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28/01/10

Exercícios penitenciais


Há dias que não temos nada para dizer. Esses, porém, não são os piores. Há outros dias que descobrimos que deveríamos estar calados. Talvez calar-me seja o maior exercício de respeito por mim e pelos outros. Seria, no mínimo, um exemplo. Tanto ruído. Mas esses dias ainda não são os piores de todos. Para mim, hoje, é um dos piores dias. Estive a ler Herberto Helder e, sempre que leio Herberto Helder, é um dia mau. Aquela poesia é tão boa, tão perfeita, tão exacta, que parece tudo ter ficado escrito para a eternidade. A poesia de Herberto Helder é perversa, esmaga-nos com o prazer que dá, esmaga-nos com a sua exactidão lexical. Na poesia de Herberto Helder, a gramatica é terrível, pois não admite excepções, mesmo que um miserável substantivo seja um advérbio. Ler Herberto Helder é um exercício feroz de humilhação. Não, não nos purifica, não nos lava a alma. Pelo contrário, aquela poesia rouba-nos a alma. Quando lemos Herberto Helder ficamos desalmados. Aquele bocadinho de alma que ainda tínhamos é desbaratado, queimado, nem o diabo a quer. Herberto Helder é um inimigo do diabo, pois desfaz as almas que o maligno queria acumular para o fogo eterno. Quando lemos Herberto Helder, e na humilhação de o lermos, ainda queremos ler mais e mais e sem parar. Há poetas, daqueles poetas verdadeiros, que se proíbem de ler Herberto Helder. Eu leio-o, pois eu não sou um poeta dos verdadeiros nem dos falsos. Mas esses dias de leitura são penitências sem fim. Quando leio "As crianças enlouquecem em coisas de poesia", eu sou essa criança a enlouquecer. Enlouquecer, nestes dias, é uma forma de penitência. O penitente tira sofrimento do prazer. O leitor de Herberto Helder não passa de um penitente, de um penitente que quer estar calado e não consegue.

12/01/10

O livro do entardecer 17 - livros

amo certos livros pela textura do papel
são frutos de seda ao tocarem os dedos
ou parecem navios que chegam ao cais
sobre a escura inquietação das águas

aqueles que mais amo são estátuas
hirtas figuras de papel de pedra –
olham-me da lonjura da estante
pedindo que os deixe no sono eterno

assim vagueio entre os meus livros
como se passeasse à tarde num jardim
sento-me e acaricio páginas como rosas
e adormeço sob o olhar que vela por mim

06/10/09

William Carlos Williams - Proletarian Portrait



Tradução de um poema do poeta norte-americamo William Carlos Williams, Proletarian Portrait (Retrato Proletário).

A big young bareheaded woman
in an apron

Her hair slicked back standing
on the street

One stockinged foot toeing
The sidewalk

Her shoe in her hand. Looking
intently into it

She pulls out the paper insole
to find the nail

That has been hurting her

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Uma jovem e enorme mulher sem chapéu
e de avental

O cabelo liso sobre as costas
mesmo na rua

Um pé forte a pairar
sobre o passeio

Tem o sapato na mão. Olha
atentamente para ele

Puxa a palmilha de papel
para encontrar o prego

Era isso que a feria

04/10/09

Emily Dickinson - 739



Tradução de outro poema de Emily Dickinson, o 739.

I many times thought Peace had come
When Peace was far away –
As Wrecked Men – deem they sight the Land –
At the Centre of the Sea –

And struggle slacker – but to prove
As hopelessly as I –
How many the fictious Shores –
Before the Harbor be –

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Pensei tantas vezes a Paz virá
Estando a Paz tão distante –
Como Náufragos – imaginam avistar a Terra –
No Meio do Mar –

E lutam impotentes – para revelar
Tão sem ânimo quanto eu –
Todos os Litorais fictícios –
Que antes do Porto há –

02/10/09

Paul Verlaine - Agnus Dei

Paul Verlaine (1844 - 1896)


Um poema, e respectiva tradução, do simbolista francês Paul Verlaine, Agnus Dei.

