18/07/08

Cedência ao espírito do tempo

Há blogues de personalidade firme. Faça frio ou calor, chova ou vente, eles lá se mantêm fiéis ao seu dono e ao seu projecto. O A Ver o Mundo é um blogue mais volúvel, não muito fiel, nem ao próprio dono. E, sendo assim, faz concessões ao espírito do tempo. Vende-se, dirão alguns. Como um camaleão, ele adapta-se não ao meio envolvente, mas à temperatura que amolece os neurónios de quem o produz. Decisões drásticas: suspensão do ciclo “Exodus”. Está demasiado calor para tanto êxodo. São muitas linhas para ler no monitor. Assim o que resta do ciclo fica lá para Setembro, se o tempo refrescar. Também esta ideia de um poema por dia – próprio ou pedido de empréstimo – fica suspensa. Não quer dizer que a poesia não apareça em época estival. Aparecerá, mas sem grande densidade textual, mais leve, talvez menos energética, quem sabe?

Espera-se que o blogue continue durante a época de banhos. Este ano o blogger não se ausentará da pátria. Está à espera de ser avô por afinidade e a ânsia da avó (por inerência genética) contamina os projectos viageiros. Como está tudo em pulgas, não se admirem que este blogue derive para coisas menos sensatas, para não dizer coisas mais ligadas à puerícia. Seja como for, o desenlace só se espera lá para Setembro, mas nunca se sabe, com o calor que está. Imaginem só quando chegar a altura do blogger ser avô (por inerência genética). Penso que qualquer deriva para a infantilização da forma como se olha o mundo estará perdoada.

Matt Pepper Trio - Une Femme


  



Conheci o site Jamendo graças ao Os dias comuns. É um lugar onde se pode ouvir música e fazer downloads legais e gratuitos. É evidente que não encontra lá artistas consagrados, mas muita gente que vai fazendo a sua música e procura, assim, furar o cerco das editoras comerciais. Nem tudo o que por lá há é bom e inovador, mas encontram-se coisas interessantes e divertidas, como este álbum Une Femme do Matt Pepper Trio. Para ouvir com o calor que está, sobretudo para amantes da língua francesa. Um site a explorar.

Ora adivinhem lá

Não há nada como as redes de solidariedade para ajudar alguém em dificuldades. A Visão – revista herdeira do defunto O Jornal – tem uma rubrica denominada Radar: flashback, que pretende ser uma leitura pessoal (de um convidado) dos acontecimentos mais importantes da semana. O convidado escolhe as boas notícias e as más. Esta semana a convidada foi Lígia Amâncio e entre as boas notícias escolheu os Progressos na Educação. E o que diz a ilustre convidada? Diz o seguinte: «A Comissão Europeia identificou progressos nalguns indicadores da educação. Entre o muito ainda a fazer, destaca-se a socialização de uma ética de trabalho que já se poderá ter agora repercutido nos resultados dos exames de Matemática. Há que assegurar a sustentabilidade das melhorias, apesar dos interesses particulares que desprezam as estatísticas da educação e o sucesso dos alunos.» Assim, preto no branco, para que ninguém se engane na leitura.

A esta douta senhora o facto de se suspeitar – e suspeitar de forma generalizada – de que a melhoria dos resultados assenta na ética da facilidade das provas não incomoda minimamente. Foi uma nova ética do trabalho – não se sabe muito bem onde existiu essa revolução ética, mas deve ter ocorrido. Interessante, também, é a conexão que a senhora estabelece entre “interesses particulares” e desprezo pelas “estatísticas da educação e o sucesso dos alunos”. Aprendi, então, que aqueles que acham o actual sucesso dos alunos uma mera manobra estatística sem qualquer repercussão efectiva nas aprendizagens reais defendem interesses particulares. Mas neste caso, eu estou de acordo com a senhora, pois esses defendem os interesses particulares de milhares e milhares de alunos vítimas da actual política educativa. Mas posições como a de Lígia Monteiro são muito úteis para aqueles grupos sociais cujos filhos estudam em instituições onde as políticas do sucesso e a nova ética do trabalho têm mais dificuldade em penetrar e onde se valorizam as aprendizagens efectivas e não a ética do mero arremedo.

