16/02/10

O retorno e a imaginação

Portugal estava (século no início do século XV), de facto, entalado entre o poderoso vizinho e o mar, confinado num espaço periférico, um finisterra não apenas em termos do Ocidente europeu, mas até da própria Península. Daí resultava o que chamámos o impasse ibérico do reino. À época, a única via possível para buscar um caminho próprio era o mar. E desde há muito que o mar ocupava um lugar de grande importância na vida do reino. A extensão da costa, a participação directa das populações do litoral em actividades marítimas como a pesca (em largas zonas da orla costeira), a extracção de sal (em Aveiro, no Baixo Mondego, no estuário do Tejo, no Sado) e até a familiarização com o vaivém de embarcações que faziam navegação de cabotagem ligando cidades e regiões costeiras (sendo esse, por vezes, o meio de transporte mais rápido e seguro), tudo concorria para uma relação de proximidade com os elementos marinhos, não só em termos físicos mas também ao nível das representações mentais. [Bernardo Vasconcelos e Sousa, (2009). "Idade Média", in Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. 172]

-------------------

Com o fecho do ciclo imperial, em 1974, Portugal volta a uma situação geopolítica idêntica àquela em que viveu até ao século XV, um finisterra europeu e ibérico. A diferença, porém, é que mesmo o mar deixou, com o fim da ideologia colonial e dos respectivos impérios, de ser caminho para o impasse político do país. A partir de 1974, Portugal está perante si mesmo, dolorosamente só. O apelo à razão, isto é, à confrontação com o que somos efectivamente, porém, é substituído, por duas vezes, pelas operações da imaginação que sublimam a nossa situação. A primeira vez que a imaginação opera é nos próprios acontecimentos de 74 e anos seguintes, no denominado processo revolucionário em curso (PREC). A crença utópica numa sociedade socialista, fora do mundo ocidental onde geográfica e culturalmente pertencemos, ocupou uma largo espaço imaginal nesses anos. Estamos ainda longe de poder compreender o efectivo significado colectivo dessa grande configuração imaginária dos anos setenta.

No entanto, para além de razões puramente fácticas - a longa ditadura, clivagens sociais humilhantes, etc., a figura imaginária da revolução surgiu como sublimação de duas feridas narcísicas insuportáveis. Em primeiro lugar, o país tornou-se efectivamente um pequeno país, reduzido a 90 mil km2 na península e a dois arquipélagos perdidos no mar e de dimensões irrelevantes. A história gloriosa e a pátria grandiosa reduziam-se a quase nada. O PREC foi um analgésico colectivo para a dor da perda. Isto dos dois lados da barricada.

Os que eram favoráveis a uma utópica continuação da guerra encontraram nos actores políticos da descolonização o bode expiatório, na figura da traição à pátria dos revolucionários de Abril, para o fim de uma política colonial sem saída. Mas aqueles que, dentro do PREC, tiveram de fazer a descolonização, ainda que ideologicamente favoráveis ao processo, encontraram no PREC um álibi para tranquilizar as consciências perante o que viria a seguir e para não pensar na nova situação do país reduzido à sua dimensão ibérica.

O PREC foi uma poderosa figura do imaginário colectivo que permitiu à direita e à esquerda, bem como à comunidade nacional no seu todo, evitar confrontar-se com a realidade da nova situação e sublimar as dores que efectivamente o fim do império colonial trouxeram para toda a sociedade. Um dos efeitos mais interessantes deste poderoso filtro da consciência foi a integração dos chamados retornados, portugueses que abandonam os novos países nascidos da descolonização. Por muito dolorosa que a partida de cada pessoa e família fosse individualmente sentida, a sua integração no todo nacional foi praticamente indolor.

Se a mitologia do PREC e da construção de uma sociedade socialista entra rapidamente em decadência, tornando-se obsoleta já nos finais da década de setenta, Portugal encontra uma nova mitologia, um novo trabalho imaginário que o vai dispensar de se confrontar com a sua realidade efectiva. A nova figura da imaginação portuguesa estava já pronta e era uma realidade bem racional na Europa. Essa figura é a CEE. A generalidade dos países que integram o projecto dos seis fazem-no racionalmente. Portugal fá-lo, porém, de uma forma imaginária. Seria interessante analisar os discursos dos vários protagonistas políticos no primeiro lustro dos anos oitenta. O inconsciente colectivo recebe a CEE como um novo espaço mítico que, por si mesmo, resolveria todos os nossos problemas. Seríamos europeus, coisa a que estávamos desabituados há cinco séculos, sem outra necessidade do que a da integração.

A triste história da integração, desde as narrativas delirantes do pelotão da frente até ao descalabro actual, passando pelo pântano, tornam evidentes à saciedade de que a nossa integração nunca correspondeu a um trabalho da razão, mas à sedução proveniente das figuras da imaginação. A CEE serviu para evitar a dor proveniente do confronto com a nossa pobreza ancestral, a falta de recursos, o desprezo pela inteligência, a fragilidade e egoísmo social das elites.

E tudo isto assenta de tal maneira em processos imaginários que o nosso elemento de referência, aquele que foi uma solução para a escassez endémica com que o país sempre se debateu, refiro-me ao mar, foi recalcado, esquecido, abandonado, fora do seu aproveitamento turístico. Com a adesão à CEE, a frota de pesca desapareceu. O que serviu a outros para racionalizar, a nós serviu para destruir, como se a relação com o mar não fosse mais do que um mero sonho. No século XV, o sonho levou-nos mar fora, para outras paragens. Hoje, o mar implica não a fuga, mas a razão, o trabalho, a diligência. Por isso o abandonámos, preferimos alugar camas e a servir refeições a quem passa por cá para olhar o mar com melancolia.

15/02/10

O livro do entardecer 39 - carnaval

dançam dançam dançam
remadores do rio da morte
dançam braços pernas ao vento
à chuva pesada e fria
dançam na melancolia
dançam no inverno
corpos a baloiçar
a pender do patíbulo
enquanto a vida foge pelo mastro
de onde cristo algum ressuscitaria

A Igreja e a sexualidade


A reunião de Bento XVI com a hierarquia da Igreja irlandesa por causa de práticas pedófilas encobertas pela própria hierarquia local (aqui ou aqui) mostra um problema que está longe de se circunscrever à Irlanda (ver, por exemplo, aqui). Esta generalização da descoberta de uma praxis repugnante e hedionda não deve ser apenas pensada pela Igreja do ponto de vista do pecado e do crime individuais. Não estou a dizer que todos os padres devem pagar por aquilo que alguns fizeram. Os actos comprometem os que os praticaram, mas também aqueles que calaram e encobriram. Mas a Igreja deve ir mais longe e interrogar a relação da casta sacerdotal católica com a sexualidade.

Em muitas religiões, inclusive em confissões cristãs, a casta sacerdotal não é obrigada, a não ser em caso de vocações muito específicas, ao celibato. A hierarquia e o clero da Igreja Católica são compostos por homens comuns e nada nas suas funções implica a negação da sexualidade própria. O recalcamento da sexualidade bem como o afastamento dos padres de uma vivência familiar com filhos acaba por os tornar insensíveis a estes problemas e a pactuar com o diabo, para falar eufemisticamente. Se compararmos, pelo menos ao nível daquilo que se conhece publicamente através da comunicação social, os cleros das várias confissões cristãs, é praticamente apenas na confissão católica que o problema da pedofilia atinge as proporções absolutamente dramáticas que se estão a conhecer. Isto não quer dizer que o celibato conduza à pedofilia, nem quer dizer que não haja pedófilos casados e pais de família. Mas dever-se-á, pelo menos, perguntar se não haverá uma correlação entre a exigência do celibato pela hierarquia e este tipo de crimes, se o celibato coercitivo não perverterá a sexualidade de alguns padres e tornará outros insensíveis ao problema? A Igreja Católica precisa de repensar muito claramente a sua relação com a sexualidade, se quiser viver e ter ainda alguma influência sobre o mundo.

José Afonso - Moda do Entrudo

Morrer de frio

Esta notícia mostra que aquela ideia peregrina de que Portugal é um país de clima temperado não passa de uma valente idiotice. Idiotice essa que, durante muito tempo, dispensou os construtores de casas de as prepararem para o frio. Mas a notícia é ainda o espelho de uma outra coisa. Espelha a miséria endémica e uma sociedade absolutamente desequilibrada, que nem os dinheiros provenientes da União Europeia conseguiram disfarçar. Portugal, um dos países da União onde mais se morre de frio.

Carnaval


Não desesperemos! As cinzas de quarta-feira já não estão longe.

