10/10/09
15/06/08
Restaurante Famado - Vale de Urso
Passear pela zona sul das Aldeias do Xisto, visitar a Figueira e a Foz do Cobrão, respirar o ar puro do pinhal. Muito bem, tudo muito ecológico e saudável, mas onde comer? Aqui a solução é Vale de Urso, uma aldeia junto a Proença-a-Nova, na Estrada Nacional 233. Não desespere se não encontrar indicações em Proença. É preciso não esquecer que estamos em Portugal. Mas vale a pena ir até lá? Se estiver por aqueles lados nem vale a pena hesitar, o Famado é um restaurante bastante simpático, com serviço eficiente, uma atenção discreta do gerente, o qual sabe muito bem o que está a fazer. Comi lá uma das melhores sopas de peixe da minha vida. Há um mistério, para mim, irresolúvel: por que razão é que as sopas de peixe são tanto melhores quanto mais nos afastamos da costa? O segredo, diz o gerente, está na qualidade dos vegetais usados, nomeadamente o tomate, tudo produto local. E dos temperos, claro. Depois, experimentei o “plagaio” com batata frita e legumes cozidos. E o que é o “plagaio”? É um enchido da zona de Proença-a-Nova, com farinheira e entrecosto. Não sendo tão bom quanto a sopa de peixe, é um prato curioso e que merece boa nota. Excelente é a tigelada que se pode comer como sobremesa. Diferente da de Abrantes, esta é enriquecida com mel e canela. E que beber? Experimentou-se um tinto beirão da Adega Cooperativa do Fundão, o Fundanus Prestige, de 2003. Um vinho exuberante, com um belo aroma, a pedir para ser aberto bem cedo e arejado. Um vinho ainda com muita vida pela frente. É a prova de que se encontram coisas interessantes feitas pelas adegas cooperativas. Ir a Vale de Urso não é uma perda de tempo.
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Jorge Carreira Maia
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03/05/08
Retiro da Fataça em Foros da Serrada Grande, Boquilobo
Sou um ribatejano um pouco fora de contexto. Não me interpretem mal, até gosto de touradas, embora não seja um aficionado. Não é de toiros que quero falar, mas do peixe que se come pela borda-d’água. Foi preciso chegar ao dia de hoje para comer pela primeira vez enguias. E não bastando isso, adentrei-me pela culinária local e comi também fataça grelhada. Outra vergonha, ligada a esta, é que nunca tinha ido a nenhum dos restaurantes populares do Boquilobo, a aldeia do concelho de Torres Novas que viu nascer Humberto Delgado, e onde há um festival das enguias.Incitado por um blogue de Ramiro Marques (veja as belas fotografias feitas por Ramiro Marques), lá me tirei de manias e cá vamos à procura do Retiro da Fataça. Onde é, onde não é? E numa reminiscência de carácter platónico ocorreu-me a existência de um tascaréu, mas é mesmo reminiscência, em pleno Paul do Boquilobo. Íamos já bem dentro da estrada do campo quando, por descargo de consciência, pergunto a um transeunte (transeunte era eu, o senhor era agricultor e estava ali a cuidar dos campos) pelo dito retiro. Ele coça a cabeça e diz «ó homem, ele já fechou isso há muito, agora tem uma casa ali para os Foros da Serrada Grande, para os lados do Boquilobo.» E lá apontámos o carro para a terra onde o general sem medo sonhou com aviões e fardas militares.
O Retiro da Fataça é um restaurante popular enorme. O serviço é simpático, a comida generosa, o preço está de acordo com o carácter popular do empreendimento. As enguias fritas demonstraram que eu andava a perder qualquer coisa na vida. Sou assim, um pouco serôdio, lento de raciocínio, mas vou lá chegando. A fataça, embora não destrone o meu sável de estimação, mostra que há mais vida nas águas do rio que o dito sável. É um peixe suculento, de carnadura branca e com sabor delicado. A acompanhar, uma salada mista escorreita e umas migas especiais. Uma espécie de açorda feita com caldo de peixe e tomate, suponho eu. Tudo isto, migas, enguias e fataça foi, por mim, temperado com vinagre onde havia uns piripiris generosos. O efeito, para quem gosta, é espantoso. Para sobremesa, pode-se escolher de uma enorme lista de doces que fazem parte das ementas deste tipo de restaurantes. Acompanhou-se o popular repasto com um tinto Quinta de S. João Batista, ali mesmo ao lado, das caves D. Teodósio. Um vinho de 2004 feito à base de Castelão. Um belo vinho para o preço (7,5€ no restaurante) e que se bateu muito bem com o peixe de rio. A qualidade deste vinho confirma a excelência das terras torrejanas, riachenses no caso em apreço, para a produção vitivinícola.
