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17/02/10

Avaliação da experiência Kindle 2


Vamos lá, então, a uma avaliação (parece que se vive num tempo de avaliações) da experiência de leitura no Kindle 2, o eReader da Amazon. Escolheram-se quatro categorias. Manuseamento, Leitura, Livros disponíveis e Trabalho. Deixaram-se de lado questões técnicas como o carregamento da bateria ou a audição dos textos (ainda não experimentei esta possibilidade).

Manuseamento­. O Kindle manuseia-se bastante bem, é leve, permite a leitura nas mais diversas situações. A princípio estranha-se o “virar” da página. A tendência é repetir o gesto mecânico inerente aos livros em papel, mas rapidamente nos habituamos a carregar nos botões (PREV PAGE e NEXT PAGE) ergonomicamente situados. A desvantagem reside em ser mais difícil e moroso saltar páginas. Há acesso a um menu que permite ir para um índice, mas muitos dos e-books disponíveis gratuitamente não possuem o índice operativo, isto é, que permite clicar na indicação do capítulo e aparecer no local onde o capítulo se inicia. Nos livros comprados (foram dois) para Kindle, na Amazon, os índices funcionam. Também noutros e-Books gratuitos esses índices funcionam, mas não em todos. O menu permite também ir para determinada localização (location) do livro, mas é necessário saber para onde se quer ir. A sensação ao tacto do aparelho não é desagradável, mas não é papel. É fria e metálica. É também escorregadia, por isso recomendo a compra de uma capa de cabedal. Torna o Kindle mais pesado, mas protege o ecrã e evita que o aparelho escorregue das mãos. Já apanhei, por sorte, o meu no ar, quando experimentava ler sem capa protectora. O miniteclado para introduzir notas e fazer pesquisa é trabalhável. Não estamos a falar de um computador, mas de um livro que permite fazer anotações nele e a partir dele.

Leitura. Incomparavelmente melhor e menos cansativa do que num bom monitor de computador, apesar do ecrã ser pequeno. Tem a vantagem de apresentar seis tamanhos de caracteres à escolha, que vão desde os caracteres para os que vêem bem de mais até aos que precisam de caracteres bem grandes por verem bem de menos. Permite também escolher o número de palavras por linha. Além disto, que para mim é muito mas que encontro no computador, refira-se a qualidade do ePaper e da eInk. De facto, a relação entre o preto dos caracteres e a cor de fundo (que não sei designar) do “papel” é bastante agradável. Não há contrastes que firam a vista. A leitura é, na minha óptica, melhor no Kindle que em papel. Esta é uma grande arma deste tipo de aparelhos relativamente ao iPad, por exemplo. Não sendo retro-iluminado, o Kindle comporta-se como um livro normal. Precisa de luz exterior para ser lido. Ao desaparecer aquele brilho dos monitores de computador a vista é poupada.

Livros disponíveis. Na Amazon.com há mais de 300 mil livros à venda para Kindle, livros com codificação própria e só legíveis no Kindle. Essencialmente em inglês, mas abrangendo um leque alargado de interesses. Há outros sites que vendem também livros que o Kindle lê. Como disse num post anterior, existem milhares de livros gratuitos que o Kindle lê. Os nossos próprios textos podem ser transformados em ebooks lidos pelo Kindle. Mas o universo de livros disponíveis, nas várias línguas, irá crescer exponencialmente nos próximos anos. Os livros em PDF apresentam algumas dificuldades de leitura. Não é possível fazer zoom sobre eles. No entanto, esses livros, se não forem em imagem mas em texto, podem ser convertidos para linguagem que o Kindle lê normalmente, e por isso permite fazer zoom sobre eles. Também os jornais podem ser lidos no Kindle. O Público já está disponível por cerca de 14 dólares mensais.

Trabalho. Vantagens: podemos escrever anotações, colocar bookmarks, sublinhar. Podemos também pesquisar por palavras ou expressões. Esta é uma grande vantagem. Desvantagens: os livros comprados na Amazon.com para Kindle não permitem fazer scanner sobre eles para os trabalhar no computador (uma técnica que utilizo bastante em textos difíceis, para os analisar). Os outros livros disponíveis na internet, mesmo em linguagem legível por Kindle, permitem através de um programa denominado Calibre, fazer conversão para .pdf ou para .rtf e .txt, formatos que o Word lê. Depois é só trabalhar a parte que se quer e acompanhar a leitura no Kindle. Problemas: os livros comprados na Amazon.com não têm páginas idênticas aos livros em papel. Isto levanta um problema em trabalhos académicos, nomeadamente na localização de citações. No entanto, os ebooks têm aquilo que se chama “locations”. Por exemplo, o livro que estou a ler tem 2471 locations e vou na location 632-37. Isto permite referenciar a citação. Não sei, nem procurei, se existe já alguma norma de referência bibliográfica que contemple os ebooks.