14/02/10

O livro do entardecer 38 - nenhum sentido havia

nada sei desse nome soberano
sobre a vida se ergue
e um caminho de pedra rasga
onde tudo era água e areia
ou fogueira onde se aqueciam
as doces raparigas
junho as trazia no regaço

se era triste a tristeza
e o vento falava com a sua voz de sopro
nenhum sentido havia
a não ser o tempo a correr
enquanto o coração batia
aos frágeis indícios
de um inverno por anunciar

Charles Aznavour - La Boèhme

É um retorno, julgo. Mas não cansa. Isto pertence a uma geração anterior à minha, mas ainda é do meu tempo, como se dizia.

Uma educação liberal


Raramente estou de acordo com o que escreve João Carlos Espada (JCE). Não é, porém, o caso de hoje. O seu artigo, Os grandes livros e a educação do carácter, no jornal i, toca no que é essencial na educação universitária. A universidade não pode ser aquilo em que se está a transformar. A educação universitária deve ser uma educação liberal. Liberal aqui deve ser entendido, como o próprio João Carlos Espada refere, como o era na Idade Média, em contraponto com a servidão. Nessa educação liberal o fundamental é a conversação e o contacto com as grandes obras, os clássicos, e também com grandes professores. A universidade deve servir para formar, como afirma Burke na citação feita por JCE, a aristocracia natural que existe em todos os povos. Iria mesmo mais longe, toda a educação deveria servir para formar o que há de naturalmente melhor em cada um dos indivíduos. Deste ponto de vista, toda a educação deve ser aristocrática. Embora, a partir de um certo grau de ensino comum, os percursos se devam diferenciar conforme as aptidões de cada um. Mas desde que uma criança entra na escola deve-se-lhe propor como horizonte o tirar de si aquilo que tem de melhor, seja uma vocação política, científica, técnica ou outra dentro do que é determinado como socialmente aceitável. Só esta educação, que é verdadeiramente uma educação do carácter através da aquisição de um currículo, pode tornar os homens livres e empreendedores. Só uma educação aristocrática é capaz de gerar respeito pelos valores da democracia. E é nisto que o Ocidente está a falhar, desde a escola básica à universidade. Em vez de homens livres, está a formar escravos. Escravos dos seus próprios desejos, já não habituados a uma satisfação diferida, como escravos dos outros a que se venderam por falta de carácter e incapacidade de resistir a si mesmos.

Uma nota final sobre a referência que JCE faz a Platão. Muitas vezes JCE, embora não tenha lido muito do que ele escreveu e possa estar a ser injusto, refere-se a Platão, na esteira de Popper, para o integrar nos advogados de regimes totalitários. Hoje, porém, escreveu algo de mais essencial e de menos anacrónico sobre o autor da República. «Mas seria com Platão e Aristóteles que a ideia de educação liberal viria a receber total consagração intelectual.» Eis uma afirmação com a qual estou plenamente de acordo. A educação dos homens livres é aquilo que visa a filosofia. Diria mais. Sem educação filosófica, não há educação livre nem para a liberdade.

13/02/10

Desespero


A isto chama-se desespero. Por muito que o PS desminta ter originado a convocatória da manifestação espontânea, quem acreditará, mesmo que seja verdade? Quando os ventos mudam, e eles já mudaram há uns tempos, nada corre bem. Se ao menos Sócrates se pudesse calar, talvez ainda encontrasse forças para resistir à maré. Mas como poderá ele ficar calado agora, se sempre falou de mais?

2. A lei da natureza e a virtude infeliz


Retomemos a leitura de Justine, de Marquês de Sade. No post anterior foi sublinhada a natureza totalitária dos universos descritos por Sade e referida a sua função arquetípica na história da Europa contemporânea. Esses universos são, por seu turno modelados, na caverna platónica. Em cada uma das situações onde Justine se vê envolvida, tanto as vítimas como os algozes libertinos estão, como os prisioneiros da caverna de Platão, presos, submetidos à força. As vítimas submetidas à violência da coacção física, os libertinos, à violência do desejo.

Que lei rege estas cavernas platónicas? O próprio texto a explicita claramente. Desde ladrões e valetes de quarto a aristocratas, passando por burgueses, religiosos e homens de ciência, como o médico incestuoso, pedófilo e assassino, todas enunciam a mesma legalidade, a de um universo social regulado pela lei da natureza. Esta ao fazer uns fracos e outros fortes estabelece o padrão do que cabe a cada um na vida social. A uns fez fracos e vítimas e a outros, fortes e carrascos. O desejo ou a luta entre desejos, num prolongamento da filosofia de Hobbes e antecipando Hegel e Freud, é crucial na visão de Sade. O desejo liga os homens à natureza e entre si, tornando uns senhores e outros escravos. O desejo é, contudo, a manifestação da razão. A razão natural que se inscreve na capacidade e poder, físicos e intelectuais, com que cada um se apresenta ao mundo. Um prolongamento de certos concepções sofísticas contra as quais pensaram Sócrates, Platão ou Aristóteles.

Esta concepção da lei da natureza permite, então, perceber como os universos totalitários se instituem e como se regula a ordem que os estrutura. Concomitante a isto é, por seu lado, a demonstração de que qualquer comportamento virtuoso é fonte de logros e um caminho para a sujeição. O subtítulo da obra – os infortúnios da virtude – mostra a conexão entre a aspiração à virtude e a infelicidade que ela produz. Numa leitura aparentemente crítica das concepções de virtude que provêm do platonismo e do cristianismo, as personagens libertinas tentam, a cada momento, mostrar que o mundo está feito de tal forma que só o vício é recompensado. Um tema que terá impressionado a imaginação do final do século XVIII. Deus ausenta-se do mundo, e a virtuosa Justine passa uma vida de sujeição até que a própria natureza, através de um raio, a aniquila. Na caverna onde os homens habitam, uma caverna constituída por mil outras cavernas, só a astúcia, o ardil, o embuste, a violência são verdadeiramente virtuosos, isto é, nos tornam excelentes na sobrevivência e permitem a satisfação dos desejos com que a natureza nos dotou.

12/02/10

Carinhoso (Pixinguinha/Braguinha) - Paulinho da Viola e Marisa Monte

Uma sociedade doente


Esta notícia mostra a insanidade a que se chegou em matéria de sexualidade e o tresloucamento que vai na cabeça do legisldor. O rapaz, de facto, portou-se mal ao fazer um filme de um acto sexual privado, uma felação, e o ceder a uns amigos, que fizeram o favor de o espalhar pela escola. Mereceu pagar a indemnização à parceira, mereceria ainda uns bons açoites. Mas a acusação que o levou ao banco dos réus, acusação de acordo com a lei em vigor, revela a doença mental que atravessa as nossas sociedades. O rapaz foi a julgamento, e condenado a uma multa, por crime de pornografia de menores. Ele tinha acabado de fazer 16 anos. Ela tinha 15. Quem faz estas leis? Uma sociedade que instiga, a partir do próprio poder, à sexualidade, à educação sexual nas escolas, que permite todo o tipo de exibição do sexual, depois acha que uma filmagem de um acto sexual consentido entre dois miúdos é pornografia de menores. Se o rapaz fosse condenado por violação da privacidade, seria compreensível. Isto mostra apenas que estamos intoleravelmente doentes. Diga-se, em abono da verdade, que a justiça foi, contrariamente a outras situações, até bastante responsável. Mas o legislador...

Quem és tu romeiro?


Um equívoco com cinco anos. Nunca o Partido Socialista teve uma oportunidade tão generosa para fazer alguma coisa do país como a primeira maioria absoluta alcançada por Sócrates, na esteira da triste governação que foi a de Santana Lopes. Mas se este estava pouco preparado para governar, Sócrates ainda estava menos. Mas o pior nem é isso. O pior é que Sócrates e a cultura que tomou conta do PS, um partido sempre frágil na sua relação com os princípios, foi pensar que se podia fazer sempre política através de truques e de leituras apressadas de Maquiavel. Em democracia, o maquiavelismo funciona se houver substância, se se souber o que se quer e se se tiver alguma coisa de sólido para oferecer à comunidade. Mas se apenas existe habilidade para o truque, se não houver consistência e solidez nos princípios, e se não se tiver um rumo para onde se quer conduzir o país, então as leituras de Maquiavel são inúteis. Em vez de um príncipe glorioso, temos um romeiro. Quem és tu romeiro, pergunta-se no Frei Luís de Sousa, de Garrett. Ninguém, responde o romeiro. Quem és tu romeiro? Eis a pergunta que assedia a cabeça de Sócrates.

Jornal Torrejano, 12 de Fevereiro de 2010


On-line encontra-se já a edição semanal do Jornal Torrejano.

