31/12/08

Há um ruído de corvos no lancil do passeio.

Há um ruído de corvos no lancil do passeio.
Ao longe ouve-se a agonia de uma ambulância,
o estrídulo repicar do aço sobre um incêndio de palha.
Se as vozes alvorecem a cantar, adormecem surdas,
deixando um rasto de sangue e saliva
na orla negra, um dia rio lhe chamaram.

Apagaram os faróis e o mar é um cemitério de barcos
carcomidos pelo sal, um depósito de algas negras,
sacos de plástico, peixes e almas em decomposição.
Assim começam todos os anos e assim terminam.
Mas o ardor do álcool e a ilusão do sangue
semeiam quimeras ali onde os dias germinam.

25/12/08

José Carreras, Diana Ross, Placido Domingo - O Tannenbaum

Pois é, estamos mesmo em época de Natal.

Stille Nacht (Silent Night) German - Sing Along

Este "Stille Nacht", cantado na língua original pela Nana Mouskouri, é especialmente dedicado à leitora Maria Correia. Um Bom Natal.

24/12/08

Luciano Pavarotti - O Holy Night

Bom Natal a todos.

23/12/08

22/12/08

Fora do tempo


De uma coisa não se pode acusar Bento XVI: de flectir o joelho perante o espírito do tempo (aqui). A posição sobre o denominado casamento homossexual e a recusa de uma imagem de Papa pop-star, tão ao gosto de uma certa juventude católica, são sinais de que no Vaticano está alguém que sabe o que quer e sabe, fundamentalmente, que não se deve vender os princípios para comprar sufrágios ou banhos de multidão. Por vezes este Papa faz-me lembrar o velho professor do Violência e Paixão, de Visconti, aquele filme que tanto agrada ao meu amigo Zé Ricardo. Também a mim, diga-se de passagem

19/12/08

Jornal Torrejano, 19 de Dezembro de 2008

Nova edição on-line do Jornal Torrejano. Destaque para a aprovação do orçamento municipal, um orçamento na ordem dos 70 milhões de euros. Referência também para apresentação, por António Rodrigues, da taxa de execução do programa Turris XXI. Nota ainda para o sentimento de insegurança que atemoriza torrejanos.

Na opinião comece-se com o desporto. Carlos Henriques escreve Benfica fora; Porto dentro, Fernando Faria Pereira, O problema do Pai Natal, Inês Vidal, Tucha, Jorge Cordeiro Simões, A nova biblioteca, José Ricardo Costa, A Biblioteca, José Trincão Marques, Educação e democracia, Santana-Maia Leonardo, O ovo da serpente.

Ficamos por aqui, para a semana haverá mais, assim o determinem os fados. Bom fim-de-semana e boas compras natalícias.

18/12/08

O governo conseguiu


O governo conseguiu. Depois de um elevado esforço e uma política persistente, o governo de Sócrates conseguiu que mais de 80% dos professores passassem a odiar a sua profissão. Esta é a percentagem de docentes que, se pudessem, se reformariam mesmo com penalização. É evidente que isto não incomoda o governo e deve dar um sentimento de alegria a Lurdes Rodrigues e acólitos. Aliás, que interesse tem um estudo que não foi levado a cabo pelo ISCTE?

Grupo Corpo - Bach (1) - Belo Horizonte

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Para começar bem o dia.

Grupo Corpo - Bach (2) - Belo Horizonte

Para começar bem o dia.

Grupo Corpo - Bach (3) - Belo Horizonte

Para começar bem o dia.

Grupo Corpo - Bach (4) - Belo Horizonte

Para começar bem o dia.

17/12/08

Vision of Hildegard von Bingen-voice Hana Blochová-KVINTERNA

O problema da educação


Há dias, ao ler o trabalho de um aluno, descobri a essência do problema educativo português. Dizia, esse aluno, que com aquele trabalho esperava inalar muitos conhecimentos. Considerando o desempenho geral dos alunos portugueses, concluí que a questão não é do foro da pedagogia ou das ciências da educação, mas da otorrinolaringologia. Muito nariz entupido há por esse país fora.

O desespero


Bento XVI alvitrou que a crise económica poderia ser um caminho para redescobrir o verdadeiro sentido do Natal. Como já muitas vezes disse, sou um admirador de Bento XVI. Mas, mais uma vez, não posso partilhar a esperança dele. Esperar que a crise económica possa abrir o coração dos homens ao mistério do Natal, ao valor da simplicidade e ao sentido da pobreza representado pelo menino que nasce no presépio é desconhecer o coração dos homens. A angústia provocada pela crise económica não é metafísica, é apenas económica. Não é ao divino que toma carne que os homens irão orar, mas ao deus do dinheiro. Mas não foi aos sacerdotes desse deus que aquele que nasceu no presépio de Belém expulsou do templo?

Talvez as palavras do papa Ratzinger sejam não o exercício da virtude teologal da esperança, mas apenas o sintoma de um fundo e mal disfarçado desespero.

15/12/08

Chick Corea & Hiromi Uehara - Spain

Cegueira por cegueira


Uma das marcas essenciais de uma sociedade civilizada é a distinção entre justiça e vingança. Por mais repugnante que seja um crime, e este ocorrido no Irão é um crime repugnante (a violência de um homem sobre uma mulher é absolutamente atroz), é inaceitável que a justiça seja um acto de vingança. A vítima, que cegou devido a um ataque com ácido de um pretendente rejeitado, convenceu o tribunal a aplicar idêntico tratamento ao culpado. Mesmo que a nossa indignação esteja de acordo com a exigência da vítima, a razão sabe que a vingança e o «olho por olho...» são ainda formas mais perversas de injustiça. Basta este pequeno exemplo para percebermos que a distância que vai da Europa ao Irão é muito maior do que o espaço físico que há entre ambos.

Explosões gregas

Tenho evitado escrever sobre os acontecimentos da Grécia. Há, no entanto, uma coisa que merece ser realçada: a morte ocasional de um jovem de 15 anos, mesmo às mãos da polícia, está longe, muito longe, de poder explicar todos estes dias de tumultos. A sociedade grega esperava por alguma coisa para poder dizer o que lhe vai na alma. E aquilo que lhe vai na alma está longe de ser luminoso. Alguns articulistas vêm na explosão social dos últimos dias um protesto contra o governo de direita de Costas Caramanlis. É verdade, mas é só uma ínfima parte da verdade. Aquilo que emerge é um protesto mais radical contra um modo de vida e contra o próprio Zeitgeist. Dissociar estas explosões daquilo que tem sido a espiral de escândalos da economia mundial e do modo de vida que ela, nos últimos vinte anos, impôs é querer tapar o Sol com uma peneira. A única coisa que importa saber é se estes acontecimentos se ficam pela Grécia ou se se espalham Europa fora, nomeadamente num país como Portugal, onde o equilíbrio social é muito precário.

14/12/08

Camarada Enver Hodja

Como na totalitária Albânia, Paulo Portas, o querido líder do CDS-PP, conseguiu um histórico resultado na reeleição para chefe do seu pequeno partido (95,1%). Agora que o camarada Paulo Portas está reeleito já pode a pátria dormir descansada.

13/12/08

Robert Ambrose Conducts Tristan Murail (part 1)

Por estranho que possa parecer, eu gosto da música do compositor francês Tristan Murail. Mas isso não é sinal de qualquer elevação espiritual, ou de uma extraordinária predisposição intelectual, ou mesmo de um refinamento do gosto. É antes sintoma da minha desagregação mental, da dilaceração do pensamento, da guerra civil que me percorre o cérebro e lança neurónios contra neurónios, hemisfério contra hemisfério. Começo assim por ouvir a anunciação do anjo da guerra e os exércitos entram em acção. A terra arde e todas as sensações que nascem em mim são estilhaços de vidro e fragmentos de granadas. Ao longe, oiço trovões. Como o mundo, tudo em mim se cinde. Tento sintonizar o ouvido na música e uma volúpia de cinza e fogo arrasta-me para fora do silêncio da noite. A madrugada ainda não é um risco no horizonte, apenas dois sóis se chocam no interior da galáxia, talvez o meu cérebro, dirão.

