10/12/09
12/11/09
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17/09/08
Do daltonismo na história
Mas que sabemos nós do rumo da história, que segundo uma lei que a lógica não compreende, que se move e muda de direcção no seu movimento, muitas vezes num momento decisivo, por causa de minudências imponderáveis, por uma mera corrente de ar quase imperceptível, uma folha que cai no chão, uma troca de olhares no meio de um grande ajuntamento! Mesmo em retrospectiva, não podemos saber como era realmente antes e como surgiu este ou aquele acontecimento mundial. O mais rigoroso estudo do passado não chega mais perto dessa verdade que a imaginação não atinge do que, por exemplo, a disparatada afirmação que uma vez ouvi a um tal Alfonse Huyghens, diletante que vivia na capital da Bélgica e há décadas se dedicava a investigar Napoleão, segundo o qual todas as convulsões causadas nos países e reinos da Europa pelo imperador dos Franceses se deviam somente ao seu daltonismo que o impedia de distinguir o vermelho do verde. Quanto mais sangue corresse no campo de batalha, disse-me o investigador belga, mais verdes lhe pareciam os campos. [Sebald, Campo Santo, pp. 19]-----------------
Não falta por cá Huyghens. De daltónicos também temos o stock bem provido.
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16/09/08
W. G. Sebald - Campo Santo
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01/09/08
Adolfo Bioy Casares - O herói das mulheres
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20/05/08
Robert Musil - O homem sem qualidades - I
Clarisse parecia inclinada a concordar com ele. Já Walter sorria como um faquir que nem pestaneja quando lhe enfiam um alfinete de chapéu de um lado ao outro da cara.
- O que significa provavelmente que, até nova ordem, tu te recusas a ser um ser humano! - objectou.
Mais ou menos isso. Reconheço que suscita uma desagradável sensação de diletantismo!
Mas quero dizer-te que tens razão noutra coisa, totalmente diferente - acrescentou Ulrich, depois de um instante de reflexão. - Os especialistas nunca dão por acabada a sua especialização. Não só não a concluíram hoje em dia como também são incapazes de conceber um fim para as suas actividades. Talvez até nem o desejem. Será possível, por exemplo, imaginar que o homem ainda terá uma alma no momento em que aprenda a compreendê-la e a tratá-la biológica e psicologicamente? E, apesar disso, aspiramos a esse estado de coisas. É esse o problema. O saber é uma forma de comportamento, uma paixão. No fundo, um comportamento ilícito; porque, tal como a dependência do álcool, do sexo ou da violência, também a compulsão de saber molda um carácter em desequilíbrio. É um erro pensar que o investigador persegue a verdade; de facto, é ela que o persegue a ele. É ele que tem de suportá-la. A verdade é verdadeira, o facto é real, sem se preocuparem com ele: ele é que sofre da paixão, da dipsomania dos factos que define o seu carácter, e está-se nas tintas para saber se as suas descobertas levarão a alguma coisa de total, humano, perfeito ou o que quer que seja. É uma natureza contraditória, sofredora e, ao mesmo tempo, incrivelmente enérgica!
- Sim, e depois?
- E depois o quê?
- Não me vais dizer que podemos deixar as coisas tal como estão!
Por mim, deixava-as tal como estão - respondeu Ulrich calmamente. - A ideia que fazemos do mundo, e de nós próprios, muda a cada dia que passa. Vivemos numa época de transição. E se não enfrentarmos os problemas mais graves que temos pela frente melhor do que fizemos até agora, talvez essa transição se prolongue até ao fim do planeta. Apesar disso, se formos lançados para o meio das trevas, de nada nos serve começar a cantar para espantar o medo, como uma criança. Mas é isso que fazemos, cantar por medo, quando fingimos que sabemos como devemos comportar-nos aqui em baixo; podes gritar desalmadamente, que continua a ser apenas medo! Mas uma coisa sei: avançamos a galope! Estamos ainda muito longe dos objectivos, estes não se tornam mais próximos, nós nem sequer os avistamos, ainda vamos perder-nos muitas vezes e muitas vezes teremos de mudar de cavalos. Mas um dia - pode ser depois de amanhã ou daqui a dois mil anos - o horizonte começará a deslizar e precipitar-se-á sobre nós com um rugido avassalador!
