21/02/10
07/02/10
Instabilidade ortográfica
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13/06/09
O afastamento das galáxias
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Marcadores: Linguagem
12/06/09
Hieróglifos, símbolos e metáforas
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01/06/09
Erros meus
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Marcadores: Linguagem
Fábrica de ideias
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13/04/09
Pensar e falar
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04/08/08
O deslizar da linguagem
A Visão da semana passada trazia uma entrevista com a ginecologista-obstreta Maria do Céu Santo, especialista em medicina sexual. A uma pergunta sobre as práticas sexuais dos portugueses, dá uma resposta que, a certo momento, apresenta determinada informação codificada linguisticamente assim: «Há também as independentes, que não querem parceiro fixo, embora chegue um momento em que entram em conflito – nas férias, eles acabam por estar com as parceiras fixas e isso deixa-as numa enorme insegurança. (Visão n.º 804, pp. 84)».Eis como a linguagem desliza e sub-repticiamente parece apresentar um mundo absolutamente amoral. Os termos parceiro/parceiras são utilizados como forma de des-moralizar as situações amorosas e de torná-las num problema meramente técnico, que, eventualmente, dirá respeito a um conjunto de práticas terapêuticas, mas não ao mundo onde os seres humanos se confrontam com os valores que presidem aos seus comportamentos.
Todavia, a formulação da especialista em medicina sexual está cheia de valorações morais. Assim, as “que não querem um parceiro fixo” surgem com uma etiqueta que indicia um alto valor moral. Elas são «as independentes». Meditar sobre a significação do conceito de «independente» remete imediatamente para a dimensão da autonomia e da submissão a uma lei que se dá a si-mesmo, deixando a sugestão que as outras, as que possuem um parceiro fixo, são dependentes, o que, em linguagem moral, significa que são menores, que não atingiram a autonomia e, assim, se recolhem à protecção desse parceiro fixo.
Observe-se como uma linguagem pretensamente técnica e descritiva opera uma mutação na apresentação dos valores morais. Na tentativa de uma descrição moralmente neutra das relações amorosas, acaba por se manifestar um conjunto de perspectivas morais, que, agora, valorizam de facto um outro tipo de comportamento e um outro código de valores morais, diferentes dos habituais. Por muito que a linguagem pretensamente técnico-científica, seja ela proveniente das áreas da medicina ou da psicologia, queira retirar conteúdo moral à sexualidade humana, isso é manifestamente impossível. A própria linguagem acaba por trair estas estratégias e tornar evidente essa impossibilidade.
O mundo que emerge deste tipo de discurso não deixa de ser bizarro. Parece que o único problema destes novos modelos da moralidade sexual, «as independentes», é as férias. Não houvesse férias, e nada no seu comportamento faria bulir a sua consciência independente. Embora não se perceba bem porquê. Não são as férias, na mitologia das sociedades ocidentais, esse tempo feliz para os amores descomprometidos e sem parceiro fixo? Maldita linguagem que tantas armadilhas trazes aos advogados do Zeitgeist.
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08/04/08
Acordo ortográfico
Grande discussão no parlamento (Público). Carlos Reis e Graça Moura espumaram consoantes mudas e não articuladas, os livreiros tremeram pelo negócio, os deputados encolheram-se e eu não tenho opinião que me valha. Julgo apenas que, com ou sem acordo, as línguas são como as galáxias, continuarão a afastar-se e um dia destes deixarão de se reconhecer. O brasileiro, o angolano ou o moçambicano serão línguas vivas derivadas daquela antiga língua, já morta, chamada português.
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02/12/07
O que se esconde por detrás da banalidade do discurso político?
O discurso político assenta, por norma, num conjunto de lugares comuns. Repesco, a partir de o Flash, as palavras do primeiro-ministro José Sócrates, na Índia, sobre a greve na função pública. Analisemos apenas um pedaço da prosa para perceber como se monta uma ilusão. O problema, porém, não é apenas de Sócrates. É transversal, usemos este horrendo vocábulo, aos políticos e outros agentes da modernização. Então o que diz o nosso querido primeiro-ministro? Diz o seguinte:«É importante que os portugueses percebam que não se pode modernizar o país e os serviços públicos, deixando a administração pública na mesma. Havia coisas que tinham que mudar e mudaram nos últimos anos, em benefício de todos os portugueses e de um futuro melhor.»
