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21/02/10

The Astounding Eyes of Rita


Se dissesse que tinha comprado este CD devido ao título, mentiria. A música de Anouar Brahem é uma das que gosto há bastante tempo. A verdade, porém, é que aquela capa e aquele título, mesmo que não conhecesse o músico e o seu percurso, levar-me-iam a ouvir o disco, movido talvez pelo adjectivo astounding, por aquilo que se pensa nele, e pela conexão estabelecida entre o cenário da capa e esse adjectivo.

Olho para a fotografia e vejo a melancolia íntima de uma mulher. Ela olha para fora de si mas é um olhar que fica preso ao interior do compartimento onde se encontra. O mundo da vida, o mundo público onde se desenrola a existência prática, sofreu uma epochê, isto é, foi posto entre parêntesis, foi suspenso. Aquela mulher, só com muita relutância lhe chamaria Rita, está fechada no segredo do seu espírito e é de lá que ela olha.

Como do olhar desta mulher se chega aos olhos astounding de Rita? O que pensamos nós no adjectivo astounding? Pensamos múltiplas coisas. Por exemplo, o estar aturdida, o estar abismada, o estar aterrada, o estar espantada, mas ainda a natureza fantástica, no sentido de excepcional, desse olhar. Os olhos fantásticos de Rita revelam o seu estado de excepção, mas este provém do aturdimento, do terror, do abismo, de tudo isso que provoca espanto.

É aqui que se cruzam os olhos de Rita e aquela mulher que povoa o cenário que encapa o CD. Os olhos fantásticos de Rita são-no, de forma adjectiva, porque o seu olhar provém do espírito, e este é abismo e fonte de aturdimento e de terror. Mais poderoso que o mundo exterior, o espírito é causa de espanto. Os olhos de Rita são astounding, mas o espírito que os move é, verdadeiramente e simultaneamente, substantivo e verbo, é efectivamente astound, se o verbo, to astound, pudesse ser substantivado. A melancolia que vemos no olhar da mulher da foto é o indício da distância que vai do adjectivo ao verbo/substantivo, que vai do olhar ao espírito. A melancolia é sempre o sintoma de uma cisão, de uma separação. Entre os fantásticos olhos de Rita e o abismo que é o espírito há uma distância irreparável.

Será que a música, o universal sem conceito, no dizer de Nietzsche, dirá melhor tudo isto que a palavra fundada em conceitos universais? O melhor será mesmo ouvir.


07/02/10

Instabilidade ortográfica


Tenho estado a ler textos na ortografia do português do século XIX. Mesmo nos romances de Eça de Queirós, ainda tão próximos de nós pelo Portugal que desenham, há uma ortografia que, aos olhos da actual, parece fantasmática. O leitor sente-se fora de casa, apesar da beleza gráfica que descobre nos lexemas. Ao olhar o texto, parece ter sido escrito noutra língua. Se comparo esses textos (ainda que de forma impressionista, pois não sou conhecedor da matéria) com textos franceses do século XIX e mesmo do XVIII, fico com a sensação de que a ortografia francesa é muito mais estável que a nossa. Existem diferenças, mas ao olhar para os textos, sinto-me em casa, aquele foi o francês que aprendi e que leio ainda hoje. Pode ser que seja uma ilusão óptica, mas até na ortografia vivemos em constante instabilidade.

13/06/09

O afastamento das galáxias


Acho que já escrevi aqui, mas não tenho a certeza. Não sei se sou contra ou a favor do novo acordo ortográfico. É uma das coisas que me deixa relativamente indiferente, embora não goste de ler ação em vez de acção e outras coisas do género. Mas os meus devaneios estético-linguísticos não possuem substância suficiente para me ajudar a definir uma opção por um dos lados da barricada.

Tudo isto vem a propósito de um artigo de Cristóvão Tezza, aliás excelente, que encontrei graças ao De Rerum Natura. O autor propõe que, tendo em conta a difícil penetração dos autores portugueses no Brasil e dos brasileiros em Portugal, as obras literárias passassem a ser traduzidas para a variante local do português. É uma ideia particularmente interessante. Mas deixemo-la de lado.