10/02/10

O livro do entardecer 37

a que distância ficam os teus olhos
se a noite cai
e tudo se cala
no fulgor da tempestade

a tardia luz
desce sobre ti
e os teus dedos
são uma colónia
de mágoa e esquecimento

Elis Regina - Águas de Março

Um discurso inteligente


Um discurso inteligente. Um sábio equilíbrio entre o mercado e o Estado. Uma afirmação da importância da autoridade e da decência das instituições. Nenhuma oferta de ilusões. O país precisava de ouvir isto. Paulo Rangel falou para a direita, mas também para o centro-esquerda, para as pessoas da esquerda democrática que já não suportam a situação onde se chegou. Há muito que não se ouvia, vindo da área dos partidos da governação, um discurso tão sólido, um discurso que não oferece nada, mas propõe um combate para recuperar a decência e a esperança. Resta saber o grau de sanidade do PSD. Vai escolher este caminho difícil ou vai embarcar em experimentalismos liberais que acabarão por abrir ainda maiores clivagens na sociedade?

Mau sinal para Sócrates


O que significa a candidatura de Paulo Rangel à liderança do PSD? Significa apenas que toda a gente já percebeu que o reino de Sócrates está por um fio. Estivesse Sócrates forte e Passos Coelho iria a jogo sozinho. Agora, porém, que o poder espreita de uma janela já meio aberta, os pesos pesados aprestam-se a ir a jogo. Belém, por seu turno, começa a sorrir. Depois da trapalhada da inventona das escutas, a esfinge presidencial olha, de longe, para Sócrates e contempla-o na luta de morte que trava consigo mesmo. Em Belém está um homem paciente. Paulo Rangel a correr para o PSD? Mau sinal para Sócrates.

Um incómodo


Tornou-se um incómodo para o próprio partido. Quando Jaime Gama se mostra sibilinamente preocupado com a credibilidade do primeiro-ministro, isso significa que a credibilidade de Sócrates está a tornar-se tendencialmente nula. Sócrates deixou de ser solução para o quer que seja. É um problema. Problema para o país e um problema para o seu próprio partido. A falta de solidariedade interna, que o primeiro-ministro diz sentir, está inscrita na linha de orientação que ele próprio impôs ao partido e à governação. Os fortes não devem preocupar-se com os fracos. Nunca pensou que o fraco seria ele. Aqueles que o estão a abandonar são exactamente os mesmos que o apoiaram quando era poderoso. Portanto, pode esperar o pior. Seja como for, o problema do PS não é bem Sócrates, mas a cultura política que ele representa. Muitos Sócrates existem no PS. Apenas esperam a sua hora. Porém, o PS e o país bem precisavam de aniquilar a cultura socrática e do grupo que o apoio ou apoiou. Portugal precisa de um partido da esquerda democrática. Que seja democrático e que não tenha vergonha de ser de esquerda. Fundamentalmente que respeite os cidadãos e os valores essenciais da liberdade e da democracia.

09/02/10

O livro do entardecer 36 - ave

desfigura-se a casa onde
o coração poisou
a janela aberta
vidro partido
e a ave que um dia chegou
tem nas asas a força do vento

imóvel é uma sombra na parede
o desejo à espera do momento

Jean FERRAT chante ARAGON aimer à perdre la raison

A putrefacção


Por mais que Sócrates fale em acto criminoso a divulgação ilegal das escutas, ou Pinto Monteiro proclame que tem condições para se manter no cargo, a verdade é que o país sente um profunda perplexidade por tudo aquilo que sabe. Mais incomodado se fica quando são os próprios juízes, através da sua Associação, que questionam as decisões do Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, e o presidente do Supremo Tribunal, Noronha do Nascimento. A blogosfera, por seu lado, parece mobilizar-se e cortar com a apatia geral. Mas o que sobressai é que tudo, desde as conversas de Sócrates, às decisões dos responsáveis judiciais e à divulgação das escutas, tudo isto, repito, mostra o grau de putrefacção a que a vida democrática chegou em Portugal. Ninguém acredita nos partidos, com exclusão dos militantes mais dotados de fé, nem na independência das instituições de justiça. A situação está a tornar-se intolerável e a coisa ainda vai acabar mal.

P.S. Para completar o ramalhete, junte-se também as declarações do Presidente do Sindicatos dos Magistrados do Ministério Público. O mínimo que se pode dizer é que as decisões de Noronha da Costa e de Pinto Monteiro deixaram muitos dos seus colaboradores ou colegas perplexos.

08/02/10

O livro do entardecer 35

tínhamos a vida por diante
e um desprezo pelas horas
leve e fundo
o sono iluminado por archotes
e dos caminhos queríamos atalhos

éramos hóspedes e não o sabíamos
nem das fogueiras víamos a cinza
apenas o fulgor da eternidade
ou o leito para sempre o nosso

mãos nas mãos desfiamos agora quimeras
naturezas mortas

um rosário de sombra e esquecimento

Georges Moustaki - Ma Solitude

Uma deriva na discussão sobre a regionalização


A discussão com o meu caro amigo JTM sobre regionalização mudou de agulha, parece que caiu para a questão da democracia e da liberdade. Quando li o texto do JTM, no Terra Nossa, fiquei a pensar que ele estava a brincar comigo, somando equívocos sobre equívocos para chegar ao absurdo. Vamos pensar ingenuamente, porém, que não, que ele estaria de boa-fé. Só para a conversa poder continuar.

Diz JTM que “um dos principais objectivos de Oliveira Salazar era, precisamente, segundo o próprio, democratizar o regime”. Depois cita um ensaio, de José Manuel Quintas, estruturado, tanto quanto me pareceu sobre a publicação, por Manuel Braga da Cruz, de um conjunto de textos inéditos e dispersos de Salazar publicados entre 1908 e 1928. JTM joga na ambiguidade da expressão “democratizar o regime”. Qual? Os amores democrata-cristãos de Salazar estão relacionados, fundamentalmente, com o combate do simpatizante monárquico e católico, ao que consta e a influência de Maurras não desmente, contra a I República jacobina. Trinta e seis anos de presidência do conselho julgo que são tempo suficiente para mostrar o amor do professor Salazar pelo democracia representativa, pela liberdade de expressão, o seu amor ao multipartidarismo. Preocupou-se em acabar com a censura, a polícia política, as perseguições aos adversários? Que Salazar possa ter tido uma paixão democrática, anglófila, na juventude, compreende-se. Compreende-se até que escreva a favor de uma democratização da I República, regime herdeiro da odiada Revolução Francesa e inimigo do seu sentimento monárquico e católico. Pena é que nunca tivesse tentado democratizar a ditadura que instaurou. Não faltaram poder nem oportunidades.

Sob a autonomia das colónias, entendida esta como independência nacional, também é evidente que nunca esteve em cima da mesa, a não ser na parte final do regime essa possibilidade. E mesmo aí não foi em cima da mesa nem sequer debaixo dela. Talvez estivesse atrás da porta, e isso era já um pensamento demasiado liberal. Penso que treze anos de guerra colonial são tempo suficiente para a acção exprimir um pensamento efectivo. São uma evidência desse pensamento. Sobre a “revelação” de Kaulza da Arriaga há uma coisa que é evidente. O dr. Salazar, de facto, ponderou as várias possibilidades, porque é isso que um político deve fazer. Daí a dizer que o próprio Salazar era uma espécie de independentista anti-colonial encapotado («Afinal, segundo esta inconfidência de Kaulza de Arriaga, até Salazar admitia a autodeterminação, que poderia mesmo desembocar na separação total, mas desde que não se soubesse e ficasse no segredo dos deuses!») faz-me lembrar o livro do Chesterton, O Homem que era Quinta-feira.

Uma organização anarquista-terrorista, daquelas que punham bombas e matavam pessoas, tinha um comité central com sete membros. Cada um deles era designado por um dia da semana. Tendo vagado, talvez por morte, o lugar do Quinta-feira, a polícia, que estava infiltrada na organização, conseguiu manobrar de tal maneira que o lugar foi preenchido por um polícia. O mais interessante é que esse polícia, o Quinta-feira, descobriu que os outros membros do comité central eram também eles polícias infiltrados, e que o próprio Domingo, o chefe do bando terrorista, era nem mais nem menos o chefe da polícia. Assim, também o dr. Salazar era um combatente anti-colonial infiltrado no Estado Português para facilitar, em segredo, claro, a libertação das colónias e a respectiva independência.

Sobre a questão do marxismo-leninismo e a questão da liberdade. A citação que JTM faz de Engels precisa de uma outra interpretação. “É o salto da humanidade do reino da necessidade para o reino da liberdade”. O conceito de liberdade usado por Engels nada a tem a ver com a liberdade tal como nós a conhecemos nos regimes de democracia representativa. Nessa citação “liberdade” é um conceito filosófico herdado do idealismo alemão, fundamentalmente de Kant, e deve ser entendido em contraposição, como o Engels o faz, com necessidade. Através do desenvolvimento de novas socialiadades, o homem libertar-se-ia das suas necessidades naturais (aquelas que o submetem à mecanicidade e determinismo da natureza) e tornar-se-ia assim livre. Seria a realização material da liberdade moral kantiana. Mas liberdade aqui não significa a liberdade política. O que Engels visa é a destruição de toda a instituição política, instituição essa que provém do reino da necessidade. E não era disto que estávamos a falar, bem como não era da democracia tal como Lenine ou as ditas democracias populares a entendiam. Pelo menos eu, estava a falar da liberdade e da democracia tal como são entendidas no mundo político ocidental. Utilizar a polissemia da linguagem não vale como argumento. Manobra de advogado.