Nota final. Um ebook é um óptimo instrumento de trabalho. Poupa a floresta, evita o crescimento desmesurado das estantes numa casa, é amigo do leitor. É possível, porém, que se esteja apenas no início de uma nova forma de conceber o livro.

15/02/10

Carnaval


Não desesperemos! As cinzas de quarta-feira já não estão longe.

06/02/10

Um investimento

Proximamente, falarei sobre a experiência de ler no Kindle. Hoje, a questão é financeira. O Kindle, ou outro e-Reader, é uma despesa (custa cerca de 277 euros) ou um investimento. Depende do tipo de leitor que se é. Mas se se for um leitor devotado e se estiver interessado em muitas das coisas que caíram no domínio público, da literatura à filosofia, passando pelas diversas ciências, então um e-Reader é um investimento que, com o passar dos dias, se vai tornando invisível. A quantidade de obras gratuitas disponíveis, devido a não serem já abrangidas pelo copyright, é de tal maneira grande que se encontrará sempre dezenas de livros que se quer ler e que, com um e-Reader amigável para os olhos, se evita a sua compra em papel. Poupa-se no custo do livro e no espaço da estante. Mesmo nos e-books comprados se pode encontrar alguma diferença para o papel (mas não muita, diga-se). Há o problema da língua, é um facto, mas mesmo para a língua portuguesa encontra-se bastantes coisas disponíveis (refiro-me às do domínio público). Quem for leitor em língua francesa ou inglesa, então está no paraíso.

27/01/10

Finalmente

Não há nada a fazer, somos mesmo assim. Retorno à saga da busca do livro necessário. No dia 29 de Novembro, depois de percorrer as livrarias on-line portuguesas ou a operar em Portugal, encomendo numa delas, a única que fazia referência ao livro, uma obra que necessito para as minhas aulas deste segundo período. Pensei, ingenuamente, que uma encomenda feita no fim de Novembro chegaria a meados de Dezembro. Não chegou. Passou Dezembro com as festas, já Janeiro se ia adentrando pelo tempo fora, decido enviar um e-mail à tal livraria on-line. Não me responderam, como já aqui contei. A 12 de Janeiro, passados três ou quatro dias do envio do email, ligo para os serviços de atendimento ao cliente. A senhora que me atendeu foi bem simpática, disse que ia ligar para o armazém e ver o que se passava. Passado uma hora, ligou-me. Pedia muita desculpa, mas já não distribuíam os livros daquela editora. A simpatia da senhora não anula, porém, três coisas. Em primeiro lugar, o desfasamento do catálogo on-line com a realidade (uma coisa muito corrente nas livrarias on-line portuguesas ou a operar em Portugal). Em segundo lugar, o desprezo evidenciado pelo cliente e manifestado na ausência de resposta a um pedido. Em terceiro lugar, a ineficiência dos serviços. Mesmo que houvesse um desfasamento no catálogo on-line, um serviço eficiente informaria rapidamente o cliente do equívoco, pedir-lhe-ia desculpa e adiantaria que ao cartão de crédito não tinha sido debitada qualquer quantia.

Aproveitando a simpatia da senhora do atendimento, pedi-lhe a informação de quem era a edição do livro, pois não constava do catálogo on-line. Lá fui informado, coisa que me deixou eternamente grato. Era um centro de investigação de uma universidade portuguesa. Liguei de imediato, nesse dia 12 de Janeiro, para lá. Perguntei quem era o distribuidor actual dos livros que editavam. Ninguém, o próprio centro os vendia na sede ou enviava pelo correio. Então, disse, faço a encomenda de imediato por via telefónica. Não pode ser, responderam-me, tem de enviar um email para ficarmos com o registo. Muito bem. Posso pagar on-line? Não, enviamos os livros à cobrança (perante o catálogo, eu decidira comprar outras obras para além da que precisava). Doze de Janeiro era uma terça-feira, e eu, que nunca me curo da ingenuidade (ingenuidade acima dos 40 é burrice, como diz uma amiga), imaginei que lá para sexta-feira teria os livros, até porque explicava a minha urgência. A verdade, porém, é que só hoje, dia 27 de Janeiro, os tenho na mão.

