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07/01/10

A sede que se deseja



Este belíssimo anúncio à cerveja Sagres, retirado com a devida vénia do Rua Dos Dias Que Voam, um blogue cheio de coisas destas e a visitar com regularidade, evoca em mim a primeira experiência com a cerveja (bebida da qual não sou particular adepto). Não me refiro à experiência de beber cerveja, mas de admirar a própria garrafa. Uma garrafa castanha com os símbolos e o lettring pintados a creme. Julgo que a tampa, carica, era cinzenta ou prateada com Sagres escrito a vermelho e naquelas belas letras que se vêem na imagem. Há toda uma elegância, fundada num quase despojamento de elementos icónicos, que contrasta com o ruído visual que foi crescendo ao longo dos tempos. Nas raras ocasiões que se me coloca a questão de beber uma cerveja, nunca me passa pela cabeça preterir a Sagres pela concorrência. Isso deve-se, porém, à peça de arqueologia aqui representada, a velha garrafa da Sagres. É o que faz ter espessura temporal. O slogan também é perfeito, a sede que se deseja. Ha imagens que são verdadeiros arquétipos.

09/11/09

Jorge Sá Borges

Ao ler o In Memorian, de Medeiros Ferreira, sobre o antigo dirigente e fundador do PPD, Jorge Sá Borges, apetece voltar à inocência da primeira juventude, e perguntar por que razão pessoas como ele não têm lugar na política portuguesa? Dirigente estudantil na crise académica de 1962, católico, advogado de sucesso, pessoa elegante. As intervenções políticas de Sá Borges eram, ainda segundo Medeiros Ferreira, informadas, inteligentes, conciliatórias. Foi também, para o antigo renovador, o melhor ministro de Conselho de Ministros. Tudo isto no período quente do pós 25 de Abril. Hoje, salvas raras e honrosas excepções, resta uma gente funesta, cuja inteligência se mede pelas sondagens e a elegância, mesmo se composta por fatos caros e gravatas bem combinadas (coisa, aliás, rara), anda não muito longe da elegância do Zé Povinho do Bordalo.

03/11/09

Na morte de Claude Lévy-Strauss



Foi hoje anunciada a morte do antropólogo Claude Lévy-Strauss. Tinha 100 anos. Foi uma das figurantes marcantes, no campo intelectual, do século XX. Como homenagem, deixo aqui os três últimos parágrafos de um texto de 1975, um texto que todos os professores, pais, pedagogos e gente interessada em educação, inclusive ministros socialistas, deveriam ler uma e outra vez até terem percebido a simples mensagem que ele contém. O texto denomina-se Palavras Retardatárias sobre a Criança Criadora. Perdoe-se-me a extensão da citação.

Os nossos filhos nascem e crescem num mundo feito por nós, que antecipa as suas necessidades, previne as suas perguntas, os encharca de soluções. A este respeito, não vejo diferença entre os produtos industriais que nos inundam e os «museus imaginários» que, sob a forma de colecções de livros de bolso, de álbuns de reproduções e de exposições temporárias em jacto contínuo desvitalizam e embotam o gosto, minimizam o esforço, baralham o saber: vãs tentativas para acalmar o apetite bulímico de um público sobre o qual desabam desordenadamente todas as produções espirituais da humanidade. Que, neste mundo de facilidades e desperdício, a escola continue a ser o único sítio em que é preciso ter trabalho, sofrer uma disciplina, passar por vexames, progredir passo a passo, viver, como se costuma dizer, «no duro», não é coisa que as crianças aceitem, pois já não a podem compreender. Daí a desmoralização que as invade, quando sofrem toda a espécie de coacções para as quais tanto a família como a sociedade não as prepararam e as consequências por vezes trágicas desta inadaptação.

Resta saber se é a escola que está errada, se é uma sociedade que perde cada vez mais e todos os dias o sentido da sua função. Ao pormos o problema da criança criadora, enganamo-nos no tema: porque somos nós próprios, tornados consumidores desenfreados, quem se mostra cada vez menos capaz de criar. Angustiados pela nossa carência, esperamos a vinda do homem criador. E como não nos apercebemos dele em parte alguma, viramo-nos, em desespero de causa, para os nossos filhos.

