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13/12/08

Robert Ambrose Conducts Tristan Murail (part 1)

Por estranho que possa parecer, eu gosto da música do compositor francês Tristan Murail. Mas isso não é sinal de qualquer elevação espiritual, ou de uma extraordinária predisposição intelectual, ou mesmo de um refinamento do gosto. É antes sintoma da minha desagregação mental, da dilaceração do pensamento, da guerra civil que me percorre o cérebro e lança neurónios contra neurónios, hemisfério contra hemisfério. Começo assim por ouvir a anunciação do anjo da guerra e os exércitos entram em acção. A terra arde e todas as sensações que nascem em mim são estilhaços de vidro e fragmentos de granadas. Ao longe, oiço trovões. Como o mundo, tudo em mim se cinde. Tento sintonizar o ouvido na música e uma volúpia de cinza e fogo arrasta-me para fora do silêncio da noite. A madrugada ainda não é um risco no horizonte, apenas dois sóis se chocam no interior da galáxia, talvez o meu cérebro, dirão.

29/09/08

Da essência da leitura [à maneira de Borges e para a m/amiga Gláucia Campregher]

Em novo lera muitos livros, mas chegado aos trinta anos descobrira que tanta informação pouco ou nada o fizera aprender. Decidiu, então, ler um só livro o resto da vida, mas lê-lo continuamente até descobrir o segredo que lá se ocultaria. Hesitou. Talvez a Bíblia devesse ser o livro escolhido, ou o D. Quixote, porventura a República. Por fim, elegeu a Ilíada. Ao fim de dez anos, sentiu que ainda assim havia excesso de palavras e o progresso na aprendizagem era pouco. Decidiu que apenas leria, mas leria total e completamente, o chamado catálogo das naus. E assim fez durante outros dez anos. No dia do quinquagésimo aniversário a razão segredou-lhe que o melhor seria apenas ler um e só um verso. Aí não teve dúvidas. Escolheu o primeiro da Ilíada, pois nele está já contido todo o poema. Dia após dia, mês após mês, ano após ano, lia ininterruptamente: «Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida». Quando fez oitenta anos, já há vinte, de manhã à noite, que apenas lia uma palavra: «cólera». A morte surpreendeu-o pela tarde luminosa de um dia de Junho. A face mantinha o sorriso de quem aprendera a suavizar o coração. A boca, porém, diz quem o viu, continuava a dizer pausadamente có-le-ra, có-le-ra, có-le-ra…

22/07/08

Perante o espelho

R. Magritte - The Art of Living


Estou sentado, num quarto de hotel, diante de um espelho. Escrevo enquanto me olho. Os cabelos que ainda restam estão já bastante brancos, a barba também. Não é um exercício de narcisismo. Como seria possível? Nem, tão pouco, de nostalgia, embora ainda há tão pouco fosse incapaz de pensar-me assim. O efeito do espelho perturba-me. Nunca escrevi diante de espelhos e aquilo que vejo são os despojos da vida. Iludimo-nos, quando somos novos, pensando que o corpo é um princípio de afirmação, mas agora o espelho revela a verdade, o corpo é o que fica daquilo que foi consumido. Da vida apenas se tem direito a ver o que resta. Oiço o concerto em C minor, BWV 1060, de Bach, num estranho arranjo, e é isso que me permite escrever perante a imagem que o maldito objecto insiste em devolver-me. Fecho os olhos e a música continua, arrasta-me. Sigo-a e esqueço-me, perdido na exactidão matemática que se desprende do que oiço. De facto, é verdade que Deus muito deve a Bach.