Eu que não tenho uma opinião definida sobre se deve ou não haver um acordo ortográfico, tenho já uma opinião definida sobre o que ele de certa maneira representa. Eu não sei praticamente nada de astronomia e de astrofísica, mas sei que após o Big-Bang e a formação das galáxias, estas não fazem outra coisa senão afastarem-se umas das outras. É aquilo que se passa com as línguas. O acordo ortográfico é uma tentativa desesperada para evitar que as duas galáxias fundamentais da língua portuguesa se continuem a afastar.

Esse afastamento, porém, é inevitável. Uma língua reflecte e condensa as experiências existenciais de um povo. Se essas experiências são tão diferentes, é natural que a língua, que outrora foi comum, se afaste, se torne estranha. A experiência de que fala Cristóvão Tezza é partilhada por mim. Tezza, referindo-se a um livro de David Lodge excelentemente traduzido em português de Portugal, escreve: "Quanto à linguagem, em nenhum momento o leitor se sente em casa, e isso é mortal na prosa literária, que tem na vida cotidiana da língua a sua matéria-prima de origem. Não é só vocabulário, o que seria um problema simples – é sintaxe mesmo, os pronomes todos e seus modos de usar, campos semânticos sutilmente distintos, regências particulares que vão como que armando um novo modo de ver o mundo, tudo que metaforicamente define uma língua."

É esse estar fora de casa que eu sinto quando leio o português do Brasil, mesmo quando estou perante grandes cultores da língua portuguesa. Há sempre a ilusão de que não será difícil ler um livro na variante brasileira do português, pois tudo aquilo é familiar, mas nunca me sinto dentro do meu horizonte de experiência. Aquele português fala-me de uma experiência que não é radicalmente a minha e captura essa experiência numa sintaxe e numa semântica que nunca deixam de me deixar perplexo. Muitas vezes prefiro ler uma tradução espanhola, francesa ou inglesa de um livro, por exemplo, alemão, do que a tradução feita, ainda que muito bem feita, no Brasil.

O meu problema com o acordo ortográfico reside neste ponto mesmo. Será possível evitar que as galáxias se afastem? Duvido que, por mais acordos ortográficos que sejam assinados, no futuro, já relativamente próximo, não existam efectivamente duas línguas bem diferenciadas, o português e o brasileiro. Será isso um bem ou um mal? Não faço ideia, mas também não me ocorre perguntar se o afastamento das galáxias é um bem ou um mal. Acontece e mais nada.

12/06/09

Hieróglifos, símbolos e metáforas



Eis uma coisa da qual só posso discordar. A linguagem simbólica exprime o pensamento sobre o divino. Do divino não têm os homens conhecimento, não há ciência empírica dele, mas podem pensá-lo. Para o pensar precisam de o simbolizar e simbolizar as "experiências" que dele têm. Como Kant ensina, não há conhecimento de Deus ou da imortalidade da alma, apenas pensamento. Mas Kant também ensina que o mesmo se passa com a liberdade. A liberdade não é um dado empírico, não é cognoscível, dela não há ciência possível. Mas isso não significa que, quando usamos a linguagem para simbolizar essa liberdade, estejamos a disfarçar o que quer que seja. Os homens têm agido no pressuposto da liberdade, na crença na liberdade, bem como no pressuposto da existência de Deus e da imortalidade da alma. Uma coisa é idêntica à outra.

Mas há uma coisa em que o Zé Ricardo tem razão: a vacuidade da linguagem. Mas essa vacuidade não deriva de ela ser utilizada para referir "experiências" não empíricas da humanidade, como aquelas que as religiões tratam, ou aquelas que pressupõem que somos livres. A vacuidade da linguagem nasce da sua impotência para dizer a realidade e da degradação contínua que toma conta dela, tornando-a menos própria para dizer o que quer que seja, cativa que fica da banalidade que a usura quotidiana impõe.