L'agneau cherche l'amère bruyère,
C'est le sel et non le sucre qu'il préfère,
Son pas fait le bruit d'une averse sur la poussière.

Quand il veut un but, rien ne l'arrête,
Brusque, il fonce avec de grands coups de sa tête,
Puis il bêle vers sa mère accourue inquiète...

Agneau de Dieu, qui sauves les hommes,
Agneau de Dieu, qui nous comptes et nous nommes,
Agneau de Dieu, vois, prends pitié de ce que nous sommes.

Donne-nous la paix et non la guerre,
Ô l'agneau terrible en ta juste colère.
Ô toi, seul Agneau, Dieu le seul fils de Dieu le Père.

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O cordeiro procura a amarga esteva,
É sal e não açúcar o que prefere
O seu passo soa como chuva sobre poeira.

Quando quer um fim, nada o pára,
Brusco, avança, golpeando com a cabeça,
Depois bale para a mãe que inquieta acorreu...

Cordeiro de Deus, que salvas os homens,
Cordeiro de Deus, que os contas e nomeias,
Cordeiro de Deus, vê, tem piedade do que somos.

Dá-nos paz e não guerra,
Ó cordeiro terrível em tua justa cólera,
Ó tu, único Cordeiro, Deus, o único filho de Deus Pai.

30/09/09

John Keats - Lines Supposed to Have Been Addressed to Fanny Brawne

John Keats (1795 - 1821)

Uma tradução de um poema de John Keats, Lines Supposed to Have Been Addressed to Fanny Brawne

This living hand, now warm and capable
Of earnest grasping, would, if it were cold
And in the icy silence of the tomb,
So haunt thy days and chill thy dreaming nights
That thou would[st] wish thine own heart dry of blood
So in my veins red life might stream again,
And thou be conscience-calm’d – see here it is –
I hold it towards you.

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Esta mão viva, agora quente e capaz
De ávida força, desejaria, se fria estivesse
No gélido silêncio do sepulcro,
Assombrar-te os dias e gelar-te o sonho nas noites,
Suplicarias para o sangue secar no teu coração.
Assim em minhas veias a seiva voltaria a fluir,
E amena seria a tua consciência – vê, ei-la aqui –
Prendo-a para ti.

26/09/09

Eduardo Bento - O Nevoeiro dos Dias



Eduardo Bento, professor de Filosofia da minha escola, na condição livre de aposentado, lançou hoje, na Biblioteca Municipal de Torres Novas, a obra O Nevoeiro dos Dias (65 poemas). A edição é da Ponte Editora, uma aventura de Joaquim Cabral. Aqui fica, como símbolo e prova da qualidade do livro, o poema que me coube ler.

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NÓS

Lentos são os pássaros neste tempo apressado.
Buscam o leito seco dos rios.
E a aridez que conduz os pássaros
E os homens retardatários buscam
ainda algum abrigo,
em vão!
Não há porto, nem barco, nem água.
A secura apoderou-se das planícies.
Os sonhos mortos às portas da alegria
fenecem com as fúnebres corolas
que acompanham os mortos.
Somos nós os mortos
E trazemos na alma o esquecimento
do sereno crepúsculo, do som da fonte,
do regresso dos rebanhos.

24/09/09

Geoffrey Hill . The Minor Prophets

Geoffrey Hill (1932 - )
Joel in particular; between the Porch
and the Altar – something about dancing
or not dancing. No, weeping; but in the Bible
there’s só much about dance; often of ill omen;
the threats of scorched earth and someone who resembles
the Scorpion King. They should film Joel:
A fire devoureth before them; and behind
them a flame burneth.

[The Minor Prophets, in A Treatise of Civil Power]

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Joel em particular; entre o Pórtico
e o Altar – qualquer coisa sobre dançar
ou não dançar. Não, o pranto; mas na Bíblia
há tanto sobre dançar; muitas vezes de mau presságio;
as ameaças da terra devastada e de alguém que parece
o Rei Escorpião. Deviam filmar Joel:
um fogo devorador à sua frente; e atrás
uma chama a arder.

