10/03/07

O tempo suspenso em Avis

Ida a Avis. O Alto-Alentejo, com a aproximação definitiva da Primavera, esplende, incendiado pela luz de um Março azul como o mar de Junho. Flores silvestres abertas ao olhar do viandante pontuam o verde dos campos que bordejam a estrada. Fundamentalmente, muito pouca intervenção humana. Um alívio! Sempre que o português põe em acção a veia construtora e o espírito de iniciativa, há que temer o pior.

Avis parece parada no tempo. Não, Avis está parada no tempo. Não, não, o tempo parou em Avis, suspendeu-se, ficou surpreso com a luz, arrepiou caminho. Cresce a eternidade onde o tempo não entra; Avis é eterna, na brancura caiada das casas, no negro das mulheres, no sossego do meio-dia.

Uma pintura mural da CDU garante que lá se constrói o futuro. Equívoco estratégico. A CDU deveria deixar o futuro para os outros, para os que abominam o presente. O futuro é o mais fácil de fazer vir, mesmo que nada se faça, ele virá. Que se construa o passado! Isso sim é uma verdadeira garantia. A única que vale a pena. Desconfio que ninguém em Avis quer o futuro, nem a CDU. Quando ali chego só quero o presente que me lembra o passado, saborear o tempo suspenso, as horas dolentes suprimidas pelo desatino de um deus. Chego ao Alentejo e gosto mais de Portugal. Tudo é mais sóbrio e mais autêntico.

Quando se está preso num tempo suspenso correm-se riscos. Não desespere por não encontrar um restaurante que se combine com a honra do lugar. Perca-se, primeiro, pelas ruas orladas de laranjeiras bravas, olhe as pessoas, o casario, a parte histórica. Depois, pegue no carro e tome a estrada de Arraiolos. Não vai sair de Avis, pelo menos do concelho. Pare logo que chegar à freguesia de Alcórrego, a meia dúzia de quilómetros de sede de concelho. Na pequena aldeia, procure a Taberna do Paulo, numa urbanização que já nos faz lembrar o futuro. Duvidamos… A casa é moderna, com um traço campestre à porta.

Entra-se desconfiado, o lugar, porém, mostra-se acolhedor. Uma sala de entrada, que serve como sala de espera, deita, por uma pequena porta lateral, para a sala de refeições. Decoração aceitável, paredes sombreadas de amarelo, presença do rústico pensado pelo citadino. Mobiliário forte, as mesas, as cadeiras, os bancos. Eis um Alentejo pujante. Mas nada de bibelôs campesinos em excesso. Se encontrar uma jarra com dois discretos cravos vermelhos , se por acaso for dado a uma certa inclinação para o lado direito, não faça leituras demasiado óbviAs. No Alentejo, o cravo vermelho é como o sobreiro, faz parte da paisagem. Há em tudo alguma justa medida. Talvez os alentejanos sejam descendentes de gregos, quem sabe?

O serviço é escorreito e simpático. Da cozinha, não se esperem revelações celestiais. Deus não se manifestou, nem Cristo veio à Terra. Mas a coisa está longe de ser de deitar fora. Pelo contrário, um belo trabalho com os materiais da região. O pão, excelente pão alentejano, vem em saco de pano e pode acompanhar um óptimo queijo de ovelha e azeitonas. Estamos no Alentejo, sejamos alentejanos. Migas-gata (não sei se se grafa assim, mas poderia grafar) e sardinha frita. Migas-gata é uma açorda de pão alentejano e alho com um corte de vinagre. O vinagre sabiamente cruzado com a tradicional açorda dá vida a esta, corta-lhe o adocicado, eleva-a e permite-lhe um belo casamento com a sardinha frita. Em tudo isto, não há oleosidades, nem untuosidades. Muitos pontos a favor da cozinheira. Depois, para continuar no terreno das migas, umas perfeitas migas de espargos a acompanhar carne do alguidar. Fizeram jus ao prato de peixe. Sóbrias, sápidas, um toque de elegância na rusticidade da planície. A sobremesa calhou ser um cónego da taberna (vá-se lá saber a razão do nome), isto é, um doce de ovos e amêndoa, com gila e merengue. Notava-se também um travo a noz. Sobremesa a partilhar, pois é, ela sim, excessiva. Tudo acompanhado por tinto do Alentejo. A carta não é grande, mas é suficiente para o tipo de comida.




Volte-se a Avis e no fim de uma volta pedestre, olhe-se, mais uma vez a água suave da barragem do Maranhão e encaminhemo-nos para a realidade. O tempo, esse que me torna a consumir e a encaminhar para o futuro, lá fica suspenso…

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