Falta apenas explicar quem é esta senhora. É uma ilustre catedrática. De onde? De onde haveria de ser? Do ISCTE. E em que área? Caro leitor, então não se vê mesmo: Psicologia Social e das Organizações. Ainda é vice-presidente da FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia). A solidariedade é uma coisa muito bonita. Azar mesmo é o destino daqueles alunos com grandes notas a Matemática e que vão penar duramente, nos próximos anos, nos cursos que a exigirem com seriedade. Mas isso já deve fazer partes da reacção na educação.

Pobre Menezes

Para quem disse que se ia manter em silêncio, não está mal. Luís Filipe Menezes arrasa hoje, no DN, a gestão de Manuela Ferreira Leite à frente do PSD, um mês e meio depois de eleita. Independentemente do maior ou menor acerto de algumas das afirmações, o que emerge é, porém, um rosário de auto-complacência mesmo que disfarçado com uma espécie de análise histórica do PSD. A dado momento Menezes diz: «O PSD só "tolerou" dois líderes em três décadas: Sá Carneiro e Cavaco Silva. É decisivo que os seus militantes e apoiantes entendam o porquê de tal bizarria.» Bizarria? Por exemplo, será muito diferente do PS? Quem é que o PS suportou como líder nestes 34 anos? Soares, Guterres e, agora, Sócrates. Homens com o prestígio de Sampaio ou de Constância foram postos a andar. A única coisa que torna tolerante um líder num partido de poder é a solidez que ele demonstra para o alcançar e manter. Tudo o resto é conversa de sopeiras a perorar sobre a maleficência da política. Pobre Menezes, julgava-se um ás da política e afinal não passa de presidente de câmara. É a vida.

Jornal Torrejano, 18 de Julho de 2008

Hoje, sexta-feira, é dia de Jornal Torrejano e ele, o jornal, já está disponível on-line. Para começar uma história de interrogatórios no Centro Hospital do Médio Tejo: Administração interroga profissionais para saber quem lançou abaixo-assinado. Referência ainda para: Motocross regressou à pista de Alqueidão. Não esquecer também a “Tradição com futuro” na festa da Bênção do Gado em Riachos, que começou ontem.

Na opinião, abra-se com o cartoon de Hélder Dias e depois passe-se para as crónicas da semana: Carlos Henriques escreve Golpe de Estado no futebol! , Carlos Nuno, Somos assim…, este blogger, Questões de Memória: Reagan e Thatcher, José Ricardo Costa, Ivan Iliich on the Beach, e da outra margem Santana-Maia Leonardo escreve A mulher e as tatuagens.

E antes de acabar, referência para uma notícia de última hora do JT. O Operário Meiaviense já tem direcção. O blogue é meu e eu escrevo o que me apetece e o Operário é o clube da aldeia onde nasci, o meu pai foi um dos fundadores e foi presidente. Houve não sei quantos presidentes da família e na direcção ainda lá vejo nomes que sei serem meus primos mais ou menos afastados, bem como de gente que andou comigo na escola. Aqui fica a referência e força Operário. Mesmo que fique no último lugar da última divisão regional, o importante é que na Meia-Via se continue a jogar à bola. É uma tradição. Depois desta tomada de posição patriótica, um desejo de bom fim-de-semana para todos. E não se esqueça de ir vendo as últimas no Jornal Torrejano on-line, bem como de participar na votação sobre a remodelação na Praça 5 de Outubro.

17/07/08

Exodus - XXIV

Por vezes corria um sopro, o ar ao de leve tocava
as folhas da macieira e enxertava vida nas pedras,
brancas de tanto uso, e dissolvia-se no horizonte.
Se o perscrutavam, apenas ouviam
o zunido nos telhados, a música rangia. As pessoas
passavam e olhavam como se ao olhar ouvissem,
mas tudo voltava à apressada calma
com que os dias enchiam
as horas vagarosas da infância,
olhos perdidos nas aventuras, chegavam
naqueles livros de papel reles, trocados
na azáfama com que os leitores preenchiam as tardes,
as de verão, digo, naquela terra da infância cheia
de sapateiros e latoeiros e tanoeiros e barbeiros
e um exército de carpinteiros. Ouvi quando disseste:
também farão uma arca de madeira. Mas eles partiram,
foram colher flores nos campos, depois afastaram-se
cobertos de nuvens, traçando ruas de azevinho,
casas remendadas de giestas, afastaram-se uivando,
esquecidos da arca de madeira, esquecidos de ti,
não sabendo o nome, pois lho roubaram
ao pôr os pés no chão, ao inscreverem no musgo
rasgos de solidão, soletrando crepúsculos, agitando mãos,
se carros passavam deixando-os na poeira, gritando
pelas tarde de paixão, quando a cruz se elevava
e corria um sopro, o ar ao de leve tocava as folhas da macieira
e enxertava vida nas pedras brancas, então as guardavam
nos bolsos das calças, uma ainda resta,
presa no fundo negro onde habita o coração.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Jacques Loussier plays Bach, gavotte D major