Temamos, no entanto, que, ao sacrificarmos as rudes necessidades da aprendizagem aos nossos sonhos egoístas, acabemos por lançar a escola pela borda fora, com tudo aquilo que ela ainda representa, e que venhamos a privar os nossos sucessores do pouco que ainda permanece sólido e substancial na herança que podemos deixar-lhes. Seria aberrante pretender iniciar os nossos filhos na criação pelas vias da arte, recorrendo a métodos pedagógicos inspirados pelos frutos ilusórios da nossa esterilidade. Reconheçamos ao menos que procuramos nisso uma consolação: ao fazermos da criança a medida do criador, damos a nós próprios uma desculpa por termos deixado a arte regredir ao estádio do jogo, mas sem termos tido o cuidado de não abrirmos a porta a confusões muito mais graves entre o jogo e os outros aspectos sérios da vida. Ai de nós, nem tudo na vida é jogo. É aos jovens espíritos que nos incumbe formar, que se fica a dever esta lição fundamental. Lição que nos convidam a calar para a satisfação, na verdade bem ingénua, de justificar aquilo a que ainda se chama arte pelos exercícios atraentes que, sob o colorido de reforma pedagógica, proporcionam às crianças; exercícios em que, no entanto, os próprios adultos podem encontrar — e nada mais — um muito vivo agrado. [Claude Lévy-Strauss, O Olhar Distanciado]

08/09/09

Dias felizes

8 de de Setembro de 1958

01/09/09

70 anos, a invasão da Polónia


Há 70 anos, as tropas de Hitler invadiam a Polónia e davam início à II Guerra Mundial. Como olhar para esse acontecimento que não existiu? Quero dizer que não existiu para a generalidade dos portugueses vivos. Como é que nós que não temos a experiência da guerra, mesmo aqueles que participaram nas guerras coloniais dos anos sessenta e setenta do século passado, podemos pensar esse acontecimento absoluto? Muitas vezes penso no assunto, penso como me comportaria no momento em que a guerra estivesse sobre mim, rodeando-me de combates, fazendo entrar no meu quotidiano a estranha racionalidade da violência irracional.

Recordo-me da minha experiência, há dois anos atrás, numa das praias normandas onde se deu o desembarque dos aliados no Dia D, ou na estranha experiência dos cemitérios de guerra espalhados pela belíssima Normandia. A única coisa que me ocorria, na altura, é que a maioria dos que ali combateram, e morreram, e estão sepultados, eram mais novos que os meus filhos, e estes ainda são bastante novos. Esta estranha reacção do espírito tornava, porém, claro aquilo que há de mais violentamente pornográfico na guerra, a morte das novas gerações, a morte dos filhos no lugar dos pais. Quando mandamos os nossos filhos morrer antes de nós alguma coisa vai mal. Há 70 anos começou uma segunda ceifa da juventude europeia. A Europa, a velha e bela Europa, ainda não se refez.

16/08/09

Nuno Ribeiro

Nuno Ribeiro

Esta casa não está transformada num blogue de ciclismo. Mas ter andado todo o tempo da Volta a fazer postagens sobre ciclismo e não haver uma referência à Volta deste ano, parece-me excessivo. É um facto que há muitos anos deixei de me interessar por este desporto, como pela generalidade dos outros. A paixão desportiva tem a sua pátria nessa terra encantada que é a infância e a adolescência. Depois, ou se desenvolve a razão e se olha com outros olhos as competições desportivas, ou a pessoa recusa-se a crescer e prolonga até à morte a atitude agonística presente em toda a paixão pelo desporto. Calhou-me, talvez com pouco mérito meu, a primeira hipótese. Olho com alguma razoabilidade para o fenómeno desportivo e, confesso, que ele já pouco me emociona. Mas essa terra encantada da infância persiste dentro de nós e é ela que me chama quando escrevo sobre o ciclismo. É também uma outra coisa. O ciclismo, aliás como o futebol, vieram até mim por intermédio do meu pai. Escrever sobre estas coisas é uma forma de me sentir próximo dele, uma espécie de culto aos mortos, aos mortos significantes. Aqui fica, assim, a homenagem ao homem que hoje ganhou a nossa pequena Volta. Não será pior nem melhor que os meus heróis de há quarenta anos, mas nunca terá lugar, por culpa da idade que tenho, no panteão da minha memória.

