Falácias educacionais – 2. O ensino centrado no aluno
Uma das pedras de toque dos reformistas da educação é o chamado ensino centrado no aluno. Como em todas as perspectivas que suportam o discurso mole, mas de efeitos duros, que está a desestruturar os sistemas educativos, também esta ideia é pouco pensada e possui, no seu cerne, contradições insanáveis. O que significará centrar o ensino no aluno? Em primeiro lugar, significaria que numa turma haveria tantos centros quantos os alunos presentes, o que, por si só, tornaria, mesmo numa pequena turma, o trabalho do professor numa impossibilidade prática. Que esta evidência não ocorra a quem, no Ministério da Educação, impõe este tipo de ideias não é de estranhar. Essa gente não sabe ou esqueceu o que é uma sala de aula.Em segundo lugar, é perverter a natureza das coisas. Há um currículo que deverá ser adquirido pelos alunos e, por isso, transmitido pelos professores. Centrar o ensino nos alunos significa pluralizar de tal maneira o currículo que ele deixa de ter qualquer função. É curioso que, mais uma vez, quem impõe este tipo de coisas não pense nas consequências e chegue ao seguinte paradoxo: por um lado, há um currículo nacional obrigatório, que os professores deverão transmitir, mas, por outro, há a pedagogia centrada no aluno que conduz inevitavelmente à subalternização desse currículo. Os professores são sempre culpados, façam o que fizerem, deverão ser penalizados: se centram as aulas no currículo não as centram nos alunos; se as centram nos alunos, não cumprem o currículo. Notável universo kafkiano.
Por fim, e o mais grave, um ensino centrado no aluno tem como único e lógico corolário não fazer o aluno elevar-se acima do patamar em que está. Ensinar significa colocar obstáculos, obstáculos ultrapassáveis, por certo, e ajudar os alunos a ultrapassar esses obstáculos. Aprender é saltar obstáculos, elevar-se acima do nível em que se encontra. Se, por exemplo, a linguagem de um professor estiver ao nível da do aluno, para que este possa «compreendê-lo», que desafio terá o aluno para se elevar acima do estado de ignorância em que se encontra?
O ensino centrado no aluno não passa de uma falácia educacional. Será uma falácia ingénua? Desconfio que não. Julgo que tem uma dupla finalidade: colocar o professor numa situação tal que ele, faça o que fizer, é sempre culpado de qualquer coisa; evitar, por outro lado, que os alunos da escola pública, pois é a eles que esta indigência de pensamento se quer impor, aprendam e se tornem melhores. Há toda uma estratégia de ignorância, mascarada por uma linguagem doce, mas que tem por fim proteger quem estuda nas escolas privadas, onde tudo isto é risível.

3 comentários:
Concordo inteiramente com o que escreveu. De uma forma ou de outra, tb eu já escrevi sobre o assunto. A grande falácia do ensino (e não digo educação, pois para mim escola é, primeiro que tudo, ensino!) é que se quer a escola à medida de cada um. Os meninos não têm de ser esforçar por se integrar, reger-se por regras de grupo onde os seus interesses só têm sentido se for o interesse do grupo, e não impôr os seus interesses mesmo que ninguém queira saber ou ouvir. Hoje sim, acredito que estejamos a criar verdadeiramente a chamada "geração rasca" (não me condenem, não fui eu que inventei!...) pois ninguém quer fazer o que quer que seja, esperam que todos mudem em função do seu "Eu", mas se assim for, ninguém muda ficando tudo emperrado na inércia de que "alguém há-de fazer o que eu quero e preciso!". Se cada um aprende aquilo que quer, então a noção de sucesso ou insucesso não existe, pois naquilo que se quer, cada um é mestre! Até pode ser NADA, mas se souber muito de NADA sabe então IMENSO, logo, tem sucesso... um sucesso no NADA, mas sucesso! Como queremos que estes infantes cheguem à idade adulta e façam sacrifícios, aceitem o trabalho mesmo quando ele nos causa desconforto, assumir as adversidades como algo fruto de momentos específicos (o patrão/chefe pode estar mal disposto) e que são transitórios e não desistir de imediato... tanto podia ser dito! Bem Haja pela reflexão, um tiro certeiro no (des)ensino que se vive em Portugal!
Se pensarmos um pouco, somos levados a admitir que tens razão.
Jorge, hoje a escola transformou-se num crime de que os responsáveis não serão chamados a prestar contas.
Os que lá estão e os que de lá vêm, como é o meu caso,deveriam saber que é assim. Estamos entregues a governantes alucinados (ou talvez não) e a pedagogos inflamados pela alarvidade das suas certezas. Infelizmente estamos sitiados e não há saída. É o tempo dos macacos.
E. Bento
Viva Eduardo,
De facto, a coisa tornou-se numa autêntica macacada. Se é a má para os professores, é péssima para os alunos. Eles precisam não da escola a tempo inteiro e outras idiotice parafascistas, mas de uma escola séria, exigente e rigorosa que os ajude a crescer.
Enfim, é o que temos. Vai aparecendo aqui ou por lá.
Um abraço,
JCM
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