05/06/08

Avenida ao crepúsculo

Vestiu um casaco e abriu as vidraças; assim o crepúsculo entraria, pensou. Sentou-se a observar o céu, as pessoas a passar, os carros na azáfama com que chamavam a noite. Perscrutava a avenida sempre que o dia declinava, ficava ali a olhar as janelas a iluminarem-se, as árvores a escurecer, o alcatrão a ceder ao peso do dia. De súbito, sentiu a cabeça pender e fechou os olhos. Quanto tempo esteve a dormir nunca o saberá. Acordou quando o velho gato cinzento lhe saltou para o colo. Olhou então o céu e era o mesmo de há pouco, as nuvens brancas mal se tinham deslocado. Os olhos vacilaram ao procurar os grandes plátanos. Estavam lá, mas eram ainda árvores jovens, de tronco delgado. O coração descompassou-se ao pressentir que não havia carros. As casas tinham luzes tão débeis que lembravam velas acesas na noite. Ao olhar para baixo viu uma multidão a caminhar. Longos sobretudos negros cobriam homens de cartola. Mulheres de fato até aos pés, chapéu na cabeça, um véu, por vezes, a dissimular o rosto. Iam apressados e em silêncio. Quando procurou os candeeiros públicos, viu apenas uns pobres lampiões a baloiçar ao vento. Gritou ao sentir o gato a saltar da janela e cair entre aquela estranha multidão. Era agora uma massa ensanguentada sob as rodas dos carros que passavam para se abrigarem do desespero da noite.

04/06/08

Um véu de luz

Um eléctrico azul passa na correnteza da rua, o ferro guincha nos carris, uma luz branca ilumina o interior vazio. No jardim contíguo, há árvores de tronco castanho e bancos de ferro forjado. Gostaria de saber por que ninguém se senta neles a descansar ou a namorar ao crepúsculo. O chão é imaculado. Das flores que por ali crescem não falo, só de pensar nelas já o pulso treme e a mão desfalece. Quando o eléctrico se some na embocadura da outra rua, a noite torna-se mais densa. Esfrego a cara no momento em que um arrulhar tonitruante me fere os ouvidos. Num banco, dois pombos maiores do que um homem sentam-se calmamente e, enquanto falam como se arrulhassem, poisam os olhos fixos nas flores de um canteiro. Não falarei delas. Escondido, observo-os: espiam assombrados, arrulham, crescem mais e mais, já mal cabem no banco. Na hora em que o som se tornou insuportável, levantaram voo, um atrás do outro. Ao dissipar-se a brisa trazida pelo bater daquelas asas, a manhã tinha depositado sobre um coração tremente, o meu, um véu de luz.

03/06/08

A noite mais escura

As montanhas morriam num lago azul. Aqui e ali, pequenos bosques ocultavam um mundo sombrio de onde vinha um cântico primaveril, talvez dos pássaros trazidos pela aurora ou das mulheres que colhiam para cestas de verga pequenas bagas cor de cinza. Algumas casas abriam-se sobre a pequena enseada, mas no cais não havia barcos. Só, um homem olhava, de cana de pesca esquecida entre mãos, o horizonte. Não tinha cor, não sei mesmo se tinha roupa, pois tudo nele se fundia numa sensação de ausência. Passaram horas, o canto extinguiu-se, o sol declinou. As árvores eram apenas uma deformação na paisagem, de onde todas as cores se iam retirando. No cais continuava esquecido o pescador, a cana na mão, o olhar no poente. Quando se ouviu um barulho de pedra a cair nas águas, o crepúsculo entrou pelos olhos extasiados do pescador. Foi a noite mais escura de que há memória.

02/06/08

A luz do meio-dia

Um muro enorme e batido pelo sol, as cores incertas salitradas pelos dias, buganvílias já floridas a espreitar pelo cimo. Ao longe, vê-se a torre da igreja, o cata-vento, em corrupio a chiar, lamenta-se do ar fresco que sopra de leste. No chão saibroso há pedras soltas e pequenos buracos. Talvez existam casas do outro lado da rua, mas não as avisto daqui. Um vulto arrasta atrás de si a sombra. A mulher caminha muito devagar, leva uma cesta de verga numa mão; a outra prende a bengala com que se apoia ao andar. Pisa uma fresta de ervas ainda verdes e vai como se temesse um inimigo invisível. A cada passo a sombra torna-se mais densa e escura. A rapariga olha para trás, mas a sombra girou com ela e tornou a esconder-se nas suas costas; é agora um desenho esculpido no muro. Sente-se uma respiração entrecortada, talvez um soluço. Quando ela ergue a bengala, a sombra funde-se no seu corpo e a luz do meio-dia suspende-se naquela rua sem ninguém. Na torre, o sino faz soar as doze badaladas.

