30/09/09

Novembro 2005: Crónica no Jornal Torrejano

Agora que estamos metidos nisto, não há nada como revisitar o passado. Nos finais de Novembro de 2005, ainda Cavaco não tinha sido eleito e este blogue não existia, escrevi no Jornal Torrejano, a crónica que segue:

Cavaco Silva falou…


Parece que o antecipadamente eleito Presidente da República começou a ter algumas ideias e vontade de as partilhar connosco. Depois de tanto silêncio, o Professor Cavaco começou a achar que um Presidente da República é mais do que um moderador da vida política. Pensa que pode ser um agente de desenvolvimento. Fiquei perplexo: os agentes de desenvolvimento não são a sociedade civil com a sua iniciativa e o governo com a sua política legislativa? Irá Cavaco, enquanto futuro Presidente da República, tornar-se, ao mesmo tempo, investidor, fundar empresas e criar riqueza para desenvolver o país? Nunca se lhe conheceu propensão para ser empresário e correr riscos, portanto não será isso que ele pretende.

Ora se não é isso, a única maneira de ser agente de desenvolvimento é interferir na vida da governação do país. É isto que me deixa perplexo. A legitimidade da governação cabe aos governos eleitos e não ao Presidente da República. Cogitemos que o Presidente da República entende, enquanto agente de desenvolvimento, desenvolver de uma determinada forma, mas o governo eleito, mandatado pelo portugueses para governar, acha que o desenvolvimento se deverá fazer de forma oposta.

Já imaginaram o bonito sarilho que as ideias do Professor Cavaco Silva podem provocar no nosso depauperado país? Dizer que um Presidente deve ser agente de desenvolvimento, no nosso sistema constitucional, pode ser o pontapé de saída para um conflito insanável em torno da governação. Esse conflito assentará no confronto entre duas maiorias – a governativa e a presidencial – que, possuindo legitimidade própria, embora para funções distintas, podem ser alavanca de conflitos muito sérios em Portugal. Será para isto que queremos eleger um Presidente da República?

Mas a minha perplexidade não fica por aqui. Se Cavaco Silva queria tanto ser agente de desenvolvimento, por que abandonou a governação? E quais os motivos que o levaram a não desenvolver o país quando era Primeiro-Ministro? E que motivos, com duas maiorias absolutas, o levaram a não tomar as decisões reformistas que Portugal, já na altura, tanto necessitava? E a magna questão da função pública, por que a criou ele? Não foi ele que deixou, para os futuros governos, uma situação completamente armadilhada? Não foi ele também que permitiu a proliferação indiscriminada de Universidades Privadas e de Institutos Politécnicos, cujo resultado é a baixa qualidade do ensino universitário e 60 000 licenciados no desemprego? E não foi ele que instituiu a Reforma Roberto Carneiro, que o actual governo segue religiosamente, e que destruiu o que restava de qualidade na escola portuguesa?

Cavaco Silva não pode falar. Pode fingir que fala. Mas sempre que deixar transparecer o que lhe vai na alma, os portugueses têm o súbito vislumbre de que podem estar a meter-se num grande sarilho.

2 comentários:

António disse...

Só uma observação: os governos não são eleitos.

JCM disse...

Toda a razão, mas a expressão serviu apenas para encurtar razões e explicações.