Hoje um vídeo pela contaminação e contra a pureza de estilos. Bach em tons jazzísticos.

Sócrates e o notável governo angolano

Aquilo que faz a necessidade de correr. Certamente para cair nas boas graças dos dirigentes angolanos, José Sócrates não se poupou nos elogios à meritória obra da governação do MPLA. Considerou que o trabalho do governo angolano é a “todos os títulos notável”. Assim, sempre que lhe apetecer dar umas corridinhas no centro de Luanda, por certo não será o governo que o impedirá. Se há coisas que mostram que o poder, dentro do PS, do clã Soares está pelas ruas da amargura, são estas. Notável, mesmo.

O caminho do nuclear

Apesar de o governo estar apenas voltado para as energias renováveis e a eficiência energética, apesar de Manuela Ferreira Leite pensar que a intervenção de Constâncio sobre o problema “apenas serviu para desviar as atenções”, a verdade é que a opção pelo nuclear lá vai fazendo o seu caminho. Hoje foi Jerónimo de Sousa que não acha, apesar de o PCP não defender essa alternativa, que seja “um sacrilégio discutir essa matéria”, defendendo, caso haja inclinação pelo nuclear, a necessidade de um grande debate. Marcelo Rebelo de Sousa vai mesmo mais longe e diz que o governo deve nomear comissão de especialistas para fornecer informação credível que oriente o debate sobre o problema. Como se vê, a coisa vai já relativamente rápida.

O desvelo de Van Zeller

O presidente da CIP, Francisco Van Zeller, terá dito: «É injusto que este Governo esteja a pagar de uma maneira tão severa a crise internacional.» Se era preciso mais alguma coisa para demonstrar a orientação, no plano dos interesses sociais em conflito, do governo Sócrates, o desvelo de Van Zeller resolveu o problema. Não fora a crise internacional e a pátria iria em caminho glorioso, depreende-se. Mas nestas coisas há sempre aquela pergunta desagradável: glorioso para quem?

16/07/08

Exodus - XXIII

Quando a face lhe floriu estava rubra.
Um fogo consome, no cume do monte,
a caruma pela vida ali amontoada.
Inocente ainda era e desenhava fábulas
no papel pardo, noutros dias alguém o usava
para ensopar óleo e logo o deitar fora.

Quando na rua gritavam, se gritos
se ouviam, eram quimeras o que desenhava,
a cabeça de leão a urrar e do corpo
uma cabra descia, se da cauda um fogo
se desatava. Eram dias de fervor
e no jardim as rosas murchavam, enquanto
os caminhantes que caminham no caminho
semeavam luzes e terrores, folhas murchas
entre ervas secas pelo vento,
da serra caía, frio e invernoso mesmo se
quente era o verão. Não havia procissões,
nem touradas, nem gente a uivar pela estrada.

Apenas uma pele delicadíssima escondia os dedos,
e luzia, cobria de vozes a solidão.
Inocente ainda era e compunha palavras,
as sílabas delicadas e em cada letra punha
uma pedra de cinza e uma mágoa fatigada.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Tomas Luis de Victoria - O Magnum Mysterium

As palavras de Constâncio

Vítor Constâncio veio dizer o óbvio perante a actual situação energética do país. Por muito que a QUERCUS grite ou o governo afiance que só pensa nas energias renováveis e na eficiência energética, toda a gente percebe que o actual modelo de produção e consumo de energia não se pode manter. Quase todos nós simpatizamos com o não ao nuclear. De certa forma fomos educados pela contestação à central nuclear de Ferrel e pelos grandes desastres das centrais nucleares estrangeiras. Mas será que queremos retroceder no uso da energia? Queremos mesmo abdicar do conforto que sobre ela se construiu? Já se percebeu que não serão moinhos de vento que responderão ao problema. O pior, porém, é que o problema terá mesmo de ser respondido.

