18/05/09

A magna questão de dizer obrigado


Li em diversos sítios a indignação de muitos professores por terem de dizer aos alunos, ao recolher as provas de aferição, "obrigado pela vossa colaboração". É nestas indignações sem sentido que a energia se esgota. Mas por que razão ou razões aquilo está no manual do aplicador das provas de aferição?

Em primeiro lugar, porque esses são os procedimentos internacionais adoptados neste tipo de prova. Por norma, é escolhida uma amostra de alunos e estes são voluntários. Ninguém pode ser obrigado, num país democrático, a participar num estudo. Mas não são estas provas obrigatórias? Aparentemente sim, mas o que acontece ao aluno que faltar? A resposta torna de imediato evidente que a realização das provas é obrigatória, mas...

Em segundo lugar, e em tendo em conta o que se disse antes, os alunos estão de facto a colaborar com o sistema e a sua avaliação, não estão a ser submetidos a nenhum dever para obter certificação escolar. O obrigado pela colaboração pode ser justificado por isso mesmo.

Em terceiro lugar, porque esse obrigado faz parte das regras de cortesia que deverão imperar nas relações em meio académico. Eu uso-o muitas vezes com os meus alunos, até como modelo do que deve ser o comportamento deles.

Não é útil para a causa do ensino em Portugal que os professores contestem este tipo de coisas. Por norma, essa contestação radica no desconhecimento do que está em causa. Útil seria concentrarem-se naquilo que é substantivo. Por exemplo, por que não avaliar efectivamente os alunos? Por que razão não se transformam estas provas em exames nacionais com incidência no percurso escolar dos alunos? Por que razão só a Língua Portuguesa e a Matemática são sujeitas a estas avaliações externas? Mesmo dentro do âmbito da realização da avaliação aferida, os professores deveriam questionar a avaliação aplicada a todo o universo, pois sabe-se que uma avaliação por amostra, além de ser infinitamente mais barata, fornece ao sistema os mesmos resultados gerais. Há questões tão essenciais que perder a face porque se tem de cumprir um norma de boa educação não me parece lá muito interessante.

3 comentários:

maria correia disse...

Aproveito o post para dar um exemplo do mal que grassa também entre a classe dos professores; e acredito que não seja um caso isolado....ontem, no telejornal, passa a notícia sobre uma professora de História que usou e usava uma linguagem agressiva, descabida e de pouca educação para falar com as alunas e alunos sobre sexualidade. A senhora achava por bem, durante várias aulas, não ensinar..História, mas falar sobre a vida sexual dos alunos...Uma das alunas levou um gravador e gravou as palavras da professora, por os pais não acreditarem no que se passava nas aulas. O que se ouviu é quase inacreditável. No fundo, e apesar de reconhecer que a dita professora usava, de facto, uma linguagem inadmissível para falar com os alunos, além disso ameaçando-os, além disso perdendo tempo em que poderia falar sobre a matéria que lecciona, o que mais me chocou, talvez por deformação profissional visto ser tradutora e trabalhar com a língua portuguesa todos os dias, foi o ter ouvido essa professora dizer, na gravação: «Tu não sabes no que te metesteS!» Sim, a segunda pessoa do singular do verbo meter, no Prtérito Perfeito Simples, com S!!!! Ah, bem podem dizer «mas ela é professora de História», não precisa de falar bem português»...Pois. Mas devia. Qualquer professor, seja de que área for, deveria ter um português irrepreensível. E não é a primeira vez que ouço tais barbaridades e pior ainda, por parte de..professores...Por mais que não concorde com o actual Ministério da Educação, tenho de concluir que, de facto, algo de muito errado se passa no «Reino da Dinamarca.» E há, com certeza, algo de muito urgente a fazer.

ÓSCAR ALBERGARIA disse...

Sr. Jorge Correia Maia.
Li num diário um extrato do que pensa sobre a indignação de muitos professores acerca do que têm que papaguear aos alunos nas provas de aferição. Fiquei abismado. E, quando li que o senhor é professor aí, virei a página! Não valia a pena perder tempo.
Depois fiquei a remoer no assunto e achei que devia fazer alguma coisa. Por isso, aqui estou.

