, muito do que escreveu merece leitura e o seu silenciamento deveria ser motivo de interrogação, se não mesmo de inquietação.
Mircea Eliade, como outros autores, desenha perfis de sociedades e modos de vida diferentes dos nossos, mas com a particularidade de não serem sociedades utópicas, produtos da imaginação mais ou menos delirantes dos seus autores. Fala de sociedades que existiram, as chamadas sociedades tradicionais. Estas foram absolutamente recalcadas, bem como os seus fundamentos metafísicos, com a vitória do mundo moderno, o mundo histórico em que o “homem existe na medida em que se faz a si próprio no seio da história”.
Esta ideia do «homem se fazer a si próprio» que habitava no seio do marxismo e das correntes pós-hegelianas não passava de uma ideia ainda ingénua. Mas esta ingenuidade – o eu é o fruto de uma experiência histórico-social – abriu as portas para os dias de hoje, nos quais essa ingenuidade desapareceu por completo. O desenvolvimento da ciência e da técnica traçaram o caminho para uma reconstrução da natureza humana, o primeiro passo para a sua transfiguração. Estas sociedades históricas são movidas pela atracção do futuro, mas esse futuro, começamos a descobri-lo, não nos fará mais humanos, mas tornar-nos-á noutra coisa qualquer, que ainda não sabemos, que está velada, mas que acabará por se revelar, isto é, mostrar-se naquilo que é em sua verdade.
Ao usar o conceito de «transfiguração», remeto para o domínio da arte. Toda a arte é transfiguração de uma matéria plástica (som, cor, luz, materiais diversos, língua, etc.). O que começamos a assistir é à transformação do homem em matéria humana plástica e assim ao abrir caminho para esse trabalho de transfiguração. A História, entendida como o processo do homem histórico, significa, desse modo, apenas a morte do homem. A dinâmica que nos empurra para o futuro não nos traz apenas a morte do indivíduo, mas prefigura a morte da própria espécie às mãos da sua arte de transformação. É este o verdadeiro significado do conceito de progresso.
As sociedades tradicionais representam a recusa de compreender o homem como uma ponte – uma ponte entre o animal pré-humano e aquilo que virá depois do homem. Dessa forma, recusam a morte do homem e, por isso abominam, a história. Não é que não tenham consciência do tempo, nem da passagem deste. Recusam, porém, a sua linearidade e sublinham a natureza cíclica, o que supõe um eterno retorno do mesmo. Este ciclo do eterno retorno é a imagem da eternidade e a natureza não seria mais do que um espelho dessa eternidade, onde a humanidade permanece sempre aquilo que é.
A verdadeira clivagem que existe no mundo não é entre liberalismo e marxismo, entre esquerda e direita, entre democracia e ditadura. A clivagem efectiva é entre tradição e modernidade, entre sociedades históricas e sociedades não-históricas.
Aquilo que dá que pensar não é tanto a recusa da história pelas sociedades tradicionais, mas o ímpeto não questionado que nós, modernos, colocamos na aventura histórica que se dirige para a nossa própria transfiguração, isto é, para a nossa morte.
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18/04/07
Tal como antigamente
Não se trata de uma identificação com o escritor. Sei muito pouco dos escritores de que gosto. Evito as biografias. De Sebald, por exemplo, tirando a sua nacionalidade e o facto de ter morrido de acidente, nada sei. E, no entanto, pressinto que aquela escrita fala de mim ou, melhor, fala de alguma coisa, indefinível e quase obscura, que me toca, como se me dissesse respeito. É como se entre a obra e o leitor existisse uma comunhão.
Peregrino por “Vertigens. Impressões”, o último livro de Sebald publicado em Portugal. Na página 40, de forma inopinada, surge o seguinte texto: “No regresso fomos dar à Albrechtstrasse e Olga não resistiu à tentação de entrar na escola onde tinha andado em criança. Numa das salas de aula, precisamente aquela onde se sentava no princípio dos anos 50, a mesma professora continuava a ensinar, quase trinta anos depois, exortava, com a mesma voz, as crianças para que continuassem a trabalhar e não conversassem, tal como antigamente.” Ao ler estas palavras senti um desconforto dentro de mim, desconforto esse motivado, descobri-o logo de seguida, por uma experiência semelhante vivida há alguns anos.