A proclamação da defesa incondicional da democracia também a subscrevo. É uma coisa que não custa nada. Mas não é por causa da bondade da minha intenção que a democracia vai funcionar no Iraque. Eu teria muito prazer nisso, mas a realidade é a que é. Voltando à regionalização. Portugal não tem regiões a que lhes falte democracia. Toda a vida política portuguesa é, formalmente, democrática. Tem umas comissões de coordenação regional que são órgãos administrativos e que, como muitos outros órgãos existentes no país, as suas direcções dependem dos órgãos democraticamente eleitos. Não há uma região de Lisboa e Vale do Tejo, nem uma região Centro, nem mesmo uma Região Alentejo, etc., com especificidades tais que exijam um reconhecimento diferente daquele que existe. No dia em que essas super-autarquias forem criadas, começamos um novo caminho de criação de identidades inexistentes, de elites exigindo maior autonomia, começamos a criar artificialmente diferenciações que o país nunca conheceu. Queremos isso? Quais as consequências?

Um sintoma de fragilidade

Esta oposição resolver-se-á, em Portugal, durante a Época Moderna e em favor da realeza, não obstante os avanços, as estagnações ou mesmo os recuos pontuais de tal tendência. Mas o que importa aqui sublinhar, desde já e uma vez mais, é o carácter precoce do processo de centralização da monarquia portuguesa, desde o século XIII. Não que o mesmo tenha sido linear e irreversível, mas cedo se afirmou como marca de singularidade face às entidades políticas congéneres da época. Aliás, independentemente de qualquer opção política da monarquia, as condições do reino - relativamente pequeno, com poucos recursos materiais - tornavam improvável outra situação que passasse pela ascensão e forte autonomia de sólidos poderes periféricos, fossem eles encarnados por grandes senhores feudais ou por comunidades urbanas que gozassem de independência institucional e política, como ocorria em França, na Itália ou mesmo na Alemanha. [Bernardo Vasconcelos e Sousa, (2009). "Idade Média", in Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. 168]

---------------

Este post vem na continuidade do de 23 de Janeiro passado. Note-se que se está perante exercícios de pensamento, ensaios de compreensão, mais do que tomada de posição, embora esta esteja sempre presente. Esta citação ajuda-nos a compreender o malfadado fenómeno da centralização do poder em Portugal? Muitos dos discursos sobre o centralismo e a putativa necessidade de regionalizar o país acabam por se fundar sub-repticiamente em duas ideias. A primeira ligar-se-ia a uma espécie de maldade metafísica, encarnada no poderoso Terreiro do Paço, que, apesar do poder excessivo que possui, aspira sempre e sempre por mais poder para si mesmo, retirando-o das comunidades, fragilizando-as, tornando-as menos autónomas e capazes de decisão. A segunda ideia diz-nos que este centralismo é causa da pobreza geral que acomete a comunidade nacional.

O que a História parece mostrar, porém, é outra coisa. A centralização do poder não deriva de nenhuma maldade metafísica, mas de uma necessidade intrínseca à afirmação do Reino e, posteriormente, do Estado-Nação, tanto sob regime monárquico como republicano. É a própria fragilidade do projecto Portugal (um projecto nascido na elite política luso-galaica e sem apoio nacional específico, pois não havia nenhuma característica nacional que separasse portugueses de castelhanos) que, a cada momento da história, acaba por tornar o centralismo político numa inevitabilidade não metafísica, mas política. Devemos interrogar a história para perceber a diferença, já na Idade Média, entre Portugal e as "nacionalidades" referidas por Vasconcelos e Sousa. O recalcamento de poderes regionais é o sintoma de uma fragilidade política específica, com origem histórica e que nunca deixou de se manifestar ao longo da vida de Portugal.

Por outro lado, o centralismo não é a causa da pobreza endémica, comparada aos padrões europeus, que atinge a vida dos portugueses desde a fundação do reino. Para além da fragilidade política do projecto, também a fragilidade económica é causa da centralização do poder político, como forma de racionalizar os parcos recursos materiais e humanos. A centralização política parece, assim, ter sido a estratégia que uma nação política e economicamente inviável encontrou para sobreviver. A questão que se coloca agora é, então, a seguinte: será que os pressupostos políticos, sociais e económicos que acompanharam a nossa história ao longo dos séculos mudaram?

07/02/10

O livro do entardecer 34 - cinza

uma monte de cinza
no umbral
as janelas de onde olhávamos
à espera de uma maçã
ou da noite que tudo cobrisse

descrevemos sempre o mundo
à espreita da súbita revelação
o fulgor de uma flor na encosta
o fátuo fogo de um olhar apaixonado
o revérbero que se desprende de um
para outro coração

"O quam preciosa" de Hildegard Von Bingen por Anonymous 4

Burocratas e caçadores


Não gosto de pessoas que são tão senhoras dos seus passos e das suas ideias, que dizem: «hoje, farei três visitas, escreverei quatro letras, acabarei esta obra já começada.» A minha alma está de tal modo aberta a toda a espécie de ideias, de gostos e de sentimentos, ela recebe tão avidamente tudo o que se lhe apresenta!... E por que razão recusaria ela os prazeres semeados sobre o caminho difícil da vida? São tão raros, tão espaçados, que seria necessário ser louco para não parar, para não se desviar mesmo do seu caminho, para colher todos aqueles que estão ao nosso alcance. Não há nada mais atraente, penso eu, que seguir no rasto das nossas ideias, como o caçador persegue a caça, sem afectar possuir qualquer caminho. [Xavier de Maistre (1794), Voyage autour de ma chambre]

---------

Quando Xavier de Maistre publicou isto, em 1794, ainda não estava em vigor a gestão por objectivos. De certa forma, ela já assomava no horizonte, daí a crítica às pessoas senhoras de si. Mas mais que um imperativo económico-existencial como acontece no mundo de hoje, a gestão por objectivos seria um defeito de carácter. Como é que um carácter defeituoso acabou por impor a sua lei ao mundo? Pergunta ociosa. Talvez o mundo seja propício aos caracteres defeituosos. Há no texto citado uma oposição que importa compreender, mas esta não é entre a razão (que seria figurada pelas pessoas senhoras de si) e a sensibilidade (aqueles que se entregam aos prazeres semeados pelo caminho da vida). A verdadeira oposição é entre uma razão burocrática e calculadora, uma razão de carácter deficiente – digo eu –, e uma razão lábil como a do caçador, uma razão que se adapta com inteligência àquilo que se apresenta no horizonte. Todos nós percebemos já como a nossa vida está determinada pelo mau carácter dos burocratas. Começamos a descobrir também a sensação de que o fundamental era ser inteligente como um caçador.

Instabilidade ortográfica


Tenho estado a ler textos na ortografia do português do século XIX. Mesmo nos romances de Eça de Queirós, ainda tão próximos de nós pelo Portugal que desenham, há uma ortografia que, aos olhos da actual, parece fantasmática. O leitor sente-se fora de casa, apesar da beleza gráfica que descobre nos lexemas. Ao olhar o texto, parece ter sido escrito noutra língua. Se comparo esses textos (ainda que de forma impressionista, pois não sou conhecedor da matéria) com textos franceses do século XIX e mesmo do XVIII, fico com a sensação de que a ortografia francesa é muito mais estável que a nossa. Existem diferenças, mas ao olhar para os textos, sinto-me em casa, aquele foi o francês que aprendi e que leio ainda hoje. Pode ser que seja uma ilusão óptica, mas até na ortografia vivemos em constante instabilidade.

O romance e a caverna platónica

(Imagem retirada daqui)

A intuição de Nietzsche que compreende Platão como um percursor do romance moderno capta, talvez para além daquilo que o próprio Nietzsche pensava, uma relação essencial entre a filosofia platónica e a narrativa moderna. Não é apenas, porém, na estrutura dialogada dos textos platónicos ou na fina psicologia com que são retratados alguns personagens, ou ainda as peripécias dos diálogos ou as técnicas narrativas que são o essencial dessa conexão entre Platão e o romance moderno (e aqui, sob a designação de romance moderno, incluiria também o conto, a novela, certa poesia e teatro, e formas artísticas extra-literárias, como o cinema ou, ainda e de forma provocadora, a pintura e a fotografia).