15/08/09

Quarenta anos de Woodstock

Jimi Hendrix - Purple Haze at Woodstock 1969

The Who - My Generation [Woodstock 1969]

Jefferson Airplane Saturday Afternoon Woodstock 1969

As efemérides são sempre amigas dos bloggers falhos de imaginação. Passam hoje 40 anos do Woodstock. Podemos dizer que o evento condensou toda uma cultura juvenil que se foi formando ao longo da década de sessenta. De certa maneira é o sumário do passado e um programa de futuro. Quarenta anos depois, o mundo que é o nosso é o que aquela gente e muitos dos que gostariam de lá ter estado formataram. Não se pode dizer que seja um mundo brilhante, mas há uma coisa de que não podemos acusar a geração do Woodstock: falta de eficiência. O niilismo e o relativismo que a animava foram eficientemente disseminados e tomaram conta do Ocidente.

02/08/09

M. S. Lourenço

Acabo de ler no A Origem das Espécies uma nota sobre a morte de M. S. Lourenço, ocorrida ontem. Era um intelectual notável, poeta e filósofo. Fui seu aluno, em Lógica, nos anos oitenta, precisamente no ano em que retornou definitivamente a Portugal. Foi o grande patriarca da filosofia analítica em Portugal. A sua presença, aparentemente discreta no panorama cultural e filosófico português, é muito maior do que se pode imaginar, nomeadamente ao nível da Filosofia. Pode-se consultar a nota do Público, a referência da Wikippedia e a página pessoal de Manuel Lourenço dedicada à Filosofia da Matemática.

08/07/09

A cidade de Torres Novas

Faz hoje 24 anos que a vila de Torres Novas foi elevada à categoria de cidade. Confesso que isso nunca me aqueceu nem arrefeceu, mas hoje tomei a decisão de não esquecer a efeméride. Quem quiser saber alguma coisa sobre o concelho que tem por sede Torres Novas pode ir até à página da Câmara Municipal. Pode ver que somos uma antiquíssima comunidade, muito anterior à fundação de Portugal e que está na primeira linha dessa fundação. Isso é uma coisa que deve orgulhar os torrejanos. Está inscrito na memória genética, bem como o rio Almonda, o Castelo e o foral outorgado por Sancho I, em 1 de Outubro 1190, data assinalada como a da fundação do município. O resto são coisas que vêm e vão, mas que sem essa estrutura mais arcaica são apenas risíveis.

03/07/09

Grandes Armazens do Chiado

O fascínio do passado reside na sua imperfectibilidade. Eu sei que as nossas representações desse passado são perfectíveis, mas o passado em si é absolutamente perfeito e como tal imposível de aperfeiçoar. Quando nos deparamos com algo vindo do passado, a primeira coisa que damos conta é da sua absoluta superioridade relativamente ao presente. Nisto não há nostalgia, mas apenas a constatação de um facto. O presente não passa de um híbrido entre o que está concluído e o que está em aberto. O passado, pelo contrário, é um animal de raça pura, de pedigree assegurado, nele não há possibilidades em aberto, tudo está fechado, concluído, feito, perfeito. Por exemplo, estas imagens que recolhi no Beautiful Century (um blogue a visitar regularmente) são a prova do que está dito. Comecemos então a digressão pelos Grandes Armazéns do Chiado, no ano da graça de 1910. Esta primeira imagem diz respeito à back cover do winter catalog, como escreve a autora do blogue. Em 1910, os Grandes Armazéns do Chiado eram um império distribuído pelo país fora. Aveiro, Braga, Faro, Coimbra, Evora (sem acento), Portalegre, Covilhã, Lisboa, Porto, Setubal (sem acento), Vizeu (assim mesmo), Funchal, Caldas, Beja, S. Miguel. Tenho a ideia de ver antigas fotografias de Torres Novas com uma agência dos Grandes Armazéns do Chiado, na praça 5 de Outubro. Como se vê, a proliferação dos hipermercados não é uma invenção do eng.º Belmiro de Azevedo. Já no tempo da Monarquia isso acontecia. Uma viagem atenta pelos desenhos não deixa de ser particularmente interessante. Toda uma lição de sociologia pátria está ali inscrita. Atente-se apenas nas figuras humanas das imagens referentes a Lisboa e à Covilhã. O que me fascina, porém, é a ortografia. Falo menos na acentuação, muito diferente da nossa, mas da grafia de certas palavras. Por exemplo, paiz em vez de país, ou succursaes em vez de sucursais. Que distância e que distinção.

