04/01/09

Ensino profissional

Comecemos pelo futuro. O Público diz-nos que o ensino profissional mais que triplicou nos últimos dez anos. A ministra da Educação proclama que o objectivo para 2010, de ter 50% de alunos do ensino secundário em cursos profissionalizantes, já foi atingido nos alunos do 10.º ano. Mas o futuro é-nos anunciado, discretamente, pelo senhor Luís Presa, presidente da Associação Nacional de Ensino Profissional: nos países do Norte da Europa, esse tipo de ensino é frequentado por cerca de 70% a 80% dos alunos. Mensagem subliminar: atenção, o ensino secundário "via de ensino" só se destina a uma pequena percentagem de alunos. Todos começamos a perceber então o que significa o plano tecnológico e o elevado investimento em educação: preparação de proletários. Eu nada tenho contra a realidade. Ela é o que é. Nós não precisamos de tantos licenciados, nem de tantos universitários. Mas chamemos os bois pelo nome, por uma questão de probidade. Não se falsifique a linguagem.

Olhemos para o passado. Quem foram os responsáveis pela disseminação de tanta ilusão? Quem escancarou as portas do ensino secundário e das universidades a iletrados e a gente que odiava estudar, mas que queria ser doutor ou engenheiro? Quem é o responsável por muitos alunos só ingressarem no ensino profissional depois de um ou vários anos de insucesso no ensino secundário "via de ensino"? Quem se recusa, ainda hoje, a fazer a selecção de alunos na entrada do ensino secundário "via de ensino", deixando a entrada no ensino secundário profissional ao acaso, aos anos de insucesso escolar ou à falta de ambição? Quem evita confrontar alunos e pais com a dura mensagem de que o ensino secundário "via ensino" é só para alunos que queiram estudar arduamente?

Só mais duas notas. Em primeiro lugar, uma das armas de arremesso contra os professores utilizada pela actual ministra da Educação foi o insucesso escolar no ensino secundário. Mas a senhora ministra, talvez por défice de informaçao sociológica, esquecia sempre a dura realidade de muito desse insucesso se dever à permissividade política na entrada no ensino secundário "via de ensino". Em segundo lugar, convém referir que não basta ter ensino profissional. É preciso que ele tenha qualidade e responda às necessidades do país, o que falta claramente demonstrar.

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