No dia 20 de Janeiro, decidi comprar os Collected Poems, de Philip Larkin. Fi-lo no Reino Unido através da Amazon.co.uk. Ontem dia 26, já pude ler alguns poemas de Larkin. Há qualquer coisa que não funciona em Portugal. E isto não se refere apenas às instituições do Estado. A iniciativa privada é tão ineficiente quanto os serviços públicos. Neste caso até é bastante mais, pois a editora do livro nem está vocacionada para funcionar como editora ou como distribuidora e servir eficientemente, nesse âmbito, os clientes. Quando se fala em crise, estamos a falar disto, desta atitude, desta efectiva falta de competitividade. E o que é aqui a falta de competitividade? Não é outra coisa senão a falta de atenção e de respeito pelo outro, mesmo que este apareça na figura do cliente, isto é, daquele que paga para a empresa sobreviver. Tudo isto é também um problema ético. Para muitas das nossas empresas e instituições o outro não é a sua razão de ser.

08/01/10

Tornei-me um Kindle-man


Ok, sou fraco. Não resisti a proclamar urbi et orbi que recebi hoje (um presente de Natal serôdio e talvez não merecido - mas o melhor mesmo é aquilo que recebemos sem mérito, apenas por graça divina ou outra, como neste caso) o meu novo gadget. O Kindle, o e-book da Amazon. Ainda está a carregar a bateria (estou a fazê-lo com o aparelhómetro ligado ao computador por uma porta USB, pois ainda não comprei o adaptador para electricidade, o que me permitiria carregar e usar ao mesmo tempo), portanto não sei nada dele, mas estou em pulgas para ver como funciona. Ponto assente: não havendo luz externa não haverá leitura. Elegante e leve, a frase que ele apresenta no carregamento lê-se muito bem. Quem estiver interessado em saber alguma coisa pode consultar um blogue particular de um entusiasta português do Kindle. O blogue é o Kindle Portugal. Bem, agora vou escolher os primeiros livros que vou comprar. O descarregamento leva 60 segundos e é feito por ligação 3G sem fios e gratuita, incorporada no livrinho. Estou a preparar-me para a era do pós-papel.

05/01/10

Público com défice de atenção

Andará bem? Eu sei que se podem fazer algumas compras via terminal multibanco, nomeadamente bilhetes de comboio ou de Expresso, mas 71 milhões de compras, no valor de 3 134 milhões de euros, é demais para os bens que o Multibanco oferece. Não confundirá o Público compras com pagamentos. Compro um livro numa livraria e pago através do Multibanco. Comprar e pagar
são coisas diferentes, ou eram.

Mas se a semântica vai revolvida pelas bandas do Público, a aritmética, então, está pelas ruas da amargura. «Seis escritores portugueses, uma brasileira, um espanhol e um mexicano são os dez finalistas do Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros». Antigamente 6+1+1+1 somariam 9, hoje, talvez devido aos processos inflacionários acumulados, atingem o valor de 10. Os meninos andam desatentos. Uma consulta ao psicólogo talvez ajude.

04/01/10

Crise de narcisismo

Despudoradamente, publiquei ontem uma foto onde estava representado. Hoje adicionei uma fotografia ao blogue. Suspeito que estou a atravessar uma grave crise narcísica. Mas, para dizer a verdade, eu sou adepto de um narcisismo mais disfarçado. O que eu queria era apenas adicionar uma foto ao perfil, mas que ela não surgisse no corpo manifesto do blogue. Não consegui. Ou tenho foto em ambos os lados ou não tenho em nenhum, e já vi que há quem tenha apenas no perfil, mas não no blogue Alguém sabe, e tem a gentiliza de me dizer como se faz esse passe de mágica? Obrigado.

03/01/10

Reconquista da liberdade


Esta adorável criancinha de babete, com aquele olhar sério e profundo, é a minha neta Vera. Colonizou, como só as potestades despóticas o sabem fazer, esta casa desde o dia 30 até hoje e submeteu-me, com os seus 15 meses, a um dos mais intensos períodos de exercício físico de que tenho memória. E eu fiz a tropa. Da pobre da avó, nem é bom falar. Para além de determinar que a sesta não deveria em caso algum ultrapassar a hora e meia, tinha como objectivo mexer em tudo o que fosse possível e ameaçar, a cada quarto de hora, partir a cabeça devido a uma manobra mais ou menos arriscada. Aliás, não seria a primeira vez que a partiria, pois na anterior passagem por cá, teve de fazer uma visita à urgência do hospital onde, na pequena cirurgia, foi brindada com quatro pontos num sobrolho. Os livros e cd's foram o principal alvo da força inimiga. Roubava dois ou três e corria com eles casa fora, comigo atrás. Ontem, para mostrar que está a crescer e a evoluir no bom sentido, decidiu tentar escalar uma das estantes. Um pé na prateleira de baixo e, agarrada a uma mais acima, tentava, sem êxito, claro, alçar o outro pé à segunda. De noite, porém, decidia compensar os decrépitos avós. Dormia a sono solto e aí por volta das 3 da manhã brindava-os com um concerto, onde a cada número interpretado se seguiam risos e palmas, para além de uma algaraviada incompreeensível, mas que se deduzia ser o comentário à actuação. Foi-se embora há pouco. A liberdade foi reconquistada, depois desta dura provação, mas a casa ficou infinitamente vazia.