Marianne Faithfull - So sad

Poetas Torrejanos Contemporâneos


Foi hoje o lançamento desta colectânea. Poetas Torrejanos Contemporâneos reúne produção de 23 poetas ligados a Torres Novas, uns pelo nascimento, outros pela vida, que cá os fixou. Neles se inclui este blogger. A iniciativa e o trabalho de recolha foi de António Mário Lopes dos Santos, que também prefaciou e anotou a obra. A capa é de Joana Santos.

A edição, de 1000 exemplares, deve-se à coragem de Joaquim Cabral, da livraria Ponte do Raro e da sua Ponte Editora.

Eis o nome dos culpados: Alexandre Saldanha da Gama, Ana Catarina Faustino, António Lúcio Vieira, António Mário Lopes dos Santos, Carlos Nuno, Eduardo Bento, Emília Duque, Hugo Santos, Jorge Carreira Maia, José-Alberto Marques, José Brites, José Coêlho, José Duarte da Piedade, Julião Bernardes, Luís Simões Gomes, Maria Adelaide Oliveira Simões, Maria Fernanda Pinto, Maria Sarmento, Maria Zabeleta, Martinho Branco, Moisés David Ferreira, Paula Bordalo Faustino, Pedro Barroso.

12/12/08

Nico - My Heart Is Empty (live)

Jornal Torrejano, 12 de Dezembro de 2008


Na opinião, como é hábito, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Na opinião escrita, o périplo começa com Carlos Henriques e Benfica arrasador, depois passa por Carlos Nuno e O complexo do pai, Inês Vidal e Aparentemente, para acabar com José Ricardo Costa e 27.

Para a semana haverá mais, assim o determinem os astros. Bom fim-de-semana e vá vendo o que se passa por aqui indo até ao Jornal Torrejano.

Encerrado

Encerrado, diz o SE Jorge Pedreira. Está fechado o processo de negociação sobre a avaliação de professores. É possível. Aliás, essa é a única coisa que este governo consegue fazer: encerrar. Estou a exagerar. O governo de Sócrates também consegue fechar, liquidar, tapar, trancar, vedar, cercar, enclausurar. É isso que os portugueses, e não apenas os professores sentem. A sua vida está encerrada, fechada, liquidada, tapada, trancada, vedada, cercada, enclausurada. Os portugueses, pela mão do ilustre Sócrates, vivem asfixiados. Uma asfixia lenta, mas impiedosa. Ao elergermos esta gente assinámos a autorização da nossa eutanásia enquanto povo. Sim, sr. Secretário, está encerrado. Só a medíocridade tem as portas abertas neste país.

11/12/08

Sinais políticos

A aprovação do Estatuto dos Açores e a continuação da guerra do Ministério da Educação com os professores são dois sinais políticos importantes. Nas hostes governativas perpassa a convicção de que Cavaco Silva é irrelevante e que a guerra com os professores reforça a adesão eleitoral a Sócrates. Estes sinais são importantes e ninguém se deve confundir. Sócrates pode ser um mau governante, mas é um bom político. É preciso que os protagonistas, como agora se diz, não baralhem os planos. É mais fácil um bom político alcançar uma maioria absoluta do que um bom governante.

Tocata e fuga

Pego num velho livro de David Mourão-Ferreira, entre a sombra e o corpo, composto por 30 pequenos poemas, todos eles constituídos por dois hexassílabos culminados, rematados como diz o próprio poeta, por um trissílabo [Assim, por exemplo: «Quantas mãos Quantos dedos / para que em seda cedam / as paredes]. Os poemas são de um erotismo musical quase comovente. Mas, como muitas vezes, há outras coisas que me prendem ao livro. Logo a começar a capa, aquela velha capa da Moraes Editores, a capa da colecção Círculo de Poesia. Depois espreito o ano de edição e descubro que é de 1980, de Novembro de 1980. O meu exemplar é da primeira edição. Vou ver se o livro tem o meu nome como usava fazer até certa altura. Descubro dois nomes, o meu e o de uma mulher, aquela que na altura partilhava a vida comigo. Vejo também a data da compra, 31 de Dezembro de 1980. No último dia do ano de 1980, comprei um livro de poesia. Não consigo já descobrir onde. Isso foi quase há 28 anos. A Moraes Editora acabou, deixei de partilhar primeiro os livros e depois a vida com a dona daquele nome, o poeta morreu, há muito que deixei de pôr o quer que seja nos livros que compro. Resta o essencial, aqueles pequenos poemas, poemas como este: «Bebo mais do que toco / E que insónias afogo / neste copo». Talvez não haja mais nada a não ser isso, as insónias que afogamos nos copos ou nos corpos que bebemos.

Messiaen • Quartet for the End of Time [w/dance]

Passaram ontem 100 anos do nascimento do compositor francês Olivier Messiaen. Esta post vem com um dia de atraso, mas este blogger já esteve, enquanto blogger, em melhor forma. Ainda por cima, Messiaen é um dos seus compositores contemporâneos favoritos. Este estranho quator foi escrito num campo de prisioneiros, em Görlitz, na Silésia e estreado perante uma não menos estranha audiência em 15 de Janeiro de 1941: prisioneiros das mais diversas proveniências e oficiais nazis (cf. aqui o post de Pedro Mexia com o seu artigo no Público de dia 6.).

10/12/08

Irritações e ajudas

Parece mesmo que o confronto entre o ME e os professores está a deixar marcas profundas no PS. Se assim não fosse, o que explicaria o acinte de Sócrates ou a benévola ajuda do Dr. Soares à ministra. No Educação do meu Umbigo, Paulo Guinote dá a resposta merecida a Sócrates. Seja como for, os professores devem preparar-se para o pior. É provável que Sócrates ainda ache que esmagar os professores, humilhá-las e destruir a escola pública dá votos. E quando cheira a votos nada detém esta gente. A educação, em democracia, sempre foi o terreno fértil para a demagogia mais tresloucada. As asneiras que se fazem, para não se falar em verdadeiros crimes de traição, só se notam anos depois. Mas o mais notável deste conflito reside no facto de ele mostrar que as governações ocidentais se transformaram em inimigas declaradas dos seus povos e dos interesses mais fundos destes. A anarquia semeada pelo actual governo nas escolas portuguesas é apenas um mero exemplo. Todos nós já percebemos que o primeiro-ministro está mais preocupado com banqueiros do que com professores, alunos ou pessoas que precisam de ter os seus filhos em escolas públicas decentes. No fundo, essa gentalha não conta.

09/12/08

Maiores de 23

Estava na cara que seria assim, mas perante a demagogia de todos terem direito a tudo, criou-se mais um problema no ensino superior. O Público faz um belo resumo da situação no artigo «Alunos "maiores de 23" não estão nos cursos que garantem mais e melhores empregos». Mas alguém, com um mínimo de seriedade, esperaria que esses alunos, muitos sem a escolaridade obrigatória, escolhessem os cursos com matemáticas, físicas ou químicas? Que exemplo se pretende, com isto, dar aos sub-23? De naufrágio em naufrágio...

08/12/08

07/12/08

Callas & Tebaldi

Colapso?