O essencial dessa conexão encontra-se naquele que é, porventura, o texto mais famoso de Platão, a alegoria da caverna (República, livro VII; pode ler aqui). Neste texto, como na generalidade da sua filosofia, Platão divide o mundo em dois. O mundo dentro da caverna, onde os seres humanos se encontram naturalmente, presos às suas necessidades naturais e às ilusões ideológicas que lhe estão associadas. Fora da caverna, existe um outro mundo, um mundo onde apenas se pode aceder pela libertação da necessidade natural e das ilusões provocadas por essa necessidade. Toda a filosofia é apenas o esforço de um ou outro prisioneiro para se libertar da sua condição natural e das ilusões inerentes a essa condição.


O que tem, no entanto, tudo isto a ver com a literatura, nomeadamente com o romance moderno? O romance moderno, a literatura e a arte em geral, não são outra coisa senão descrições, digamos assim, daquilo que se passa dentro da caverna. Todos os romances, por exemplo, falam apenas e só de uma coisa, da caverna e das acções que os prisioneiros da caverna levam a efeito dentro dela. A caverna platónica com os seus prisioneiros e a "verdade" que eles pensam possuir é o arquétipo do mundo humano, e é deste mundo que o romance trata. Um exemplo. D. Quixote de Cervantes é tido como o primeiro romance moderno. Não é curioso que o personagem principal sofra de ilusões cognitivas que o levam a distorcer a realidade de tal modo que confunde moinhos com gigantes? Quixote é uma personagem da caverna platónica, e a Mancha, apenas uma refiguração dessa caverna. Poder-se-iam multiplicar, ad nauseam, os exemplos.


Deste modo, todo o romance moderno vive da intriga gerada pela confluência das nossas necessidades naturais, manifestadas em desejos, paixões, sentimentos, etc., e as ilusões cognivitas de que somos portadores. Isto tem uma consequência. O romance, e acrescentaria toda a arte, vive sob o império da necessidade. Não me refiro à liberdade do artista enquanto criador, mas aos mundos desenhados nessas obras de arte. Necessidade e ilusão, eis a matéria do romance e, por extensão, da arte. Mas nós só sabemos que a ilusão não é a verdade e a necessidade não é a liberdade por oposição ao fora da caverna, à crença filosófica da existência de um mundo onde liberdade e verdade são a condição dos seus habitantes, se é que existe algum.

A alegoria da caverna não é apenas uma metáfora sobre a condição de possibilidade da filosofia. É ela que torna possível todo o romance e as respectivas intrigas no espaço da caverna. Sem a caverna platónica e o mundo fora da caverna (isto é, sem a cisão ontológica, para usar o filosofês), não haveria literatura nem arte em geral. Fundamentalmente não haveria romance moderno. Isto é assim mesmo que, paradoxalmente, exista literatura e arte muito antes de Platão ter visto a luz do Sol. Aqui, porém, é preciso distinguir o nível cronológico e o nível ontológico. O sentido ontológico, de que a alegoria da caverna é o símbolo, é a condição de possibilidade de toda a arte em geral.


Este texto serve como uma espécie de introdução explicativa de pressupostos a certas considerações que se irão fazer neste blogue sobre romances, em primeiro lugar a Justine, de Marquês de Sade.

06/02/10

O livro do entardecer 33 - queda

abandonamos aquilo que mais amamos
com a leviandade com que se afasta a infância
uma ilusão de árvore a crescer
algumas promessas na algibeira
sonhos exíguos
onde encaixotamos paixões

assim amadurecemos
até a putrefacção tornar as rosas
insuportáveis para o sofrimento
de quem nos vê cair

Mozart - Requiem - Karl Bohm

De acordo com o espírito do tempo.

A tempestade que se avizinha



O grau de degradação a que chegou a nossa vida cívica anuncia o pior. Não é a crise internacional que está a espoletar a situação que vivemos, mas o nosso comportamento e, fundamentalmente, as dezenas de anos, desde a entrada para a União Europeia, de leviandade política.


Vou dar um exemplo que me vai trazer má fama entre os professores. Quando comecei a leccionar, ensinava Filosofia, aos 10.º e 11.º anos, com um horário de de três tempos lectivos semanais (3X50m=150m). Hoje, para currículos relativamente semelhantes na extensão ou talvez mais diminutos, eu disponho de quatro tempos lectivos (4x45=180m). Quando havia exame de Filosofia do 12.º ano, coisa que aconteceu até Maria de Lurdes Rodrigues e Valter Lemos tomarem conta do Ministério da Educação, eu levava os alunos a exame com quatro tempos lectivos (4x45=180m), o que me chegava e sobrava. Hoje, sem exames e com o mesmo programa, eu disponho de seis tempos lectivos (6x45=270m). O que se passou com a Filosofia, aconteceu com muitas das outras disciplinas. Isto para não falar da aberração curricular do ensino básico, em que falta tempo para as disciplinas sérias e sobra para as inutilidades curriculares. Estas decisões implicaram um acréscimo de professores a contratar, sem que no entanto o benefício para a instrução geral dos alunos se fizesse notar. Foram actos de pura leviandade política fundada em crenças utópicas. O único mérito é o de ter dado trabalho no Estado a um maior número de professores, que sem essas decisões nunca teriam entrado na profissão. Mas hoje a primeira página do Expresso titula "Professores vão custar este ano mais 420 milhões". Talvez fosse bom que os professores interpretassem este tipo de coisas, para perceberem o que aí vem.

Sejamos, porém, honestos. Esta leviandade na educação é apenas uma gota de água na forma como se tem gerido levianamente os dinheiros públicos. Das autarquias ao poder central, todos nós suspeitamos que o esbanjamento é desmedido, tudo fundado nos projectos utópicos de gente sem sentido de responsabilidade nem a mínima noção moral relativamente ao bem comum. A situação financeira é absolutamente dramática, enquanto se finge, pois é isso que se faz, que vivemos na normalidade. Mas, na verdade, os que governam não sabem como se hão-de ir embora com honra, e os que estão na oposição rezam para que o fardo não lhes caia em cima.

Mas as nuvens negras não vêm apenas da esfera financeira e das contas do Estado. Vêm do ambiente em que se vive, do descrédito total do poder judicial, da imagem cada vez mais desgastada do primeiro-ministro e da elite política do Partido Socialista, mas também da oposição governamental. Vêm do ambiente de medo e de controlo da liberdade em que se vive. As pessoas têm medo de enfrentar os poderes, o central ou os autárquicos. Uma teia metálica, feroz, impiedosa abateu-se sobre a vida cívica, anulando o pensamento adverso e o contraditório. O pior é, porém, o clima de apatia que o cidadão comum ostenta perante a realidade económica e a asfixia da liberdade. Também ele finge que não se passa nada. Como não se passa nada, nada de mal vai acontecer. Esta era a doce ilusão dos gregos há uns tempos atrás.

Está a chegar a altura em que nos vamos confrontar com a nossa própria realidade. São dispensáveis profissões de fé no futuro, como se o futuro fosse sempre radioso. O futuro pode ser bem negro. É preciso, pela primeira vez, ter consciência disso. A leviandade que dirigiu Portugal desde a entrada na União Europeia sempre tinha como pressuposto que o futuro iria ser, talvez por um passe de mágica, radioso e cantante. Essa falsificação da realidade vai-nos sair muito cara. Ou mudamos a atitude perante a vida ou vamos pagar bem caro, tão caro que nem imaginamos quanto vai custar e quanto vai doer. Só sabemos a quem, pois isso toca sempre aos mesmos.

Um investimento

Proximamente, falarei sobre a experiência de ler no Kindle. Hoje, a questão é financeira. O Kindle, ou outro e-Reader, é uma despesa (custa cerca de 277 euros) ou um investimento. Depende do tipo de leitor que se é. Mas se se for um leitor devotado e se estiver interessado em muitas das coisas que caíram no domínio público, da literatura à filosofia, passando pelas diversas ciências, então um e-Reader é um investimento que, com o passar dos dias, se vai tornando invisível. A quantidade de obras gratuitas disponíveis, devido a não serem já abrangidas pelo copyright, é de tal maneira grande que se encontrará sempre dezenas de livros que se quer ler e que, com um e-Reader amigável para os olhos, se evita a sua compra em papel. Poupa-se no custo do livro e no espaço da estante. Mesmo nos e-books comprados se pode encontrar alguma diferença para o papel (mas não muita, diga-se). Há o problema da língua, é um facto, mas mesmo para a língua portuguesa encontra-se bastantes coisas disponíveis (refiro-me às do domínio público). Quem for leitor em língua francesa ou inglesa, então está no paraíso.

Jornal Torrejano, 5 de Fevereiro de 2010


On-line está a edição 707, série II, do Jornal Torrejano (quase me esquecia). Clicar aqui e aparece .