30/12/09

Libreria Beta - Sevilla



Já há uns anos que não dava um salto a Sevilha, a minha cidade preferida na Península Ibérica, depois de Lisboa, claro. Passei lá duas noites e três dias, como agora se diz. Nunca parou de chover, a não ser hoje quando saí. Os espanhóis convenceram-me definitivamente. Faça chuva ou sol, frio ou calor, as ruas estão cheias de gente, bem como os bares e restaurantes. Há uma grande alegria em viver e um prazer enorme em ser espanhol (eu sei que noutros lados dispensam esta última parte).

Aproveitando a desculpa das chuvas, às vezes bem intensas, lá me meti pelas livrarias dentro. Descobri esta, Libreria Beta. Onde? Num antigo teatro. As fotos (retiradas da Internet) mostram o palco (ao fundo, estão os clássicos da literatura greco-latina, espanhola e universal). Na outra foto vê-se a antiga plateia (do lado esquerdo estão as estantes dedicadas à filosofia, bem recheadas de livros, quase sempre traduções em castelhano). Avista-se também o balcão, todo ele dedicado aos livros de bolso, onde encontramos quase de tudo a preços bem suportáveis. Apesar da Libreria Beta pertencer à maior cadeia de livrarias de Sevilha (existindo também noutras cidades), recomenda-se esta na Calle Sierpes, 25. Um espaço muito agradável e onde se pode respirar.

27/12/09

Descanso

Por motivos de força menor, mas mesmo assim de força, este blogue só volta à vida, se tudo correr bem, lá para o último dia do ano.

14/11/09

Logo à noite, Ana Moura



Logo, pelas 21:30, no Cine Teatro Virgínia, em Torres Novas, Ana Moura. Já tenho bilhetes para um espectáculo que, segundo consta, está hiper-esgotado. A primeira vez que vi, a sério, fado ao vivo foi com Camané. Ele deixou a expectativa tão alta que até tenho algum medo da apresentação de logo à noite.

11/11/09

A morte de Robert Enke



Por causa do presuntivo suicídio do antigo guarda-redes do Benfica, Robert Enke, actualmente a jogar no Hannover 96, João Gonçalves escreve isto, e o Zé Ricardo, isto. Mas talvez a questão do acto de Enke não resida nem em Deus nem na alma, não possua uma explicação filosófica, ou teológica, ou sociológica. Talvez a explicação seja idêntica àquela que se dá quando alguém morre de  cancro ou de tuberculose, ou sei lá eu de quê, tantas são as estratégias da morte ligadas às patologias. Se Thanatos escolhe uma desregulação na multiplicação das células, uma pneumonia ou uma depressão que aniquila o livre-arbítrio e conduz o paciente para a auto-imolação, estará a fazer coisas diferentes? Tecnicamente falando, do ponto de vista da ordenação jurídica da vida, o caso de Enke foi um suicídio, mas terá sido? A morte por cancro é um suicídio?

21/10/09

Senhor do destino


Manhã destinada a leituras várias. Estou há quase uma hora a ser bombardeado pelo legítimo desejo de um vizinho destruir e reconstruir a sua casa. Um bombardeamento contínuo de marteladas cai sobre mim, imobiliza-me, macera-me a cabeça, frita-me o cérebro em azeite bem quente. Parece que estou a trabalhar há 20 horas. Durante uns segundos o bombardeamento parou, mas retornou logo. Tento perceber o ritmo, perscrutar a variação da intensidade, encontrar um qualquer sinal que me anuncie o fim do tormento. Nada. Aquela ideia de que os homens são senhores do destino faz-me sorrir. Uma manhã já perdida, e ainda não são dez horas, e uma dor de cabeça ganha.