A falta de uns deputados do PSD a uma votação sobre a suspensão do actual modelo de avaliação de professores gerou um coro de protestos e um excelente artigo de António Barreto, no Público de hoje (ler Colapso). Duvido, porém, que a metáfora utilizada, colapso, para caracterizar a situação política portuguesa seja adequada. No termo colapso pensa-se uma queda repentina. Mas não é isso o que se está a passar. Para haver uma queda espectacular seria necessário que aquilo que caísse tivesse subido a uma certa altura e aí se tivesse mantido. Ora, há muito que as instituições, os protagonistas políticos e os valores que regem a ambos são rasteiros. O que assistimos é, assim, a um prolongado desmoronamento das instituições e valores essenciais. É um desmoronamento que não causa emoção, pois todos, há muito, percebemos que tudo se está a dissolver, entregue a actores de terceira e quarta categorias. Não, não é um colapso. É uma queda lenta, previsível e irremediável, que apenas provoca um esgar de irritação e um leve bocejo.

Noções difíceis e esforço inútil

Todavia, nos nossos dias, vive-se bem sem esses códigos e a sua persistência é que é, pelo contrário, considerada insuportável, ou um entrave às liberdades elementares. Um rapaz, que regressava de umas férias passadas numa comunidade (laica) de jovens, no estrangeiro, respondeu a um jornalista que o que mais lhe agradara fora ter passado um mês sem ter de dizer «obrigado» ou «desculpe». E neste caso os seus pais ainda se devem ter esforçado, sem dúvida, por lhe ensinar essas noções tão difíceis… Muito mais numerosos são os casos dos que julgam já não ser necessário, sequer, um esforço tão inútil. [Philippe Ariès (1977). Prefácio a A Civilidade Pueril, de Erasmo]

Ah, note-se que Ariès estava a escrever nos anos 70 do século passado, na civilizada França.

Ser espanhol?

É preciso ter o cuidado de ter os dentes limpos; embranquecê-los com a ajuda de pós é completamente efeminado; esfregá-los com sal ou alúmen faz mal às gengivas; lavá-los com urina é um costume espanhol. [Erasmo, A Civilidade Pueril]

Domingo

Parece que ontem foi sábado, mas nem dei por ele. Se tudo estiver a decorrer como o convencionado, hoje será domingo. Mas não consigo perceber se é o dia em que a semana acaba ou aquele em que uma nova começa. Sinto apenas o vazio dos domingos, a chuva que cai e o fastio da eterna repetição do mesmo.

05/12/08

Carrilho e a educação

Algum pensamento sobre a crise profunda da educação pode ser lido no blogue de Manuel Maria Carrilho, Contingências. O post reproduz um artigo no DN, de 29 de Novembro passado. Mas vale a pena ler

Jornal Torrejano, 5 de Dezembro de 2008

Está já online a edição de hoje do Jornal Torrejano. Notícia grande é a inauguração pelo Presidente da República, Cavaco Silva, do nova Biblioteca Municipal. Referência também para o alerta do CRIT: 400 pessoas com deficiência permanente, no concelho.

Na opinião, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Na crónica escrita, Carlos Henriques escreve Benfica falha o 1.º lugar, João Carlos Lopes, Janelas, José Ricardo Costa, O Fascismo da Avaliação (crónica reproduzida mais abaixo), Miguel Sentieiro, A arte do Simulacro e Santana-Maia Leonardo, Alunos ou burros de carga.

Para a semana haverá mais, assim o disponha o fado. Então, um bom fim-de-semana e pode sempre dar uma espreitadela no site do Jornal Torrejano, com a sua actualização permanente de notícias locais.

José Ricardo Costa - O Fascismo da Avaliação

Eu sou professor e esta crónica é sobre avaliação. Mas não é sobre a avaliação dos professores. É sobre a cultura da avaliação ou a religião da avaliação.

Qualquer trabalhador deve ser avaliado. Mas ser avaliado não é o mesmo que uma cultura da avaliação. A cultura da avaliação leva-nos a uma espécie de fascismo da avaliação que, a par do fascismo higiénico, sanitário ou estético, tendem a tornar as nossas sociedades democráticas mais totalitárias e opressivas.

É fácil avaliar o desempenho de um trabalhador. Em qualquer empresa, hospital, escola, loja ou oficina, sabe-se quem desempenha bem ou mal o seu papel. Se é assíduo ou não, se chega ou não atrasado, se produz ou não produz, se faz bem ou não o que lhe pedem para fazer.

Mesmo na minha profissão, uma das mais difíceis de avaliar, sabe-se perfeitamente quem são os dois ou três profissionais que, em cada escola, por isto ou aquilo, desempenham mal as suas funções.

Ora, se em cada serviço há pessoas que, por inépcia ou irresponsabilidade, desempenham mal as suas funções, será apenas uma questão de intervir superiormente para corrigir os erros e, se não houver da parte do avaliado qualquer interesse em corrigir, intervir disciplinarmente.

Porquê então esta obsessão pela avaliação, por esta moderna cultura da avaliação? Comecemos pelo mais óbvi a questão financeira. Pagar menos ao maior número de pessoas. Mas, depois, falta a parte ideológica: a manipulação das ideias, uma mentalidade que legitime esta cultura e que leva as pessoas a aceitar a cultura da avaliação como sendo a coisa mais óbvia do mundo.

O que está, então, por detrás da avaliação? A ideia de que nunca somos suficientemente bons, que podemos fazer melhor, que há sempre alguma coisa que ainda não fizemos. E quando se trata de pensar no que é ainda possível vir a fazer, a imaginação fica descontrolada e pode começar mesmo a delirar.

Há tempos, na minha escola, estive a analisar os critérios de avaliação que permitiriam atribuir um ”Excelente” ao professor. Fiquei em estado de choque. Caso um professor os aplicasse para ser excelente, deveria ser expulso do ensino. Só um alienado poderia cumpri-los. Admito que haja professores assim. O problema é quando tais professores, considerados pelo poder como uma espécie de elite sacerdotal, passam a funcionar como modelos.

Mas atenção. Ninguém fica abandonado. Aí está a avaliação para nos ajudar, inspirar, ensinar o caminho. Ser avaliado é um privilégio, uma catequese que visa uma perfeição profissional cada vez maior. Devíamos mesmo beijar a mão daqueles que zelam por nós, que pensam e trabalham para nos avaliar e nos ajudam a superar-nos a nós mesmos.

Isaiah Berlin é um filósofo muito cá de casa. Um dos seus principais contributos é a célebre noção de liberdade positiva. Em si mesma, não é má de tod representa o desejo do indivíduo ser dono de si próprio, autónomo. Belíssimo.

Só que há aqui um problema. Eu não sou ainda o que, num mundo ideal, deveria ser. Sou imperfeito, tenho limitações, erro. Se ficar entregue a mim próprio não sou capaz de ser eu próprio, cumprir o meu desejo de ser eu próprio.

Mas não há problema. Há quem me possa proteger, ensinar, guiar: o Estado, o Partido, esta ou aquela instituição. Mais: há regras para nos ensinar o que todos devemos fazer para uniformizarmos os nossos comportamentos, para que ninguém fique isolado, marginalizado, perdido. Há um farol que nos ilumina, que nos tira as imperfeições, que não nos deixa errar.

A actual cultura da avaliação serve para os trabalhadores terem consciência que ainda não estão a conseguir ser o que gostariam de ser mas que, com a sua permanente auto-avaliação, poderão lá chegar.

Décadas depois de Hitler e Estaline, chegou a vez das nossas democracias liberais nos protegerem de nós próprios, dos nossos erros e imperfeições. Ensinam a sermos o que nós, no íntimo de nós mesmos, gostaríamos de ser: belos, saudáveis, perfeitos no trabalho, mais eficazes.

