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28/01/10

Humilhações


Falando em humilhações, tenho lido muitas coisas, li Platão e Aristóteles, li Kant, Fichte, Schelling, Hegel, Nietzsche, Husserl e Heidegger, e mais não sei quantos grandes, pequenos e médios filósofos. Mas esta gente nunca me humilhou como o faz Herberto Helder. Na verdade, nunca me humilhou. Nem os poetas, nem os romancistas, por excessivos que sejam. Só há uma autora que me causava tamanha humilhação. Eu lia-a e, por vezes, ativarava com violência os livros contra a parede ou para o chão e calcava-os, depois pegava neles e retornava à leitura. Era uma leitura física. Deixei de a ler, não sei se retornarei. Porque a humilhação que nela se sente não é apenas a da escrita, da composição, a do excesso de bem escrever. É uma humilhação que ultrapassa o literário e até o social. É uma humilhação de natureza ontológica. O leitor é um verme e eu, enredado no jogo social daquelas narrativas, sentia-me um verme. O nome dela, Agustina Bessa-Luís. Peço desculpa ao Saramago e ao Lobo Antunes e a todos quanto..., mas literatura a sério é a da Senhora D. Agustina.

Exercícios penitenciais


Há dias que não temos nada para dizer. Esses, porém, não são os piores. Há outros dias que descobrimos que deveríamos estar calados. Talvez calar-me seja o maior exercício de respeito por mim e pelos outros. Seria, no mínimo, um exemplo. Tanto ruído. Mas esses dias ainda não são os piores de todos. Para mim, hoje, é um dos piores dias. Estive a ler Herberto Helder e, sempre que leio Herberto Helder, é um dia mau. Aquela poesia é tão boa, tão perfeita, tão exacta, que parece tudo ter ficado escrito para a eternidade. A poesia de Herberto Helder é perversa, esmaga-nos com o prazer que dá, esmaga-nos com a sua exactidão lexical. Na poesia de Herberto Helder, a gramatica é terrível, pois não admite excepções, mesmo que um miserável substantivo seja um advérbio. Ler Herberto Helder é um exercício feroz de humilhação. Não, não nos purifica, não nos lava a alma. Pelo contrário, aquela poesia rouba-nos a alma. Quando lemos Herberto Helder ficamos desalmados. Aquele bocadinho de alma que ainda tínhamos é desbaratado, queimado, nem o diabo a quer. Herberto Helder é um inimigo do diabo, pois desfaz as almas que o maligno queria acumular para o fogo eterno. Quando lemos Herberto Helder, e na humilhação de o lermos, ainda queremos ler mais e mais e sem parar. Há poetas, daqueles poetas verdadeiros, que se proíbem de ler Herberto Helder. Eu leio-o, pois eu não sou um poeta dos verdadeiros nem dos falsos. Mas esses dias de leitura são penitências sem fim. Quando leio "As crianças enlouquecem em coisas de poesia", eu sou essa criança a enlouquecer. Enlouquecer, nestes dias, é uma forma de penitência. O penitente tira sofrimento do prazer. O leitor de Herberto Helder não passa de um penitente, de um penitente que quer estar calado e não consegue.

22/01/10

Investigação


Decididamente, estou velho. Não digo isto apenas por há muito ter abandonado qualquer simpatia pelas utopias políticas. Isso é apenas sinal de sensatez. Mas velhice deve ser mesmo o que explica o não me conseguir iludir ou extasiar perante as micro-utopias que invadem o quotidiano das pessoas. Por exemplo, o desejo de ensinar competências de investigação a quem mal sabe ler, escrever e contar. Devo estar errado, além de velho. Sou um caso definitivamente perdido.

01/01/10

Faltam os Reis, mas...


Está consumado. Ainda falta o Dia de Reis, mas a esse já ninguém liga, pelo menos por cá. É pena, pois simbolicamente tem um sentido muito interessante. Não estou a falar de religião, mas de política. Três potestades vindas do Oriente vêm prestar vassalagem ao Menino, a um novo poder que reinará no Ocidente. Por um daqueles acasos que a História amamenta no seu seio sem explicar a razão, enquanto a religião nascida daquele Menino foi operativa no Ocidente, este tornou-se no lugar mais civilizado, criativo e no maior poder à escala global. Agora que todos rejubilam com o facto de vivermos numa época pós-cristã, em que o Cristianismo é apenas uma religião como outra qualquer (ou inferior a outra qualquer), nenhum rei vindo do Oriente está disposto a prestar homenagem ao Ocidente. Se o puderem fazer explodir, terão nisso o maior dos prazeres. Que o novo ano seja leve para todos.