A teia do ISCTE

Pedro Abrantes é um sociólogo que pertence ao Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE. Hoje o Público dá à estampa uma carta sua onde se insurge contra a ineficácia, injustiça e anacronismo das reprovações escolares. Apoiado em estudos que tem desenvolvido, argumenta que o que está na base do desempenho negativo dos alunos não é a falta de estudo mas a sua origem sócio-cultural. Argumenta também que a reprovação apenas conduz a que o aluno estude cada vez menos. Adiciona a tudo isto os habituais dados da OCDE e os milhões de euros do erário público gastos no exercício.

Até aqui tudo bem. Esperemos que os estudos possuam fiabilidade científica, pelo menos aquela que se poderá esperar de uma área como a sociologia. Só há dois pormenores que tornam a coisa um pouco desagradável. Em primeiro lugar, há uma crítica aos críticos da escola “facilitista”, onde o sociólogo faz gala do seu purismo lexical e sublinha a incongruência de não só se usar um vocábulo inexistente, “facilitista”, como os dados apontarem que a escola portuguesa é a mais difícil da OCDE (onde há mais retenções). Veio tomar partido. Em segundo lugar, advoga aquilo que parece ser prática de outros países (não indica quais, nem que práticas) e que se percebe ser a intencionalidade do actual Ministério da Educação: «Diversos países europeus já chegaram a essa conclusão e têm substituído as reprovações por sistemas diversificados de acompanhamento e apoio aos alunos com menor aproveitamento, o que não conduziu a mais indisciplina nem a menos estudo. Pelo contrário.» Mais uma vez veio tomar partido.

De tudo isto, cabe dizer o seguinte: o problema não está no acompanhamento desses alunos, mas na eficácia desse acompanhamento e do empenho que alunos e famílias dão a esse esforço suplementar da instituição escola; também está em causa a ideia de um currículo idêntico para todos os alunos, pelo menos com a amplitude que existe neste momento; em terceiro lugar, há qualquer coisa de tenebroso neste tipo de discurso. Uma coisa é dizer que os estudos indicam a falência dos modelos usados relativamente à reprovação de alunos, bem como a das explicações das causas do insucesso. Outra coisa, porém, é a partir daí indicar o caminho político que se deve seguir. Como todos sabemos, com os mesmos estudos poderemos indicar várias políticas diferentes e todas elas fundadas nessa «objectividade científica». Poder-se-ia, por exemplo, argumentar que o trabalho com os alunos retidos não é o mais adequado, ou que o sistema não fornece alternativas reais ao equilíbrio da decisão dos professores em fazer transitar ou reter um aluno, etc. Depois, como o leitor mais atento não deixará de perceber, surge implícita a conexão ISCTE-ME a fazer-nos pensar numa teia de afinidades electivas, digamos assim. Bem, yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay…

15/07/08

Exodus - XXII

Se os dias aqueciam, fechavam-se as portadas
depois de correr as cortinas, e o vidro reflectia o sol,
inundando de raios o pequeno quintal onde
as varejeiras zuniam sem descanso. Por vezes,
sombras havia na cal que infestava
de branco as tensas paredes, agitavam-se
como pássaros ao luar e recolhiam-se
casa adentro. Outras, ficavam por ali
a anoitecer, girando lentamente, enquanto
o vento soprava da serra e tingia o calor
com nódoas de frescura, vindas sabe-se lá de onde.

Na estrada passavam gigantes empoleirados
em cavalos, agora bicicletas de grossos aros,
imitavam heróis de corridas, e assim se levantavam
do selim, pés presos aos pedais,
músculos retesados sob calças apanhadas
por mola de madeira, e atacavam o leve declive,
antes de desaparecerem, a curva os escondia,
como se uma multidão os esperasse
e uma meta lhes desse o fim da cavalgada.
O cavaleiro, em suor desfeito, podia então,
em fonte de pedra, lavar a cara,
matar a sede e olhar o vazio, a tudo rodeava.
Não haveria banquete, nem coroa de louros,
tão pouco um Píndaro o cantaria, como
aquele o fez a Hierão ou a Crómios, ambos
de Siracusa, quando ganharam, em imortais
sprints, as corridas, nos jogos os
deuses aos homens as impunham.