É no símbolo religioso e na metáfora poética que a linguagem tem maior pregnância. Ela é obscura, mas essa obscuridade não se confunde com a equivocidade lexical que o uso quotidiano impõe. A obscuridade da linguagem está enraizada na própria obscuridade da existência e da relação do homem com aquilo que o envolve. Quando o símbolo e a metáfora se degradam em catacreses ou metáforas mortas é o momento em que a linguagem já não serve para pensar e está radicalmente banalizada, correspondendo a uma experiência banal do quotidiano.

É aqui que se coloca uma coisa que cada vez me interessa mais. A riqueza do conceito filosófico não está na sua claridade, por muito que tenha sido esse o programa da modernidade encetado por Descarte. A riqueza do conceito filsófico radica na sua origem simbólico-tropológica. Não é o traço claro e distinto que dá que pensar, mas o fundo obscuro, essa contaminação da linguagem filosófica pela sua origem mito-poética que fornece a matéria para o pensar. Pensar é caminhar para dentro das metáforas e dos símbolos, é escavar nessa "ausência de pensamentos".

Mas essa ausência de pensamentos não significa que não haja nada para pensar, pelo contrário. A ausência de pensamentos surge como uma injunção a pensar. Por exemplo, pensar a liberdade. Eu sei que nunca poderei ter uma ciência da liberdade, mas isso não me exime do dever de a pensar. E o termo liberdade, apesar do seu uso banalizado, não deixa de ser símbolo e metáfora, não deixa de ser obscuro e é essa obscuridade que nos dá que pensar. O mesmo se passa com a linguagem simbólica das religiões, apesar do seu uso profundamente degradado e positivado. Nesses símbolos esconde-se uma experiência e um interesse obscuros da humanidade que nos dão que pensar. Só aí há que pensar. O espírito de veneração e mistério dos crentes é apenas o sintoma desse interesse obscuro que habita o homem desde que é homem.

O resto é conhecimento e mero raciocinar, e esses pertencem à ciência. O grande problema da teologia não é o mistério, nem o símbolo, nem a metáfora. O problema da teologia é a razão entendida como entendimento e faculdade puramente lógica fundada na não-contradição. O problema da teologia é a tentação de fazer ciência daquilo que não há ciência, a tentação de não pensar.

01/06/09

Erros meus

O Zé Ricardo mandou-me um e-mail e depois um comentário, que agradeço, por causa de um erro imperdoável. Troquei um percebesse por um percebe-se, no post anterior. Coisa feia. Uma distracção na correcção do texto. Mas eu tenho uma palavra onde a minha propensão para o erro é quase infalível, a palavra "creche". A minha intencionalidade é sempre para escrever cresce. É muito curiosa a origem psicológica do erro. A creche é um infantário, um sítio onde as crianças crescem. A palavra portuguesa, porém, deriva de crèche, vocábulo francês que significa infantário; um galicismo, portanto. Quando oiço ou profiro o vocábulo associo-o sempre ao estar a crescer. Não é que não haja um longínqua razão para isso. O vocábulo francês crèche, antes de significar infantário, significou manjedoura, o que não deixa de estar ligado ao crescimento. No caso de creche o erro é incrementado pela aproximação fonética de creche e de cresce. Errar na ortografia é coisa corrente, mesmo em quem escreve muito e está atento à escrita. Aliás, escrevo sempre com o dicionário aberto (tenho um no computador) e consulto-o sistematicamente. Faço isso há dezenas de anos. Por que razão? Porque a escrever dou erros, surgem-me dúvidas, tenho necessidade de esclarecer o étimo da palavra, etc. Um dicionário é um bom amigo. Prefiro-o ao prontuário ortográfico. Os erros piores são, porém, as distracções que, muitas vezes, resistem a várias revisões. Há um outro fenómeno psicológico associado. Uma das minhas experiências de envelhecimento está ligada a uma certa perturbação da ortografia. Palavras cuja grafia nunca me levantara dúvidas surgem-me agora de forma mais nebulosa e exigem que eu as confirme no dicionário. Esta imprecisão ortográfica é, no entanto, contrabalançada por um maior domínio da densidade semântica da língua. Envelhecer tem os seus aspectos positivos. Valha-nos isso. Enfim, peço desculpa a quem deu pela troca do pretérito imperfeito do conjuntivo pelo presente do indicativo conjugado na forma reflexa. Será que é assim que ainda se diz?