27/09/09

A 2 euros


Depois de cumprir o dever cívico e de ter entregue o meu voto à sabedoria das urnas, passei pela avenida marginal, de Torres Novas, e deparei com a Feira de Velharias, se este é ainda o nome do evento. Acabei por parar e ir ver como estavam as modas. Não estavam mal. Por dez escassos euros comprei cinco livros, em condições mais do que aceitáveis, todos eles, ou quase todos, sem que alguma vez uns olhos tenham pousado sobre o campo lavrado das suas letras (estes dias eleitorais transtornam-me o cérebro). Cheio de orgulho patriótico, pelo dever cumprido, adquiri a obra principal do filósofo Fernando Gil, Mimésis e Negação, os ensaios sobre literatura, cinema e teoria literária, A Mecânica dos Fluidos, de Eduardo Prado Coelho, os estudos, de Ana Hatherly, sobre textos-visuais dos séculos XVI e XVII, denominados A Experiência do Prodígio, o romance O Deus das Pequenas Coisas, de Arundhati Roy e as Cartas Familiares, de D. Francisco Manuel de Melo.

Há muitos motivos que me levaram a comprar estes livros. Sim, o preço foi um deles. Mas houve outros que não esse ou o seu conteúdo. Por exemplo, os títulos. Com a excepção do livro de D. Francisco Manuel de Melo, que belos títulos têm. No romance de Arundhati Roy, para além do belíssimo título, a fotografia da autora, ainda mais bela que o título do livro, não deixou de ter o seu peso no esportular dos dois euros. No improvável livro que reúne a epistolografia familiar de Francisco Manuel de Melo, o que me terá cativado? Não o título, claro, mas esta pequena carta, a 368, carta dirigida a um parente moço que se partia para a guerra, encontrada ao acaso quando desfolhava o livro: "P. I. Ide com Nosso Senhor. Lembrai-vos sempre dele e de quem sois. Falai verdade. Não aprofieis. Perguntai pouco. Jogai menos. Segui os bons. Obedecei aos maiores. Não vos esqueçais de mi. E sede embora Plínio Júnior, que se tudo isto fizerdes, ainda sereis mais. Deus vos leve, defenda e traga. Torre, sábado."

O verbo aprofiar, caído em desuso, pelo menos com esta grafia, e já fora dos dicionários, Houaiss incluído, seria o suficiente. Comprar uma palavra por dois euros é um belo negócio.

06/08/09

O Averomundo a banhos


A culpa é dela, da minha neta Vera. Até vou à praia e há já quase duas semanas. De manhã cedo, levantamo-nos e por volta das nove hora lá vai tudo para a praia, com balde e todos os acessórios para a Verinha mexer na areia e na água. Estou reconciliado com a praia, desde que não se passe das onze horas e não se abuse do sol. Portanto, durante Agosto o averomundo é um blogue veraneante. Como o país, ele está a banhos e a bolas de Berlim, fresquinhas. A Vera terá mais atenção do que as postagens.

03/07/09

Grandes Armazens do Chiado

O fascínio do passado reside na sua imperfectibilidade. Eu sei que as nossas representações desse passado são perfectíveis, mas o passado em si é absolutamente perfeito e como tal imposível de aperfeiçoar. Quando nos deparamos com algo vindo do passado, a primeira coisa que damos conta é da sua absoluta superioridade relativamente ao presente. Nisto não há nostalgia, mas apenas a constatação de um facto. O presente não passa de um híbrido entre o que está concluído e o que está em aberto. O passado, pelo contrário, é um animal de raça pura, de pedigree assegurado, nele não há possibilidades em aberto, tudo está fechado, concluído, feito, perfeito. Por exemplo, estas imagens que recolhi no Beautiful Century (um blogue a visitar regularmente) são a prova do que está dito. Comecemos então a digressão pelos Grandes Armazéns do Chiado, no ano da graça de 1910. Esta primeira imagem diz respeito à back cover do winter catalog, como escreve a autora do blogue. Em 1910, os Grandes Armazéns do Chiado eram um império distribuído pelo país fora. Aveiro, Braga, Faro, Coimbra, Evora (sem acento), Portalegre, Covilhã, Lisboa, Porto, Setubal (sem acento), Vizeu (assim mesmo), Funchal, Caldas, Beja, S. Miguel. Tenho a ideia de ver antigas fotografias de Torres Novas com uma agência dos Grandes Armazéns do Chiado, na praça 5 de Outubro. Como se vê, a proliferação dos hipermercados não é uma invenção do eng.º Belmiro de Azevedo. Já no tempo da Monarquia isso acontecia. Uma viagem atenta pelos desenhos não deixa de ser particularmente interessante. Toda uma lição de sociologia pátria está ali inscrita. Atente-se apenas nas figuras humanas das imagens referentes a Lisboa e à Covilhã. O que me fascina, porém, é a ortografia. Falo menos na acentuação, muito diferente da nossa, mas da grafia de certas palavras. Por exemplo, paiz em vez de país, ou succursaes em vez de sucursais. Que distância e que distinção.