05/02/10

O livro do entardecer 32 – o que avança para nós

certas palavras chegam pela manhã
não para a anunciar as flores do dia
mas para esquecer o terror
que a noite deixou no olhar

com elas tomamos o mundo nas mãos
e navegamos sem rota ou destino
vigiamos as águas à espera
que o que avança para nós
se abeire dos olhos
como uma fotografia que ninguém vê

Acordo semântico


Cada vez que, por um sortilégio do destino (aqui, ou aqui, ou aqui), os portugueses têm acesso ao conteúdo das coisas que a justiça acha que não têm importância, seja na política ou no futebol, ficam com a sensação de que a língua portuguesa é um estranho caso de dupla personalidade lexical. Todos usam as mesmas palavras, mas para uns elas signifcam uma coisa, para outros significam radicalmente o oposto. Onde uns vêem crimes, outros apenas boas acções. Considerando que não estamos apenas perante uma mera ambiguidade natural da língua, mas diante de um radical conflito semântico, proponho que, antes de fazer entrar em vigor o acordo ortográfico com o Brasil, cheguemos, entre nós portugueses, a um acordo sobre o significado das palavras que usamos, um acordo semântico.

Every Time We Say Goodbye - Cinzia Spata & Marc Copland

Amanhã à noite, ele, o pianista Marc Copland, estará a solo em Torres Novas, no Cine Teatro Virgínia.

1. Universos totalitários – sexo, dor, dominação e totalidade


Justine ou les Malheurs de la Vertu era uma das obras do Marquês de Sade que, devido à incultura geral que por vezes me acomete, nunca tinha lido. Li-a agora. O texto merece meditação, tanto por aquilo que ele reflecte como por aquilo que anuncia. Como no caso de A Cidade e as Serras, espero fazer três textos sobre Justine. Estes textos são escritos como se nada se soubesse do seu autor nem das outras obras que escreveu, incluindo a terceira versão de Justine denominada La Nouvelle Justine, ou les Malheurs de la Vertu. Considera-se apenas esta obra em si mesma e os mundos que ela propõe ou revela.

Genericamente, as pretensas experiências sexuais a que, contra-vontade, a virtuosa Justine é exposta são, na sua essência, experiências de universos totalitários. Nos vários episódios que lhe acontecem, o que se depara ao leitor são mundos fechados, onde um exercício despótico de poder se manifesta em toda a sua amplitude, a qual vai até ao poder sobre a vida das vítimas. O horizonte das experiências sexuais narradas, onde se inclui o prazer sexual proveniente da violência sobre o outro, é esse universo ocluso, onde a única liberdade pertence aos libertinos que o comandam.

Justine começou por ser um conto denominado Os Infortúnios da Virtude, escrito por Sade em 1778, na prisão da Bastilha, cerca de dois anos antes do início da Revolução Francesa. O conto evolui para o romance que comentamos, que é publicado em 1791, cerca de dois anos depois do início da referida Revolução. Poder-se-ia, não sem propriedade, ver nesta obra de Sade o anúncio profético do período do Terror (entre finais de Maio de 1793 e finais de Julho de 1794). Nele, os jacobinos, sob égide de Robespierre e da facção da Montanha, suspenderam todas as liberdades e garantias dos cidadãos, perseguiram e assassinaram a seu bel-prazer os adversários bem como os próprios jacobinos sobre os quais recaísse suspeita de falta de zelo revolucionário.

Mas os universos descritos por Sade, que aparentemente são apenas universos sexuais e não políticos, anunciam já uma realidade bem mais tenebrosa do que o tenebroso período do Terror da Revolução Francesa, anunciam os universos totalitários que tomaram conta da Europa na primeira metade do século XX, universos que se prolongaram pelo mundo fora, como o mostra a terrível experiência do Cambodja. Não se está apenas perante tiranias. As relações que algozes e vítimas estabelecem na narrativa de Sade prefiguram os regimes políticos totalitários, onde todas as esferas da vida social estão submetidos ao Estado, e àqueles que exercem o poder dentro desse Estado. A dominação paranóica que as grandes figuras dos regimes totalitários, de esquerda e de direita, exercitaram não é diferente daquela que encontramos exercidas pelos libertinos nos diversos mundos pelos quais passa a infeliz Justine. O próprio prazer que esses libertinos extraíam da dominação e da submissão absoluta das vítimas, bem como da violência que sobre elas exerciam, pode estender-se ao prazer que os mais destacados elementos dos regimes totalitários do século XX encontraram no exercício do poder. A própria organização burocrática de certos “mundos” descritos por Sade (por exemplo, o do mosteiro ou o da casa do médico/mestre-escola) prenuncia já o princípio organizacional que presidiu à Shoah nos campos de concentração nazis ou os gulags soviéticos.

Não devemos, porém, ficar siderados pela terrível experiência dos regimes totalitários. Se olharmos para os universos de muitas empresas na era da globalização, a sua semelhança com o narrado por Sade é completa. Que o resultado de muitas das hipermodernas técnicas de gestão seja a doença psiquiátrica e o suicídio dos funcionários deve permitir compreender a conexão entre esses mundo e aqueles que Sade descreve. De Sade a certas empresas globais, com as suas impiedosas técnicas de gestão de recursos humanos, passando pelos regimes totalitários, há um fio condutor, o do desejo que pode. E por poder, esse desejo aniquila os outros desejos, aqueles que habitam os outros, os que não podem, começando por exigir submissão, passando pela subversão do desejo desse outro, acabando na sua morte.

Sade não é importante apenas pela revelação literária do sadismo. É importante também porque é uma das figuras centrais da modernidade ao desenhar os universos oclusos e totalitários onde a praxis sádica pode ocorrer. Não há sadismo consentido. Toda a dor para causar prazer, neste universo sádico, tem de provir daqueles que a sofrem contra-vontade. Daí, a necessidade do espaço concentracionário de natureza totalitária, daí a inquietante actualidade do divino Marquês.

04/02/10

O livro do entardecer 31

esqueço tudo quando o verão chega
espreita para lá dos cedros
e traça com letra de fogo
uma ordem de rendição

a carne ainda sedenta de frio
entrega-se à dolência das tardes
sem incêndio nem esperança
apenas um desejo de sombra
desenhado no rosto de quem passa

oiço o mar como uma miragem
e vejo a exaltação do teu olhar
ali mesmo onde só a cinza avança

Jacques Brel - Rosa

Ainda sobre a regionalização


Voltemos à conversa com José Trincão Marques (JTM) sobre a regionalização, fundamentalmente sobre o que ele escreveu no já longínquo dia 26 de Janeiro passado.
Diz JTM: "Este argumento [um dos meus argumentos contra a regionalização] fez lembrar-me as justificações de Oliveira Salazar e Marcelo Caetano para não democratizarem o nosso regime político, nem concederem mais autonomia às colónias do Ultramar.

Em abstracto até compreendiam a ideia da democratização e da autonomia das colónias africanas, mas a prudência não aconselhava aquelas aventuras.
"

Há aqui um equívoco. Oliveira Salazar nunca pretendeu democratizar o regime. Ele era visceralmente anti-democrático. Também nunca pretendeu dar autonomia às colónias. Salazar via como necessária, para Portugal e para o Ocidente, a presença portuguesa nas colónias. Não era apenas a impreparação dos povos colonizados para a autonomia, embora essa impreparação fosse efectiva, como as longas guerras civis vieram mostrar, e mostrar contra a nossa visão idílica do mundo. Salazar achava mesmo necessária a presença do Ocidente tanto para os povos autóctones como para a defesa do Ocidente. Relativamente a Marcelo Caetano quase que se poderá dizer o mesmo, apesar da chamada primavera marcelista. Marcelo Caetano foi, de certa forma, o principal ideólogo do Estado Novo. A crença na democracia foi tardia e de curtíssima duração. Esta analogia entre o meu argumento e os de Salazar e Caetano não colhe, pois eles não pensavam da maneira que JTM lhes atribui. Tudo isto é extensível aos regimes marxistas-leninistas. Eles não tinham por base uma crença na democracia. Acreditavam no fim do Estado e das instituições políticas de dominação, e viam na ditadura do proletariado um caminho seguro para essa destruição do político.

Mas imaginemos que sim, que há quem argumente que os povos não estão preparados para viver em democracia, portanto que se deve evitar a sua democratização. Este argumento é verdadeiro ou falso? Embora o regime de verdade e falsidade em política não tenha um cariz científico, mas apenas probabilístico, podemos dizer que, tendo em conta a experiência, há povos e situações políticas que não permitem uma transição à democracia. Como, infelizmente, não faltam exemplos nem vale a pena elencá-los. É só abrir o mapa em África, no Médio-Oriente e no Oriente e escolher de olhos fechados. Isto mostra, pelo menos, que para se tomarem determinadas disposições políticas é necessário ter em conta não apenas a bondade teórica do que se propõe, mas também as condições objectivas que existem e as consequências a médio e a longo prazo.