01/06/08

Conversas

Prepara-se para partir a primavera. Da rua chega uma luz calorosa e branca que ilumina as flores sobre a bancada. Sentados, extáticos, dois vultos batidos pela violência dos raios solares conversam. Uma conversa sussurrada, quebrada por longos silêncios, onde os olhares ficam presos às pequenas coisas de todos os dias. Pela a mesa, um jarro de água e um copo vazio. Às vezes, a mais nova olha para o chão e cicia ‘se ao menos pudesse sair desta cadeira, desta casa, desta rua…’, e deixa frase inacabada como se a esperança pudesse entrar por ali. A outra não responde, fixa o olhar nas cortinas que cobrem o sol e cede ao peso de uma ruga funda que lhe cavalga a testa. Ofegante, alisa com rispidez o negro do vestido, depois inclina a cabeça, olha as mãos e ali fica debruçada sobre o buraco vazio onde outrora habitou um coração.

30/05/08

Viagem

Um punhado de árvores frondosas desenha, sob um céu maculado de branco, um pequeno bosque. Serão velhos carvalhos? A luz da tarde e os olhos cansados, talvez o exíguo conhecimento de botânica, impedem-me a certeza ao afirmá-lo. A escassos metros da orla, corre, adormecido e secreto, um rio de águas claras, espelho onde as árvores se desejam ao entardecer. Um barqueiro aproxima-se no seu barco, rema devagar e o pequeno batel desliza pelo vidro translúcido, enquanto os remos descem e sobem numa cadência quase musical. Uma minúscula enseada serve de porto onde a embarcação se abriga, por instantes. Do fundo, levanta-se uma mulher. Está desgrenhada e nua. Salta para a margem com dificuldade, quase se desequilibra. Não fala nem acena, apenas caminha incerta, o corpo gasto, os seios velhos, as rugas negras. Entra no bosque e o barqueiro faz-se à viagem. O crepúsculo cresce a anunciar a noite, enquanto ela desaparece na névoa das árvores. Um relâmpago nasce no seio do bosque e ao longe ouve-se o crocitar dos corvos.

29/05/08

As palavras que correm

Um carro amarelo atravessa de súbito a praça, fende a luz branca que envolve o chão e ilumina quem, com tanta pressa, vai; pára com um rugir de travões. Os prédios são uma amálgama de cores e vidros, um jogo de sombras, anúncios que à noite iluminarão o abandono que de tudo tomará conta. No passeio, duas mulheres conversam, ciciam como se partilhassem um segredo, um mistério que aos transeuntes fosse vedado. As palavras correm melífluas e, na seda com que se vestem, cobrem de trevas tudo em redor. Dentro do carro, um homem especado olha atónito para as mulheres que falam. Quem passa recolhe-se na escuridão que sai daquelas bocas e, numa janela, um gato espreguiça-se antes de desaparecer. Quando os faróis do carro se acendem, vê-se um enorme deserto de pedra e cal, uma estátua a um herói da grande guerra e um ramo de flores secas esquecido num banco verde de madeira. O silêncio era um enorme pássaro branco poisado no chão escuro da praça vazia.

28/05/08

Um rasto

Chove!, exclamou ele três vezes e sentou-se na cadeira giratória. A janela aberta deixava entrar a noite pelo escritório, uma noite húmida, de carros lentos a tracejar de luz a negrura que caía vinda não se sabe bem de onde. Pegou no balão de conhaque e ficou a olhar o líquido a tremeluzir, enquanto oscilava movido pela cadência lenta da mão. Ali havia um mistério, um sentido por explicar. Levou o copo à boca e sorveu devagar o conteúdo. Sentiu um leve ardor, mas logo o sabor se metamorfoseou. Era agora uma madeira leve e suave que flutuava na convulsão do palato. Por fim, pousou a bebida e olhou a noite que continuava a entrar pela janela. Sentiu um formigueiro pelo corpo, depois viu a pele escurecer sem cessar até se confundir com a noite. Quando a aurora chegou não havia, no escritório, um rasto da sua presença. Num balão frio cintilava, à luz dos primeiros raios, um resto dourado de conhaque.

