15/01/09

Slavoj Zizek: A filosofia moderna e a foda


Na medida em que aceitarmos esta noção de relação sexual como a referência absoluta, somos tentados a rescrever toda a história da filosofia moderna nos seguintes termos:
- Descartes: «Fodo, logo existo», isto é, só na actividade sexual intensa sinto a plenitude do meu ser (a resposta «descentradora» de Lacan a isto teria sido: «Fodo onde não existo, e não existo onde fodo», ou seja, não sou eu quem fode, mas «isso fode» em mim);
- Espinosa: Dentro do Absoluto enquanto Foda (coitus sive natura), devemos distinguir, no mesmo sentido da distinção entre natura naturans e natura naturata, entre a penetração activa e o objecto fodido (há aqueles que fodem e os que são fodidos);
- Hume introduz aqui a dúvida empirista: como sabemos se a foda, enquanto relação, existe? Só existem objectos cujos movimentos parecem coordenados.
- Resposta kantiana a esta crise: «as condições da possibilidade de foder são ao mesmo tempo as condições da possibilidade dos objectos [da] foda»;
- Fichte radicaliza esta revolução kantiana: foder é uma actividade incondicional que se postula a si própria e que se divide em fodedor e objecto fodido, ou seja, é o próprio foder que pressupõe o seu objecto, o fodido;
- Hegel: «é crucial conceber o Foder não só como substância (o impulso substancial que nos subjuga), mas também como sujeito (como actividade reflexiva inserida no contexto do significado espiritual)»;
- Marx: devemos regressar ao foder real e rejeitar a filosofice masturbatória idealista, ou seja, nos termos literais em que o expressou na Ideologia Alemã, a vida real está para a filosofia, assim como o sexo real está para a masturbação;
- Nietzsche: a Vontade é, na sua expressão mais radical, a Vontade de Foder, que culmina no Eterno Retorno do «quero mais», de uma foda que prossegue indefinidamente
- Heidegger do mesmo modo que a essência da tecnologia não é nada «tecnológica», a essência de foder não tem nada a ver com a foda enquanto simples actividade ôntica; ou melhor, «a essência do foder é o foder da própria Essência», isto é, não somos apenas nós, humanos, que fodemos a nossa compreensão da Essência», é a Essência que já está em si mesma fodida (inconsistente, retraída, errante);
- e, finalmente, a intuição de como a própria Essência está fodida, leva-nos à expressão de Lacan «a relação sexual não existe».
[Slavoj Zizek, Lacrimae Rerum, pgs 150-152, nt 108]
---------------------
Não menos interessante do que a leitura da história da filosofia moderna ancorada na foda, é o facto de esta nota, a 108 do capítulo sobre o realizador polaco Krzysztof Kieslowski, não ter, no corpo do texto (as notas estão todas agrupadas no fim do capítulo) uma chamada. De facto, entre a nota 107 e a 109, na tradução portuguesa, não existe qualquer nota. Ocorrem, porém, duas notas 109, que remetem, dessa forma, para uma reflexão sobre o Tristão e Isolda, de Wagner. Eis um belo acto de censura do inconsciente do paginador, ou será do processador de texto? O que introduz um mistério quase teológico: terão os processadores de texto também um inconsciente?

3 comentários:

José Ricardo Costa disse...

Como tenho andado, ultimamente, muito centrado no I. Berlin, dei comigo a reflectir como poderia a problemática da foda ser vista por ele. Diria talvez que há a foda positiva e a foda negativa. A foda positiva seria, por exemplo, foder ao domingo de manhã pois só é feliz e verdadeiramente realizado quem fode ao domingo de manhã, tendo na mesinha de cabeceira um livro de Júlio Machado Vaz. A foda negativa, por sua vez, seria a possibilidade de se foder quando se quer, com que quiser ou até mesmo a possibilidade de não foder.

JR

Anónimo disse...

http://wikisource.org/wiki/Author:Giorgio_Baffo

maria correia disse...

Parece-me, afinal, que a culpa terá sido do revisor...um amigo meu diria: «Freud explica isso.»