Fábrica de ideias


Ler no Portugal dos Pequeninos um excelente exemplo da irrelevância que vai na cabeça dos nossos legisladores. Mas, caro leitor, não se ria. Por detrás daquelas palavras aparentemente sem senso esconde-se um pesadelo burocrático e uma visão directa do inferno. Há duas coisas que seria bom que toda gente percebesse. Primeira, os inovadores não fazem barulho com a inovação, limitam-se a fazer o seu trabalho o melhor possível. Segunda, quando vemos legislar sobre inovação podemos estar certos que os legisladores seriam incapazes de inovar o que quer que seja.

A inovação tornou-se, em Portugal, uma doença da linguagem. Inovadores e criadores não se produzem segundo decreto-lei, nem se regulam. Aliás, inovar e criar implicam mesmo desregulação, pensar contra, infringir o que está dado. Mas a imaginação de certos sectores da nossa sociedade é tão estapafúrdia que acha dever regular o irregulável. Só fala em fábrica de ideias quem nunca teve uma única ideia na cabeça, ou então alguém como aquele estudante universitário que vai discutir um trabalho com o professor, e ouve deste que o trabalho apresenta ideias boas e originais. O único problema é que as ideias boas não são originais e as originais são péssimas.

13/04/09

Pensar e falar

Com efeito, toda a degradação individual ou nacional é imediatamente anunciada por uma degradação rigorosamente proporcional na linguagem. Como poderia o homem perder uma ideia ou apenas a rectidão de uma ideia sem perder a palavra ou a justeza da palavra que a exprime? E, ao contrário, poderia ele pensar mais ou melhor sem o manifestar de imediato pela sua linguagem? [Joseph de Maistre, Les Soirées de Saint-Petersbourg. Deuxième entretien]
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A precisão da linguagem é a outra face da precisão do pensamento e não há pensamento rigoroso sem linguagem rigorosa. Quando a linguagem das novas gerações, e das mais velhas também, atinge o grau de degradação em que hoje se encontra, não é apenas a faculdade de falar que se encontra diminuída. É a faculdade de pensar, o entendimento, que perde os seus instrumentos e se degrada. A permissividade com que se trata a língua é o outro lado do desprezo social que se tem pelo acto de pensar. Mas é este acto de pensar que permite ao homem compreender o mundo, os seus semelhantes e a si mesmo. Mais: é pelo acto de pensar que afirma a sua diferença específica com os animais não racionais. A degradação da linguagem não é apenas uma degradação da nossa capacidade de comunicar ou exprimir o que se passa em nós, é uma degradação da nossa natureza, uma diminuição da nossa humanidade. Estudar gramática, aumentar o léxico, apreender a sua dimensão semântica, não são exercícios pueris, mas formas de nos tornarmos humanos.

04/08/08

O deslizar da linguagem

A Visão da semana passada trazia uma entrevista com a ginecologista-obstreta Maria do Céu Santo, especialista em medicina sexual. A uma pergunta sobre as práticas sexuais dos portugueses, dá uma resposta que, a certo momento, apresenta determinada informação codificada linguisticamente assim: «Há também as independentes, que não querem parceiro fixo, embora chegue um momento em que entram em conflito – nas férias, eles acabam por estar com as parceiras fixas e isso deixa-as numa enorme insegurança. (Visão n.º 804, pp. 84)».

Eis como a linguagem desliza e sub-repticiamente parece apresentar um mundo absolutamente amoral. Os termos parceiro/parceiras são utilizados como forma de des-moralizar as situações amorosas e de torná-las num problema meramente técnico, que, eventualmente, dirá respeito a um conjunto de práticas terapêuticas, mas não ao mundo onde os seres humanos se confrontam com os valores que presidem aos seus comportamentos.