27/05/08

A teia sombria

Já não pega no tricô como dantes, apenas se senta no enorme terraço e alisa as escamas do gato que salta para o seu colo, mal a vê de olhos semicerrados na cadeira de verga. Às vezes boceja, abre a boca, mas a mão logo a tapa, como se o gesto fosse o resultado de um longo condicionamento herdado daqueles que vieram antes dela; da sua estirpe, ouvia-a, por acaso, dizer. Se o vento desce da serra um pouco mais frio, põe um xaile pelas costas e esfrega os braços com um vigor inusitado. Não lê, apenas olha em frente, procura na paisagem um sinal, o breve sintoma de uma doença, o símbolo do porvir. Olha, olha todas as tardes, olha na sonolência que o dia traz. Depois levanta-se, dá um pequeno passeio, espreita com desalento a rua e recolhe-se na teia sombria a que chamamos casa.

26/05/08

Uma sombra caminha

Vem um vulto na bordadura da estrada, pisa as ervas floridas pela primavera, avança como se tivesse um destino, um fim último a mover-lhe o coração. Os carros que passam ocultam-me, por vezes, o fulgor daquele que anda, mas logo a imagem retoma a existência e prossegue em movimento certo a caminhada que a traz aos meus olhos. É uma estátua nítida batida pelo sol, uma figura de cera animada pela expectativa de uma meta que lhe dê o perpétuo descanso. E ali vai ele, passo a passo, indiferente aos cães que uivam, à chuva que cai, ao ardor do sol, se o Verão chega. Vem, passa ao longe e eu viro-me para o ver desaparecer. É agora uma sombra e caminha e caminha e caminha, como se a estrada não tivesse fim e a sombra não mais desaguasse nas trevas da noite.

25/05/08

Um sono colonial

Vibram as folhas das palmeiras como se vivêssemos num mundo colonial, mas faltam as águas do oceano e o calor que animava as gentes quando, nesses antigos ultramares, desciam as extensas alamedas a caminho do mar. Aí a vida parecia ter uma cor que só os grandes leitores de romances imaginariam. Tudo é mais baço nesta hora e neste lugar. As avenidas são sintomas de uma vida magoada, restos de feridas cobertas de pústulas. Um aroma amargo desprende-se das casas pelas janelas quebradas, por onde se avistam as flores; o tempo as secou. Quando me sento e olho, de olhos cerrados, as ruas, vejo as bandeiras arvoradas nos barcos que passam suspensos pela indiferença dos mastros. Nas velas, pressinto o azul fremente das águas batidas pelo sol e adormeço no império marítimo da minha solidão.

24/05/08

Um risco de penumbra

Um risco de penumbra desenha a noite sobre a copa verdescura das árvores. Trilhos de luz soltam-se dos faróis em desvario. Por vezes, passam casais de namorados e olham o horizonte à procura de uma lua que abençoe o destino, as mãos dadas o encerram. Sentado diante da janela, ouço o canto das coisas que acontecem e deixo-me acontecer com elas. Voo com os pássaros, ronco com os motores, tremo se as árvores tremem, enamoro-me se avisto o jogo de cupido, endureço se olho as pedras brancas do calcário dos passeios. Ainda não chegaram as estrelas; aspiro a tarde que se vai e entardeço com ela.