09/09/09

Robert Frost - Dust of Snow

Robert Frost

Continuamos na poesia norte-americana. Hoje, um poema de Robert Frost (1874 - 1963), Dust of Snow (Flocos de neve)

The way a crow
Shook down on me
The dust of snow
From a hemlock tree

Has given my heart
A change of mood
And saved some part
Of a day I had rued.

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Na rua um corvo
Sobre mim sacudiu
Os flocos de neve
De um abeto frio

Deu-se no coração
Uma mudança de ar
E salvou-se parte
De uma dia de penar.

08/09/09

Wallace Stevens - The death of a soldier

Wallace Stevens
Para hoje a tradução de um poema do poeta norte-americano Wallace Stevens (1879 - 1955), The death of a soldier (A morte de um soldado)

Life contracts and death is expected,
As in a season of autumn.
The soldier falls.

He does not become a three-days personage,
Imposing his separation,
Calling for pomp.

Death is absolute and without memorial,
As in a season of autumn,
When the wind stops,

When the wind stops and, over the heavens,
The clouds go, nevertheless,
In their direction.

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A vida decai e a morte irrompe no horizonte,
Como nos dias de Outono.
O soldado tomba.

A queda não o torna uma personalidade,
Que imponha a sua partida,
E requeira pompa.

A morte é absoluta e sem comemoração,
Como nos dias de Outono,
Quando o vento pára.

Quando o vento pára, sobre os céus,
As nuvens seguem, ainda,
O seu caminho.

07/09/09

Jorge Sena - Camões dirige-se aos seu contemporâneos

Jorge de Sena

Por causa disto, recorda-se o poema de Sena (in Metamorfoses):

Podereis roubar-me tudo:
As ideias, as palavras, as imagens,
E também as metáforas, os temas, os motivos,
Os símbolos, e a primazia
Nas dores sofridas de uma língua nova,
No entendimento de outros, na coragem
De combater, julgar, de penetrar
Em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
Suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
Outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
Será terrível. Não só quando
Vossos netos não souberem já quem sois
Terão de me saber melhor ainda
Do que fingis que não sabeis,
Como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
Reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
Tido por meu, contado como meu,
Até mesmo aquele pouco e miserável
Que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
Que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu, E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

William Carlos Williams

Para começar a semana a tradução de um poema do poeta modernista americano, William Carlos Williams (1883 - 1973), Mujer. Apesar do título continuamos com gatos.

Oh, black Persian cat!
Was not your life
already cursed offspring?
We took you for rest to that old
Yankee farm, – so lonely
and with so many field mice
in the long grass –
and you return to us
in this condition – !

Oh, black Persian Cat

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Ó, sinistro gato persa!
Não foi a tua vida
já um fruto amaldiçoado?
Levámos-te para o sossego da velha
quinta Ianque, – tão solitária
e com tantos ratos do campo
pela relva descuidada –
e tu voltas para nós
neste estado – !

Ó, sinistro gato persa!

06/09/09

Charles Baudelaire - Les chats

Charles Baudelaire

Para hoje uma tradução de um poema de Baudelaire, Les chats (Os gatos).

Les amoureux fervents et les savants austères
Aiment également, dans leur mûre saison,
Les chats puissants et doux, orgueil de la maison,
Qui comme eux sont frileux et comme eux sédentaires.

Amis de la science et de la volupté
Ils cherchent le silence et l'horreur des ténèbres ;
L'Erèbe les eût pris pour ses coursiers funèbres,
S'ils pouvaient au servage incliner leur fierté.

Ils prennent en songeant les nobles attitudes
Des grands sphinx allongés au fond des solitudes,
Qui semblent s'endormir dans un rêve sans fin ;

Leurs reins féconds sont pleins d'étincelles magiques,
Et des parcelles d'or, ainsi qu'un sable fin,
Etoilent vaguement leurs prunelles mystiques.

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Amantes ardentes e austeros sábios
Amam igualmente, ao envelhecer,
Gatos pujantes e doces, orgulho familiar.
Como eles, são friorentos e sedentários.