Já imaginou a inexistência do pronto-a-vestir? Talvez. Concebeu um mundo de alfaiates, modistas e costureirinhas a receber nos seus ateliês particulares os clientes. Sim, isso é verdade, ainda me lembro bem desse mundo ser praticamente dominante, mas em 1910 a vida material era já muito mais complexa. Veja-se esta página, a 33 do catálogo dos Grandes Armazéns do Chiado. Ensina a tirar medidas, para depois se efectuarem encomendas de roupa. A elegância era assinalável. O que se podia encomendar? As senhoras, capas e confecções, vestidos, calçado, chapéus e luvas; os homens, camisas, casacos, collarinhos e colletes (o duplo "l" como sintoma de civilização), calça (no singular) e essa inesquecível peça de lingerie masculina que dá pelo nome de ceroulas, cujas medidas são as das calças. Também há fatos para os meninos e vestidos para as meninas. Mas o supremo encanto da página é os plissés (mais tarde falava-se em plissados). Dois tipos de plissés, os Soleil e os accordeon (os primeiros com letra maiúscula e os segundos com minúscula), ou deitado. São executados nos ateliês da casa. Também há recortagem (mas aqui falta-me a cultura para perceber se diz respeito aos plissés ou não) à machina, o que é bem diferente de recortagem à máquina, coisa mais ligado à metalurgia e à metalomecânica.


A página 32 do catálogo de inverno de 1910, um catálogo imaginado em plena Monarquia, e que entrou em vigor no início da República, traz-nos os edredons. Quase todos de setim liberty e com enchimento duvet francez. Quantos enigmas aqui? Hoje escrevemos cetim. A palavra chegou até nós vinda de França, onde se diz satin, e tem a sua origem no árabe zaituni referente à cidade chinesa Zaitun, onde o tecido era fabricado. E no simples setim temos uma prática ancestral de globalização que nos faz sonhar com desertos e rotas da seda, camelos e oásis, estreitas sendas e longos poentes. Nada mais evidente, porém, do que a adjectivação do setim, liberty. Que propriedade que não a liberdade poderá vir ao espírito quando se pensa em setim ou mesmo em cetim? Um setim liberty com enchimento francez duvet. Duvet? Claro, duvet a palavra francesa para penugem, para o conjunto de penas que enchem o edredon. Uma coisa é ter um edredon de penas e outra, totalmente diferente, é possuir um edredon duvet, ainda por cima com setim liberty. Repare-se como a vida material é tão pouco material, como ela depende do espírito. Talvez não exista coisa mais espiritual do que a vida material. Mas não deixemos passar em claro um pormenor significativo: o enchimento duvet, que já não é um enchimento qualquer, é feito segundo os preceitos da hygiene. Não é apenas a nobreza do "y" que nos cativa e que indica o caminho de degradação popular que vai da era da hygiene aos nossos rudes tempos da higiene. Há ali toda uma dedução de carácter kantiano, que pressupõe o imperativo categórico do respeito pela pessoa enquanto fim em si mesmo, para chegar aos preceitos que defendem essa pessoa através da hygiene do enchimento francez duvet. Que tempos!

Como já foi dito, nada há mais espiritual do que a vida material, e esta não é nada se não tiver em conta aquilo que nos alimenta. Por exemplo, lentilhas, ervilhas, favas e grão não levantam o problema da diferença ontológica. São o que são e não têm qualificativo. Diríamos que são transversais. Já o feijão é diferente. Há o feijão suisso (assim mesmo), o frageolet, o soisson e o cabreiro, e por mais caro que seja o cabreiro, alguém de boas famílias o pedirá? Pelo contrário, um feijão frageolet ou soisson é digno de ser encomendado pelas melhores famílias da pátria. Novidade ou quase deveria ser o vinho engarrafado. O Carcavellos, branco (150 réis) ou tinto (120 réis), era vendido em garrafões ou barris de 5 litros. Uma elegante garrafa enrolhada e capsulada automaticamente do Carcavellos brancos custava 100 réis. A manteiga era vendida em lata, manteiga do Dão ou manteiga da Praia d'Ancora. O café Princeza era vendido em lindas latas axaroadas (não sabe o que é? nós também não). A página 31 do catálogo de inverno dos Grandes Armazéns do Chiado é uma introdução, delicada mas informativa, à dieta das classes médias no início da República ou no fim da Monarquia, conforme preferir.