O actual PS não deixa os seus créditos por mãos alheias. Infestado de sociólogos, engenheiros sociais, planificadores, avaliadores, o PS não nos abandona, o PS protege-nos do mau azeite, das bolas de Berlim, da obesidade.

Como professor, também o PS me quer ajudar. Avalio-me e poderei então dizer, feliz: errei, falhei, sou imperfeito, mas, graças ao PS, pude descobri-lo e assim melhorar. Melhorar, melhorar, melhorar, como ovos que se vão sucessivamente partindo para fazer uma omeleta que nunca chega verdadeiramente a aparecer.

Será que não posso explicar melhor a matéria aos alunos? Não haverá ainda mais estratégias para eu poder explorar? E projectos? Será que estou a desenvolver os projectos que façam de mim um professor ainda mais activo e dinâmico? E será que estou a usar suficientemente as novas tecnologias? Estarei a ser suficientemente moderno? E será que não posso ter ainda mais um bocadinho de compreensão e paciência com um aluno que me chama ”filho da puta”? Será que estou a dar o meu total contributo para poder melhorar o ensino? Não poderia dar um bocadinho mais de mim mesmo? Não poderia ir mesmo a casa do aluno que abandonou a escola e trazê-lo de volta? Posso ou não posso? Posso ou não posso? Claro que posso, há professores que o fazem: os excelentes.

Pois, sabem o que eu digo a todos esses patifes do PS que nos governam? Vão dar banho ao cão. E não digo outra coisa porque sei que há senhoras de idade que lêem este jornal.
(Jornal Torrejano, 5 de Dezembro de 2008)

04/12/08

A graça de um bom governante

O Ménon é um diálogo de Platão, famoso pela experiência que Sócrates faz com um escravo ignorante para demonstrar que, mesmo sem ensino, ele já trazia um determinado saber. É a famosa demonstração da teoria da reminiscência. No entanto, aquele diálogo platónico tem outros motivos de interesse. Ele gira em torno de uma discussão sobre se a virtude (excelência) política é ensinável. A argumentação inclina-se para a impossibilidade de o fazer. Mas o que me interessa aqui é a conclusão. O que fará de um homem político um bom homem político? De onde lhe advirá a virtude ou excelência política? Do saber, da ciência? Não. Os homens políticos que dirigem rectamente as cidades não se distinguem, em última análise, dos poetas, ou dos adivinhos. Possuem um dom divino. Esse dom divino não é assim transmissível pelo ensino. Ou os deuses o concederam ou não. Esta tese não deixa de ser mais interessante do que a da República, onde Platão argumenta em favor do rei-filósofo, aquele que governa porque sabe o que é a Justiça e o Bem. E tem uma vantagem essencial: mostra a experiência da humanidade relativamente aqueles que a governam. Um bom governante, um governante justo e moderado, parece ser uma excepção, a dádiva dos deuses. Em linguagem cristã, uma graça. Em Portugal, por exemplo, parece que há muito que a graça não visita os nossos governantes.

03/12/08

Schubert - Ave Maria - Jessye Norman


Entrámos na época natalícia. Esqueçamos a azáfama e o comércio das prendas. Saudemos: Avé Maria, ó cheia de graça. Sim ouvir esta voz é uma das provas da existência de Deus e da graça que habita no seio das mulheres.

As causas da única e verdadeira oposição

É muito curioso que certos blogues dados à política se recusem a assinalar o óbvio: a verdadeira e a mais frontal oposição a este governo vem dos professores. Parece ser o único grupo social que percebeu a essência da política socratista: o vazio, o niilismo, a destruição de qualquer coisa que ainda funcione. É provável que muitos e muitos professores, talvez a maioria, não tenha sequer consciência plena do que está a fazer. Mas o instinto docente, aquilo que leva cada um a enfrentar a sua profissão, foi um poderoso sinalizador de que não é possível continuarmos na destruição de valores essenciais para as nossas sociedades: a disciplina, a ordem, o trabalho, o reconhecimento do mérito. Os professores podem honrar-se de estar a defender os valores essenciais que a comunidade depositou nas suas mãos para transmitir às novas gerações. Nunca o niilismo foi tão arrogante, nunca a destruição dos valores essenciais a transmitir às novas gerações foi tão longe, como com o actual governo. Nunca um grupo social foi tão claro na defesa dos valores essenciais. O que está verdadeiramente em causa é muito mais do que o método de avaliação de professores, a divisão artificial de uma carreira ou um Estatuto corporativo. O que está em causa é a defesa dos valores essenciais que permitem que a nossa comunidade continue a existir no futuro. O que está em causa é fazer frente ao niilismo que avança ferozmente e que tem neste governo um agente esforçado e dedicado.

Qual a causa que move o governo?

Mais um dia de conflito entre professores e governo. Muitos de nós, onde me incluo, decidiram abdicar de um dia de salário para protestar contra a política educativa de Sócrates e de Lurdes Rodrigues. E, no entanto, todos nós já percebemos qual é a política educativa deste governo: chegar às eleições e dizer que já há avaliação de professores, como se antes deles não houvesse. Se o processo de avaliação antes da manifestação de Novembro era perverso e diabolicamente burocrático, os remendos tornaram-no em qualquer coisa de irrisório, numa desconsideração pela racionalidade dos professores. A única coisa que move Sócrates são os votos, o poder apresentar qualquer coisa ao eleitorado, nem que seja mais uma farsa na escola pública. É isto o que move o governo. Mas isto é também a confissão não apenas da irresponsabilidade dos governantes, como da falência de uma maioria absoluta, a qual para pouco ou nada serviu. É o que dá entregar a governação do país a gente como esta. E eu, infelizmente, também votei neles.

02/12/08

Penguin Cafe Orchestra - Wildlife

Reformismo educacionais

Afinal, a estupidez educacional não nos cabe apenas a nós. Eis um interessante artigo do Guardian, de Peter Mortimore. Antes de começar a falar na Austrália, parecia que ele se estava a referir ao governo Sócrates.

Amanhã farei greve

Raramente adiro às greves de professores. Amanhã, porém, farei greve. São três motivos essenciais que me levam a fazê-lo. Ei-los, dos mais «egoístas» aos mais «altruístas».

1. Faço greve porque gosto de ensinar, mas ensinar mesmo. É isso que faz de mim professor. Este governo criou tal confusão nas escolas que o acto de ensinar se tornou irrelevante. A avaliação de professores projectada é apenas o ataque decisivo contra os professores que o são verdadeiramente, contra aqueles que têm como finalidade profissional transmitir o saber que lhes foi confiado para o distribuir aos outros. Esta avaliação de professores, como outros actos deste governo, visa a desvalorização do ensino.

2. Faço greve também pelos meus alunos. Os meus alunos têm direito a uma escola decente e a professores que ensinem. Se os professores foram ferozmente prejudicados e humilhados pelo governo de Sócrates, as principais vítimas foram os alunos. Foi-lhes roubada, mais uma vez, a possibilidade de terem uma escola que os prepare seriamente para os desafios que terão pela frente.

3. Faço greve porque acredito na missão da escola pública. Não no simulacro de escola que este governo pretende impor aos portugueses, mas de uma escola pública marcada por níveis elevados de exigência e de apoio aos alunos. Os alunos provenientes dos meios mais desfavorecidos não precisam de uma escola pública baseada na facilidade. Pelo contrário, a única forma deles saírem dessa situação social é terem à sua disposição uma escola pública de grande qualidade.