Quando as janelas se abriam, se as abriam,
via-se, ao olhar para fora, a erva rala
em terreno aberto, restos de trigo, vento
e sol o batiam, maçãs e laranjas ao abandono
no chão, o cansaço as tomara por dentro
e a férrea vontade, às árvores as ligavam,
decaiu, um sentimento de ausência as acometeu
e afrouxou do pedúnculo a firmeza
e com surdo bater, um baque dir-se-ia,
o chão as recebeu, entre ervas,
pedaços de lama, gravetos caídos
e já secos pela inclemência da luz.
Neste abandono, havia mãos
que cuidavam de apanhar os frutos
ainda não tocados e uma voz dizia
e do sobejo comam os animais do campo,
e uma pequena procissão por ali vinha
com andores, anjos saltitando, um gato
amarelo, daqueles que havia nas padarias,
fugia de um inimigo imaginado
e entrava, por um buraco, para uma casa
de tijolo vacilante, branqueado pela cal,
onde se guardavam utensílios de lavoura,
restos de coisas que a vida trazia, chapéus
de chuva, as varetas partidas, sacos de plástico,
um monte de jornais velhos, a carcaça de
algum brinquedo, as mãos criminosas
de uma criança o desmontara.

Se os dias aqueciam, fechavam-se as portadas
depois de correr as cortinas e o vidro reflectia o sol.
As sombras partiram e o meio-dia
é sempre tão escuro que os cavaleiros
deixaram as bicicletas em casa, passam
velozes em carros de combate. Aos caídos
frutos ninguém apanha, nem procissões de animais
vêm, no fulgor da tarde, roer os sobejos
que a terra ainda dá. O gato amarelo, daqueles
que havia nas padarias, morreu,
a última vendedeira de pão fechou a porta,
onde já ninguém passava a pé ou a cavalo duma bicicleta.

Ao longe, apenas as varejeiras zunem.

Jorge Carreira Maia (2007). Exodus.

Alfred Schnittke - Concerto Grosso №1 (fragment)

Sobre a impetuosidade e a mobilização

As editoras Círculo de Leitores e Temas & Debates organizaram uma colecção denominada Clássicos da Política. A última obra editada – a terceira da colecção – é O Príncipe de Maquiavel, numa nova tradução de Diogo Pires Aurélio, que assina também uma introdução extensa, documentada e orientadora informada da leitura do texto.

Foi com esta nova edição que retornei ao extraordinário texto de Maquiavel. Quem quiser meditar a natureza dos homens pode começar por aqui e talvez em poucos outros lugares encontrará lição mais adequada. Mas deixemos de lado essa meditação sobre o vício e a virtude da vontade humana.

O texto do florentino é o ponto de partida daquilo que hoje se chama ciência política, uma reflexão sobre o que é a política e não sobre aquilo que deveria ser. Deste ponto de vista, O Príncipe é um dos textos que inauguram a modernidade, sob cuja sombra ainda hoje, cerca de cinco séculos depois, vivemos.

Maquiavel olha para os homens, neste caso os príncipes, como dotados de uma certa natureza petrificada. Os espíritos impetuosos ou cautelosos triunfam se os tempos estiverem adequados à sua índole. Mudando-se, todavia, os tempos, a vontade individual permanece presa à sua inclinação e ao seu modo de ser o que os arrastará para a ruína: «Concluo, pois, que, modificando a fortuna os tempos e estando os homens obstinados nos seus modos, são bem-sucedidos enquanto estes e aqueles concordam e mal-sucedidos quando eles discordam (Maquiavel, O Príncipe: pp. 234).» Hoje, porém, a ideia moderna de homem diz-nos que este é completamente plástico e como tal moldável às múltiplas situações da vida. É isto que, por exemplo, se pensa em conceitos como os da flexibilidade no trabalho ou da multifuncionalidade. A pergunta que poderia colocar-se seria, então, a seguinte: o que é que na modernidade permite fazer esta transição entre uma concepção ontológica do homem visto como carácter permanente e a actual concepção de uma flexibilidade manejável até ao infinito?

