28/01/10
Exercícios penitenciais
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22/01/10
Investigação
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01/01/10
Faltam os Reis, mas...
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18/12/09
Sem-abrigo
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09/12/09
Uma estranha pátria
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21/11/09
Suspeita
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20/11/09
Ficções e exorcismos
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19/11/09
Não nos deixemos iludir
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17/11/09
A visão dos outros
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06/11/09
O fim da infância
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04/11/09
Sob suspeita
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03/11/09
O apagamento da figura humana
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19/10/09
Convicções
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11/10/09
Do exercício da arrogância
Na verdade, se aqueles que lutam pelo poder deveriam estar todos no presídio, o lugar dos intelectuais deveria ser o hospício. São todos, de uma maneira ou de outra, incuráveis e irrecuperáveis.
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30/09/09
Demonstrativos
Quando escrevo poesia dou comigo a encher o poema de demonstrativos. Este, esse, aquele, contracções entre a preposição de e os demonstrativos, etc. É como se um impulso vindo do inconsciente, daquilo que há mais fundo em mim, quisesse falar e mostrar o que sou. Um falso poeta, onde a voz da filosofia, ou da dogmática filosófica, vem sempre ao de cima, como se um verso pudesse ser a conclusão de um silogismo. Esta voz da demonstração é uma voz da razão imperativa, tão imperativa e tão determinante que, mesmo no delíquio do metaforizar, encontra caminho para se fazer ouvir. Ou talvez seja ainda pior, o resto de um velho instinto, enfraquecido pelo torpor, para ordenar o mundo, um instinto político. Acabado o poema, fico sempre com o trabalho de exterminar os demonstrativos, como se disfarçasse os instintos mais arcaicos e reprováveis.
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20/09/09
Irrelevância
Eu sei que foi uma infeliz conjugação de acasos e de boas vontades de amigos de há muitos anos, talvez nem tão boas quanto isso, de me inserir num círculo mais amplo de debate filosófico que me levaram a isto. Estou, devido a um compromisso assim arranjado, a escrever um artigo sobre o Protágoras, de Platão. Melhor, estou a escrever o artigo a partir dele, do mito que o sofista narra para justificar que a excelência política (aretē) pode e dever ser ensinada. A única coisa que eu constatei até agora, depois de ter o artigo esboçado e de o estar a redigir na forma final, é a irrelevância das minhas ideias sobre o assunto que me propus escrever. A única coisa para que servirá o artigo é para aumentar o lixo publicado. Não fora tão complacente, teria dito não. Não à participação no projecto (cheguei a dar uma aula na Faculdade de Ciências sobre o assunto), não à escrita do artigo, não à contribuição para o aumento da poluição cognitiva que infesta este malfadado planeta. Tão irrelevante como este artigo é aquilo que escrevo por aqui. A única coisa que, neste caso, não me condena em absoluto é que o que escrevo no blogue não é publicado em papel. Não contribuo para desflorestação do planeta. Valha-me isso.
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17/09/09
A complacência
A complacência com os outros ou a mais completa indisponibilidade para a sua compreensão têm uma origem comum, a auto-complacência. Mas a auto-complacência não deve ser entendida como benevolência ou benignidade perante si mesmo. Todos temos o dever de ser benévolos e benignos connosco, mas não complacentes. A auto-complacência deve ser entendida como uma condescendência consigo, num suportar com indiferença o que em si deveria ser insuportável. Foi através dela que me descobri radicalmente português. Isso não significa uma legitimação da minha auto-complacência, apenas me integra numa comunidade de atitude, apenas me dá uma família de gesto. A indiferença com que suporto o que em mim deveria ser insuportável dissolve o padrão que me leva a considerar insuportável certas coisas. A indiferença é uma estratégia de dissolução do elevado e da produção de condescendência com o que não merece benevolência. A indiferença produz a remitência do irremissível. Sempre fiquei seduzido por uma das ideias centrais da ética kantiana, nomeadamente na Fundamentação da Metafísica dos Costumes. A ideia da natureza irremitente da razão. Temos o dever de não condescender connosco, o dever exige, sem remissão possível, a nossa absoluta submissão. O meu fascínio nasce precisamente da minha natureza inclinada à remitência de mim mesmo. Por isso sou com os outros, o mais das vezes, completamente complacente e, ao mesmo tempo, completamente indisponível.
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16/09/09
A imaginação pura
Um artista tem uma imaginação prática. Ela impele-o para a realização, para a transformação da matéria em novos objectos, singulares e irrepetíveis, se ele é efectivamente artista. A imaginação prática do artista é um imaginação produtora, demiúrgica. Eu também sou um ser de imaginação, mas a minha não é prática. Ela é um nevoeiro onde fico retido. Nada nela me impele a agir, a transformar, a tornar concreto. Sofro de imaginação pura, de uma imaginação que odeia o concreto e o concretizar-se. Uma imaginação pura é uma imaginação sonâmbula. Sofrer de sonambulismo é um destino tão nobre como outro qualquer, como o de ser artista, por exemplo. Desde sempre me lembro de sofrer de uma imaginação assim, sonâmbula, de uma imaginação que armadilha o corpo, que rompe os laços com o real, que destrói, uma a uma, as fibras da vontade. Por vezes finjo que sou um ser da razão, mas isso é apenas um penoso exercício exterior, uma máscara social, o mínimo que me permite pagar as contas. Para além disso, há apenas um nevoeiro de imagens sortidas, de coisas que vão e que vêm, de um fascínio que me prende na quietude dos dias. Talvez exista, ou tenha existido, algum povo assim. Esse seria o meu povo. [16 de Setembro de 2009]
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15/09/09
O futuro
A condição histórica é a natureza do homem fora do estado paradisíaco. Submetido ao tempo, o homem soçobra sob o jugo terrível do império do futuro. Este sempre foi visto como uma ameaça, o cumprimento de uma sentença de condenação à morte, inapelável. A modernidade, porém, subverte esta experiência arcaica e faz do futuro um lugar radioso, o sítio onde se cumprem todas as expectativas. Assim se percebe, por exemplo, a natureza do homem revolucionário, e eu já fui um revolucionário, embora diletante e falhado. Quer destruir o presente – toda a ordem da presença é abominável – para que o futuro se realize. Por isso, deixa atrás de si um rasto interminável de sangue. O futuro nunca deixou de ser o lugar da morte. [15 de Setembro de 2009]
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