BPP - O dinheiro na arena da vida

Imagem de Tiago Vital

Nunca a publicidade foi tão premonitória. Mas, como todos sabemos, o dinheiro não é igual para todos. Assim, não tendo certamente que ver com as personagens que rodeiam o BPP, o Estado, isto é o dinheiro dos contribuintes, tomou a sábia decisão de proteger o dinheiro do BPP das investidas do toiro, quero dizer da vida. Na nossa república socialista, a única coisa que comove o governo são as fragilidades dos poderosos. Seria desagradável aquela gente toda perder o seu Banco de gestão de fortunas, ou as fortunas que por lá estão a ser geridas. Cada vez me comove mais o liberalismo dos liberais e empreendedores portugueses. O liberalismo português nunca passou da ideologia de uns quantos figurões que por tudo e por nada se voltam para o Estado, como uma criança se volta para o pai. Ao menos que nos poupassem os ditirambos à mão invisível e à eficiência mercado.

Afrontas - o estatuto dos Açores

Sócrates julga poder dispensar a cooperação estratégica com Cavaco Silva. Em vez de um gesto de boa-vontade para com o Presidente, o governo decidiu afrontá-lo e aprovar o estatuto da Região Autónoma dos Açores tal e qual o vetou Cavaco. Se achei despropositada a encenação da comunicação de Cavaco sobre o assunto, também não posso deixar de achar tonta e irresponsável a actual decisão do governo. Se Cavaco não tinha razão na forma, tinha-a no conteúdo.

A gente que tomou conta do Partido Socialista, no entanto, está convicta de duas coisas: 1. de que podem afrontar todos os poderes instalados, desde que isso não ponha em causa os votos que poderão obter nas urnas. Neste caso, julgam que Cavaco é irrelevante; 2. que depois da sua majestosa passagem pelo governo, nada deve subsistir como estava, mesmo que o país se desagregue e ameace desaparecer.

Atenção, porém: nem Cavaco é irrelevante, nem a arrogância é boa conselheira e nem todos estamos interessados em ver destruir uma herança quase com mil anos. As pessoas começam a ficar cansadas desta gentinha.

Rabih Abou-Khalil - Ma Muse M'amuse

01/12/08

Primeiro de Dezembro


Agora está na moda ser iberista, ou pelo menos não ser contra a ideia. Eu confesso que gosto imenso de Espanha. Gosto mesmo das múltiplas espanhas que existem. Mas como não gosto nada do Zeitgeist, eu quero aqui prestar homenagem àqueles que se lembraram de defenestrar o Miguel de Vasconcelos e correr com os espanhóis de cá. Já estou velho para mudar de nacionalidade. Nasci português, para bem e talvez mais para o mal, que morra português. Apesar de republicano confesso, hoje bebo um copo em memória de D. João IV.

Estamos todos mais descansados

Imagem do Jumento
Noticia o Sol que, para o diário conservador espanhol El Mundo, o nosso primeiro-ministro, o eng.º Sócrates, é o sexto homem mais elegante do mundo. Depois dos ingleses terem eleito o nosso ministro das Finanças como o pior da União Europeia, todos nós sentimos uma recompensa com a brilhante distinção dado ao nosso chefe do governo. Em cosmética, de facto, nunca fomos tão maus quanto isso. Os portugueses, sem excepção, torcem por Sócrates. Para o ano será o mais elegante dos elegantes, mesmo que o país se arraste sem destino nem comando e ameace, ao nível da qualidade de vida dos cidadãos, cair para fora da Europa.

Vantagens

Também em relação às outras artes, o orador e a retórica têm, sem dúvida, a mesma vantagem: a retórica não tem necessidade de conhecer a realidade das coisas; basta-lhe uma certa técnica de persuasão que ela inventou para parecer, perante os ignorante, mais sábia do que os sábios. [Platão, Górgias, 459 b]

29/11/08

Questões de linguagem


Diz o Sol que Jerónimo de Sousa reforçou o léxico marxista. Este teria voltado em força, depois da liderança de Carvalhas. É provável que assim seja. Mas o problema não terá a ver com a diferença de personalidades, mas residirá noutro lado. No tempo de Carvalhas, ainda não era claro o que significava o triunfo global da ideologia liberal. A possibilidade de democracias fundadas em economias de mercado, mas com amplas classes médias, não se tinha esfumado. Hoje, como já há uns anos a esta parte, é notório o caminho que o Ocidente decidiu trilhar. A social-democracia converteu-se ao imaginário liberal e tem-se assistido ao retraimento das classes médias, à sua pauperização, à sua proletarização.


O exemplo mais interessante em Portugal é o dos professores. Até ao governo de Sócrates, os professores, pelo seu número, representavam um sector estruturante das classes médias portuguesas, nomeadamente na província. Mas o novo estatuto da carreira docente, que implica perdas salariais ao longo da carreira entre 25% a 50%, deu início ao processo de proletarização do professorado português. Depois, ainda ficam admirados da influência da FENPROF e do senhor Mário Nogueira. Este exemplo, é apenas um sintoma do que se vai seguir, do nascimento de novas formas de proletarido, já não idênticas ao operariado tradicional, mas talvez não menos radicais (veja-se ainda o caso dos professores).

Isto foi a janela de oportunidade para o PCP retornar aos seus bons velhos tempos. É isto também que permite a Jerónimo de Sousa dizer com convicção coisas tão extraordinárias como «Sabemos do ódio que provocamos nos nossos inimigos». Se as elites políticas, mesmo as sociais-democratas, decidem aceitar como o único argumento válido o liberal, não podem esperar que o terreno social fique tranquilo. Se não se quer uma sociedade onde um Partido Comunista tenha influência, então que se abandone o sonho maximalista presente na ideologia contemporânea e se volte ao ideário grego da justa medida e do meio-termo. Só em sociedades equilibradas se evitarão alternativas radicais. O renascimento do radicalismo marxista, mesmo que seja apenas um facto lexical, mas não o é, é apenas o contraponto do radicalismo que tomou conta das elites económicas, sociais e políticas. Não há nada de novo sob o Sol.

O caso único do PCP

Titula o Público, a propósito de mais um congresso do PCP, o seguinte: PCP é caso único de influência na Europa. Mas não será também Portugal um caso único na Europa? Não será a sociedade portuguesa, com a sua injustiça e ineficiência social estruturais, com as suas elites políticas e económicas degradantes, caso único por essa Europa fora? Se o PCP persiste como um partido com implantação efectiva, o mérito não será apenas dele. Os outros partidos e as elites económicas, sociais e políticas, têm dado a sua relevante contribuição. E, nas próximas eleições, isso será ainda mais visível.

Um belo enxerto

É evidente que o desrespeito que o ME tem mostrado pelos professores não tem nada a ver com o acontecimento. Também é verdade que a perspectiva disciplinar da senhora ministra da Educação não contribuiu um pouco que seja para o evento. O que aconteceu fui mais um caso isolado, no qual uma professora de Gondomar teve azar de querer dar a aula e de repreender o aluno errado, levando-o ao Conselho Executivo. Mas errado porquê? Porque era muito mais forte do que ela e, do alto dos seus 16 anos, deu-lhe uma belo enxerto de pancada. Deve ser isto que dignifica a escola em Portugal (aqui).

28/11/08

Direitos do homem

Wo Weihan e a filha

Foi executado hoje o cientista bioquímico chinês Wo Weihan. Era acusado do crime de espionagem a favor de Taiwan. Todos nós sabemos o que vale esta acusação num regime totalitário, e a China é de facto um regime totalitário. E em que dia foi ele executado? Precisamente no dia que a China e a União Europeia se reuniram para debater o problema dos direitos humanos. Não há melhor mensagem do que a execução de um "traidor". Mas isto não mostra apenas o desprezo que o regime comunista chinês tem pelos direitos do homem. Mostra o profundo desprezo que tem pela União Europeia. De facto, na ordem política internacional só há duas coisas que contam: o potencial militar e o económico. Os europeus há muito que se esqueceram do primeiro e, devido à sua fragilidade, começaram já a declinar no segundo.