18/12/09

Sem-abrigo



Está ali, 30 anos depois de o ter conhecido. Na altura, dava-lhe talvez uns sessenta anos. Era um excesso, certamente motivado pela juventude do meu olhar. Naqueles tempos, era a personagem mais altiva que conhecia, talvez nunca tivesse conhecido ninguém, mesmo depois, tão altivo, supinamente arrogante, de uma pesporrência sem fim. Usava a frieza do olhar azul para colocar o mundo à distância, combinava a estranheza do saber que possuía com o sangue de família para esmagar pessoas como se fossem mosquitos. Os anos passaram, e essa personagem desapareceu, aliás rapidamente, do meu horizonte. Não que a tenha esquecido. Talvez a sua estratégia fosse a de ficar na memória dos outros pelo seu comportamento. Voltei a vê-la há dias. Discurso ainda articulado, mas tudo o resto se tinha desvanecido. Numa conferência, lá estava ela na assistência, agora porém para mendigar uns minutos para falar, mesmo desse lugar exógeno. Até aquele momento nunca tinha conhecido um verdadeiro sem-abrigo.

09/12/09

Uma estranha pátria



O desafio. Ser racional e desconfiar da razão. Viver racionalmente na conduta social e privadamente descobrir os limites dessa racionalidade. Será a razão filha da política? Resultará essa faculdade do exercício do cálculo na relação com o outro e da necessidade de agir segundo a justa medida? Será ela um produto da praxis? A tradição ocidental pensou o homem como animal racional. Nietzsche pensou-o como uma ponte entre o animal e o sobre-homem. Mas se o homem é uma ponte, que coisa nele fará com que seja essa ponte. Não a condição animal, pois essa é uma das margens. Resta a conclusão: a razão é uma ponte. As pontes ligam o aquém e o além. O aquém da razão todos conhecemos, são os afectos, as emoções, as pulsões. Mas o que será o além da razão? O que será a sobre-razão? Para além da ponte está a não ponte. A sobre-razão só pode ser uma não-razão. Qual o território dessa não-razão? A infra-razão, o aquém da razão, tem por território a necessidade natural, físico-biológica, a razão habita o território da necessidade social, pois não é ela a filha da praxis política? À sobre-razão resta-lhe um estranho território, o da liberdade. Onde cessam as necessidades naturais e a sociais, começa o país da liberdade. A razão ainda é uma prisão para aquele que se quer aventurar nessa estranha pátria. Não basta, para ser livre, desconstruir as estratégias do corpo como pensou Platão e a tradição ocidental com ele. Não basta opor a razão ao corpo, o espírito à matéria. Não basta sequer perorar contra os dualismos, cartesianos ou outros. O corpo encerra a razão, a razão encerra a liberdade. A sobre-razão talvez seja a faculdade de abandonar ambos os cativeiros. Mas como será possível uma sobre-crítica dessa sobre-razão que lhe assinale os direitos e os limites? Talvez o território da liberdade não tenha limites e o que penetra nele esteja libertado de direitos e de deveres.

21/11/09

Suspeita



Marx, Nietzsche, Freud. A escola da suspeita, a luta contra a idolatria, a desmontagem do bezerro de ouro. Mas que deus anunciavam estes estranhos profetas? A libertação da opressão, o crepúsculo dos ídolos, a inevitabilidade de uma ilusão. Mas se suspeitarmos da suspeita, se contra ela virarmos a sua poderosa máquina hermenêutica, o que nos resta?