Talvez há uns 8 ou 9 anos, por altura das Festas do Espírito Santo, em Meia Via, paro o carro, por um qualquer motivo que não importa, perto da escola primária. Fiz aí a primeira e a segunda classes, antes de nos termos instalado em Torres Novas. Saio e olho o desalentado bairro que nasceu, como um penhor dos tempos democráticos, diante da escola, nuns terrenos antigamente colonizados por sobreiros, se não me engano, e onde se realizavam, na altura da
Festa, picarias. Esforçava-me por reter, para além da visão ameaçadoramente suburbana, as imagens dessas árvores sacrificadas ao arbítrio habitacional. A memória era atravessada por vislumbres do passado. Invadia-me a imagem de aí ter havido, nesses longínquos anos em que frequentei a escola, um acampamento de ciganos e de eu ter levado, talvez numa daquelas caritativas iniciativas escolares que haveria na época, material escolar como prenda de Natal para alguma criança do acampamento. Neste andar absorto diante da escola, sinto o vento a bater-me no rosto. É aqui que sinto uma comoção. Fico estático, perplexo, preso ao chão, aspirando avidamente aquele ar. Um passado com mais de 30 anos chegava até mim através do vento que corria. Mais do que as árvores mortas, mais do que o estranho acampamento de ciganos visitado pelo Natal, era a forma do vento correr que me perturbava. Desenterrava uma experiência de que eu não suspeitava sequer a existência. A forma do vento correr diante daquela escola tinha sido, para mim, tão peculiar que nunca, na verdade, a esquecera verdadeiramente. Ela estava ali pronta para, na primeira oportunidade, me assaltar e me fazer regressar a um mundo que eu julgara perdido para sempre.Quando Sebald diz, logo a seguir, “Olga, como mais tarde me contou, teve uma crise de choro. Pelo menos, quando saiu de novo para a Alberchtstrasse, onde eu a esperava, encontrava-se num estado de comoção como nunca lhe tinha visto”, diz algo que eu compreendo perfeitamente. Esse encontro com um passado insuspeitado, esse reconhecimento de um acontecimento constitutivo de “si-mesmo”, mas que se encontra soterrado, provoca uma comoção. Como a personagem romanesca, também eu, perante o vento que corria, me senti perturbado e inquieto por essa estranha visita do passado, dum passado que vinha sob a máscara tão pouco definida do vento que corre. Ainda hoje, passados anos, sinto uma estranha inquietação quando penso nessa experiência. Toma conta de mim uma volúpia feita de prazer e terror. Prazer do reconhecimento; terror de que entre o que sou hoje e o que fui nesse longínquo passado nada tenha existido, ou o que existiu apenas tivesse sido uma longa e prolongada mentira.
A professora de Olga ensinava, tal como antigamente. O vento corria diante dessa minha primeira escola, tal como antigamente. “Tal como antigamente”; talvez baste esta expressão para iluminar por que razão gosto tanto da obra de Sebald. Enganar-se-á quem pensar que este “tal como antigamente” é uma expressão de saudade. Nessa expressão, encerra-se todo o mistério do tempo e do ser no tempo.
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Marcadores: Heimat, Literatura, Pensar, Tempo
04/04/07
Estar-fora-do-tempo
O estar-fora-do-tempo, disse Austerlitz, que ainda há pouco vigorava tanto nas regiões atrasadas e esquecidas do nosso país como nos continentes por descobrir além-mar, continua a vigorar mesmo numa metrópole temporal, como Londres. Os mortos estão fora do tempo, os moribundos e todos os doentes, em casa ou nos hospitais, e não apenas estes, basta um tanto de infelicidade pessoal para nos separar do passado e do futuro. Na verdade, disse Austerlitz, nunca possuí qualquer relógio, de parede ou despertador, de bolso e muito menos de pulso. Os relógios sempre me deram vontade de rir, coisa basicamente mentirosa, talvez porque sempre resisti ao poder do tempo graças a um impulso interior que eu próprio não entendo muito bem, sempre me fechei à chamada actualidade, na esperança, penso eu hoje, disse Austerlitz, de que o tempo não passe, não seja passado, de poder ir atrás dele, de encontrar à chegada tudo como dantes, ou, melhor dizendo, de descobrir que todos os momentos do tempo existiram simultaneamente, caso em que nada do que a história conta seria verdade, os acontecimentos não aconteceram, estão à espera de acontecer no momento em que pensarmos neles, embora, naturalmente, a perspectiva pouco animadora de eterna infelicidade e interminável dor fique assim em aberto. [W. G. Sebald, Austerliz. Teorema]
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