11/06/07

O estado, a política esquizóide e a justa medida

Visitar blogues é uma tarefa curiosa. Deixa compreender a esquizofrenia da sociedade portuguesa. Por exemplo, os blogues dos liberais – existem em força na blogosfera – são uma cartilha intervencionista nas coisas dos costumes e das liberdades individuais. O estado só é inimigo quando intervém para regular a economia. Já os blogues dos adeptos da regulação da economia pelo estado são um paraíso liberal nos costumes. Esta forma de existência esquizóide não é nova. Ela encontra-se há muito espalhada pelo mundo ocidental e marca, mais ou menos, a cisão constitutiva da esfera política moderna: esquerda/direita. Eu sei que hoje está na moda falar também na oposição aberto/fechado, mas isso não passa de moda linguística. Amanhã estará esquecida, terá passado de moda.

O problema principal é que a modernidade política, pós-Maquiavel e talvez pela superior lição deste, nunca percebeu o estado. Os liberais vêem nele um inimigo da sociedade civil, embora sirva para defender os costumes que eles advogam. A esquerda, se não se converteu ao liberalismo, vê o estado, a partir da lição marxiana, como aquilo que há a ultrapassar na sociedade perfeita, o comunismo ou qualquer outra utopia.

Mas o Estado é mais do que tudo isso. É, na visão clássica de Hannah Arendt, a comunidade organizada para tomar decisões. Sem Estado não há sociedade civil, nem indivíduos, nem liberdade, nem segurança, nem vida, nem humanidade. A querela liberal-marxiana sobre o estado anima a vida política, mas assenta na ocultação da dialéctica comunidade-indivíduo-sociedade-estado. Os quatro membros desta dialéctica são solidários na sua existência: a falta de um arrasta o fim dos outros. A excelência é encontrar a «justa medida», o equilíbrio entre estes elementos, não deixar que uns dissolvam os outros.

Como tratar a esquizofrenia moderna? Voltar a Platão e a Aristóteles, voltar aos medievais, estudar Grécia e Roma, mas também o mundo político medieval. A Europa, a da UE, tal como a chegámos a conhecer foi uma das tentativas mais interessantes deste equilíbrio, desta justa medida, enquanto resistia ao marxismo de leste e ao liberalismo vindo do mundo anglo-saxónico. Hoje, porém, deixou-se arrastar e perdeu a arte da mesotes (meio termo), sintoma político da justa medida moral.

Talvez o fundamental seja retomar a relação entre moral e política, posto em causa por Maquiavel. A política como um puro jogo de forças, a política amoral, corrói as nossas sociedades democráticas, roubando-lhes a substância que faz delas algo de preferível a outro tipo de sociedades.

3 comentários:

jlf disse...

Há dias fui apanhado de surpresa. Daí este atrevimento.

Parece-me redutora e drástica a delimitação da área das tradicionais esquerda e direita confinando-a à “querela liberal-marxiana”... No fundo, é muito isso. Mas de há muito que não é só.

Então o discurso político na visão da filósofa prussiana (vg, em A Condição Humana), no que aos tais rótulos se refere, é inócuo? Tem de confinar-se àquela “querela” o esforço que cada um dos contendores põe no duelo em que pretende persuadir o outro, impor-lhe a sua opinião e arrebatar-lhe a admiração? Ou foge da tal classificação? Ou terá de rotular-se de centrista?
Ficam-me dúvidas...

(Curioso é que, sem querer, me deixei envolver, recentemente, em tal discussão entre dois caloiros da faculdade de Direito, da Clássica.) (E vi-me aflito para segurar as pontas...)

JCM disse...

A esquerda e a direita são anteriores cronologicamente falando à querela liberal-marxiana. Mas serão anteriores logicamente? A lógica inerente à divisão do «parlamento» francês em esquerda e direita não seria já a que está presente no iluminismo escocês e em Marx?

É certo que houve tentativas de fugir à querela, mas não foram ao centro que elas existiram, mas no nazismo e no fascismo italiano. Também Salazar tentou fugir à querela. Não por ser fascista, não o era (por muito que isso incomode a demagogia política. Salazar era um anti-revolucionário, coisa que não era partilhada por Hitler e Mussolini), mas por ser anti-liberal e anti-marxista, tentando uma espécide fuga para o passado e o tradicionalismo, cruzado com um sonho imperial. Mas em Salazar foi apenas uma tentativa, acabou por proteger as forças económicas que estariam na base do "liberalismo" económico português.

Abraço

jlf disse...

Recordo dois registos: "No fundo, é muito isso."
"E vi-me aflito para segurar as pontas..."

Creio que chega.

Mas gostei, porque lhe ofereci a deixa para uma boa "exposição de motivos", que no meu tempo se chamava "alegação".
Claro que ainda não acabou a discussão sobre como caracterizar o salazarismo... E nem estou minimamente preocupado com o incómodo que tal debate possa trazer à "demagogia política", já que adoro que ela seja incomodada.
Demais, e no que à velha e tradicional dicotomia concerne, ela aí está para durar na oralidade e na escrita mais comuns. Pese embora a apreciação do fenómeno em níveis mais elevados ou na retórica coxa dos tais demagogos (por razões opostas, como não podia deixar de ser: nos primeiros por mor do rigor, nos outros, de certas conveniências oportunistas)

Mas gostei.
E nem pretendo pedir meças, note-se.