Diz, depois, JTM: "Ao contrário do que afirma JCM, não concordo que os portugueses tenham menor atitude para com a vida, a sociedade, o trabalho, o saber, e a virtude cívica do que os outros povos. Os portugueses têm as mesmas virtudes cívicas dos outros povos. As mesmas grandezas e misérias."

O problema está, de facto, aqui. É uma questão de crença cognitiva. Eu não acho que todos os povos possuam as mesmas disposições. A história, a geografia, a cultura moldaram-lhes as instituições e também as atitudes, inclusive para com o bem-comum. Eu não sou adepto da tábua-rasa. Não se pode apagar a história e aquilo que se sedimentou. Esse é o principal problema de Portugal. As boas ideias acabam por ser impostas por um despotismo iluminado, por vezes democrático, fazendo tábua-rasa da realidade. O resultado é aquele que é, a crise permanente em que se vive.

O problema da regionalização não é ela em si mesmo. O problema é o da fragilidade do Estado, sempre o foi e por isso ele se tornou desmesurado, de uma comunidade sem recursos, de uma classe política marcada pela vaidade, pouco preparada, geralmente ignara, irresponsável pelos seus actos, cheia de arrivistas, dotada de pouco espírito patriótico. Mas esta classe política só subsiste porque os cidadãos não exercem sobre ela vigilância nem a controlam. Muitas vezes, acabam por premiar os desempenhos marginais à lei. Isto tem explicações histórico-culturais. Há países em que isto não é assim, como há outros onde isto é bem pior. O problema está aqui. Podemos dizer que isto não existe, meter a cabeça na areia, e regionalizarmos o país. Amanhã, a regionalização será aprofundada, como as elites regionais não irão deixar de exigir, lentamente passar-se-á para situações de maior autonomia, a atracção de certas regiões espanholas, nomeadamente a Galiza, ir-se-á fazer sentir, e temos um problema onde ele não existia. Só isso.

Bem, esta prudência também pode ser sinal de que estou a ficar velho. Mas talvez não seja só isso.

03/02/10

Um paternalismo virtuoso


O último post sobre a leitura de A Cidade e as Serras, de Eça de Queiroz. O que representa Jacinto no seu retorno a Tormes? Ele emana de e reforça um certo arquétipo de homem condutor de destinos de uma comunidade. Volta do estrangeiro, fatigado com a depravação das grandes metrópoles, e deixa-se cativar pela virtude local, um misto de ingenuidade e de ignorância. O grande senhor convertido à virtude vai descobrir, horrorizado estética e eticamente, a miséria que impera nas suas propriedades. Prepara um grande plano de reforma, passando pela reconstrução de casas, até à construção de uma escola.

Jacinto é modelado como um homem providencial recto e justo, que distribui a cada um aquilo que ele, Jacinto, acha que merece. Ele é apenas e só um pai virtuoso. É um arquétipo político que, em Portugal, vem de trás e teve até hoje uma enorme fortuna. Mesmo que Jacinto se diga, a dado momento, socialista, para afastar de si suspeições de partidário de um ultramontanismo miguelista serôdio, o modelo onde assenta a sua figura não deixou de estar presente, por exemplo, em Salazar, ou já na democracia pós-74, em figuras como Eanes, Soares e Cavaco, mesmo Cunhal.

Qual a contrapartida deste arquétipo parternalista e virtuoso? Se ele é o homem activo que, pelo carácter e pelo sentido de justiça, coloca o mundo nos eixos, isto é, dá a cada um o que é seu, os outros apenas têm de esperar que chegue o homem virtuoso. A sorte da maioria depende da virtude de um só. Por isso, o esforço próprio, a iniciativa e a autonomia são inúteis. De facto, Jacinto não era um miguelista, mas também não era um liberal, naquele sentido em que acreditaria que cada um deve tomar a sua vida nas suas próprias mãos. Todo o drama de Portugal contemporâneo, do Portugal de hoje, está ali naquelas belas e afectuosas relações que o senhor Jacinto entretém com as pessoas de Tormes.

Fiona Apple - Why Try To Change Me Now

Carne de porco tipo viagra


A vida está difícil. A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, descobriu agora um novo método de publicidade para tirar as suiniculturas pátrias de apuros. Proclamou as virtudes afrodisíacas da carne de porco. Melhor do que Viagra. "Comer carne de porco melhora a atividade sexual. Eu acho que é muito mais gratificante comer um porco grelhado do que tomar Viagra", afirmou. Depois, completou assumindo-se como uma "fanática" da carne de porco, o que provocou raciocínios em duplo sentido. E para confirmar a polémica teoria contou uma intimidade do casal presidencial. Revelou que recentemente comeu carne de porco "com pele crocante como biscoito", juntamente com o marido, o ex-Presidente e actual deputado Nestor Kirchner, e o resultado foi um fim-de-semana no qual tudo funcionou. "Tudo saiu muito bem. Então, pode ser que tenham razão (que o porco seja afrodisíaco). A carne de porco melhora a atividade sexual. Comprovar não custa nada", incentivou Cristina Kirchner.

Há que reconhecer que governar é uma coisa difícil. Quando a realidade é adversa não há nada como uma boa imaginação, mesmo que ela implique abrir a janela do foro privado para a praça pública. Que comam, então, muita carne de porco crocante, os meus desejos. Mas depois, quando os mirones espreitarem para dentro de casa, não se queixem.

02/02/10

Indústrias da avaliação


Abandonaram a avaliação individual – aliás, esses patrões estavam totalmente fartos dela. Durante um encontro que tive com o presidente de uma das empresas, ele confessou-me, após um longo momento de reflexão, que o que mais odiava no seu trabalho era ter de fazer a avaliação dos seus subordinados e que essa era a altura mais infernal do ano. Surpreendente, não? E a razão que me deu foi que a avaliação individual não ajuda a resolver os problemas da empresa. Pelo contrário, agrava as coisas. [Público, Entrevista a Christophe de Dejours]

----------

Vale a pena comentar? Talvez valha a pena observar um aspecto. Se se sente que as avaliações individuais não contribuem para melhorar o desempenho das organizações, privadas ou públicas, por que é tão propagado? A explicação não é muito difícil. Por um lado, porque se montou uma verdadeira indústria da avaliação (aquilo que se chama cultura de avaliação, um eufemismo miserável, não passa de uma indústria de natureza parasitária, com interesses próprios em diversos níveis da vida social, desde a academia até às empresas de avaliação e aos centros de recursos humanos das organizações). Por outro, porque o que está em jogo, a maioria das vezes, não é a melhoria do desempenho, mas a dominação de uns por outros. Estas questões não são as essenciais (essas têm a ver com a cultura de ruína de que são sintoma), mas mostram como estas coisas operam na vida quotidiana e contribuem para a tornar miserável e infernal.

Uma outra visão da cultura gaseificada

Christophe de Dejours

Para nós, clínicos, o que mudou [na organização do trabalho] foram principalmente três coisas: a introdução de novos métodos de avaliação do trabalho, em particular a avaliação individual do desempenho; a introdução de técnicas ligadas à chamada “qualidade total”; e o outsourcing, que tornou o trabalho mais precário.

A avaliação individual é uma técnica extremamente poderosa que modificou totalmente o mundo do trabalho, porque pôs em concorrência os serviços, as empresas, as sucursais – e também os indivíduos. E se estiver associada quer a prémios ou promoções, quer a ameaças em relação à manutenção do emprego, isso gera o medo. E como as pessoas estão agora a competir entre elas, o êxito dos colegas constitui uma ameaça, altera profundamente as relações no trabalho: “O que quero é que os outros não consigam fazer bem o seu trabalho.”

Muito rapidamente, as pessoas aprendem a sonegar informação, a fazer circular boatos e, aos poucos, todos os elos que existiam até aí – a atenção aos outros, a consideração, a ajuda mútua – acabam por ser destruídos. As pessoas já não se falam, já não olham umas para as outras. E quando uma delas é vítima de uma injustiça, quando é escolhida como alvo de um assédio, ninguém se mexe… [Público, Entrevista a Christophe de Dejours]


---------------

Esta entrevista ao Público, do psiquiatra e psicanalista Christope de Dejours, merece ser lida de uma ponta a outra com muita atenção (quem ainda tiver aprendido francês pode ler também esta ao jornal L'Humanité). Ambas as entrevistas mostram como os locais de trabalho se tornaram, ou estão a tornar, em espaços concentracionários de natureza absolutamente totalitária. Escolhi o excerto acima, mas poderia ter escolhido qualquer outro da entrevista. É este modelo totalitário que está a ser importado para os serviços públicos. Por exemplo, era isto, e ainda é, que o Ministério da Educação queria, e quer, impor aos professores.