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Jorge Carreira Maia
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02/03/08
Pão e Vinho, no Vale de Santarém
Não se iluda o leitor se, nestas Viagens na Minha Terra, se ouvir falar do Vale de Santarém. Não é da história da pobre Joaninha de olhos verdes que aqui se dá conta. Não é das paixões do coração que vamos falar, mas do prazer da mesa. Pois bem, nesse Vale de Santarém há um belíssimo restaurante que dá pelo poético nome de Pão e Vinho. Vai-se pela antiga estrada que liga Santarém a Lisboa, na rua José Matias Júnior 52, ali mesmo quando subimos em direcção ao Cartaxo. Um ambiente bastante tranquilo, numa casa antiga recuperada, discreta e orientada para o prazer da comida. O responsável é Luís Miravent e, talvez motivado por este nome de tonalidade francesa, a cozinha que apresenta tem, dentro da tradição nacional, um toque de leveza e distinção que faz lembrar a boa comida francesa.Farto das diatribes da Ministra da Educação, dos seus acólitos e dos seus defensores na praça pública, lá decidi, ontem, matar as mágoas e reconfortar o ânimo. Nas entradas, conjugou-se os peixinhos-da-horta e as empadinhas de galinha (excelentes, isto é, suaves e cremosas, até para mim que não particular adepto da invenção). Depois, os filetes de garoupa acompanhados por um arroz de tomate (não há nada mais português) que, passadas tantas horas, ainda me faz(em) salivar. Nada de complicações, apenas um trabalho sábio a salientar o gosto que a natureza deu, tudo combinado segundo o princípio grego da justa medida. No prato de carne, optou-se por uma perdiz de escabeche acompanhada por batata palha. Também aqui o nada em excesso se fez sentir. O escabeche pode ser uma porta aberta para um «flop» culinário, mas, neste caso, apenas realçou a carne do pobre bicho. A batata estava como deve ser, fazendo-nos esquecer que é frita. Para terminar experimentou-se, a contento dos comensais, o crumble de maçã. A acompanhar, Diónisos, o travesso deus, segredou o nome de um tinto, Quinta do Falcão, Reserva de 2004, que cumpriu com a honra a sua missão, mostrando, mais uma vez, que o Ribatejo é terra de vinho, de bom vinho.
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Jorge Carreira Maia
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07/02/08
A Lúria e o Casal da Coelheira
Sou um adepto incondicional do sável frito com açorda de ovas. E o melhor sável que conheço é o do restaurante “A Lúria” (na Portela, S. Pedro, Tomar. Quem vai para Castelo de Bode, vindo do IC 3, esteja com atenção às placas que surgem do lado direito). O peixe vem muito bem fatiado, bem fino, frito como deve, isto é, sem estar ensopado em óleo, acompanhado por uma açorda de ovas bem temperada, de gosto suave, como se o pão se tornasse etéreo e contrariasse a gravidade. Na última visita a “A Lúria”, nesta bendita Quarta-Feira de Cinzas, não me fiquei pelo meu amigo sável. Como, com a idade, me vou tornando avesso à carne, experimentei o polvo na brasa, acompanhado de batata a murro e migas. Também aqui nada de excessos, tudo no equilíbrio perfeito, na justa medida como ensinavam os filósofos gregos. E que justa medida é essa? O polvo era tenro e vinha temperado com um leve fio de azeite, nada de tentáculos a boiar num mar de oleosidades. As pequenas batatas afinavam pelo mesmo diapasão, o tempero tinha apenas a finalidade de sublinhar a qualidade do tubérculo. As migas combinavam a couve portuguesa cortada, nem muito fina nem muito grossa, o feijão manteiga e pequeníssimos pedaços de broa. Até aqui nada de surpreendente, mas os vários elementos apresentavam-se soltos, leves, sem untuosidades, onde cada um sublinhava o sabor e a especificidade dos outros, numa combinação perfeita. A sobremesa foi, para fazer jus à cidade, uma fatia de Tomar. O que me agrada na cozinha deste restaurante é a aliança entre a comida tradicional portuguesa, tendencialmente pesada, e um sabor leve, subtil e delicado, fruto de um trabalho atento aos elementos e às transformações alquímicas que fazem do chumbo ouro.Quase me esquecia. O vinho foi um tinto reserva (nunca bebo branco maduro) do Casal da Coelheira, do Tramagal. É um vinho que apresenta uma excelente relação qualidade preço (10 € no restaurante, cerca de 6 em supermercado). Esta casa do Tramagal continua a evoluir no bom sentido e este reserva é uma confirmação daquilo que começou com, se não me engano, Terraços do Tejo. O Ribatejo ainda vai dar muito que falar nos vinhos. A Lúria e o vinho Casal da Coelheira são lugares que merecem a multiplicação das visitas.