Quem quiser encontrar a resposta não precisa de sair do próprio Maquiavel: «Eu julgo realmente isto, que seja melhor ser impetuoso que cauteloso, porque a fortuna é mulher e é necessário, querendo-a ter debaixo, vergá-la e acometê-la (idem).» É no conceito de impetuosidade que se deixa perceber uma das categorias centrais da modernidade, aquela que faz a transição entre duas visões de homem: a da mobilização (Peter Sloterdijk). Perante os caprichos da fortuna só a mobilização contínua, o exercício infindável do arrebatamento, é a resposta possível. Já no século catorze, Jean Buridan, no campo da física, lançava uma teoria do ímpeto que dava uma explicação para o movimento de projécteis e objectos em queda livre e preparava o caminho para Galileu e Newton (para haver movimento deve haver uma força; o movimento persiste porque essa força se incorpora ao corpo, e vai se consumindo até acabar).

No cruzamento do conceito psicológico de impetuosidade, entendido como carácter arrebatado, com o conceito físico de ímpeto nasce então o ideal da mobilização infinita que já não se aplica apenas ao político (príncipe), mas que se vai democratizando e anulando as diferenças que separam os homens. Hoje todos temos o dever de estar mobilizados, isto é, devemos pelo arrebatamento e pelo ímpeto fazer frente aos caprichos da fortuna para evitar não a ruína do principado, mas a própria ruína pessoal. Mas esse conceito de mobilização é aquele que exige de nós não um carácter rígido, mas impetuosamente moldável às situações da vida. É por isso que Sócrates corre, as empresas fazem formação do pessoal, as escolas nomeiam professores coordenadores. Tudo na esperança de que o arrebatamento e o ímpeto não desfaleçam e nos mantenhamos mobilizados na prossecução eterna, e em cada momento diferenciada e sempre nova, do movimento. Como se a morte não existisse e um requiem eterno não fosse o destino único da impetuosa mobilização.

A pirotecnia no 14 de Julho, em França

Parece que nem todos em França se revêem no 14 de Julho e na tomada da Bastilha. Não me estou a referir aos simpatizantes da monarquia ou a alguns afeiçoados tardios do absolutismo. Não. Estou a pensar nos amigos da pirotecnia que entenderam assinalar a ocasião, que tanto enche de orgulho os gauleses, com o incêndio de 600 viaturas (DD). É uma maneira de dizer que estão lá e que o melhor é mesmo não se esquecerem deles. A polícia deteve 220 pessoas, cerca de uma por cada três carros ardidos. Paris não é apenas a capital da revolução, é também a zona mais propícia a estes jogos multiculturais.

Da importância da perspectiva

Há vinte anos vivia-se pior, mas toda a gente acreditava que poderia melhorar. Hoje, vive-se melhor, mas todos desconfiam que só podem mudar para pior. É tudo uma questão de lugar de onde se olha.

João Paulo Guerra - Notas

O que Portugal deveria fazer, para fazer disparar a média da avaliação nacional, era criar uma cátedra de esperteza saloia, cadeira na qual sobram os licenciados, mestres e doutores.A produção de cartolas com os respectivos coelhos está em franca expansão em Portugal. Se desse para exportar resolveria alguns dos problemas da economia portuguesa. O problema é que não dá pois a avaliação dos mercados não segue os critérios e padrões que têm vindo a ser aplicados em Portugal para a produção de sucessos miraculosos. Como, por exemplo, no ensino. De um ano para o outro, o insucesso escolar crónico converteu-se num sucesso assombroso. Poderá mesmo falar-se numa obra miraculosa da Senhora de Lurdes que está no Ministério da Educação: após o grande sucesso das notas dos exames nacionais de matemática do 12º ano, com a média nacional a disparar para os 14 valores, as notas positivas de matemática do 9º ano quase duplicaram.

Porém, o milagre da matemática tem vindo a ser ensombrado pelos diabos dos números. As associações dos professores de matemática atribuem a explosão das notas na disciplina à crescente facilidade dos exames nacionais. Dizem mesmo que há questões nos exames dos 12º e 9º anos que poderiam ser resolvidas por alunos dos 2º e até do 1º ciclo.

Seja como for, enquanto a contestação vai e vem, as estatísticas vão melhorar e não tardará que a Europa seja invadida por fornadas de jovens portugueses que vão concorrer num mercado aberto de trabalho com excelentes avaliações mas periclitante formação. E se um dia os portugueses também forem acusados na Europa de batoteiros em matéria de avaliação do ensino? Ou até mesmo arguidos da produção de notas falsas nos exames nacionais?
[Diário Económico]