Como vê, caro leitor, o passado é absoltamente imperfectível, pois ele é belo e perfeito. E é de tal maneira perfeito que basta umas quantas páginas de um catálogo comercial para deixar manifesta a sua inexcedível beleza. O que nos dá a esperança de, quando formos definitivamente passado, a beleza nos tocar.

22/06/09

O nascimento da UDP em Torres Novas

Primeiro símbolo da UDP

Continuando com o exercício de memória política: como nasce da UDP em Torres Novas? Antes, um pouco de história da organização. Tanto quanto me recordo, a UDP nasce da confluência de três grupos “m-l” (marxistas-leninistas), de orientação maoísta. São eles, o CARP-ML (Comités de Apoio à Reconstrução do Partido- Marxista Leninista), fundado em 1973, e que tinha militantes como Francisco Martins Rodrigues, João Pulido Valente e Rui d’Epinay, o CCRML (Comités Comunistas Revolucionários Marxistas Leninistas), fundado em 1969, e onde se podiam encontrar como militantes João Bernardo (um grande teórico da extrema-esquerda), Acácio Barreiros, Mariano Gago e Jorge Coelho (sim, esses mesmos), e a URML (Unidade Revolucionária Marxista Leninista), fundada em 1971. São este três grupos que dão origem à UDP em finais do ano de 1974. Não vejo aqui, prolongando a conversa do post anterior, qualquer presença dos grupos católicos. Mas descortina-se a presença de muitos estudantes ligados ao Instituto Superior Técnico, também antigos quadros do CMLP (Comité Marxista Leninista Português), resultante da cisão original no PCP dos maoístas portugueses.

O núcleo UDP de Torres Novas nasce ligado a uma estrutura muito curiosa. No Entroncamento havia um grupo maoísta com certo peso (ainda se reflecte hoje na votação do BE) que não pertencia a nenhum dos grupos referidos anteriormente e estava organizado em torno do jornal Ribatejo na Luta. Desse grupo, havia gente com ligações ao IST, entre eles o José Manuel Alcobia, falecido há muito. Esse grupo participa na fundação da UDP, mas de forma autónoma, sem filiação em nenhum grupo "ml". Foi no contacto com essas pessoas, nomeadamente com um estudante do Técnico, e hoje professor na Universidade de Coimbra (aliás um tipo absolutamente notável, que tinha um Citroën 2 cavalos, que metia água por tudo o que era sítio, e possuía uma belíssima colecção de música clássica, com a qual me iniciei verdadeiramente nessa música), que estava destacado na região para fazer trabalho político (era assim que se falava na altura), que nasceu a UDP de Torres Novas. Ainda me lembro de quem foram os fundadores (quase tudo gente pouco mais do que imberbe), mas não vou referir nomes. Um deles era eu (também pouco mais do que imberbe). Refiro apenas que havia um professor da escola secundária (hoje, ES Maria Lamas) que também tinha sido formado pelo Técnico. Era na casa desse professor que decorriam as reuniões do partido. Depois, a UDP alugou uma sede em frente à antiga Tipografia Conde Marques. Não me recordo agora o nome da rua e o prédio já não existe. Às vezes, penso que alugaram a casa para sede da UDP com medo das ocupações, muito em moda na época. O preço da renda era 300 escudos, que foram pagos escrupulosamente, pelo menos até à altura em que saí. Mas as pessoas eram cordatas e honestas e o ímpeto revolucionário era mais fruto da época do que condição natural das pessoas, digo eu. Muitas dessas pessoas não têm, hoje em dia, nada a ver com essas opções do passado. Julgo que, como eu, abandonaram, com uma ou outra excepção, a política activa. Ideologicamente não sei onde se situam. Como é público e notório, eu não me situo, nem de perto nem de longe, nas proximidades daquilo que eram as minhas opções há mais de 30 anos. Nem sequer consigo dizer se há alguma linha de continuidade entre o Bloco de Esquerda local e o antigo núcleo da UDP.