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Jorge Carreira Maia
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27/01/08
Coimbra e o seu “A Taberna”
Ontem, uma viagem a Coimbra. Não para visitar isto ou aquilo, mas para passear, pela manhã, na baixa, ver o movimento, sentar-me numa esplanada, passar pela feira de velharias, a céu aberto, comer um bolo na Briosa, ver as livrarias, comprar música na Almedina ou olhar as águas do Mondego. Já não o fazia há muito, mas desta vez senti um prazer especial ao perder-me pelas pequenas ruas, percorrer os becos (como está tudo tão arranjado!), respirar o ar de um Portugal que já é muito diferente deste daqui. Mesmo numa cidade universitária, a severidade das gentes é muito maior do que aqui em baixo. Será porque, por aqui, somos mouros, como ouvi alguém dizer na feira de velharias? Tenho um sentimento duplo perante a cidade. Por um lado, como estudei em Lisboa, sinto o mundo universitário de Coimbra como estranho, provinciano e acanhado; por outro, gosto imenso da cidade, da forma como se organiza, das gentes com que me cruzo na rua. E gosto de tal forma que, de cidade provinciana que o meu preconceito me segreda, a vejo transformada numa espécie de cidade estrangeira, talvez uma cidade do norte de Espanha ou do sul de França. A cidade está belíssima.Para completar o prazer, a visita obrigatória a “A Taberna” (Rua dos Combatentes da Grande Guerra – 86). Desde o pão às sobremesas, tudo é de excelente qualidade. Tem um serviço eficiente, simpático e discreto, a cozinha está à vista, o forno de lenha é um verdadeiro trunfo. Sempre que por lá passei senti-me compensado. Ontem, não foi excepção. São múltiplos os pratos da cozinha tradicional (ontem, optei por uma excelente posta de Trás-os-Montes, na brasa), por norma servidos com uma multiplicidade de acompanhamentos, apresentados individualmente, batata a murro, batatinha assada, pimentos e cebolinha assadas, grelos e arroz, tudo de excelente qualidade. Para mais informação ver, por exemplo, aqui. E assim fica uma pessoa ainda mais reconfortada com a cidade de Coimbra.
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02/11/07
Recanto da Barquinha
Cada vez gosto mais de Vila Nova da Barquinha. Esta vila ribatejana junto ao Tejo é um lugar aprazível, com um centro histórico simpático e razoavelmente conservado, um sítio tranquilo onde se suspeita uma excelente qualidade de vida, desde que não se queira a agitação citadina. Tem um espaço verde de muitos hectares, junto ao rio, de fazer inveja a médias e grandes cidades.Mas se falo hoje da Barquinha, não é tanto pelo agradável que a vila é, mas por causa de um restaurante, o Recanto da Barquinha. Já, em tempos, me tinham falado nele, mas uma consulta ao menu, colocado no exterior, fez-me torcer o nariz. Será possível combinar comida portuguesa, brasileira, goesa e africana? Preconceituoso como sou, dei meia e volta e fui tratar dos prazeres da gula para outro lado. Bom, até que um dia, em desespero de causa, lá entrei. Uma sala com um enorme brique-a-braque, relativamente pequena, deixou-me perplexo, o que sairia dali? Julgo que a primeira coisa que lá comi foi moamba e decidi voltar. Boa cozinha, atendimento simpático, ambiente acolhedor, apesar da proximidade das mesas. Fiz múltiplas experiências e nunca me arrependi. Mas tornei-me um indefectível da cachupa de 6.ª feira.