Jornal Torrejano, 28 de Novembro de 2008

Online está já a nova edição do Jornal Torrejano. Para primeira página foi chamado o problema do contínuo esvaziamento do Hospital Rainha Santa Isabel, de Torres Novas: as cirurgias estão ameaçadas. Destaque também para as memórias de Joaquim Santana e do Rancho de Riachos, num livro editado pela Câmara Municipal. Referência ainda para a presença em Torres Novas de Carlos Carvalhas, para explicar a crise financeira internacional.
Na opinião, comecemos com o cartoon de Hélder Dias. Depois, Carlos Henriques escreve Leixões continua à frente; Inês Vidal, Golpe cirúrgico; José Ricardo Costa, M&M'S; Miguel Sentieiro, Interpretações Galináceas; Santana-Maia Leonardo, Os palhaços.
Para a semana, assim o queiram os imortais, haverá por aqui mais notícia do Jornal Torrejano. Até lá, sempre podem dar uma saltada ao site do JT, para ver aí o que acontece por cá. Bom fim-de-semana.

João Queiroz na Quadrado Azul

Óleo s/tela, sem título - 2008 (do site da Galeria Quadrado Azul)

João Queiroz é, hoje em dia, um dos mais importantes nomes da pintura contemporânea portuguesa. Até 20 de Dezembro, estarão expostas nove pinturas a óleo, na galeria Quadrado Azul, em Lisboa. Marcada pela formação orginal do pintor, fez Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa, a exploração do conceito de paisagem remete para uma dimensão metafísica, ou antes para a presentificação da ideia de paisagem no mundo sensível, que é a tela e os materiais pictóricos que lhe dão vida e movimento.

27/11/08

Enrico Pieranunzi Quintet a Umbria Jazz 2008

Fé na ciência

A ciência é, à partida, uma construção racional. O curioso, porém, é que ela não consegue desligar-se do proselitismo religioso e da necessidade de cultuar os seus santos mártires, e, entre estes, o mais elevado, Galileu Galilei. Aqui, em pleno acto litúrgico, 35 investigadores lêem "Poema para Galileo".

Fé política e copos de água

Na Roménia, ainda parece haver fé nas diferenças políticas. Ver aqui. E se a fé move montanhas, mais facilmente move copos de águas.

Bombaim



O Islão poderá ser alguma vez uma parte, apenas uma parte, entre outras da cultura e da civilização humanas? Todas as religiões, ou quase todas, possuem um impulso imperialista e colonizador. Mas aos poucos esses impulsos foram-se domesticando e os sectários foram tornando-se menos sectários e aprenderam a conviver com a diferença. Por certo, haverá milhões de muçulmanos não fanáticos e desejosos de serem muçulmanos entre cristãos, judeus, hindus, budistas, ateus, agnósticos, etc. Mas também é verdade que são raros os lugares onde existem muçulmanos onde os conflitos, o terrorismo, o proselitismo ameaçador não sejam uma realidade. Agora, foi Bombaim a barbaramente atacada, como já foram tantos outros lugares. Basta ver certos comentários, para perceber que muitos muçulmanos se acham vítimas universais e que, por isso, o terror, todo o terror, está justificado. O Islão está a tornar-se, aos olhos dos não islâmicos, uma ameaça global.

26/11/08

Cristina Branco - Redondo Vocábulo (José Afonso)

Cristina Branco, por sugestão da Graça Martins (Índigo).

Do lado do mais forte

Segundo o Público, «Exames médicos no privado são mais rápidos sem credencial, denuncia a DECO». É muito interessante observar como estes «pequenos» mecanismos de agilização dos serviços anulam o papel do Estado no combate às desigualdades sociais. Talvez seja o mercado a funcionar. A verdade, porém, é que a sociedade não se compõe apenas de relações mercantis e estes truques têm apenas por finalidade fazer com que os mais frágeis se fragilizem mais e os mais fortes se fortaleçam. Onde a consciência moral não funciona, deverá entrar o direito e a sua aplicação. Mas o que fazer num país onde a consciência moral, o direito e a política estão sempre do lado do mais forte?

25/11/08

Haraquiri

A geração dos 30 anos irá perder cerca de 60% da reforma, segundo os novos métodos de cálculo das pensões. O problema não será apenas de retorno ao incentivo da poupança, para fazer frente a um futuro incerto e sem protecção. O problema está centrado no modelo de sociedade pelo qual enveredámos. E a culpa não pode ser atribuída à geração que agora tem 30 anos. O défice demográfico, a desregulação do mercado de trabalho, o hedonismo triunfante são factores que condicionam claramente a erosão do nível de vida das várias gerações. Que não se discuta a forma como o país vive, que não se discuta a qualidade de vida dos portugueses, que não se discuta o importante papel das famílias na estruturação da sociedade, que não se faça nada disso é mais um sintoma do haraquiri que nós portugueses, submetidos ao nosso capitalismozinho de sarjeta, estamos a cometer.

Pressões

Ontem foi uma professora de Vialonga a alvitrar pressões. Hoje foi a Directora Regional da Educação do Norte que falou na pressão sobre professores para não entregar os objectivos da avaliação. Daí, segundo a Meretíssima Directora, a DEGRE sentiu-se pressionada a disponibilizar um modelo para preenchimento on-line dos objectivos. Eu, como professor, declaro solenemente e para que conste que ainda não fui pressionado por nenhum outro professor para não entregar os objectivos da minha avaliação. Parece que a pressão quando nasce não é para todos. Também esta discriminação me começa a cansar.

A lei da gravidade

Consta que o Banco Privado Português vai cair. Ninguém lhe pega, ninguém parece dar-lhe ajuda. Mas a questão que ocorre perguntar é se esse banco que está prestes a sentir os efeitos da lei da gravidade alguma vez esteve efectivamente de pé?

Um bocejo

Ando cada vez com menos paciência. Até para estes escândalos, como é o caso do BPN. Depois, há em tudo isto um pequenez insuportável. Desde a guerra entre Cadilhe e Constâncio ao comunicado do Presidente, às acções de Dias Loureiro, tudo isto parece uma telenovela sul-americana da pior extracção. Se nós quisermos perceber a miséria atávica de Portugal, não é preciso ir à procura dos pobres, dos desempregados e dos sem-abrigo. Basta olhar para o esplendor da elite política do cavaquismo. Mas não se pense que o problema é só dessa gente. Chegará em breve a vez do espectáculo dos actuais socratistas. A coisa já nem provoca dor de alma; quanto muito, um bocejo.

23/11/08

O filme A Turma e a diferenciação pedagógica

Ontem fui ver ver o filme de Laurent Cantet, A Turma. Falarei dele aqui algumas vezes, não do ponto de vista artístico, mas sobre aquilo que ele mostra do ensino em França. Não esqueçamos que o filme ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes, e é baseado num romance autobiográfico de um professor, François Begaudeau. Comecemos então.

É de França que vem a principal artilharia teórica sobre a «diferenciação pedagógica», essa ideia sublime que obriga um professor, numa aula, estar a dar uma série de aulas diferenciadas em conformidade com o desenvolvimento de cada aluno. Ora a turma que o filme mostra, uma turma do ensino básico, é composta por gente da mais diversa origem étnica e com graus de desempenho escolar bem diferentes. Nunca, no filme, se ouviu falar em diferenciação pedagógica, nem se viu o professor a dar aulas para diversos grupos. Pelo contrário, a aula era dada a todos os alunos ao mesmo tempo, com a mesma matéria e a mesma «estratégia» (uma palavra muito ao gosto dos nossos governantes e de certos professores convertidos ao eduquês e ao burocratês).