Amigos da ciência e da volúpia
Procuram o silêncio e o horror das trevas;
O Érebo tomá-los-ia como servos da morte
Se à servidão pudessem dobrar o orgulho.

Quando meditam, tomam nobres atitudes,
Enormes esfinges dilatadas no fundo da solidão,
Parecem adormecidas num sonho infinito;

Os férteis rins, cheios de mágicas centelhas,
E fragmentos de ouro e fina areia
Cintilam vagamente no olhar extasiado.

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Não se respeitou a métrica original, tendo-se recorrido, na tradução, ao verso livre. Optou-se por uma tentativa de captar o núcleo noemático do pensamento poético, em lugar de plasmar os aspectos formais. Opção discutível, mas quase inevitável para quem tem formação em Filosofia. Também são discutíveis algumas das soluções de tradução encontradas, se alguém quiser contra-propor, esteja à vontade.

05/09/09

Emily Dickinson - 288

Emily Dickinson
Para hoje a tradução, bem difícil, de um poema da poetisa norte-americana Emily Dickinson. O poema n.º 288.

I’m Nobody! Who are you?
Are you – Nobody – Too?
Then there’s a pair of us!
Don’t tell! they’d advertise – you know!

How dreary – to be – Somebody!
How public – like Frog –
To tell one’s name – the livelong June –
To an admiring Bog!

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Sou Ninguém! Quem és tu?
És – Ninguém – Também?
Então formamos um par!
Nada contes! Eles anunciá-lo-iam – bem sabes!

Que monótono – ser – Alguém!
Que banal – como a Rã –
Dizer o nome – por todo o Junho –
Para um charco boquiaberto!
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Das discutíveis soluções encontradas para os problemas que o poema coloca, refiro aquela que menos me agrada. A tradução de How public, no sexto verso, por Que banal. A tradução de Ana Luísa Amaral por Que vulgar não resolve também o problema. Ambas as traduções perdem a referência ao domínio público, à esfera pública oposta à esfera íntima, referência essa presente no texto de E. Dickinson. Todo o poema gira em torno do conflito publicidade vs intimidade. Ainda pensei em traduzir por Que publicidade, mas a actual conotação da palavra oculta o sentido mais original que tomou no Iluminismo, nomeadamente em Kant. É contra esse sentido, de certa forma, que o poema é escrito, demarcando uma área de intimidade que deve ser preservada da publicidade que o dizer, o anunciar, o contar, implicam.

04/09/09

Walt Whitman - O Captain! My Captain!

Walt Whitman

Hoje um poema de Walt Whitman escrito em 1865, aquando do assassinato de Abraham Lincoln. O Captain! My Captain!

O Captain! my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weather'd every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.


O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up -- for you the flag is flung -- for you the bugle trills,
For you bouquets and ribbon'd wreaths -- for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head!
It is some dream that on the deck,
You've fallen cold and dead.


My Captain does not answer, his lips are pale and still,
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,
The ship is anchor'd safe and sound, its voyage closed and done,
From fearful trip the victor ship comes in with object won;
Exult O shores, and ring O bells!
But I with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

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A tradução pessoal do poema de Walt Whitman, Ó Capitão! Meu Capitão! (aqui pode ler uma outra tradução do mesmo poema, da autoria de Maria de Lurdes Guimarães).

Ó Capitão! meu Capitão! a nossa terrível viagem está feita,
O barco cruzou cada tormenta, alcançámos o prémio desejado,
O porto está próximo, oiço sinos, o povo exulta,
Enquanto olhos seguem a quilha segura, o sinistro e audacioso navio;
Mas ó coração! coração! coração!
Ó as gotas vermelhas do sangue
No convés onde jaz o meu Capitão,
Caído, frio e morto.