Pergunto se os professores (e o senhor é professor) não estarão por demais habituados a orientar os seus alunos na resolução deste tipo de tarefas e se não sabem o que lhes dizer? E se é necessário dizer aos professores que, no fim, se diz "Obrigado"?

E, já agora, ter-se-ão esquecido de colocar no tal manual do aplicador que os professores deverão dizer "Bom dia" quando os alunos entram na sala?
Esqueceram-se? Falha grave! Assim, os professores não o disseram.

Pretenderão estas provas ser um teste aos alunos ou não serão, também, uma prova à imbecilidade dos professores por parte de outrem?

E tem mais. Com tanto aparato, calculo que os alunos ficarão receosos e até nervosos, pobres almas, a pensarem que vai sair dali uma coisa muito difícil e, afinal, não. Nem aquilo lhes serve para quase nada. Ou seja, tanta encenação para uma peça medíocre.

Um aparte. A escandaleira que agora rebentou, a propósito da professora de História a falar daquela maneira com os alunos, veio "estragar" tudo. É ver o que Maria Correia diz neste blogue (mais ou menos isto):
- Estão a ver! "O
mal que grassa também entre a classe dos professores;..."
Pois.

Jorge Carreira Maia disse...

Caro leitor Óscar,

Num post anterior (http://averomundo-jcm.blogspot.com/2009/05/provas-de-afericao.html) expliquei por que razão as coisas se passam como passam.

Esclareço, mais uma vez, que eu não sou defensor deste tipo de avaliação, a chamada avaliação aferida, prefiro exames com as tradicionais regras.

Mas se este tipo de provas é aplicado, então ele deve seguir os trâmites internacionalmente determinados para validar os resultados. Repare, o que está em causa não é um exame dos alunos, mas uma investigação científica sobre o desempenho do sistema educativo. As pessoas que aplicam os testes nem precisariam de ser professores. Eles não estão a vigiar exames, mas a aplicar um instrumento de medida.

Por que razão são as instruções padronizadas? Porque a experiência de investigação acumulada mostrou que é preciso controlar a subjectividade dos aplicadores para não haver um enviesamento dos resultados. Portanto, a solução foi padronizar as acções e o discurso de quem aplica os testes. Isto nada tem a ver com uma desconsideração dos professores. Faz parte da metodologia científica aplicada. Pode parecer estranho, mas é assim. São regras como aquelas que regem os investigadores nas ciências experimentais ou nas ciências sociais e humanas.

Eu contesto ferozmente estas políticas educativas, mas não me posso permitir dizer certas coisas. Eu sei por que razão existe o manual do aplicador com instruções estereotipadas. Seria intelectualmente desonesto, só porque não gosto das políticas educativas, fingir que não sabia e alinhar pelo coro de disparates que foram ditos, disparates esses que radicavam na confusão do que se estava a fazer. Nem era por mal, mas por desconhecimento.

Participei, há muitos anos, num estudo internacional sobre Matemática e Ciência. O meu papel era aparecer de surpresa nas escolas e verificar se as instruções eram seguidas rigorosamente, inclusive a leitura daquelas frases esteriotipadas que tanto barulho levantaram. As mesmas frases eram lidas em Portugal, no Japão, nos EUA, em França, em Singapura, na Coreia do Sul, em todos s países que integraram o estudo.

Qualquer desvio à aplicação era reportado em relatório, para a coordenação internacional determinar se havia enviesamento ou não dos dados. Estes procedimentos têm de ser mesmo assim, para evitar que interpretações subjectivas das instruções possam intereferir nos resultados.

Mas, digo-lhe, eu não sou defensor destas provas aplicadas a todos os alunos. Defendo exames e as instruções de exames que os professores seguem e que recebem do ME. Mas se queremos fazer um estudo do sistema, que é aquilo para que estas provas servem, terá de ser assim.

Abraço,

JCM