Analisemos então o conteúdo:
1. “É importante que os portugueses percebam que não se pode modernizar o país e os serviços públicos, deixando a administração pública na mesma.” Se se quer modernizar (reorganizar de acordo com as tendências ou métodos mais recentes ou avançados do ponto de vista tecnológico) os serviços públicos, então há que introduzir alterações, isto é, não deixar tudo (a função pública) na mesma. Esta parte do discurso é uma informação irrelevante e, como veremos já seguir, bastante obscura. Mas o problema principal deriva de um outro sentido do vocábulo modernizar. Modernizar significa actualizar. Até aqui o engenheiro Sócrates estaria de acordo. Mas sigamos o caminho traçado pelas palavras. O que significa actualizar? Significa tornar actual (neste caso pela introdução de métodos mais recentes ou avançados). E o que significa actual? Ora actual é aquilo que existe presentemente, é aquilo que é efectivo e real. Mas então modernizar a administração pública significa deixá-la estar como ela é presentemente. O esforço de modernização que o primeiro-ministro diz ser necessário apenas serve para se chegar aonde se está. Mas para se chegar aonde se está não é preciso nenhum esforço, pois é lá que estamos. Como se vê, o vocábulo modernizar, tão ao gosto dos nossos políticos e tecnocratas, é um vocábulo velhaco, traiçoeiro e manhoso. Parece dizer uma coisa e, no entanto, diz o seu contrário. Razão tinha o jovem Tancredi quando dizia, ao juntar-se às tropas de Garibaldi, ao Príncipe de Salina, seu tio, que era preciso que tudo mudasse para que tudo ficasse na mesma (O Leopardo, de Tomasi di Lampedusa). Quem como eu exerce a sua profissão numa instituição pública percebe muito bem o que estou a dizer.
2. Ainda na mesma frase, o discurso do primeiro-ministro assume, implicitamente, que modernizar é uma coisa boa e que a bondade da modernização é uma evidência. O que é estranho nesta lógica da modernização é a sua boa reputação. Mal se fala em modernizar, logo se entende que se está fazer um bem. Mas se aquilo que os modernizadores querem modernizar é entendido como um mal; se modernizar é tornar actual; se actual é aquilo que existe; logo, modernizar é um processo pelo qual se mantém o mal que existe. O discurso da modernização responde ao seguinte problema: como poderemos manter o mal que existe? Modernizando. A modernização é o discurso ideológico que esconde as relações distorcidas entre as pessoas para as manter. Faz parte desse processo ilusório e mistificador a mobilização contínua e o frenesim. A modernização não é outra coisa senão o frenesim onde todos são obrigados a movimentarem-se cada vez mais depressa para não se sair do mesmo sítio.
3. “Havia coisas que tinham que mudar e mudaram nos últimos anos, em benefício de todos os portugueses e de um futuro melhor.” Dispenso-me de falar da mudança, como se num mundo em eterna mudança coisa alguma ficasse imutável. Não passa de um lugar-comum. O que é inaceitável, porém, é o discurso do benefício de todos os portugueses. Aqueles que são prejudicados (que vão para o quadro de mobilidade, que vêem o Estado a não cumprir os contratos para com eles, etc.) pela modernização da Administração Pública também são beneficiados? Ou será que não merecem sequer o nome de portugueses? O discurso da modernização serve para disfarçar uma atitude política abjecta e absolutamente imoral: eleger alguns bodes expiatórios e fazer deles uma espécie de Cristo. São sacrificados pela salvação dos outros. Mas mesmo estes outros não são todos os outros, mas apenas aqueles outros que já tinham o benefício de uma situação injusta (não nos esqueçamos que modernizar é tornar actual). Querem saber quem é o beneficiário das injustiças actuais? Veja-se quem fala em modernização. É esse que pretende manter o privilégio inaceitável de que goza.
4. “Um futuro melhor”. Há muito que me pergunto que qualidades divinatórias possuem os políticos para saberem o que é o futuro e qual o caminho para um futuro melhor. Se eu não sei o que é o futuro como posso saber o caminho para o futuro melhor? Por exemplo, as revoluções científica e industrial pareciam o caminho para um futuro melhor. Mas as populações de Hiroshima e Nagasaki terão a mesma opinião? E os problemas ambientais que estão a destruir o planeta são o futuro melhor que no passado foi prometido? A promessa sobre o futuro é o maior embuste da política. Sacrificar o presente em nome do futuro incerto é apenas um truque para justificar os beneficiários presentes (e não futuros) do sacrifício de alguns. Eu sou contra a pena de morte e outras barbaridades do género, mas quem falasse do futuro deveria ser julgado e condenado por feitiçaria, como na Idade Média. Em vez de ser queimado, era apenas obrigado a estar calado durante 10 ou 20 anos e proibido de exercer cargos públicos. A coisa melhorava imediatamente.
Veja-se como num conjunto de palavras aparentemente banais se esconde muitos problemas e todo um conjunto de truques e falácias para criar situações inaceitáveis do ponto de vista da ética social, isto é, da justiça, que é, como diz John Rawls, a virtude das instituições sociais.
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Jorge Carreira Maia
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