Todavia, a formulação da especialista em medicina sexual está cheia de valorações morais. Assim, as “que não querem um parceiro fixo” surgem com uma etiqueta que indicia um alto valor moral. Elas são «as independentes». Meditar sobre a significação do conceito de «independente» remete imediatamente para a dimensão da autonomia e da submissão a uma lei que se dá a si-mesmo, deixando a sugestão que as outras, as que possuem um parceiro fixo, são dependentes, o que, em linguagem moral, significa que são menores, que não atingiram a autonomia e, assim, se recolhem à protecção desse parceiro fixo.

Observe-se como uma linguagem pretensamente técnica e descritiva opera uma mutação na apresentação dos valores morais. Na tentativa de uma descrição moralmente neutra das relações amorosas, acaba por se manifestar um conjunto de perspectivas morais, que, agora, valorizam de facto um outro tipo de comportamento e um outro código de valores morais, diferentes dos habituais. Por muito que a linguagem pretensamente técnico-científica, seja ela proveniente das áreas da medicina ou da psicologia, queira retirar conteúdo moral à sexualidade humana, isso é manifestamente impossível. A própria linguagem acaba por trair estas estratégias e tornar evidente essa impossibilidade.

O mundo que emerge deste tipo de discurso não deixa de ser bizarro. Parece que o único problema destes novos modelos da moralidade sexual, «as independentes», é as férias. Não houvesse férias, e nada no seu comportamento faria bulir a sua consciência independente. Embora não se perceba bem porquê. Não são as férias, na mitologia das sociedades ocidentais, esse tempo feliz para os amores descomprometidos e sem parceiro fixo? Maldita linguagem que tantas armadilhas trazes aos advogados do Zeitgeist.

08/04/08

Acordo ortográfico

Grande discussão no parlamento (Público). Carlos Reis e Graça Moura espumaram consoantes mudas e não articuladas, os livreiros tremeram pelo negócio, os deputados encolheram-se e eu não tenho opinião que me valha. Julgo apenas que, com ou sem acordo, as línguas são como as galáxias, continuarão a afastar-se e um dia destes deixarão de se reconhecer. O brasileiro, o angolano ou o moçambicano serão línguas vivas derivadas daquela antiga língua, já morta, chamada português.

02/12/07

O que se esconde por detrás da banalidade do discurso político?

O discurso político assenta, por norma, num conjunto de lugares comuns. Repesco, a partir de o Flash, as palavras do primeiro-ministro José Sócrates, na Índia, sobre a greve na função pública. Analisemos apenas um pedaço da prosa para perceber como se monta uma ilusão. O problema, porém, não é apenas de Sócrates. É transversal, usemos este horrendo vocábulo, aos políticos e outros agentes da modernização. Então o que diz o nosso querido primeiro-ministro? Diz o seguinte:

«É importante que os portugueses percebam que não se pode modernizar o país e os serviços públicos, deixando a administração pública na mesma. Havia coisas que tinham que mudar e mudaram nos últimos anos, em benefício de todos os portugueses e de um futuro melhor.»

Analisemos então o conteúdo:

1. “É importante que os portugueses percebam que não se pode modernizar o país e os serviços públicos, deixando a administração pública na mesma.” Se se quer modernizar (reorganizar de acordo com as tendências ou métodos mais recentes ou avançados do ponto de vista tecnológico) os serviços públicos, então há que introduzir alterações, isto é, não deixar tudo (a função pública) na mesma. Esta parte do discurso é uma informação irrelevante e, como veremos já seguir, bastante obscura. Mas o problema principal deriva de um outro sentido do vocábulo modernizar. Modernizar significa actualizar. Até aqui o engenheiro Sócrates estaria de acordo. Mas sigamos o caminho traçado pelas palavras. O que significa actualizar? Significa tornar actual (neste caso pela introdução de métodos mais recentes ou avançados). E o que significa actual? Ora actual é aquilo que existe presentemente, é aquilo que é efectivo e real. Mas então modernizar a administração pública significa deixá-la estar como ela é presentemente. O esforço de modernização que o primeiro-ministro diz ser necessário apenas serve para se chegar aonde se está. Mas para se chegar aonde se está não é preciso nenhum esforço, pois é lá que estamos. Como se vê, o vocábulo modernizar, tão ao gosto dos nossos políticos e tecnocratas, é um vocábulo velhaco, traiçoeiro e manhoso. Parece dizer uma coisa e, no entanto, diz o seu contrário. Razão tinha o jovem Tancredi quando dizia, ao juntar-se às tropas de Garibaldi, ao Príncipe de Salina, seu tio, que era preciso que tudo mudasse para que tudo ficasse na mesma (O Leopardo, de Tomasi di Lampedusa). Quem como eu exerce a sua profissão numa instituição pública percebe muito bem o que estou a dizer.