Já imaginou a inexistência do pronto-a-vestir? Talvez. Concebeu um mundo de alfaiates, modistas e costureirinhas a receber nos seus ateliês particulares os clientes. Sim, isso é verdade, ainda me lembro bem desse mundo ser praticamente dominante, mas em 1910 a vida material era já muito mais complexa. Veja-se esta página, a 33 do catálogo dos Grandes Armazéns do Chiado. Ensina a tirar medidas, para depois se efectuarem encomendas de roupa. A elegância era assinalável. O que se podia encomendar? As senhoras, capas e confecções, vestidos, calçado, chapéus e luvas; os homens, camisas, casacos, collarinhos e colletes (o duplo "l" como sintoma de civilização), calça (no singular) e essa inesquecível peça de lingerie masculina que dá pelo nome de ceroulas, cujas medidas são as das calças. Também há fatos para os meninos e vestidos para as meninas. Mas o supremo encanto da página é os plissés (mais tarde falava-se em plissados). Dois tipos de plissés, os Soleil e os accordeon (os primeiros com letra maiúscula e os segundos com minúscula), ou deitado. São executados nos ateliês da casa. Também há recortagem (mas aqui falta-me a cultura para perceber se diz respeito aos plissés ou não) à machina, o que é bem diferente de recortagem à máquina, coisa mais ligado à metalurgia e à metalomecânica.


A página 32 do catálogo de inverno de 1910, um catálogo imaginado em plena Monarquia, e que entrou em vigor no início da República, traz-nos os edredons. Quase todos de setim liberty e com enchimento duvet francez. Quantos enigmas aqui? Hoje escrevemos cetim. A palavra chegou até nós vinda de França, onde se diz satin, e tem a sua origem no árabe zaituni referente à cidade chinesa Zaitun, onde o tecido era fabricado. E no simples setim temos uma prática ancestral de globalização que nos faz sonhar com desertos e rotas da seda, camelos e oásis, estreitas sendas e longos poentes. Nada mais evidente, porém, do que a adjectivação do setim, liberty. Que propriedade que não a liberdade poderá vir ao espírito quando se pensa em setim ou mesmo em cetim? Um setim liberty com enchimento francez duvet. Duvet? Claro, duvet a palavra francesa para penugem, para o conjunto de penas que enchem o edredon. Uma coisa é ter um edredon de penas e outra, totalmente diferente, é possuir um edredon duvet, ainda por cima com setim liberty. Repare-se como a vida material é tão pouco material, como ela depende do espírito. Talvez não exista coisa mais espiritual do que a vida material. Mas não deixemos passar em claro um pormenor significativo: o enchimento duvet, que já não é um enchimento qualquer, é feito segundo os preceitos da hygiene. Não é apenas a nobreza do "y" que nos cativa e que indica o caminho de degradação popular que vai da era da hygiene aos nossos rudes tempos da higiene. Há ali toda uma dedução de carácter kantiano, que pressupõe o imperativo categórico do respeito pela pessoa enquanto fim em si mesmo, para chegar aos preceitos que defendem essa pessoa através da hygiene do enchimento francez duvet. Que tempos!

Como já foi dito, nada há mais espiritual do que a vida material, e esta não é nada se não tiver em conta aquilo que nos alimenta. Por exemplo, lentilhas, ervilhas, favas e grão não levantam o problema da diferença ontológica. São o que são e não têm qualificativo. Diríamos que são transversais. Já o feijão é diferente. Há o feijão suisso (assim mesmo), o frageolet, o soisson e o cabreiro, e por mais caro que seja o cabreiro, alguém de boas famílias o pedirá? Pelo contrário, um feijão frageolet ou soisson é digno de ser encomendado pelas melhores famílias da pátria. Novidade ou quase deveria ser o vinho engarrafado. O Carcavellos, branco (150 réis) ou tinto (120 réis), era vendido em garrafões ou barris de 5 litros. Uma elegante garrafa enrolhada e capsulada automaticamente do Carcavellos brancos custava 100 réis. A manteiga era vendida em lata, manteiga do Dão ou manteiga da Praia d'Ancora. O café Princeza era vendido em lindas latas axaroadas (não sabe o que é? nós também não). A página 31 do catálogo de inverno dos Grandes Armazéns do Chiado é uma introdução, delicada mas informativa, à dieta das classes médias no início da República ou no fim da Monarquia, conforme preferir.


Como vê, caro leitor, o passado é absoltamente imperfectível, pois ele é belo e perfeito. E é de tal maneira perfeito que basta umas quantas páginas de um catálogo comercial para deixar manifesta a sua inexcedível beleza. O que nos dá a esperança de, quando formos definitivamente passado, a beleza nos tocar.

