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20/05/08

Maio de 68 - Entrevista a André e Raphaël Glucksmann

-¿Lo peor de aquella patética «crisis de civilización» fue el nihilismo que llevó al terrorismo?

-André y Raphaël: No ha sido. ¡¡Es!! Nos llevó al terrorismo y a una nueva forma de despotismo. Después del 68 hay una represión en los intelectuales, y dado que Marx ha muerto y que no se va a dar la gran noche ya no vale nada: el bien y el mal, lo verdadero y lo falso son de la misma tinta. Y esto nos lleva a dictaduras posmodernas, cínicas, por ejemplo el maltrato de los tibetanos y chechenos por los chinos y los rusos. Se permite todo al que gobierna, porque hace la ley, la filosofía, la verdad. Los marxistas no creen en nada y fusilan a los estudiantes en Tiannamen sin problema alguno. Y así...

-¿Creen que el mejor espíritu del 68 lo encarnaría Carla Bruni?

André: A mí me gustaba Cecilia Sarkozy, sin una gota de sangre francesa en sus venas. Es española, judía y zíngara. Pero a esta ex primera dama hoy en Roma seguro que la quemaban en una pira. Y Carla parece tan poco normal como Cecilia. Incluso participó en manifestaciones contra Sarkozy.
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Para ler a enrevista de Glucksmann pai (um dos chamados novos filósofos que saíram do Maio de 68) e de Glucksmann filho ir até ao ABC.

18/05/08

Maio de 68 - 02 Aceleração e informalismo

Se se olhar para a cronologia que Le Magazine Littéraire (Hors-série nº 13) publica, a propósito dos acontecimentos do denominado Maio de 68, cronologia que vai desde a constituição da chamada Quinta República, com De Gaulle na Presidência, até a 1976, quando Michel Foucault publica o primeiro volume da sua Histoire de la Sexualité, descobrimos dois “pequenos” acontecimentos que irão ter um enorme peso na contestação que irá surgir na Primavera de 68.

O primeiro acontecimento dá-se em 20 de Março de 1967. Os alunos de Nanterres introduzem-se na residência universitária reservada às alunas e são expulsos pelas forças da ordem. Note-se que o conflito emerge em torno daquilo a que Pedro Mexia chama o direito de visita. Vale a pena olhar para este acontecimento, não por ele ter detonado os acontecimentos que tiveram o seu esplendor no ano seguinte, mas pelo facto de representar um daqueles instantes em que a fronteira entre dois mundos aparece de uma forma nítida.

A moral burguesa que enviou as forças da ordem e a moral não menos burguesa que reivindicava o direito de visita e, presume-se, o direito a ser visitada entraram naquele instante em colisão. Aquilo que comandava as forças da ordem era um mundo moral que estava moribundo e assentava num conjunto regras que iriam desabar em muito pouco tempo.

O interessante neste caso de afrontamento entre dois mundos morais é, porém, o facto de o próprio poder político estar absolutamente dividido. Não me refiro aqui a hipotéticas divisões no seio governamental, mas a uma divisão que perpassa no seio das opções políticas referentes a assuntos que tenham incidência moral. A repressão dos estudantes que querem visitar as suas colegas, por um lado, e a publicação, meses mais tarde, a 28 de Dezembro de 1967, da lei Neuwirth, a qual autoriza a venda de medicamentos contraceptivos. Se a lei é publicada no final de 1967 é porque o debate sobre ela já é bastante mais antigo.

A reivindicação do direito de visita só se torna possível num mundo onde se prevê a «emancipação» da sexualidade relativamente à reprodução. Neste mundo, a divisão protectora dos sexos deixa de fazer sentido, pois deixa de haver o que proteger. Aquilo que para as novas gerações de então era claro tinha sido preparado pelo próprio poder e no seio do próprio poder. O que a contestação estudantil fez foi apenas acelerar um processo que decorria de uma forma mais lenta e formal. Aquilo que se revela na conjugação destes dados está muito longe de mostrar o Maio de 68 como um movimento de transformação das relações sociais de produção, mas mostra-o como uma continuação de uma metamorfose moral que estava a ocorrer já na esfera burguesa do poder. O que o Maio de 68 então traz pode ser definido por dois conceitos: aceleração e informalização. As transformações na moralidade, nomeadamente na moral sexual, tornam-se então cada vez mais rápidas e mais informais.

03/05/08

Maio de 68 – 01 A rejeição do saber

Comecemos pela parte final. Inverter os acontecimentos históricos e olhar para eles não no momento em que começam, mas quando dão os seus frutos, permite perceber o que neles estava implícito, mas que o calor dos dias não deixava ver. Há uma história, que já contei noutra ocasião, que se passa em 1969, num período em que a contestação estudantil não tinha acabado, mas que se dirigia para o ocaso. A cena ocorre em Nanterres, na Universidade onde os acontecimentos de Maio de 68 se espoletaram. O filósofo Paul Ricoeur é, à época, o decano da Universidade, isto é, o responsável máximo pela instituição.

Conta que uma vez foi arrastado para um grande anfiteatro para se explicar. O que pretendiam os estudantes? Pretendiam saber o que é que Ricoeur tinha que eles não tivessem. Dito de outra maneira, o que é que conferia autoridade a Paul Ricoeur. A resposta deste é límpida: “Li mais livros do que vocês.” Apesar da clareza e do carácter verrumante da resposta, os tempos estavam a mudar e o saber deixara de ser um factor de legitimação na sociedade. Começava aí um tempo novo que se abateria por todas as sociedades ocidentais e, fundamentalmente, nos seus sistemas de ensino.

Ricoeur assinala que a rejeição daqueles estudantes se ligava a uma identificação do saber ao poder e deste à violência. Mas o filósofo, talvez pelos complexos de culpa que o atingiam, não terá compreendido uma outra faceta da história que viveu. Aqueles estudantes que o contestavam e contestavam o poder, o saber e a violência, não se eximiram de exercer sobre ele, um pacato professor e um filósofo, teólogo e erudito de uma integridade excepcional, a violência e um poder não legitimado a não ser nessa mesma violência. Estava aqui inscrita já uma matriz dos herdeiros, directos e indirectos, da aventura de 68, o autoritarismo e a violência associados ao desprezo pelo saber.

Olhe-se apenas para a política educativa portuguesa. Não por acaso, a actual ministra foi aluna de pelo menos um dos soixante-huitard portugueses e ela mesma, mais tarde, se sentiu atraída por certas ideias libertárias herdeiras da revolta estudantil francesa. A violência com que ela caiu sobre os professores e a desvalorização do saber nas escolas é apenas o desenvolvimento lógico do espírito inscrito no episódio vivido por Paul Ricoeur.

02/05/08

Maio de 68

Estamos em maré de comemorações do Maio de 68. Hoje o Público dedica-lhe um editorial, de José Manuel Fernandes, e um trabalho de 16 páginas assinado por diversos autores. A Visão, através da revista História, salvo erro, vai fazer um número sobre o acontecimento. Aqui, em o A Ver o Mundo, iremos durante o mês de Maio efectuar uma reflexão pessoal sobre o episódio, constituída por pequenos textos a publicar de forma irregular. Esta reflexão será a de alguém que ainda não tinha 12 anos quando se deram os acontecimentos e dos quais não retém na memória qualquer traço adquirido na época. Sublinhe-se, também e por um dever de honestidade, que não sou um particular admirador do evento, embora reconheça que a forma como vivi a minha vida teria sido impossível sem ele. O primeiro texto será publicado amanhã.