Não pretendo comentar aquilo que de político e social se manifesta aqui, nem tecer considerações sobre o carácter dos indivíduos que advogam este tipo de coisas e as põem em prática. Interessa-me, antes, voltar à questão da gaseificação da cultura. Não são apenas os produtos que são construídos para a ruína, para a sua rápida destruição na esfera do consumo. A ruína e a destruição dos próprios funcionários e gestores - muitas vezes é também esse o caso - é um elemento central da hipermoderna organização do trabalho. Sob a capa da avaliação de desempenho e da "qualidade-total", e com a ameaça de outsorcing no horizonte, o que se desenha é um cenário onde o elemento central é a destruição de tudo o que é puramente humano, desde as relações interpessoais de trabalhos até, em última instância, aos próprios indivíduos.

Outro aspecto particularmente interessante é a inevitabilidade de tudo isto. Não está nas mãos dos indivíduos parar este tipo de acontecimentos, apesar de aqui ou ali eles poderem ser refreados. Se alguém os parar numa empresa, ela acabará por ceder o seu espaço de mercado a uma outra que fará ou mesmo ou pior. Através deste modo de organização do trabalho, e dos valores sociais que o exigem, manifesta-se um modo de ser que opera muito para lá daquilo que é puramente humano. É como se um desejo ontológico de ruína e de destruição tocasse tudo aquilo que serve de base ao nosso modo de existência.

Para além das luzes brilhantes do espectáculo em que tudo se tornou, Thanatos faz o seu serviço. Mas o que há de novo, não é a presença do impulso de morte. Ele sempre existiu. A novidade é que ele deixou de ter contraposição. O mundo hipermoderno se não matou Eros, reduziu-o a uma caricatura. A deserotização da produção, característica do mundo criado a partir da Revolução Industrial, tem por função a criação de produtos que funcionem como um vácuo para o desejo dos consumidores. Da produção ao consumo, passando pelo produto, tudo é marcado por um impulso voraz de aniquilamento. O amor, Eros, que cria laços entre os seres humanos e entre estes e aquilo que os rodeia, é agora uma sombra delida, uma sombra escondida por detrás dos ciprestes que crescem no enxame de cemitérios que se escondem por todo o lado.

Entrevista a Rui Ramos


Entrevista com Rui Ramos, no caderno Ípsilon do Público, coordenador da última História de Portugal publicada. Uma panorâmica histórica de Portugal. Interesante e discutível. Vale a pena ler alguns dos comentários. Levantam problemas importantes. Há outra entrevista que merece leitura do mesmo historiador na revista Ler.

01/02/10

Uma cultura gasosa

Já não estamos naqueles tempos em que a cultura era um sistema completo e coerente de explicação do mundo. De igual modo, acabaram as grandes épocas de oposição entre cultura popular e cultura erudita, entre "civilização" das elites e "barbárie" da populaça. A este universo de oposições distintivas e hierárquicas sucedeu um mundo em que a cultura, que já não se separa da indústria mercantil, alardeia uma vocação planetária e se infiltra em todos os sectores de actividade. Ao mundo de ontem, em que a cultura era um sistema de signos distintivos, comandados pelas lutas simbólicas entre grupos sociais, que se organizava em torno de pontos de referência sagrados e institucionais, sucede o mundo da economia política da cultura e da produção cultural prolífica e incessantemente renovada. Já não existe o cosmos fixo da unidade, do sentido último e das classificações hierarquizadas, substituído que foi pelo das redes, dos fluxos, da moda e do mercado sem fundamento nem centro de referência. Nestes tempos hipermodernos, a cultura transformou-se num mundo cuja circunferência passou a estar em todo o lado e o centro em lado nenhum. [Gilles Lipovetsky & Jean Serroy (2010). A Cultura-Mundo - Resposta a uma Sociedade Desorientada. Lisboa: Edições 70, pp. 12]

-------------

O importante já não é sublinhar o fim da explicação coerente do mundo, nem a morte da distinção entre cultura e barbárie. O que importa pensar é a natureza gasosa da cultura. A gaseificação da cultura a que assistimos tem uma suposta origem nos fenómenos acima citados desde a indústria cultural mercantil à moda, e é simbolicamente descrita nos conceitos de rede, fluxo, de mundo que é uma circunferência destituída de centro. Esta última metáfora é um indicador precioso do caminho que se está a trilhar. Ela foi já utilizada, no início da modernidade, para descrever a novo concepção de cosmos que despontava.

Com esta conexão entre o mundo da cultura e o mundo da natureza cósmica percebemos que o que está em causa é a destruição do espírito pela naturalização da cultura. Essa naturalização é feita pelo mercado. Ao transformar-se em mercadoria, a cultura está submetida aos mesmos efeitos das mercadorias cujas matérias-primas residem na natureza, isto é, aos ciclos de produção, consumo e obsolescência. Os produtos culturais nascem para se tornarem obsoletos e, desse modo, volatilizam-se, gaseificam-se.

Os clássicos da cultura são clássicos porque provêm da solidez do espírito, mas nos nossos tempos os produtos culturais não possuem solidez, são matéria gaseificada que se dissolve no ambiente, as mais das vezes poluindo-o, diga-se de passagem (veja-se a indústria do entretenimento - vai desde a "literatura" ao cinema, passando por um crescente número de novas modalidades ditas culturais ou "artísticas" - ou o infinito trabalho académico, constituído, na sua imensa globalidade, por lixo intelectual justificador de carreiras académicas ou puro diletantismo). Esta gaseificação da cultura é um dos traços da modernidade tardia, ou hipermodernidade. O que se oculta nesse processo de gaseificação? A pura ruína. Enquanto as civilizações tradicionais produziam a vida segundo a norma da eternidade e da permanência das suas construções, o nosso mundo moderno, ou hipermoderno, constrói tudo para a sua própria ruína.

A ruína deixou de ser uma consequência natural, derivada da acção das leis da natureza sobre as produções espirituais da humanidade, para ser o elemento central da cultura actual, das produções do espírito moderno ou hipermoderno. Quando se concebe um produto (e tudo se transformou num produto para o mercado global), concebe-se pensando já na sua obsolescência, na sua ruína, na sua gaseificação. Parece sólido, mas como o gás ele está pronto a desaparecer na atmosfera. Não se trata sequer de falar numa civilização do desperdício, do consumo ou mesmo do hiper-consumo.

Trata-se de uma civilização cujo núcleo central de desenvolvimento é o querer da ruína. Note-se que isto não atinge apenas os bens de consumo como automóveis, telemóveis, romances, filmes, jogos, etc. Isto atinge as próprias teorias científicas, as quais são construídas para serem destruídas e substituídas por outras consideradas melhores. As ciências, núcleo central da espiritualidade actual, são constituídas por teorias que visam, em última análise, a sua própria destruição, a sua gaseificação. Visam a ruína de si mesmas como explicação dos fenómenos que estudam. O fim que habita as ciências, um fim que visa a auto-destruição, impregna todo o ambiente em que se vive. A ruína nasce do corte entre as ciências e aquilo que as fundamentava e as ligava à ideia de eternidade, isto é, a filosofia e, num outro âmbito, a teologia. Curiosamente, o que celebramos quando celebramos a autonomia das ciências nascida na modernidade, com Galileu e Newton, é o culto da ruína como programa central da nossa vida.

Uma triste história


Se isto é verdade, então o núcleo central do governo perdeu completamente a cabeça. Mas isso não é o pior. Pior do que isso é, caso a história seja verdadeira, repito, a cada vez mais difícil relação que o Partido Socialista tem com a liberdade. Estamos todos gratos ao Partido Socialista pela defesa da liberdade em 1975, mas isso não lhe dá nenhum direito para agora não respeitar o mais sagrado dos bens de uma democracia, a liberdade de expressão. Mas ainda pior do que isso é a atitude do Jornal de Notícias. Todos sabemos que os portugueses convivem mal com a liberdade. Os políticos só gostam dela quando a usam a seu favor, os jornais gostam principalmente de estar do bom lado da barricada, e o cidadão comum preocupa-se pouco com essa estranha coisa de ser livre e independente. Mais uma triste história.

Tanta candura aflige



Com candura, num país em que todos somos mais ou menos cândidos, o ministro das Finanças confessa que se enganou rotundamente na previsão do défice. Mas foi um engano sem intenção. Quer dizer, enganou-se não por perversidade mas por incompetência. E continua no governo? Em última análise, apesar de ser moralmente inaceitável um engano intencional, este seria tecnicamente mais admissível e, como a política não é a moral, também seria politicamente mais compreensível.

O interesse desta história reside na difícil compatibilização entre os imperativos da moral, da política e conhecimento técnico da economia. Se Teixeira dos Santos estivesse calado talvez ainda fosse o melhor. Tanta candura aflige.