24/02/08

Um comunista em Chipre

Um comunista eleito Presidente da República, ainda por cima de um país da União Europeia, quem diria? Dir-se-á que foi no pequeno e divido Chipre. É verdade, mas os ventos liberais de teor fundamentalista acabam por criar condições para coisas deste género.

2 comentários:

zemanel disse...

"ventos liberais de teor fundamentalista(...)"
Uma interrogação: o Liberalismo ( com ou sem neo) não será sempre uma expressão fundamentalista?

Jorge Carreira Maia disse...

Não creio que o liberalismo seja sempre uma expressão fundamentalista.

Em primeiro lugar, existem múltiplas formas de liberalismos. Recordo, por exemplo, a ideia medieval de artes liberais, as artes e saberes do homem livre por oposição ao homem servo. Depois, o conceito liberal não significa, politicamente, o mesmo nos EUA e na Europa. Por fim, existem múltiplas formas de liberalismo político.

Do ponto de vista filosófico, há pensadores liberais muito importantes. Enquanto o liberalismo se mantém na esfera filosófica, ele está submetido à razão crítica e ao debate de ideias. É, como todas as filosofias, uma interpretação que visa a universalidade, mas que está sujeita à relativização que a crítica filosófica impõe.

O problema não é específico do liberalismo. Quando uma corrente de pensamento filosófico pretende abandonar o lugar que é o seu, o do pensamento, e fazer vingar as suas ideias na prática, ele torna-se em ideologia. O que acontece com o liberalismo, aconteceu com o marxismo, com o neo-tomismo, ao nível da democracia-cristã, com o positivismo de Comte em certos ideários republicanos, etc. O primeiro passo está sempre na transformação de uma flosofia em ideologia.

O passo crucial é dado quando a ideologia se pretende a única interpretação correcta do mundo e a única que deve dirigir a praxis humana. Aqui estamos já numa interpretação totalizante do real que asfixia as outras possibilidades de acção. Talvez o problema de todas as ideologias seja esse: o de nmão se reconhecerem como uma interpretação relativa do real.

O liberalismo é essencial para as nossas sociedades: sublinha os aspectos da liberdade política e da defesa do indivíduo.

Mas, na minha óptica, deve ser apenas uma das ieologias em conflito.

Enquanto cidadão fazendo parte dos não governantes, não pertencendo a qualquer elite política, tenho todo o interesse na existência de múltiplas ideologias políticas em confronto. Nesse confronto, elas relativizam-se e cuidam que as outras não pretendam impor uma visão única ao mundo.

Não há, na minha óptica, sublinho, nenhum caminho cientificamente determinado para a evolução da humanaidade. Há conflitos, há consensos, e é nessa dialéctica infinita que o futuro se torna presente, sendo sempre outra coisa diferente daquilo que se imaginou ou pensou.

O problema actual é que os grandes partidos da governação, no Ocidente, têm todos uma ideologia semelhante, de carácter pragmático-liberal. O pensamento alternativo não se constitui, senão esporadicamente, em alternativa política real.
É aqui que reside o perigo do fundamentalismo liberal.

Mas condenar o liberalismo num todo é deitar fora o bebé com a água do banho. Aliás, foi esse o problema do marxismo-leninismo. De certa forma, Marx desprezou estrategicamente, mas não não tacticamente, as conquistas das liberdades políticas «burguesas». Lenine ufanou-se com o fecho, em 1918, da Duma. Foi aí que a experiência socialista se inquinou.

O mesmo se passa agora com o liberalismo. O desprezo pelos contributos do marxismo e do pensamento social, mas também de outras ideologias conservadoras, está engendrar formas totalitárias novas, onde a violência física está a ser substituída pela coacção dos modos de pensar e de interpetar a realidade. Assiste-se, a todos os níveis, a uma tentativa de imposição de uma grelha única de leitura da realidade.

Enquanto cidadão, não deito fora nada. Sou cada vez mais um adepto dos velhos gregos: a mesotês (o meio termo), isto é, a justa medida. Precisamos de sociedades equilibradas e abertas. Precisamos do pensamento liberal, mas também do marxista. Precisamos dos valores da democracia-cristã (inexistentes em Portugal), mas também de certo conservadorismo e de certo pensamento social-democrata (não confundir com o PSD nacional).

É o que me ocorre.

Abraço,
JCM