20/11/09

Ficções e exorcismos


Há um momento (61 b), logo no início do diálogo Fédon, de Platão, que Sócrates diz «que o poeta, para ser verdadeiramente poeta, deve criar ficções e não argumentos». Subentende-se que sendo ele filósofo criaria argumentos. Há nesta clivagem entre a produção de argumentos e a de ficções um equívoco que persiste há demasiados séculos. Os argumentos não passam de ficções, as ficções que os filósofos foram utilizando ao longo da história da filosofia. A filosofia faz parte da história da literatura e não passa de um longo e sofisticado exercício de retórica. Por vezes estamos perante boa literatura, outras perante algo insuportavelmente insípido. Platão acusava os poetas de serem mentirosos ao produzirem ficções. A verdade é que Platão dissimulava, mentia, enganava. Fazia-o genialmente, como Nietzsche, ou Hegel, ou qualquer filósofo que valha a pena ler. Quanto mais mente e ficcionaliza um filósofo, mais vale a pena ser lido (os outros, nem de mentir são capazes). Platão não enganava quando ficcionalizava o mundo inteligível, ou construía mitos, mas quando pretendia que os argumentos demonstravam o quer que fosse. Como é que a pobre razão humana tem a pretensão de que uma cadeia lógica entre teses e argumentos justifique alguma coisa? Devemos então deixar de argumentar? Não, por uma questão estética e de coexistência pacífica. É menos desagradável argumentar do que matar-nos uns aos outros, mas só isso. Para além da argumentação está a vida com a sua exuberância, o seu mistério, o seu carácter absolutamente insondável. Perante esse buraco negro, as pretensões da argumentação são um exercício absurdo de cobardia. O medo da escuridão leva-nos a exorcizá-la, a argumentação é a reza e o esconjuro usados.

19/11/09

Não nos deixemos iludir



É preciso não se deixar iludir. Esta vã presunção não deixa, no entanto, de ser verosímil. Não nos devemos deixar iludir por quem? Em primeiro e em último lugar, por nós, por aquilo que constitui a nossa opinião, pelas verdades que transportamos, pela potência do nosso argumentário, pelos preconceitos que apresentamos ao mundo como boas causas. Todas as nossas boas causas são falsas. Os homens passam a vida a alertar para as ilusões e os enganos que os outros disseminam na terra e na cabeça da gente boa. Importante, porém, é que se abandone esse proselitismo negativo, essa pregação invertida, esse sermonário sempre disponível para a conversão dos outros. Não nos deixemos iludir por aquilo que queremos vender a nós próprios. Há que rir de si mesmo, olhar de esguelha e desatar a gargalhar com as nossas pretensões, com a erudição que possuímos, com o bem gosto que ostentamos. E não devemos rir de nós como caminho para um eu mais autêntico. A autenticidade é uma nova forma de falsificação. A autenticidade é a mistificação de psicólogos castrados. Devemos rir de nós mesmos apenas por um motivo: somos absoluta e incuravelmente ridículos, irrisórios, risíveis. Não há escárnio e maldizer suficientes para nos caracterizarmos.

17/11/09

A visão dos outros


Aprende-se sempre com o resultado da visão dos outros sobre nós. Geralmente, essa visão recata-se na intimidade da consciência, dissimula-se, é generosa connosco ao silenciar o pensamento. As regras de urbanidade poupam alguns desgostos ao nosso precário narcisismo. Mas esse olhar estranho torna-se instrutivo quando é obrigado, pelas circunstâncias sociais ou institucionais, a objectivar-se. Objectivar-se aqui não significa tornar-se objectivo, mas simplesmente ter de se manifestar objectivamente, o que é inteiramente diferente. Nesse momento, temos a revelação de como os outros, por este ou aquele motivo, nos vêem. E isso é sempre instrutivo. Instrui-nos sobre nós e sobre os outros que nos olham. O que, porém, me tem dado mais motivo de reflexão, a partir da experiência própria, é que esse olhar sobre nós vindo dos outros muda muito em conformidade com o lugar onde nos situamos. Por lugar, refiro-me ao lugar geográfico e não a um outro tipo de espaço, seja social ou mental. Sou mais atreito à benevolência dos outros em certos lugares, enquanto outros lugares me são mais claramente adversos. É como se existisse para mim, talvez para todos nós, uma geografia onde se combinam espaços fastos e nefastos, espaços onde se é amado sem fazer nada por isso, e espaços onde se é não propriamente odiado, mas olhado de lado e com mal disfarçada desconfiança, embora também nada se tenha feito para isso. É evidente que estes espaços geograficamente fastos ou nefastos acabam por ter uma correspondência social e mental. Nunca se compreende perfeitamente aquele aviso que na adolescência os pais fazem para que não se frequentem certos sítios nem certas pessoas. Pensamos que é um conselho localizado no espaço e no tempo, mas não é. Prolonga-se vida fora. Muitos dos nossos problemas nascem de nos termos deixado arrastar, talvez por complacência para connosco e para com os outros, para espaços que não são os nossos e frequentar pessoas que não nos convêm. Elas, as pessoas que não nos convêm, sempre que tiverem oportunidade não deixarão de assinalar a nossa inconveniência.