18/06/09

Da arte de cumprimentar

Depois de o Zé Ricardo ter escrito isto e isto, espero não lhe retirar matéria para nova incursão na sociologia das relações interpessoais, digamos assim. Um tormentoso problema atravessa certas áreas da sociedade portuguesa. Como cumprimentar, com um ou dois beijos? Consta que a tradição dos dois beijos é de influência francófona, que se teria disseminado nas aristocracias ibéricas. O problema dos dois beijos reside na sua popularização e, hoje em dia, não há cão nem gato que não use dois beijos para saudar alguém do sexo oposto. As famílias aristocráticas, refugiadas em Inglaterra durante as guerras liberais, trouxeram para cá a forma de cumprimentar seca e rápida dos círculos aristocráticos ingleses onde se moviam, um beijo. É este cumprimento que agora começa, também ele, a democratizar-se. Contrariamente ao que pensa uma certa casta social que julga diferenciar-se do poviléu pelo facto de se saudar apenas com um beijo em vez da popularizada e democrática saudação com dois, a sua forma de cumprimento está irremediavelmente contaminada pela mimésis popular. Há muito que o beijo único na face deixou de fazer parte de círculos restritos e caiu nas mãos, quero dizer nas faces, dos que gostam de macaquear as famílias bem. Daqui até ao uso generalizado é um passo.

Seja como for, a decisão por um beijo ou dois não deixa de ser uma decisão complexa numa situação tão rápida e evanescente quanto aquelas que ocorrem na grande-área e exigem o juízo instantâneo e preclaro do árbitro. Esta complexidade é atestada por quem menos se espera. Não deveria o embaixador do reino de Sua Majestade, a Rainha Isabel II, saber qual o cumprimento a usar em cada momento? Se acha que sim, então está enganado e deve ler este post, do embaixador britânico, Alex Ellis, no seu blogue Brandos Costumes. Se nem um embaixador britânico se sabe orientar em tão espinhoso e melindroso, quão importante, assunto, o que se poderá dizer dos pobres plebeus que vivem naquela fronteira entre o popular "dois beijos" e o em vias de popularização "um beijo"?

No mundo profissional, julgo que se está a expandir, mesmo entre mulheres, um cumprimento mais adequado: o aperto de mão. Desde que seja uma aperto de mão formal, seco, nem demasido mole nem demasido rígido, nem exessivamente rápido nem excessivamente longo, julgo que a alternativa é adequada, pelo menos não é tão má quanto as pessoas andarem a trocar beijos, seja um ou dois, nos locais de trabalho. Aliás o único local de trabalho onde se pode trocar beijos é na escola pública portuguesa, mas são beijos na boca até os participantes, vulgo alunos, perderem a respiração. Mas, como se sabe, a escola em Portugal não deve ser entendida como um local de trabalho, mas um parque de diversões e uma estância de férias prolongadas para muitos dos alunos.

Esta história de nos saudarmos com contacto corporal é coisa que acho dispensável. Por que razão as faces das mulheres que eu encontro têm de levar com a minha de raspão? Por que motivo temos de andar a apertar as mãos uns aos outros, alguém é capaz de dizer? Nada melhor do que usar uma pequena vénia. O homem passa por uma mulher, inclina levemente a cabeça, ela semicerra os olhos, eventualmente esboça um leve sorriso, e cada um vai à sua vida. Entre pessoas do mesmo sexo, bastava um pequeno cumprimento oral, quero dizer um bom-dia ou boa-tarde, um olá, um viva, um como está?, um bem obrigado, etc. Depois, do ponto de vista erótico, nada pior que os cumprimentos que utilizam beijos. Numa vénia ligeira e distante pode desenhar-se todo o espaço do jogo amoroso, que, como se sabe, precisa de espaço e de distância para que, como todos os jogo, se possa desenrolar. Portanto, nem um beijo, nem dois, nem aperto de mão. Uma vénia ligeira e discreta. Para todos? Seria o ideal, mas poderiam começar os sectores mais diferenciados da sociedade. Enquanto o povo se empanturra de beijos, as classes com mais capital simbólico, chamemos-lhe assim, começavam a usar a vénia com esperança de que o seu exemplo civilizasse a turba e tudo se tornasse um pouco mais discreto ou menos boçal.