Hoje, depois de mais um dia de escola para esquecer, lá me entreguei à cachupa. Perdoe-se-me a ousadia, mas este prato bate em muito as nossas feijoadas, seja pela introdução dos milhos, branco e amarelo, seja pela variedade de feijões, feijoca, feijão manteiga, feijão fava, que é importado do Peru, e feijão pedra, seja pelas rodelas de mandioca e de batata-doce, a verdade é que tudo se conjuga com as carnes e legumes para produzir uma refeição substancial e ao mesmo tempo de um sabor refinado, a acompanhar por um tinto. Hoje experimentei um alentejano, Convento da Tomina, de 2006. O vinho suportou muito bem o conflito com o prato de sabores marcados, e apresentou uma óptima relação qualidade preço. Tem um defeito, como grande parte dos vinhos em Portugal, um elevado teor alcoólico, 14º. Depois do prato, tem uma enorme variedade de excelentes sobremesas. Eu fiquei por um abacaxi, ajuda a fazer a digestão. Se não vai conduzir, aconselha-se um digestivo. Se vai, espere por chegar a casa, se for perto, e beba um conhaque ou, de preferência, uma boa aguardente de vinho do porto. Por hoje, fiquei-me por um calvados, é preciso variar.
Nota: se está de dieta, esqueça. Ali é um sítio onde se cultiva o prazer de comer.
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Jorge Carreira Maia
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15/04/07
Baleal, a sombra do mar
Quem não gostar de areia, pode dar uma volta pela ilha, melhor pela península. Apesar da colonização humana, apesar das casas e dos carros, o espaço ainda é visitável e permite contemplar, de múltiplos lugares, o mar, ouvir, uma vezes, o cicio, o sussurro das ondas e, outras, o bater trovejante da água na pedra dura e imóvel. Pode olhar as Berlengas, ao longe, fechar os olhos e sonhar com viagens marítimas, aventuras coloniais e terras ultramarinas. Depois, sonhe-se com baleias e grandes caçadas. Sentado numa esplanada, não se iluda se vir, ao longe, uma massa branca em movimento. Não, não é Moby Dick, a baleia branca, nem atrás virá o terrível capitão Ahab. São apenas nuvens, pedaços de mar a fugir das águas e a perderem-se na pureza azul do céu. Há dias que é possível ver, de relance, Posídon, o terrível sacudidor, deus indisposto e feroz que persegue os heróis. Mas, num tempo como o nosso, quem se preocupa com isso? Nem heróis há para terem tal preocupação, nem acreditamos nos deuses que estão perante o nosso olhar.
O sol está alto e chegou a hora de almoço. Sim, Peniche, ali mesmo ao lado, tem variegadas possibilidades. Mas tome o IP 6 e corte logo, nos primeiros metros, para a estrada que leva à Consolação. Quando chegar ao cruzamento para esta praia, siga em frente em direcção a S. Bernardino. Entrando no Lugar da Estrada, uma daquelas aldeias que cresceram ladeando uma estrada em linha recta, espere até encontrar, à sua direita, um restaurante com o estranho nome Faz as Pazes.
Que conflitos e guerras terão levado a tão estranho nome, não faço ideia. Seja como for, encha-se de um espírito pacífico e entre. A sala não é pretensiosa nem grande, mas acolhedora. Sob o trabalho de um casal, ele na cozinha e ela na sala, vai encontrar uma bela refeição, uma cozinha esmerada, onde se combina o tradicional com a singularidade de quem a produz, tudo num ambiente discreto e cheio de simpatia. Para entrada, o refogado de mexilhões ou o queijo de cabra salteado com azeite e alho. Experimentou-se a «raia cozida com molho de pitau», um molho da tradição local, feito à base de azeite, alho, vinagre e colorau. O molho dá vida à raia, ao mesmo tempo que lhe sublinha as qualidades, joga como uma espécie de contraponto dialéctico à brancura fistulada do peixe. Como será de imaginar, pela localização, há vários pratos de peixe. Depois, na carne, não perder o «miminho de boi com pimentas», onde um naco de excelente carne açoriana grelhada se combina com uma multiplicidade de pimentas, acompanhadas por batatas fritas às rodelas
finas e uma salada, bem temperada. As pimentas não disfarçam a carne, têm, antes, o poder de ressaltar a sua qualidade. Entre as sobremesas, pode perder-se na «pêra em vinho tinto e frutos silvestres» ou, então, num «sorvete de maçã reineta com esses de Peniche». A carta de vinhos é sóbria, mas permite, já que estamos perto do mar, múltiplas navegações. Vários prémios e reconhecimento do Expresso, valha isso o que valer, atestam a qualidade do trabalho desenvolvido e recomendam a experiência. Experiência de que não se sai, pelo menos não saí das vezes que experimentei, arrependido. Para antecipação do prazer pode consultar o site http://www.faz-as-pazes.com/
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10/03/07
O tempo suspenso em Avis
Ida a Avis. O Alto-Alentejo, com a aproximação definitiva da Primavera, esplende, incendiado pela luz de um Março azul como o mar de Junho. Flores silvestres abertas ao olhar do viandante pontuam o verde dos campos que bordejam a estrada. Fundamentalmente, muito pouc
a intervenção humana. Um alívio! Sempre que o português põe em acção a veia construtora e o espírito de iniciativa, há que temer o pior.