06/11/09

O fim da infância



Há dias disseram-me que a casa onde nasci tinha sido demolida. Em sua substituição está, um pouco atrás, a ser construída uma outra. Apossou-se de mim uma sensação de vazio, como se só agora me tivesse realmente separado dela. Não sei que relação as pessoas têm com as casas onde nasceram, mas eu tinha uma relação muito forte, embora a casa já não estivesse na posse da família há cerca de 30 anos. Foi ali que vi o mundo, que descobri a luz, que sujei as mãos na terra, que vi a erva pela primeira vez. Foi lá que descobri o céu e os astros. Foi lá que o meu pai fez o meu primeiro presépio, com um céu azul e estrelas e um Menino nas palhas. Foi lá que vi os primeiros animais, foi lá que vi a minha avó chegar uma e outra vez, com os cabelos que para mim sempre foram brancos. Foi lá que escutei os meus tios-avós, os donos primitivos da casa, de quem ainda guardo uma grata recordação. Foi lá que ouvi a voz da minha mãe e que vi as suas flores, e escutei as suas orações. Foi lá que descobri a água dos poços e os frutos da terra. A demolição dessa casa, já irreal, representa a expulsão definitiva do paraíso e a sentença de um retorno impossível, mesmo que ele fosse ilusório e nunca verdadeiramente desejado. Talvez a minha infância tenha agora acabado de acabar. Não tenho casa onde voltar.

04/11/09

Sob suspeita



É preciso ir mais longe. Isto significa o quê? Significa apenas que devemos desconfiar mais e melhor. Num tempo como o nosso, a suspeita deve recair sobre tudo e sobre todos. Em primeiro lugar, devemo-nos colocar a nós mesmos sob suspeita. Devemos suspeitar dos nossos actos, dos nossos pensamentos, dos nossos gestos, das nossas crenças, das nossas visões. Mas esta suspeita que fazemos recair sobre nós deve ser universalizada. A corrupção do carácter, para usar o belo título de um livro de Sennett, é universal, tão universal que já ninguém dá por essa corrupção. Aprendemos a viver segundo as regras dos corruptores e hoje pensa-se que elas são não apenas a lei jurídica como a lei moral. O carácter corrompido tornou-se inocência, mas esta não é ausência do mal, mas o desconhecimento da maldade do próprio mal.

03/11/09

O apagamento da figura humana



Hoje reparei numa coisa que estava a escapar-me. Desde que comecei, aqui no blogue, a publicar poesia feita em cima de quadros, a exibição da figura humana, nesses quadros, foi-se tornando cada vez mais rara. Há séries onde ela é constante, mas nas úlimas séries,  actual incluída, são cada vez menos os quadros onde se vislumbra um ser humano. Não quer dizer que os não haja. A primeira série deste género que publiquei, uma série feita sobre - em cima de - quadros de Gustav Klimt, tinha um certo equilíbrio entre quadros onde a figura humana estava presente e outros onde ela estava ausente. Vista daqui parece o prenúncio de uma certa esquizoidia, entendida esta na sua raiz grega, que remete para uma cisão, uma fenda que se abre na forma das coisas, neste caso da realidade humana.

Esta evolução, provavelmente passível de reversão, não representa um acréscimo de misantropia, nem um culto tardio dos deuses silvestres, nem uma patologia específica, espero. Por vezes, a humanidade cansa-nos, ou cansamo-nos de nós próprios, o que vai dar ao mesmo. Isso seria uma boa razão para o seu esquecimento. Um olhar enviesado sobre o homem, por outro lado, pode ser mais penetrante, poeticamente falando, do que um olhar directo. Ao ir apagando a figura humana, deixo pairar perante o olhar as suas obras, a aldeia que fez nascer, a paisagem que deixou subsistir, a casa que construiu, a ponte que ergueu entre duas margens. Estas obras humanas transfiguradas pela arte acabam por tornar o Homem, apesar de tudo, mais aceitável. São uma ilusão, mas são aquela ilusão que permite não desesperar completamente da humanidade. Esquecer os homens nas suas obras, naquelas sobre as quais a arte fez cair o véu da ilusão, poderá ser a condição necessária para os aceitar.