12/06/09

Reaccionário tecnológico

Sou um reaccionário tecnológico. Não pelo facto de o aparelho de televisão que possuo ser já de outra era, mas pelo simples motivo de apenas possuir quatro canais de televisão. Ainda não aderi, pelo menos na actual encarnação, ao cabo ou ao satélite. Resta-me a escolha entre os canais de sinal aberto, que, para dizer a verdade, mais valiam que também fossem em sinal fechado.

Raramente vejo TV, mas cada vez que me sento e faço um zapping miserável pelos quatro canais, só me dá vontade de fechar o aparelho e nunca mais o abrir. O canal dois, talvez por falta de sorte a minha, sempre que passo por lá há-de estar um leão a comer uma gazela, um jacaré a tomar a refeição, um leopardo com a boca suja de sangue. Não é que eu tenha alguma coisa contra. Se eles têm fome, terão de comer, mas cansa ver tantos programas de gastronomia. Deve haver por lá outras coisas, mas nunca as apanho.

Os outros três canais generalistas parecem-me um poço de boçalidades. Tenho a difusa impressão de que, de manhã à noite, cada canal só transmite um programa. Acho que nas programações lhe dão títulos diversos, e é possível que pessoas diferentes, ou aparentemente diferentes, apresentem o programa em diversas horas do dia, mas não juro. Por exemplo, não consigo diferenciar uma telenovela de um programa da manhã para a terceira idade, ou de um jogo de futebol, de um concurso ou mesmo de um telejornal. Tenho feito até algumas experiências curiosas. Tento surpreender as televisões em diversas horas do dia, para provar a mim mesmo que não tenho razão. Mas não consigo. Seja a que horas for estão sempre a dar o mesmo programa.

O curioso desta coisa do zapping é que, no outro dia, até pensei que o comando estava sem pilha ou tinha entregue a alma ao criador. Eu carregava nos botões dos canais e era sempre a mesma coisa que aparecia. As caras não eram exactamente iguais, mas os programas sim. Descobri então que os três canais generalistas em Portugal transmitem todos a mesma coisa durante as 24 horas de cada dia, se é que um dia televisivo tem 24 horas.

Por isso estou cada vez mais um reaccionário tecnológico. Cada vez que me falam em aderir ao cabo ou ao satélite, eu só penso o que seria ter dezenas de canais à disposição para ver só um programa durante todos os dias da vida. E não adiro. Compro um livro ou filme com o dinheiro da televisão e entrego-me a minha reaccionarice tecnológica, mostrando bem que não pertenço à elite moderna do engenheiro Sócrates, Deo gratia.

21/05/09

Bodhisattva in metro

Morte e falecimento


Confirmei, mais uma vez e a propósito de João Bénard da Costa, que em Portugal ninguém morre. No nosso país, falece-se bastante, mas nunca se morre verdadeiramente. Confesso, como se estivesse num confessionário, que cometo um pecado social grave, quem sabe se mortal, pois nunca utilizo as palavras falecer, falecimento, etc. Tenho uma dificuldade intrínseca com elas. Para mim o meu pai não faleceu. Morreu de morte pura e dura. Custa? Custa, mas é assim.

Interrogo-me sobre tanto falecimento e nenhuma morte. E descubro, também aí, mais uma vez aquele característico traço de ser português: enganar a realidade. Quando as pessoas dizem faleceu ou falecimento fazem-no para tornar menos irremediável o irremediável da morte. É como se dissessem: bem faleceu, coitado, mas ainda bem, não está morto, apenas falecido. É aqui que descubro o meu pecado mortal social. As pessoas fazem isto por uma questão de educação. Eu, nem por educação, consigo utilizar o faleceu.

Se eu digo morreu ou morte, digo a realidade do acontecimento. É definitivo, nas palavras morte e morrer nada mais se pensa do que no fim da vida. Mas não será isso que acontece também no falecer? Não! Falecer provém do verbo latino fallescere, que significa faltar. Faltar é já uma boa metáfora para o morrer. Afinal fulano não morreu, apenas faltou ao encontro. Mas no verbo latino fallescere pensa-se ainda outra coisa. Pensa-se o enganar, o induzir em erro, etc. Daí o termo latino fallacia (engano, ardil, etc). Os portugueses, ao substituir o verbo morrer pelo falecer, não estã apenas a dizer que o morto, i. é, o falecido, as enganou, mas que elas próprias estão a ver se enganam a morte, lhe diminuem o seu carácter definitivo, aligeiram as consequências, como se fosse possível instaurar um pacto com a rainha das trevas, para que tivesse, também ela, brandos costumes e os seus éditos fossem como as nossas leis: são para cumprir, mas logo se vê. Não consta, porém, que o coração da velha megera, por mais falecer, falecido e falecimento que os portugueses usem, tenha tido qualquer estremecimento de piedade.