29/11/08

Questões de linguagem


Diz o Sol que Jerónimo de Sousa reforçou o léxico marxista. Este teria voltado em força, depois da liderança de Carvalhas. É provável que assim seja. Mas o problema não terá a ver com a diferença de personalidades, mas residirá noutro lado. No tempo de Carvalhas, ainda não era claro o que significava o triunfo global da ideologia liberal. A possibilidade de democracias fundadas em economias de mercado, mas com amplas classes médias, não se tinha esfumado. Hoje, como já há uns anos a esta parte, é notório o caminho que o Ocidente decidiu trilhar. A social-democracia converteu-se ao imaginário liberal e tem-se assistido ao retraimento das classes médias, à sua pauperização, à sua proletarização.


O exemplo mais interessante em Portugal é o dos professores. Até ao governo de Sócrates, os professores, pelo seu número, representavam um sector estruturante das classes médias portuguesas, nomeadamente na província. Mas o novo estatuto da carreira docente, que implica perdas salariais ao longo da carreira entre 25% a 50%, deu início ao processo de proletarização do professorado português. Depois, ainda ficam admirados da influência da FENPROF e do senhor Mário Nogueira. Este exemplo, é apenas um sintoma do que se vai seguir, do nascimento de novas formas de proletarido, já não idênticas ao operariado tradicional, mas talvez não menos radicais (veja-se ainda o caso dos professores).

Isto foi a janela de oportunidade para o PCP retornar aos seus bons velhos tempos. É isto também que permite a Jerónimo de Sousa dizer com convicção coisas tão extraordinárias como «Sabemos do ódio que provocamos nos nossos inimigos». Se as elites políticas, mesmo as sociais-democratas, decidem aceitar como o único argumento válido o liberal, não podem esperar que o terreno social fique tranquilo. Se não se quer uma sociedade onde um Partido Comunista tenha influência, então que se abandone o sonho maximalista presente na ideologia contemporânea e se volte ao ideário grego da justa medida e do meio-termo. Só em sociedades equilibradas se evitarão alternativas radicais. O renascimento do radicalismo marxista, mesmo que seja apenas um facto lexical, mas não o é, é apenas o contraponto do radicalismo que tomou conta das elites económicas, sociais e políticas. Não há nada de novo sob o Sol.

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