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15/04/08
Ruben A. - KAOS
Uma camada de homossexualidade misógina cobria a Pátria, Lusitânia chamada pelos heróis do 5 de Outubro. Dos altos de rio de Onor até à última fortaleza da costa algarvia as elevações de terreno abafavam-se de uma moleija aveludada. Uma vontade de homem por homem, de homem a homem, de homem esquecendo homem. Os oficiais de artilharia viviam-se uns nos outros esquecendo as mulheres. As casas fechadas, os logradouros tapados, os jardins hervados, a camada de homossexuais renascia na vida política. Todos os homens queriam outros homens, ambicionavam estar, ouvir, desmentir, sentir, apalpar, abraçar, reviver, gozar com outros homens. A demão espessa dos mais machos sobrepunha-se a todos os animais, à junta de bois, às aves de rapina, sequências de fomes de homem, tudo o que em cada um era amor precisava de concretizar-se numa farda, numa maricagem total. Ai Ai ai e que tal o Almeida, não sei se ele será capaz de fazer alguma coisa a favor das crianças desprotegidas. E o Costa? E o Machado dos Santos? E o Gonçalves? E os bravos do Mindello? Homens a salvarem homens, a masturbarem-se com a República, num coito imorredoiro, apoteótico, com os acordes da «Portuguesa» no auge do orgasmo. A cambada só falava só ouvia o que o Braga ia fazer e a demissão do Arriaga, a verdade de homem para homem, de amor para amor de amor para ódio e Zémacho assistia esgazeado a este comunitarismo infernal. Todas as noites ao deitar pensava no Dino, no Costa, no Carvalho, no Teles, no Gonçalves, no Marques, pensava neles ali na cama, ao lado da mulher, queria dizer-lhes umas verdades. Obcecados de bebedeira política os homens formavam governo provisório para formarem governo constitucional. Queriam juntos decretos de masturbação homossexual. E no chegar à noite depois do jantar apareciam outros homens que se interpunham às mulheres, rezavam comuns de ladainha para saber se o Sousa ficava com o Costa ou o Gonçalves com o Almeida e se o Dino sempre esperava pelo Gomes depois de ouvido o Braga. Dos recônditos surgiam os menos graduados, mais machos, com virilidade de chinfrim. As mulheres cosiam meias gastas, outras preparavam batatas cozidas com feijão. À espera da conversa de barafunda para saber quem entrava no Ministério da Guerra, e sem dúvida que o Barreto era o melhor, mais radical, do lado do Costa e contra o Arriaga e ao pé do Dino. Mas quem é ele? perguntava a mulher do Gonçalves. Nunca ouvi falar nesse tipo, dizia a cunhada do Almeida.Os homens reuniam-se mais, mais juntos com os jornalistas — a quem chamavam de minhas queridas putas, pela forma tão equilibrada como deturpavam as notícias em primeira mão que lhes davam.
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06/04/08
Platão - Protágoras
— De ciência, creio eu — respondi-lhe. — E não é bom, meu amigo, que o sofista, elogiando os artigos que vende, nos seduza como o fazem o comerciante e o retalhista com os alimentos para o corpo. Porque esses não sabem se os produtos que trazem são bons ou maus para o corpo (antes, elogiam tudo o que vendem) e nem o sabem também os clientes, a menos que se trate, por acaso, de um professor de ginástica ou de um médico. Do mesmo modo, também aqueles que levam a ciência de cidade em cidade, vendendo-a a retalho, elogiam sempre ao interessado tudo quanto vendem, mas talvez alguns deles, meu caro, desconheçam o que é que desses artigos que vendem é bom ou mau para a alma. E o mesmo se passa também com os seus clientes, a não ser que, por acaso, algum seja médico da alma. Se, pelo menos, fizeres uma ideia do que é bom ou do que é mau, então não te fará mal comprar a ciência de Protágoras ou de qualquer outro. Mas, se não, vê bem, meu amigo, não jogues os dados à sorte, nem corras riscos em matérias tão delicadas. Porque o perigo é muito maior na compra da ciência do que na compra dos alimentos (313 c - 314 a).
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25/03/08
Thomas Bernhard - Correcção
E eu prossegui a descrição do nosso caminho para a escola, esse caminho comum tinha obviamente servido de fundamento à nossa amizade a três, disse eu, e ela tornara-se uma amizade para toda a vida, ainda que tivéssemos muitas vezes vivido muito afastados durante bastante tempo, a nossa amizade não fora nunca por isso afectada, nem ao passarmos por todas as oscilações da história que já tínhamos vivido, por exemplo pelo período da guerra, pelo contrário, essa nossa amizade a três tinha-se aprofundado de ano para ano e fora, eu assim o disse efectivamente, porque de repente tive a sensação de ser necessário dizer tudo, depois do longo e, por fim, angustiante silêncio, de repente dizer tudo, uma preciosa amizade. E fui levado a fazer mesmo a observação de que essas amizades como a nossa a três duravam para além da morte.
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06/03/08
Jean-Pierre Le Goff - La barbarie douce
Já falei deste livro (aqui e aqui). Mas em tempo de «revolta de professores», este é um livro luminoso sobre os processos de modernização cega nas escolas e nas empresas. Vale a pena encomendar (Amazon.fr, p. ex.) e ler. O que o sociólogo francês nos diz sobre o que se tem passado em França, sobre o que há de bárbaro nestes processos, é o que se projecta para Portugal, nomeadamente nas reformas educativas. No livro, pode-se perceber como é que os intrumentos de avaliação «libertadores» (não é a senhora ministra que diz que esta avalição é boa para os professores?) são formas de manipulação da realidade. Percebe-se também a verdadeira natureza totalitária do «eduquês». Um livro já de 1999, mas que, para nós, é absolutamente actual. Livro de releitura...
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03/03/08
Ana Luísa Amaral - Coisas de Partir
da lama no cinzento:
aos bocados de sol sempre é tempo
e traços de palácios
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27/02/08
Thomas Bernhard - DERRUBAR ÁRVORES uma irritação
Falar com jovens não conduz a nada, pensei eu, e quem afirma o contrário é hipócrita, pois os jovens não dizem nada às pessoas já de uma certa idade e aos velhos, esta é que é a verdade; não tem interesse absolutamente nenhum o que dizem jovens a pessoas idosas, absolutamente nenhum, pensei eu, e é a maior hipocrisia afirmar o contrário. Foi sempre moderno dizer que os velhos devem falar com os jovens, porque os jovens têm muito a dizer aos velhos, mas o contrário é que é verdade: os jovens não têm absolutamente nada a dizer aos velhos. Obviamente os velhos teriam alguma coisa a dizer aos jovens, mas os jovens não entendem o que os velhos lhes dizem, porque não podem de modo nenhum entendê-lo e, por isso, também de modo nenhum o querem entender (pp. 165).
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