A diferenciação pedagógica dos franceses é boa para as escolas portuguesas e para martirizar os bons professores portugueses através da sua obrigatoriedade, segundo o extraordinário Estatuto da Carreira Docente, elaborado pela a actual governação. Dito de outra maneira: a diferenciação pedagógica é boa para os cafres.

O cheiro do BPN

Parece que o BPN cheira mesmo bastante mal. É tal a intensidade do fedor que o próprio Presidente da República decidiu vir esclarecer que não foi ele que se descuidou. Algo vai podre no Reino da Dinamarca.

22/11/08

Wagner -- Götterdämmerung -- Hagen's Watch (Salminen)

Uma ópera em honra da banca portuguesa.

21/11/08

A Igreja e os professores

Sabem por que motivo a Igreja Católica está do lado dos professores no confronto destes com a ministra (ver aqui)? Pelo simples motivo de andar nestas coisas há 2 mil anos. Isso permite-lhe perceber o fundamental e distinguir o essencial do acessório. E se há uma coisa de que não se pode acusar a Igreja de falta de experiência, essa coisa é o ensino e a educação. Eu, como professor e não pertencendo à Igreja Católica, quero aqui deixar a minha gratidão à conferência episcopal portuguesa que desde a primeira hora percebeu, melhor do que ninguém, as razões dos professores.

Jornal Torrejano, 21 de Novembro de 2008

Nova edição on-line do Jornal Torrejano. Para "primeira" página foi escolhida a visita próxima do Presidente da República, para inaugurar o novo edifício da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes. Destaque para a justa homenagem a José Trincão Farinha, meu antigo colega de escola, desaparecido há meses. Referência ainda para o padrão henriquino de Torres Novas, o único existente em todo o país.

Na opinião, como é hábito, comece-se com o cartoon de Hélder Dias. Na opinião escrita, Carlos Henriques escreve Leixões gelou Alvalade, Carlos Nuno, Habituados a tudo, Inês Vidal, Dar, mas pouco, José Ricardo Costa, Matar o Outro, Santana-Maia Leonardo, O PSD e Ourém.

Aqui fica então a notícia das notícias do Jornal Torrejano. Queiram os fados, e para a semana haverá mais Jornal Torrejano por este blogue. Bom fim-de-semana.

20/11/08

Tem pena

O Presidente da República fez-me lembrar o seleccionador Queiroz. Este, depois de levar seis do Brasil, veio dizer que estava ele e estavam os jogadores todos muito frustrados. Com esta palavra, Queiroz disse que aquilo não era um problema futebolístico, mas meramente psicológico, uma frustração. Também o estimável Presidente da República tem pena que o seu apelo à serenidade nas escolas não tenha resultado. Formado na mesma escola do seleccionador Queiroz, o Presidente remete o acontecimento político para a esfera do sentimento: foi uma pena. Com isto, também, Cavaco Silva sacode a água do capote. Mas ele deu cobertura a todas as malevolências que o governo se lembrou de fazer aos professores, desde o totalitário Estatuto da Carreira Docente até ao supinamente iníquo concurso para professor titular. Assistiu, impávido, sereno e cooperante, aos delírios burocráticos da senhora ministra e dos seus ajudantes. Agora que as escolas estão num caos vem, quase como Pilatos, lavar as mãos, mas cheio de pena. Não são os professores os responsáveis pelo que se está a passar. Há responsáveis e eles têm nome. Também aí figura o de Cavaco Silva, não só por cooperação com uma das partes, mas também por omissão.

Brasil 6 - Portugal 2

Pronto, lá tinha de ser. Abro o computador, ligo-me à Internet e o resultado da selecção cai em cima de mim que nem um bombardeamento colateral americano. Fomos goleados e humilhados pelos brasileiros. Como sempre pensei, Scolari não fez um trabalho bom em Portugal. Fez um trabalho excepcional. Foi quase um deus: criou do nada uma selecção de topo mundial. Mas aquilo estava mesmo ligado ao seu poder. Agora estamos a voltar à nossa real dimensão. Depois, Carlos Queiroz bem podia continuar a ajudar o senhor Fergunson, ou lá como se chama o treinador do Manchester United. Ele aí era mesmo bom. Sobre o nosso apuramento, não havendo Scolari ainda há a Nossa Senhora de Fátima, para além do Prof. Queiroz.

19/11/08

THE TURTLES - Happy Together (1967)

Eis o espírito dos anos 60. No fundo, aquilo não passava de uma garotice pegada. Mas, como diria o velho Kant, a inocência é uma coisa muito bonita, mas corrompe-se com facilidade.

Os que ensinam e os que mandam

É que uma certa superstição pueril fazia-me perder todo o espírito crítico; quando ganhei mais coragem, afastei de de mim aquele denso nevoeiro e convenci-me de que se deve acreditar mais nos que ensinam do que naqueles que mandam. [Santo Agostinho]

Moderação e ponderação

Tínhamos dito, no princípio da nossa discussão de hoje, que se provássemos que a infelicidade não era outra coisa que indigência, admitiríamos que quem não é indigente é que seria feliz. Ora bem, acabamos de o provar: ser feliz consiste em não ser indigente, ou seja, em ser sábio.

Mas se quiserdes saber, no entanto, o que é a sabedoria (coisa em que a razão, na medida do possível, tem meditado) dir-vos-ei que ela consiste na moderação da alma, isto é, na sua própria ponderação a fim de que nada se derrame, nem de mais, nem de menos, do que o exige a plenitude. [Santo Agostinho, Diálogo sobre a Felicidade]

18/11/08

Abandonada à preguiça da tarde

Edgar Degas - Bather Stretched out on Floor (1886/88)

Abandonada à preguiça da tarde
escuta o silêncio que cobre a casa
e faz de cada pulsação um lírio tomado
pela ânsia do que não chega.

Fora noite ou um dia de Julho
e tudo brilharia naquela pele:
os seios, o ondulado ventre,
a esquiva face ou o baldio
que se abre no limiar do corpo.

Em tanta nudez se esconde o desejo:
uma mão que passa leve,
o suave ardor de uns lábios,
a carne mutável incendiada de azul
a cantar no fundo cobreado de um olhar.

Monteverdi - Orfeo - Rosa del Ciel

Fabricador de imagens

Por conseguinte, a afinidade inegável da mentira com a acção, com a mudança no mundo – em resumo, com a política – está limitada pela própria natureza das coisas que estão abertas à faculdade humana da acção. O convencido fabricador de imagens cai em erro ao acreditar que pode antecipar as mudanças mentindo sobre questões factuais que toda a gente deseja eliminar de qualquer maneira. A edificação das aldeias de Potemkine, tão cara aos políticos e propagandistas dos países subdesenvolvidos, não conduz nunca ao estabelecimento de algo em concreto, mas apenas a uma proliferação e perfeição da ilusão. [Hannah Arendt, Verdade e Política]

O pior ministro

Eu não quero ser desagradável com o ministro Teixeira dos Santos. Nem quero levantar suspeitas sobre o mérito da ideia de avaliação de professores. Por falar em avaliações, o Financial Times (aqui)decidiu avaliar os ministros das Finanças da União Europeia. Resultado da questão: o nosso bravo Teixeira dos Santos lá surge como o pior dos ministros. Mas quem foi avaliado como o melhor? Foi o ministro finlandês. Sabe o leitor que na Finlândia nem sequer existe avaliação formal de professores? Mas o que é que uma coisa tem a ver com outra? Aparentemente nada, mas na verdade tudo. É porque os dirigentes portugueses são o que são que o país está onde está. Nestes casos quem dirige não se vai voltar contra si, escolhe um bode expiatório. Em Portugal, foram escolhidos os professores do ensino público. É evidente que o ministro é mau, o primeiro-ministro é uma nódoa e a classe empresarial, tirando honrosas excepções, está ao nível do ministro e do chefe deste. Culpados? Os professores que não querem ser avaliados. Não compreendo como é que a Finlândia, sem o nosso extraordinário e inovador sistema de avaliação de professores, consegue estar em primeiro lugar na economia e na educação. Mas será que José Sócrates teria alguma hipótese de carreira política na Finlândia?