19/10/09

Convicções



O meu problema não é a ausência de convicções. Eu tenho múltiplas e diferenciadas convicções, arrasto-as comigo, durmo com elas, passeio-as pela rua, chego a jantar com elas. O meu problema é diferente. Reside no simples facto de não acreditar em nenhuma das minhas convicções. Mas isso não é o pior. O pior é que eu não acredito mesmo em poder acreditar nessas convicções. Há um livro de Paul Ricoeur que me fascina desde que saiu, em 1995. Resultou de longas conversas com François Azouvi e Marc De Launay. O que me fascina não é o seu conteúdo, mas o título e aquilo que ele pressupõe. O livro chama-se A Crítica e a Convicção. O pressuposto é que o exercício crítico da Filosofia acaba por depurar as convicções, tornando o convicto mais convicto das suas convicções. O meu fascínio reside no simples facto de nenhuma convicção que eu possa ter resiste ao exercício da crítica. A crítica dissolve todas as convicções, todas as crenças, tudo aquilo que tomamos por verdadeiro. Por isso protesto pela dissolução niilista da verdade, protesto contra o relativismo. Mas não creio sequer no meu protesto, não passa de um gesto inútil.

11/10/09

Do exercício da arrogância



É preciso uma dose de arrogância enorme para alguém se candidatar a um cargo público com a suposição de ser capaz de resolver os problemas da comunidade ou dos outros. A candidatura, toda a candidatura, é um exercício paranóico de arrogância. Não basta a mera auto-estima, a confiança em si. Todo o poder, sem excepção, se funda na arrogância, exprime-se através da altivez e da sobranceria, por vezes, se conveniente, através do desprezo. Aquele que luta pela conquista ou manutenção do poder não é apenas audaz, é presunçoso e, muitas vezes ou sempre, insolente. A verdadeira virtude política não passa de um repositório de qualidades para a prática do mal. Não por acaso, o poder é o lugar do mal e o poder absoluto o do mal absoluto.

Pior, porém, do que o homem de acção é aquele que escreve sobre o devir do mundo e aquilo que deve ser esse mundo e a acção dos homens nele. Se a arrogância do político é, invariavelmente, enorme, a do intelectual – do universitário ao mero escrevinhador de blogues ou de crónicas de jornal – é sem medida. Que pretensão é aquela que habita a vontade de alguém para ter a veleidade de querer dizer como é a realidade? Que pretensão é a que reside num mero ser humano, limitado às suas faculdades de animal racional, para proclamar o que deve ser? Para esse devaneio irracional, para esse supino exercício de arrogância, foi aplicado, com propriedade, o termo estultícia. Mas esta não é apenas o sintoma de uma imbecilidade, mas o sinal de uma loucura que larva no coração de alguém.

Na verdade, se aqueles que lutam pelo poder deveriam estar todos no presídio, o lugar dos intelectuais deveria ser o hospício. São todos, de uma maneira ou de outra, incuráveis e irrecuperáveis.

30/09/09

Demonstrativos

Quando escrevo poesia dou comigo a encher o poema de demonstrativos. Este, esse, aquele, contracções entre a preposição de e os demonstrativos, etc. É como se um impulso vindo do inconsciente, daquilo que há mais fundo em mim, quisesse falar e mostrar o que sou. Um falso poeta, onde a voz da filosofia, ou da dogmática filosófica, vem sempre ao de cima, como se um verso pudesse ser a conclusão de um silogismo. Esta voz da demonstração é uma voz da razão imperativa, tão imperativa e tão determinante que, mesmo no delíquio do metaforizar, encontra caminho para se fazer ouvir. Ou talvez seja ainda pior, o resto de um velho instinto, enfraquecido pelo torpor, para ordenar o mundo, um instinto político. Acabado o poema, fico sempre com o trabalho de exterminar os demonstrativos, como se disfarçasse os instintos mais arcaicos e reprováveis.