Sobre os militantes católicos

Liga Operária Católica


Aproveito a converso com o Zé Manel, e um comentário anterior, para retornar à questão dos militantes católicos. Diz: “Os militantes desta corrente de pensamento dividiram-se em 1974 pelo PSD, pelo PS e até curiosamente pela UDP (que tinha uma grande influência na LOC).”

A minha memória não é efectivamente essa. É verdade que muitos militantes católicos se dividiram pelo PPD e pelo PS. Relativamente à UDP, não tenho essa impressão.

Para além do PSD e do PS, há uma franja enorme, entre jovens universitários e quadros operários católicos, que está na origem do MES (Movimento da Esquerda Socialista). Alguns desses militantes são pessoas notáveis e tiveram, e ainda têm, um papel político importante. Penso que também havia gente católica na FSP (Frente Socialista Popular) do Manuel Serra, uma cisão do PS, e na LUAR. É provável que também estivessem noutras organizações da extrema-esquerda, de que já não recordo o nome. Uma fatia deles terá ido para o PCP ou para o MDP-CDE, na altura.

Que memórias tenho eu sobre isso relativamente a Torres Novas? Eu não conhecia as organizações católicas (JOC e LOC) por dentro, mas conhecia as pessoas (naquele tempo, toda a gente conhecia toda a gente em TN). Os militantes católicos locais devem ter-se distribuído pelo PPD, pelo PS, claramente, pelo PCP (aliás, já antes do 25 de Abril havia uma cooperação local entre os jovens comunistas e os sectores católicos, isso eu conheço bem). Não tenho memória de ninguém dessa área católica na UDP, mas tenho no PRP (Partido Revolucionário do Proletariado). Julgo que o PRP, dirigido por Isabel do Carmo, tinha gente de extracção católica, mesmo a nível nacional. A nível local tinha de certeza.

Portanto, tanto quanto o meu conhecimento alcança, não havia ligação entre os militantes católicos e a UDP, mas não sei como era a nível nacional (nunca passei de um militante local), embora exista a referência do Padre Max, assassinado no norte, e do padre Martins Júnior, na Madeira. Mas julgo que essa presença de militantes católicos era excepcional, pois a UDP tinha uma forte e muito dogmática estrutura ideológica fundada nos princípios marxistas e no ateísmo. Veja-se o seu primeiro símbolo (no próximo post).

21/06/09

Da democracia cristã em Portugal

Leão XIII

Continuemos a conversa com o Zé Manel, do Canhotices, a propósito de duas postagens e respectivos comentários do averomundo (esta e esta). Algumas indicações históricas fundadas na memória pessoal, em leituras diversas, e não na investigação científica.

A questão da democracia cristã em Portugal. Em Coimbra, foi criado em 1901 o CADC (Centro Académico de Democracia Cristã), inspirado na encíclica Rerum Novarum, publicada em 1891 pelo Papa Leão XIII. Fizeram parte do Centro, salvo erro, o Prof. Oliveira Salazar e o futuro Cardeal-Patriarca de Lisboa, Gonçalves Cerejeira. Com a ditadura, estes sectores cristãos são absorvidos pelo regime, juntamente com monárquicos anti-liberais e republicanos de direita. É a isto que Oliveira Salazar vai chamar União Nacional.

A democracia cristã hibernou em Portugal durante a ditadura, embora a partir dos anos sessenta houvesse núcleos católicos que, inspirando-se na doutrina social da Igreja, contestavam o regime. A revista o Tempo e o Modo, posteriormente tomada pelo MRPP, teve aí a sua origem. Nomes como Alçada Batista, Bénard da Costa, M. S. Lourenço, José Escada, etc. são preponderantes nesse movimento. Também dentro dessa inspiração encontramos o grande poeta Ruy Belo.

Com o 25 de Abril, nasceram muitos partidos e pelo menos dois reclamavam-se da democracia-cristã. O PDC (Partido da Democracia-Cristã) de Silva Resende e Sanches Osório, partido menor e claramente à direita e sem relação com a tradição centrista de esquerda da democracia-cristã europeia, mas que ainda teve alguma visibilidade nos anos quentes da revolução, onde chegou a ser proibido.