23/05/08

Uma folha cansada

São focas em combate as nuvens que vejo pelos céus, correm, voam, estilhaçam-se sob o império do vento. Pássaros inquietos voam na largura do horizonte, procuram os telhados onde fizeram ninho, aves citadinas habituadas ao rumor dos carros e ao fumo do escape. Temem o silêncio dos campos, o pó da terra, o excesso de erva pelo chão. Focas e pássaros lutam, agora, pelo domínio dos ares, enquanto o sol declina e as gentes se perdem nas ruas a caminho da tristeza da noite. Num pequeno quintal, a cerejeira estende os ramos, dedos abertos ao que neles poisam. De súbito, há um pequeno tremor. Um pássaro que poisa? Uma cereja que cai? Não, é apenas uma folha cansada que no chão adormece.

22/05/08

A zoada que cresce

Um zumbido infecta a tarde, cresce a zoar nos ouvidos, toma conta de casas e pessoas. Se o silêncio viesse cobrir de paz estas horas, tudo se tornaria mais fácil. Alguém vai ao terraço e rega as flores, cobre cada um dos vasos com uma fina película de água e depois recolhe-se, como se toda a vida ganhasse sentido nesse acto de se acoitar na inviolabilidade do casulo. Sentado noutro terraço, um homem olha o horizonte. Conta os carros que passam e boceja, depois retoma a contagem e torna a bocejar. O zumbido cresce enquanto ele conta, cresce impávido e indiferente às contagens humanas. É um zumbido de carvão, lasso, o rufar de uma nódoa na claridade que se ergue da terra. O contador desapareceu, não há carros na linha do horizonte, resta apenas a zoada infinita a crescer dentro de mim.

21/05/08

O tempo que desaba

Oiço bater ao longe um relógio. De quem será? A vida vai e vem ao som do momento que passa. Agora é um piano que fala como uma sombra vinda da noite, e repete uma e outra e outra vez os eternos exercícios de quem ainda não sabe da derrota; o tempo a trará. Tapo os ouvidos e fecho os olhos. O mundo desaba em mim, é um rio de águas turvas que caminha impetuoso para o mar. Restos de troncos bóiam e os peixes, se os há, escondem-se no torvelinho da música que assim ganha vida e parece uma corrente que na tarde desagua. Se dormito, oiço ainda a voz do tempo que corre ao ritmo do movimento que do piano cai.

20/05/08

Vagarosas silhuetas

Há um sol baço a correr entre nuvens, um rasto de luz que se quebra nos fios de água; do céu caem. Aqui e ali, manchas azuis, um sobejo de primavera, a nespereira carregada de frutos, as rosas desfolhadas pela chuva. As casas são agora vultos cansados, dobrados à garra afiada do tempo, casas sonolentas, pardas de esquecimento. Das janelas entreabertas assomam vagarosas silhuetas, olham aquilo que passa, olham da sua eternidade e abanam levemente a cabeça. Assim julgam, naquela sabedoria infinita que o cansaço traz, o bulício que corre sob a inclemência do tempo. Depois recolhem-se no vácuo negro onde habitam. No horizonte, há um vazio inominável e feroz. Alguém grita. E eu oiço, aqui tão perto, um eco mudo vindo sabe-se lá de onde. A tarde desvanece-se na vagarosa silhueta que em mim de súbito se recolhe.

19/05/08

A rememoração do viandante

Começam a emudecer as ruas como se o silêncio viesse envolto pelo véu da noite. Ao longe, vejo ainda a mancha branca de povoados dispersos, restos de um tempo onde os homens viviam presos à terra. Agora que todos se libertaram, fica ali aquele casario como um sinal propiciatória, um lugar para a rememoração que o viandante sempre faz. As ruas, porém, estão juncadas pelo verde que a incerta primavera trouxe sobre as árvores, mas já não se chamam ruas às ruas onde vivo. Tudo agora são avenidas e nelas há gente e néons e uma pressa infinita. Por vezes, oiço o buzinar de um automóvel e penso no sino da minha aldeia, naqueles tempos em que quase não havia carros e as trindades anunciavam o silêncio da noite. Assim embalado, deixo vogar os olhos sobre a linha do horizonte para os poisar nos pássaros negros que em círculos imaginam na cidade a vida dos montes.