Avis parece parada no tempo. Não, Avis está parada no tempo. Não, não, o tempo parou em Avis, suspendeu-se, ficou surpreso com a luz, arrepiou caminho. Cresce a eternidade onde o tempo não entra; Avis é eterna, na brancura caiada das casas, no negro das mulheres, no sossego do meio-dia.
Uma pintura mural da CDU garante que lá se constrói o futuro. Equívoco estratégico. A CDU deveria deixar o futuro para os outros, para os que abominam o presente. O futuro é o mais fácil de fazer vir, mesmo que nada se faça, ele virá. Que se construa o passado! Isso sim é uma verdadeira garantia. A única que vale a pena. Desconfio que ninguém em Avis quer o futuro, nem a CDU. Quando ali chego só quero o presente que me lembra o passado, saborear o tempo suspenso, as horas dolentes suprimidas pelo desatino de um deus. Chego ao Alentejo e gosto mais de Portugal. Tudo é mais sóbrio e mais autêntico.
Quando se está preso num tempo suspenso correm-se riscos. Não desespere por não encontrar um restaurante que se combine com a honra do lugar. Perca-se, primeiro, pelas ruas orladas de laranjeiras bravas, olhe as pessoas, o casario, a parte histórica. Depois, pegue no carro e tome a estrada de Arraiolos. Não vai sair de Avis, pelo menos do concelho. Pare logo que chegar à freguesia de Alcórrego, a meia dúzia de quilómetros de sede de concelho. Na pequena aldeia, procure a Taberna do Paulo, numa urbanização que já nos faz lembrar o futuro. Duvidamos… A casa é moderna, com um traço campestre à porta.
Entra-se desconfiado, o lugar, porém, mostra-se acolhedor. Uma sala de entrada, que serve como sala de espera, deita, por uma pequena porta lateral, para a sala de refeições. Decoração aceitável, paredes sombreadas de amarelo, presença do rústico pensado pelo citadino. Mobiliário forte, as mesas, as cadeiras, os bancos. Eis um Alentejo pujante. Mas nada de bibelôs campesinos em excesso. Se encontrar uma jarra com dois discretos cravos vermelhos , se por acaso for dado a uma certa inclinação para o lado direito, não faça leituras demasiado óbviAs. No Alentejo, o cravo vermelho é como o sobreiro, faz parte da paisagem. Há em tudo alguma justa medida. Talvez os alentejanos sejam descendentes de gregos, quem sabe?
O serviço é escorreito e simpático. Da cozinha, não se esperem revelações celestiais. Deus não se manifestou, nem Cristo veio à Terra. Mas a coisa está longe de ser de deitar fora. Pelo contrário, um belo trabalho com os materiais da região. O pão, excelente pão alentejano, vem em saco de pano e pode acompanhar um óptimo queijo de ovelha e azeitonas. Estamos no Alentejo, sejamos alentejanos. Migas-gata (não sei se se grafa assim, mas poderia grafar) e sardinha frita. Migas-gata é uma açorda de pão alentejano e alho com um corte de vinagre. O vinagre sabiamente cruzado com a tradicional açorda dá vida a esta, corta-lhe o adocicado, eleva-a e permite-lhe um belo casamento com a sardinha frita. Em tudo isto, não há oleosidades, nem untuosidades. Muitos pontos a favor da cozinheira. Depois, para continuar no terreno das migas, umas perfeitas migas de espargos a acompanhar carne do alguidar. Fizeram jus ao prato de peixe. Sóbrias, sápidas, um toque de elegância na rusticidade da planície. A sobremesa calhou ser um cónego da taberna (vá-se lá saber a razão do nome), isto é, um doce de ovos e amêndoa, com gila e merengue. Notava-se também um travo a noz. Sobremesa a partilhar, pois é, ela sim, excessiva. Tudo acompanhado por tinto do Alentejo. A carta não é grande, mas é suficiente para o tipo de comida.
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Jorge Carreira Maia
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