Nasceu também o CDS (Partido do Centro Democrático Social) que, também ele, reivindica a ideologia da democracia cristã. O papel do CDS na revolução está envolto na ganga ideológica e conflitual da altura, mas hoje começa a ser possível perceber algumas coisas. Em primeiro lugar, o núcleo original do CDS é claramente centrista, com certos laivos à esquerda, e democrata-cristão. Se na altura, quando se olhava da esquerda ou da extrema-esquerda, se via o CDS como um partido quase fascista, isso devia-se à cegueira ideológica que os anos quentes da revolução semearam em todos nós. O CDS tinha de facto uma elite política notável (Freitas do Amaral, Lucas Pires, Adriano Moreira, Basílio Horta, Amaro da Costa, Vítor Sá Machado, Rui Pena (torrejano, segundo julgo), etc.), mas não de direita. Não é por acaso que muitos dos seus dirigentes, incluindo o pai fundador, Diogo Freitas do Amaral, acabaram por se cruzar com o Partido Socialista.

O papel do CDS na revolução foi o de integrar as franjas mais conservadoras da sociedade portuguesa, uma sociedade ainda bastante ruralizada e arcaica, apesar do crescimento industrial dos anos 60 e 70, na democracia. Há que reconhecer, hoje em dia, que o CDS o fez com elevada competência. Apesar de não ter votado a constituição de 76, o CDS manteve dentro do regime e da vida democrática sectores sociais importantes que estavam amarrados à ditadura. Havia, de facto, um “abismo” entre a notável e esclarecida elite partidária e a massa eleitoral, sendo esta muita mais direitista que aquela. Esse papel importante teve como consequência tornar o CDS, agora também PP, naquilo que é hoje, um partido médio, ideologicamente inconsistente, onde não encontramos já, embora isso seja comum aos outros partidos, o nível intelectual e político que as suas primeiras elites apresentavam.

Em resumo, podemos dizer que a democracia cristã em Portugal sacrificou-se duas vezes. A primeira vez, sacrificou-se dissolvendo-se dentro do regime autoritário de Salazar. A segunda vez, sacrificou-se para mediar a entrada dos sectores mais conservadores da sociedade dentro do regime democrático. Se o primeiro sacrifício é desprezível, o segundo é amplamente meritório e talvez seja isso que, inconscientemente, certos sectores da direita portuguesa não perdoam a Diogo Freitas do Amaral, personagem incontornável na consolidação da democracia portuguesa.

Hoje, como se pode constatar, não existe nenhuma corrente credível da democracia cristã em Portugal. Isso deve-se, por certo, aos sacrifícios que apontámos atrás e ainda à crise das ideologias. Mas haverá outras razões, nomeadamente sociológicas. Um exemplo. Que impacto poderia ter em Portugal, um país tão pouco industrializado, a encíclica de Leão XIII? Apenas nos sectores intelectuais católicos. A Rerum Novarum dirigia-se ao mundo operário, era uma tentativa da Igreja não perder esse mundo para o marxismo e o ateísmo. Só bem mais tarde a inspiração dessa encíclica pôde fermentar nos sectores operários portugueses, mas a ditadura não deu possibilidades de se formar um autêntico pensamento político democrata-cristão. Como não tivemos social-democracia, também não tivemos democracia-cristã como a europeia, nomeadamente como a que existia em Itália (onde acabou muito mal, apesar de ter começado muito bem) e na Alemanha (onde continua de boa saúde).

Continuaremos esta deambulação, com outras memórias, a partir do diálogo com o Zé Manel.

14/06/09

Há dias assim

Há dias assim. Dias tristes e indefinidos, nem quentes nem frios, apenas assim. Hoje o meu pai faria 82 anos, mas há uns anos que deixou de fazer anos. Não há em mim revolta contra essa decisão da natureza nem dor exacerbada. Apetecia-me, apenas, ir lá a casa e falar um pouco com ele, trocar umas palavras sobre o estado do mundo, sobre a política, o que pensaria ele do engenheiro Sócrates? Ah sim, falaríamos por certo do nosso Benfica e eu, por causa dele, até saberia mais do clube, do qual já quase nada sei. Eram assim conversas tranquilas, conversas de homens, que me ligavam ao fundo dos tempos. Agora resta-me o futuro. E nada há mais insidioso do que restar-nos apenas o futuro.