20/09/09

Irrelevância

Eu sei que foi uma infeliz conjugação de acasos e de boas vontades de amigos de há muitos anos, talvez nem tão boas quanto isso, de me inserir num círculo mais amplo de debate filosófico que me levaram a isto. Estou, devido a um compromisso assim arranjado, a escrever um artigo sobre o Protágoras, de Platão. Melhor, estou a escrever o artigo a partir dele, do mito que o sofista narra para justificar que a excelência política (aretē) pode e dever ser ensinada. A única coisa que eu constatei até agora, depois de ter o artigo esboçado e de o estar a redigir na forma final, é a irrelevância das minhas ideias sobre o assunto que me propus escrever. A única coisa para que servirá o artigo é para aumentar o lixo publicado. Não fora tão complacente, teria dito não. Não à participação no projecto (cheguei a dar uma aula na Faculdade de Ciências sobre o assunto), não à escrita do artigo, não à contribuição para o aumento da poluição cognitiva que infesta este malfadado planeta. Tão irrelevante como este artigo é aquilo que escrevo por aqui. A única coisa que, neste caso, não me condena em absoluto é que o que escrevo no blogue não é publicado em papel. Não contribuo para desflorestação do planeta. Valha-me isso.

17/09/09

A complacência

A complacência com os outros ou a mais completa indisponibilidade para a sua compreensão têm uma origem comum, a auto-complacência. Mas a auto-complacência não deve ser entendida como benevolência ou benignidade perante si mesmo. Todos temos o dever de ser benévolos e benignos connosco, mas não complacentes. A auto-complacência deve ser entendida como uma condescendência consigo, num suportar com indiferença o que em si deveria ser insuportável. Foi através dela que me descobri radicalmente português. Isso não significa uma legitimação da minha auto-complacência, apenas me integra numa comunidade de atitude, apenas me dá uma família de gesto. A indiferença com que suporto o que em mim deveria ser insuportável dissolve o padrão que me leva a considerar insuportável certas coisas. A indiferença é uma estratégia de dissolução do elevado e da produção de condescendência com o que não merece benevolência. A indiferença produz a remitência do irremissível. Sempre fiquei seduzido por uma das ideias centrais da ética kantiana, nomeadamente na Fundamentação da Metafísica dos Costumes. A ideia da natureza irremitente da razão. Temos o dever de não condescender connosco, o dever exige, sem remissão possível, a nossa absoluta submissão. O meu fascínio nasce precisamente da minha natureza inclinada à remitência de mim mesmo. Por isso sou com os outros, o mais das vezes, completamente complacente e, ao mesmo tempo, completamente indisponível.

16/09/09

A imaginação pura

Um artista tem uma imaginação prática. Ela impele-o para a realização, para a transformação da matéria em novos objectos, singulares e irrepetíveis, se ele é efectivamente artista. A imaginação prática do artista é um imaginação produtora, demiúrgica. Eu também sou um ser de imaginação, mas a minha não é prática. Ela é um nevoeiro onde fico retido. Nada nela me impele a agir, a transformar, a tornar concreto. Sofro de imaginação pura, de uma imaginação que odeia o concreto e o concretizar-se. Uma imaginação pura é uma imaginação sonâmbula. Sofrer de sonambulismo é um destino tão nobre como outro qualquer, como o de ser artista, por exemplo. Desde sempre me lembro de sofrer de uma imaginação assim, sonâmbula, de uma imaginação que armadilha o corpo, que rompe os laços com o real, que destrói, uma a uma, as fibras da vontade. Por vezes finjo que sou um ser da razão, mas isso é apenas um penoso exercício exterior, uma máscara social, o mínimo que me permite pagar as contas. Para além disso, há apenas um nevoeiro de imagens sortidas, de coisas que vão e que vêm, de um fascínio que me prende na quietude dos dias. Talvez exista, ou tenha existido, algum povo assim. Esse seria o meu povo. [16 de Setembro de 2009]

15/09/09

O futuro

A condição histórica é a natureza do homem fora do estado paradisíaco. Submetido ao tempo, o homem soçobra sob o jugo terrível do império do futuro. Este sempre foi visto como uma ameaça, o cumprimento de uma sentença de condenação à morte, inapelável. A modernidade, porém, subverte esta experiência arcaica e faz do futuro um lugar radioso, o sítio onde se cumprem todas as expectativas. Assim se percebe, por exemplo, a natureza do homem revolucionário, e eu já fui um revolucionário, embora diletante e falhado. Quer destruir o presente – toda a ordem da presença é abominável – para que o futuro se realize. Por isso, deixa atrás de si um rasto interminável de sangue. O futuro nunca deixou de ser o lugar da morte. [15 de Setembro de 2009]