Tu quoque, Brute, fili mi?

É como quem diz: «Até tu, Brutus, meu filho?» Foi o que deve ter pensado a ministra da Educação quando soube da posição do Conselho de Escolas, organismo saído da fértil imaginação da 5 de Outubro, na sua estratégia de combate aos professores portugueses e de destruição da escola pública. Agora o próprio monstro voltou-se contra o criador. É a vida, como diria o outro

Suspendamos então a democracia..

Eu confesso que simpatizo bastante com a senhora. Acho que ela é uma pessoa boa e uma pessoa de bem. Acho também que ela é uma pessoa séria. Também confesso que nunca votarei nela, embora não saiba em quem votar. A senhora é infinitamente mais credível de que o seu antecessor, aquele senhor da Câmara de Gaia. Mas ela também não tem grande jeito para o negócio. Então não decidiu, segundo o Público, dizer coisas como estas: "Eu não acredito em reformas, quando se está em democracia...". "Quando não se está em democracia é outra conversa, eu digo como é que é e faz-se", observou em seguida a presidente do PSD, acrescentando: "E até não sei se a certa altura não seria bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia".

Estes ditos da líder do maior partido da oposição, numa democracia, revelam duas tristes coisas: primeira, a cultura democrática da nossa direita, e a esquerda escusa de se estar a rir, deixa muito a desejar. No fundo, Ferreira Leite disse aquilo que uma parte do país pensa, mas pensa mesmo, e não só à direita, diga-se de passagem; em segundo lugar, as organizações políticas portuguesas estão incapazes de gerar líderes politicamente preparados.

Talvez a senhora tenha razão: que tal suspender a democracia e o país por seis meses, para ver se descobrimos líderes sensatos e preparados para a direita e para a esquerda, já agora. As coisas não vão bem para o lado da laranja...

17/11/08

Chavela Vargas - La llorona

Susana Harp - La Llorona

Lila Downs - La Llorona

O cabecilha da multidão

A multidão é a mentira. É por isso que, no fundo, ninguém despreza mais a condição do homem do que aqueles que fazem profissão de estar à frente da multidão. Que um destes cabecilhas veja um homem vir ao seu encontro: certamente, não lhe liga; é demasiado pouco; manda-o embora orgulhosamente; não recebe menos que centenas. E se houver mil, inclina-se então diante da multidão e distribui muitos salamaleques; que mentira! Não, quando se trata de um homem isolado, há que exprimir a verdade, respeitando a condição humana; e se talvez, segundo a linguagem cruel, se tratar de um pobre diabo, há o dever de o convidar para casa para a melhor sala, e se se tem várias linguagens, empregar a mais caritativa e a mais amiga; esta conduta é a verdade. [Sören Kierkegaard, Ponto de vista explicativa da minha obra como escritor]

De duros golpes está...

Um duro golpe! É o que terá acontecido à ETA, segundo José Luís Zapatero, presidente do governo espanhol (aqui). O pior é que já ando por cá há uns bons anos e duros golpes destes não têm conta. Mas a ETA sempre se foi levantando e os atentados lá foram continuando com o seu rosário de sangue e de terror. Que estranho destino o dos homens políticos: nunca são capazes de se eximir às banalidades que em breve serão cabal e atrozmente desmentidas. Zapatero não teria mais nada para dizer? Não seria melhor estar calado? De duros golpes destes está o inferno cheio.

Afinal, sempre é tolerável

Dissemos aqui que é intolerável que os alunos andem a despejar ovos sobre os governantes. Mais uma vez não consegui estar de acordo com o governo de José Sócrates. Afinal a senhora ministra e os seus ajudantes de campo gostaram imenso da chuva de ovos. Num ápice, alteraram o estatuto do aluno, segundo os critérios dos lançadores de ovos. E deram, estes governantes, mais um notável exemplo ao país: se não gostarem de uma política, lancem mão da estratégia da gemada. Do ponto de vista político, a acção visa centrar todo o combate na derrota e humilhação dos professores. É esta a coroa de glória do governo. Destruir os docentes, nem que para isso se apresente de forma cobarde perante as travessuras de adolescentes com hormonas em ebulição. Parece que não têm vergonha. Vergonha só têm se abandonarem as irracionalidade que fizeram relativamente aos professores. Isso sim, é vergonhoso. Eis um exemplo luminoso do que significa o socratismo: a pura nulidade.

16/11/08

Professores: a manifestação de ontem

Há uma coisa que deveria preocupar o governo, do ponto de vista político, relativamente ao conflito com os professores: a manifestação de ontem (ver aqui). O elevado número de participantes, certamente muitos mais do que o cálculo da polícia, mostra que existe pelas escolas portugueses uma enorme quantidade de professores que não só está disposta a enfrentar a política governamental, como não é domesticável pelos sindicatos. Este sinal talvez seja pior do que os 120 mil na manifestação do sábado anterior. Isto para não falar do total corte existente entre docentes e as gentes que os pastoreiam desde a 5 de Outubro. Os interesses dos alunos e do país, para além do bom-senso, mandariam mudar de pastores. Mas parece que a única coisa importante é a face do governo ou a sua vergonha; ou a falta dela, digo eu.

Camané em Torres Novas

Ontem, assisti, julgo que pela primeira vez na vida, a um espectáculo de fado. Durante muito tempo, o fado era uma expressão musical completamente estranha para mim. Há uns anos a esta parte, porém, fui, como noutras coisas, alterando a minha posição proveniente da radicalidade da juventude. O reconhecimento da grandeza de Amália Rodrigues foi a primeiro passo. O segundo foi o fado de Mísia e da nova geração de fadistas. Há uns tempos, reconheci que Carlos do Carmo merece ser ouvido com atenção e descobri um artista excepcional. Camané.

Camané apresentou-se ontem no Cine Teatro Virgínia, em Torres Novas, num belíssimo espectáculo. Acompanhado por uma guitarra portuguesa, uma viola e um contrabaixo (este densifica a tecitura musical). A apresentação evita qualquer exuberância, estando tudo ordenado por aquilo a que eu chamaria uma estética da contenção. A emoção que o fado pretende cantar e fazer surgir no ouvinte é trabalhada de forma a fugir a toda a facilidade. A emoção não explode na exterioridade pública, mas subjectiviza-se, cresce no interior do ouvinte e o fadista, pois Camané é um fadista na total acepção do termo, nunca cede àquilo que o público anseia no seu imediatismo. É muito curioso que no espectáculo de ontem a maior ovação dada foi a um tema, que explora através de um ritmo forte as emoções do espectador, apenas tocado pelos acompanhantes, não estando Camané no palco.

Mas não nos iludamos. Há uma mestria exemplar no domínio da relação com o público. Isso permite que muitos dos textos cantados sejam bastante interessantes, ao mesmo tempo que o artista conduz, lenta mas decedidamente, o espectáculo ao paroxismo, sem nunca ceder ao espalhafato, sem nunca abandonar a contenção. Quando o espectáculo termina, o público está completamente rendido e obriga Camané a dois "encore".

Há uma coisa que ressalta deste espectáculo, como certamente de muitos outros dados pelo artista: o fado contém um potencial musical que ainda pode surpreender e levar-nos muito para além das rotinas em que tinha caído nas décadas de sessenta e setenta.