2. Ainda na mesma frase, o discurso do primeiro-ministro assume, implicitamente, que modernizar é uma coisa boa e que a bondade da modernização é uma evidência. O que é estranho nesta lógica da modernização é a sua boa reputação. Mal se fala em modernizar, logo se entende que se está fazer um bem. Mas se aquilo que os modernizadores querem modernizar é entendido como um mal; se modernizar é tornar actual; se actual é aquilo que existe; logo, modernizar é um processo pelo qual se mantém o mal que existe. O discurso da modernização responde ao seguinte problema: como poderemos manter o mal que existe? Modernizando. A modernização é o discurso ideológico que esconde as relações distorcidas entre as pessoas para as manter. Faz parte desse processo ilusório e mistificador a mobilização contínua e o frenesim. A modernização não é outra coisa senão o frenesim onde todos são obrigados a movimentarem-se cada vez mais depressa para não se sair do mesmo sítio.

3. “Havia coisas que tinham que mudar e mudaram nos últimos anos, em benefício de todos os portugueses e de um futuro melhor.” Dispenso-me de falar da mudança, como se num mundo em eterna mudança coisa alguma ficasse imutável. Não passa de um lugar-comum. O que é inaceitável, porém, é o discurso do benefício de todos os portugueses. Aqueles que são prejudicados (que vão para o quadro de mobilidade, que vêem o Estado a não cumprir os contratos para com eles, etc.) pela modernização da Administração Pública também são beneficiados? Ou será que não merecem sequer o nome de portugueses? O discurso da modernização serve para disfarçar uma atitude política abjecta e absolutamente imoral: eleger alguns bodes expiatórios e fazer deles uma espécie de Cristo. São sacrificados pela salvação dos outros. Mas mesmo estes outros não são todos os outros, mas apenas aqueles outros que já tinham o benefício de uma situação injusta (não nos esqueçamos que modernizar é tornar actual). Querem saber quem é o beneficiário das injustiças actuais? Veja-se quem fala em modernização. É esse que pretende manter o privilégio inaceitável de que goza.

4. “Um futuro melhor”. Há muito que me pergunto que qualidades divinatórias possuem os políticos para saberem o que é o futuro e qual o caminho para um futuro melhor. Se eu não sei o que é o futuro como posso saber o caminho para o futuro melhor? Por exemplo, as revoluções científica e industrial pareciam o caminho para um futuro melhor. Mas as populações de Hiroshima e Nagasaki terão a mesma opinião? E os problemas ambientais que estão a destruir o planeta são o futuro melhor que no passado foi prometido? A promessa sobre o futuro é o maior embuste da política. Sacrificar o presente em nome do futuro incerto é apenas um truque para justificar os beneficiários presentes (e não futuros) do sacrifício de alguns. Eu sou contra a pena de morte e outras barbaridades do género, mas quem falasse do futuro deveria ser julgado e condenado por feitiçaria, como na Idade Média. Em vez de ser queimado, era apenas obrigado a estar calado durante 10 ou 20 anos e proibido de exercer cargos públicos. A coisa melhorava imediatamente.

Veja-se como num conjunto de palavras aparentemente banais se esconde muitos problemas e todo um conjunto de truques e falácias para criar situações inaceitáveis do ponto de vista da ética social, isto é, da justiça, que é, como diz John Rawls, a virtude das instituições sociais.