Ó Capitão! meu capitão! levanta-te e ouve os sinos;
Levanta-te – por ti, agita-se a bandeira – por ti, toca o clarim,
Para ti ramos de flores e grinaldas com fitas – por ti, praias cheias de gente,
Por ti, chama a multidão ondulante, voltam-se os rostos ansiosos;
Aqui Capitão! querido pai!
Este braço debaixo da tua cabeça!
Será algum sonho que no convés,
Estejas caído, frio e morto.

O meu capitão não responde, os lábios estão pálidos e quietos,
O meu pai não sente o meu braço, não tem pulso nem vontade,
O barco ancorou seguro e incólume, a viagem está feita e acabada,
Da terrível viagem, o barco voltou, a meta alcançada;
Exultai, ó praias, e tocai, ó sinos!
Mas eu, com andar fúnebre,
Percorro o convés onde jaz o meu Capitão,
Caído, frio e morto.

03/09/09

Langston Hughes - HOMECOMING

James Langston Hughes

Hoje a tradução de um poema de um escritor americano, James Langston Hughes (1902 - 1967). Título: HOMECOMING

I went back in the alley
And I opened up my door.
All her clothes was gone:
She wasn’t home no more.

I pulled back the covers,
I made down the bed.
A whole lot of room
Was the only thing I had.

-------------------------
Agora o exercício de tradução:

VOLTAR A CASA

Na viela, voltei atrás
E abri a minha porta.
A sua roupa fora-se:
Ela já não estava.

Tirei a coberta,
Caí na cama.
Um quarto inteiro
Era só o que tinha.

02/09/09

William Blake - The Tyger

William Blake

Hoje uma arriscada tradução de um poema, talvez o mais célebre, de William Blake, The Tyger (O Tigre).

Tyger! Tyger! burning bright,
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire in thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?

And what shoulder, and what art,
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand, and what dread feet?

What the hammer? What the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? What dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears,
And watered heaven with their tears,
Did He smile His work to see?
Did He who made the Lamb, make thee?

Tyger! Tyger! burning bright,
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?

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Agora, a experiência de tradução, sem qualquer comentário, embora muito se pudesse discutir.

Tigre! Tigre! ardência luminosa
Nas florestas da noite,
Que mão ou olho imortal
Pôde forjar tão terrível simetria?

Em que céus ou abismos distantes
Ardeu o fogo dos teus olhos?
Em que asas ousou elevar-se?
Que mão se atreveu a prendê-lo?

E que força, e que arte,
Teceram o vigor do teu coração?
E quando ele começou a pulsar,
Que terrível mão e que terríveis pés?

Que martelo? Que grilhões?
De que fornalha saiu o teu cérebro?
Que bigorna? Que energia pavorosa
Ousou abraçar esse terror fatal?

Quando as estrelas lançaram seus dardos,
E regaram o céu com suas lágrimas,
Sorriu Ele ao ver o Seu trabalho?
Quem criou o Cordeiro, a ti te criou?

Tigre! Tigre! ardência luminosa
Nas florestas da noite,
Que mão ou olho imortal
Pôde forjar tão terrível simetria?

01/09/09

Percy B. Shelley - Epitaph

Percy Bysshe Shelley

Um pequeno poema de Percy Bysshe Shelley, EPITAPH (Epitáfio):

These are two friends whose lives were undivided;
So let their memory be, now they have glided
Under the grave; let not their bones be parted,
For their two hearts in life were single-hearted.

Agora, a tradução:

Estes são dois amigos cujas vidas foram indivisas;
Assim seja a sua memória, agora que deslizaram
Para a sepultura; não separem as suas ossadas,
Pois em vida fiéis foram os seus dois corações.

Nota: O último verso, For their two hearts in life were single-hearted, reclama uma tradução diferente da apresentada. O adjectivo single-hearted pode traduzir-se por fiel, sincero, honesto, etc. Mas podemos pensar de uma forma mais radical e ver nesse termo composto um processo de produção (como se, sublinho o como se, hearted fosse um particípio passado do hipotético verbo to heart, verbo que expressaria a acção de tornar-se coração) de um coração singular, único. É como se a fidelidade ou a sinceridade que se expressa em single-hearted, ambas de natureza dialógica e relacional, se fundassem na auto-produção de um coração único, singular. A fidelidade ou a sinceridade teriam assim o seu fundamento numa comunidade de coração, numa comunhão de afecções. Isto permite traduzir o verso final de Epitáfio assim: “Pois em vida de dois corações fizeram um.” Uma outra possibilidade , ainda mais interessante, seria esta: “Pois em vida os seus corações tornaram-se um.”

