16/03/08

Modernização e totalitarismo

O discurso da modernização rompe com uma continuidade histórica, e a forma como o poder é levado a legislar sem cessar conduz à inversão da função da lei que, longe de ser um factor de estabilidade, é posta ao serviço de um movimento de adaptação destabilizante. As exigências da modernização respondem a um movimento histórico que parece igualmente sem fim. E todos aqueles que fazem valer a sua ligação à herança cultural, que entendem não se submeter, não adquirem o estatuto de inimigos objectivo que entravam o movimento [de modernização]? [Jean-Pierre Le Goff, La démocratie post-totalitaire, pp. 23]
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O movimento de modernização que atinge os países ocidentais tem duas características que se devem sublinhar: por um lado, o corte com a tradição, aquilo que Le Goff chama a herança cultural; por outro, a perversão da função das instituições tal como o homem as foi criando. Veja-se o caso da lei. Até aqui, a lei tinha a função de estabilizar a sociedade. Hoje, e o governo português é apenas um exemplo, a lei serve para criar dinâmicas de ruptura dentro da vida social. Em lugar da estabilidade, o que se pretende é uma mobilização sem fim que, aliada ao corte com a tradição, acabe por destruir em cada homem o significado da sua humanidade. O que está em jogo nos processos de modernização é apenas e só a destruição da humanidade, a passagem para um tempo pós-humano.

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