Crónicas Normandas IV - A razão no cemitério
Naqueles cemitérios, a morte é mais asséptica do que nos civis, pensei mal entrei no cemitério alemão, confirmei a sensação no americano. Há uma clara encenação de qualquer coisa. Todos aqueles espaços, belos espaços, constituem o cenário de uma mistificação. Há ali uma razão que oculta a realidade, que a esconde dos olhos ímpios dos visitantes, que oferece uma imagem suave e leve da carnificina real que levou para ali os despojos humanos que lá repousam.
No reverso do cenário, debaixo de cruzes e lápides, velados pela relva verde tão bem cuidada, estão corpos fragmentados, ossos de onde os músculos voaram pela força das bombas, restos de gente a quem a morte chegou na precipitação do combate. Quem está ali não morreu de morte natural, nem a doença, prolongada ou súbita, assinalou para o trânsito final. A ceifeira chegou atarefada, cansada de tanta colheita, e apanhou os corpos como pôde. Na guerra, não há tempo para preparar a morte, para escolher os eleitos, para lhes dar um último sinal. É obscura a razão que opera nos campos de batalha, uma razão fincada no acaso, em jogos aleatórios, na sem razão do que acontece. Rios de sangue, vísceras a céu aberto, crânios estilhaçados, corpos dilacerados, gritos sem fim, o roncar dos carros de combate, as metralhadoras que crepitam, a explosão de bombas e granadas. Ali antegoza-se o inferno.
Quando olhamos estes campos relvados, as campas perfiladas sob um céu de cinza, já não vemos nad

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