21/05/09

Paisagem e despovoamento


Temos todos uma miríade de conhecidos. Desses, há alguns com quem falamos, trocamos opiniões, de quem, eventualmente, nos tornamos amigos para a vida ou para parte dela. Há outros conhecidos, porém, com quem nunca falámos, mas que fomos lendo, fomos sabendo deles através do que escrevem, do que pintam, do que compõem, ou por outro motivo qualquer. Conhecidos conhecidos e conhecidos desconhecidos fazem parte da nossa paisagem, compõem um médium que nos liga ao território. Dessa paisagem fazia parte João Bénard da Costa, a sua ligação ao cinema, as suas crónicas no Público. Agora já não faz. Ou talvez comece a fazer parte de outra paisagem, a da memória que se inscreve sobre o esquecimento.

Este tipo de acontecimentos, faz-me recordar o sub-título desse estranho romance de Carlos de Oliveira denominado Finisterra. O sub-título é o não menos estranho paisagem e povoamento, como se um romance fosse uma narrativa geográfica ou mesmo geofísica. Mas a experiência que, a partir de certa altura da vida, vamos tendo não é a de povoamento. Pelo contrário, a nossa paisagem despovoa-se, os conhecidos, incluindo aqueles com quem nunca falámos, abandonam-na e temos muita dificuldade de introduzir novos conhecidos na paisagem. Com o passar dos anos a paisagem vai-se tornando cada vez mais desértica até que, um dia, cansados de areia a deixamos também. [Aqui, uma pequena nota biográfica sobre João Bénard da Costa]

28/09/08

Atahualpa Yupanki y Borges- El Legado (Extracto 5)

As histórias cruzadas de Borges e de una paisanita iletrada, vizinha de Yupanki, são uma belíssima lição sobre a relação do homem com o mundo. A voz profunda e grave do músico argentino, a voz de um grande narrador, ajudam a tornar verosímil a lição moral que as habita.

13/05/08

Robert Rauschenberg - Recife Azul

[Siglo XX. Transvanguardia/Figuración - Neo-Dadaismo. 1984]

Morreu a noite passada o pintor norte-americano Robert Rauschenberg. Para alguns aspecto biográficos ver informação no Público. Para ver reproduções das suas obras clicar aqui (tem de procurar pelo nome) e aqui.

05/05/08

Thunderbirds ar go

Alguém se recorda desta horrível série?

Vá lá, não fechem A Brasileira


Foi através do Portugal dos Pequeninos e do Miss Pearls que tomei conhecimento da ameaça que sombreia a vida de um dos cafés mais emblemáticos do Porto, A Brasileira, na rua Sá da Bandeira. Uma divergência entre os proprietários e um banco pode conduzir à morte da instituição. Quando em 1977 fui cumprir o serviço militar, assim se dizia na altura, para o Porto, na Escola Prática de Transmissões, era para A Brasileira que ia muitas vezes, depois de jantar, beber café e ler o jornal. Na altura lia o o vespertino Diário de Lisboa. Tenho ideia de estar na esplanada a olhar as gentes que deambulavam por ali e a respirar aquele ambiente especificamente portuense. Lá perto, o Teatro Sá da Bandeira anunciava os seus produtos, os quais nunca consumi, e a vida fluía tranquila e ronronante com aquela pronúncia do norte e as pessoas a pedirem cimbalinos. Vá lá, não fechem a casa. O Porto sem A Brasileira não será o mesmo.

31/03/08

A primavera de Praga

Dois blogues [Água Lisa e Entre as Brumas da Memória] falam hoje da Primavera de Praga. Eu ainda não tinha, na altura, 12 anos e lembro-me perfeitamente da crise, de a ver passar na televisão. É provável que a censura fosse, neste caso, muito mais branda do que noutros. Sempre se passava num país comunista. Lembro-me muito bem do estudante que se imolou pelo fogo aquando da chegada dos tanques soviéticos. Isso impressionou-me vivamente, por estranho que pareça. Não que eu tivesse uma especial propensão para a política, não deveria ter. Mas a agitação nas ruas e aquela imagem terrível da imolação foram absorvidas. Lembro-me também do nome do presidente checo, Dubcheck. O curioso desta história é que a brandura da censura, neste caso, não teve muitos efeitos. Nem em mim, nem em muitos da minha geração, pois o episódio não evitou que pessoas estruturalmente conservadores tivessem passado, no final da ditadura e no início da democracia, pelo marxismo. É provável que se em 1968 vivêssemos já em democracia, toda uma geração teria passado ao lado do marxismo e da aceitação do comunismo.