27/09/07

A bravata de Santana Lopes

Anda, por essa blogosfera fora, muita gente alvoraçada com a «digna» e «corajosa» atitude de Santana Lopes, perante a interrupção de uma entrevista sua para dar um directo da chegada de Mourinho a Portugal. Recontextualizemos a coisa.

A atitude de Santana Lopes não pode ser lida no plano da honra pessoal, pois não é essa que está em causa, mas deverá sê-lo no plano político. Ora, neste plano, Santana Lopes tudo tinha a ganhar com a bravata. O povo, mesmo o povo da SIC-NOTÍCIAS, não gosta muito dos políticos, mas ainda gosta menos dos jornalistas. Santana Lopes age explorando esse sentimento com a finalidade de amealhar notoriedade política, que como se sabe anda pelas ruas da amargura. Basta ver as reacções, até em blogues de esquerda, para se perceber que a atitude foi eficaz. Santana Lopes de político desprezado e humilhado passou a D. Quixote da classe política, o único que os tem no sítio, blá, blá, blá, aquele que salva a honra dos condutores da polis. Grandeza na atitude? E se o vocábulo for eficácia política, não será a realidade melhor descrita?

Santana Lopes, por outro lado, é dos políticos que menos autoridade tem para fazer aquilo que fez. Mourinho é um homem do futebol, mas não serão a política e um ex-primeiro-ministro mais importantes do que a chegada de um treinador desempregado? Num país normal, eu diria que sim, mas em Portugal tenho dúvidas. Não foram os próprios políticos que contribuíram para a sobre-relevância do futebol? Não são eles que estão sempre à coca para se colarem aos feitos desportivos? Não os utilizam como forma de legitimação política? Não foi Santana Lopes que, com Fernando Seara, contribuiu, enquanto comentador das coisas da bola, para essa sobre-relevância? De facto, por acção dos homens políticos, incluindo aí Santana Lopes, a chegada do senhor Mourinho é mais importante do que aquilo que possa dizer um ex-primeiro-ministro sobre o caos que vai pelo seu partido. Se tivesse sido, por exemplo, Rui Rio, eu acreditaria na genuinidade da atitude.

As reacções favoráveis percebem-se bem. Ou são amigos do dr. Santana Lopes, ou são políticos despeitados com o poder dos media. O que aconteceu na SIC-NOTÍCIAS é o espelho do país. Mas nisso Santana Lopes e muitos outros não têm as mãos limpas. Foram eles que contribuíram para se chegar onde se está: a irrelevância da política, a sacralidade do futebol. Santana Lopes não passa de um sacerdote que perdeu os fiéis, enquanto Mourinho ainda é um profeta e um grande taumaturgo, por enquanto.

1 comentário:

aminhapele disse...

Acredito que a sua "leitura" do facto é correcta.
Mas também acredito,como tele-espectador,que já vi muitos com vontade de terem a mesma atitude que teve o PSL e não tiveram coragem para a assumir.
Claro que tudo tem,ou pode ter,uma leitura política.E concordo com a sua.
Têm sido irritantes,ao longo dos anos,as interrupções de entrevistas por "acontecer" algo(sem qualquer importância visível ou,pior,para retirar o convidado do ecrã)que mereça o "corte".
Esta é a minha opinião.