A opção por “Pois em vida de dois corações fizeram um” ou por “Pois em vida os seus corações tornaram-se um” liga-se àquilo que se valoriza na leitura poética. A última opção acentua o papel dinâmico da metonímia “hearts” (toma-se a parte, o coração, pelo todo, pelo indivíduo), dinamismo presente no texto de Shelley. São os corações que se tornam, durante a vida, num só. A primeira opção, “Pois em vida de dois corações fizeram apenas um”, introduz um jogo interpretativo onde a “metonímia” é transformada numa metáfora (corações, hearts, agora remeteria para o campo da afecção, para o domínio do sentimento) e são os sujeitos, subentendidos no verso, que operam (fizeram) a metamorfose dos dois corações num único.

Esta opção introduz uma dinâmica racional, uma espécie de razão prática que determina as metamorfoses do afecto, enquanto a manutenção da função metonímica de corações (hearts) liberta o acontecer da fusão dos corações de uma premeditação ou de uma representação racional a priori. Essa libertação é produzida pelo efeito de ocultação que reside na metonímia. Sabemos que a metonímia assenta numa relação de contiguidade entre o tropo expresso (hearts/corações) e o termo que ele substitui (os indivíduos que possuem aqueles corações). Essa contiguidade mantém a relação ao mesmo tempo que a oculta. Esta tensão produz um halo que des-racionaliza o verso, retira-lhe a alusão à vontade (a razão prática), criando uma atmosfera afectivamente dinâmica, que é, julgo, mais fiel ao espírito poético de Shelley.

Leia-se, então, toda a tradução com as duas possibilidades:

Estes são dois amigos cujas vidas foram indivisas;
Assim seja a sua memória, agora que deslizaram
Para a sepultura; não separem as suas ossadas,
Pois em vida os seus corações tornaram-se um.

ou:

Estes são dois amigos cujas vidas foram indivisas;
Assim seja a sua memória, agora que deslizaram
Para a sepultura; não separem as suas ossadas,
Pois em vida de dois corações fizeram um.

31/08/09

Malcolm Lowry - After Publication of “Under the Volcano”

Mais uma tentativa de tradução, agora de um poema de Malcolm Lowry, After Publication of “Under the Volcano”

Success is like some horrible disaster
Worse than your house burning, the sounds of ruination
As the roof tree falls succeeding each other faster
While you stand, the helpless witness of your damnation.

Fame like a drunkard consumes the house of the soul
Exposing that you have worked for only this –
Ah, that I had never known such a treacherous kiss
And had been left in darkness forever to work and fail.

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O resultado do exercício:

O triunfo é como um horrível desastre
Pior do que a casa incendiada ou o troar da ruína
É como as vigas de um telhado que rápido caem uma após outra
Enquanto estás de pé, indefesa testemunha da tua danação

Como bêbado a fama consome-te a casa da alma
Manifestando que só trabalhaste para isso –
Ah, como gostaria de nunca ter conhecido tão pérfido beijo
E tivesse ficado na eterna obscuridade para trabalhar e falhar

29/08/09

John Keats - Give Me Women, Wine, and Snuff

Uma nova tentativa de tradução, agora de um poema de Keats, Give Me Women, Wine, and Snuff:

Give me women, wine, and snuff
Untill I cry out "hold, enough!"
You may do so sans objection
Till the day of resurrection:
For, bless my beard, they aye shall be
My beloved Trinity

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A proposta de tradução:

Dêem-me mulheres, vinho e tabaco
Até que grite “basta, é suficiente!”
Podem fazê-lo sem objecção
Até ao dia da ressurreição:
Pois, pelas minhas barbas, serão sempre
A minha amada Trindade.